Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco José Viegas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco José Viegas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Bento Espinoza

Você está em: Homepage / Francisco José Viegas / Notícia
Correio da Manhã
 
23 Novembro 2009 - 00h30

Opinião

Blog

Amanhã comemora-se mais um aniversário do filósofo Bento Espinosa, Baruch Espinosa na sua forma hebraica; de origem portuguesa (da Vidigueira) nasceu em 1632, na Holanda, onde a família se refugiou para fugir da Inquisição portuguesa.
.
Foi excomungado pela Sinagoga Portuguesa de Amesterdão em 1656 por defender que a Bíblia não deve ser tomada à letra; pelo contrário, é uma alegoria sobre a História, tal como Deus é uma espécie de representação da própria Natureza.
.
Tivessem sido aceites as teses de Espinosa e não andaríamos, em 2009, 350 anos depois, a discutir o dogma banal da crueldade divina ou atrapalhados com a distinção entre ética e política. Jorge Luís Borges escreveu-lhe um poema belíssimo sobre “o homem que engendra Deus”. Não aprendemos a sua lição.
.
.

Francisco José Viegas, Escritor
.
.

"A Origem das Espécies", de Charles Darwin

Você está em: Homepage / Francisco José Viegas / Notícia
Correio da Manhã
 
24 Novembro 2009 - 00h30

Opinião

Blog

A Origem das Espécies’, de Charles Darwin, que mudou a nossa forma de pensar o ser vivo e a relação com a Natureza, foi publicado há exatamente 250 anos, assinalados hoje em todo o Mundo. Poucos leram ‘A Origem das Espécies’ – é um livro surpreendentemente bem escrito, com o dom da clareza.
.
Um retrato maravilhado só podia comover os criacionistas, que defendem a intervenção da Mão Divina (desta forma ou sob a forma do "desenho inteligente") na criação do Mundo e na evolução do ser vivo; pelo contrário, não só relativizam a importância de Darwin como alguns o denunciam como o grande inimigo ("adversário" não basta) da religião. Não interessa. Só o facto de permanecerem imunes à beleza deste livro já é assustador.
.
.

Francisco José Viegas, escritor 
.
.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cem mil visitam Darwin

13 Fevereiro 2009 - 00h30

Ciência: Na fundação Calouste Gulbenkian até 24 de Março

Cem mil visitam Darwin

Entre 70 a 100 mil pessoas vão passar, a partir de hoje e até 24 de Maio, pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde está patente uma exposição sobre a vida e legado de Charles Darwin. ‘A Evolução de Darwin’, é considerada a "melhor exposição sobre Darwin em toda a Península Ibérica", conforme afirmou Mariano Gago, ministro da Ciência e Tecnologia. Poderá ser vista de terça-feira a domingo, entre as 10h00 e as 18h00, por 4 euros.



A expectativa junto do público mais jovem é enorme, tanto mais que as 600 visitas programadas para grupos de alunos estão esgotadas há mais de um mês e meio, existindo ainda uma lista de espera com centenas de escolas. "Essa é a nossa grande aposta. Às escolas que não conseguiram acesso a uma visita guiada, estamos a disponibilizar exactamente o mesmo material pedagógico que fornecemos às outras. Isso inclui uma biografia de Darwin, um livro ilustrado sobre evolução e manuais de visita detalhados", afirmou ao CM o biólogo José Feijó, comissário científico da exposição.

A iniciativa está inserida nas comemorações dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação do livro ‘A Origem das Espécies’, obra que mudou a forma como a Humanidade se via a si própria até à época.

Os grandes focos de atracção são, de acordo com José Feijó, a reconstituição da figura do naturalista inglês e a réplica do barco ‘HMS Beagle’. Quem visitar a exposição vai poder encontrar logo à entrada um Charles Darwin, em tamanho real, a observar um escaravelho na mão esquerda. A réplica foi feita por Elisabeth Daynss, com base em registos fotográficos do inglês, responsável por reconstituições famosas como a de Tutankhamon.

"Nesta antecâmara, a ideia é fazer uma ‘lavagem cerebral ao visitante’ de forma a que o visitante se depare com o mesmo cenário da época que antecedeu a Darwin", explicou José Feijó, realçando a importância deste ambiente: "É uma época de debate de ideias que motivou os interesses e as descobertas de Darwin."

Após esta viagem ao passado, o visitante entra num percurso alucinante de descobertas científicas que marcaram a Humanidade para sempre. Nos oito espaços distintos da exposição, estão em exibição vídeos sobre Darwin, a réplica do navio ‘HMS Beagle’ e um espólio riquíssimo de vários museus nacionais e internacionais.

INVESTIMENTO DE 1,3 MILHÕES

Para concretizar esta exposição foi necessário um investimento de 1,3 milhões de euros. "O objectivo não era criar algo que acabasse no final da exposição. Será algo maior que terminará com a construção de um museu permanente em Oeiras no final de 2011. Até lá, a exposição irá percorrer várias cidades do Mundo", explicou José Feijó.

FIGURAS-CHAVE DA EVOLUÇÃO HUMANA

1735 – Carl Linnaeus sugere que as plantas descendem de um antepassado comum. Publica ‘Sistema Naturae’, a base da taxinomia moderna.

1858 – Alfred Russel Wallace envia um ensaio a Darwin, no qual apresenta ideias sobre a evolução natural das espécies, pressionando Darwin a escrever ‘A Origem das Espécies’.

1865 – O monge checo Gregor Mendel investiga o caracter hereditário. As suas ideias só serão, contudo, reconhecidas no século XX.

1925 – O professor norte-americano John Scopes é condenado, no que ficou conhecido como o ‘Julgamento do Macaco’, por ensinar a Teoria da Evolução no Estado do Tennessee.

1933 – O extermínio na Alemanha Nazi baseou-se em experiências eugenistas, na Califórnia, onde 60 mil pessoas foram esterilizadas.

1953 – Descoberta a estrutura do ADN por James Watson e Francis Crick. Conhecido o código genético, surge a oportunidade de estudar a biologia molecular da evolução.

CRIACIONISMO CONTESTA EVOLUÇÃO

Na exposição da Gulbenkian está patente uma escada de ADN com 3,6 metros de altura que assinala a descoberta do código genético. Este avanço na Ciência não diminuiu a polémica nos EUA, existindo escolas que recusam ensinar a Teoria de Evolução de Darwin por acreditarem na criação divina. O ex-presidente Bush na campanha de 2000 defendeu o tratamento igual para as duas correntes.

CRONOLOGIA

1809

Charles Robert Darwin nasce a 12 de Fevereiro em Shrewsbury, em Inglaterra, no seio de uma família abastada. O pai, Robert Waring Darwin, era um reconhecido médico inglês que tentou recrutar o filho para a mesma profissão.

1825

Após uns primeiros anos de rebeldia, o pai decide dar um rumo a Darwin, inscrevendo-o no curso de Medicina na Universidade de Edimburgo. Dois anos depois, Charles Darwin abandona os estudos.

1831

A 27 de Dezembro, Charles Darwin deixa Plymouth a bordo do Navio de Sua Majestade Beagle. Com apenas 22 anos, dá início a uma viagem que terminaria em 1836. A primeira paragem foi em Cabo Verde.

1835

Em Setembro chega às ilhas Galápagos, onde as observações de Charles Darwin lhe permitem sustentar a teoria da evolução apresentada mais tarde.

1839

Em Maio, Charles Darwin publica ‘A Viagem do Beagle’ no qual descreve a aventura de cinco anos. No mesmo ano casa-se com a prima Emma Wedgood, com quem tem dez filhos. Muda-se para uma quinta em Downe onde morre.

1859

Uma reflexão de 20 anos até publicar o livro ‘A Origem das Espécies’, apresentando a sua teoria da selecção natural.

1871

Darwin publica ‘A Descendência do Homem’ demonstrando que Homem e macaco têm o mesma origem.

1882

A 19 de Abril, Charles Darwin morre com 73 anos, sendo enterrado na Abadia de Westminster.

INICIATIVAS

RECEITA DE BOLO

Receita de bolo de aniversário do cientista que a esposa, Emma, realizava. Disponível em www.darwin2009.pt.

RÉPLICA DO CIENTISTA

Réplicas do cientista e de hominídeos podem ser vista no Parque Biológico de Vila Nova de Gaia.

DIÁLOGO COM A ESPOSA

Conversa entre o cientista e a esposa Emma, no Centro de Ciência Viva de Aveiro.

ESPÓLIO NACIONAL

Exposição no Museu de História Natural da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

IMPACTO NA CIÊNCIA

4.º Ciclo de Conversas na Aldeia Global: ‘Do Mundo Fechado ao Universo Infinito’, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, pelas 21h30, a 12 de Setembro, 12 de Março e 16 de Abril.

ZOO

Em colaboração com o Jardim Zoológico de Lisboa, há animais vivos numa galeria anexa ao recinto da exposição, como tartarugas. A mostra na Gulbenkian integra também colecções de vários museus nacionais.

André Pereira

d.r.
15 Fevereiro 2009 - 00h30

Viagem no ‘HMS Beagle’

Portugal na rota de Darwin

A viagem de Charles Darwin a bordo do ‘HMS Beagle’ começou e terminou em terras bem conhecidas dos portugueses. A primeira paragem do navio, a 16 de Janeiro de 1832, foi na ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde. No regresso às terras de Sua Majestade, a ilha Terceira foi o porto de abrigo do ‘HMS Beagle’. O naturalista inglês esteve de 19 a 22 de Setembro de 1836 em território português



PERFIL

Charles Robert Darwin

Data de Nascimento: 12 de Fevereiro de 1809

Data da sua Morte: 19 de Abril de 1882

Jovem traquina, Charles Darwin desde cedo revelou pouco interesse pelos livros escolares, chegando mesmo a desistir do curso de Medicina imposto pelo pai. Com apenas 22 anos, inicia a sua viagem a bordo do ‘HMS Beagle’ que iria mudar a sua vida para sempre. O resultado desses cinco anos foram ‘A Origem das Espécies’ e ‘A Descendência do Homem’

DATAS DA VIAGEM

19 de Setembro de 1836 - ‘HMS Beagle’ ancora na Terceira

20 de Setembro de 1836 - Darwin aluga uns cavalos e ruma até ao interior da ilha acompanhado de alguns guias

21 de Setembro de 1836 - Passeou pela costa, visitou a cidade de Angra e regressou ao barco ‘HMS Beagle’

22 de Setembro de 1836 - Darwin deixa os Açores rumando a Inglaterra
.
12 Fevereiro 2009 - 00h30

Opinião

Blog

Charles Darwin nasceu há exactamente 200 anos. A data tem pouca importância, porque ‘A Origem das Espécies’ foi publicada quando completou cinquenta anos. É a obra de uma vida – e da nossa vida, mesmo que não saibamos o que vem lá dentro.

O espírito moderno (na ciência, na observação, na vida) deve muito a Darwin, de quem gosto de recordar sobretudo a grande viagem à volta do Mundo, a bordo do navio ‘HMS Beagle’. O desprezo por Darwin continua a ser corrente nos nossos dias, fomentado pela cegueira e pela ignorância que, no entanto, não abalam a sua prodigiosa aventura, feita de descoberta, intuição, observação, encantamento. Até nisso Darwin é moderno, não atribuindo à ‘humanidade’ um lugar central no universo, preferindo situá-la na sua condição e na sua circunstância.

Francisco José Viegas, escritor

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Alexander Solenitsin, o do Gulag, morreu




Clicar nas imagens para ler
.

Pergunta estupidamente inocente e mentecapta do autor deste Blog - Ao longo de séculos não existiu um único escritor ou «obra» que relativamenta ao Capitalismo o tenha abalado e denunciado campos de concentração, holocaustos, genocídios, destruição de culturas e civilizações «cientifica e tecnologicamente» avançadas como as da chamada América Latina, os Reinos do Congo e de Benim, a China, a Índia, o Japão? Ou em contacto com a natureza para assegurar apenas as necesssidades naturais de subsistência como os ameríndios dos EUA ou da Amazónia ou da Oceânia?
.
Em séculos de capitalismo nenhuma obra ou escritor denunciou os crimes da escravatura, a exploração laboral de homens, mulheres e de crianças, as guerras religiosas intercapitalistas e de rapina? Ninguém denunciou que as «mulheres» eram coisas, seres talvez sem alma? Ninguém denunciou as condições de vida insalubres e miseráveis das classes trabalhadoras, incluindo a Sibéria do Czar de todas as Rússias e Pai dos Povos, «bondoso/misericordioso» ? Andamos a discutir o Sexo dos Anjos quando Istambul está cercada e prestes a ser derrotada? Ou «o último a sair que feche a posta, perdão, porta»?
.
Para além do Director e seus adjuntos subordinados a um «boss», que distingue um jornal dito de referência somando prejuízos crescentes dum semi-tablóide líder de audiência em crescimento?
.
.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Há 120 anos: Sud-Express: um comboio chamado liberdade





1887 - Inauguração SUD Express
Sud-Express - 1939



* Myriam Zaluar

O Sud-Express ligava Paris e Lisboa, trazendo para Portugal a cultura e o glamour vindos da Europa ‘civilizada’.

Corre o ano da graça de 1887. A 21 de Outubro, parte de Paris o novíssimo Sud-Express, comboio de luxo tendo por destino as duas capitais ibéricas, Madrid e Lisboa. A composição, que dispõe de duas carruagens-cama e restaurante, chega à Estação de Santa Apolónia 43 horas depois.

Naquele domingo, 23 de Outubro – seriam 15h27 –, segundo a Imprensa da época , a família real encontrava-se ausente de Lisboa, mas a festa prolongou-se por dois dias, com banquete nos salões do Teatro da Trindade e almoço em Sintra para todos os ilustres convidados da Companhia Internacional dos Wagons-Lits.

Durante os anos que se seguiram, o Sud-Express serviu de mediador entre Portugal e o chamado mundo civilizado.

O paraíso à beira-mar plantado já padecia do seu atraso crónico e o luxuoso comboio vinha de certo modo colmatá-lo, ‘ma non troppo’: “As modas de Paris chegam-nos, sempre atrasadas, pelo Sud-Express”, comentava às tantas o atento Eça. Por essa altura já teria sido inaugurada a Estação do Rossio e a construção vizinha, o imponente Avenida-Palace.

O Sud passa a desembocar no neomanuelino terminal e os passageiros clientes do hotel usufruem de uma vantagem inédita: em vez de se dirigirem para a saída, descendo os vários lanços de escadas até à rua, dispõem de uma passagem directa para o interior do Palace. Um ‘must’.

A Belle Époque coincide com o período de glória do comboio, que continua a trazer de Paris as novidades europeias.

Em 1914, contudo, a Primeira Guerra Mundial interrompe a circulação, retomada em 1921. A marcha, porém, tornou-se mais lenta devido às dificuldades decorrentes do conflito.

A Guerra Civil de Espanha impõe novas restrições às ligações ferroviárias. Vivem-se tempos de crise na Europa e os comboios sofrem alterações constantes nos seus trajectos.

De veículo privilegiado de cultura, o Sud-Express passa então a assegurar uma nova função: a de meio de fuga de cidadãos perseguidos rumo à liberdade.

Ivette Davidoff tem hoje 86 anos e vive em Lisboa. Nascida no seio de uma família judaica de Viena, foge em Março de 1938 da capital austríaca e da ameaça nazi rumo a Paris, onde se instala com a mãe e o cão pincher. Aí vivem durante algum tempo com o tio paterno e a esposa deste.

Porém, a 11 de Junho de 1940, são obrigados a partir de novo “no último Sud-Express que saía de Austerlitz” e que, devido à guerra, só seguia até Bordéus. “Era o pesadelo da partida”, recorda. “Passámos dois dias e duas noites na estação, até que o meu tio conseguiu um lugar num compartimento”. O comboio estava apinhado. “As pessoas amontoavam-se por todo o lado, até havia gente a viajar no tejadilho”.

Durante dois anos, a família permanece em Pau, “na França livre, mais longe dos alemães”, onde pensava “poder esperar pelo fim da guerra, mas os alemães tinham tomado o Sul de França”. Mãe e filha são obrigadas a fugir novamente. Desta vez dirigem-se a Madrid. O tio e a tia ficam para trás. A capital espanhola está repleta de refugiados. “Era preciso seguir para Lisboa, onde havia amigos”. Mas não resta dinheiro suficiente às duas foragidas.

É então que surge na vida de Ivette o ‘anjo’ que recordará para sempre, sob a forma de um funcionário da Wagons-Lits. “A minha mãe propôs-lhe um anel de brilhantes. Mas ele disse: ‘Não, senhora, não me vai dar nada. Vou dar-lhe um bilhete e um compartimento com cama’. Deu-nos também o jantar”. É assim que Ivette e a mãe desembarcam em Lisboa naquele longínquo ano de 1943, escapando ao campo de concentração que teria sido o seu destino. O homem que lhes salvou a vida quis ficar anónimo. Nunca mais o viu.

Quase 20 anos mais tarde, o contexto português tinha mudado radicalmente. Para os jovens começava a desenhar-se a ameaça da guerra em África. Vasco de Castro, hoje caricaturista, com 72 anos, consegue embarcar “numa bela manhã de domingo de 1962”. Para trás ficava um autêntico jogo do gato e do rato com a autoridade militar e a obtenção de um passaporte válido por três meses conseguido com algum engenho e grande dose de imaginação. A viagem, recorda, “foi insuportável”.

Um dia e meio a “passo de diligência”, “paragens em todas as estações e apeadeiros”, “o calor abrasador na travessia de Espanha e toda aquela gente muito palavrosa”, “o ambiente sombrio”. Mas, para Vasco, “provavelmente o primeiro desertor das Forças Armadas Portuguesas”, é inesquecível o alívio enquanto passava a fronteira. “Lá ficou a piolheira”, pensou. “Do lado francês, o comboio era outro, mais veloz. Mesmo assim demorou um dia inteiro a chegar a Paris”. Chegado a Austerlitz, a expectativa, a estranheza do desconhecido.“Estava convencido que nunca mais regressaria”. O comboio tinha-o salvo mas Vasco jurou para nunca mais. E cumpriu. “A viagem em sentido contrário, a 30 de Abril de 74”, foi... de avião.

A 1 de Abril de 1971 – “o Dia das Mentiras!” – o jovem Artur Silva chega à Guarda, acompanhado de um amigo do bairro lisboeta da Ajuda. Ambos tinham sido chamados para a tropa, o que significava a ida para a guerra. Na cidade beirã transaccionava-se autênticos planos de fuga. O bilhete para Paris que compraram ao dono de um café “incluía um táxi Guarda-Almeida”. As fronteiras eram, claro, passadas a pé.

Em Fuentes de Oñoro, recorda, “pediram-nos cinco escudos por um salvo-conduto”. Num “ambiente estranho, dezenas de pessoas, mulheres e velhos de um lado, homens do outro”, os dois companheiros atravessaram “um túnel enorme, com o coração nas mãos”. De volta ao comboio, nem todos eram refractários. “Alguns tinham feito a guerra. Quando explicávamos ao que íamos, eles torciam o nariz”. Artur vive ainda em Paris. É jornalista. Depois do 25 de Abril ainda viajou no Sud-Express.

Curiosamente, garante que o ambiente não era tão diferente como seria de esperar. Tinha fugido à tropa, continuava a ser um criminoso aos olhos do Estado. “Quando passávamos a fronteira em Vilar Formoso, perguntávamo-nos se o regime tinha mesmo mudado! Precisávamos de um passaporte militar”.

Com os anos, diz o jornalista, “a qualidade do comboio também mudou. A CP passou a tratar-nos um pouco melhor”. Mas o Sud-Express continuou a ser “o comboio dos emigrantes”.

Os viajantes fazem-se acompanhar de farnéis bem portugueses: quilos de bacalhau, sacos de couves e garrafões de vinho.

Hoje o comboio só vai até Hendaye. Os passageiros, que outrora passavam a ‘duana’ a pé, fazem agora o transbordo e seguem para Paris... de TGV.

MEMÓRIA VIVE EM NOME DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

Manuel Madeira fugiu para Paris no início de 1962. Percorreu 400 km a pé em território espanhol após passar a fronteira a salto. Depois apanhou o Sud-Express, mas não sofreu grande controlo: “Era ainda o início da emigração.” Foi só no ano seguinte que os portugueses, fugidos ao regime uns, em busca de melhores condições de vida outros, “começaram a desembarcar em Austerlitz aos milhares”. Em 2003, juntamente com um grupo de amigos, funda a associação Memória Viva, que visa preservar a história da emigração portuguesa em França. A associação elegeu o Sud-Express como símbolo e lançou o site www.sudexpress.org. Considera o mítico comboio como “um verdadeiro veículo de libertação através dos tempos” e é de opinião que a estação de Austerlitz, aonde o Sud chega, devia ser “monumento nacional”.

ENTRE 1963 e 1973

Mais de um milhão de portugueses emigraram clandestinamente. A grande maioria desembarcou na mítica ‘Gare d’Austerlitz’. Os que viajavam sem papéis desciam diversas vezes do Sud-Express e passavam as fronteiras a pé. A PIDE controlava todo o trajecto do comboio.

OUTROS TEMPOS

João Boavida e Elísio Torres trabalham no ‘wagon-restaurant’ desde “os tempos em que os fogões ainda trabalhavam a carvão”. Viveram histórias memoráveis mas Elísio nunca esquecerá o PIDE, que certa vez lhe pediu uma omeleta. “Disse-lhe que não. Só o meu chefe podia autorizar. Quando chegámos à fronteira mandou-me acompanhá-lo a uma cave. Já me preparava para enfardar.” O chefe safou-o. As relações dos funcionários com a polícia política eram cordiais. “Tínhamos medo!”, recordam.

EM 2006

Viajaram no Sud-Express 115 mil passageiros, o que representou uma receita de 6,5 milhões de euros. Todos os dias, o comboio parte de Santa Apolónia às 16h06 e chega a Hendaye às 07h10 do dia seguinte. Os passageiros podem optar entre lugares deitados, de 1.ª e 2.ª classe, e lugares sentados de 2.ª. Durante décadas, em Hendaye, todos os passageiros desciam do comboio para entrar nas carruagens francesas. Só os ocupantes das ‘couchettes’ permaneciam a bordo. Estes ‘vagões’ eram então levantados a cerca de metro e meio do chão para que fossem mudados os rodados.

O PRIMEIRO SUD-EXPRESS

Incluía duas carruagens-cama de 20 lugares e um ‘wagon-restaurant’ com sala de jantar para 20 pessoas e sala de fumo para 8. As carruagens, esclarece a CP, eram ligadas por “plataformas abertas providas de corrimãos e de passadiços.

Para iluminação utilizava-se óleo mineral, e o aquecimento era feito por meio de água quente que circulava em tubos de cobre”. Até meados dos anos 90, o comboio só era eléctrico até ao Entroncamento. A partir daí a máquina funcionava a diesel.


in Correio da Manhã 2007.10.21
___________________
Elogio do Sud Express
.
.
* Francisco José Viegas

Tudo isso aconteceu há muito tempo, quando eu viajava pela Europa de comboio. Tenho saudades dessas viagens, mas sei que não voltam. Eram outro tem­po, há muito tempo. Partíamos sem saber o destino final, havia um inter-rail no pa­pel e outro no coração. Não havia ro­mances de Verão, não havia namoros, não havia depressões, não havia interes­ses que se arrumassem ao canto - havia apenas viagens de Verão, o ronronar do comboio atravessando as paisagens noc­turnas de Espanha antes da madrugada no País Basco, quando atravessávamos a primeira luz de Vitória, antes de nos apro­ximarmos de Hendaye. Velho Sud Ex­press. Não há melancolia nenhuma nes­ta frase. Velho Sud Express sujo, chiando em todas as curvas, falando em luso-francês, atravessando as pontes, inclinado so­bre os rios, despertando memórias. E ve­lho Sud Express ainda onde se fumava nos corredores, se partilhava a comida com desconhecidos, se falava em línguas estranhas (com tantos erros de sintaxe quanto o entusiasmo em conhecer os companheiros de viagem), se liam romances que ficavam esquecidos ou se pas­savam ao passageiro mais próximo.

Tudo isso aconteceu há muito tempo, no tempo em que não conhecíamos ho­téis, nem restaurantes de «comida de fu­são» – igual em todo o lado –, nem lojas de roupa, nem sjx«, nem discotecas onde as bebidas são iguais - tudo igual em todo o lado -, nem ruídos de aeroporto ou viagens law-cost. Só havia esse ruído, o «tan-tan-tan» do Sud Express entre Santa Apolónia ou São Bento e Austerlitz, com mudança em Irún/Hendaye, sob a vigi­lância petulante dos gendarmes franceses, vistos do lado de cá da fronteira por carabineros de tricórnio e farda verde oliva.

Velho Sud Express (1877), museu vi­vo das viagens de adolescentes, quando não havia telemóveis e um telefonema para a família custava uma refeição a me­nos nos vinte e seis dias de viagem—a va­lidade do inter-rail. Entroncamento, Pampilhosa, Mangualde, Vila Franca das Naves, Vilar Formoso, Fuentes d'Oñoro, Salamaca, Medina dei Campo, Vitória, San Sebastian e Irún - e depois Dax, Biarritz, Bordéus, Paris Austerlitz. Dizem-me que a viagem, hoje, é cómoda a partir de Irún, com o TGV francês que che­ga a Paris Montparnasse. Não, não era cómoda a viagem, em carruagens quase históricas, gastas por anos de uso de emi­grações, exílios e viagens de Verão.

Aliás, vínhamos e íamos com os emi­grantes, íamos sozinhos, em grupo ou sem sentido, íamos com mapas, com indica­ções, com guias comprados com antece­dência de meses (estudados ao porme­nor), e também com algum receio de rapazes e raparigas do Sul da Europa que chegavam a Paris para ver o mundo. Eu preferia sair de Austerlitz e seguir logo pa­ra a Gare du Nord, de onde se saía para a Escandinávia, a Alemanha ou a Holan­da. Paris no regresso, só, para cumprir ro­teiro. Mas, no regresso, aquelas carrua­gens do Sud Express eram a nossa pequena pátria. Trazíamos livros, postais, uma T-shirt comprada em Copenhaga, um poster comprado num museu de Amesterdão, e também necessidade de banho, de uma refeição (tínhamos passa­do vários dias a comer bolachas, iogurtes, conservas, queijo e pães de ocasião).

Nós, os do inter-rail desses anos (setenta, oi­tenta), fomos cosmopolitas por acaso, ciosos do passaporte e dos guichets de ex-change money onde desconfiavam das nossas notas de mil ou cinco mil escudos, trocadas com solenidade e pavor, receo­sos das contas em florins, coroas, libras, francos ou marcos. O mundo, na verda­de — feitas bem as contas -, era mais difí­cil. Ligeiramente mais difícil com essas formalidades de fronteira, de câmbio de moeda e de controlo policial. Mas era o mundo. O mundo lá de fora, o mundo que fazia de nós cosmopolitas mal atra­vessávamos Fuentes de Oñoro a bordo do Sud Express. Velho e sujo Sud Express.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo – Agosto 2007
.