Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vencendo os mitos da Aids: portadores de HIV se tornam avós


Geral

1 de Agosto de 2010 - 15h28

Quem recebe a notícia de que está com HIV, em geral, tem toda a vida desestruturada. Mas, depois que a poeira baixa, quem segue um tratamento adequado pode viver uma situação bem melhor. De acordo com pesquisa da Casa da Aids do Hospital da Clínicas de São Paulo, a maioria das pessoas que descobriram a doença há dez anos ou mais hoje está num relacionamento estável, trabalha e mantém uma vida social ativa.

Por Mariana Desidério, no
Terra Magazine

Para a diretora da Casa da Aids, Eliana Gutierrez, os dados são surpreendentes. "A gente realmente não imaginava", diz. Em números, são 75% dos pacientes trabalhando, 68% vivendo com família ou amigos e 59% em relações amorosas estáveis. Destes, dois terços fazem sexo com quem não tem o vírus e 90% contaram ao parceiro que são portadores do HIV.

O que explica os bons resultados, segundo a diretora da instituição, é o tratamento. "Estas pessoas estão usufruindo hoje dos benefícios da medicação", conta. O fato de terem recebido o diagnóstico há bastante tempo também é importante. "O diagnóstico tem um poder de desorganização de todos os domínios da vida que não é pequeno. Essas pessoas já passaram pela fase do choque do diagnóstico", afirma a diretora.

Para ela, um dos méritos da pesquisa é mostrar o que pode acontecer com um soropositivo após esse choque inicial. "Muitas vezes, quando as pessoas recebem o diagnóstico e iniciam o tratamento, não conseguem enxergar o que vai acontecer dali alguns anos. Nós estamos mostrando o que pode ocorrer com pessoas que já têm diagnóstico há muitos anos e já estão em tratamento", diz.

Quem tem HIV também está envelhecendo. A média de idade dos pacientes da Casa da Aids é de 44 anos. "É possível envelhecer com Aids, envelhecer mesmo, ir ficando velho. Muitos dos meus pacientes já têm netos, e eu ainda não tenho. Está acontecendo um envelhecimento da epidemia e um dos fatores é que as pessoas que vivem com HIV e fazem o tratamento estão sobrevivendo muito tempo", afirma Eliana.

O outro fator que explica este envelhecimento não deve ser comemorado. A diretora da Casa da Aids explica que, diferente dos jovens, que cresceram ouvindo sobre a importância dos preservativos, as pessoas mais velhas não têm o hábito de usá-los. O resultado é que quem tem mais idade está contraindo o vírus.
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Caymmi simbolizou projeto de civilização de que Brasil se afastou

Cultura

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Vermelho -17 de Agosto de 2009 - 18h59
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Há um ano, em 16 de agosto, Dorival Caymmi morria no Rio de Janeiro, aos 94 anos. Presença cordial e canônica, o compositor baiano continua a oferecer um itinerário de sabedoria e candura em suas canções, apesar de ter deixado uma herança difusa na música popular brasileira (o que certamente lhe agradaria).

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Em entrevista ao Terra Magazine, o ensaísta e letrista Francisco Bosco, autor do livro "Dorival Caymmi", avalia "a lição de perfeição e simplicidade na articulação entre letra e melodia" deixada pelo Buda Nagô.
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"No meu entender trata-se de um projeto de civilização - mestiço, alegre, erótico, com boa dose de ócio - de que o Brasil se afastou, em parte empurrado pelo capitalismo desenfreado em nível mundial", afirma.
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Francisco Bosco ressalta que o autor de "O mar" e "Dora" foi tão radical quanto o músico João Gilberto, um dos catalizadores da Bossa Nova. "Ainda que não pareça, Caymmi é tão radical quanto João: a perfeição da relação letra/melodia é o resultado de uma paradoxal ascese sem esforço. Um rigor assim tão relaxado tem muito a ver com o projeto da bossa nova".
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Em seu ensaio publicado em 2006, Bosco faz uma síntese do cancioneiro caymmiano: "Simples, coloquiais, apimentados, dengosos, rebolados, os sambas de Caymmi possuem aquela que talvez seja a virtude maior da canção popular: provocam a vontade de ouvi-los e reouvi-los, de decorá-los (o que se faz sem se dar conta) e cantá-los e cantá-los e cantá-los. São canções que parecem anônimas, parecem ter surgido espontaneamente das igrejas, dos sobrados, das ladeiras, do dendê, do vatapá, do requebrado das baianas".
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Leia a entrevista de Francisco Bosco, concedida por email.
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Se é difícil dizer de onde veio a música de Caymmi, como já falou Chico Buarque, é possível identificar as heranças deixadas por ele na música brasileira?
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Até onde posso ver, é claro que o impacto de Caymmi nos cancionistas foi profundo: suas novidades harmônicas, seu violão, digamos, tridimensional, e sobretudo a lição de perfeição e simplicidade na articulação entre letra e melodia são aspectos que se deixam notar na obra de muitos cancionistas seus herdeiros. Entretanto não vejo ninguém cuja obra resulte direta e primordialmente de Caymmi, no mesmo sentido em que se pode dizer, por exemplo, que um Jorge Vercilo resulta de Djavan.
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Em seu livro, você diz que a palavra "dengo" é definidora da representação feminina de Caymmi. Qual é o abismo que o separa do feminino da axé music? O axé não bebe numa fonte em comum, o samba do Recôncavo Baiano?
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O abismo, no fundo, é do mundo: o mundo perdeu a inocência.
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O antropólogo Antonio Risério situou a obra de Dorival Caymmi numa Bahia "pré-industrial". A urbanização feroz do Brasil, da Bahia, com o crescimento da violência, realçou ainda mais o poético nos sambas sacudidos e nas canções praieiras?
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Sim, Risério chega a dizer que, na época que ela surgiu, a obra de Caymmi apresentou como que uma Bahia utópica para o Brasil. Hoje ela revela uma Bahia utópica para os próprios baianos. No meu entender trata-se de um projeto de civilização - mestiço, alegre, erótico, com boa dose de ócio - de que o Brasil se afastou, em parte empurrado pelo capitalismo desenfreado em nível mundial.
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Como foi sua aproximação da obra de Caymmi?
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Num primeiro momento foi quando eu era bem criança, com uns cinco anos. Meu pai (o compositor João Bosco) colocava Caymmi para eu escutar e eu me lembro de pedir sempre para ele colocar de novo, e de novo, e de novo. Depois seria impossível dizer quando me aproximei, pois Caymmi é como a linguagem: algo que está aí desde sempre.
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O talento dele como intérprete das próprias canções não é pouco destacado?
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Não percebo isso. Concordo com Risério que não há nada melhor do que Caymmi par lui-même. Os sambas sacudidos e os sambas-canção ainda deixam-se interpretar bem por outros, mas quando se trata das praieiras... Acho que só o próprio mar poderia interpretar O mar melhor que Caymmi.
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Há uma leitura de que o Rio de Janeiro é quase que ausente no cancioneiro caymmiano. A fase do "samba-canção" contradiz essa leitura? Foi uma escolha consciente a de "desprezar" as belezas geográficas?
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Deleuze, o filósofo, diria que Caymmi canta um devir-Bahia, isto é, suas canções não recordam um lugar, mas materializam um bloco de sensações, de afetos, que presentificam uma Bahia. A Bahia está para Caymmi como Combray para Proust. Isso me parece o mais importante, e nada tem a ver com desprezar as belezas do Rio (que, depois, nos sambas-canção, como você sugere, ele chegaria a cantar). É que a fonte da obra dele é a Bahia.
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João Gilberto sempre se mostrou devedor a Caymmi, mas o que define essa proximidade? A concisão caymmiana é uma dessas influências?
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Sim, a concisão, a simplicidade, o tempero incomparável, e uma concepção radical da canção.
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Ainda que não pareça, Caymmi é tão radical quanto João: a perfeição da relação letra/melodia é o resultado de uma paradoxal ascese sem esforço. Um rigor assim tão relaxado tem muito a ver com o projeto da bossa nova.
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O que garante a permanência da música de Caymmi?
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O mesmo que garante a presença de todo artista num cânone: a diferença produzida por sua obra.
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Fonte: Terra Magazine
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sábado, 4 de julho de 2009

Dorival Caymmi e seu acervo vão para a internet

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É fácil, quase institivo, balançar o corpo na batida dos sambas do baiano Dorival Caymmi. Para divulgar seu legado na vida e na música, foi lançado um site biográfico e um acervo digital de sua obra. O projeto foi idealizado pelo filho do artista, Danilo Caymmi, pelo neto Gabriel Caymmi e pelo músico Paulo Jobim, filho de Tom.

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Durante mais de um ano, o projeto catalogou documentos, poemas, cartas, fotos, capas dos discos e partituras. Dá para ir lá conhecer os manuscritos de Rosa Morena. É possível também ouvir uma seleção de discos do autor e ver suas capas.

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Só ir lá no endereço www.dorivalcaymmi.com.br e buscar o item "Música". Vá lá e ouça, por exemplo, o clássico disco Ary Caymmi Dorival Barroso, de 1958, em que os dois autores tocam e interpretam canções um do outro.

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Dá para ouvir Na Baixa do Sapateiro na voz de Caymmi e Marina no piano de Barroso. O disco da gravadora Odeon é uma raridade do acervo do compositor disponível na internet, daquelas grandes possibilidades que a internet traz gratuitamente.

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Aliás, acervos interessantes como esse de Caymmi podem ser encontrados na internet. Basta só de gostar de música brasileira. Exemplos? A Rádio da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e a Rádio do Instituo Moreira Salles (IMS).

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Fonte: Terra Magazine

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in Vermelho -





2 DE JULHO DE 2009 - 21h10






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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Música de Baleiro celebra ''neguim'' Michael Jackson



No ano em que surgiram as primeiras denúncias de pedofilia contra Michael Jackson, um admirador brasileiro se compadeceu e fez uma música em homenagem ao astro. A composição de Canção Prá Ninar Um Neguim, por Zeca Baleiro, coincide com o ano em que o astro, morto nesta quinta-feira, 25, de parada cardíaca, veio pela segunda vez ao Brasil: 1993.


Michael Jackson visto por Ique, no 'JB Online'
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Zeca Baleiro nunca gravou a música. Toca, de vez em quando em um ou outro show. Numa tarde de 2002, seu amigo e parceiro Renato Braz se preparava para gravar um disco, Quixote. Passou na casa de Baleiro, em São Paulo, a fim de colher do amigo uma música nova para incluir no cd.
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Acabaram tocando, sem combinar, Canção Prá Ninar Um Neguim. ''Não fui eu que escolhi a música. Foi a música que me escolheu'', diz Braz, que gravou a canção e venceu o Prêmio Visa de MPB naquele ano.
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''Foi uma declaração de amor ao Michael Jackson'', conta Braz, cantor de música popular brasileira, de uma tendência não visivelmente marcada pela influência do artista norte-americano. Uma prova da abrangência de Jackson. ''Tenho todos os discos. Até os discos que eu acho ruins, porque, quem sabe algum dia, posso me encantar com algo que eu ainda não percebi...''
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''Queria andar com os pés como se tivesse flutuando como ele fazia'', lembra-se Braz. ''Embalou minha infância''. Quando criança em São Paulo, conta Braz, ''ouvia Tim Maia e Michael Jackson como se fossem da mesma família''. ''A musica dele é universal, chegou no subúrbio quando estava só começando'', impressiona-se o cantor.
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Braz atribui o sucesso do popstar à ''verdade com que ele conduziu sua carreira''. Michael Jackson e Tim Maia, a dupla de novo: ''não representavam uma só classe. Fazem música abrangente''.
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Confira a letra da música Canção Pra Ninar Um Neguim na íntegra:
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Preto pretinho
Eu sou do gueto
Branquinho de alma negra como tu
Meu dialeto
Sem preconceito
I don't know how to dance tua dança
But, I like you
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Preto pretinho
Qual o crinho da tua alma blue
Essa África do Sul
Preto pretinho
Será que há jeito de ser como tu
Meio rosa e azul
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Chora neguinho
Chuva de efeito e gelo seco
Não sarará a dor
Duerme negrito
Sonha Soweto
Mama no peito da mãe
Que te fez cantor
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Neguim jeitoso
É perigoso viver sim senhor
Tem espinho e tem flor
Neguim moderno
O inferno é frio e no céu faz calor
Traz o teu cobertor
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Fonte: Terra Magazine
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in Vermelho - 27 DE JUNHO DE 2009 - 20h31
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

A última entrevista de Augusto Boal, o ativista teatral


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A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo. Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte. Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos. Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Ao que me consta, foi a última longa entrevista concedida por ele.

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por Ana Paula Sousa
para o Terra Magazine



ATIVISTA TEATRAL

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Foi no Thèatre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.

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O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?

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Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.

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Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

.

Boal: Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.

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Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.

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Na prática, isso significa o que?

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Boal: Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.

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O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.

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As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.

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O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.

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Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

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Boal: O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.

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Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.

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O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

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Boal: Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.

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O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.

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Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

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Boal: Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.

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O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.

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Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.

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Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

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Boal: Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.

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A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.

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Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?

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Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

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Boal: Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.

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Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.

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A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.

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O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

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Boal: Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.

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Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.

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Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.

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No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.

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Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.

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Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.

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Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

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Boal: Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.

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Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.

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Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.

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O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?

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Boal: Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.

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A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.

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Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

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Boal: Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.

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Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.

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Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.

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Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.

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Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

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in Vermelho . 3 DE MAIO DE 2009 - 19h24

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domingo, 3 de maio de 2009

A última entrevista de Augusto Boal, o ativista teatral




A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo. Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte. Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos. Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Ao que me consta, foi a última longa entrevista concedida por ele.

por Ana Paula Sousa
para o Terra Magazine



ATIVISTA TEATRAL

Foi no Thèatre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.


O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?


Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.


Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

Boal: Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.


Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.


Na prática, isso significa o que?

Boal: Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.


O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.


As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.


O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.


Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

Boal: O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.


Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.


O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

Boal: Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.


O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.


Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

Boal: Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.


O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.


Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.


Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

Boal: Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.


A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.


Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?


Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

Boal: Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.


Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.


A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.


O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

Boal: Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.


Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.


Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.


No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.


Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.


Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.


Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

Boal: Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.


Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.


Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.


O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?


Boal: Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.


A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.


Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

Boal: Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.


Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.


Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.


Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.


Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

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in Vermelho - 3 DE MAIO DE 2009 - 19h24

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