Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Batismo de fogo: um século de favela no Brasil

Posted: 08/12/2010 by Revista Espaço Acadêmico 
por UBIRACY DE SOUZA BRAGA*
“Isso é uma guerra. E como em toda guerra, você tem que reconquistar territórios”. (Sérgio Cabral)
Toda cultura opera uma di-visão entre ela mesma, que se afirma como representação par excellence do humano, e os outros, que participam da humanidade apenas em grau menor. O discurso que as sociedades fazem sobre si mesmas, discurso condensado nos nomes que elas se dão, é, portanto etnocêntrico de uma ponta à outra: afirmação da superioridade de sua existência cultural, recusa de reconhecer os outros iguais. O etnocentrismo aparece como a coisa do mundo mais bem distribuída e, desse ponto de vista pelo menos, a cultura do Ocidente não se distingue das outras. Ipso facto, aprofundando o nível de análise estrutural, devemos pensar o etnocentrismo como uma propriedade formal de toda formação cultural, como imanente à própria cultura. Em outras palavras, a alteridade cultural nunca é apreendida como diferença positiva, mas sempre como inferioridade segundo um eixo hierárquico. No entanto, se toda cultura é etnocêntrica, somente a ocidental é etnocida, o que reitera a abordagem estruturalista para a compreensão da diacronia, da história concreta, como apresentaremos hic etnunc sobre a cidade do Rio de Janeiro.
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Contudo, para o que nos interessa, há pelo menos uma coisa em comum desde a década de 1980 entre o polêmico jornalista João Saldanha, ex-treinador da seleção brasileira de futebol e ex-militante do Partido Comunista Brasileiro – PCB e o general Antônio Carlos Muricy, um dos próceres da linha dura golpista militar até vestir o pijama. É a mesma que liga outras duplas de cariocas, por nascimento ou adoção, igualmente díspares – como o escritor mineiro Fernando Sabino e a novelista Janet Clair, ou o banqueiro Frank Sá e o ator Hugo Carvana. Todos são exemplos acabados de que um flagelo do Rio de Janeiro – os assaltos à mão armada – ainda faz vítimas famosas em número suficiente para formar uma singular categoria, por assim dizer, de “colunáveis do crime”.
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O grupo foi reforçado pela inclusão do empresário Drault Ernanny Filho, assaltado à porta de seu prédio, na praia do Leblon, reagiu, conseguiu esquivar-se de um tiro e conservou o dinheiro que levava nos bolsos e um relógio no pulso. “Com 38 anos de idade, eu ainda não tinha entrado para as estatísticas da criminalidade”, conta o empresário. “Foi meu batismo de fogo”, afirma. A julgar pelos resultados de uma pesquisa de opinião divulgada pelo Instituto Gallup, o “batismo de fogo” talvez tenha até demorado, pois um em cada dois integrantes da chamada “classe A” do Rio de Janeiro, já foi assaltado fechando o círculo da violência sobre o Rio, transformando-o em cenário político de verdadeira guerra civil. O governo prometeu endurecer a ação contra os criminosos que promovem uma onda de ataques em todo o estado. E a reação dos bandidos promete ser dura. Em entrevista o governador Sérgio Cabral foi curto e grosso quando afirmou: “Isso é uma guerra”.
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Os planos dos criminosos foram descobertos pelos serviços de inteligência da Secretaria de Segurança do Rio por meio da interceptação de conversas entre os telefones celulares dos traficantes. De acordo com o jornal O Globo, os diálogos revelam “planos de ataques”, como analisamos no artigo “Rebeliões da Cidade” (cf. Jornal O Povo. Fortaleza, 27. 5. 2006) no caso dos presídios comandados pelo chamado “crime organizado” e, nestes dias contra as sedes dos governos estadual e municipal, além do lançamento de explosivos em áreas de grande circulação, como pontos de ônibus e shopping centers na zona sul, onde predominam condomínios de luxo. Em entrevista  o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, admitiu que há indícios de que membros do Comando Vermelho(CV), cuja principal área de atuação é o Complexo do Alemão, na baía de Guanabara, como também da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA), que chefia o tráfico na favela da Rocinha, estariam unidos com o objetivo de desestabilizar a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no estado. A polícia investiga informações de que 100 homens do CV estejam na favela da Rocinha com o objetivo de dificultar uma possível ação do Bope na favela para a implantação de uma UPP.
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Em 29 de outubro de 2006, com apoio dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho (cf. Achegasnet, n˚ 17, 2004) Sérgio Cabral foi eleito, em segundo turno, governador do Rio de Janeiro pelo PMDB, em chapa com Luís Fernando de Sousa, com 5.129.064 votos (68% dos votos válidos em todo o Estado), derrotando Denise Frossard do PPS que obteve 32% dos votos válidos. Foi empossado governador do estado do Rio de Janeiro em 1 de janeiro de 2007. Em outubro de 2010, foi reeleito governador, ainda no primeiro turno, com mais de 66% dos votos válidos.  Cumprindo o atual mandato o governador Sérgio Cabral priorizou as áreas de saúde e segurança pública.
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Na primeira, criou e instalou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que ajudaram a desafogar as emergências dos hospitais públicos. O modelo, inclusive, passou a ser adotado pelo governo federal e até por outros países. Na área de segurança pública, a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) resultou na queda significativa dos índices de criminalidade em regiões antes dominadas pelos traficantes de drogas. No bairro Cidade de Deus, os índices de homicídios,roubo de veículos e assalto a pedestres foram alguns dos que tiveram queda. Os resultados da política de pacificação do governo Sérgio Cabral receberam elogios do New York Times, considerado o jornal mais influente do mundo contemporâneo.
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O atual governo também conseguiu colocar as finanças em dia e fazer do Rio de Janeiro o primeiro estado brasileiro a receber o “grau de investimento”, atestado pela agência de risco Standard & Poor’s, a mais importante do mercado financeiro mundial. O resultado só foi possível após um severo ajuste fiscal e a adoção de modernas técnicas de gestão, como a implementação do pregão eletrônico. Em 2006, na administração anterior, o governo havia realizado apenas um único pregão. No ano seguinte – o primeiro da gestão Cabral – este número saltou para 798. Em 2008, foram 1519 e em 2009, 1769. O secretário de Fazenda, Joaquim Levy, deixou o cargo em maio de 2010, sendo substituído por Renato Villela.
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De fato, as favelas mais conhecidas do Brasil estão localizadas na cidade do Rio de Janeiro e surgiram por volta de 1900, no período da Guerra de Canudos (cf. Cunha, 1929; Abreu, 1994). A cidadela de Canudos foi construída próxima a alguns morros, entre eles o Morro da Favela, que recebeu este nome devido à vegetação predominante no local, que era a favela, uma planta típica da caatinga, extremamente resistente à seca. Os soldados ao retornarem ao Rio de Janeiro, deixaram de receber seu soldo e instalaram-se provisoriamente em alguns morros da cidade, juntamente a outros desabrigados. A partir deste episódio, os morros recém-habitados ficaram conhecidos como favelas, em referência à “favela original”.
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A preocupação do poder público com a nova forma de moradia instalada informalmente no Rio de Janeiro só aconteceu em 1927, através do Plano Agache, que representou a denominação popular do plano de remodelação urbana da cidade do Rio de Janeiro elaborado, ao final da década de 1920, por Alfred Agache, por solicitação do então prefeito da cidade, Antônio Prado Júnior. Embora não tenha sido efetivamente implementado, o Plano abriu novas perspectivas para o urbanismo no Brasil e deu origem à criação do Departamento de Urbanismo da Prefeitura Municipal.Em 1948 foi realizado o primeiro Censo nas favelas cariocas e neste contexto a Prefeitura do Rio de Janeiro, afirma, surpreendentemente, num documento oficial, precedente às estatísticas, que: “os pretos e pardos prevaleciam nas favelas por serem hereditariamente atrasados, desprovidos de ambição e mal ajustados às exigências sociais modernas”. Esta afirmação recuperada no livro escrito por Alba Zaluar “et al”, Um Século de Favela, exemplifica como o preconceito em torno das favelas e seus moradores se fixaram tristemente na sociedade brasileira.
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Considerada oficialmente a primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, que fica atrás da estação ferroviária Central do Brasil, foi batizado no final do século 19 como Morro da Favela, daí também a origem do nome (substantivo) que se espalhou depois por outras “comunidades carentes”, na falta de melhor expressão, do Rio de Janeiro e do Brasil. Os primeiros moradores do Morro da Favela eram ex-combatentes da Guerra de Canudos e se fixaram no local por volta de 1897. Cerca de 10 mil soldados foram para o Rio com a promessa do Governo de ganhar casas na então capital federal. Como os entraves políticos e burocráticos atrasaram a construção dos alojamentos, os ex-combatentes passaram a ocupar provisoriamente as encostas do morro – e por lá acabaram ficando. Ipso facto, tanto a origem do nome Favela quanto Providência remete à Guerra de Canudos, travada entre tropas republicanas e seguidores de Antônio Conselheiro no sertão baiano. Favela era o nome de um morro que ficava nas proximidades de Canudos e serviu de base e acampamento para os soldados republicanos. Faveleiro é também o nome de um arbusto típico do sertão nordestino.
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O então jornalista e escritor Euclides da Cunha descreveu assim o morro da Favela no seu livro Os Sertões, sobre a Guerra de Canudos: “O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais alto, tendo no sopé, fronteiro à praça, alguns pés de quixabeiras, agrupados em horto selvagem. À meia encosta via-se solitária, em ruínas, a antiga casa da fazenda (…). O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a distância suavisando-lhes as encostas e aplainando-os… davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande” (Cunha, 1929; Morais Filho, 1985).A pesquisadora Sônia Zylberberg, autora do livro Morro da Providência: Memórias da Favella, no entanto, não acredita nessa hipótese. Segunda ela, o solo do morro carioca é bastante diferente do encontrado no sertão baiano. Já a antropóloga Alba Zaluar lembra que na virada do século já existiam barracos parecidos com os da Favela em outros morros do Rio de Janeiro. O nome Favela continua a ser usado até hoje por moradores antigos. A primeira associação de moradores da comunidade, por exemplo, fundada nos anos 1960, ainda adota em seus estatutos o nome oficial de Associação Pró-Melhoramento do Morro da Favela.Salvo engano, não há nada igual em toda a história da civilização.
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Enfim, Historicamente sabemos que, no caso brasileiro, repetimos, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da guerra do Paraguai ali se instalaram. No best-seller Abusado: O Dono do Morro Dona Marta, o consagrado jornalista Caco Barcellos desvenda a lógica e o modus operandi da criminalidade carioca. A partir de revelações chocantes feitas por um conhecido traficante, identificado no livro com o codinome Juliano VP, o autor mostra a realidade social “nua e crua” (sic) do tráfico de drogas e revela como o CV tomou conta da favela Santa Marta, onde temos muito próximo o Pão de Açúcar (bairro nobre da Urca), o Canecão (enseada de Botafogo), a melhor casa de shows do Brasil que projetou o maior DJ`s de todos os tempos: Big Boy ou onde ouviu-se a voz de la negra Mercedes Sosa cantando “Gracias a la vida…”, mas nesta “zona de compromisso” (cf. Anderson, 1996) formou-se praticamente uma geração inteira de traficantes (cf. Caco Barcellos, Abusado – O dono do Morro Dona Marta. 19ª edição. São Paulo: Publifolha, 2008; 560 páginas). Existe uma clara “geografia da fome” ou “geografia política” ou ainda “marginalidade de massa”, na expressão de M. de Certeau (1994), na cidade do Rio de Janeiro (cf. Janice Perlman, The Myth of Marginality: Urban Poverty and the Politics in Rio de Janeiro. Berkeley: University of California Press, 1975; Idem, “Favelas do Rio e o Mito da Marginalidade” (In: Ensaios de Opinião/Bernard-Henri Lévy “et al”. Rio de Janeiro: Inúbia, 1978, pp. 50-65).
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Se Umberto Eco penetrou em profundidade sobre a minudência dos detalhes sem perder de vista a arquitetura em sua totalidade (forma e conteúdo) no sentido contemporâneo e magistral de Oscar Niemeyer (2000), posto que é considerado “um arquiteto de curvas e convicções”, é porque a ideia de que a Arquitetura seja uma forma de comunicação de massa está bastante difundida. Ora, uma operação que se dirige a grupos humanos para satisfazer algumas de suas exigências e convencê-los a viver de determinado modo pode ser definida como comunicação de massa. De acordo com Eco (1967; 1976: 224 e ss.), no ensaio A Arquitetura: Comunicação de Massa?,também em relação a essa problemática a Arquitetura parece ter as mesmas características das mensagens-massa. Tentemos individuar algumas relações: 1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso; 2)O discurso arquitetônico é psicacógico (do gr. psychagogía): com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, o qual não apenas significa funções, mas promove e induz (no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica); 3) O discurso arquitetônico é fruído na desatenção, como se fruem o discurso fílmico e televisivo, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, (ao contrário de como se frui a arte propriamente dita, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas supostas intenções do remetente); 4) a mensagem arquitetônica pode carregar-se de significados aberrantes sem que o destinatário perceba estar com eles interpretando uma traição.
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Quem usa a Vênus de Milo para obter uma excitação erótica sabe que está traindo a primitiva função comunicacional (estética) do objeto; mas quem usa o Palácio Ducal de Veneza para abrigar-se da chuva, ou quem aboleta tropas numa igreja abandonada, não percebe que está perpetrando um tipo especial de traição; 5) Nesse sentido, a mensagem arquitetônica move-se em um máximo de coerção (você terá que morar assim) e um máximo de irresponsabilidade (você poderá usar essa forma como quiser); 6) A arquitetura, finaliza Eco, está sujeita a rápida obsolescência e sucessão de significados se não postular um recurso filológico; ao contrário do que acontece com o quadro ou o poema, e à semelhança do que acontece com as canções e trajes da moda; 7) A Arquitetura move-se numa sociedade de mercadorias; está sujeita a determinações de mercado, mais do que as outras atividades artísticas e tanto quanto os produtos da cultura de massa. Os morros cariocas representam sua antítese.
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Ainda uma observação tópica sobre os conflitos do ponto de vista da revista Veja (n˚ 2193, 1 de dezembro de 2010) que funciona como um partido político. Antonio Gramsci foi o primeiro a perceber tal relação (cf. Gramsci,1975): “Ao retomar o controle de uma das principais trincheiras do tráfico no Rio de Janeiro, o estado dá um passo decisivo para vencer a bandidagem que ganhou poder sob a complacência de populistas”. Talvez nosso último guardião tenha sido o líder político liberal radical Leonel de Moura Brizola (1922-2004), porque foi “um influente político brasileiro, controverso, carismático, mobilizador”, como é descrito exemplarmente, mais uma vez pelo livro El Caudilllo (cf. Leite Filho, 2008; 544 páginas), lançado na vida pública por Getúlio Dornelles Vargas (1883-1954).
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Leonel Brizola levou a ação política predominantemente até o fim de sua vida, tal como Getúlio Vargas ou Tancredo Neves o fizera. Um dia antes do agravamento definitivo de seu estado de saúde ele articulava politicamente, do leito de sua residência na praia de Copacabana, numa reunião com lideranças políticas, mas também intelectuais e artistas, a sua candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro com o apoio do PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Para tanto contava com o casal de políticos populistas Anthony Garotinho e do também político da tradição “amarelista” Moreira Franco. Enfim, a morte de Leonel Brizola pelas circunstâncias, tal como o fora a de Tancredo Neves, no leito do hospital das Clínicas, em São Paulo, comovera a opinião pública. A sua liderança popular ficou mais uma vez confirmada pelas homenagens recebidas no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paraíba, Ceará e, evidentemente, em São Borja, onde foi sepultado. Brizola foi o único político eleito pelo povo para governar dois estados absolutamente distintos cultural (Rio de Janeiro) e politicamente (Rio Grande do Sul), para distinguir no plano de análise a “sobredeterminação” (übereinanderlagerung, übergang, übergangszustand, überlagerung), em toda história republicana recente do Brasil. Exerceu também a presidência de honra da Internacional Socialista, o que dispensa-nos comentários.

Bibliografia geral consultada
BRAGA, Ubiracy de Souza, “Das Armas dos Traficantes e das (Re) Portagens Policiais: Efeitos Sociais sobre a Utilização de Armas no Brasil”. In: Revista Jurídica Dataveni@hotmail.com. Campina Grande, PB. Ano II. n˚ 14, abril de 1998; Idem, “Das Armas dos Traficantes e das Reportagens Policiais: Efeitos sociais sobre a utilização de armas no Brasil”. Disponível em: www.datavenia.net.com; Idem, “Rebeliões da Cidade” (cf. Jornal O Povo. Fortaleza, 27. 05. 2006); GAROTINHO, Anthony, “Drogas, Fuzis, Granadas, Minas e Guerras de Quadrilhas ou ‘Enxugando Gelo’”. Subcomissão de Segurança Pública do Senado. Brasília, DF, 26.04.2004. In: Achegas.net. Revista de Ciência Política. Rio de Janeiro, n˚ 17, maio/junho de 2004; ZALUAR, Alba, A Máquina e a Revolta: As origens populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994; ZALUAR, Alba; ALVITO, Marcos (orgs.), Um Século de Favela. 5ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 2007; Silvio Back, Guerra do Brasil. Prêmio Especial do Júri no III Rio-Cine Festival, 1987; CUNHA, Euclides da, Os Sertões (Campanha de canudos). 11ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1929; MORAES FILHO, Evaristo, (org.), O Socialismo Brasileiro. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981; Idem, Medo à Utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. ABREU, Regina Maria, “Emblemas da Nacionalidade: O Culto a Euclides da Cunha”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 24, n° 1, 1994;Idem, “Museu da Maré: Memórias e narrativas a favor da dignidade social”. In: Musas (IPHAN), v. 3, 2007;ANDERSON, Perry, Zona de Compromisso. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996; ECO, Umberto, Appunti per una semiologia delle communicazioni visivi. Milão: Bompiani, 1967; Idem,A Estrutura Ausente. Introdução à Pesquisa Semiológica. 3ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; Mauro Guilherme Pinheiro Koury (org.), Imagens & Ciências Sociais. João Pessoa: Editora Universitária, 1998, cap. 5 – “Fotografia e Pobreza”, pp. 109-117; LEITE FILHO, F. C., El Caudillo, Leonel Brizola em perfil biográfico. Rio de Janeiro: Editora Aquariana, 2008; GRAMSCI, Antonio, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Ed. Einaudi, 1975.No caso da cidade de Fortaleza, last but not least a exígua regulação urbana, aliada a fiscalização insuficiente e o desrespeito às leis ambientais, entre outros aspectos de ordem social e política, resultaram numa cidade com cerca de 620 favelas e 98 áreas de risco que podem ser vistas pela lente do fotógrafo Eduardo Queiroz. Cf. “A estética da desigualdade”. In: Diário do Nordeste. Fortaleza, 14.04.2009, p. 10, entre outros.

* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Comentários
sergio disse:
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Quando o artigo fala que “o governador Sérgio Cabral priorizou as áreas de saúde e segurança pública”, incorre num êrro fatal para um estudo acadêmico: mergulha na propaganda. O governo carioca instalou as UPP’s, cujos benefícios se mostraram limitados: o tráfico não diminuiu e a interação entre bandidos e polícia, com a “‘pacificação”, se acentuou. Dimuíram as mortes em certos locais, justamente pela não interferência da Policia nos negócios dos bandidos.
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De modo geral, os índices de criminalidade aumentaram no período, no Rio e o governo olera niveis alarmantes de homicídios, roubos e contravenções. Não poderia ser diferente, pois o Cabral pretende legalizar as drogas, não se opondo, portanto aos bandidos e levando-o a acordos imorais: não é feita uma só operação no Alemão, há quase dois anos.
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A política de segurança, se é que existe, faliu: a intervenção armada e repressora ocorrida é o oposto da filosofia das UPP’s e se parece mais com as propostas de Serra, com a integração dos diversos niveis de governo. l
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

[Riscos das Redes Sociais] As 4 (ou 5) ameaças de conteúdo

por IT Web

09/11/2010


Pesquisa da Norton revela riscos oculos de comunidades na web


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  1- Perfil infectado

Felizmente, os responsáveis pelos grandes sites de rede social já aprenderam a bloquear, de alguma forma, o conteúdo publicável pelos usuários e o quanto eles podem subir. Mas, às vezes, alguém encontra uma brecha ou um caso que não foi considerado, que ainda permite a publicação de conteúdo malicioso. Um dos casos mais perigosos é quando é possível incluir conteúdo aleatório, remotamente. Isso permite que um meliante esconda, entre outras coisas, ferramentas de ataque virtual em um perfil, gerando um ataque maciço contra todos os que visitarem tal perfil.  Sites de mídia social também podem ser usados como plataforma de malware. Por exemplo, um binário malicioso escondido em uma foto legítima ou BASE64, encondado em um comentário estranho, podem interagir com malware. Esses últimos exemplos não representam uma ameaça direta aos visitantes de um perfil, já que ficam inativos. 
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No entanto, eles podem ser usados por um Trojan remoto, para se atualizar. De modo geral, na maioria das vezes que vemos um perfil ou página de status infectados, eles contêm scripts ou links maliciosos, como veremos abaixo.
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  2. Links Maliciosos

Como os usuários controlam o conteúdo de seus perfis, eles podem adicionar conteúdo malicioso às páginas. Um dos ataques mais óbvios é o redirecionamento para um site externo, completamente controlado pelo meliante. Os posts podem ser feitos deliberadamente em contas falsas especiais ou sem intenção, por meio de scripts. O redirecionamento do usuário pode ser realizado com truques de engenharia social, como links de oportunidades, ou ao incorporar conteúdo ativo como tags iframe, JavaScript ou  vídeos em Flash, que redirecionam o usuário automaticamente. O ataque de engenharia social é muito difícil de ser bloqueado pelo provedor de mídia social, porque é difícil distingui-los de posts normais. Cada link precisa ser examinado para garantir que não leve a conteúdo malicioso. Alguns provedores começaram a usar listas negras de URL, disponíveis publicamente, na tentativa de bloquear certos URLs.
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Nós, da Symantec, lançamos recentemente, um aplicativo gratuito para Facebook, que analisa, automaticamente, os links postados em perfis ou sites de notícias. Ele usa nossa tecnologia Norton Safeweb para analisar cada link em busca de conteúdo malicioso. Alguns outros provedores de redes usam um site de redirecionamento intermediário que avisa ao usuário que ele está prestes a deixar aquele local seguro e que o site alvo não é controlado por eles. O website final pode conter qualquer coisa, desde propagandas de produtos falsos, sites de phishing e até ataques via download.
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3. Serviços para encurtar URLs
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Os serviços para encurtar URLs existem há anos. Hoje em dia, eles são geralmente, um nome de domínio bem curto combinado com um sistema de redirecionamento. Isso permite que um usuário transforme qualquer link longo em um URL curto, facilitando o compartilhamento, já que não existe quebra de linha e é usado com mais praticidade em mensagens curtas. Existem centenas de serviços públicos disponíveis para encurtar URL. A maioria deles é gratuita e disponível para todos.
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Alguns foram criados em conjunto com aplicativos ou plug-ins de browser. Uma das preocupações mais óbvias com tais serviços é que eles ocultam o destino do link, tornando impossível para o usuário distinguir os links confiáveis sem saber para onde serão direcionados. Felizmente, a maioria dos serviços oferece um preview do destino ou uma página de estatísticas com o número de cliques.
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Por exemplo, se você receber o seguinte link, encurtado pelo Bit.ly: http://bit.ly/XuX9i, você pode anexar um sinal de mais (+) ao final do URL, que irá abrir uma página de preview quando visitada, que explica mais sobre a página alvo. Nesse caso ficaria: http://bit.ly/XuX9i+.
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Muitos dos serviços disponíveis usam listas negras públicas para evitar que links maliciosos sejam encurtados. Infelizmente, isso é geralmente uma reação e ainda permite que links maliciosos desconhecidos sejam usados em ataques. Além disso, múltiplos redirecionamentos e argumentos aleatórios anexados podem ofuscar ainda mais o link. Atualmente, o nível de monitoramento de links maliciosos por trás de URL encurtados está abaixo de 1%.
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4. Ameaças por Script
A maioria das redes sociais oferece API que pode ser usado para acessar as funções diretamente de um script. Isso é amplamente usado por aplicativos terceirizados que, por exemplo, te permitem atualizar seu status por um smartphone ou dispositivo similar. Esse método de acesso também permite que um meliante crie scripts automáticos que colham qualquer informação disponível que queira ou que tenha worms que se multiplique por toda a rede.
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4.1. Ataques manuais por script
Um dos tipos mais simples de ataque que já foi visto em mídias sociais é o ataque manual por script. Manual porque a vitima é convidada a copiar e executar o script manualmente. Portanto, alguns passos de interação são necessários. Um exemplo é o golpe “encontre seu gêmeo de facebook” (find you facebook twin), no Facebook. Algumas centenas de pessoas gostaram a idéia e postaram a mensagem em seus perfis. Se um usuário clica no link, ele será convidado a seguir algumas instruções. Nesse caso, as instruções eram:
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1. Clique no botão “Curtir” (isso gera uma entrada no perfil do usuário)
2. Pressione CTRL+C
3. Pressione ALT+D
4. Pressione CTRL+V
5. Pressione ENTER
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Cópia do Joava Script
Seguir as instruções passo a passo, copia um JavaScript oculto, com foco na barra de endereços do usuário, cola o JavaScript e o executa. Ao fazer isso, o script é capaz de usar a sessão atual para enviar mensagens a todos os amigos do usuário, pedindo que eles repitam o ciclo. Se alguém seguiu até aqui, nenhuma imagem de gêmeo é postada. O usuário é convidado a responder a algumas perguntas antes de acessar o aplicativo. As perguntas geralmente são um quiz e acabam exigindo que o usuário assine um aplicativo muito caro para telefone celular. 
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Até onde foi nosso teste, não conseguimos concluir se realmente existe, no final das contas, um aplicativo que encontra seu irmão gêmeo.
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Golpes parecidos se esforçam menos ainda para automatizar e esconder a ação. Após pedir que o usuário “curta” e compartilhe a mensagem, eles pedem que o usuário publique a mensagem cinco vezes, em qualquer lugar no Facebook. Depois disso, a tal pesquisa cara aparece pedindo que o usuário complete um teste tipo CAPTCHA para comprovar que ele não é um robô. 
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Um outro ataque parecido estava ativo no Orkut, do Google, em junho de 2010. Os usuários eram tentados a conseguir créditos de celular gratuitos ao seguir algumas instruções simples. Tudo o que precisavam fazer era copiar um JavaScript oculto para a barra de endereço e executá-lo, obviamente enquanto se mantinham logados ao Orkut. Como sempre, isso resultava em mensagens postadas em nome do usuário. 
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Uma coisa que todos os ataques têm em comum é que o usuário está espalhando a informação, voluntariamente, para seus amigos. Nenhuma vulnerabilidade do serviço é explorada. Mesmo que os truques observados tenham tentado persuadir o usuário a comprar serviços de celular, a mesma tática pode ser usada para redirecionar o usuário para websites infectados. Alguns meliantes começaram a adicionar banners de propaganda a cada passo do processo, gerando mais lucro para eles. 
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O usuário deve se manter cético quando lhe pedirem para executar alguns comandos manuais, especialmente quando o propósito dos comandos não for claro. Deve prestar atenção, também, quando colocar endereço ou número de telefone real em qualquer lugar. Em alguns países, isso pode ser o bastante para alguém te cobrar por algum serviço. 
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Leia mais:
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[Risco das Redes Sociais] Roubos offline
[Riscos das Redes Sociais] O que os aplicativos podem fazer
 Segurança: 5 dicas para ajudar na escolha da tecnologia 
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  • [Risco das Redes Sociais] Especial completo





  • [Risco das Redes Sociais] Oito dicas para melhor uso





  • [Risco das Redes Sociais] Roubos offline





  • [Riscos das Redes Sociais] O que aplicativo pode fazer






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    09/11/2010


    Regras garantem o mínimo de segurança no uso de comunidades da web


    Levantamento realizado pela Norton mostra quais são as oito regras de boas práticas para garantir a segurança no uso de redes sociais.
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    .  1. Mantenha-se cético
    As redes sociais podem ser uma fonte útil para informações de negócio, assim como uma ferramenta válida para se manter em contato com seus amigos. Mas elas também contêm um mar de informações inúteis. Falando de forma geral, você deve tratar tudo o que vê online com alto grau de ceticismo. Não acredite em tudo o que lê, seja conselho financeiro, notícias ou dicas gratuitas sobre qualquer coisa – especialmente se elas envolvem clicar em um link para instalar algum aplicativo. Se alguém te cobrar adiantado, pode ser um golpe.
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    Saiba mais sobre segurança. Visite o espaço de Edison Fontes, blogueiro do IT Web

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    .  2. Verifique configurações e políticas de privacidade
    Todos os grandes sites de rede social têm regras e políticas de privacidade bem específicas, publicadas em seus websites. Tenha certeza de que você as compreende, mesmo que às vezes seja tedioso ler tudo aquilo, porque, provavelmente, elas irão explicar se suas informações serão compartilhadas com sites terceirizados ou não. Alguns serviços oferecem a opção de restringir as opções de privacidade para determinados grupos, assim como permitir o compartilhamento de fotos somente com amigos e não com todos.
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    Faça bom uso dessas configurações.
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    3. Boas senhas
    Tenha senhas boas e fortes. (A data do seu aniversário ou “123456” NÃO são boas senhas). Se possível, a senha deve conter letras e números e caracteres especiais. Caso você não seja bom em memorizar senhas complexas, use uma senha-frase com dica ou use qualquer um dos gerenciadores de senha disponíveis que podem armazená-las com segurança. Não escolha uma senha que possa ser descoberta com base nas informações que você compartilha no site. Isso inclui nome de amigos, animais de estimação ou seus famosos preferidos.
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    4. Proteja sua senha
    Nunca compartilhe sua senha com outras pessoas. Isso inclui serviços que prometam conseguir mais amigos ou qualquer coisa desse tipo. Não perca o controle sobre sua senha. Quando inserir a senha, tenha certeza de que se trata de um website real e não uma página phishing que apenas se parece com a original. Caso suspeite que tenha caído em um ataque de phishing ou que a sua conta foi comprometida, use outro computador para entrar no serviço original e altere sua senha.
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    5. Seja ponderado
    Sempre pense duas vezes antes de postar alguma coisa. Lembre-se que uma vez publicado, mesmo que apenas para um grupo fechado de amigos, você não tem mais controle sobre onde aquilo será repostado ou quem poderá ler. Essas coisas podem voltar para te assombrar no futuro. Pense se realmente precisa publicar a informação completa. Isso inclui publicar muitos detalhes pessoais, como números de telefone ou coisas relacionadas ao trabalho. Além disso, tente não encaminhar alertas de vírus ou mensagens de alerta exageradas que irão confundir mais as pessoas ao invés de ajudá-las. Seja bom e respeite os outros – não poste mensagens que difamem alguém, já que você não gostaria de receber uma mensagem assim.
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    6. Seja cuidadoso
    As pessoas na Internet nem sempre são quem dizem ser. A celebridade que você segue pode ser só mais um fã e o suposto colega de trabalho de outro escritório pode ser alguém investigando sua empresa. Nem todo mundo que diz ser seu amigo, é seu amigo.
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    7. Mantenha-se atualizado
    Tenha sempre certeza de que o software que você está usando está atualizado. Isso não inclui somente o sistema operacional e o navegador, mas também plug-ins terceirizados, como visualizadores de PDF. Instale todas as atualizações diretamente do site oficial e cheque automaticamente por novas versões disponíveis por meio do próprio software.

    8. Mantenha-se protegido
    Alguns dos ataques mais recentes são muito sofisticados e, às vezes, difíceis de serem identificados pelo leigo. Use um software de segurança abrangente para se proteger contra essas ameaças.

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    [Riscos das Redes Sociais] O que os aplicativos podem fazer

    por IT Web
    09/11/2010

    Pesquisa divulgada recentemente pela Norton fala sobre vulnerabilidades na web


    Cuidado com o que você curte
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    Pesquisa divulgada recentemente pela Norton apontou quais são os principais riscos envolvendo redes sociais. O IT Web separou os principais pontos abordados no estudo e preparou um especial com boas práticas de uso. Conforme o estudo, a maioria das redes sociais permite que aplicativos tenham amplo acesso a uma grande variedade de dados de usuário, por meio de diferentes interfaces. Algumas oferecem API documentado, que permite acesso específico a certas informações. Isso inclui acesso gradual, com base em permissão, para que o usuário possa decidir se quer ou não permitir o acesso a informações a tal aplicativo. .
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    Dependendo do tipo, o aplicativo pode se ancorar, profundamente, na rede social e se fundir a interface do usuário. De forma alternativa, o aplicativo pode interagir de maneira mais livre, exibindo algumas informações parciais em um website diferente. . O levantamento cita o exemplo do Facebook, que tem dois tipos básicos de aplicativo. O primeiro são os plug-ins sociais, que permitem a integração de funções básicas da rede com websites externos. O aplicativo Canvas interage diretamente com o perfil, pode enviar mensagens de atualização ou abrir uma nova página, que, por sua vez, pode conter praticamente qualquer coisa. .
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    Curtir O botão “Curtir”, que permite que a pessoa informe aos outros sobre a existência de uma página, é um exemplo de um plug-in social. Os outros aplicativos podem de certa forma, carregar códigos de websites remotos e executá-los. . Em 2010, o Facebook mudou seu API base e o processo de autenticação, tornando mais visível para o usuário quais dados o aplicativo tem permissão de processar. Antes de acessar qualquer informação particular de uma conta, o aplicativo precisa ter a devida permissão do usuário. Dependendo da informação necessária, existe alguma graduação disponível para a ação permitida. Assim que a permissão for concedida, o aplicativo pode fazer o que quiser com a informação. . O usuário pode revogar os privilégios e desabilitar o aplicativo a qualquer momento, direto no menu de configuração de aplicativos, mas todas as informações previamente acessadas podem já ter sido transferidas. . 
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    Confirmação de identidade Desde junho de 2010, o Facebook requer que qualquer novo desenvolvedor confirme sua identidade, seja por meio de um número válido de celular ou de um número de cartão de crédito. . Isso é feito a fim de acabar com os desenvolvedores anônimos que registravam contas falsas para aplicativos maliciosos. Infelizmente, isso não impossibilita a criação de contas anônimas com número de telefones anônimos, existentes em alguns países. . A lista a seguir seleciona algumas coisas a que um aplicativo pode ter acesso:
    • Informações públicas – Isso inclui nome de usuário, foto de perfil, lista de amigos e outras informações listadas como públicas no perfil.
    • Informações de perfil – Isso inclui qualquer informação adicional, como data de aniversário, filmes e livros favoritos etc.
    • E-mail – Isso significa o envio direto de emails à conta registrada.
    • Posts no feed de notícias – Isso permite que o aplicativo leia as mensagens postadas.

    • Informações de família e relacionamento.
    • Fotos e vídeos.
    • Informações de amigos – Incluindo aniversários e detalhes
    • Dados a qualquer momento – Isso significa que o aplicativo tem acesso aos dados mesmo quando o usuário não está conectando ou quando não está usando o aplicativo.
    • Posts no mural – Adicionar novos posts em nome do usuário.
    Recentemente, inclusive, a rede social confirmou quebras de privacidade em seus aplicativos, os quais, informou, ter corrigido. .
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    Leia mais: 
    Congresso pede esclarecimento sobre falha no Facebook
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    Tamanho
    Da Fonte


    Segurança: 5 dicas para ajudar na escolha da tecnologia

    por InformationWeek
    21/10/2010

    Quando se trata de garantir que o usuário é quem ele diz ser, apenas uma ideia é compartilhada: senha não é o bastante

    Quando se trata de garantir que o usuário é quem ele diz ser, apenas uma ideia é compartilhada por todos os profissionais de segurança: senha não é o bastante. Apenas 28% dos profissionais de TI e segurança que entrevistamos consideravam eficiente o uso de senhas fortes, de acordo com a pesquisa sobre Segurança Estratégica, da InformationWeek Analytics. 
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    Quer ficar por dentro de tudo o que acontece na comunidade de TI e telecom? Assine a nossa newsletter gratuitamente e receba, todos os dias, os destaques em sua caixa de e-mail

    Mas, o que pode ser feito em relação a isso? Ai é que está a questão. Parte do problema é o número de opções. Fortalecer autenticação geralmente significa adicionar um segundo fator (algo que você tem) a uma senha forte existente (algo que você sabe). E o que esse segundo fator poderia ser? Fornecedores estão considerando de tudo um pouco, desde geradores de números aleatórios e tokens, até verificação biométrica e ligações por voz. Sua escolha depende do quão infalível sua autenticação precisa ser – e do quanto você pode gastar com isso. 

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    Avaliação amplificada

    A melhor forma de criar uma estratégia de autenticação segura é fazendo uma avaliação de risco amplificada que leve em conta quão sigilosos são os dados, seu potencial de exposição a usuários não autorizados e qualquer regulamentação aplicável.
    Apresentamos abaixo cinco questões que te ajudarão no início. 
    1. O que precisa de proteção? Você quer proteger sua rede corporativa, um servidor de banco de dados sigilosos ou um website voltado para clientes? Sua avaliação de risco deve analisar o impacto que o acesso não autorizado teria sobre esses sistemas.
    2. Quem irá acessar os recursos protegidos? Todos os seus funcionários ou clientes e empreiteiros também terão acesso? Conhecer a população é importante.
    3. Você gerencia as estações de trabalho? Os usuários com acesso aos sistemas o farão somente por meio de PCs gerenciados pela sua área de TI? Se sua resposta for “sim”, você não vai precisar de um software para as máquinas de clientes com assinatura ou certificado externo. No entanto, para clientes e parceiros, a resposta é quase sempre “não”, então te restam opções que não exigem mexer no computador, como nome de usuário e senha, autenticação com base de conhecimento e repetição de mensagem.
    4. Onde os usuários estarão quando acessarem áreas protegidas? Eles estão todos no mesmo escritório ou espalhados por ai? Se eles estiverem no mesmo prédio, o risco é menor, mas geralmente não é o caso.
    5. Quais são as necessidades futuras de sua empresa? Você irá agregar novos serviços, adquirir negócios ou contratar mil novos funcionários? É difícil prever as necessidades futuras, mas escolher tecnologias de autenticação escaláveis e baseadas em padrões é importante para garantir que se está preparado para o que o futuro lhe trouxer.
      John Sawyer, DarkReading.com
    Opções de autenticação
     
     
     
    Nível de segurança*
    Tempo necessário para gerenciar
    Custo da implementação
    Senha
    1
    Médio para Baixo
    Baixo
    Conhecimento de base
    1
    Médio para Alto
    Baixo
    Token de senha de único uso
    4
    Médio
    Médio
    Lista de senha de único uso
    4
    Médio para Baixo
    Médio
    Certificado digital
    4
    Médio para Alto
    Médio para Alto
    Cartão com grade de segurança (Grid card)
    3
    Baixo
    Baixo
    Out-of-band
    4
    Médio
    Médio
    Biométrica
    2 - 4
    Médio
    Alto
    Localização geográfica
    2
    Baixo
    Baixo
    Assinatura de Dispositivo
    3
    Baixo para Médio
    Baixo
    Baseado em risco
    3
    Baixo
    Baixo
    Repetição de imagem
    1
    Baixo
    Baixo
    Repetição de mensagem
    1
    Baixo
    Baixo

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    *Nível de segurança é o nível de confiança na validação da identidade que um usuário apresenta para um sistema, sendo o nível 1 o mais baixo e o 4, o mais alto. Dados:   “Guia de E-Authentication”, do Office of Management and Budget (OMB 04-04); “Guia de Autenticação Eletrônica”, do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, dos EUA (NIST SP 800-63) e outras diversas publicações governamentais e industriais. 
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    sexta-feira, 10 de setembro de 2010

    Casa Pia, A Grande Vergonha




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    politicaportugal | 25 de novembro de 2008
    Pela primeira vez, o principal investigador do processo Casa Pia, o inspector Dias André, resolveu falar, numa grande reportagem da TVI, intitulada "CASA PIA, A INVESTIGAÇÃO".

    Numa entrevista dada em exclusivo, o inspector Dias André esclarece tudo, revelando pormenores da investigação e outras revelações serão feitas na reportagem,
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    "Casa Pia, a Investigação" é uma reportagem da jornalista Ana Leal, com imagem de Júlio Barulho, a montagem é de Miguel Freitas e foi emitida no passado Domingo, dia 23 de Novembro, a seguir ao Jornal Nacional, no Repórter TVI.
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    Processo Casa Pia - Análise de Pedro Namora


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    reporttvs3 | 25 de novembro de 2009
    Processo Casa Pia - Análise de Pedro Namora
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    terça-feira, 7 de setembro de 2010

    Obras apreendidas colocam Portugal nas grandes rotas de falsificação de pintura

    06.09.2010 - 18:23 Por Lusa
    A PJ acredita que Portugal está nas rotas clássicas de falsificação internacional de pintura, após ter procedido à maior apreensão de sempre de quadros falsos de pintores internacionais, incluindo Picasso, Miró e Renoir.
    Foram apreendidas falsificações de pintores como Picasso  
    Foram apreendidas falsificações de pintores como Picasso (Miriam Lagos)


    Este é um dos aspectos mais relevantes hoje sublinhados numa conferência de imprensa realizada nas instalações da PJ, em Lisboa, onde foram exibidas as obras, na sequência da divulgação do caso, que envolveu a detenção de um indivíduo em Cascais, na posse das peças de arte.

    "Até agora, a maioria dos casos de falsificação de pintura detectados em Portugal era de artistas portuguesas ou de alguma forma relacionados com Portugal", indicou o inspector da PJ João Oliveira.

    Maria Helena Vieira da Silva, Mário de Cesariny, Artur Bual e Cargaleiro são alguns dos artistas portugueses que têm sido alvo de falsificação frequente em Portugal, exemplificou o responsável.

    Na operação desencadeada há três semanas, a PJ acabou por realizar buscas à residência do suspeito de 55 anos que viriam a culminar na apreensão das 27 obras de arte.

    As telas copiam obras já existentes ou imitam o estilo de outros grandes nomes da pintura como Renoir, Chagall, Matisse e Caravaggio.

    Esta é considerada a maior apreensão de sempre de arte falsificada em Portugal, bem como de diversos certificados que visavam atestar a pretensa originalidade dos trabalhos.

    O suspeito, que já estava referenciado pela polícia, foi detido e presente a Tribunal, tendo ficado sujeito a medidas e apresentações periódicas no posto policial da área de residência.

    A PJ apurou ainda que algumas obras terão já sido vendidas e fez um alerta a todos os cidadãos que tenham adquirido recentemente pinturas de artistas de renome que contactem as autoridades.

    Algumas obras tinham já sido introduzidas nos circuitos de venda e terão sido expostas em leiloeiras de Lisboa que a PJ se escusou a especificar.

    "A falsificação de quadros tem estado muito em voga, mas o que torna esta apreensão importante é o facto de ser de tão grandes dimensões e apresentar grandes nomes da pintura universal", salientou o inspector.

    A PJ adiantou que esta operação vai continuar em curso porque acredita que estarão outras pessoas envolvidas.

    Do conjunto de quadros apreendidos, de várias dimensões, destacam-se seis obras com a assinatura de Picasso, alguns desenhos e outras pinturas sobre papel, todas elas presumivelmente falsas.
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    segunda-feira, 30 de agosto de 2010

    1983: Grafiteiro suíço é preso na Alemanha

    Calendário Histórico DW World

     

    No dia 28 de agosto de 1983, a polícia alemã prendeu um suíço procurado internacionalmente. Seu crime: pichar paredes. Em princípio incompreendida pelos concidadãos, sua arte só foi valorizada anos mais tarde.

     

    A polícia alemã achava ter capturado um "peixe grande" ao prender, no estado de Schleswig-Holstein, um homem que estava sendo procurado há dois anos com mandado de prisão internacional. O suposto "criminoso" foi levado imediatamente para a cadeia de Lübeck, onde permaneceu 20 dias em prisão preventiva, aguardando a extradição. Até o Tribunal Superior Estadual decidir soltá-lo, mediante pagamento de fiança de 40 mil marcos (moeda da época), na expectativa de que o Tribunal Federal Constitucional, em Karlsruhe, aprovasse sua extradição.
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    Enquanto era esperada tal decisão judicial, desencadeou-se na Alemanha uma discussão sobre a criminalização do grafiteiro. Em sua terra natal, a Suíça, o tribunal do Cantão de Zurique não tinha dúvidas quanto a isso. Harald Naegeli, 43 anos, teria "uma compulsão delinquente" e devia pagar uma multa de 206 mil francos.
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    A "delinquência" de Naegeli, porém, não se manifestava por meio de arrombamentos ou roubos e, sim, através da pichação em paredes, pontes, garagens, muros e logradouros públicos. O "grafiteiro de Zurique" – como era conhecido o artista anônimo – passou a ser retratado romanticamente pelos meios de comunicação. Os proprietários de imóveis, as autoridades municipais e a polícia, no entanto, logo passaram a tratá-lo como criminoso comum.
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    Protesto contra a burguesia
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    Naegeli pichou Zurique com latas de spray durante dois anos, perseguido pela polícia e por batalhões de servidores públicos, encarregados de limpar as áreas "ornamentadas" com grafites. Sofreu uma série de processos, sob acusação de "vandalismo" e "dilapidação de bens".
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    Psicólogo diplomado, Naegeli pretendia apenas protestar com sua arte contra a violência e o status quo defendido pela burguesia, como fizera desde a infância. Seus desenhos infantis haviam servido de base para os grafites do tipo cartoon na idade adulta.
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    O próprio Harald Naegeli declarou, em entrevista a um jornal, que nascera durante a Segunda Guerra e sempre abordara esse assunto em seus desenhos. "Dos quatro aos seis anos de idade, não fiz outra coisa a não ser pintar cenas de batalhas e guerras. Eram processos durante os quais eu sentia prazer em representar pessoas decapitadas, sem ter consciência do que isso representava", disse.
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    Preso pela primeira vez em 1979, foi condenado a seis meses de prisão condicional por dilapidação de bens em 179 casos. A pena não entristeceu o grafiteiro, que logo retomou sua atividade.
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    Incomodou os suíços ao ponto de ser condenado novamente – desta vez a nove meses de reclusão. Por ter deixado o país, expediu-se mandado internacional de prisão. A polícia de Zurique, no entanto, sabia que ele estava morando em Düsseldorf e que lecionava em Wiesbaden.
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    Reconhecimento tardio
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    Na Alemanha, sua arte era respeitada, se não pelos proprietários de imóveis, pelo menos no meio artístico. O "grafiteiro de Zurique" – que não gostava desse título – foi expulso pela Justiça alemã e teve que cumprir sua pena. Novamente em liberdade, abandonou a Suíça e passou a viver reservadamente na Alemanha, fazendo designs para tecidos e toalhas.
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    Com o avanço da idade, Naegeli afastou-se de sua arte inicial. Ele detesta os "pichadores" de hoje, que sujam trens, estações ferroviárias e pontes, "sem qualquer originalidade ou conteúdo". A opinião sobre ele em Zurique também mudou.
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    Enquanto nos anos 80 se desenvolviam detergentes especiais para apagar suas pinturas, hoje os limpadores de fachadas conservam com cuidado os traços que ainda restam de seus grafites. Os quadros do famoso grafiteiro, há muito tempo, têm o status de obras de arte.
     
    Peter Philipp 
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    quinta-feira, 5 de agosto de 2010

    Ciudad Juaréz - uma cidade violenta


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    ElUniversalTV | 25 de fevereiro de 2009
    Una historia que se repite a diario de 7 de la tarde a 10 de la noche en las calles de la ciudad más violenta de México
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    México-Estados Unidos: A linha da morte

    Adital - Quarta-Feira, 04 de agosto de 2010
    20.11.08 - AMÉRICA LATINA

     
     

    Justicia y Paz / Sicsal *
    Adital -
    Como Basura del Mundo 9 A cifra dos mortos na tentativa de cruzar a malha que separa o México dos Estados Unidos, de 1994 até 2008 superou 5 mil pessoas. A última década do século XX reforçou o fechamento da fronteira e mudou a rota migratória das cidades fronteiriças para o deserto do Arizona. Cada vez é mais férrea a vigilância que a polícia migratória estadunidense impõe para impedir a entrada de latinos em seu país. No entanto, a vigilância extrema, a cada dia, pressionados pelo desemprego, pela fome, pela violência faz com que se lancem na aventura de buscar uma vida melhor. Os dados oficiais informam que a presença de cerca de 40 milhões de imigrantes nos EUA, a grande maioria sem documentos.
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    As histórias são terríveis. Dezenas de mulheres mães solteiras que deixaram seus filhos e tentam buscar trabalho nos Estados Unidos, são abusadas sexualmente na viagem e acabam destruídas emocionalmente. Até 3 mil homens, mulheres, crianças de diversos países da América Central, penduram-se no trem para chegar até a fronteira, com o risco de cair e morrer, como já aconteceu em várias ocasiões, devido ao cansaço. Há pais de família do México ou de qualquer país que, empurrados pela necessidade, partem sozinhos para correr os riscos do cruzamento da fronteira. Quando conseguem, vão trabalhar na construção civil, nas colheitas ou em empresas de carnes que não encontram mão de obra nacional que queira fazer esse serviço. Arrecadam dinheiro mensalmente para enviar a sua família, depois podem aventurar-se a recolher suas companheiras em uma viagem de volta por terra que pode durar até 45 dias caminhando, deixando seus filhos com os avós e após um ou dois anos, quando conseguiram alguma estabilidade voltam para pegar seus filhos.
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    .Um exemplo, um desses pais, voltou de Austin Minnesota, longe da fronteira, até Chiapas para recolher a seus filhos de 5 e 9 anos; chegou a Reinosa, México, esperou 3 dias até que se juntasse um grupo de 25 pessoas para cruzar a fronteira. Pagou 1.200 dólares aos ‘coiotes’ por cada criança; caminharam até McAllen, nos EUA e dali empreenderam uma viagem de 45 dias até Houston, Texas. Entregou seus filhos a ‘coiotes’ desconhecidos, que seguiram viagem com outras crianças. Dos 25 adultos que viajavam por terra, 20 foram presos pela migração, e somente 5 conseguiram chegar ao encontro de seus filhos pequenos, em Houston.
    Trabalhar é possível para o migrante, desde que consiga documentos legais; não importa que não sejam os seus. O tráfico de documentos é um grande negócio conhecido pelas grandes empresas que os empregam e por autoridades das cidades receptoras dos Estados Unidos. Compram no mercado clandestino os três documentos indispensáveis para ser admitidos: um número no sistema de seguridade social; a certidão de nascimento e o carnê de cidadania; todos podem custar ao redor de 2.000 dólares a cada migrante que pretende trabalhar. Depois vão às transnacionais, como as processadoras de carne de porco QPP y HORMEL, em Austin, Minnesota, que lhes paga um pouco mais de 12 dólares por hora, salário muito maior do que o recebido no México ou em qualquer cidade latino-americana, por desempenhar esse ou outro ofício similar.
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    O problema é sustentar-se nos Estados Unidos. As fiscalizações nas casas são freqüentes. Caso possuam um carro, o utilizam para ir somente de casa para o trabalho; por não terem a carteira de habilitação não podem ir a outros lugares. Vários têm sido presos ao trocar um pneu à margem das estradas.
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    Em todo caso, abrigam a longínqua esperança de que o novo presidente Barack Obama, mude alguma coisa a seu favor; apesar do silêncio sobre o tema dos migrantes, na campanha, foi eloqüente, em um país em crise econômica, que abre as portas ao dinheiro e aos trabalhadores que vendem barato sua mão de obra ao setor produtivo estadunidense nessa esquizofrenia do mercado.
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    As que não cruzam
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    Ciudad Juárez, México, que se tornou famosa devido à industria montadora, chegou a ter 400, como pelos crimes de que têm sido vítimas meninas, adolescentes e mulheres jovens. Muitas famílias são devolvidas a esta cidade após uma tentativa frustrada de entrar aos Estados Unidos, por um tempo permanecem para sobreviver e arriscar sua vida. Uma delas partilhou, no encontro do Sicsal México-Estados Unidos, que teve que se prostituir porque não havia trabalho nas montadoras, que estavam se transferindo para a China e "quando entramos no quarto, não sabemos se saímos vivas ou mortas, porque a brutalidade é grande", em uma cidade onde, em 2008, os meios de comunicação informam ao redor de mil assassinatos.
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    Os crimes contra as mulheres, conhecidos como feminicídios, são brutais e ferem a consci~encia da humanidade, sua história é longa nessa cidade fronteiriça, como testemunha uma valente mulher da Fundação de Vítimas de Feminicídios de Ciudad Juarez: Tudo começou com o sequestro de "Lilia Alejandra, de 17 anos, no dia 14 de fevereiro de 2001. Começamos a difundir seu desaparecimento nos meios e foi encontrada 8 dias depois com marcas de violência, seu corpo foi jogado diante da montadora onde trabalhava. Depois dela, centenas foram seqüestradas e aparecem com marcas de violações múltiplas, torturas. Temos sérios indícios da cumplicidade da polícia que joga as crianças nos pastos; também dos grandes empresários implicados no narcotráfico. São os que mandam; Ciudad Juarez está atingida pelo narcotráfico e quem não se submete pode perder a vida; os assassinatos de mulheres já são famosos na cidade, temos 20 prêmios internacionais por opor-nos, por denunciar e buscar justiça. Se não conseguimos que seja feita justiça, que pelo menos os habitantes de Ciudad Juarez conheçam a verdade".
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    As hipóteses sobre a causa desses crimes são diversas, como declara "Casa Tabor": "tráfico de pessoas ou de órgãos, sacrifícios satânicos de gangues ou de grupos de narcos, negócios de filmes sádicos ou cometidos por um dos sexual preditors conhecidos; porém, apenas "controlados", em El Paso.
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    Graças à coragem e à tenacidade das mães e acompanhantes, em novembro de 2007, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos admitiu os casos dos anos de 2002 e se espera uma futura resolução contra o Estado mexicano por sua responsabilidade diante desses crimes que não param. Em 2008 foram seqüestradas, ultrajadas e assassinadas 84 mulheres.
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    Vingança estrutural
    Bush aprovou a construção de um muro para a fronteira, cada milha (1.6 quilômetros) desse muro custará 7 milhões de dólares e aprovou a contratação de uma empresa particular para administrar as prisões para onde são enviados os migrantes, produzindo mudanças significativas no tratamento dos sem documentos capturados, como analisou a Ir. Katerin, do Texas, religiosa da Misericórdia que trabalha acompanhando as prisioneiras nos centros de detenção para migrantes. Há 5 anos, nessas prisões havia 6 mil camas; hoje, há 30 mil, com uma projeção para 60 mil camas nos próximos três anos.
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    A mudança radica no fato de que as autoridades migratórias processavam os migrantes e os deportavam. Agora, os mantêm mais tempo presos porque as corporações contratistas que estão construindo os centros e os administram recebem 90 ou 95 dólares diários por cada migrante recluído. Esses mercenários da migração recebem pessoas detidas, somente porque cruzaram a fronteira sem documentos; agora estão criminalizando a passagem da fronteira, estão dando tratamento de terroristas aos sem documentos. Após o dia 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos construiu a entidade "Home Land Segurity" (segurança nacional), da qual depende a estrutura migratória e carcerária. "As mulheres me dizem: não sei porque estão me tratando como criminosa; me sinto como uma barata, que podem fazer qualquer coisa comigo", testemunho de Katerin. Anualmente, chega a 450 pessoas, os migrantes mortos ao cruzar a fronteira através do Estado do Texaas.
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    Resistentes acompanhadas
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    Boa parte da verdade que as vítimas gritam as vítimas dos crimes de mulheres e da injustiça social estrutural que se expressa nas migrações, está apoiada pelo acompanhamento de um punhado significativo de mulheres e homens do México e dos Estados Unidos, que resistem á política migratória de seu país que gera exclusão e morte.
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    Em Ciudad Juarez, México, Emilia, Peter e Betty, há 13 anos formaram a comunidade Casa Tabor. Em sua casa, em um bairro popular da cidade fronteiriça acolhem e recolhem. É um lugar de passagem de peregrinas/os, a maioria estadunidenses que querem conhecer a realidade de morte das/os migrantes assassinados, desaparecidos ou mortos por inanição. As paredes de seu oratório estão cheias com os nomes dos/as que morreram na tentativa de franquear o abismo fronteiriço. Depois, somente a alguns centímetros se conectam com a onda das mulheres e homens que entregaram suas vidas em resistência ou nos acompanhamentos: Monsenhor Romero, Gerardi, Gerardo Valencia, Jesuítas de El Salvador, Rutilio Grande, 141 assassinados de Curvaradó e Jiguamiandó, 85 de Cacarica, 200 de Dabeida, na Colômbia, tantos e tantas que em toda América Latina têm sido testemunhas de esperança e de dores, vítimas da injustiça em sua busca pela Justiça. A Memória e as articulações, podemos situar atrevidamente, marcam a missão desses velhos herdeiros da t eologia da libertação, do mais autêntico dos sonhos libertários que fizeram missão na Guatemala, El Salvador e Nicarágua. Ali ficam, em outro destino, o das migrações.
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    Em Austin, Minnesota, duas irmãs Franciscanas de Lourdes, Ruth, entre elas, resistem à injusta legalidade das cidadanias para alargar o tempo de estadia dos "molhados" que sobreviveram ao cruzamento do Rio Bravo ou Grande e de centenas que se aventuraram pelo deserto até chagar ao que consideram sua redenção. Dão aulas de inglês, servem de tradutoras nos hospitais, avisam quando a migração vai fazer suas rondas de fiscalização, ajudam a tramitar permissões para os trabalhadores das fábricas para evitar que seja demitidos caso faltem um dia, buscam vagas nas escolas de crianças, são centro de circulação de abrigo para redistribui-lo entre os migrantes. Com elas, o apoio das Franciscanas de Lourdes, de sua presidenta, Tierney Truman, aberta, visionária, solidária que facilita as condições e abre espaços para que possam continuar com seu trabalho, enquanto ela mesma apóia defensoras de direitos humanos que fogem da morte e a prisioneiros de todo tipo, em uma das prisões de Rochester, Minnesota.
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    Em Antony, Novo México, Katerin acompanha desde os centros de detenção do regime, os latinos que cometeram o delito de desafiar a exclusão, pretendendo incluir-se forçosamente em um país que os repele como às baratas. Ela mostra com sua solidariedade que a dignidade e a humanidade não é dada para quem fala inglês, tem olhos claros ou nasceu nos Estados Unidos e tem a pele branca.
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    Desde Washington, Scott Wrigth, de Épica e o Sicsal estendem pontes à solidariedade que não perdeu a força apesar dos bombardeios que presenciou em plena guerra em El Salvador. O punhado de mulheres e homens do povo dos Estados Unidos que, impulsionados por sua fé, puseram sua vida a serviço da solidariedade na tentativa de libertação desse povo, o mesmo que, 15 anos depois, arrisca sua vida na denúncia da injustiça presente no êxodo dos migrantes e no anúncio de processos de transformação das estruturas sociais que conduzam a minimizar os processos de exclusão.

    Elas e eles, junto a outros, tornaram possível encontros como a Missa do dia 1o de novembro, que partilhou altar no território mexicano (Ciudad Juárez) e território dos Estados Unidos (El Paso, Texas) para pedir que o muro que Deus não fez nessa parte do planeta, fosse derrubada e que impossibilitou que o abraço da paz, ao qual os bispos celebrantes convidaram, pudesse ser dado entre os dois povos presentes. Nesse dia, em meio a cantos, orações, bênçãos e homilias bilíngües, 25 mexicanos saltaram a estrutura metálica para os Estados Unidos, 5 deles foram presos nesse momento pela "migra", e se desconhece a sorte dos demais.
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    Novembro de 2008

    * Justicia y Paz - Colombia - Secretaría Ejecutiva del Servicio Internacional Cristiano

    quarta-feira, 4 de agosto de 2010

    Juárez: Entre a vida a morte



    02.08.2010 - 14:24 Por Alexandra Lucas Coelho, em Ciudad Juárez
    Cabeças cortadas. Cadáveres atirados para o deserto. Gente raptada, violada, baleada, todos os dias. Esta é a história de como se destrói uma sociedade de fronteira. Primeiro, é o bordel dos EUA. Depois, fica escrava do comércio livre. E então o narcotráfico entra a matar, porque se tornou fácil e o dinheiro é muito. A cidade mais violenta do mundo é Juárez, fronteira do México com os EUA.
    Em 2008, o Exército foi chamado, mas, após centenas de queixas de abusos, os militares foram retirados 
    Em 2008, o Exército foi chamado, mas, após centenas de queixas de abusos, os militares foram retirados (Julián Cardona)


    1.A morgue é um lugar limpo

    O homem está deitado numa mesa de alumínio. Tem parte da cara desfeita e sangue na roupa. Vê-se a barriga, grande, peluda. Não há história, não há nome. O funcionário da morgue calça luvas de silicone, cobre o corpo com um oleado, e escreve a amarelo-fluorescente na zona da barriga: "Cadáver desconhecido - 30/Junho/2010."

    Isto foi um homem.

    "Já fizemos 14 autópsias, e agora entraram mais sete", diz a directora da morgue, Alma Rosa Padilla, vestido rodado às bolinhas, sapatos pontiagudos de verniz. Alguns dos autopsiados eram mortos de ontem, mas hoje ainda não acabou. São apenas 19h25 e, como veremos, há gente por matar.

    Ao fundo do corredor, dois funcionários tiram de uma carrinha os corpos recém-chegados, envoltos em oleado. Põem cada volume numa mesa de rodinhas e puxam-na até à Sala de Autópsias. Pelo caminho, não há sangue. A nova morgue é um lugar limpo, com mosaicos onde os saltos da doutora Alma Rosa fazem tic-tic. Antes da autópsia, os mortos só se destapam para o registo fotográfico. "Depois, o sistema dá-lhes um número com as características: tatuagens, cicatrizes, amputações, cirurgias."

    E fora do sistema, na contagem dos homicídios deste ano, o cadáver da cara desfeita será um número na casa dos 1400.

    No tempo em que menos de uma pessoa por dia era morta em Juárez, os repórteres tinham umas horas para reconstituir a história. Isso foi há séculos, em 2007. Agora, os mortos fazem fila para entrar nas notícias, tal como na morgue.

    Em 2007, foram mortas 316 pessoas em Juárez.

    Depois, em 2008, foram mortas 1623 pessoas.

    Depois, em 2009, foram mortas 2754 pessoas.

    Ou seja, entre 2007 e 2009, o número de pessoas mortas aumentou quase 900 por cento.

    E, em 2010, a tendência é para subir.

    Não contando com sequestros, extorsões, violações e torturas, são estes números que fazem de Juárez a cidade mais violenta do mundo, a grande distância de San Salvador, Cidade do Cabo ou Medellín.

    Segundo o Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y la Justicia Penal en México - observatório que coteja as estatísticas internacionais -, em 2009, a taxa de homicídio em Juárez foi de 191 por cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Em segundo lugar, vem San Pedro Sula, nas Honduras, com 119 (Bagdad, com 20, nem aparece no ranking).

    Mas Molly Molloy, uma bibliotecária da Universidade do Novo México que há anos reúne os dados de Juárez (http://groups.google.com/group/frontera-list), tem contas ainda mais negras. Como centenas de milhares de pessoas deixaram a cidade por causa da violência, a última estimativa de população desceu para 1,1 milhões. A partir desse número, "é possível dizer que a taxa de homicídio é agora de 249", diz Molly por email. "E se projectarmos um total de homicídios mais alto para 2010, poderá chegar a 265."

    Mais um pequeno esforço dos "sicários", e a inflação de mortos rondará mil por cento.

    Quem são os "sicários"? Os que matam a mando. Cada cartel tem o seu exército. Supostamente o que aconteceu nesta cidade foi que em 2008 o cartel que sempre dominou aqui - Cartel de Juárez - passou a ser desafiado in loco pelo Cartel de Sinaloa. Daí o número de mortos ter disparado.

    Esta é a versão oficial, repetida pela justiça, pela polícia e pelos políticos: dois cartéis em guerra, e as autoridades a porem ordem.

    Depois há a versão não-oficial, de toda a gente (que as autoridades entrevistadas pela Pública também não contestam): o narcotráfico está dentro das autoridades.

    E entretanto, o que qualquer pessoa em Juárez parece saber é que a qualquer momento pode ser morta.

    Balanço dos quatro dias que a Pública passou na cidade:

    A 29 de Junho foram mortas cinco pessoas, incluindo um polícia.

    A 30 de Junho foram mortas 17 pessoas, incluindo adolescentes que reparavam telemóveis, carpinteiros no trabalho e a subprocuradora. A cabeça de um dos mortos foi deixada à porta de um político local.A 1 de Julho foram mortas sete pessoas, incluindo uma menor, todas na rua ou em locais públicos.

    A 2 de Julho foram mortas cinco pessoas, incluindo um homem desmembrado e pendurado numa árvore.

    Muito trabalho para a morgue, onde a ciência forense, portanto, avança. "Temos quatro refrigeradores com capacidade para 40 corpos bem acomodados", descreve a doutora Alma Rosa. "Fazemos três turnos diários, incluindo fins-de-semana. Já chegámos a 30 autópsias por dia."

    E, como veremos adiante, esta morgue está na vanguarda mundial quanto a re-hidratação de cadáveres mumificados. Estamos no deserto, e o deserto tem esse efeito sobre os cadáveres.

    Mas voa-se para Juárez como se fosse uma cidade normal.

    2. "Check in" no deserto

    Cidade do México. Sala de espera do voo AM258. Um expresso custa dois euros, há joalharias e lojas Lacoste. Mexicanos vêem o correio nos blackberrys ou atendem com aquela gentileza protocolar: "Sim, sou eu, para o servir." E a duas horas e meia de voo, a morte sai à rua.

    Em 2007, o grupo do Financial Times escolheu Juárez como "Cidade norte-americana do futuro". Ainda hoje alguém deve estar a pensar como se enganou tanto. Se tivesse lido, por exemplo, Juárez: The Laboratory of Our Future, de Charles Bowden, estaria a par de um futuro, sim, mas negro. Bowden, que passa longas temporadas em Juárez e escreve com a exactidão de um poeta, vê a cidade como cobaia do capitalismo global, a antecâmara de um mundo de desempregados e quase-escravos.

    Agora, publicou Murder City - Ciudad Juárez and the Global Economy New Killing Fields, narrativa devastada. E podemos embarcar a ler, por exemplo, a história da rapariga a quem ele chama Miss Sinaloa, que acabou entre Los Locos, aqueles que perderam a razão nas ruas de Juárez, anjos vindos do Sul do México, soprados pelo american dream, violados em série ou castanhos da heroína.

    Avança uma hospedeira: "Passageiros do voo AM258 para Ciudad Juárez, embarque na porta 64."

    Mulheres sozinhas com madeixas louras, mãe, pai e filho com um blusão luxuriante, filhos cheios de jogos electrónicos e mãe com unhas de gel e saco Hugo Boss. Mas isto não quer dizer nada, a não ser dinheiro novo.

    Deserto, deserto, deserto. Depois fábricas. Aterramos sob um céu de cinema, grandes nuvens brancas a rebolarem num fundo azul. À saída, pick ups da Polícia Federal, armas apontadas. Há 4500 federais assim, a patrulhar a cidade.

    Em 2006, quando o actual Presidente Felipe Calderón ganhou as eleições depois de uma controversa contagem, parte do país viu-o como usurpador. A primeira decisão de Calderón foi declarar guerra ao narcotráfico, e a convicção geral é de que o fez para se legitimar. Vinte e cinco mil mortos depois, a sua popularidade não está propriamente melhor.

    Guerra, aqui, não é em sentido figurado. As Forças Armadas foram enviadas com tanques para as frentes do narco. E até hoje, o viajante poderá ver blindados e check points por todo o México.

    Em Juárez, onde o Exército chegou em 2008, a Comissão de Direitos Humanos recebeu centenas de queixas de abusos, e o Presidente acabou por retirar os militares do centro. Nova estratégia, desde 9 de Abril deste ano: o Exército à volta e os federais dentro.

    "Mas muitos polícias são ex-soldados", faz notar Julián.

    Julián Cardona, 49 anos de idade e quase 49 anos de Juárez. Para a Agência Reuters escreve, para os outros fotografa. São dele as fotografias dos livros de Bowden, percorrendo as histórias da fronteira - esta que agora vemos da sua pick up, uma cerca à beira da estrada, com as carrinhas da Border Patrol do lado de lá.

    O lado de lá é El Paso, Texas.

    "Não consegues vê-lo porque está quase seco", diz Julián, "mas entre nós e eles está o Rio Bravo." Para os americanos, Rio Grande.Um minuto de História sobre a fronteira. No século XVI, depois de vencer os aztecas, a conquista espanhola seguiu para norte. Ao sítio onde se passava este rio chamou El Paso. Aí fundou, em meados do século XVII, uma missão, e nas duas margens cresceram as casas de El Paso e El Paso del Norte. Décadas depois, o México tornou-se independente, mas perdeu para os EUA boa parte do território. Então a fronteira ficou a ser o rio, e El Paso del Norte mudou de nome para Ciudad Juárez.

    Estamos a chegar ao centro.

    Vias rápidas entre postes altos com anúncios, porque toda a cidade é horizontal, feita para andar de carro e avistar as coisas ao longe. Não há passeios, há bermas, com acessos a parques de estacionamento, bombas de gasolina, "drive ins". Não há passadeiras, há pontes aéreas, com campanha eleitoral e anúncios como "Em Juárez os sorrisos vencem fronteiras. Hoje sorri". Vermelho Coca-Cola. Dourado McDonald"s. Verde Starbucks. E, para não esquecermos onde estamos, um painel contra o céu: "Pena de morte para assassinos e sequestradores."

    Ao fundo, o recorte das montanhas. Bairros de cimento interminavelmente iguais. Baldios com lixo e um aquaparque abandonado. Água nas esquinas porque choveu, e drenagem, nada. Aqueles autocarros de escola americana, comprados em segunda-mão para o transporte público. Um pequeno graffito: "Resiste."

    Sempre que aparece uma fábrica é uma maquiladora (ou maquila, para abreviar): fábricas, sobretudo americanas, mas também europeias ou japonesas onde, por custos muito baixos, operários mexicanos montam peças que vêm de fora.

    "Antes, a cidade vivia do turismo negro", diz Julián. "Bares, prostitutas, artesanato. Depois, nos anos 60, aceitou um novo modelo, com as maquilas. Salários de 50 pesos por dia [três euros]. Claro que décadas de salários tão baixos geraram uma decomposição."

    Ele mesmo experimentou a maquila, há 30 anos. Foi supervisor e saiu depressa: "Não ia passar a vida a foder a minha gente."

    3. Uma bala no bolso

    Em qualquer sítio no México, se olharmos em volta, algo pertence a Carlos Slim, o homem mais rico do mundo. Por exemplo, a rede de telemóveis. Por exemplo, este Sanborns na avenida principal de Juárez. É uma cadeia nacional, espécie de restaurante-e-fnac, mas com ar condicionado no máximo e chiles dentro da sopa. E, como em qualquer sítio no México, dão-nos música tão alta que não se ouviria um tiro.

    "Já não se aguenta o argumento de que isto é como qualquer cidade violenta. Porque não há nenhuma cidade mais violenta que esta. Mas as pessoas têm medo de falar, porque têm medo de que as matem." Julián fala a olhar nos olhos. E de quando em quando olha a porta, as janelas, em volta.

    Ao fim de umas horas, o visitante começa a aperceber-se de que é assim que as pessoas de Juárez falam. E parecem ter sempre gotas na testa, ou por cima do lábio.

    Julián propõe beber café no Starbucks, não só porque o café é melhor, mas porque "ontem houve uma execução no estacionamento".

    Um dos lavadores de carros, Jorge, 19 anos, cabeça rapada, brinco, não viu nada. "Não estava cá, mas encontrei uma bala de 9 mm." Qualquer miúdo em Juárez sabe distinguir balas.

    O único lavador que viu algo é um tipo de meia-idade e boné, que não quer dizer nem o nome próprio: "E se os federais vierem falar comigo, não vi nada." E o que viu, afinal? "Vieram executar um. Era uma carrinha com dois homens, eram umas sete da tarde. Estavam cá fora à espera, e ele estava lá dentro às compras. Quando olhei, já estava no chão. Saíram logo, e a polícia apareceu um minuto depois." Se a polícia aparece "um minuto depois", as pessoas tendem a suspeitar que já estava lá, e não fez nada. Ou seja, que foi cúmplice.

    "As pessoas já estão tão acostumadas que foi como se nada se tivesse passado", remata o homem, que veio do Sul há muito. "Trabalhei seis anos nos campos da Califórnia sem papéis, até me deportarem. Então, há 15 anos, vim para Juárez, quando era outra Juárez." A limpar carros faz "uns 200 pesos por dia [12 euros]". Quatro vezes mais do que um operário.À saída e em cada curva somos seguidos pelos cartazes da campanha, cheios de dentes falsos. O que levará, por exemplo, este Hector Murguía a candidatar-se à presidência da câmara de Juárez? É que amanhã vai aparecer à sua porta uma cabeça acabada de cortar. São coisas que acontecem em Juárez.

    "Murguía é uma espécie de Berlusconi local, parece que vai ganhar", resume Julián. "Dizem que está vinculado ao narco."

    De toda a gente com poder, ou aspirante, se diz isso, aqui. Por exemplo, sobre o presidente Calderón e o seu Partido de Acção Nacional (PAN, direita liberal) diz-se que apoiam o Cartel de Sinaloa contra o Cartel de Juárez, e daí a explosão de violência: o actual regime estaria a ajudar um cartel a vencer outro.

    O que leva as pessoas a ligar o actual regime ao Cartel de Sinaloa? Antes de mais, o facto de o líder desse cartel, "El Chapo" Guzmán, ter escapado há anos de uma prisão de alta segurança. Sim, os guardas foram subornados, mas as pessoas acham que o regime sabia. El Chapo vale mil milhões. Está na lista da Forbes.

    Julián tem uma perspectiva mais radical: "Calderón é uma figura decorativa. Não creio que eles apoiem um cartel. Eu creio que eles são o cartel. O narco é um tipo de economia."

    Quatro faixas de carros numa direcção. As distâncias são enormes. De repente, terras de ninguém. Saímos da cidade? "Não, a cidade é isto", diz Julián. "Cresceu de forma desordenada, de acordo com os interesses de quatro ou cinco famílias, sem parques, sem infantários, sem escolas secundárias."

    Há cem anos, Pancho Villa chegou com um punhado de homens e 500 balas. Os habitantes de El Paso alugaram sótãos para o espectáculo da revolução mexicana, do outro lado do rio. E os livros de História dizem que a revolução triunfou. Este ano é mesmo de celebrações nacionais, embora em Juárez, assim de repente, não se dê por isso.

    Por exemplo, Pancho Villa: uma estátua no meio do trânsito, num separador, e sem placa. "Os drogadictos arrancam-nas todas", explica Julián.

    4. O centro dos desaparecidos

    Há um lugar onde Juárez quase parece uma cidade, e esse lugar é o centro. As ruas estreitam. Bicicletas, bancas de refrescos, lojas com letreiros dos anos 50. Um velho cinema, uma igreja com torres, uma praça com árvores e pessoas sentadas.

    Mas, de perto, nada é o que parece.

    Porque as pessoas estão sentadas num banco com tinta descascada e cantos partidos; o cinema está abandonado e do outro lado da rua há um outro cinema abandonado; as mulheres estão de minissaia, chinelos de salto e boca franzida num desdém; a comida é de plástico, de garrafa, de pacote, e isso vê-se nos corpos e pelo chão; um mendigo olha o grandioso céu do deserto, como se neste momento não estivesse a ser baleado mais um homem; e no subterrâneo onde deixamos o carro para que não seja roubado há uma placa a dizer: "Rezemos por Juárez."

    Pendurada na grade da igreja, uma adolescente domina a praça, vestida de azul-celeste, coroa de princesa, covinhas. "Por favor, ajude-nos a encontrá-la e a rezar para que nada de grave lhe aconteça", diz a primeira frase do cartaz. Depois o nome, em letras gigantes: Yanira Frayre Jaquez. As características, a roupa, o lugar onde foi vista a última vez, os telefones de contacto. Não há idade, mas ninguém lhe daria mais de 15, e deve ter desaparecido há pouco porque o cartaz está novo.

    Se olharmos em volta, veremos outras adolescentes mais desbotadas, com as características igualmente escancaradas na parede ou em postes. E por cada uma, outras que ninguém verá porque a família teve medo de fazer queixa. Quando não há queixa nem corpo, será como se nada tivesse acontecido. Há-de sobrar a placa no jardim que diz: "A uma mulher não se toca nem com uma pétala de rosa."Então, este é o centro de Juárez, uma boca que nos engole. De repente, podemos nunca ter existido. E cheira a hambúrgueres Wendy"s, e a marijuana.

    "Aqui, por toda a parte se vende droga", diz Julián, subindo as escadas da igreja. No adro, uma estátua do frade fundador que parece viva, e lá dentro homens que parecem atordoados, sentados ao lado de sacos. Música a bombar de um carro, e é como se ninguém a ouvisse. Mas nem só os pobres entram na igreja. "Os narcos são católicos."

    Julián volta costas para identificar os cinemas da sua infância, o Reforma, o Plaza, o Éden. Depois, continuamos para poente, até ao largo do Palácio Municipal, onde estão duas carrinhas com federais em agitação. A guarda do palácio explica que "balearam um polícia perto da ponte", ou seja na fronteira.

    Ao lado há uma mini-livraria, a única que veremos em Juárez. O Que os Mortos Sabem e A Bíblia do Diabo estão em destaque, mas somos os únicos clientes.

    Ruas com velhas lojas de bonecos coloridos, a Dulceria El Alamo com um leão e um cavalo para montar cá fora, bancas com chiles de todos os tamanhos e copos de cajeta, um doce de leite condensado. Mas sobretudo o comércio barato que tomou o lugar de quem morreu ou desistiu: lojas chinesas, quadros com A Morte vestida de dólares, esculturas da Virgem de Guadalupe com o seu manto de sol, crucifixos com flores e laços para funerais, revistas com raparigas de tanga, pernas-e-rabo de plástico com calças a seis euros.

    "Não tires fotografias", avisa Julián. "Toda esta rua é de venda intensa." Passadores e picaderos.

    E de caminho, mais postes com desaparecidas. Atrás, uma loja de chapéus. Ao lado, a reparação de calçado El Relampago.

    Roberto, o sapateiro, 65 anos, está lá dentro, com cabedais no colo. "Mudou muito, o centro, há menos trabalho. Muitas lojas fecharam porque as pessoas têm medo. Antes era tranquilo, podia andar-se às onze da noite, e agora já nem de dia." Porquê? "Andam aí os rapazes a pedir dinheiro para nos deixarem trabalhar." Quais rapazes? "Os "aztecas"."

    Em Ciudad Juárez há mais de 800 gangues, mas o Barrio Azteca é o mais poderoso. Trabalha para o Cartel de Juárez e tem os seus subcontratados. Crianças de sete anos recebem à semana como "falcões", para vigiar. Os liceus estão cheios de adolescentes que não querem a pobreza da maquila. Querem sucesso, e sucesso é o narco, com os seus gangues tatuados.

    "Eu não pago aos "aztecas"", diz o sapateiro Roberto. Até agora não pagou. E um dia destes vai-se embora.

    Mais adiante fica a Rua Noite Triste. E de volta pela igreja chegamos à esquina da Avenida Juárez, que vai até à fronteira.

    "Era a avenida dos turistas", lembra Julián. "Os gringos vinham aqui comprar o seu sombrero grandote. Várias fábricas de whisky vieram produzir para cá." Do lado de lá era a Lei Seca, e antes, durante e depois todo o tipo de sede desaguava em Juárez: álcool, jogo, droga, sexo. Criaram-se mitos: aqui se inventou a Marguerita e se divorciaram Marilyn e Miller. Juárez era o consolo dos soldados americanos do Forte Bliss e do puritanismo de El Paso. El Paso mantinha-se limpa e Juárez sujava as mãos.

    Hoje, El Paso - ou seja, aqueles arranha-céus ali - é a segunda cidade mais segura dos EUA. A violência do narco no México não prejudica os EUA, pelo contrário, dá-lhe capital e mão-de-obra. Os juarenses que podem têm casa em El Paso e filhos em escolas de El Paso. São cinco minutos, uma ponte a pé sobre o rio, até estarmos frente ao recorte espelhado da baixa texana.

    "Ordem", diz Julián, braço a apontar para os EUA. "Caos", o outro braço na direcção do México.Juárez flutua no horizonte, como a cidade dos condenados. Ao lado, a montanha ocre onde alguém escreveu em letras gigantes: "A Bíblia é a verdade: lê-a."

    O vento sopra, o sol põe-se. Regressamos pela paralela à Juárez que é a Mariscal. Era uma espécie de "quarto escuro": "Aqui estavam os bares de malamuerte, prostíbulos, striptease, topless." Agora há quarteirões com uma só fachada de pé a dizer "Bar La Princesita" e um cipreste. Portas de ferro corridas até ao chão e a foto de uma stripper num poste. Ruínas com lixo, entulho e uma mulher de alças e calções a desaparecer atrás de um barraco que diz "Salão de Baile O Morro, quartas-feiras de tanga, sexy". Está descalça, e as plantas dos pés parecem sola castanha.

    5. Vida operária

    O primeiro encontro com Irma Guadalupe é breve. "Roubaram-me o telemóvel na missa e ainda quero apanhar a loja aberta", diz ela, oferecendo água fresca. É directora da Casa Amiga, um centro pioneiro para as mulheres de Juárez. Há mulheres que escaparam de morrer e só falam com ela. Não pode ficar incontactável.

    Muito antes de as mortes explodirem, Juárez foi notícia pela morte de dezenas de mulheres que todos os anos apareciam violadas e torturadas, muitas no deserto. Roberto Bolaño ficou tão obcecado que lhes dedicou 350 páginas do seu 2666, e houve filmes, livros e canções sobre os "feminicídios".

    Brutais, inquietantes e não-investigadas, as mortes destas mulheres representam uma percentagem relativamente pequena do total de homicídios. Já chegaram a 16 por cento, em 2009 ficaram pelos seis. O que não significa que as mulheres não sejam dos alvos mais vulneráveis. Além das mortes, há sequestros, violações e violência doméstica.

    A história de Eva tem tudo isso. Ela só não morreu.

    E quando Irma lhe telefona a perguntar se recebe a Pública para falar da sua vida na maquila, Eva aceita.

    Bairro Los Alcaldes, terra batida, casas pobres, cimento à vista. E todas têm grades, cercas de ferro e cães a ladrar, porque os gangues de Juárez não roubam aos ricos para dar aos pobres, mais ao contrário.

    O cão de Eva chama-se Jason. "O anterior chamava-se Killer, mas roubaram-mo", diz ela, abraçando-o como se fosse um gatinho e não um pitt bull. Aos 42 anos, é uma mulher obesa e risonha, vestida com uma T-shirt cor de laranja. Quando deixa de sorrir, parece exausta.

    Estamos num pátio inacabado, com tijolos no chão e roupa a secar. "Tínhamos outra casa com mais quartos, mas por causa da violência viemos para aqui todos juntos, os meus filhos e a minha companheira." No caso dela, a violência é uma história de infância, mas disso não falará. "Irma não vos contou? É melhor ser ela. Prefiro não falar disso à frente da minha família."

    Então entramos no único quarto que é a casa. Em frente, a mesa. À esquerda, frigorífico, lava-loiças portátil, uma frigideira ao lume. À direita, uma estante com a televisão, um filho sentado numa cama a olhar para o ecrã, a companheira deitada noutra cama a olhar para o ecrã, a cama do outro filho vazia, dois cães e um elefante de peluche ao pé da janela.

    O tecto é de madeira e há frestas. O que acontece quando chove? "Pois, entra água", sorri Eva. A porta está aberta, mas é como se o ar tivesse parado acima dos 40 graus.

    Sentamo-nos à mesa.

    A maquila onde ela trabalha é a Cisco Systems, sede na Califórnia. Eva nunca viu os patrões e eles nunca a viram a ela. "Só conheço os supervisores, que são mexicanos." Cinco mil trabalhadores em cada turno, três turnos por dia. "Eu monto o que está dentro das televisões Sony. Pagam-me 600 pesos por semana [36 euros]." Esse trabalho implica soldar, o que a expõe a envenenamento por chumbo. Que acontece quando fica doente? "Dão-me um dia. Férias, temos 23 dias, mas roubam-nos sempre alguns, não sei como."

    A fábrica assegura o transporte dos operários, como acontece em geral na maquila, porque cada minuto conta. E dá-lhes duas refeições por dia. "Mas às vezes a comida está feia, e não a comemos para não ficar mal do estômago", diz Eva, delicadamente. Alimentação, transporte, atendimento médico, bairros de má construção a preços baixos, "um modelo muito sofisticado em que tudo se vende como um benefício", resumirá à Pública o antropólogo Carlos González Herrera, director do mais importante centro de investigadores em Juárez. "A exploração terrível da maquila castrou as pessoas como cidadãs e divorciou-as dos serviços públicos."

    Eva acha que a vantagem da maquila sobre outros trabalhos, como limpar um centro comercial, é "ter os fins-de-semana livres", e sente-se com sorte por ter um contrato quando a recente crise nos EUA levou tantas maquilas a despedirem.

    Seja como for, se quisesse direitos, não ia longe. "As maquilas não permitem sindicatos. O mundo da maquila é diferente dos outros trabalhos."

    E está cheio de droga. "Vende-se tudo lá dentro, sobretudo cocaína e pastilhas. Os guardas estão de acordo, sabem quem é. Um globo [de heroína] que dá para várias vezes custa 100 pesos [seis euros]. Um papel de cocaína são 60 pesos [3,6 euros]. A maioria dos trabalhadores e dos guardas estão viciados. De outra forma, como é que os guardas aguentariam dois turnos? Dentro e fora da maquila, por toda a parte, há droga, e é isso que causa a violência. Em Juárez tenho medo de ir às lojas, medo de ir para o trabalho. Entramos com medo, saímos com medo, mas temos de ir trabalhar. Há três meses mataram uma pessoa ali na esquina e aqui atrás mataram um rapaz."

    Quem matou? Ela sorri. "Pois, tapam a cara, matam e vão-se." Nunca ninguém sabe.

    Houve um tempo em que Eva se sentiu "livre": a mãe dela trabalhava numa padaria do Novo México e tinha papéis. Isso durou dez anos, e foi há muito tempo. De vez em quando Eva pensa nisso, nos Estados Unidos. "Mas agora estou a tomar remédios, e tenho a terapia com Irma." Além disso, a mãe morreu e ela herdou uma casa, vendeu-a e comprou esta. Aqui não paga renda.

    À saída, o pitt bullJason encosta-se e recebe festas. Rua deserta, só grades. "Está muito feio", remata. "Põem-te uma pistola na cabeça..."

    6. Os pecados de Eva

    "Dentro da maquila há droga, prostituição, armas", diz Julián ao volante da sua pick up. "Tudo isto é o free trade. Temos de ter o free trade porque "é bom para os nossos povos"."

    Oficialmente, chama-se NAFTA, acordo norte-americano de livre comércio assinado em 1994. As maquilas já tinham muitos incentivos, e a partir daí mais. E quem eram tradicionalmente os operários da maquila? Mulheres como Eva.

    Por isso muitas mulheres, as mais desamparadas do México, vieram sozinhas para Juárez, sem rede, sem raízes. E para outras, já nascidas na cidade, o inferno foi a família. Decomposição: a palavra omnipresente em Juárez. Maus salários, lei do mais forte, ausência do Estado, álcool, droga.

    "Os homens em Juárez são impotentes socialmente. Não podem aceder a uma carreira, e ainda por cima bebem ou drogam-se, mas mantêm o vigor sexual", diz Julián. Usam-no como poder.

    Casa Amiga. Irma já tem um telemóvel novo. Oferece água fresca e conta a outra história de Eva. "Em 2008, quando ela estava à espera do transporte da maquila às 5h30 da manhã, chegou uma carrinha, saíram dois rapazes e obrigaram-na a subir. Vendaram-na, disseram que a iam matar, e durante três horas violaram-na os três, com um sempre a conduzir. Ela acha que teriam entre 20 e 25 anos e nunca os vira. No fim, deixaram-na nua na rua, e ela pediu ajuda a uma senhora que deu parte à polícia. Confirmaram a violação num primeiro exame, mas depois ela não quis repetir. Começou a ter ataques de pânico, gritava, saía a correr, achava que as portas lhe iam cair em cima, que os carros a iam atropelar. Até há pouco tempo não conseguia ter relações sexuais."Uma espécie de colapso com origens antigas.

    "Durante 15 anos, Eva foi violada pelo pai, que também violava uma outra irmã. Era pastor evangélico, reconhecido socialmente. Ela nunca o denunciou. A irmã é uma heroinómana, conheço-a há muito, andava no meu bairro." E a mãe? "Falava sozinha, escutava vozes. Agora o pai tem quase 80 anos e está no estado de Durango, com os sobrinhos, que estão ligados ao narco. Foi ele quem matou o pai do primeiro filho de Eva. Dizia-lhe que se ela não fosse dele não seria de ninguém. Esteve dez anos preso por esse homicídio, e depois deixou a religião."

    Quando o outro filho de Eva nasceu, ela já não queria ver homens. "Ficou com aversão. Mas, por ter um filho único, decidiu dar-lhe um irmão. Então propôs a um companheiro da maquila, que já tinha 15 filhos, e numa só relação ficou grávida. Depois nunca mais teve homens. Foi alcoólica, mas nunca tomou drogas. Crê em Deus, é muito crente. Pedia a Deus: "Manda-me alguém." E chegou-lhe esta Ana, que já tinha dormido com várias mulheres. É de uma aldeia de Veracruz que acredita em bruxaria. A mãe diz que ela sempre teve comportamento de homem, e que foi por feitiço. O pai e os irmãos têm problemas com álcool." Quando Eva e Ana se juntaram, as irmãs de Eva deixaram de lhe falar. "A irmã drogada queria matar Ana. Mas os filhos aceitaram-na totalmente. Eva acha que é um pecado muito grande, mas que paga por ele."

    O primeiro mundo está cheio de pessoas que têm aborrecimentos. E este mundo está cheio de pessoas que estão vivas não se sabe como, e ainda acham que têm de pagar.

    Foi para algumas delas - mulheres em risco - que Esther Chávez Cano fundou a Casa Amiga nos anos 90. As pessoas de Juárez não acreditam nas autoridades, mas acreditam em gente como Esther Chávez Cano. Depois da sua morte (por cancro), a psicóloga Irma levou a Casa em frente. Tem 33 anos, um filho de dez, e recebe ameaças.

    Vai buscar as chaves para mostrar o abrigo onde ficam mulheres perseguidas, por vezes com os filhos. Tem de ser secreto, porque os abrigos são atacados por gangues. Para além disso, parceiros de mulheres maltratadas aparecem na Casa Amiga à procura delas. Irma diz sempre que não sabe onde estão. "Um disse-me: "A sua vida vai tornar-se num inferno, investiguei tudo sobre si, já sei que vive no centro." Nesse dia, eu nem queria sair do escritório."

    Saiu e no dia seguinte, claro, voltou a entrar.

    7. O cavalo apanhou Jesus

    Outro alvo dos narcos têm sido os centros para toxicodependentes, um fenómeno recente em Juárez, como vai explicar José Rojas, num gabinete cheio de esculturas de Dom Quixote. É um herói bastante adequado à situação, Quixote. O doutor Rojas, de facto, combate a realidade. E a realidade é cada vez maior.

    Por exemplo, este Centro de Integração Juvenil não tinha grade e seguranças, agora tem.

    "Estamos no corredor central do tráfico para os EUA. E ao fim de anos de alto tráfico, Juárez tornou-se também numa cidade de alto consumo, a primeira no México: marijuana, depois cocaína, heroína, anfetaminas e inalantes como gasolina e cola. Recebíamos 20 pedidos de ajuda por mês, passámos para 50, 60. O tráfico entrou por toda a cidade, e pela maquila."Ponto de viragem, 11 de Setembro. "Quando derrubaram as Torres, a fronteira foi fechada, ficou mais droga na cidade e havia que utilizá-la. Então começaram a utilizar jovens para passar droga aos poucos, e pagavam-lhes com droga. Hoje, qualquer miúdo com 30 pesos [dois euros] tem acesso a uma substância."

    Perfil do consumo: a maioria tem entre 25 e 60, por cada dez homens há quatro mulheres.

    "E a tendência é para aumentar o consumo feminino. Quanto a álcool, já é superior ao dos homens. E nas drogas de uso médico, também." Porquê? É neste ponto que Rojas, também ele, fala na "decomposição social" da maquila, que atraiu muitas mulheres sem que se fizessem, por exemplo, creches. "Os filhos ficaram ao cuidado da TV, ou da avó, ou do pai irresponsável. Há muitas mulheres sozinhas e famílias desintegradas."

    Só à volta deste centro, numa parte pobre de Juárez, funcionam "mais de 150 picaderos". Os pacientes são "pressionados" sempre que cá vêm. E o doutor Rojas, tranquilo?

    "Tenho o medo normal. Cerca de 90 por cento dos meus pacientes têm antecedentes criminais, e quando se vêem bem atendidos, sem estigmatização, mudam. Isso faz com que nos protejam, nos alertem para os perigos."

    Mas há ataques de milícias. Há um ano houve um massacre de 17 pessoas num centro. Não são golpes individuais. "Estamos a investigar porquê. Há a versão de que esses ataques aconteceram porque havia gente lá que ainda tinha contas a ajustar."

    Esta é a versão oficial para a morte em Juárez: os que morrem são do narco - o que permite às autoridades continuar a resumir tudo a uma guerra contra os narcos, e muita gente em Juárez continuar a pensar que nada lhe vai acontecer.

    E entretanto morrem adolescentes, sapateiros e gente que ia a passar. E a cidade continua com mau planeamento, maus salários, sem parques, sem creches, sem secundárias. E os pobres continuam a sonhar com os EUA porque o seu país não aposta neles. E os ricos continuam a enriquecer, porque a droga continua a passar para os EUA.

    O que o doutor Rojas pode fazer de melhor é continuar o seu trabalho, confiando em quem trata. Como pagam eles? "Muitos estão isentos, e muitos pagam quando já estão a trabalhar." Este centro faz parte de uma rede com apoios vários. "A nível nacional há um milhão de curados." E em Juárez? "A taxa de recuperação é mais baixa. No país é 53 por cento, em Juárez 26."

    Na manhã seguinte, neste mesmo centro, conversamos com um deles. Um ou uma? Quando Jesus Hernandez abre a porta, não é claro: tem cara de homem sugado pela heroína e peito de mulher que deixou de pôr silicone. Um transexual na ressaca.

    Aos 50 anos, sobram-lhe dois dentes em baixo e uma perna boa. A outra ficou torta num atropelamento. História breve: chegou a Juárez aos seis anos, fala da mãe e de oito irmãos, a mãe limpava casas, Jesus também limpou casas, fez a primária e pronto. "Não houve dinheiro para mais, comecei a trabalhar muito menino." Aos 17 estava num bar strip da Mariscal. "Vinham muitos turistas, americanos de cor, japoneses, alemães, chineses, as ruas estavam cheias de clubes. Pagavam-me para beber com os clientes e para dançar. Dormia de dia." E a heroína, o "cavalo"? "Só comecei há dez anos. Antes tomava pastilhas para cima e para baixo, umas 20 por dia." Chegou a gastar 500 pesos por dia [30 euros] em heroína. E a polícia? "A polícia sabe e pede dinheiro aos picaderos." Cada picadero tem os seus polícias. Agora gasta 40 euros por dia com os remédios. "Voltei a limpar casas." Apesar da perna três-vezes-operada.

    E até ele, uma rapariga da Mariscal, não reconhece aquilo em que Juárez se tornou. "Quando vou pela rua à noite, tenho medo. A um conhecido, bateram-lhe, amarraram-no e mataram-no. A outro, La Rubi, mataram-no na Mariscal."Neste mesmo bairro, há um centro de atendimento psiquiátrico em que tudo é pobre, o tamanho das divisões, os acabamentos, o calor que faz e o gabinete do director, Victor Acosta, figura "hemingwayana". Formou-se na UNAM, a grande universidade da Cidade do México. E há 35 anos que segue o que vai pelas cabeças de Juárez.

    "Os casos não mudaram muito. O que há é uma paranóia generalizada: "Estão a vigiar-me. Quem são aqueles ali estacionados? Aquele carro já me seguiu dois quarteirões." Só a presença da polícia ou dos soldados já nos põe em alerta. Não estamos em estado de sítio mas temos uma guerra declarada. Os rapazes já não podem andar seguros, os papás não estão tranquilos, as festas fazem-se em casa porque eles matam-te num bar."

    E que dizem as pessoas sobre quem morre? "Que andam metidos no narco. Mas a quantos tocou que não deviam nada? E as extorsões, os sequestros, as ameaças? Acha que as autoridades vão fazer caso se telefonarem a dizer que me vão matar? É uma sociedade que quer estar bem, mas o medo impede que se organize. O medo cria medo. Pode ser até uma táctica, não sei de quem. Para criar medo de sair, de protestar."

    8. Repórteres na fronteira

    "Estamos a viver uma violência tão extrema que está em todos os lugares, na rua, na escola, no supermercado, e essa cartografia das execuções mostra como toda a cidade está infectada, e o facto de não se poder combater diz como as autoridades estão infectadas", resume o antropólogo Carlos Herrera. "É justa a percepção de que o narco infiltrou a polícia, o Exército, a política, mas o mais grave é que como sociedade estamos profundamente infiltrados."

    Pouca gente fará ideia tão clara disso como os repórteres locais. Juárez desenvolveu uma especialidade de reportagem: execuções. Jornais, rádios, sites e televisões locais têm repórteres que só fazem isso, e por turnos.

    Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, o "México é o país ocidental mais mortífero para os media e um dos mais perigosos do mundo". Desde 2000, foram mortos 67 jornalistas, e só este ano já morreram dez. "Os jornalistas no México vivem agora em constante medo de serem raptados, torturados e mortos. A violência é encorajada pelo facto de que aqueles que matam quase nunca são punidos." Se é assim no país em geral, mais ainda em Juárez.

    Sigamos um veterano do vespertino PM.

    Está sentado ao volante, a receber informações por telemóvel, chama-se Ernesto. A seu lado, um jovem de rabo-de-cavalo, com uma máquina fotográfica. Carro modesto e com muito andamento. Uma rapariga foi algemada pelos federais. Eles arrancam à procura da casa. A história vai dar em nada, depois de muitas ruas e telefonemas. O ar está eléctrico.

    "Ontem prenderam o líder dos "aztecas"", diz Ernesto. E há dois dias os federais chatearam um repórter que fotografou aquele polícia baleado. "Disseram que o iam matar." Então Ernesto telefona-lhe, a perguntar se não quer vir ter connosco à loja de conveniência Del Rio.

    "É um ritual", explica Julián Cadona. "Quando andas a cobrir as execuções, a meio do dia paras aqui, comes qualquer coisa."

    Ao fundo da loja há comida feita e mesas de plástico. Os repórteres sentam-se a comer burritos e frango.

    "A gente da cidade habituou-se a ligar, quando acontece algo", diz Ernesto. "Outra fonte boa são as funerárias." E a polícia? "Também, mas os federais são de fora da cidade, não temos relação com eles." Não acompanham patrulhas, como fazem os jornalistas estrangeiros que vêm a Juárez. Por quem se sentem protegidos? Ernesto sorri, aponta para o céu. "Estamos sozinhos, metidos numa guerra e somos os mais próximos. Recebemos avisos. Já me avisaram de arma na mão. Há dias em que me sinto aterrorizado. A um companheiro que fazia o turno da madrugada, puseram-lhe uma arma na cabeça para que ele não publicasse as fotos de um "sicário"." E o que é que ele fez? "Não publicou. Mas normalmente publicamos."Numa cidade assim, o jornalismo torna-se colectivo. "Agora chegamos todos juntos ao local de uma execução. Somos uns 20 a 25 repórteres sempre em contacto. Já não há exclusivos." E o narco joga com os media. "Aproveitam o horário das notícias. Utilizam-nas para comunicar baixas ao inimigo."

    Chega o repórter Ricardo, do El Diário. "Não fiz denúncia dos federais. Estava um deles morto no chão e sentiam-se impotentes. Posso compreender." E a relação com eles, em geral? "É tensa." Mas pior é o medo, em geral. "Porque não sabemos quem são os maus, realmente. Não sei quem vai estar por trás daquela pessoa, se um malandro ou um narco. E a forma de matar é cada vez mais sanguinária. Partem os corpos, cortam-nos, exibem-nos, fazem-lhes desenhos, metem-se com as famílias."

    Impunidade, outra palavra para Juárez.

    9.Os agentes da lei

    "Ainda agora detivemos El Camello, um dos principais líderes dos "aztecas"", diz o cordial porta-voz da Polícia Federal, José Salinas Frías, sentado na sede de Juárez. "Mas se neste momento houver três homicídios, as pessoas dirão: "De que serve, se as execuções continuam?" Posso dizer que, desde 9 Abril, detivemos três grupos de sequestradores, com mais de 30 detidos e 20 sequestrados libertados."

    O problema é que entretanto centenas de pessoas foram mortas e milhares de homicídios para trás continuam sem responsáveis. E parte dessa impunidade é atribuída à ligação entre o narco e a polícia.

    "É uma questão de dinheiro, há muitos interesses, e procuram comprar autoridades locais, municipais", reconhece este porta-voz. "E é por isso que atacam a Polícia Federal, encontraram resistência em nós." Está a dizer que não há federais envolvidos? "Há federais que definitivamente se esquecem de que vêm servir e se servem a eles. Até agora temos 19 federais julgados e presos por se desviarem das suas responsabilidades. Temos de dar esse exemplo."

    Os polícias locais ganham mal, e é assim que o narco os apanha. A regra dos federais é rodarem de três em três meses e terem salários mais altos: "Somando tudo, 18 mil pesos [um pouco acima de mil euros], mais refeições e estadia todas pagas." Muito acima da média no México.

    Ao contrário do Exército, que misteriosamente parece imune, os federais têm sido de facto alvejados. E no começo de Julho, quando já estivermos noutra parte do México, serão atacados com um carro-bomba. Vários observadores alertam para o que parece uma nova etapa da violência: narcoterrorismo. Mas os políticos rejeitam a ideia.

    Outro alvo frequente: a Procuradoria. Há quase seis anos que a mais alta autoridade judicial do Estado, a procuradora Patrícia Gonzalez, aqui está baseada. "Houve um grande abandono de todos os governos nesta parte da fronteira", começa por dizer. É uma mulher acima dos 50, coquete e nervosa. Quando perguntamos quantos anos tem, sorri: "Muitos." Chega de casaquinho e mala de folhos, perfeitamente maquilhada. Não traz guarda-costas. E na sala, durante a entrevista, fica só o assessor de imprensa.

    "Claro que há impunidade. Cometeram-se milhares de homicídios. Mas neste momento temos já 1500 casos em Juárez esclarecidos nos últimos dois anos." Houve um reforço de 50 por cento de investigadores, anuncia."Sim, o narcotráfico está dentro de grande parte do sistema social. Houve uma penetração muito forte de décadas. E obviamente há infiltração nas polícias, nos organismos que têm a ver com segurança. E na sociedade. Há uma grande dissimulação social quanto ao narco." Mas a mudança de sistema de justiça, crê a senhora González, vai combater isto. É o seu grande orgulho, a passagem para um sistema acusatório neste estado: cabe à acusação provar a culpabilidade, deixa de haver espaço para extrair confissões.

    Entretanto, vários funcionários seus foram mortos. Não tem medo? "Nenhum, sou uma profissional." E volta à revolução que levou a cabo, com os modernos laboratórios forenses.

    10. Os mortos vivos

    Então daí a meia hora, estamos noutra ponta da cidade, na sala onde se guardam as balas apanhadas desde 2008, na sala onde se comparam disparos, na sala da supermáquina doada pelos EUA que faz um mapa genético de cada bala. Daí seguimos para a morgue, onde a doutora Alma Rosa tomará conta de nós. E, finalmente, o orgulho do orgulho do novo sistema judicial de Juárez, Alejandro Hernández Cardenas, 53 anos.

    É um pequeno homem moreno, de bata branca, óculos, gravata e bigode, saído dum filme de Woody Allen dos anos 70. Um homem - vê-se - que vive para a ciência. Filho da cidade, odontologista, mestre forense.

    Os seus domínios começam ao lado das autópsias. Na porta está escrito: "Área de Re-hidratação de Tecidos." Entramos e ele abre as luzes. Tudo reluz de limpeza. Prateleiras com uma espécie de tupperwares de vários tamanhos. "Estes são para dedos, estes para mãos, estes para cabeças e estes para braços", explica. "Comecei com dedos, para recuperar a impressão digital, e depois continuei."

    Recua para apontar o recipiente de acrílico ao centro, grande como um caixão. "Julgamos que este é o primeiro laboratório no mundo para a re-hidratação de tecidos, e já podemos reconstruir um corpo completo." Morto há quanto? "O mais antigo que trabalhei tinha morrido há dez anos. Mas creio que vai funcionar em cadáveres de há 200 ou 300 anos."

    Em suma, o que o doutor Cardenas inventou foi uma solução química para mergulhar tecidos mumificados. Ficam quase como quem acaba de morrer.

    E aquele duche verde na parede? "As soluções são agressivas, e se me salpicar tenho de tomar um duche logo."

    Agora vamos ver imagens. Todas as experiências, desde os primeiros dedos, foram filmadas, e a Procuradoria produziu um vídeo. "Nos cadáveres deixados no deserto, a pele fica a parecer cartão, não se conseguem ver as características da cara, a pele muda de cor", explica o doutor Cardenas enquanto põe o filme no computador.

    "Você será testemunha de um mundo mágico...", anunciam as letras no ecrã. "De algo muito especial.... Um feito surpreendente..."

    O surrealista Breton disse que o México era o país mais surrealista do mundo, e nem sequer foi a Juárez. Em Juárez pensamos nisso, e em Tarantino, mas um Tarantino que nunca existirá. Quando a arte tocar nesta realidade, a realidade já estará longe.

    "Vê estes dedos?", pergunta o doutor Cardenas. "Comecei com eles há sete anos, os resultados são bons, mas não ideais." Vê-se um dedo encarquilhado e a seguir um pouco rejuvenescido. "Depois, os antropólogos do laboratório encontraram uma orelha numa exumação, e a orelha é uma parte muito característica, não há duas iguais." Vê-se a orelha re-hidratada, mais carnuda, com vestígios de brincos. "Depois, os antropólogos encontraram esta pele que estava há dois anos no deserto." Vê-se o que parece pergaminho. "Os ossos estavam dispersos e a pele ali ficou, talvez os animais a tenham arrancado. Re-hidratámo-la." Vê-se o que parece pele de porco com cortes. "Está a ver? A pele demonstra como a morte foi violenta. E que ela tinha sardas nas costas. E aqui o umbigo. E, como se fez uma identificação mais rápida, conseguiu deter-se o indivíduo. Fomos ver quem andava à procura de desaparecidas." Correu bem. Muita gente nem faz queixa.

    "Então, depois de re-hidratar tudo isto, eu queria re-hidratar um corpo inteiro. Está a ver esta mulher?" Primeiro, vê-se uma autêntica múmia do Egipto. Depois, uma mexicana com lábios de contorno tatuado e sobrancelhas depiladas. "Era uma mulher que se cuidava." E ainda mostra órgãos re-hidratados: "Vê aqui o fígado? Se a pessoa morreu de cirrose, percebe-se ao re-hidratar. Isto é um pulmão, isto o baço, isto é sangue." Ver o que resta de um desaparecido é terrível, mas acaba com a dúvida. "A senhora procuradora disse-me para fazer o processo de patente." O doutor Cardenas acredita que a sua fórmula ajudará a dor de Juárez. Talvez mesmo a História. "Em Guanajuato há umas múmias, interessar-me-ia trabalhar lá. E do Egipto, bastava que me emprestassem um dedo do pé."

    Isto é a realidade em Juárez, e de certa forma a sua própria ficção, para conseguir aguentar um dia após outro.

    Regressamos com noite escura à Procuradoria, onde Julián deixou o carro. Passa das 21h. Pelas 22h30, um grupo de "sicários" intercepta o carro da subprocuradora Sandra Ivonne Salas. Mais de cem balas são disparadas. Morrem ela e um guarda-costas. São os 16.º e 17.º cadáveres do dia. a

    Esta reportagem é o início de uma travessia pelo México, de norte a sul. Continua diariamente no P2. 
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