Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A morte do Jornal do Brasil - Julio Daio Borges

DIGESTIVOS >>> Notas >>> Imprensa

Quinta-feira, 29/7/2010
A morte do Jornal do Brasil





Digestivo nº 467 >>> Foi a Piauí que, fazendo piada, primeiro localizou o “último assinante” do JB. Mas, desde o dia 13 de julho, é oficial. Nelson Tanure – que já havia matado a Gazeta Mercantil em junho de 2009 – anunciou que o Jornal do Brasil “deixará de circular em papel” (em 2010). “Deixar de circular” se tornou um eufemismo para sinalizar que um jornal deixou de existir fisicamente. Morreu. Tanure também anunciou que o JB “continua na internet”, mas isso nem sempre diz muita coisa. Afinal, a Gazeta igualmente “sobreviveria” dentro do portal InvestNews – uma hipótese levantada na ocasião de sua morte –, mas até agora... (nada de ressuscitar). A Gazeta Esportiva aventurou-se com sucesso pela internet e a Tribuna da Imprensa é mantida, em formato de blog, por Hélio Fernandes. Enfim, o que é melhor: morrer dignamente, sem espasmos, ou arriscar-se entre um portal e um blogspot? O mais surpreendente, contudo, não foi nem a morte de mais um jornal (algo que já vinha sendo previsto desde a década passada) – mas, sim, as reações coligidas pelo Blog do Noblat. Na redação do mesmo JB, por exemplo, diz-se que “o clima foi de tristeza e nervosismo”. Enquanto o Sindicato dos Jornalistas quer “discutir o futuro dos empregados”. A redação e os sindicatos que nos perdoem, mas alguém que trabalha em jornal de papel, em pleno século XXI, ainda achar que deve ter “emprego garantido”, além de ser jornalista desinformado, deveria merecer demissão por justa causa. Já a Associação Nacional de Jornais apontou, como causa mortis do JB, “equívocos empresariais”. “Equívoco empresarial”, se houve, foi Nelson Tanure ter adquirido a Gazeta Mercantil, que encerrou suas atividades com 200 milhões em dívidas trabalhistas, e o Jornal do Brasil, que fecha suas portas com dívidas estimadas em 100 milhões de reais. Enquanto os “homens de visão” como esse continuarem adquirindo, lançando ou inventando coisas como “jornais do futuro”, outros “equívocos”, como esse, terão lugar. Afinal de contas, quando será que os jornalistas vão enxergar que o problema está, justamente, nos jornais
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Enviado por Ricardo Noblat -
13.7.2010
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9h15m

Deu em O Globo

JB: apenas versão na Internet

Tanure diz que ‘decisão de acabar com o papel está sendo tomada esta semana’
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O "Jornal do Brasil", um dos mais antigos do país — que teve a sua primeira edição impressa em 1891 —, vai deixar de circular.
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A data para o fim da versão em papel será decidida entre amanhã e quinta-feira, disse ontem o empresário Nelson Tanure, dono da marca.
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Com dívidas estimadas em R$ 100 milhões e vendo a circulação despencar, Tanure tentou encontrar um comprador para o jornal. Sem sucesso na sua empreitada, decidiu manter o jornal só na internet.
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— A decisão de acabar com o papel está sendo tomada esta semana. Teremos uma decisão na quarta-feira ou na quinta-feira. Provavelmente, seremos o primeiro jornal a estar apenas na internet. É algo que está acontecendo no mundo todo — disse Nelson Tanure.
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Ontem, Tanure confirmou a saída de Pedro Grossi, que ocupava a presidência do "JB" há apenas quatro meses: — Eu demiti o Pedro Grossi porque ele era a favor de continuar no papel — disse.
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Em carta a editores e diretores do "JB", e reproduzida no site "Janela Publicitária", Grossi diz que "Em almoço realizado hoje (ontem), na presença do Dr. Ronaldo Carvalho e da Dra. Angela Moreira, o Dr. Nelson Tanure informou que publicará na edição de amanhã (hoje) do Jornal do Brasil (JB) uma notificação assinada pela direção da empresa e dirigida aos leitores na qual explica a transposição do jornal escrito para o tecnológico.Considerando que isto contraria a razão pela qual fui contratado, solicito, sem perda de meus direitos, que o expediente do jornal e de todas as revistas não conste mais meu nome".
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Procurado pelo GLOBO, Grossi, no entanto, diz que só deixará o cargo de diretor-presidente do "JB" assim que a empresa anunciar o fim da publicação impressa.
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— Enquanto tiver jornal impresso, eu continuo presidente. Quando for comunicada a transposição do papel para a internet, eu estou fora. Não fui contratado para isso — afirmou Grossi.
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Segundo a sua assessoria de imprensa, o "Jornal do Brasil" conta com 180 funcionários, sendo 60 jornalistas, que trabalham na redação. O "JB" tem hoje tiragem de 17 mil exemplares nos dias de semana e de 22 mil aos domingos.
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Na redação do jornal, o clima é de tristeza e nervosismo. Ontem, dois funcionários passaram mal e voltaram para casa.
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Até agora só foram depositados R$ 800 na conta dos empregados referentes ao mês trabalhado em junho. Ainda não houve comunicado formal sobre o destino do jornal.
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O diário é editado na Casa Brasil e em seu prédio anexo, no Rio Comprido. Segundo funcionários, a Casa Brasil, onde ficavam os executivos da empresa, será devolvida.
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A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Suzana Blass, disse que pedirá audiência com Tanure para discutir o futuro dos empregados: — Queremos garantir uma empregabilidade mínima e o pagamentos da rescisão.
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Diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, lamentou o fim da versão impressa do "JB", mas fez questão de frisar que este é um caso isolado e que aposta no crescimento da circulação dos jornais no país este ano:
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— É lamentável que o JB termine. Foi um processo de equívocos empresariais que resultaram em decadência editorial.
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Em 2009, a circulação diária de jornais pagos no país foi de 8,193 milhões, recuo de 3,46% em relação a 2008, quando a circulação crescera 5%. Os números incluem a tiragem do "JB", apesar de o jornal ter deixado a associação em 2004.
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A ANJ não fornece dados específicos sobre qualquer jornal.
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Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), no primeiro quadrimestre deste ano, o setor já registrou um crescimento de 1,5%. Desde setembro de 2008, o "JB" não era mais auditado pelo IVC.
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O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, também lamenta o processo de decadência do jornal.
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— É uma notícia triste e mostra o momento nocivo por que passa o mercado jornalístico — diz ele.
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Azêdo lembra que o "JB" era um paradigma para coberturas importantes e recorda edições memoráveis, como a de 13 de dezembro de 1968, data do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que acabou com garantias constitucionais e deu ao presidente da República poder de fechar o Congresso.
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Naquele dia, o "JB" publicou a previsão do tempo na primeira página, dizendo que as condições climáticas eram adversas.
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Nelson Tanure arrendou o "JB" em 2001. Entre 2002 e 2003, o empresário teve os direitos de publicação da revista americana especializada em economia "Forbes" no Brasil. Em 2003, arrendou o diário econômico "Gazeta Mercantil".
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Em grave crise e com dívida trabalhista superior a R$ 200 milhões, Tanure rescindiu o contrato de licenciamento do uso da marca e devolveu o jornal a seu antigo dono Luiz Fernando Levy.
Em junho de 2009, a "Gazeta" deixou de circular.
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http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/07/13/jb-apenas-versao-na-internet-307709.asp
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

2000~2009 - Uma década - Internet, Literatura, Jornalismo

DIGESTIVOS

Sexta-feira, 29/1/2010
Digestivo nº 451
Julio Daio Borges












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Para a internet, a década ficou inicialmente marcada pelo estouro da bolha, no mesmo ano 2000. O fim da "exuberância irracional", porém, coincidiu com o início da "colaboração" - e, em 2001, nascia a Wikipedia. Nessa filosofia, já trabalhava o CardosOnline, desde 1998 (e o próprio Digestivo, desde setembro de 2000). Modelos "pré-bolha" ainda nasceriam, e morreriam, inclusive no Brasil - que assistiu à derrocada do NO., em 2002. Os blogs, embora tivessem nascido na década anterior nos Estados Unidos, começariam a despontar, no nosso País, em 2002 (ainda sob muitas críticas). Apesar de ter inventado os "projetos colaborativos", a primeira metade da década se encerraria com a internet ainda em descrédito. A maré começaria a mudar a partir de 2004, com a IPO do Google (uma prova de que a internet ainda poderia dar lucro). 2004 seria, também, o ano da descoberta do Orkut, e das "redes sociais", e de outro projeto colaborativo importante, no Brasil, o Trama Virtual. A segunda metade da década seria marcada pela nova ascensão da internet, que ficou conhecia, mais genericamente, como "Web 2.0". A internet de "conteúdo produzido pelo usuário" (pelos "leitores" e não só pelos "colaboradores"), de feeds RSS e de podcasts. Entre alguns do sites mais representativos dessa "nova" Web, estariam o Flickr e o del.icio.us (ambos seriam comprados pelo Yahoo). Ainda em 2005, John Battelle publicaria o primeiro livro sobre o Google. Impulsionada pela banda larga, a Web 2.0 consolidaria o e-commerce de sites como a Amazon - um fenômeno que permitiria, a Chris Anderson, desenvolver a teoria do Long Tail (ou da Cauda Longa). O YouTube aconteceria (e seria vendido para o Google) nesse mesmo momento. E os jornalistas brasileiros, finalmente, começariam a se render aos blogs (em 2006). Em 2007, nasceria, muito timidamente ainda, o Twitter; e, no Brasil, o Interney Blogs, capitaneado pelo blogueiro que mais faturava em reais. O MySpace chegaria, e iria embora do nosso País, enquanto o Facebook só aconteceria, de verdade, a partir de 2009. O Buscapé atravessaria a década e seria vendido por 300 milhões de dólares; enquanto a Estante Virtual revolucionaria o e-commerce de livros usados desde 2005... Agora, 2010 se anuncia como o ano dos livros eletrônicos. E esta década será - mais do que nunca - a dos dispositivos móveis conectados à Rede Mundial de Computadores. A Apple logicamente quer continuar dominando; como Steve Jobs dominou a década passada... Será que vai? [Comente esta Nota] [Encaminhe esta Nota]




Literatura >>> Literatura em 2000-2009

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O início da década do novo século, obviamente, seria "assombrado" pela literatura do século anterior. Assim, os primeiros anos da década de 2000 assistiriam a reedições de monstros como Guimarães Rosa (pela Nova Fronteira, com direito a exposição no Museu da Língua, Centenário e 50 anos do Grande Sertão); Nélson Rodrigues (que continuaria crescendo pós-Ruy Castro, com edições de Caco Coelho, e mudança da Companhia das Letras para a Agir); Rubem Fonseca (com bons livros de contos, romances medianos e também migração para a Agir); e Dalton Trevisan (com obras como Pico na Veia e Macho Não Ganha Flor, merecendo, ainda, o epíteto de mestre do conto, e mantendo-se na Record). Mais para o final da década, seriam reeditados, igualmente, Jorge Amado, Vinicius de Moraes e Jorge Luis Borges, pela Companhia das Letras. Graças ainda à editora de Luiz Schwarcz - acompanhada de quase todas as grandes -, a década de 2000 ficaria conhecia como aquela em que o livro de bolso, finalmente, decolou no Brasil (com selos como Companhia de Bolso e Sabor Literário). Também a década dos eventos literários, capitaneados pela Flip; e dos prêmios literários, com destaque para o Portugal Telecom. A Geração 90 continuaria assombrando, com seus autores de qualidade duvidosa, e a chamada Geração 00 ficaria eternamente associada à internet (aos sites literários e aos blogs). O principal autor internacional do período continuaria sendo Philip Roth (mais um Nobel-que-não-foi). E o principal autor nacional do período seria Milton Hatoum, com Dois irmãos, Cinzas do Norte e Órfãos do Eldorado. Ainda se destacariam, na prosa, Cíntia Moscovich, Michel Laub e Daniel Galera; na poesia, Paulo Henriques Britto, Douglas Diegues e Fabrício Carpinejar (este oscilando um pouco); e, na crônica, Ricardo Freire, Antonio Prata e Ana Elisa Ribeiro. A principal editora a surgir, entre as tantas ligadas à internet, seria a Livros do Mal - que, além do mesmo Galera, revelaria Daniel Pellizzari e Clarah Averbuck. O principal crítico literário, no Brasil, se revelaria Sérgio Rodrigues, de NO. e NoMínimo; e, dos anos 2000, Paulo Polzonoff Jr., com passagens pelo Rascunho, por este Digestivo, por blogs e por livros como O Cabotino. A década veria, ainda, a consolidação de editoras (com, por exemplo, as aquisições do Grupo Ediouro); e a chegada das espanholas, como Planeta e Prisa-Santillana. E se pairou a ameaça da digitalização de volumes, promovida pelo Google, o livro atravessaria a década longe da pirataria (ao contrário de CDs e DVDs, no mesmo período). A nova década, contudo, acenaria com o Kindle - e o negócio do livro, então, mudaria para sempre... [Comente esta Nota] [Encaminhe esta Nota]
>>> Mais Literatura




Imprensa >>> Imprensa em 2000-2009

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A década de 2000 continuaria assistindo à migração do melhor jornalismo para o formato livro. E um dos destaques mais marcantes, nesse sentido, seria a coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, que nos brindaria com clássicos como Hiroshima, Fama e Anonimato e O Segredo de Joe Gould (entre outros). Tom Wolfe, da mesma turma, continua em evidência na década, começando com Ficar ou não ficar. E até E.B. White ressurgiria, prevendo o 11 de Setembro... Entre os jornalistas brasileiros, marcariam a década os lançamentos de Joel Silveira (na mesma coleção da Companhia das Letras), Ruy Castro (com Carmen e muitos outros livros) e Elio Gaspari (com sua coleção sobre a ditadura militar). Na linha monstros sagrados, Ziraldo tentaria reviver o Pasquim (com OPasquim21), mas quem conseguiria o feito seriam Sérgio Augusto e Jaguar com as respectivas antologias pela editora Desiderata. Ivan Lessa apareceria mais em livro, até com Mario Sergio Conti. E Paulo Francis continuaria assombrando - no bom sentido - a década de 2000. Desde os 5 e 10 anos de sua morte até uma editora com o seu nome, até um perfil assinado por Daniel Piza (até um documentário, recentemente). Na ala das revistas, a Cult mudaria de mãos, a Trip mostraria longevidade e a Piauí chamaria a atenção (junto com a Serrote). Os jornais, depois de heróica resistência, confirmariam a previsão de Philip Meyer e começariam a morrer, solenemente, na década dos 2000 - como destaque para a Gazeta Mercantil, a Gazeta Esportiva, a Tribuna da Imprensa e a longa agonia do Jornal do Brasil... E, no mundo, alguns dos principais veículos prefeririam não ser mais chamados de "jornais", como o Guardian; tendo a crise do formato se abatido até sobre o New York Times. Confirmariam o óbito, ainda, revistas como a Economist, a Time e a New Yorker... A internet e o jornalismo feito nela, em compensação, se desenvolveriam - tendo como uma de suas principais bíblias o livro We the Media, de Dan Gillmor (e, pasmem!, a Wikipedia). Para completar, o STF acabaria com a obrigatoriedade do diploma (para se exercer a profissão); e o mesmo Guardian convocaria blogueiros para trabalhar (sem exigir sequer experiência em jornalismo). Nos anos 2000, os jornalistas virariam commodity (como alguém previu)... E, na década de 2010, não será a blogosfera que vai ameaçar os grandes veículos, mas, sim, a "statusfera"... [Comente esta Nota] [Encaminhe esta Nota]
>>> Mais Imprensa

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Chiaroscuro





Digestivo nº 257 >>> Chiaroscuro

Pelo menos em matéria de arte, parece que todo mundo tem consciência da importância de períodos como o da Renascença. Ter, tem – mas não quer averiguar. O interessado médio fica naquelas noções básicas sobre Leonardo, Michelangelo e outros dos quais nem se lembra mais. Quando muito apela para um modismo envolvendo algum desses artistas, como foi, de uns tempos pra cá, a leitura, para muitos reveladora, de O Código Da Vinci... Para desembaraçar o emaranhado de hipóteses e suposições, e para aprofundar as mesmas vagas noções artísticas que adquirimos – a princípio – desde a infância, surgem os cursos de – por que não dizer? – História da Arte, da professora Tereza Aline Pereira de Queiroz, na Casa do Saber. Embora temas como o do Renascimento, do Barroco e do Rococó, por exemplo, sejam vastíssimos, Tereza concentra seu saber em algumas aulas, abordando um ou dois artistas, acompanhada de slides, de maneira que seu conhecimento flui e, paulatinamente, a nuvem de ignorância se dissipa. Ultimamente, varreu o pó das nossas idéias sobre os mesmos Leonardo e Michelangelo, reintroduzindo outros mestres esquecidos como Donatello e Rubens, e totalmente nos revelando a dimensão de assinaturas como a de Mantegna e mesmo a presença meio estrambótica de figuras como o Arcimboldo, resgatado pelos surrealistas e seus delírios virtuosísticos. Tereza, ainda que muito culta, não nunca é cerimoniosa e é sempre muito divertida. Em outras palavras: mesmo desfolhando a informação em camadas, não soa pernóstica, rindo do que é forçosamente ridículo e despertando a simpatia dos circunstantes. Em alguns meses de Casa do Saber, já tem seguidoras – discípulas? – que a acompanham, de curso em curso, como sói acontecer com os professores mais populares... E quando se imaginava uma especialista restrita ao domínio da Renascença, eis que Tereza surge ministrando aulas sobre o Romantismo na pintura e até, num considerável salto temporal, sobre o Impressionismo. Impossível captar todas as nuances, e principalmente guardá-las para si, em obras e artífices. Talvez o maior mérito de Tereza Aline Pereira de Queiroz seja, como todo bom professor de artes plásticas, despertar a famosa educação do olhar. Saímos então do nosso vôo cego e partimos para uma visita guiada – pelas mãos da mestra.
>>> Casa do Saber
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Debret em Viagem Histórica e Quadrinesca ao Brasil







Digestivo nº 315 >>> No Largo do Paço
Das homenagens prestadas aos 100 anos do vôo do 14-bis, uma das melhores, e mais criativas, foi a de Spacca, também endereçada a Santos Dumont, no álbum Santô, lançamento da Cia. das Letras em 2005. Parece que na esteira do sucesso dessa realização, fruto de anos de pesquisa histórica do próprio Spacca – embora seja uma “simples” HQ –, a editora lançou, em 2006, Debret em Viagem Histórica e Quadrinesca ao Brasil. Debret, como todo mundo sabe (ou deveria saber), produziu uma das mais ricas iconografias sobre o Brasil do século XIX. Primo e discípulo de Jean-Louis David, o célebre pintor neoclássico, Debret se viu desamparado, com a queda de Napoleão III, e a mudança de ventos políticos na França, quando recebeu um convite para fundar uma Escola de Belas Artes no Rio. Mudou o rumo das artes brasileiras e mudou, inclusive, a maneira como o próprio Brasil era visto no Europa (e se via a si próprio). (Para quem tiver ainda dúvida, a editora Capivara registra isso muito bem num catálogo portentoso...) Spacca, em seu Debret atual, conta um pouco dessa saga, de 15 anos no Brasil, mesmo que de forma mais breve, e menos profunda, se compararmos com o seu quase perfil de Santos Dumont. Ainda que tenha produzido incansavelmente, como um Balzac dos pincéis, Debret não teve seu caminho facilitado no Rio e, como parte da chamada missão francesa, teve muitos dos seus desejos frustrados ou postergados, como a Escola de Belas Artes (que permanece até hoje mas que demorou a se concretizar). O álbum de Spacca, de certa forma, evoca uma seção de seu próprio site em que ele, como cartunista, homenageava mestres do traço. Para a geração conectada da virada do século, que mal conhece a representação de seu País em pintura, Spacca e a Cia. das Letras estariam prestando um enorme serviço se seguissem por essa trilha agora aberta. 
>>> Debret em Viagem Histórica e Quadrinesca ao Brasil


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Traffic, de Steven Sodenbergh



Digestivo nº 26 >>> You can't just wage a war at your own family
Traffic, de Steven Sodenbergh, merece todo o barulho e estardalhaço que se vem fazendo por conta dele. Ainda dentro da safra de Magnólia, Clube da Luta e Beleza Americana, Traffic visa a desconstrução do "american dream", ao virar uma sociedade pelo avesso, e expelir suas vísceras na cara do espectador. Paulo Emílio Salles Gomes costumava dizer que se vai ao cinema atrás de alguma ilusão. No longer. Dentre os méritos de Traffic, está o de, justamente, retratar o universo das drogas sem eufemismos ou atenuantes. O filme vai até as últimas conseqüências da miséria e da baixeza humanas, subvertendo completamente as noções de certo ou errado, bem ou mal. Os cortes, de cena a cena, são planejados de modo a suspender a ação nos momentos mais tensos. Traffic não termina com uma conclusão final, pois, como se assiste durante as quase três horas de projeção, a questão das drogas é muito mais intrincada, complexa e delicada do que se pensa, longe de ser resolvida por meio de medidas arbitrárias, leis simplistas ou declarações de guerra. A solução simplesmente não passa por receituários ou fórmulas científicas.
>>> http://www.trafficthemovie.com/

Os 400 Golpes - François Truffaut





Digestivo nº 34 >>> O homem é o menino perene
Está em cartaz, há mais de um mês, no Cinesesc, uma das mais belas obras de François Truffaut, Os Incompreendidos (Les quatrecents coups, 1959). Estréia do impiedoso crítico da Cahiers du Cinéma, Os Incompreendidos projetou Truffaut mundialmente, como cineasta, e garantiu-lhe vaga no panteão da Sétima Arte, calando a boca de seus desafetos e detratores. É uma obra-prima da criação humana, perceptível a olho nu, sem a necessidade de que se evoque todo o instrumental da nouvelle vague. Assim como nos chamados romances de formação, François Truffaut retrata a si mesmo, e é sempre instigante ouvir um grande autor falar sobre seu passado, de maneira honesta. Chama a atenção, 42 anos depois, a atuação de Jean-Pierre Léaud, uma estrela de brilho raro, afinal, é preciso garimpar muito até que se encontre um jovem que saiba interpretar a juventude, em 100 anos de cinema. A história é a do adolescente mal amado pelos pais, incompreendido pelos mestres, que se atira na vida urbana, e na delinqüência infantil, como se tudo não passasse de uma grande brincadeira. Acaba repreendido, aprisionado e levado para o reformatório (uma escola militar). É pungente a lealdade de seu melhor amigo (quase uma criança), a insensibilidade da mãe e do padrasto (ela, bonita e cruel; ele, bronco e pusilânime), a crueza dos cenários (a escola de paredes lascadas, a casa em forma de cubículo, a aridez das paisagens), o sofrimento da personagem principal (violentada pela realidade dos adultos, que só enxerga homens feitos, nunca imperfeitos ou "por fazer"). Qual não seria a dor de Truffaut, ao realizar um filme assim: autobriográfico. Certamente uma dor funda, que, ainda hoje, atinge o espectador e, em igual proporção, o encanta.
>>> O Estado de S. Paulo

Infiel - Liv Ullmann






Digestivo nº 36 Eu sempre trago o fracasso junto comigo

Infiel, filme de Liv Ullmann, com roteiro de Ingmae Bergman, não é aconselhável para pessoas sensíveis ou que andam vivendo complicações amorosas de qualquer gênero. Embora seja de uma beleza estética incomparável, com paisagens de sonho, e atores de grande presença cênica, o longa desfecha punhaladas suscessivas na moral do espectador, qualquer que seja ela. Estende a tortura ao limite do insuportável. Mentalmente a platéia pede para o que sofrimento acabe, mas ele só se agrava, nocauteando o público e deixando sua alma em frangalhos. Se as cenas ali vistas não imitassem, com tamanha fidelidade, a vida real, seria pertinente indagar: quais os desígnios de uma mente tão fria e calculista ao conceber horrores, atrocidades e crueldades desse porte? As pessoas levantam-se das cadeiras e caminham mudas, brancas, chocadas, até o carro. Não há o que falar. Pesadelos estão reservados para mais à noite, e uma enxaqueca, para de manhã. Claro que Infiel, essa montanha-russa de emoções, levando o coração à boca, exige concentração e atenção, como quase nenhuma projeção atual, em que diálogos são empostados e silêncios, abolidos, ou sufocados pela música. A civilidade dos suecos é tal, que eles põem abaixo catedrais de sentimentos apenas com murmúrios, gemidos e palavras sussuradas. A história não vale à pena ser contada, mas sim assistida. Envolve, obviamente, adultério e, posteriormente, divórcio. Talvez, depois de passado o trauma, a produção sirva de antídoto contra um desejo incipiente de se separar ou, simplesmente, de pular a cerca.  
Infiel
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Trolösa

Paths of Glory - (br: Glória Feita de Sangue / pt: Horizontes de Glória) - Stanley Kubrick

DIGESTIVOS >>> Cinema

Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges



Digestivo nº 40 >>>
DIGESTIVOS >>> Cinema

Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges


Digestivo nº 40 >>> Paths of Glory
A HBO exibe, em três partes, o documentário Uma Vida Quadro a Quadro sobre um dos maiores diretores de cinema do século XX, Stanley Kubrick. A intenção da esposa e viúva, Christiane Kubrick, e do cunhado, Jan Harlan, é desfazer a imagem de excentricidade, misantropia e autoritarismo que paira sobre o célebre realizador. A reconstituição, desde os primeiros passos, ao lado da irmã, até a edição de sua última obra, De Olhos Bem Fechados, é narrada por Tom Cruise e conta com as participações de amigos, familiares e admiradores de Kubrick, dentre eles, Martin Scorsese, Woody Allen e Steven Spielberg. É, em suma, a história de um prodígio que, aos 16 anos, era fotográfo contratado da revista Look, e que, com menos de 30 anos, já havia dirigido Kirk Douglas, Laurence Olivier, Charles Laughton e Tony Curtis. Em meio a tantos depoimentos, impossível sintetizar a química que dá origem ao gênio. Uns apontam a fascinação de Kubrick pelo xadrez, de quem herdaria a extrema concentração e a capacidade de não se deixar abater emocionalmente. Outros apontam o excesso de auto-confiança, afinal, Kubrick financiou seu primeiro longa com o seguro de vida do próprio pai, passando a viver de míseros 30 dólares semanais (ao optar pelo cinema e pelo desemprego). Stanley Kubrick representa, no fundo, a ruptura da Sétima Arte com os grandes ideais da Humanidade, ideais que morreram junto às Guerras Mundiais, e que (moribundos) reduziram o ser humano à trinca sexo, violência e abuso de poder. Sua mensagem é de desilução, mas não há como resistir aos seus apelos.
>>> HBO

A HBO exibe, em três partes, o documentário Uma Vida Quadro a Quadro sobre um dos maiores diretores de cinema do século XX, Stanley Kubrick. A intenção da esposa e viúva, Christiane Kubrick, e do cunhado, Jan Harlan, é desfazer a imagem de excentricidade, misantropia e autoritarismo que paira sobre o célebre realizador. A reconstituição, desde os primeiros passos, ao lado da irmã, até a edição de sua última obra, De Olhos Bem Fechados, é narrada por Tom Cruise e conta com as participações de amigos, familiares e admiradores de Kubrick, dentre eles, Martin Scorsese, Woody Allen e Steven Spielberg. É, em suma, a história de um prodígio que, aos 16 anos, era fotográfo contratado da revista Look, e que, com menos de 30 anos, já havia dirigido Kirk Douglas, Laurence Olivier, Charles Laughton e Tony Curtis. Em meio a tantos depoimentos, impossível sintetizar a química que dá origem ao gênio. Uns apontam a fascinação de Kubrick pelo xadrez, de quem herdaria a extrema concentração e a capacidade de não se deixar abater emocionalmente. Outros apontam o excesso de auto-confiança, afinal, Kubrick financiou seu primeiro longa com o seguro de vida do próprio pai, passando a viver de míseros 30 dólares semanais (ao optar pelo cinema e pelo desemprego). Stanley Kubrick representa, no fundo, a ruptura da Sétima Arte com os grandes ideais da Humanidade, ideais que morreram junto às Guerras Mundiais, e que (moribundos) reduziram o ser humano à trinca sexo, violência e abuso de poder. Sua mensagem é de desilução, mas não há como resistir aos seus apelos.
>>> HBO

Ben-Hur - William Wyler



Digestivo nº 44 >>> Hate keeps a man alive
Primeira constatação a se fazer depois de assistir Ben-Hur em DVD: trata-se de um filme do século passado. Não apenas cronologicamente falando, mas sobretudo em aspectos formais: diálogos com longas pausas dramáticas; gestos demorados (contrariando frontalmente a impaciência destes tempos de agora); música grandiloqüente, conduzindo a narrativa por altos e baixos; brutalidade masculina beirando o animalesco (mas sem recorrer açougues ou dissecações); sentimentalismo feminino às raias do piegas (mas sem que haja qualquer protagonista mulher de relevância, apenas homens). A história do sujeito que é destituído de suas funções, perdendo o prestígio e a reputação (para depois recuperá-los em triunfo), foi retomada muitas vezes depois de 1959. Recentemente no Gladiador de Ridley Scott que, se se for observar, contém uma versão atualizada e, em termos de duração e enredo, relativamente "diet" se comparada à saga de Judah Ben-Hur. William Wyler, o diretor, trabalhava muito bem com símbolos, desde os mais evidentes até os mais sutis: romano versus judeu (ocidental versus oriental); cavalos brancos versus cavalos pretos (pureza versus corrupção); uniforme em azul versus uniforme em vermelho (céu versus inferno); inclemência versus misericórdia (mal versus bem, paganismo versus cristianismo). Se surgisse como produção em pleno século XXI, Ben-Hur seria duramente criticado por seu moralismo simplificador, por seu apelo às emoções (em lugar do entendimento), por seus excessos (ao recorrer constantemente a cenas e a episódios totalmente acessórios), por seu herói canastrão (dada a popularidade de Charlton Heston como ator). Trata-se, porém, de um clássico. Convém assisti-lo sem discuti-lo. Inclusive, é até mais compensador.
>>> Ben-Hur

Butch Cassidy and the Sundance Kid - George Roy Hill

DIGESTIVOS >>> Cinema

Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges



Digestivo nº 56 >>> The Whole In The Wall Gang
O que trinta anos não fizeram com Paul Newman e Robert Redford, os protagonistas de Butch Cassidy and The Sundance Kid, agora em DVD. O primeiro virou pipoca de microondas e andou se arrastando na performance de O Indomável, de 1994. O segundo está na lista de Sônia Braga e, analisando bem, serviu de grande inspiração para Bill Clinton (quando este posava de sobrancelhas arqueadas, sorrisinho e boca entreaberta). Mas o filme é bonito. Tem todo aquele romantismo da bandidagem no tempo das diligências. (É de se apostar que o cinema tenha sido uma influência malévola para toda essa juventude que quis viver de ganhos fáceis, depois de tanto assalto a trem e a banco.) A seqüência de Raindrops Keep Fallin' On My Head, com Paul Newman carregando Katharine Ross na bicicleta, é de um lirismo que se tornou até banal (posto que indefinidamente replicado em videoclipes e em propagandas de cigarro). Mas ajuda a compor um longa de belas cenas (não à toa o Oscar de fotografia). A história é a de dois assaltantes do Velho Oeste que, depois de muitos golpes, são procurados e perseguidos incansavelmente até a Bolívia, até a morte (numa emboscada que fecha a fita com chave de ouro). Suscita reflexões sobre o viver à margem da sociedade, ser um “outlaw”. Hoje em dia seria impossível, pois não se faz nada sem identificação, cartão de crédito e declaração de imposto de renda. A produção impressiona por ter sido realizada em 1969 e, no gênero Western, permanecer – tecnicamente – insuperável. Vale também como viagem pelas belas paisagens dos Estados Unidos. E para cantar Burt Bacharach, é claro.
>>> Butch Cassidy and the Sundance Kid

All about Eve - Joseph L. Mankiewicz



Digestivo nº 63 >>> The lowest form of celebrity
Não existe exagero em afirmar que o DVD é a única tecnologia (até agora) que permitiu ao cinema das primeiras décadas competir em pé de igualdade com as produções atuais. O formato VHS era pleno em limitações técnicas, de som e de imagem, prejudicando mais acentuadamente o que se fez em preto e branco e nos primórdios do cinema falado. Assim, não existe base de comparação entre as interpretações de Bette Davis, Anne Baxter e George Sanders em “A Malvada” (All About Eve) e qualquer coisa que esteja em cartaz neste momento. É impressionante a preocupação cênica ao longo da fita, revelando uma presença de palco (do elenco) que nem no teatro de hoje é possível encontrar. As atuações são impecáveis ou, no mínimo, convincentes – destacando-se a disputa à la Oscar Wilde, entre Margo Channing (Bette Davis) e seus antagonistas. Na história, ela é o modelo de atriz consagrada que, adotando uma protegida mais jovem (Anne Baxter), sente-se ameaçada por ela. É claro que a última é puro lobo-em-pele-de-cordeiro, e vai seduzindo, aos poucos, todos os que se devotavam à primeira. Todo mundo conhece a patologia: a admiração obsessiva que converte, paulatinamente, o “admirador” em “objeto admirado”. Como em toda a realização que preza a “vida como ela é”, o bem não triunfa sobre o mal. Mas os derradeiros minutos apontam para um ciclo que se fecha, introduzindo uma fã no camarim de Eve (a malvada) e sugerindo, portanto, conseqüências cármicas. Para os que precisam de um estímulo a mais, também consta do “cast” uma Marilyn Monroe em início de carreira, recém-chegada da Copacabana School of Dramatic Art (é sério). Talvez anunciando que a forma prevaleceria sobre o conteúdo. Enfim, não se fazem mais "bettes davis" como antigamente.
>>> All About Eve
 

Apocalypse Now - Francis Ford Coppola





Digestivo nº 64 >>> My only friend: the end
Nada como um Francis Ford Coppola de vez em quando para nos lembrar o que é cinema de verdade. Apocalypse Now Redux estreou em época conturbada (final de ano), e já está relegado a umas poucas sessões noturnas e a algumas salas ditas “de arte”. Ainda assim, vale à pena insistir e abrir uma exceção para essa obra-prima. Claro, todos já vimos uma boa quantidade de produções cujo tema central é o Vietnã (a guerra), mas quando topamos com um mestre da sétima arte, tudo volta a ser como da primeira vez: cada take, cada seqüência, cada panorâmica é uma doce novidade. Approposito, é impressionante a progressão: Coppola principia pela tragicomédia e vai conduzindo o longa para a gravidade e para a densidade linearmente, sem solavancos. Aliás, é possível para qualquer leigo perceber como o cinema atual perdeu em continuidade: Apocalypse Now é tão extraordinariamente bem montado que fluímos dentro dele como o barco de Martin Sheen, rio acima, sem nos darmos conta de qualquer “emenda” ou “encaixe” – o tempo passa como na vida real. (Ao contrário dos videoclipes artificiais de hoje.) O elenco é de causar inveja a qualquer fita em qualquer tempo. Além do pai de Charlie Sheen (o supracitado Martin), encontramo-nos com um amalucado Robert Duvall, que conduz as batalhas como se jogasse fliperama, como um cowboy do século XX. Mais adiante uma ponta com Harrison Ford, ainda desconhecido e ainda imberbe (o filme é de 1979). E o clímax, óbvio, fica por conta de um dos mais belos homens da tela grande: Marlon Brando. Como sempre um gigante, roubando a cena mesmo quando congelado em foto. Para completar, as cores nunca foram tão vivas e o som, tão envolvente. É para ver e rever, antes que saia de cartaz.
>>> Apocalypse Now Redux
 

História Real” (The Straight Story), de David Lynch

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Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges





Digestivo nº 66 >>> A brother is a brother
Interessante como a crítica se apega a estigmas. Tome-se o caso de “História Real” (The Straight Story), de David Lynch, que acaba de estrear no Brasil. Os críticos não se conformam que o diretor de “Veludo Azul” não desfolhe, desta vez, sua coleção de “anomalias” e “patologias”. Se elas não estão explícitas, como em sua cinematografia anterior, é porque, então, estão escondidas – e dá-lhe especulações sobre “o que ele quis dizer na verdade” ou sobre “o que está por trás de uma cena perfeitamente normal”. É a sanha interpretativa, que impregna todos os que se põem a analisar uma obra-de-arte. O roteiro é singelo (e daí?); bem protagonizado por um ator honesto (e daí?); com um desfecho, desde o começo, previsível (e daí?). Conta a jornada de Alvin Straight, de Iowa a Wisconsin, montado num cortador de grama (isso mesmo), arrastando um trailer, apenas para encontrar seu irmão, com que não fala há dez anos. O filme mostra que, apesar dos meios pouco ortodoxos, empregados por um velho teimoso, realizando talvez seu último grande projeto na vida, existe beleza e graça em simplesmente persistir nas próprias convicções. Embora a maior parte do mundo se revele hostil a elas, sempre haverá pessoas dispostas a ajudar, e a respeitar as decisões (quais sejam) do outro. Eis a mensagem “positiva” do longa, que pode até soar banal mas que tem o seu valor (“construtivo”, ao menos). Infelizmente nos desacostumamos a ver uma rotina tão pacata e calma, na tela grande, sem que, ao longo de duas horas, não haja estrondos: violência, sexo ou humor mórbido. David Lynch parece que plantou seu jardim e, fora um inseto ou outro (importunando quem chega para visitar), nada nos resta a não ser contemplá-lo.
>>> The Straight Story

How Green Was My Valley - John Ford



Digestivo nº 67 >>> So much that was good but is gone

Como Era Verde Meu Vale. O que sugere um título desses? Decerto que não um filme em preto-e-branco. Mas é justamente o caso: uma produção sem cores que, no entanto, irradia um colorido esfuziante. De sentimentos, nobres sentimentos. Família. União. Autoridade. Resignação. Palavras hoje acompanhadas de uma dúzia de preconceitos cada. É démodé e quadrado, por exemplo, defender uma “família” bem-constituída (com pai e mãe). É simplesmente impraticável, em plena era do individualismo e do consumo, alcançar algum tipo de “união”. É retrô, com laivos de conservadorismo (reaça), respeitar qualquer que seja a “autoridade”. E é sinônimo de tolice e comodismo, entender que a melhor saída, muitas vezes, vem através da “resignação”. Por isso, um DVD como How Green Way My Valley tem hoje tanta importância. Para mostrar que esses valores são válidos e não “atrasados” ou “caretas”, como se costuma pensar. Crescemos com a ilusão, ou a desilusão, de que o ser humano é auto-suficiente em seus sentimentos; de que sozinho e investido de poder (qual seja) consegue tudo; de que não deve nada a ninguém, principalmente respeito àqueles que o precederam; e de que a vida é puro livre-arbítrio, tendo o destino (ou o que for) papel alegórico em toda a história. Acontece que essas crenças (sim, crenças) não nos bastam e quando nos deparamos com uma sociedade regida por princípios contrários aos nossos – com problemas também, mas inspirando simpatia e aspirações mais elevadas – é tempo de se pensar se o nosso modelo não está... ultrapassado. Isso mesmo: ultrapassado. Bem, se o discurso “pseudomoralizante” incomoda, o argumento estético deve convencer os mais refratários: assista-se Como Era Verde Meu Vale pela beleza. Só por ela, ele já vale. Ah, se vale.
>>> How Green Was My Valley

A Beautifil Mind de Ron Howard




Digestivo nº 70 >>> Nash equilibrium
Os entusiastas do gladiador que nos perdoem, mas o melhor desempenho de Russell Crowe até agora foi em “Uma Mente Brilhante”. Ele já havia conseguido alguma projeção, anteriormente, em “O Informante”, mas tropeçava, aqui e ali, ao interpretar uma testemunha perseguida pelos poderosos que denunciava. “O Gladiador” nem conta muito, apesar do estardalhaço e dos oscars, pois nele o ator australiano se limitou a empunhar sua espada e a proferir algumas palavras, mantendo praticamente inalterado o semblante. Agora, no entanto, na pele do matemático John Nash, ele promove um salto até então inesperado, para uma trajetória tão curta e não tão, digamos assim, brilhante. Russell Crowe, candidato a sucessor de brutamontes, em filmes ditos de ação e romancecos água-com-açúcar, de repente, toca a platéia, no degenerar de um cérebro promissor padecendo de esquizofrenia. E é ele, não os efeitos especiais ou a presença de grandes nomes (como Al Pacino), que elevam “Uma Mente Brilhante” a um patamar superior, expondo dramas atemporais e humanos, para além das veleidades da estação. O longa não trata apenas de sujeitos geniais, encalacrados em paranóias inerentes à sua própria inteligência, mas também explora a questão dos limites e da impotência, ambos presentes na vida de qualquer pessoa. Envolvendo a aceitação do cruel destino e a luta pela sobrevivência, em batalhas diárias, em obstáculos superados muito paulatinamente, torna a existência de John Nash um fardo, enfim, belo e justificável. Uma lição que vale à pena ser aprendida, e que vai mergulhar muito fundo na alma de alguns. Isso tudo graças a Russell Crowe. Se as tais estatuetas fossem realmente meritórias, ele mereceria uma agora.
>>> A Beautifil Mind

"Minority Report" ("A Nova Lei") - Steven Spielberg

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Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges





Digestivo nº 93 >>> Everybody runs
Com a morte de Stanley Kubrick, ninguém melhor para falar do futuro que Steven Spielberg. A comparação não surge à toa: desde "Inteligência Artificial" (uma parceria post-mortem entre ambos) que Spielberg vem se apresentando como discípulo do diretor de "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Depois dos fiascos de George Lucas (em suas tentativas desastradas de retomar "Star Wars"), o autor de "E.T." conquistou a supremacia no cinema premonitório. Ainda mais agora, com esse "Minority Report" ("A Nova Lei", na versão brasileira). Além de todo o aparato tecnológico, o filme é também uma resposta a "Matrix" (1999), em termos filosóficos (se é que isso se pode afirmar em matéria de sétima arte). Tom Cruise, ou John Anderton, é o novo Keanu Reeves, o novo Neo. Antes de salvar o mundo, porém, ele tem de provar a sua inocência - à maneira do "Fugitivo" (1993) de Harrison Ford. Ano 2054: foi inventado um sistema que prevê homicídios, graças ao uso de "precognitivos" (médiuns); Cruise, ou Anderton, é um dos policiais envolvidos no experimento (ele e sua equipe impedem que os crimes aconteçam, localizando o potencial homicida e prendendo-o por antecipação); tudo vai infalivelmente bem até que o próprio Anderton é incriminado - então tem de correr contra o tempo. São mais de duas horas de uma trama intrincada e de uma das melhores perseguições dos últimos tempos. Ficamos aliviados em saber que daqui a cinqüenta anos, a Sinfonia Patética (nº 6) de Tchaikovsky ainda será ouvida em alto e bom som. Para além da seriedade e do cientificismo (habitual), Spielberg introduz cenas engraçadas, onde o herói é ridicularizado, apenas para lembrar ao espectador que se trata de ficção. Apesar dos milhões de dólares gastos, da moral da história e do americanismo (também habitual), é inegável que o homem evoluiu desde "Inteligência Artificial" (2001). Não custa conferir, portanto.
>>> Minority Report
 

Cinema de Poesia - Pier Paolo Pasolini

DIGESTIVOS >>> Cinema

Segunda-feira, 12/10/2009
Cinema
Julio Daio Borges





Digestivo nº 106 >>> Cinema de Poesia
É famosa a frase de Wittgenstein em que ele afirma que se um leão falasse não seríamos capazes de entendê-lo. Em "Uccellacci e Uccellini" (1966), de Pier Paolo Pasolini, Totò e Ninetto Davoli, atendendo a um pedido de São Francisco de Assis (em pessoa), passam meses em meditação e finalmente se entendem com as grandes aves e os passarinhos. Pasolini, um dos grandes homenageados pela 26ª Mostra BR de Cinema, acreditava que o cinema era importante porque antecedia toda linguagem: comunicando por imagens - como a vida. Ao mesmo tempo, acreditava que sua "pesquisa cinematográfica" acontecia no campo da linguagem ("corporal", quem sabe?) e que, por isso, também no campo da filosofia. No documentário "Pier Paolo Pasolini e a Razão de um Sonho" (2001, de Laura Betti, igualmente na "Mostra"), o cineasta explica que uma pessoa é mais do que aquilo que fala, escreve, transmite através da linguagem; é também um modo de andar, um jeito de sorrir, uma presença e uma maneira de fazer-se presente na memória (quando parte, por exemplo). Pasolini foi um dos últimos grandes diretores a ter uma sólida formação literária, um apego à "palavra escrita", que as novas gerações simplesmente aboliram do currículo. Por isso, a sua obsessão em filmar os clássicos, como "O Evangelho Segundo Mateus" (1964), "Édipo Rei" (1967), "Medéia" (1970), "Decameron" (1971), "Os Contos de Canterbury" (1972) e "Saló - 120 Dias de Sodoma" (1975). E Pasolini, claro, foi poeta; não apenas da Sétima Arte, mas poeta de escrever poesia, com livros publicados, antes de sucumbir ao cinema e se lançar como roteirista de Frederico Fellini. É comum, hoje em dia, relativizar sua obra e destacar seu lado "agitador": comunista, homossexual, intelectual, etc. O paralelo que se traça com o Brasil remonta a Glauber Rocha, outro gênio da película e da polêmica. Nem sempre compreendidos por todos, embora de inteligência vibrante, dentro e fora do cinema.
>>> Retrospectiva Pier Paolo Pasolini | Pier Paolo Pasolini e a Razão de um Sonho

"Meninas Malcomportadas", de David Mamet





Digestivo nº 110 >>> Affirmative action
Dentro da mostra "Meninas Malcomportadas", no Centro Cultural Banco do Brasil, está um dos filmes mais contundentes de David Mamet. Em 1994, o mesmo diretor de "Mera Coincidência" (1997) e "Deu a louca nos astros" (2000) resolveu dar sua resposta à onda do politicamente correto norte-americano. Foi através de "Oleanna", possivelmente inédito no Brasil, uma das mais bem realizadas críticas ao patrulhamento das esquerdas, à inversão de valores e às minorias oprimidas. A história se desenrola nas dependências de uma universidade nos Estados Unidos. Como não sai do gabinete de um professor e de sua sala de aula, transfere ao espectador a agonia lenta do protagonista. John (William H. Macy) e sua aluna, Carol (Debra Eisenstadt), começam uma disputa por questões de nota e terminam sua contenda na corte suprema. Num país onde a justiça não tarda e não falha. (Aliás, funciona até demais.) É um dos grandes absurdos retratados pela fita. Inconformada por ter sido reprovada, a estudante inicialmente se faz de desentendida, de ressentida, de perseguida desde a infância. Seu professor tenta mostrar-lhe que, quando jovem, também se sentia assim: um eterno incompreendido. Chega ao limite de provar que o sistema educacional, tradicional, não passa de um equívoco. Propõe, enfim, uma nova forma de avaliação, baseada em sessões privativas. O cinéfilo de primeira viagem não pesca, mas é justamente a "deixa" de que moça precisa. A partir dessa proposta (não se sabe se indecente) e da retórica exaltada de seu mestre, a aluna arruína-lhe a carreira - e a vida. Queixa-se ao conselho de professores que o suspende de imediato. Suspendido, perde a promoção e a casa que iria comprar. (Provavelmente, naufraga também seu casamento.) Junto a outros colegas, a estudante cria um movimento contra o "abuso de poder". O professor acaba expulso da universidade. Para completar, move-lhe uma ação por estupro - já que, numa das sessões, encostara em seu corpo. É um primor - e a platéia saí com dor de barriga. Não há, em sétima arte, uma representação mais fiel da atual histeria academicista. Mamet prova, mais uma vez, que, ao falar de seu país, não tem papas na língua.
>>> Mostra Meninas Malcomportadas | Oleanna