Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noel: reconhecimento que independe da academia e da crítica

 

Cultura

Vermelho - 3 de Fevereiro de 2010 - 12h46

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Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

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Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.
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Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.
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Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, "Três apitos” etc.
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E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.
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A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.
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Brasil de Fato: Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?
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Luiz Carlos Leitão: Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”.
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A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam... Será que alguma coisa mudou neste século 21?
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O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.
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Brasil de Fato: Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?
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Luiz Carlos Leitão: Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel.
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Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente.
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Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.
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Brasil de Fato: Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?
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Luiz Carlos Leitão: A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.
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Brasil de Fato: Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?
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Luiz Carlos Leitão: O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.
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Brasil de Fato: Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?
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Luiz Carlos Leitão: Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova).
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Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula.
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Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.
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Brasil de Fato: De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?
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Luiz Carlos Leitão: Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.
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Brasil de Fato: Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?
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Luiz Carlos Leitão: Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.
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Brasil de Fato: A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?
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Luiz Carlos Leitão: Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país.
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Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada.
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Por isso, para melhor responder à questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.
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Brasil de Fato: Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?
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Luiz Carlos Leitão:  A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

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Brasil de Fato: Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?
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Luiz Carlos Leitão:
A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada.
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Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas).
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Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal.
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É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical.
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A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média.
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Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.
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Brasil de Fato: Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?
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Luiz Carlos Leitão:
Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante.
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Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime.
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Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade.
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Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.
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Brasil de Fato: No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?
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Luiz Carlos Leitão:
São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo.
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Brasil de Fato: Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?
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Luiz Carlos Leitão: 
Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas.
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Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”.
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Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência).
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Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.
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Brasil de Fato: Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?
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Luiz Carlos Leitão: 
 Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe.
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Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”).
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Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.
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Com Brasil de Fato
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cartoon de Fernandes
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domingo, 24 de janeiro de 2010

“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

Entrada » Agência Brasil de Fato » Entrevistas » “A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

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por Admin última modificação 2010-01-21 12:11 

Segundo o historiador Mário Maestri, séculos de intervenção colonialista e imperialista sobre o país caribenho geraram a miséria que hoje potencializa os efeitos do terremoto do dia 12

21/01/2010

Igor Ojeda
da Redação

Leia mais:

Terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não


Um terremoto oportuno?


Se existe uma análise com a qual todos os meios de comunicação do mundo concordam em relação ao tremor de terra ocorrido no dia 12 no Haiti é a que diz que se o país fosse menos pobre, os efeitos do desastre seriam menores. As causas dessa pobreza, no entanto, muito raramente são explicadas. De acordo com o historiador Mário Maestri, professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), do Rio Grande do Sul, o subdesenvolvimento haitiano tem suas raízes na extrema dependência em que a nação do Caribe foi permanentemente mantida pelas potências coloniais e imperialistas.
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Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Maestri analisa as causas estruturais da pobreza e do êxodo rural no Haiti – que, ao gerar moradias precárias nas cidades, também contribuiu para o agravamento das consequências do terremoto –, a responsabilidade da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, o envio de militares pelos EUA e os riscos do processo de reconstrução do país. “A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos”.
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Brasil de Fato – A grande mídia, nacional e internacional, vem insistindo que a extrema pobreza do Haiti fez agravar as consequências do terremoto. No entanto, a mesma imprensa não diz quais são as causas dessa pobreza. Por que o Haiti é o país de menor IDH do hemisfério ocidental?
Mário Maestri – A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade, em 1804. Isso após derrotar expedições militares francesas, inglesas e espanholas. Ao se transformar no segundo Estado americano a obter a independência, após os EUA, e o primeiro a abolir a escravidão, o Haiti passou a ser temido, pois poderia servir como exemplo para os cativos americanos. Foi objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986].
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Algumas análises indicam que a grande quantidade de haitianos vivendo em Porto Príncipe, em casas amontoadas nas favelas, foi um dos fatores que determinaram um alto número de vítimas do terremoto. Por que se chegou a essa situação de forte migração do campo para a cidade?
O regime histórico da propriedade da terra no Haiti foi a plantagem escravista. Com a revolução de 1804, houve importante divisão de latifúndios em lotes unifamiliares, que retomaram as tradições camponesas negro-africanas, ensejando independência alimentar. Isto não produzia excedentes mercantilizáveis. As intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade. A expropriação da terra e a reversão para produtos comerciais ensejou enorme migração urbana, nascida também da depredação do meio ambiente, com o desmatamento selvagem para a produção de carvão vegetal, com o aumento do seu uso como combustível doméstico, imposto pelo imperialismo. As enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti. As forças brasileiras e da ONU têm reprimido duramente as manifestações pelo aumento do ínfimo salário mínimo.
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Seis anos após o golpe contra Jean-Bertrand Aristide e a chegada da Minustah, a situação não melhorou. Por quê?
A intervenção militar franco-estadunidense orquestrada pelo governo Bush afastou o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide, em 29 de fevereiro de 2004. Ainda que ele tivesse rompido com suas antigas raízes populares e de esquerda, seu governo lutava por autonomia relativa e despertava a mobilização social. O que era inaceitável, em uma região próxima de Cuba e fundamental aos EUA. Devido ao envolvimento no Iraque, Bush 2º convocou o presidente Lula da Silva para capitanear a ocupação militar (e pagar seus custos, é claro), participando da organização de governo títere pró-imperialista. Essa ocupação deveria reorganizar a ilha segundo os interesses políticos do grande capital, sobretudo franco-estadunidense. O governo Lula da Silva aceitou o convite envenenado para fortalecer seu objetivo de ingressar, inferiorizado, sem direito, como membro do Conselho de Segurança Permanente da ONU. Foi também uma concessão à alta oficialidade das Forças Armadas brasileiras, com interesses econômicos, políticos, ideológicos na operação. Nos últimos seis anos, as tropas brasileiras comandaram a repressão, praticamente sem qualquer oposição por parte da imensa maioria dos partidos, sindicatos, organizações etc. ditos populares e de esquerda do Brasil. Deve-se destacar o silêncio do movimento negro organizado, atrelado ao governismo. A prova dos nove dessa intervenção se deu durante e sobretudo após essa terrível catástrofe, com a total ausência de Estado e de instituições haitianas autônomas, que jamais se pretendeu criar. Apenas o presidente [René] Préval funciona como testa de ferro do despudorado intervencionismo internacional em nome da solidariedade que acaba de se concluir com a ocupação militar dos EUA no país, que ignorou olimpicamente a ONU e o seu preposto brasileiro, que já não sabe mais onde se meter. Hillary [Clinton, secretária de Estado dos EUA] acaba de propor que o parlamento e o presidente dêem carta branca aos Estados Unidos nas operações!
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Fala-se em "desconcentrar" a capital, oseja, incentivar a volta da população para seus povoados de origem, de onde saíram devido à falta de oportunidades. O senhor acha isso uma boa ideia no momento? O que isso pode trazer como consequência a médio e longo prazo?
A operação humanitária tem se dado no contexto de enorme desprezo imperialista, prenhe de racismo implícito. Realidade que se registra na proposta de enviar parte da população urbana ao campo sem qualquer consulta à mesma! Deve-se destacar o claro corte polpotiano da proposta e que parte dessa população não tem mais raízes agrárias. Não podemos esquecer, também, que o campo não apresenta condições para incorporar os que aceitem a solução – acesso à terra, recursos contra a erosão, combate à falta de água, financiamento, ajuda durante os primeiros tempos, preços mínimos para a produção etc. Após a terrível passagem do furacão Jeanne [em 2008], a única contribuição real da chamada comunidade internacional foi a reorganização da política para reprimir os seguidores de Aristide.
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Qual sua avaliação sobre a atuação que a comunidade internacional vem tendo em relação ao terremoto no Haiti, como por exemplo o anúncio da liberação de centenas de milhões de dólares?
O que vemos, até agora, passada uma semana do desastre, é uma desassistência indiscutivelmente responsável por dezenas de milhares de mortos. Dizer que não era possível chegar aos necessitados por razões logísticas é piada. Se fosse insurreição popular desarmada, em dois dias haveria um soldado imperialista em cada esquina! No frigir dos ovos, muito se falou e pouco se fez. Até porque o objetivo era esse. Para além dos bem intencionados, há uma enorme indústria internacional, ligada ao imperialismo, formada por milhares de pequenas, médias e grandes ONGs especializadas na assistência às catástrofes que necessitam e se locupletam com tais sucessos, para financiar seus enormes aparatos administrativos que mitigam o desemprego do Primeiro Mundo. Boa parte dos fundos postos à disposição do Haiti pelos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial são empréstimos que deverão ser pagos sempre com o sangue e suor da população.
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Ao mesmo tempo, o Haiti possui uma dívida externa de mais de 1 bilhão de dólares. Não é contraditório?
Não, não é contraditório. É necessário, para manter a dependência. Veremos que no final de tudo, essa dívida será ainda maior! Temos que lembrar que a catástrofe haitiana mantinha-se nos últimos anos, com parte da população do país comendo literalmente bolos de terra, sem que nada fosse realmente feito, a não ser controlar militarmente o país e reprimir a organização e a mobilização popular. Víamos sempre belos soldados, belos tanques, belos fuzis, funcionários bem falantes e uma enorme miséria popular.
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Há algumas críticas (inclusive de Brasil e França) em relação a um suposto controle excessivo dos EUA sobre a ajuda humanitária. Os trabalhos de resgate estão sendo organizados pelo Pentágono e pela USAID. Inclusive, alguns denunciam que, no aeroporto de Porto Príncipe, controlado pelos EUA, os estadunidenses estariam priorizando o pouso de aviões de seu país, alguns deles vindo com militares. Além disso, Obama prometeu enviar 10 mil marines ao Haiti, o que causou preocupação sobre uma eventual ocupação militar. O que o senhor pensa sobre tudo isso?
Aristide, deposto em 1991 pelo governo estadunidense republicano [de George Bush pai], voltou ao governo, em 1994, devido à intervenção patrocinada pelos democratas, de novo no governo [Bill Clinton]. A intervenção no Haiti, em 2004 foi novamente ação republicana de um país sob a presidência de Bush 2º, que contou com a oposição dos democratas, sobretudo da burguesia e da intelectualidade negra desse partido. Atualmente, no governo dos EUA se encontra um democrata negro. Se associamos isso à tradição imperialista, compreenderemos o enorme ativismo estadunidense com viés militarista. Cuba manda médicos. Os EUA, porta-aviões e marines de fuzis! Não é certo ainda o que os democratas e Obama pretendem para o Haiti. Talvez sequer eles saibam precisamente o que fazer com o sofrido país, devido ao caráter inesperado da crise. Há, porém, elementos claros. A ocupação militar do país, com tropas infinitamente maiores às da ONU, deixam claro que, nessa região, é o imperialismo estadunidense que manda. Um movimento que se associa ao retorno dos EUA à América Central e do Sul, expresso no golpe de Estado em Honduras, nas bases militares na Colômbia etc. O governo Obama teme igualmente uma imigração maciça clandestina de haitianos para os EUA. Vai ficar muito feio prender em campos de concentração uma população negra! É melhor no próprio país dela, mesmo morrendo de fome! Hoje, na região, o grande problema é a Venezuela. Certamente teremos novas bases militares dos EUA no Haiti, região estratégica, e muito barata!
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Já se começa a ouvir algumas vozes falando em reconstrução do Haiti. Quais os riscos que trazem as reconstruções depois de tragédias naturais e o que o senhor acha que pode ocorrer no Haiti?
A grande imprensa do Brasil, com destaque para a Globo, retoma a proposta internacional de tratar o Haiti como Estado falido. Ou seja, nação incapaz de se organizar e reger por si só, tendo que ser monitorada, para seu bem. Como está ocorrendo agora! Uma volta aos tempos dos protetorados. A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos. Nuvens terríveis cobrem os horizontes do povo haitiano. Os trabalhadores e todos os homens e mulheres de bem do país devem se mobilizar contra isso. A primeira exigência deve ser a imediata saída das tropas de ocupação brasileiras do Haiti, substituídas por médicos, enfermeiros, engenheiros, agrônomos. Temos que ajudar a plantar a vida, não a morte, nesse país glorioso. Se o Nelson Jobim quiser voltar fantasiado ao país sofrido, que seja de médico!

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sábado, 23 de janeiro de 2010

Haiti - A maldição branca - Eduardo Galeano

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A maldição branca

por Admin última modificação 2010-01-19 12:44 Eduardo Galeano 
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Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo

19/01/2009
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Eduardo Galeano
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No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; não pelo aniversário da liberdade universal, mas porque ali se desatou um banho de sangue que acabou derrubando o presidente Aristide.
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O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.
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Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.
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O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.
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Da maldição branca não se falou.
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A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:
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- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?
- O anterior.
- Pois, que seja restabelecido.
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E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.
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Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.
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Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.
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Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.
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Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.
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Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.
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E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.
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A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.
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E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.
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Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.
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Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.
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Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.
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Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.
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Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…
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Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.
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O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente. (IPS/Envolverde)
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Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de "As Veias Abertas da América Latina" e "Memórias do Fogo"*

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Haiti: um caos inventado pela mídia

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Acções do Documento
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por Admin última modificação 2010-01-22 12:53 Alejandro Ramírez 
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Os meios escolhem as cenas mais fortes, mais mórbidas e mais sensacionalistas e as repetem uma e outra vez, criando uma imagem totalmente distorcida da realidade

22/01/2010

Alejandro Ramírez
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“Os meios de informação desinformam”. Li isso uma vez em um livro de Eduardo Galeano e nunca o tinha notado tão claramente como agora. Agora que tenho acesso às cadeias de televisão estrangeiras, aos monstros da informação, é que me dou conta da manipulação como nunca antes. O mundo está vendo as cenas de pessoas brigando por causa do mau manejo das agências de ajuda humanitária e pela desorganização das autoridades que supostamente deveriam entregar esta ajuda. O que é isso de jogar água a partir de um helicóptero? Isso não é ter dignidade. As ajudas não estão chegando porque as agências têm medo das estradas. Estão causando muito mais dano do que já existe. Não estive em Porto Príncipe, mas posso dar fé que em Jacmel não existe a situação que apresentam.
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Os meios escolhem as cenas mais fortes, mais mórbidas e mais sensacionalistas e as repetem uma e outra vez, criando uma imagem totalmente distorcida da realidade. O Haiti tem um povo que sofre este terremoto como a pior desgraça dos últimos anos, além de todos os problemas que já leva em suas costas, mas, apesar disso, há neste povo um sentimento de seguir adiante, de se organizar para resolver os problemas. Fui testemunha de famílias que foram ajudadas, nos momentos mais difíceis, pelos vizinhos, por falta de ajuda governamental ou oficial. Foram as próprias pessoas que ajudaram, metendo-se nos escombros para tirar os que ainda estavam vivos, os que não conseguiam levantar as placas de cimento e que não tinham como fazer nada. Foram famílias de muitos povoados distantes de Porto Príncipe as que alojaram os que ficaram sem teto na cidade.
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Solidariedade
No campo de futebol de Jacmel, onde hoje se refugiam 3.200 pessoas que ficaram sem casa, há todo um sistema de cozinhas coletivas, e as mães e mulheres se revezam para cozinhar para todos. Os homens cortam a lenha com machados e carregam os sacos de comida. As crianças fazem fila organizadamente para encher seus baldes de água, e os que já os levaram para suas famílias que se refugiam em tetos de nylon brincam sorrindo. Ao escritório da Crose (Coordenadora Regional de Organizações do Sudeste) chegam muitas pessoas todos os dias para ver como podem ajudar voluntariamente. São os que percorreram todos os bairros de Jacmel a pé, inclusive na montanha, para diminuir as estatísticas de casas afetadas e de famílias com problemas.
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Fala-se da crescente insegurança, que não é possível transitar por nenhum lado por causa dos saques. Não nego que possa haver atos delitivos, mas é lógico que tirem as coisas dos comércios que desmoronaram e as levem embora. Este povo tem fome de séculos, não é razoável que nestes momentos a comida fique enterrada.
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No entanto, caminhei por todas as ruas de Jacmel com minhas duas câmeras no pescoço sem sentir uma pitada sequer de agressividade ou algum olhar estranho, coisa que não posso fazer na Cidade da Guatemala ou em Caracas. Todo mundo me recebeu com afeto e inclusive me levaram aos lugares onde estão seus problemas, e lamento muito meu conhecimento nulo do crioulo ou do francês, pois me contavam histórias que eu não conseguia entender. Entretanto, muitos falam espanhol e eles conseguiram dizer seus sentimentos, a mim, um branco desconhecido que invade seus espaços.
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Vida normal
Percorremos a distância entre Jacmel e Anse-a-Pitre em um carro da Crose, uma Nissan 4x4 cheia de malas e volumes, e nos 187 quilômetros que separam essas duas comunidades não encontramos nenhum problema de pilhagem como costumam dizer. O que vi, sim, foram muitas pessoas montadas em seus burros indo ao campo trabalhar, os carvoeiros fazendo seus fornos, as mulheres carregando água como sempre, os mercados comunitários vendendo seus produtos. Sim, a preços mais altos, claro. O preço da gasolina subiu muito e isso encarece tudo, mas as pessoas do campo levam sua vida normalmente, buscam garantir a vida com seu trabalho, que muitas vezes não lhes proporciona o suficiente para comer.
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Então, como os meios de comunicação podem dizer que tudo é desastre se existe um montão de corações que ainda batem com um sentimento humano de solidariedade que sempre se nota mais entre os que menos têm? E este povo é possivelmente um dos povos que menos tem, e menos ainda agora.
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Alejandro Ramírez, cineasta guatemalteco, presenciou o terremoto no Haiti ocorrido no dia 12

Tradução: Igor Ojeda
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Jornalistas bundões - Wladimyr Ungaretti

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Acções do Documento
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Jornalistas bundões

por cristiano última modificação 2010-01-22 17:06 Wladimyr Ungaretti 
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Gostaria de dar o nome de alguns desses bundões. Os que com a bunda pregada diante dos computadores, das modernas redações, são os donos do mundo.
 
Wladimyr Ungaretti


foto 1

Andréia vive pelos bares do Mercado Público de Porto Alegre. Quer casar com um coroa, branco. Promete fidelidade e dedicação. Sempre usou camisinha. Tem 38 anos. Disse que já foi mais bonita, mas quer voltar a se cuidar.


foto2

Estava tentando levantar uma grana para visitar o filho em Florianópolis. É super bem humorada. Suas observações sobre os frequentadores dos bares é de quem sabe tudo da vida. De uma vida sofrida.


foto 3

Ele é Paulo Monteiro. Um técnico em enfermagem. Está sumido do emprego. Deveria estar trabalhando em um hospital de Porto Alegre. Um dos filhos, o que está com o cartão bancário dele, treina no Grêmio. O outro estuda para prestar vestibular na medicina. Ele admite que têm problemas de alcoolismo. Quando fala que está morando na rua começa a chorar. Estava se preparando para dormir na rua Voluntários da Pátria. Não tinha feito uma refeição durante todo o dia. Não disse muito mais do que isso. É super educado.


foto 4

Anderson Alexandre procurava o que comer no lixo da Avenida Independência (PA). O iogurte, de todos os potinhos que encontrou, estava estragado. No máximo conseguiu uma ou outra fruta. Recolheu algum material de plástico para vender. É mais um morador de rua que vive do lixo.
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Os jornalistas são uns bundões. Pontodevista está sob censura. Gostaria de dar o nome de alguns desses bundões. Os que com a bunda pregada diante dos computadores, das modernas redações, são os donos do mundo. O fotojornalismo é das fotos/divulgação, do material já editado pelas agências ou das pautas da perfumaria. Não posso fazer nada. É a minha opinião. O meu final de segunda-feira foi marcado por estas histórias de vida. Com 78 quilos (quatro a mais que Tarso de Castro) de músculos e fúria, sem o seu talento, transfiro esta porrada a todos vocês. Jornalistas bundões um dia serão obrigados a prestar conta das histórias não contadas. Por nos empanturrarem de tanto lixo perfumado. Todos com diploma. O jornal “Última Hora” de Porto Alegre, sob a orientação de Samuel Wainer, começou a circular em fevereiro de 1960. Ninguém tinha diploma.
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Não compre nenhum jornal, pelo menos hoje. Existem melhores textos de ficção. Lixo ficcional não serve para nada. Intoxica. Os marginais, os que estão à margem, vão comer os bundões. Qualquer dias desses.
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Palavras como estiletes. Quero perfurar a alma das pessoas.

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* Wladimyr Ungaretti é jornalista e professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Atualmente ele está sendo processado e seu blog Ponto de Vista está sob censura por criticar o material fotográfico do jornal Zero Hora
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pirataria não é crime, é política, defende novo partido político



Cultura

Vermelho - 15 de Janeiro de 2010 - 16h56

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Nos anos 1980, quando alguém copiava uma fita de música ou gravava a novela das oito no video-cassete para ver mais tarde, ninguém chamava isso de crime; hoje, ao copiar as músicas de MP3 de um amigo ou baixar da internet algum filme, você pode ser processado por algumas das maiores empresas do mundo. As leis são as mesmas, mas o cenário mudou: gravadoras e distribuidoras estão em crise. E um dos culpados pela crise, segundo eles, pode ser facilmente identificado: é você.

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Nos últimos anos, processar usuários de internet e fechar sites de compartilhamento de arquivos tem sido a estratégia das maiores empresas do mundo da música. Paradoxalmente, a criminalização da troca de arquivos online deu início a um movimento contrário: a luta pela alteração do atual sistema de propriedade intelectual e direito de cópia – o chamado copyright. Assim surge, na Suécia, em 2006, o Partido Pirata. De lá pra cá, a ideia se espalhou pelo mundo e partidos piratas começaram a se organizar em pelo menos 25 países. Entre eles, o Brasil.
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“Eles criaram um fórum internacional, abriram tópicos por país, de gente interessada. No segundo semestre de 2006 um grupo começou a organizar o partido no Brasil. Eu participei desde o começo”, explica Jorge, membro do grupo de trabalho de Comunicação do Partido Pirata do Brasil, porta-voz de São Paulo, que prefere não usar o sobrenome. “No caso do Brasil, em 2007 e 2008 houve uma expansão, mas não foi tão grande. Em 2009 sim. Os partidos piratas crescem no mundo conforme cresce a repressão”, diz.
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A repressão a que Jorge se refere foi o projeto de lei que ficou conhecido como Lei Azeredo, e foi chamado até mesmo de AI-5 digital, em referência à lei que instaurou a ditadura no Brasil. Proposto pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que alegou ser um projeto contra crimes cibernéticos, o texto foi atacado em diversas frentes e terminou praticamente enterrado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em fevereiro, que vetaria a lei, se fosse aprovada no Congresso, por considerá-la censura.
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“O AI-5 digital ajudou o Partido Pirata crescer. Em janeiro fizemos o primeiro encontro presencial, no Campus Party, uma desconferência com umas 35 pessoas. Hoje temos cerca de 1.500 pessoas cadastradas e coletivos em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife. Estamos próximos da legalização. Mas concluímos que, mais importante que legalizar, é ter um estatuto colaborativo. A ideia não é ser uma filial do partido sueco, mas um partido com cara brasileira”, diz Jorge.
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As diferenças entre o Brasil e a Suécia não são poucas. O Partido Pirata sueco nasce com apenas três pontos em sua plataforma política: alterar a lei do copyright para que todo o conhecimento e produção cultural possam ser copiados, se não forem usados para fins comerciais; abolir o sistema de patentes; e respeitar o direito à privacidade.
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No Brasil, além dessas bandeiras, existem várias outras. “Aqui, batemos muito na transparência”, diz o porta-voz do Partido Pirata do Brasil. “Lá, até o conteúdo dos emails dos parlamentares são públicos. Aqui, lutar pela transparência na política ainda é importante. A questão da inclusão digital, banda larga, também é muito importante. Banda larga não é um problema por lá. E o uso do software livre e formatos abertos na administração pública. Quebrar os monopólios. Essa é a diferença principal. O resto não é muito significativo.”
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Segundo Jorge, o momento do partido agora é de estruturação da rede brasileira, organizar os coletivos locais em encontros presenciais, não apenas no mundo online. A legalização do partido será consequencia. Jorge não acha, também, que as alianças no Brasil seguirão as tendências suecas. “Lá são aliados do PV, aqui é difícil que isso aconteça. A gente bate forte na transparência, e os partidos tradicionais não defendem isso. Não queremos repetir as mesmas práticas dos partidos tradicionais.”

Fonte: Brasil de Fato

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Mundo

Vermelho - 15 de Janeiro de 2010 - 12h33

Pirataria não é crime, é política, defende partido sueco

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Nos anos 80, quando alguém copiava uma fita ou gravava a novela das oito no video-cassete pra ver mais tarde, ninguém chamava isso de crime; hoje, ao emprestar um tocador de MP3 de um amigo e copiar suas músicas ou baixar da internet algum filme, você pode ser processado por algumas das maiores empresas do mundo. As leis são as mesmas, mas agora o cenário mudou: gravadoras e distribuidoras estão em crise. E um dos culpados pela crise, segundo eles, pode ser facilmente identificado: é você.

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Nos últimos anos, processar usuários de internet e fechar sites de compartilhamento de arquivos tem sido a estratégia das maiores empresas do mundo da música. Paradoxalmente, a criminalização da troca de arquivos online deu início a um movimento contrário: a luta pela alteração do atual sistema de propriedade intelectual e direito de cópia – o chamado copyright.

Assim surge, na Suécia, em 2006, o Partido Pirata. De lá pra cá, a ideia se espalhou pelo mundo e partidos piratas começaram a se organizar em pelo menos 25 países. Entre eles, o Brasil. O Partido Pirata sueco nasceu com apenas três pontos em sua plataforma política: alterar a lei do copyright para que todo o conhecimento e produção cultural possam ser copiados, se não forem usados para fins comerciais; abolir o sistema de patentes; e respeitar o direito à privacidade.
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Eleita pelo Partido Pirata da Suécia, Amelia Andersdotter é a mais jovem membro do Parlamento Europeu. Com 22 anos, e empossada agora em dezembro, ela esteve no Brasil em novembro para o Seminário Internacional de Cultura Digital Brasileira, realizado em São Paulo.
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Em paralelo à programação oficial, rodas de conversas entre os participantes foram organizadas e gravadas para discutir os assuntos abordados no Seminário. O jornal Brasil de Fato participou da conversa entre a parlamentar pirata sueca, o gerente de Cultura Digital do Ministério da Cultura, José Murilo Jr., e o diretor de políticas públicas do Google, Ivo Corrêa. Abaixo, os principais trechos:
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Brasil de Fato: Por que ser contra o copyright?
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Andersdotter: É um modelo antigo e estou confiante que existem novos modelos. O Creative Commons (CC), por exemplo, está ficando mais forte. [O CC é um contrato que permite uma flexibilidade na utilização de obras protegidas por direitos autorais, sem infringir as leis de proteção à propriedade intelectual].
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Os cinemas também estão indo muito bem, ficando mais fortes. Nós estamos rodeados de informação todos os dias. Uma cópia é só um produto, ninguém quer pagar por isso, mas o cinema é toda uma experiência que as pessoas estão dispostas a pagar. É um serviço. Vemos isso ocorrer com a música ao vivo, uma experiência única que as pessoas querem pagar, colocar tempo e esforço nisso. Acho que é por aí que os criadores culturais terão que ir, terão que ser mais criativos, encontrar novos modelos. E não é papel de um legislador exigir que as pessoas fiquem agarradas a um modelo que está vencido há pelo menos 10 anos.
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Ivo Corrêa: E é importante acrescentar algo. É um pequeno grupo de artistas que, hoje, pode viver vendendo cópias de livros ou CDs. A maioria dos artistas não vive de vender CDs. Deveríamos gastar energia e dinheiro em novos modelos. A Apple faz muito dinheiro vendendo música online de maneira criativa. Melhor tentar descobrir o novo do que tentar lutar para manter o antigo.
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Andersdotter: Muitas das políticas feitas hoje são feitas para manter o velho mercado. E as políticas públicas deveriam ser focadas em permitir a participação e a colaboração das pessoas. Pensando bem, talvez, numa economia digital, sem copyright, nós não tenhamos mais um Paul McCartney dirigindo uma BMW. Talvez esse tipo de artista não possa existir mais. 

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Eu ouço esse argumento sempre: onde estarão os Hitchcocks numa economia digital? Como eles irão surgir? Bom, nós não temos mais um Hitchcock desde os anos 60. Talvez não tenhamos que ter outro. Talvez o ambiente digital seja completamente diferente, e deva ser mesmo. E a política tem mesmo que pensar mais na política colaborativa em vez de defender os velhos mercados.
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O Partido Pirata propõe mudanças substanciais nas leis de direito autoral. Mudanças no mercado de telecomunicações. Mais privacidade. Menos vigilância, nenhuma censura. Mais compartilhamento de informações, transparência, mesmo as que sejam controversas. Esses são problemas que vemos na Europa nos últimos anos: governos querendo vigiar cidadãos.
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Brasil de Fato: Quem são seus eleitores?
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Andersdotter: A maioria homens e jovens. Existem pessoas tanto de esquerda quanto de direita. Por que mais homens que mulheres? Bem, acho que esse debate é bastante dominado pelos homens, você não vê tantas mulheres discutindo copyright. E acho que o efeito multiplicador ocorre dentro dessas estruturas masculinas.
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Brasil de Fato: Como o partido lida com as diferenças entre esquerda e direita?
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Andersdotter: Temos bastante acordo sobre quais mudanças precisam ser feitas para uma sociedade da informação mais justa. Então há acordo sobre onde queremos chegar. Algumas vezes temos alguma discordância sobre como vamos traçar este caminho.
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Brasil de Fato: E isso ocorre em todos os assuntos? Meio ambiente, trabalho...
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Andersdotter: Não, não. Nós não discutimos esses assuntos. Estamos totalmente voltados para inovações nas políticas culturais criativas, em geral. Mas eu poderia perguntar a mesma coisa sobre o Brasil. Me disseram que vocês têm um governo que incentiva a participação social, mas o Senado, parece, não coopera muito a respeito disso... Como vocês lidam com isso?
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José Murilo Jr.: Me parece um problema de gerações. Aqui no Brasil os jovens não acreditam mais no governo. Eles preferem movimentos sociais em vez de criar um novo tipo de partido político. As pessoas me parecem mais felizes em fazer isso do que entrar nos velhos esquemas partidários. Por que vocês optaram por este caminho?
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Andersdotter: Apesar de todas as redes sociais que existem na sociedade civil, quase toda regulamentação é feita nos parlamentos. Ali é o campo de batalha, ainda. E tudo o que sai do Parlamento Europeu tem impacto no mundo todo. É uma batalha importante também, mudar as coisas de dentro. Movimentos sociais são ótimos. O parlamento é mais lento. Mas, provavelmente, também é bom, em algum nível.
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Brasil de Fato: O modelo do Creative Commons é uma solução?
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Andersdotter: Laurence Lessig [criador do CC] é um advogado. O que eu sempre observo em advogados é que eles não são contrários aos direitos de propriedade. É conveniente transformar o conhecimento em propriedade, porque facilita a criação de contratos mais amarrados, facilita a solução de conflitos.
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Se você quer ser radical sobre copyright, então você precisa defender o copyleft, não o CC [o copyleft é a oposição ao copyright. No copyleft, tudo é permitido]. Porque o copyleft é um modelo mais comunitário (dos “commons”). O sistema CC é mais uma maneira de flexibilizar o sistema atual de copyright.
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Ivo Corrêa: O Creative Commons tem um mérito: de informar os autores que eles podem decidir como sua obra será usada. O autor fica sabendo que tem uma escolha. O principal mérito, acho, é informar as pessoas que a lei não precisa determinar tudo. No Brasil, a maioria acha que não tem opção. Que é tudo copyright.
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Andersdotter: Existe uma falha nessa argumentação, que é a seguinte: consideremos que o Creative Commons mostra às pessoas que elas podem fazer uma escolha. Mas elas não deveriam ter essa escolha. Quando alguém decide criar informação, ou cultura, toda a produção deveria, automaticamente, ser livre. E, talvez, apenas em poucos casos, a escolha pudesse ser ao contrário: escolher proibir o acesso. Mas tudo, em geral, por definição, seria livre.
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Mas o sistema de Creative Commons garante, ao menos, que o autor seja reconhecido pela obra. Pode tudo, desde que citada a fonte. No copyleft não existe essa garantia.
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Na comunidade artística, me parece que existe uma integridade mínima de não se apropriar do trabalho do outro. Se você faz um filme, não acho que ninguém pegaria seu filme e colocaria o nome dele em cima. Em primeiro lugar, seria vergonhoso. Segundo, você faria inimigos. Acho que isso seria autorregulado pela comunidade. Assim, me parece que o copyleft, basicamente, resolve tudo.
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Brasil de Fato: Por que ser pirata?
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Andersdotter: Pirata não é uma palavra inventada por nós, mas sim pelas gravadoras e industria cinematográfica que querem estigmatizar o ato de piratear filmes ou música como algo mal. O que nós temos feito é dar um sentido positivo e de rebeldia. Ser pirata não é algo que tenhamos que nos envergonhar. Ao contrário, é muito nobre e se você é pirata está compartilhando a cultura e a informação.
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Com informações de Brasil de Fato

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