Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A poesia de Manoel de Andrade e seus laços com a América Latina

Cultura

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Vermelho - 21 de Agosto de 2009 - 11h21

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Hoje gerente de uma empresa da área médica, o poeta brasileiro Manoel de Andrade se destacou nos anos 70 pelos versos nos quais expressava o sentimento do homem latino-americano no livro Poemas para a Liberdade, reeditado recentemente em edição bilíngue no Brasil (Escrituras Editora). Sua forte ligação com a América Latina começou no final dos anos 1960, quando saiu do Brasil devido à perseguição política pela luta estudantil contra a ditadura e, especificamente, por um poema que escreveu em homenagem a Che Guevara.

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Por Julio Daio Borges, no Opera Mundi

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Manuel de Andrade - poeta

Manoel de Andrade, um brasileiro que escreve para toda a América Latina

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Na viagem, percorreu 15 países latino-americanos, onde viveu, segundo ele, sua universidade poética, apesar de ter sido preso e expulso de alguns deles. Em cada cidade, aproveitava o tempo para estudar, aprender o idioma espanhol e ler grandes escritores.

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Os frutos da empreitada resultaram em reconhecimento internacional, com o livro Poemas para la Libertad publicado na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México.

De volta ao Brasil, em 1972, não exerceu mais sua vocação e só voltou à poesia mais de 30 anos depois, com a publicação do livro Cantares, em 2007. Leia abaixo a entrevista:

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Qual foi o impulso para reeditar Poemas para a Liberdade (1970) hoje?

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Primeiramente pela grata recepção que teve meu livro Cantares, lançado em 2007. E, depois, pela memória de 1968, relembrando as bandeiras da luta estudantil empunhadas por minha geração. Recordar toda nossa corajosa resistência, como porta-vozes da sociedade contra o regime militar, me fez relembrar também meus anos de luta pela América Latina, onde minha trincheira e meu fuzil foram os meus Poemas para la Libertad, finalmente editados no Brasil.

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Você é um dos únicos casos que conheço de poeta brasileiro que escreveu para a América Latina inteira (e obteve êxito) – como aconteceu essa sua ligação tão forte com o idioma de Cervantes?

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A ligação antiga foi a leitura dos clássicos espanhóis na juventude e a imediata foi a convivência diária com o idioma castelhano em meu imenso caminhar. Ao longo dos 15 países que percorri, tinha o hábito de reservar as primeiras semanas para ler, nas melhores bibliotecas, sua história política e literária e seus principais poetas e prosadores. Aprendi muito rápido: lendo muito, falando e escrevendo.

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Sua saída do Brasil está relacionada a um poema seu em homenagem a Che Guevara. Quando ele morreu, era tão perigoso assim homenageá-lo no Brasil?

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Quando ele morreu, em 8 em outubro de 1967, ainda não existia o AI-5 [Ato Institucional nº5]. Saudação A Che Guevara foi escrito para comemorar o primeiro ano de sua morte. O poema colocava, liricamente, a sua imagem de comandante no centro dos movimentos revolucionários do continente, convocava a luta armada e saudava a sua imortalidade como uma consigna triunfante na conquista de um mundo novo.

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Quatro mil cópias foram panfletadas até o início de dezembro, quando a nação já respirava uma atmosfera carregada pelo pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. No dia 13 de dezembro, a edição do AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia.

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Em março, o DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] já tinha em mãos cópias do meu poema, e a caça às bruxas já havia começado no país inteiro. Eu já estava sendo procurado nos recintos universitários, e os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis, e alguns começaram a sumir. Nesse perigoso contexto, eu saí do Brasil.

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Como foi percorrer 15 países por conta da sua obra, que foi, finalmente, editada em livro na Bolívia em 1970? Hoje seria possível algum poeta brasileiro experimentar uma acolhida remotamente parecida?

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A América Latina foi minha grande universidade. Com meus versos na garganta, muitos percalços e alegrias pelos caminhos, preso e expulso de alguns países, mas avançando sempre rumo ao norte, meus poemas atravessaram o continente, cruzaram o Rio Bravo e foram cantar a justiça e a liberdade nas próprias entranhas do “monstro” imperialista.

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Ecoaram na Califórnia de 40 anos atrás, para dizer da saga revolucionária latino-americana aos nossos irmãos chicanos, cuja latinidade, maculada pelo esbulho da própria pátria mexicana, buscava forças em suas raízes para lutar contra a discriminação, as humilhações e as injustiças após 150 anos de genocídio cultural, com a anexação, em 1848, do Novo México, Arizona, Califórnia, Utah, Nevada e Colorado ao território estadunidense.

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Por outro lado, não creio que hoje se possa experimentar uma acolhida tão solidária como aquela fraternidade ideológica que envolveu a América Latina nos anos 70. A Revolução Cubana acendeu uma fogueira que iluminou a tantos e nos sulcos das suas trincheiras muitos nos alinhamos, segurando o mesmo estandarte.

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O mundo mudou e hoje eu não cantaria mais a mudança do mundo com as armas na mão. O muro de Berlim se despedaçou sobre nossos sonhos. A Rússia centralizou sua “democracia” e a China negociou o socialismo com o “Capitalismo de Estado”. É triste dizer que, hoje, não temos mais uma utopia.

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Mas a consagração, aqui, só veio em 1980, graças a Moacyr Félix e Wilson Martins... Como foi esse reconhecimento tardio?

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Na verdade esse foi um reconhecimento solitário e prematuro. Meu primeiro livro publicado no Brasil foi Cantares, em 2007. Meu nome começou a surgir no cenário poético paranaense em 1965, quando minha poesia foi premiada num concurso literário, e por minha participação na Noite da Poesia Paranaense no Teatro Guaíra, onde lancei, solitariamente, minhas primeiras farpas contra a ditadura.

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O destaque para minha poesia chegou, em fins de 1968, pelas amplas portas que o jornalista Aroldo Murá abriu no “Diário do Paraná” e pela minha longa “Canção para os homens sem face”, publicada em dezembro daquele ano na Revista Civilização Brasileira, onde pontificava a elite intelectual de esquerda brasileira e mundial. Mas em março de 1969 deixei o país e me coloquei no olho do imenso furacão ideológico que agitou o continente.

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Minha poesia amadureceu nesse embate e frutificou nas edições de meu livro na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México. Quadros, cartazes, revistas, jornais, panfletos, recitais, palestras e debates foram os caminhos por onde transitaram os meus versos, partilhando também páginas de antologias com Mario Benedetti, Juan Guelmann e Jaime Sabines entre outros. Mas tudo isso fora do Brasil.

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Apesar de você já ser uma promessa, nos anos 60, ao lado de Paulo Leminski e Dalton Trevisan, se ressente de não ser considerado, pela crítica especializada, tão importante quanto eles?

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E nem poderia sê-lo. Voltei a ocupar esse espaço há dois anos, depois de 40 anos de ausência. Os que se lembram do poeta que fui têm hoje mais de 50 anos. Eu era uma promessa? Talvez literariamente realmente fosse. Mas esse tipo de importância nunca o foi para mim. Encaro o significado da vida numa dimensão muito maior que a literária. Quanto à crítica especializada de hoje, não crio expectativas em relação ao reconhecimento da minha poesia.

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Meu livro Poemas para a Liberdade não é apenas mais um livro no mercado editorial, mas um documento histórico e político. Sua verdadeira importância está na expressão literária de um sonho que transcendeu as fronteiras do espaço e do tempo, e a crítica atual, com raras exceções, despreza a ideologia.

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Meu respeito pelas palavras, a reverência do meu estilo e a clareza cartesiana com que escrevo meus versos não fazem concessões ao mero intelectualismo e aos paradigmas da pós-modernidade.

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A crítica que me gratifica são os comentários sinceros que fazem na Internet aos meus poemas. Como me gratifica ver este meu livro citado publicamente por um grande escritor como Domingos Pellegrini, com dois Jabutis nas costas, e que, em mensagem a mim enviada, relembra a mesma bandeira que desfraldamos no passado e confessa que meus Poemas para a Liberdade lavaram sua alma.

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E o que andou fazendo de 1980 pra cá?

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Voltei em meados de 1972, quando o país passava pela sua mais aguda fase de repressão. Era a época da Guerrilha do Araguaia e quando a Anistia Internacional revela ao mundo o nome de centenas de torturadores e de milhares de torturados no Brasil. Depois de alguns meses, os agentes do DOPS já estavam à minha procura. Transferi minha [carteira da] OAB para Santa Catarina, na esperança de advogar em meu estado. Também lá não foi possível assumir publicamente qualquer trabalho.

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Neste anonimato voltei para Curitiba e fui vender a Enciclopédia Delta Larousse. Era uma forma itinerante de trabalhar pelo interior sem que os agentes do DOPS me localizassem. Profissionalizei-me rapidamente, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos nacionais e tive um grande sucesso financeiro.

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Em 1987, já na abertura democrática, ingressei na área gerencial de uma empresa de medicina de grupo onde estou até hoje. Durante todo este período, embora não tenha escrito poesia, fui sempre um leitor insaciável e sempre envolvido com o voluntariado.

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Foi difícil retomar o caminho da poesia em Cantares (2007)?

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O caminho pelo qual retornei à poesia deu-se de forma intrigante em termos de inspiração poética: em setembro de 2002, durante a campanha eleitoral para governador no Paraná, meu velho amigo Roberto Requião foi covardemente atacado, na mídia, com uma série de infâmias e inverdades pelos seus inimigos políticos.

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Indignado com tanta mentira, comecei a rabiscar um poema relembrando sua coragem, depois do golpe de 1964, quando partilhamos sua afiada oratória e minha poesia nos protestos estudantis contra a ditadura. Relembrei, sobretudo, seu gesto solidário quando, em março de 1969, me ajudou a sair do país, num dos momentos mais difíceis da minha vida. Este poema chama-se Tributo e consta do livro Cantares, e foi com este poema que voltei a escrever poesia depois de 30 anos.

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E aquele sonho, dos anos 60, acabou mesmo – como disse John Lennon?

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O sonho tem a dimensão que lhe queremos dar e sempre acreditei que o DNA dos poetas é feito de sonhos. Embora aquele sonho dos anos 60 tenha acabado, nos restou a indignação por termos que arriar tantas bandeiras. E essa indignação, que caracteriza toda a humanidade contemporânea, é a nova tese no misterioso processo dialético da própria vida que se renova, sobrepondo-se a todos os reveses. Em algum lugar sempre haverá alguém sonhando, ou nascendo para sonhar com um mundo novo, assim como Colombo um dia sonhou com o Novo Mundo.

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*Julio Daio Borges é editor do DigestivoCultural.com

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Fonte: Opera Mundi

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