Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Noel Rosa: o samba não tem tradução no idioma francês

Cultura

Vermelho - 11 de Dezembro de 2010 - 0h10


O Brasil conta com inúmeros sambistas e compositores de talento. Raros, porém, são os que podem ser considerados gênios. Noel Rosa provavelmente encabeça a lista.

Por Umberto Martins

O poeta da Vila, como ficou conhecido, nasceu no dia 11 de dezembro de 1910 e estaria completando 100 anos neste sábado. Mas viveu pouco, embora intensamente. Teve uma carreira artística meteórica e não sobreviveu à ação da tuberculose, que agiu em cumplicidade com a boemia. Morreu em 4 de maio de 1937, com apenas 26 anos.

Origem do samba

Sua trajetória como artista foi ainda mais breve. Fez sua primeira gravação em 1929 e a última no ano da morte, 1937. Oito anos no total. Pouco tempo, certamente. Mas o suficiente para que produzisse centenas de obras primas, canções de rara beleza que continuam encantando os amantes da música e parecem desmentir o caráter efêmero da arte popular.

Noel viveu a áurea do samba. Foram os anos em que o gênero, ainda na infância, adquiriu sua forma moderna. Era cultuado, tocado, cantado e composto principalmente por negros que habitavam os morros cariocas. Ele foi um dos primeiros sambistas brancos, com a sorte de ser contemporâneo e parceiro de gigantes como Ismael Silva, Cartola, Vadico, Ary Barroso,Orestes Barbosa e Wilson Batista, entre outros.

Para o célebre compositor carioca, a beleza na música não se resume a uma equação de sons, mais ou menos complexa, nem se prende necessariamente à geografia. Em Feitio de oração, composto em parceria com Vadico, ele associa a origem do samba aos dramas da alma humana, traduzindo a concepção de que os sons musicais não passam de emanações poéticas dos sentimentos d´alma.


“O samba na realidade
Não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Saberá que o samba então
Nasce do coração”

Poesia e música

A identidade entre poesia e melodia é quase absoluta nas composições de Noel. As palavras, com sua fonética, se casam e se fundem com as notas musicais, costuradas por harmonias talentosas (algumas delas produzidas pelo paulista Oswaldo Gogliano, o Vadico) e compondo uma obra una de invulgar beleza.

Também se define o samba como uma crônica musical de uma época e de um povo. Trata-se de uma espécie de crônica que não se limita à descrição superficial de fatos e acontecimentos considerados relevantes ou dignos de registro, pois capta de uma forma mais profunda os sentimentos, dramas e sonhos humanos. Apesar de ser considerado um ritmo alegre, o samba quase sempre flerta com a tristeza, já que “é preciso um bocado de tristeza” para temperar o gênero, “senão não se faz um samba não”, como ensina Vinícius de Morais no Samba da benção. Tristeza, naturalmente, não era um sentimento estranho na vida atribulada de Noel. Foi o recheio de obras-primas como Último desejo ou Adeus, que compôs em parceria com Ismael Silva.

Defesa da cultura nacional

O poeta da Vila Isabel conhecia como poucos o ser humano e o seu próprio tempo. Prezava a boemia, amava o samba e apostava na força, originalidade e beleza da cultura nacional e popular. No samba intitulado “Não tem tradução”, ele critica com bom humor e lucidez a influência bizarra das potências coloniais e neocoloniais nos hábitos cariocas, que se insinuava então através do cinema. Na música, Noel revela convicção na força do samba para combater tais tendências e defender a cultura genuinamente brasileira.

No início dos anos 1930, o cinema falado estava alterando os costumes populares, induzindo gente de origem humilde, mas “que tem a mania da exibição”, a cantar e dançar o fox-trot, ritmo em moda nos EUA, assim como a tentar se comunicar em inglês. Comportamento pouco sábio, que nos remete ao instinto de vira-lata cultivado pelas nossas classes dominantes, e que também foi ridicularizado por outros compositores (caso de Assis Valente, com a música Tem francesa no morro). Naquela altura a influência francesa tinha mais relevância que hoje.

A crença na superioridade do samba e da cultura nacional sobre os novos hábitos é traduzida em vários versos: “Lá no morro, se eu fizer uma falseta a Risoleta desiste logo do francês e do inglês. A gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou”. O samba, diz Noel, “não tem tradução no idioma francês”, pois “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português. Amor lá no morro é amor pra chuchu. As rimas do samba não são I love you. E este negócio de alô, alô boy e alô Johnny, só pode ser conversa de telefone..

O centenário de Noel Rosa foi lembrado e comemorado em todo o Brasil ao longo deste ano. Merecidamente. O poeta da Vila Isabel não perdeu atualidade. É uma unanimidade, pelo menos entre quem não é ruim da cabeça nem doente do pé, ou seja, excluindo quem não gosta de samba. Sua obra, em certo sentido sem rival e objeto recorrente de regravações e novas interpretações, promete atravessar o século 21 ocupando um espaço privilegiado e único da memória popular.

Confira abaixo letra, áudio e vídeo de Feitio de oração (interpretado por Clara Nunes) e Não tem tradução (com João Nogueira)

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N2010R | 10 de Outubro de 2010 |
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Feitio de oração
Composição: Noel Rosa e Vadico

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade,
Meu pobre peito invade
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na Penha
Vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração
O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração.

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000093747 | 28 de Janeiro de 2010

Não Tem Tradução
Composição: Noel Rosa 
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O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, se eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trot
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone..
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  • ERRATA

    11/12/2010 16h45 existe um pequeno erro na data de nescimento de Noel, pois no texto esta colocado 2010 pore,m se deu, cono todos sabemos, em 1910. vlw redo
    fellipe redo
    rio de janeiro - RJ
  • Outros Gênios

    11/12/2010 16h04 Mas como, raros são gênios ? E o Caimi, o Tom Jobim, o Lupicio Rodrigues, e o Ary Barroso, e o Ernesto Nazareth, o Zequinha de Abreu, e o imortal Pixinguinha, puxa, e quase esqueço o Gonzagão. Olha a injustiça...
    Ebrantino
    Passo Fundo - RS
  • Salve !

    11/12/2010 14h59
    Salve Noel parcerinho 100% como diria o poetinha.
    André Lemos
    São Paulo - SP
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Este samba “horrível”, “sujo”, “malcheiroso”, “indecente”...

Cultura

Vermelho - 11 de Dezembro de 2010 - 0h00

Em 1936, um ano antes de sua morte, Noel Rosa compôs para Aracy de Almeida a inspirada e provocativa O X do Problema. A letra conta a história de uma sambista que, à semelhança de Aracy, foi "educada na roda de bamba" e "diplomada na escola de samba" do Estácio de Sá.


Por André Cintra

O talento da moça chama a atenção até da burguesia carioca, que a convida a descer o morro para ser uma “estrela de cinema” — “a rainha de um grande palácio”. Mas assédio nenhum tira a sambista de sua vocação: “Nasci no Estácio / Não posso mudar minha massa de sangue / Você pode crer que palmeira do Mangue / Não vive na areia de Copacabana”.

Uma das ironias de O X do Problema é que Noel e Aracy conviveram numa época em que suas canções, embora cada vez mais populares através dos programas de rádio, não sensibilizavam boa parte das elites. Conforme detalha o professor acadêmico e pesquisador Marcos Napolitano em A Síncope das Ideias (Editora Fundação Perseu Abramo), geralmente ocorria o contrário: o preconceito de classe é que dava a tônica de muitas das críticas ao samba nas décadas de 1930 e 1940.

Na revista Voz do Rádio, Almeida Azevedo se refere ao “horrível samba de morro, que à força de ser maltratado, seviciado, anda por aí desamparado, sem juízes de menores que olhe por ele, sem polícia de costumes que o proteja, sujo, malcheiroso, etc.”. Igualmente reacionário é um artigo publicado em Scena Muda e escrito por Renato Alencar, que divide o samba em duas vertentes — o de morro e o de arte. Ao primeiro, que envolve “batucada, dança litúrgica bárbara e sensual”, Alencar não atribui “beleza nenhuma”, uma vez que é “monótono e triste como todo produto de povos torturados e incultos”.

Álvaro Salgado, diretor da Rádio MEC, segue a linha e afirma que “o samba é feio, indecente, desarmônico e arrítmico”. Não que, para Salgado e outros porta-vozes da elite na imprensa, o samba de morro não tivesse salvação. Era preciso “higienizá-lo”, livrá-lo das impurezas. “Sejamos benévolos: lancemos mão da inteligência e da civilização”, propõe o diretor da Rádio MEC. “Tentemos devagarinho torná-lo mais educado e social. Pouco nos importa de quem ele seja filho.”

“Cultura de bacilos”

Se é verdade que o samba não precisou de higienização para se tornar o gênero brasileiro por excelência, também é fato que o viés de classe ainda contamina a relação entre grande mídia e manifestações culturais de origem popular. Em 2007, quando o diário americano The New York Times se atreveu a elogiar a cultura hip-hop brasileira, a grande mídia estrebuchou. Na Folha de S.Paulo, Barbara Gancia esculhambou o hip-hop. Tachou o movimento de “cultura de bacilos”, com seu “lixo musical” que “é sexista, faz apologia à violência e dói no ouvido”.

A reação às bobagens da colunista foi imediata: centenas de pessoas — não necessariamente adeptas ou simpatizantes do hip-hop — enviaram mensagens de protestos, acusando nas palavras de Barbara Gancia generalizações, estreiteza teórica, elitismo e preconceito. Como os primeiros e mais coléricos detratores do samba, Barbara Gancia põe o povo à margem da cultura. Parece pensar que, se o “lixo musical” ficar na periferia, vá lá, aceitemos. Mas que diabo é isto de ser apoiado pelo Ministério da Cultura e ainda ter o aplauso do jornal mais tradicional e influente do mundo?

O reconhecimento internacional é outro elemento que preocupa, desde sempre, a crítica conservadora. Poucas vezes o samba foi tão atacado quanto em 1941, diante da visita de Walt Disney à escola de samba Portela. “Há uma espécie de samba que pode levar, sem receio, a etiqueta made in Brazil. Este outro, porém, o do morro (...), tem que ser ajustado a ambiente teatral para que possa ser mostrado a certos hóspedes”, defendia Renato Alencar.

Cacofonias, silêncios e sussuros

Todos esses exemplos, reunidos em A Síncope das Ideias, demonstram quão polêmica é “a questão da tradição na música popular brasileira” (subtítulo do livro). A tese do autor, Marcos Napolitano, é que o samba, a bossa nova e a moderna MPB estão na “linha formativa” — na “espinha dorsal” — dessa tradição. A trajetória dos três gêneros é marcada, embora jamais limitada, por dilemas.

Do incipiente “cidade x morro”, o debate vai se radicalizando, até os anos 60, para confrontos como nacionalismo x universalismo, “conteudismo” x “vanguardismo”, forma x conteúdo, engajamento x alienação. A música popular brasileira não só reflete a sociedade como também — e mais que isso — “pode ser vista como um projeto (inacabado) de país”. No rastro da tradição desencadeada por samba, bossa nova e MPB, há espaço para “novas escutas” que “percebam as cacofonias, os silêncios e os sussurros perdidos no tempo”.

Napolitano também enche seu livro de curiosidades deliciosas. É o caso da abertura de A Síncope das Ideias, em que o autor evoca uma revista-opereta de 1933. O enredo gira em torno da personagem Canção Brasileira, “filha da aristocrática Modinha e do elegante Lundu”, sequestrada pela Flauta, pelo Cavaquinho e pelo Violão, apaixonada pelo Samba. No final da opereta, após diversas reviravoltas, a Canção Brasileira e o Samba se casam e promovem a harmonia entre cidade e morro.

Em outro trecho, Napolitano sustenta que, entre os primeiros críticos a abraçarem “o mundo do samba e dos morros”, estavam jornalistas e intelectuais comunistas. Em contraponto à paranoia higienista lançada pelas elites, esses pensadores marxistas subiam aos morros e dialogavam com os bambas.

Eles também viram Favela dos meus Amores e sua mais célebre cena — o enterro do sambista Nhonhô. “Chamado de comunista por um delegado de costumes”, o diretor Humberto Mauro filmou o morro vindo abaixo, “numa mistura de passeata e cortejo fúnebre, carregando o corpo de seu herói”. A partir de 1945, diz Napolitano, o “flerte transformou-se em namoro assumido (...) com a imprensa comunista dando espaço para o samba e com a criação de uma União de Escolas de Samba” ligada ao Partido Comunista do Brasil.
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Brunavolpi | 13 de Outubro de 2009 | O "X" do Problema (Noel Rosa) - Bruna Volpi e Marcelo Silveira
 


O X do Problema
(Noel Rosa)

Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio
O samba é a corda e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer gostar de você

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o X do problema

Você tem vontade
Que eu abandone o largo de Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode ver que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noel: reconhecimento que independe da academia e da crítica

 

Cultura

Vermelho - 3 de Fevereiro de 2010 - 12h46

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Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

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Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.
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Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.
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Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, "Três apitos” etc.
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E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.
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A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.
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Brasil de Fato: Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?
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Luiz Carlos Leitão: Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”.
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A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam... Será que alguma coisa mudou neste século 21?
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O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.
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Brasil de Fato: Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?
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Luiz Carlos Leitão: Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel.
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Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente.
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Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.
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Brasil de Fato: Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?
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Luiz Carlos Leitão: A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.
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Brasil de Fato: Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?
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Luiz Carlos Leitão: O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.
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Brasil de Fato: Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?
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Luiz Carlos Leitão: Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova).
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Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula.
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Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.
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Brasil de Fato: De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?
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Luiz Carlos Leitão: Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.
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Brasil de Fato: Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?
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Luiz Carlos Leitão: Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.
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Brasil de Fato: A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?
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Luiz Carlos Leitão: Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país.
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Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada.
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Por isso, para melhor responder à questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.
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Brasil de Fato: Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?
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Luiz Carlos Leitão:  A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

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Brasil de Fato: Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?
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Luiz Carlos Leitão:
A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada.
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Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas).
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Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal.
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É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical.
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A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média.
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Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.
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Brasil de Fato: Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?
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Luiz Carlos Leitão:
Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante.
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Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime.
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Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade.
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Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.
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Brasil de Fato: No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?
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Luiz Carlos Leitão:
São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo.
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Brasil de Fato: Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?
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Luiz Carlos Leitão: 
Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas.
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Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”.
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Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência).
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Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.
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Brasil de Fato: Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?
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Luiz Carlos Leitão: 
 Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe.
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Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”).
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Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.
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Com Brasil de Fato
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cartoon de Fernandes
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Noel - Poeta da Vila







Noel - Poeta da Vila

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Noel - Poeta da Vila
Brasil Brasil
2006 ı  cor ı  100 min 
Produção
Direção Ricardo van Steen
Elenco Camila Pitanga
Paulo César Pereio
Roberta Rodrigues
Flávio Bauraqui
Género drama biográfico
Idioma original português

IMDb
Noel - Poeta da Vila é um filme brasileiro de 2006, do gênero drama biográfico, dirigido por Ricardo van Steen.

Índice

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Sinopse

O filme conta a historia de Noel Rosa, um homem que mudou a história da música popular brasileira.
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Aos 17 anos Noel Rosa é um jovem engraçado, que possui um defeito no queixo, estuda Medicina e toca numa banda regional. Gosta da companhia de operários, negros favelados e prostitutas, com quem rapidamente faz amizade. Até que um dia conhece Ismael Silva, compositor que o desafia a compôr um samba. Noel usa uma paródia ao hino nacional para compôr Com que roupa?, que faz grande sucesso nas rádios de todo Brasil. A partir daí, Noel se dedica de vez ao mundo do samba, tornando-se um dos mais populares compositores brasileiros.

Elenco

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Curiosidades

  • O filme marca a estréia de Ricardo van Steen como diretor.
  • As filmagens de Noel - Poeta da Vila ocorreram no final de 2004.
  • O filme foi exibido na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2006.
  • Ricardo van Steen teve a idéia de rodar o filme após ganhar a biografia de Noel Rosa de presente do seu editor.

Ligações externas