Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Douro - Sabedoria popular preserva património oral


 

 

 «Há um sítio na aldeia de Zedes, do concelho de Carrazeda de Ansiães, que é conhecido por `ermo` e onde nenhuma erva nasce apesar de a terra ser boa. Dizem os antigos que aquele é o sítio da reunião das bruxas e que, por isso, a erva ali não consegue nascer». Assim começa a lenda «Ermo das Bruxas», uma das inúmeras histórias, passadas de geração em geração, e que constam do livro «Património Imaterial do Douro - Narrações Orais». 

.Ana Clara; Fotos: Livro 'Património Imaterial do Douro - Narrações Orais' | sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Ao todo são 250 lendas e 166 contos populares que estavam em risco de extinção que Alexandre Parafita fez questão de resgatar às palavras guardadas na sabedoria dos mais velhos. Um trabalho só possível graças à transmissão de geração em geração daquilo que o tempo não apagou.

Desde «A mulher enterrada viva» ao «Carpinteiro e as feiticeiras» passando pela «Enxada que vertia sangue», são várias as lendas e contos recolhidos em Tabuaço, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor. O autor explica ao Café Portugal como nasceu a ideia de preservar este património de memória popular. Um trabalho de recolha que demorou três anos.

O projecto nasceu em 2007 para cumprir um dos objectivos que presidiu à Função do Museu do Douro (onde a obra foi apresentada oficialmente a 26 de Novembro de 2010) e que reside na inventariação, recolha, investigação, valorização e divulgação do património imaterial do Douro Vinhateiro.

«Na sua primeira fase, o projecto incidiu sobre o concelho de Tabuaço, para, ao mesmo tempo, implementar a entrada em funcionamento neste município de um dos pólos museológicos do Museu do Douro (o Museu do Imaginário Duriense), o que foi conseguido», afirma o mentor da obra.

Alexandre Parafita, também investigador do Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa, resgatou à memória de cerca de cem idosos dos concelhos de Vila Flor e Carrazeda de Ansiães, dezenas de peças de romanceiro e cancioneiro, lengalengas, rezas e mezinhas.

O autor salienta que a inventariação e o estudo do património imaterial é hoje um «imperativo das sociedades civilizadas, não só no quadro de uma preocupação global com a diversidade e o entendimento entre as culturas, mas também como forma de potenciar novas ofertas culturais a partir do exotismo e raridades etno-tradicionais».

«O Museu do Douro, com base neste trabalho, está em condições de estimular e potenciar projectos de turismo cultural e turismo do imaginário e outros associados aos lugares de memória da Região», sustenta.

Sobre a forma como os intervenientes reagiram a este levantamento, Alexandre Parafita diz que os idosos são, geralmente, «verdadeiras bibliotecas de saberes acumulados».

«Se soubermos estabelecer com eles uma saudável relação convivial, prontamente desfiam as suas memórias e, desse modo, lá vêm as lendas, as variantes de contos tradicionais, os romanceiros, cancioneiros e tudo o mais que tiverem para transmitir. E reagem muito bem, sobretudo quando percebem que, quem está ali para os ouvir, é alguém disponível para dar alguma nobreza aos seus saberes, e não para os ridiculizar, como tantas vezes sucede», acrescenta.

Segundo Alexandre Parafita, as muitas dezenas de contos tradicionais inventariados, obedecem a um critério científico adoptado pelos últimos catalogadores internacionais, e inscrevem-se em «sub-grupos de contos de animais, contos religiosos, contos de fadas, contos do ogre estúpido, mas também contos jocosos e divertidos (de padres, mulheres levianas, avarentos, doidos) e contos enumerativos».

Por sua vez, as inúmeras lendas traduzem explicações populares de fenómenos sagrados, diabólicos, mitológicos, históricos, entre outros, onde entram os episódios milagrosos sobre a origem de capelas, santuários, ou cruzeiros. Há, ainda, os rituais de almas penadas em tornos de antigas necrópoles, ou as sagas dos lobisomens nas suas encruzilhadas.

Sobrenatural e pagão

Em muitos destes contos e lendas existe uma grande marca do sobrenatural cristão e pagão. O autor realça que as populações rurais são profundamente religiosas e, nessa medida, são muito influenciadas pelo sobrenatural atrás indicado, mantendo formas de comunicação com o Além, através de orações, rezas e ensalmos, que traduzem momentos de inquietação absolutamente singulares.

«E nestes cenários lá vêm também as lendas de milagres e de almas inquietas, mas também de metamorfoses diabólicas, de lobisomens, etc. Se pretende saber se hoje as pessoas ainda acreditam, respondo-lhe que em muitos casos não tenho dúvidas disso. Algumas das lendas de almas penadas, de bruxas ou lobisomens, têm ou tiveram protagonistas conhecidos nas comunidades», sublinha o autor.

«Quando em Vilas Boas a alma de uma menina da aldeia apareceu nua na procissão nocturna, as pessoas acreditaram, pois a situação era verosímil no contexto creencial local. Os pais haviam-se esquecido, após a sua morte, de distribuir as roupinhas da filha pelos pobres, contrariando um costume ancestral», exemplifica.

O autor considera importante que o inventário nacional do Património Cultural Imaterial, a que Portugal está obrigado por força da convenção da UNESCO que subscreveu, se faça com «celeridade e com critério».

«Com celeridade, para recuperar a tempo o riquíssimo potencial da memória de quem ainda estão entre nós; com critério, para garantir a genuinidade do espólio cultural resgatado, evitando que sofra os flagelos da manipulação ou aculturação», argumenta.

E está convicto de que a memória oral «jamais deixará de ser um recurso importante na reconstrução da história». De resto, muitos documentos históricos tiveram, em algum tempo, «a memória oral como fonte credível».

«Muitas lendas, que tiveram a oralidade como meio exclusivo de transmissão, têm sido fundamentais para a descoberta de vestígios arqueológicos no nosso território, e têm permitido também equacionar factos históricos ignorados, ou reequacionar outros que vêm persistindo em nebulosas mais ou menos controversas», explica Alexandre Parafita.

Por fim, realça que o inventário do Património Imaterial do Douro não vai ficar por aqui. «Há muito trabalho para fazer, pois o Douro Vinhateiro tem ainda dezenas de outros concelhos muito ricos culturalmente e não seria justo que ficassem de fora. Contudo, tão importante como a realização do inventário é a realização dos estudos necessários sobre o espólio inventariado», conclui.
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Douro - Património oral resgatado para livro

No dia 26 de Novembro é lançado o segundo volume da obra Património Imaterial do Douro - Narrações Orais. O projecto empreendido pelo Museu do Douro, Peso da Régua, recolheu lendas e contos guardado na memória dos mais velhos.

Café Portugal | quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Lendas e contos de mouros, bruxas ou lobisomens, histórias populares guardadas na memória dos mais velhos e, por isso, em «risco de extinção» foram agora resgatados para livro. No total foram inventariadas 250 lendas e 166 contos populares.

O projecto faz parte do inventário do património imaterial da região duriense que está a ser promovido pelo Museu do Douro desde 2007 e que tem como coordenador científico Alexandre Parafita.

O investigador disse que o segundo volume da obra Património Imaterial do Douro - Narrações Orais é lançado a 26 de Novembro.

Alexandre Parafita resgatou ainda da memória de cerca de cem idosos dos concelhos de Vila Flor e Carrazeda de Ansiães «várias dezenas de peças de romanceiro e cancioneiro, lengalengas, rezas e mezinhas».

«Estes dois municípios possuem índices elevados de população idosa, profundamente influenciada pelo sobrenatural cristão e pagão, que continua a gerar cenários de inquietação no quotidiano rural», salientou.

Para o investigador, estas pessoas são os «porta-vozes da memória». Aqui, a «memória oral que se projecta através das lendas permite-nos identificar e conhecer um pouco desses mistérios que vêm do passado longínquos», frisou.

Parafita referiu que a memória oral de muitas aldeias referencia locais de aparições milagrosas, alguns associadas a procissões nocturnas de almas penadas, lugares onde se esconjuraram bruxas, demónios e lobisomens, mas também de refúgios de leprosos, de mouras encantadas e de valiosos tesouros protegidos pelo Livro de São Cipriano.

Estas lendas e contos revelam ainda vestígios de interesse arqueológico, explicam as origens de capelas, cruzeiros e santuários, ou a extinção de povoações por invasões de formigas, e ainda identificam lugares de transfiguração de almas penadas e suas revelações aos mortais (como acontece nas aldeias de Amedo, Arnal, Vilarinho das Azenhas e Vilas Boas).

Mas, por algumas destas aldeias, como Foz Tua, Tralhariz, Pombal de Ansiães, Vila Flor, Ribeirinha ou Vilas Boas, também se escondem histórias de rituais de lobisomens.

O investigador salientou que, com a narração da cura de uma criança leprosa, se explica a construção do santuário da Senhora da Assunção em Vilas Boas (Vila Flor), e que devido aos muitos ossos encontrados num vale após a mortandade que os cristãos infligiram nos mouros ao expulsá-los do castelo de Ansiães, nasce a justificação popular do nome de Vale da Osseira.

Alexandre Parafita frisou que o inventário vai prosseguir, dando resposta a um desafio da UNESCO para a salvaguarda do património imaterial.

Doutorado em Cultura Portuguesa, Alexandre Parafita é investigador do Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa.
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Douro - Viagem ao Portugal do fantástico

O País tem muita História por registar no que respeita à memória oral, aquela que passa de geração em geração, nas margens da palavra escrita. Relatos que são um património vivo de muitas comunidades. Há um Portugal do fantástico, lugares onde se esconjuraram bruxas, demónios e lobisomens, sítios de aparições milagrosas, ermos com almas penadas, refúgios de leprosos e de mouras encantadas. Lendas e contos reunidas no segundo volume da obra «Património Imaterial do Douro - Narrações» e que o Café Portugal publica em exclusivo.

Café Portugal; Fotos: 'Património Imaterial do Douro - Narrações Orais' | sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Os idosos, os mais velhos, os que têm a sapiência na voz, são eles quem nos conduzem a mistérios e enredos que nos transportam a um passado que já vai longe. São lendas e contos reunidas por Alexandre Parafita, autor do livro que evoca as histórias guardadas nas memórias das populações de Tabuaço, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor. Porque, o Douro também guarda personagens carregadas de mistério…



A mulher enterrada viva

A história de um padre, de uma criança e de malfeitores. A morte e os mistérios que a noite encerra numa lenda que mostra o pagão cristão. LER






O  «ermo» das bruxas

O «ermo», expressão que retrata um local sombrio, é local de reunião de bruxas. Ali estes seres possuídos de maldade faziam as rezas contra todos aqueles a quem queriam mal. LER.




                              


A menina nua na procissão

Almas penadas. Crenças ligadas à morte. Esta é uma lenda que conta como a rotina popular pode mudar o desfecho da fé cristã das populações. LER






O carpinteiro e as feiticeiras

As más acções também se cobram. Para os lados do Tua, houve tempos em que feiticeiras atormentavam aqueles que se excediam. São estórias onde o medo e o sobrenatural se misturam sempre com lições de moral pelo meio. LER



                          

            


A enxada que vertia sangue

A fé dos cristãos é retratada neste conto de forma muito peculiar. Os descrentes, aqueles que não tentam sequer acreditar na existência de Deus, têm castigos divinos à sua espera. Os homens, nas lendas populares, são sempre os alvos. LER
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sábado, 27 de março de 2010

Artesanato: Botas alentejanas ... na era da internet


As botas alentejanas protegiam os pés e parte da perna dos rigores da vida no campo. Hoje, as botas, são mais um adorno do que um sapato de trabalho. Perderam peso e ganharam um desenho mais moderno. Mário Grilo começou a fazer botas alentejanas por medida aos 12 anos e nunca mais deixou. É com prazer que fala da sua actividade tradicional, onde gosta de inovar. De Cuba, no Alentejo, chegou ao mundo através da persistência.

Sara Pelicano | sábado, 9 de Janeiro de 2010
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Continua em 
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Mário Grilo deixou um novo comentário na sua mensagem "Botas alentejanas - Feitas à medida na era da inte...":

Sem dúvida um especatdor atento das minhas Botas Alentejanas , quando me deparo com momentos como este , dá vontade de continuar esta tradião que já levoh á 26 anos .
Sinceros cumprimentos , Mário Grilo

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http://alentejanaspormedida.blogspot.com,

Arte Tradicional

Arte Tradicional
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Victor Nogueira disse...
Viva :-) Grato pela Visita. Ém Évora estudei e vivi, em Évora nasceram os meus filhos, em Beja nasceu a mãe dos meus filhos, e no Alentejo, que percorri duma ponta a outra, ficou uma parte de mim. Do Alentejo ficou o hábito de usar botas caneleiras no inverno, embora as últimas tenham sido compradas em Benedita (Alcobaça) Penso que o artesanato deveria ser preservado e nesse aspecto o blog Café Portugal tem feito um trabalho meritório Mas nada escapa à falsificação, como está por exemplo sucedendo com os tapetes de Arraiolos. O trabalho feiro à mão custa caro e a industrialização e fabrico em série embaratece, muitas vezes em prejuízo da qualidade e sabor genuínos Um abraço, amigo, bom trabalho e longa vida Victor Nogueira

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

No jardim das maravilhas de Rafael Bordalo Pinheiro

 
Cidade

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por Clara Silva, Publicado em 30 de Janeiro de 2010   
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Lisboa ganhou hoje um espaço verde e mais de mil animais. De loiça
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Alice sentir-se-ia no País das Maravilhas se visitasse o Jardim Bordalo Pinheiro. Inaugurado hoje, é mais um dos pequenos refúgios verdes que Lisboa ganhou. Em pleno Campo Grande, no exterior do Museu da Cidade, entrar no jardim é como entrar no mundo da fantasia. Nas paredes recém-pintadas de branco, há gatos assanhados e um lagarto que tenta escapar para a confusão lisboeta. Uma vespa gigante aterrou nos arbustos em forma de labirinto e vários sapos cospem água para um lago recheado de caranguejos e lagostas que, se não fossem de cerâmica, enchiam a barriga a quase 50 pessoas.

São 1205 peças de faiança, a loiça fina de barro com a qual Rafael Bordalo Pinheiro criou bichos desmesurados, que dão vida ao jardim antes abandonado. "Estava mesmo em muito mau estado", garante ao i a artista plástica Joana Vasconcelos, responsável pela concepção artística do projecto. "Nenhuma das fontes funcionava e os pavões eram os únicos animais que ali andavam."

No início do século XX, alguns bichos de cerâmica de Bordalo Pinheiro já habitavam o Jardim da Estrela, em Lisboa, mas entretanto desapareceram. Elsa Rebelo, ceramista de 39 anos, foi quem recuperou os moldes gigantes das peças da cave da Fábrica de Faianças, nas Caldas das Rainha. "Mostrei-os à Joana Vasconcelos e ela ficou maravilhada com aquele património", conta a directora do ateliê artístico da Fábrica de Faianças.

Numa altura em que a fábrica de loiças criada por Bordalo Pinheiro em 1884 estava na iminência de fechar, Catarina Portas lembrou-se de criar uma "garden party" com as peças do artista, caricaturista e jornalista. "Foi salvar duas capelas", diz Joana Vasconcelos, "pegámos no jardim do Museu da Cidade, que precisava de uma vida nova, e salvámos a obra de Rafael".

A Câmara de Lisboa ficou entusiasmada com o projecto e Elsa Rebelo pôs mãos à obra. "Foi um esforço enorme porque os moldes estavam em muito mau estado e com partes em falta", explica. "Quando falamos num molde de uma peça, pode ser um conjunto de 40 moldes com muitas partes inexistentes."

A vespa gigante é o animal preferido de Elsa, mas também um dos que deu mais trabalho. "Depois de irem ao forno, algumas peças podem demorar mais de um mês a secar", conta.

Joana Vasconcelos concebeu a instalação dos animais no jardim: "Enfrentámos o mau tempo do princípio do Inverno e houve alguns atrasos", confessa a artista. Hoje está pronto a ser descoberto e não seria improvável ver um coelho branco de relógio na mão a correr entre os cogumelos de cerâmica.
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Jardim Bordalo Pinheiro. Museu da Cidade, Campo Grande, 245, Lisboa. Terça a domingo das 10h às 18h. Entrada gratuita
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Fotogaleria
Antes do projecto de Joana Vasconcelos, o jardim estava abandonado
 e as fontes do século XVIII nunca tinham funcionado

Á descoberta de Portugal na companhia do Café Portugal

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Botas alentejanas - Feitas à medida na era da internet





As botas alentejanas protegiam os pés e parte da perna dos rigores da vida no campo. Hoje, as botas, são mais um adorno do que um sapato de trabalho. Perderam peso e ganharam um desenho mais moderno. Mário Grilo começou a fazer botas alentejanas por medida aos 12 anos e nunca mais deixou. É com prazer que fala da sua actividade tradicional, onde gosta de inovar. De Cuba, no Alentejo, chegou ao mundo através da persistência.

Sara Pelicano | sábado, 9 de Janeiro de 2010
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Na vila de Cuba, Alentejo, há 25 anos atrás, enquanto os jovens de 12 anos lançavam o peão, brincavam ao berlinde, Mário Grilo passava as férias de Verão a trabalhar com um sapateiro. Deu, assim, os primeiros passos na arte de fazer sapatos. Rápido, os sapatos tornaram-se a actividade diária de Mário Grilo. Passados 25 anos, o sapateiro tem um negócio de sucesso produzindo botas alentejanas por medida, entre outros sapatos. É com orgulho que fala do seu ofício e, vincando este gosto, brinca comentado que «continua de férias». Isto porque continua a entregar-se à sua profissão com o entusiasmo de um jovem de 12 anos numas férias de Verão.
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A oficina deste sapateiro de 37 anos localiza-se numa típica casa alentejana: rés-do-chão, fachada pintada de branco com friso azul a contornar porta e janelas. O silêncio da rua é quebrado quando se abre a porta da casa. Mário trabalha ao som da música que o rádio emite como é comum em casa de sapateiro. Amontoa-se o couro, sobretudo de vaca, linhas de coser sapatos, canos de botas já talhados à espera de um pé para fazer a base e, por fim, numa prateleira uma pequena mostra do que são as botas alentejanas deste jovem sapateiro.
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«Tudo o que faço já está vendido», conta Mário Grilo revelando que «já teve de abandonar algumas feiras porque depois não consegue responder a todas as encomendas». ‘Não tem ninguém que o ajude?’
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«Já tive alguns colaboradores. Mas tirar medidas de pés, alguns com problemas, e moldar os materiais não são tarefas fáceis. E, depois, há as dores nas costas, que ninguém gosta. Ora, hoje em dia poucas pessoas estão predispostas para este trabalho», diz. Após uma pequena pausa no discurso, remata: «O ofício está dentro da pessoa».
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A vila alentejana onde nasceu e tem vivido grande parte do tempo é o local «onde faz sentido fazer as botas alentejanas», confessa o artesão. Contudo os largos quilómetros que o separam dos grandes centros urbanos não o impediram de levar a sua arte a todo o país e também além fronteiras. Mário afirma orgulhoso: «Sozinho, consegui chegar a 31 países». Todos os meses ruma ao Norte para comprar material de fabrico. É lá que se encontram as fábricas e «como não há sapateiros, não há vendedores que se desloquem às terras».
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Quebrar distâncias parece, assim, ser uma outra arte deste jovem artesão. O recurso à Internet tem sido uma outra forma de ‘sair’ de Cuba. «Tenho as minhas botas espalhadas em muitos sítios da Internet. Uma rápida pesquisa e encontra-se logo o meu nome», comenta enquanto retoma o trabalho. A pele que molda é semelhante à de uma zebra. Mário sabe que é estranha e antes mesmo da pergunta diz: «Gosto de inovar».
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Este ano quero pegar no tradicional e dar-lhe nova confecção, brincar com as cores. Afinal tudo o que seja calçado eu faço porque gosto» e continua: «As actividades tradicionais pecam por não querer inovar por não saber brincar e, às vezes, basta mudar a cor da pele».
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Um par de botas alentejanas hoje em dia-a-dia é mais um adorno do que um sapato de trabalho. Procuradas por diversos estratos sociais, Mário Grilo vai respondendo às exigências dos seus clientes em encomendas muitas vezes feitas por telefone.
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«Faço vários pares ao mesmo tempo. Um par levaria dois dias sempre mais do que oito horas de trabalho. Eu entendi que devia começar o maior número de pares e ir acabando, assim é possível ter sempre um par de botas. Dou assistência durante toda a vida das botas». Antigamente este calçado chegava a pesar três quilos, hoje um número 40 pesa perto de dois quilogramas.
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Mário Grilo confessa que nunca teve apoios ou incentivos à sua actividade. E revela que quando começou o ofício existia mais aptidão dos municípios para mostrar as artes tradicionais do concelho de Cuba e lamenta que esse interesse se tenha desvanecido. «Nessa altura [há 20 anos atrás] gostavam de ter em feiras uma representação daquilo que era o nicho do artesanato do concelho. Os anos passaram e essa apetência desapareceu um pouco. O que é pena porque se o município divulgar um pouco essas actividades gera emprego e trabalho e, assim, este saber fica um pouco no meu segredo».
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Mário considera que as artes tradicionais vão sobreviver quando houver uma mudança de mentalidade na sociedade e se coloque o gosto por um ofício à frente dos lucros. Este trabalho «para ser rentável é preciso meter o coração à frente do dinheiro e esquecer todas as horas de trabalho».
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Nunca tive apoios de ninguém e não há grandes incentivos. A nível local já tivemos uma pessoa na câmara. Há 20 anos, um pessoa que tinha aptidão por estas coisas. Nessa altura gostavam de ter em feiras uma representação daquilo que era o nicho do artesanato do concelho. Os anos passaram e essa apetência desapareceu um pouco. Se o município divulgar um pouco essas actividades gera emprego e trabalho e assim fica um pouco no meu segredo. Para ser rentável é preciso meter o coração à frente do dinheiro e esquecer todas as horas de trabalho.
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