Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Política e a Questão Racial - Antonio Ozaí da Silva


blog da Revista Espaço Acadêmico

ISSN 1519-6186, mensal, ANO IX

Política e a Questão Racial

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antonio-ozaipor Antonio Ozaí da Silva*

“A propaganda abolicionista, com efeito, não se dirige aos escravos.(…) A emancipação há de ser feita entre nós, por uma lei que tenha os requisitos, externos e internos, de todas as outras. É, assim, no Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças das cidades, que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade”. (Joaquim Nabuco. O Abolicionismo)
“A sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento o trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo”. (Florestan Fernandes. A Integração do Negro na Sociedade de Classes)

Considerado do ponto de vista institucional, isto é, sob a ótica do Estado, a participação política dos negros e negras foi historicamente neutralizada, ora por mecanismos de cooptação (principalmente nas regiões mais atrasadas do Brasil), ora pela repressão. O próprio movimento abolicionista realizou-se em seu nome e com objetivos colaboracionistas, colocando senhor e escravo no mesmo patamar: vítimas iguais de um mesmo sistema. Aos escravos foi negado o direito de ser agente de transformação da sua própria história. Então, veio a abolição, mas a causa da liberdade permaneceu irresoluta: ao escravo liberto não foram facultadas as condições econômicas e sociais para o usufruto da plena liberdade.
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As condições históricas da inserção do negro na sociedade brasileira são elementos facilitadores do controle e exclusão política. Escravos na colônia e no império, sustentáculos do desenvolvimento econômico brasileiro durante décadas, foram jogados no seio de uma sociedade fundada em bases secularmente racistas. Libertos foram preteridos do mercado formal de trabalho em nome de um projeto elitista de branqueamento do país. Tiveram que disputar com o imigrante europeu até mesmo as mais modestas oportunidades de trabalho livre, como a de engraxate, jornaleiro ou vendedor de frutas e verduras, transportadores de peixe e carregadores de sacas de café, etc. as mulheres negras garantiram a sobrevivência da família trabalhando, ontem como hoje, como domésticas, faxineiras, babás, doceiras, cozinheiras, lavadeiras e outras atividades similares. As melhores ocupações ficaram com seu concorrente direto: o europeu.
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Desconsiderado econômica, social e culturalmente, o negro, a exemplo dos brancos pobres, foi excluídos do jogo político das oligarquias que dominavam a república velha. Esta situação não foi modificada com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder: manteve-se o critério de que a política é uma atividade restrita às elites. E isto foi ainda mais aprofundado durante o Estado Novo: cabia às camadas inferiores do povo, sendo a raça negra sua maioria, contentar-se com a função submissa de colaborar para a harmonia e a manutenção da ordem social, condições para o progresso e o desenvolvimento econômico brasileiro.
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É verdade que no curto período denominado pelos sociólogos e historiadores como populista, os trabalhadores e trabalhadoras foram alçados à posição de coadjuvantes no cenário da política brasileira do período pós II Guerra Mundial até o golpe militar de 1964. É fato também que a política oficial não podia mais desconsiderar estes sujeitos históricos (por isso a necessidade do golpe militar).
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Mas, uma análise mais cuidadosa nos mostrará que, apesar dos avanços na participação política, inclusive dos negros, e mesmo na forma como os governos populistas encaravam a questão social, estávamos longe de colocar a questão racial como um tema central da política brasileira. Aliás, a admissão da questão racial adquiriu até mesmo ares de antipatriotismo Com efeito, a forma corriqueira de negar a existência do racismo e de todas as suas conseqüências é simplesmente fazer de conta de que não temos este problema. Consequentemente, os negros continuavam excluídos.
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Nos anos da redemocratização, a questão racial foi de novo relegada a um plano secundário: afinal, tratava-se de libertar o país do jugo da ditadura. Se não podemos nos surpreender com a atitude historicamente preconceituosa do pensamento dominante, é interessante observar como os partidos e organizações políticas de esquerda, que defendem idéias igualitárias e contra todo tipo de opressão, também terminam por negligenciar a questão racial.
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Eurocêntrica em sua fundamentação teórica, a esquerda brasileira teve como parâmetro um determinismo economicista que reduz todas as relações sociais às determinações de classe, ou seja, vêem o trabalhador e a trabalhadora, negro ou branco, negra ou branca, sob a lente do conflito Capital X Trabalho. Passa-lhe despercebido que o homem e a mulher não são apenas agentes econômicos, mas seres sociais e, ao mesmo tempo, específicos.
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Uma esquerda enviesada por tal reducionismo tende a passar ao largo de questões como o racismo. Impregnada pela ideologia racista dominante, não compreende o papel e a importância desta ideologia enquanto elemento reprodutor e estruturante das desigualdades em nossa sociedade. Por conseqüência, transforma a questão racial em mera questão relativa às ‘minorias’.
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Em suma, se considerarmos o âmbito institucional, a situação do negro e da negra parece estática. É verdade que hoje eles podem escolher de quatro em quatro anos quem os governarão pelo próximo período. É verdade também que temos canais de participação política e mesmo a possibilidade dos negros e negras tornarem-se senadores/as da república e/ou ministros.
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Ainda é pouco e antes constitui a exceção que confirma a regra. Quantos vereadores negros e negras temos em nossas câmaras municipais? E nas prefeituras? Qual a porcentagem de deputados negros e negras nos estados e no Congresso Nacional? E no senado? E se considerarmos as direções dos partidos políticos, mesmo os de esquerda? Será diferente nas direções sindicais? Em todos os casos veremos que a participação da raça negra segue a mesma lógica observável nos demais setores da sociedade: no mercado de trabalho, no acesso à educação superior etc., as estatísticas demonstram que o negro e a negra são minoritários e tratados como inferiores.
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Contudo, a despeito das adversidades em que a luta anti-racista foi historicamente submetida, inclusive através do isolamento político, o negro e a negra sempre resistiram. Há uma história política não institucional que nem sempre é contada. A começar por Quilombo dos Palmares, símbolo da resistência de um povo que luta pela vida em liberdade. Esta experiência histórica, em geral desconhecida, mesmo no ensino formal, representou uma radical contestação à ordem dominante, subvertendo a ideologia dominante quanto à boçalidade e indolência dos trabalhadores negros.

A resistência negra também se fez presente na organização de suas entidades: como a Frente Negra Brasileira nos anos 20/30 (colocada na ilegalidade em 1937 por Getúlio Vargas); o Movimento Negro Unificado, organizado em 1978; a emergência do Movimento de Mulheres Negras que, em 1995, interferiram nos fóruns nacionais e internacionais que preparavam a Conferência Beijin 95 no sentido de incluir a questão racial na pauta das discussões feministas. Os negros resistiram ainda através da formação de associações comunitárias negras, do candomblé, das escolas de samba, da imprensa negra, da participação em movimentos e partidos políticos.
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As diversas formas de resistência convergiram para que o negro e a negra se impusessem enquanto sujeitos políticos potenciais. Lutam pelo reconhecimento público da questão racial. Sabem que a assimilação do diferencial de raça enquanto elemento constitutivo da reprodução da desigualdade e do acesso aos chamados direitos de cidadania é de fundamental importância para o combate a todas as formas de racismo e a construção de uma sociedade realmente democrática.
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A política racial, através da ação direta dos negros e negras, tem sido o caminho mais fecundo para a defesa de uma população que, em sua maioria, é mantida à margem da política institucional. Os negros e negras aprenderam que só assim é que conquistaram seu espaço, inclusive nas instituições do Estado (incluindo-se aí os partidos políticos). Em outras palavras, a participação política dos negros e negras é necessariamente diferenciada.
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Quando se é negro e negra não basta, por exemplo, lutar pela cidadania participando de um partido político de esquerda. É preciso definir a qualidade desta cidadania e, simultaneamente, organizar-se enquanto setor diferenciado no interior deste partido. E isso ocorre porque a luta contra o racismo ainda não foi suficientemente abraçada por todos aqueles que, independente da cor, acreditam e lutam por uma sociedade plenamente democrática e justa.


* Docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM). Blog: http://antonio-ozai.blogspot.com. E-mail: aosilva@uem.br. Publicado na REA, nº 13, junho de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/013/13polracial.hrm .
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domingo, 17 de janeiro de 2010

Comunidades quilombolas: retrato do multiculturalismo nacional





Movimentos

Vermelho - 27 de Novembro de 2009 - 15h50

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Em meio a muitos festejos na cidade de Salvador, berço da cultura afro nacional, no último dia 20 de novembro – dia da consciência negra – o presidente da República assinou trinta decretos de desapropriação de terras identificadas e reconhecidas como territórios quilombolas. A data merece comemoração.  

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Por Renata Cedraz Ramos Felzemburg*

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Em meio a muitos festejos na cidade de Salvador, berço da cultura afro nacional, no último dia 20 de novembro – dia da consciência negra – o presidente da República assinou trinta decretos de desapropriação de terras identificadas e reconhecidas como territórios quilombolas. A data merece comemoração.

As comunidades remanescentes de quilombos fazem parte do patrimônio cultural da nação (CF/88, art. 216). Elas retratam e preservam a cultura afro-brasileira, remanescente do povo africano que colonizou este País e, portanto, devem ser protegidas pelo Estado, de acordo com o art. 215, §1º, da Constituição Federal de 1988.
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O art. 216, §1º, da mesma Constituição estabelece que o Poder Público deve promover e proteger o patrimônio cultural brasileiro por meio de todas as formas de acautelamento e preservação existentes.
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Após vinte e um anos de promulgação da nossa Constituição, o Estado brasileiro dá os primeiros sinais de respeito aos direitos fundamentais das comunidades quilombolas e, mais do que isso, encampa a concretização desses direitos, garantindo às gerações futuras a sobrevivência dessa cultura.
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O momento é especial, por isso temos motivos para comemorar. O reconhecimento da pluralidade cultural brasileira começa a permear as agendas políticas nacionais.
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Acontece que o trajeto é longo, existem muitas comunidades quilombolas que ainda estão à margem do reconhecimento. O art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição da República contempla a obrigação do Estado em emitir o título definitivo das terras ocupadas pelos remanescentes de quilombo.
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A inserção do mencionado artigo na Constituição Federal simboliza um marco legislativo nacional no que tange ao reconhecimento das comunidades quilombolas. A identificação e titulação desses territórios tradicionais são verdadeiramente um direito humano e, por isso, devem prevalecer frente aos direitos patrimoniais.
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Aponte-se que esse reconhecimento em nível constitucional aconteceu após cem anos da abolição da escravatura, ou seja, durante um século esses grupos humanos foram abstraídos da cultura nacional. Essa invisibilidade ocasionou uma ignorância sobre os modos de ser e viver das comunidades remanescentes de quilombos.
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Atualmente, por força dos longos anos de desprezo, a sociedade brasileira desconhece o fenômeno e o abstrai completamente da sua realidade, muitas vezes desacreditando da sua real existência.
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A grande maioria da população brasileira não compreende as relações e vínculos que se estabelecem dentro das comunidades. Os integrantes desses grupos humanos, estritamente minoritários, desfalcados de recursos econômicos e políticos, não têm mecanismos próprios para se auto-afirmarem.
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O traço predominante entre os remanescentes de quilombo é o viver na coletividade. Compreender essa tradição é efetivamente uma expansão de horizontes, notadamente quando se está inserido numa tradição cujos padrões de desenvolvimento sócio-econômico são baseados em valores que muito se aparta do pensar coletivo.
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Não se deve cometer o equívoco de compreender o modo de vida das comunidades quilombolas levando em consideração unicamente a tradição brasileira contemporânea, pois se estaria diante de preconceitos que impedem o reconhecer e aceitar a multiplicidade cultural existente no vasto território brasileiro.
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O reconhecimento da diversidade cultural é inerente à própria compreensão do Brasil como um Estado Democrático de Direito. Para o desenvolvimento nacional, baseado na dignidade dos membros desta grande nação, é necessário que a sociedade brasileira se reconheça multicultural e respeite fraternalmente os modos de ser e viver dos grupos minoritários existentes no território nacional. Só assim poderemos construir um país livre, justo e solidário. Esse é o verdadeiro progresso humano.

*Renata Cedraz Ramos Felzemburg, 34, é procuradora federal no Incra, especialista em Direito do Trabalho e mestranda em Direito das Relações Internacionais.

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Quilombo - Wikipédia, a enciclopédia livre

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Patrice Lumumba


Aconteceu em
17 de janeiro





1961 - Dia do Lumumba



Assassinado no Congo o herói da independência da África Patrice Lumumba, a mando do cel. Mobuto, supostamente ao tentar fugir da prisão. Mobuto mergulhará o país na ditadura até 1997.
Patrice
Lumumba
em poster
cubano




1644:
Nassau envia Rudolf Baro e mil soldados contra Palmares, com base em dados do espião Bartolomeu Lintz. O holandês volta com 31 presos (7 índios). O quilombo tem 11 mil habitantes.



1678:
Capitães-do-mato atacam quilombos em São Miguel, PE.



1890:
Rui Barbosa inicia a política do Encilhamento, tentativa, frustrada, de industrialização.



1912:
Robert Scott chega ao Pólo Sul.



1921:
Nova Lei Adolfo Gordo, a Celerada, de Repressão ao Anarquismo.



1931:
Marcha da Fome, no Rio, reprimida.



1975:
A França promulga a descriminalização do aborto.



1976:
A França promulga a descriminalização do aborto.



O DOI-Codi-SP mata sob tortura o metalúrgico Manuel Fiel Filho, ligado ao PC Brasileiro. Os protestos que se seguem derrubam do comando do 2º Exército o gen. Ednardo Dávila Melo, tido como pró-torturas.

Fiel
Filho




1982:
Congresso de fundação da Conam (Confederação Nacional das Associações de Moradores), em S. Paulo.



1988:
Maciça abstenção de protesto (95%) contesta eleição no Haiti.



1990:
Polícias civis da BA fazem greve, invadem a central de rádio da SSP e enviam mensagens pedindo adesões.



1991:
Guerra do Golfo: 19 países chefiados pelos EUA, atacam o Iraque de Saddam Hussein. Gasolina racionada no Brasil.



1992:
Aposentados passam a receber na Justiça o reajuste (147%) que Collor negou.
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