Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sétima arte: Acervo Muriaeense na federal de São João Del Rei

O cineasta muriaeense, Carlos Scalla


Publicação: 14 de novembro de 2010


A universidade Federal de São João Del Rei estará promovendo, neste mês de novembro, uma exposição tematizada na memória do cinema, especialmente aquele desenvolvido no Brasil. A exposição itinerante intitulada Tela em Movimento: uma história cinematográfica ficará aberta ao público no espaço do Centro Cultural da UFSJ de 18 a 28 de novembro. Para os visitantes, Tela em Movimento reserva uma verdadeira viagem aos primórdios do cinema brasileiro e mundial, através de fotografias, ilustrações e uma série de equipamentos utilizados por cineastas e produtores. Serão disponibilizadas 15 peças de tamanhos e idades variadas, como câmeras, projetores, material de iluminação e mesas de montagem fílmica artesanal. Entre os destaques da mostra, temos um Cinematógrapho Pathé Fréres, de 35mm, fabricado na França, em 1898 e um Conjunto Cinematográfico Pathé Baby 9,5 mm, de 1922. Este último teria sido utilizado pelo cineasta Humberto Mauro, em Cataguases, para a realização do filme Valadião – o Cratera, em 1925. Todo acervo da exposição Tela em Movimento pertence ao Museu Carlos Scalla, da cidade de Muriaé.
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Coube aos seus fundadores deste Museu – os cineastas Carlos Scalla e Bruno Scalla -  o restauro e conservação de todo este material,  adquirido ao longo das décadas de dedicação. O Museu Carlos Scalla abriga dezenas de equipamentos cinematográficos de época, fotografias, livros e centenas de filmes e cinejornais que remontam parte significativa da história da cinematografia de Minas Gerais e do Brasil. Para o cineasta Carlos Scalla, a mostra itinerante em São João Del Rei tem uma importância especial. “A cidade é berço de nossa história e de nossa política, assim como o cinema nacional. É preciso relacioná-los cada vez mais, aprimorando um olhar mais memorialístico através da sétima arte, fazendo com que o cinema tome seu lugar como documento histórico e de resgate. São João Del Rei inspira esta união e este fortalecimento”. 
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A exposição Tela em Movimento tem a curadoria e a produção do professor da Universidade Federal de Ouro Preto, Adriano Medeiros. “Para os amantes do cinema, estamos preparando um universo poético e de grande imersão, no qual equipamentos deixam de ser apenas máquinas e passam a nos oferecer revelações, anseios e verdadeiras histórias de vida e de dedicação a esta arte tão cobiçada. Na Exposição, estes objetos tornam-se sujeitos de memória cinematográfica. Vale a pena conferir”. – defende Medeiros. O lançamento de Tela em Movimento acontece na quinta-feira, dia 18h, a partir das 20h. 
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A exposição fica aberta à visitação até o dia 28, sempre de 8h às 20h, no Centro Cultural da UFSJ, na Praça Augusto das Chagas Viegas, 17, Largo do Carmo, em São João Del Rei. 
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Outras informações com os cineastas Carlos Scalla ou Bruno Scalla. Tefones (32)  3722-7230 ou  8853-5784. E-mail: carlos_scalla@yahoo.com.br. Colaboração na reportagem: Adriano Medeiros
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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Marco na história do cinema, Psicose faz 50 anos

Cultura

28 de Julho de 2010 - 13h05

Oficialmente, o cinema tem 115 anos (a "primeira sessão" promovida pelos Irmãos Lumière ocorreu em 28 de dezembro de 1895). Com isso, podemos dizer que os filmes realizados entre 50 e 60 anos atrás dividem a história da Sétima Arte em duas partes aproximadamente iguais. São as realizações que estrearam entre 1950 e 1960.

Por Marcello Castilho Avellar, em Diario de Pernambuco

Uma delas, e não das menos importantes, acaba de se tornar cinquentona: Psicose, dirigido por Alfred Hitchcock, foi lançado em 16 de junho de 1960. Seria possível dividir o cinema em a.P e d.P (antes de Psicose e depois de Psicose)?

A operação parece fácil com obras que os historiadores apontam como fundamentais para a gênese da linguagem cinematográfica, como Nascimento de uma nação, Encouraçado Potemkin, Paisá, Acossado. Mas possivelmente pode ser realizada, também, com o filme mais célebre do mestre do suspense. Para realizá-la, precisamos investigar em que o cinema de hoje é diferente da produção a.P., e em que isso pode ser atribuído a Psicose.

A primeira coisa que percebemos é que houve uma aceleração no ritmo da montagem cinematográfica. Boa parte das sequências mais importantes de muitos filmes atuais são fundadas em planos curtos unidos por cortes súbitos. Essa paixão do espectador atual pela velocidade se deve ao que ele aprendeu graças a ferramentas e processos variados.

O controle remoto e o mouse tornaram real a possibilidade de alguém saltar com agilidade de um estímulo audiovisual para outro, a internet, a televisão e o vídeo (principalmente o clipe) propuseram formas narrativas baseadas na overdose de imagens. Mas podemos nos perguntar como o espectador começou a gostar disso (ou como voltou a gostar disso).

A resposta com certeza está na célebre sequência do chuveiro em Psicose, a mais famosa do filme, que propôs um padrão na relação entre quantidade de estímulos visuais e tempo que não se via no cinema desde os filmes silenciosos.

Outro traço característico do cinema a.P. era sua obsessão por gêneros. Para terem certeza de encontrar um público bem definido, filmes tinham que se afirmar dentro de certas categorias, regidas por características, técnicas, atmosferas, linguagens, espaços materiais ou conceituais - uma comédia era uma comédia, um musical era um musical, um western era um western.

Mesmo as produções mais rebeldes acabavam respeitando essa lógica (como o Acossado, de Jean-Luc Godard, um dos filmes fundadores da Nouvelle Vague e ostensivamente uma narrativa policial). Basta olhar para o cinema ou a televisão nos dias de hoje para verificar o tanto que as fronteiras entre os gêneros se esgarçaram (e, em alguns casos, foram completamente rompidas).

Psicose é o ponto de inflexão. Possivelmente vai satisfazer os requisitos determinados em qualquer categorização que tente definir gêneros como terror, filme de suspense ou narrativa policial, mas recusa-se a se limitar a qualquer delas. Pensando radicalmente, podemos pensá-lo até mesmo como uma comédia de humor negro - o que o tornaria antepassado distante das comédias de terror contemporâneas, ou dos filmes de terror pretensamente sérios que, por incompetência de seus criadores, produzem o riso).

Isto é Psicose

Psicose continua sendo um dos filmes mais rentáveis da história do cinema. Faturou, na temporada de lançamento, cerca de US$ 40 milhões, 50 vezes o que custou. Aos preços de ingressos atuais, a renda seria de quase US$ 300 milhões (o equivalente a um sucesso atual como Ilha do medo)

A sequência do chuveiro, a mais célebre do filme, dura apenas 45 segundos. Mesmo assim, Hitchcock gastou uma semana para filmá-la, tentando obter o máximo de precisão nos planos que foram rodados com a câmera em 70 ângulos diferentes. Ao todo, são 78 cortes para aquela curta duração.

À época de Psicose, Hitchcock estava mudando de estúdio, da Paramount para a Universal. Contam as lendas de Hollywood que Walt Disney se recusou a dar abrigo a seus projetos por causa do filme: afinal, Psicose é o exato oposto de tudo o que alguém pode associar à produção Disney.

Fonte de inspiração

Impossível pensar a contemporaneidade, também, sem a avalanche de citações e referências que compõem a arte atual. Claro que elas existem há séculos - mas enquanto antes constituíam estratégia localizada dos artistas, nos tempos atuais se tornaram os tijolos fundamentais da criação.

Podemos situar a transição desses dois estados na virada dos anos 1950 para 1960 (a Nouvelle Vague, da mesma época, é ótimo exemplo disso). E Psicose, claro, assume posição privilegiada nele em relação ao cinema. Deu à arte dos filmes a obra-padrão a ser imitada, parodiada, copiada.

É possível que nenhum outro filme do cinema moderno tenha inspirado tantos roteiristas e diretores, numa possibilidade infinita de referências - e não estamos falando aqui das péssimas continuações que o público precisou engolir anos depois da morte de Hitchcock.

Vamos encontrar suas estruturas tanto em filmes sérios (Vestida para matar ou Carrie, a estranha, de Brian de Palma) quanto em paródias ostensivas (Alta ansiedade, de Mel Brooks). Sua linguagem é diluída na maioria das citações (as comédias de terror, por exemplo), mas pode servir de ponto de partida para outras obras igualmente radicais e transgressoras (Veludo azul, de David Lynch). O próprio Hitchcock parece ter apreciado tanto o que fez que nos remete a Psicose em cenas de obras como Cortina rasgada.

Possivelmente, a iniciativa mais ousada neste sentido foi o Psicose que Gus Van Sant. Estreou em 1998. Essencialmente, não se trata de uma adaptação do filme de Hitchcock, mas de um decalque, sua refilmagem plano a plano. É obra conceitual: interessa-nos mais por ter sido feita, por demonstrar ou negar teses sobre cinema, que por si mesma. A escolha de Hitchcock e, especificamente, de Psicose para a experiência foi exemplar.

Alfred Hitchcock acreditava na possibilidade do filme pronto antes mesmo de ser filmado, ou seja, uma obra planejada a tal ponto que cada imagem ou sequência deveria alcançar seu resultado se, e apenas se, fosse realizado integralmente aquele planejamento. Psicose é, possivelmente, sua obra que levou esta ideia a um extremo mais radical.

Ironicamente, as grandes falhas do Psicose de Van Sant são exatamente os momentos em que o autor dentro dele não resiste e incorpora ao filme elementos estranhos ao roteiro representado pelo original de Hitchcock - a cor que dilui a força das cenas violentas e reduz o clima, as interpolações que parecem ralentar o ritmo e inventar psicologismos. Van Sant não fez um filme mais fraco porque imitou Hitchcock, enfraqueceu seu filme exatamente por não ser capaz de imitá-lo totalmente. 
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Cinema2000PTClassic | 11 de junho de 2010
Data de estreia: 16 de Junho de 1960.
"Psycho": o título está de tal forma presente que poucos utilizam a tradução. Foi há 50 anos que descobrimos que o motel gerido por Norman Bates (Anthony Perkins) não era exactamente o lugar mais indicado para passar uma noite tranquila. Infelizmente, Marion Crane (Janet Leigh) não sabia.

Uma vez que pensava que o projecto era tão fora do vulgar e tinha dúvidas sobre o seu êxito, Alfred Hitchcock procurou cortar custos filmando de forma rápida e a preto e branco, com a equipa da sua série televisiva.

Com receio que Leigh e Perkins revelassem pormenores, Hitchcock foi responsável por quase toda a promoção. O famoso trailer mostra-o a passear pelos cenários, divagando jovialmente sobre os acontecimentos, resistindo a contar a história toda no último momento. A música, de Bernard Herrmann, não só inclui o tema de "Psycho", como também da comédia "O Terceiro Tiro/The Trouble with Harry". Como Janet Leigh já não estava disponível, é Vera Miles que surge no fim quando o realizador puxa a cortina...

A edição Blu-ray da Universal sai 19 de Outubro de 2010.
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MiKaylea | 9 de outubro de 2007
Modern Trailer for Alfred Hitchcock's Psycho
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I just uploaded a modern trailer for "Night of the Living Dead," too. Please check that one out, as well!
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Thank you for all of the positive comments. I can't believe it's reached so many views! I really appreciate it and I'm glad my trailer is getting people interested in Alfred Hitchcock's classic films!

If you like my vid, please subscribe. There's more to come.
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newcarscent7 | 20 de abril de 2009
The Shower scene from the 1960 movie Psycho. One of the most famous scenes in cinema history.
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sábado, 8 de maio de 2010

Ainda os primórdios do Cinema

The Great Train Robbery
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feedfam1 — 16 de Janeiro de 2007 — The 1903 Silent Film by Edwin Porter
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Alice In Wonderland - 1903 silent film.


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LBfan0685 — 21 de Novembro de 2008 — A very early silent film from 1903 - it's in very poor condition, and only just about watchable, but interesting all the same.
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Intolerancia de D. W. Griffith


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cinemasequence — 18 de Agosto de 2007 — Secuencia de la caída de Babilonia en el film Intolerancia de D. W. Griffith
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Primórdios do Cinema

"Le Voyage dans la Lune" (1902)



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bttfportugal — 13 de Maio de 2006 — Realisé par Georges Méliès (1902), le film est l'adaptation du célèbre roman de Jules Verne, "De la Terre à la Lune".
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Frankenstein (1910) - Full Movie


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LuckyStrike502 — 14 de Janeiro de 2009 — Frankenstein is a 1910 film made by Edison Studios that was written and directed by J. Searle Dawley. It was the first motion picture adaptation of Mary Shelley's Frankenstein. The unbilled cast included Augustus Phillips as Dr. Frankenstein, Charles Ogle as the Monster, and Mary Fuller as the doctor's fiancée.

Shot in three days, it was filmed at the Edison Studios in the Bronx, New York City. Although some sources credit Thomas Edison as the producer, he in fact played no direct part in the activities of the motion picture company that bore his name.

Frankenstein is in the public domain, and you can download it here for free:
http://www.archive.org/details/Franke...
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Birth of a Nation by D.W. Griffith - Trailer (1915)



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Adlerangriffe — 17 de Fevereiro de 2007 — Two brothers, Phil and Ted Stoneman, visit their friends in Piedmont, South Carolina: the family Cameron. This friendship is affected by the Civil War, as the Stonemans and the Camerons must join up opposite armies. The consequences of the War in their lives are shown in connection to major historical events, like the development of the Civil War itself, Lincoln's assassination, and the birth of the Ku Klux Klan.
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The oldest ... or The First ...

The Very First Motion Picture (1889)


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KKD1247 — 16 de Julho de 2008 — Here is a short video production I've done especially for YouTube members. It shows the first experimental movie that Thomas Edison made in 1889.
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In 1878, British photographer Eadweard Muybridge made a series of still photographs of a horse that when viewed in sequence, appeared to be galloping. Edison felt this was too cumbersome for practical use and soon developed a system for "motion" pictures, based on his wax cylinder for phonographs. Thus you will see the two short sequences still in existance of the very first American motion picture from 1889.
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The First Movie


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underfart — 17 de Julho de 2006 — A play on the first movie ever made by Schweinhund on the SomethingAwful forums.
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La Sortie de l'Usine Lumière à Lyon


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 onyad — 28 de Dezembro de 2007 — Workers Leaving The Lumière Factory
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The First Commercial movie. Created by the Lumière brothers in 1895, it was screened as the first in a series of 10 short films at the Salon Indien du Grand Café in Paris, and marked the first time admission was charged for a movie screening.
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L'arrivée d'un train en gare de la Ciotat
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geraldotreze — 18 de Abril de 2008 — A chegada do trem na estação é um filme francês de 1895. Foi um dos primeiros filmes a serem apresentados publicamente pelos irmãos Lumière, na cave do Boulevard des Capucines, em Paris, em 28 de Dezembro do mesmo ano.

The Arrival of a Train at La Ciotat Station is an 1895 French short black-and-white silent documentary film directed and produced by Auguste and Louis Lumière. It was first screened on December 28, 1895 in Paris, France, and was shown to a paying audience January 6, 1896.

L'arrivée d'un train en gare de la Ciotat est un film des frères Lumière tourné en 1895 et présenté pour la première fois en janvier 1896.

L'arrivo di un treno alla stazione di La Ciotat è uno dei più famosi cortometraggi dei fratelli Auguste e Louis Lumière.
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sábado, 23 de janeiro de 2010

“Bastardos Inglórios”:Campo minado da diluição - Cloves Geraldo *


 

Colunas

Vermelho - 4 de Novembro de 2009 - 20h48

“Bastardos Inglórios”:Campo minado da diluição

Cloves Geraldo *

Recebida como grande obra, filme do estadunidense Quentin Tarantino reforça sua tendência às referências e citações e abre espaço para a diluição estética de obras de diretores que as produziram em momento histórico adverso ao atual.

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Houve um tempo em que assistir a filme de determinado diretor era mais do que estender um mapa sobre a mesa para saber “Onde está Wally”. Era desnecessário contar o número de citações ou se informar antecipadamente para entender a obra em sua totalidade. Já se sabia, de antemão, quais eram suas influências e isto era o bastante. O próprio autor procurava criar seu estilo, para que o espectador com ele se identificasse. Mas, a partir dos meados dos anos 70, com a emergência dos cineastas saídos das escolas de cinema, à exceção de Steven Spielberg, as citações, para não dizer cópia ou diluição, simplesmente se multiplicaram.
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Assistir a filme de Brian De Palma (“Dublê de Corpo”), Martin Scorcese (“A Época da Inocência”), George Lucas (“Guerra nas Estrelas”) e do próprio Spielberg (“Tubarão”) era viajar numa colagem de estéticas que dificultava a identificação do estilo desses diretores. Eles, no entanto, não se preocupavam com isto. Chamavam suas citações de homenagens. E tudo parecia novo até que o espectador se desse ao trabalho de checar cada uma delas e descobrisse que aquilo era colagem pura e simples.
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Mas se com eles já era difícil, com a emergência de Quentin Tarantino ficou ainda pior, principalmente neste caleidoscópico “Bastardos Inglórios”. Quem não for cinéfilo de carteirinha pode se perder na multiplicidade de citações, tal o uso que delas faz o italoestadunidense. E se a “Nouvelle Vague”, corrente francesa que revolucionou o cinema no final dos anos 50, teve como modelo o Filme B hollywoodiano, a trinca soviética (Eisenstein, Dovhenko e Vertov) e o francês Jean Renoir, muitos espectadores poderão dizer que ele e seus predecessores têm direito de fazer o mesmo. Notadamente Tarantino, por ter supostamente renovado a estética cinematográfica hollywoodiana nos anos 90. Depois de “Cães de Aluguel”, com inúmeras menções à música pop, referenciado em “Bande à part”, de Godard, ele explodiu mundialmente com “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, a partir de uma trama circular, com vários centros de ação. Uma câmera ágil e enquadramentos inusitados. Criativo, sem dúvida.
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Diretor aprendeu cinema vendo filme em locadora
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A linguagem, a cor, os personagens, vinham do universo dos livros de bolso, dos quadrinhos, das velhas histórias policiais de revistas como “X-9”. Um achado e tanto. Um diretor/roteirista, saído não das faculdades de cinema, mas de uma locadora de VHS, transfigurava a arte do cinema, a partir de sua fusão com a arte visual, impressa, nitidamente popular. A multiplicidade de filmes que assistiu lhe deu condições de ver uma variedade enorme de gêneros e procedências. Inclusive os das artes marciais, produzidos em Hong Kong, alguns deles vistos no Brasil apenas nos cinemas frequentados pelos segmentos de público C e D. O que lhe permitiu escrever e dirigir “Kill Bill I e II”, em que o centro da trama é a vingança, mas a ação se transcorre no universo do Kung Fu. Se em “Pulp Fiction – Tempo de Violência” a referência aos quadrinhos era menos explícita, nestes uma longa sequência, ultramatizada, expõe toda a arte do mangá (os quadrinhos japoneses). E se transforma numa bela contribuição ao desenho animado, ultrarealista.
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Sem dúvida, está mais contido em “Jackie Brown”, em que usa a musa dos filmes blaxploitation (filmes com atores negros, produzidos, escritos, dirigidos por negros e voltados para o público afrodescendente americano), Pam Grier, para homenageá-los. Porém, o universo é o mesmo – o do submundo; dos que trafegam pelos espaços sombrios, sem relação alguma com o grande mundo, ainda que, algumas vezes, estejam em amplos e modernos espaços. Até chegar a este, pomposo, “Bastardos Inglórios”, epopéia sobre o mal, corporificado pelo nazismo. Não qualquer mal, sim o absoluto, nascido das profundezas de “eus” em agonia, seja de poder, glória ou vingança. O poder em Hitler (Martin Wuttke), a glória no soldado alemão Fredrick Zoller (Daniel Brühl) e a vingança em Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent). E tendo, como pilar de ambos, o camaleão Hans Landa (Christoph Waltz), oficial da SS (polícia secreta alemã), e seus contrapontos: os soldados judeus-estadunidenses, liderados pelo tenente Aldo Reine (Brad Pitt), cuja tarefa é executar 100 alemães, levando como prêmio o escalpo deles.
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Citações deixam o conteúdo de lado

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Dito desta forma, sua trama pode ser das mais elogiáveis. O mal absoluto termina por encontrar sua contraparte: o grupo de soldados judeu-estadunidense e uma destemida francojudia, auxiliada por um francoafricano. Tão cruéis ou mais do que Landa. No entanto, a trama, como ocorre em seus filmes, se bifurca em vários centros – o trabalho do espião Landa, a caça aos soldados alemães pelo grupo liderado por Reine e a armação da vingança por Dreyfus. Só que, desta vez, ele resolveu tecer uma série de referências, citações, menções, verdadeira colcha de retalhos que terminou sendo mais citada que a trama e a estética de “Bastardos Inglórios”. Dividido em capítulos, a exemplo de “Anticristo”, ele se ocupa nas primeiras cenas de enquadramentos que lembram westerns: a abertura de “Os Brutos Também Amam”, narrada sob o ponto de vista do garoto (Brandon de Wilde), que observa o pistoleiro Shane (Alan Ladd), percorrer grande espaço até chegar ao local onde seu pai (Van Heflin) corta lenha.
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Em seu filme, ele repete este enquadramento quase cena a cena. Põe o fazendeiro francês Perrier LaPadite (Dennis Menochet) cortando lenha, em primeiro plano, tendo o carro de Landa chegando ao fundo. Reverte, deste modo, o suspense da chegada do mal, marcada por George Stevens, em sua obra, com tons que refletem o perigo que a aproximação do latifundiário representa. Porém os acordes, quase uma vinheta, de Dimitri Tionkim e Paul Francis Webster, na trilha sonora de “O Álamo”, “The Green Leaves of Summer”, dirigido por John Wayne, criam outra expectativa: a de que se trata de uma visita amigável, dado seu lirismo. Temos, assim, a apresentação do vilão, Hans Landa, com sua conversa ferina sobre leite, cachimbo, execráveis comparações de judeus com ratos e o letal bote em LaPadite. Tarantino desconstrói, desta forma, a expectativa para o que vem depois, quando inúmeras referências surgirão e o espectador deve se entregar ao filme e não a elas, citações, sob pena de não se ligar ao conteúdo da narrativa.
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Tarantino reverte fatos históricos

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Em “Bastardos Inglórios”, ele toma a liberdade de, com suas imagens barrocas, reverter fatos históricos, mergulhar no mundo do cinema e executar seus elaborados movimentos de câmera. No encontro de Landa com LaPadite, a câmera gira em torno deles, sem se deter em momento algum, quando o faz é para flagrar ameaças e relutâncias dos personagens. Depois, sequências à frente, faz um longo movimento obliquo (um travelling) do alto até o chão, passando pela fachada do cinema que exibe filmes alemães. Um salto interessante para religar a história de Shosonna Dreyfus, iniciada na sequência do encontro de Landa com LaPadite. Temos aqui outro vértice do filme: a vinculação de Hitler com o cinema, feita através de Joseph Goebbels (Sylvester Groth), seu ministro da Propaganda, para quem “a mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade”. É a ocasião para Tarantino exercitar seu lado cinéfilo, citar os diretores alemães, Leni Riefenstahl (“O Triunfo da Vontade”), apadrinhada de Hitler, e G.W.Pabst (“A Caixa de Pandora”), e o cômico francês da época do cinema mundo, Max Linder.
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Os entrechos, no bar e na sala de cinema, lhe servem também para elaborar sequências que remetem o espectador aos melodramas dos alemães contemporâneos Douglas Sirk (“Sublime Obsessão”) e, principalmente, Rainer Werner Fassbinder (“O Casamento de Maria Braun”). No bar, localizado no subsolo, se dá uma série de cenas, com uma dinâmica elogiável. Ação se desdobra em vertentes que destacam a espiã Bridget von Lammersmark (Diane Kruger). Enquanto numa mesa os soldados se embebedam, noutra, na que ela está com os oficiais, dentre eles, os apaches de Aldo Reine, se desenrola a trama principal. Estes dois centros de ação, na mesma sequência, criam tensões e antagonismos. Tensão pelo perigo que representa a chegada dos espiões nazistas, antagonismo, devido à rispidez com que os soldados, subalternos são tratados por seus superiores nazistas. Não seria forçado falar em luta de classe na caserna ou destacar o ódio mútuo entre eles, mostrando o quanto estavam desunidos.
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Trama centra-se, às vezes, no suspense

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Nesta mesma sequência, densa, cheia de desencontros, armadilhas, pistas falsas, Tarantino reforça seu poder narrativo, ao criar uma trama centrada no puro suspense. Teme-se pelo que pode acontecer ao grupo de Reine e à bela Lammersmark. Desestrutura, inclusive uma das afirmações dele próprio, de ter como referência “Os Doze Condenados”, de Robert Aldrich. Este, como se sabe, criava obras em estado bruto. Seus personagens eram, normalmente, seres com elevado conceito moral - o Tenente Joe Costa (Jack Palance), de “Morte Sem Glória”, ou seres marginalizados em busca de uma nova chance, iguais aos da obra antes citada. Sua narrativa, simples, mostrava-os lutando por um objetivo que os redimisse, mesmo que se valessem dos brutais métodos de combate. O grupo de Reine busca tão só execução, ou se quiser, vingança. Isto, porque, embora uma epopéia, “Bastardos Inglórios” é um filme sobre vingança.
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Não um acerto de contas gerado por simples ódio, porquanto está dirigida contra a máquina opressora do Estado Nazista, voltado para o extermínio de judeus e de seus opositores. Suas consequências podem desencadear, portanto, imprevistos resultados.
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Tarantino, no entanto, está mais interessado em usar as experiências de Sérgio Leone e seus roteiristas (Bernardo Bertolucci, Dario Argento, Sergio Donati, Mickey Knox) em “Era Uma Vez no Oeste” para abordar o tema da vingança, como propulsora da ação. Enquanto Leone usa Harmônica (Charles Bronson) como um dos elos da trama sobre a estrada de ferro como fator de desenvolvimento do Oeste estadunidense, ele o faz para descurando um fato histórico. Muitos diretores antes dele fizeram dela o centro da trama, a começar pelos que se dedicavam aos faroestes B. O mocinho sempre tinha de vingar a morte de um familiar ou de um amigo. Filmes classe A, como fez Anthony Mann, em “Um Certo Capitão Lockhart”, também nela se referenciavam. King Vidor, talvez percebendo seus limites, dada às transformações sociais ocorridas nos EUA, procurou invertê-la em “Estigma da Crueldade”, fazendo Jim Douglas (Gregory Peck) desistir de vingar a morte de sua mulher ao ver o assassino (Henry Silva) com a família.
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Leone tinha forte consciência política

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O próprio Leon em seus westerns posteriores, “Três Homens em Conflito” e “Quando Explode a Vingança” preferiu enveredar para abordagens mais condizentes com o momento histórico que o mundo vivia nos anos 60 e 70. Suas licenças dramáticas eram mais comedidas. Tinha consciência política e a transferia para seus filmes, através de entrechos e personagens. O oficial em conflito com seus deveres numa batalha durante a Guerra Civil Americana, no primeiro, e o camponês (Rod Steiger), que se envolve na Revolução Mexicana, no segundo, para se vingar dos que o humilhavam. Seus personagens, desta maneira, estão vinculados a fatos reais. Tarantino, em seu “Bastardos Inglórios”, vai noutra direção. Quer reverter a história, fazendo a pergunta: E se, numa determinada etapa da II Guerra Mundial, Hitler, ciente do poder da propaganda, decidisse comparecer à pré-estréia de um filme em Paris, França?

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Esse – e se – é por demais importante. Nele se concentra toda a epopéia tarantiniana. Ele toma a liberdade de mudar os fatos históricos e, por extensão, diluir suas próprias referências. Não que isto represente novidade na cinematografia hollywoodiana, que sempre executou com “eficiência” as manipulações históricas. O caso mais escancarado é o do General George Amstrong Custer, que de exterminador de índios se transformou em herói em “O Intrépido General Custer”, pelas mãos do diretor Michael Curtiz (“Casabranca”). Só 30 anos depois, Arthur Penn desmistificou-o em “O Pequeno Grande Homem”. Então, sua licença dramática não é novidade alguma. Hitler, em determinado momento, no filme, evidencia sua preocupação em homenagear o herói Zoller, assistindo à pré-estréia de sua cinebiografia. É quando ele, Tarantino, fecha os vértices, capítulos e entrechos de “Bastardos Inglórios”.
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Detalhes distraem os espectadores
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Em um filme de guerra, cujo suspense, aventura e drama, sempre o caracterizam; ele amplia as pistas e também as leituras. Uma cena cuja ação principal parece, a princípio, banal, se revela depois importante. O espectador passa a atentar para os detalhes, aqueles mínimos que colocam em certo instante tudo a perder. Serve, nas sequências finais, para evidenciar a perspicácia, o sadismo e o comportamento camaleônico de Landa. O charme de Lammersmark é insuficiente para evitar que sua artimanha seja descoberta. Ele, Landa, apaga o cigarro na perna dela, para o horror do espectador. Equivale, já que se está na área das citações, ao artifício usado por John Schlesinger, em “Maratona da Morte”, momento em Laurence Oliver enfia a broca na boca de Dustin Hoffman, para, supostamente, arrancar-lhe o dente - o horror por um ser humano levar o outro à dor absoluta para arrancar-lhe uma confissão ou simplesmente puni-lo provoca arrepios.
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Nesta fusão de vertentes, “Bastardos Inglórios” serve, além de espaço para a profusão de referências e citações, de campo para o exercício de montagem paralela: as cenas que ocorrem na cabine de projeção, corredores, camarotes e platéia do cinema. No centro as vertentes principais: a ação do grupo de Reine e da judia Shosanna e seu auxiliar Marcel (Jacky Ido). A câmera de Tarantino passeia energicamente pelos espaços, criando clima de puro suspense, num cenário caro a este tipo de ação: o teatro. E ali existem os da “realidade” com Hitler e parte de seu staff, e o da ficção – o filme que será exibido glorificando a matança de soldados das forças aliadas por um franco atirador alemão, Zoller. São incontáveis as obras que já o usaram como centro de suas ações. Hitchcock o fez algumas vezes, as mais célebres em “O Homem Que Sabia Demais” e “Cortina Rasgada”. Aqui, o sentido é outro: o de aglomerar no mesmo espaço inimigos e aliados para um acerto de contas.
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Mulheres são quase figurantes no filme
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São nestas sequências que alternam a ação que Tarantino se permite deter em suas personagens femininas. Elas chegam a ter algum instante de brilho, porque, ao contrário do vilão Hans Landa, são mostradas apenas em cenas que se integram à ação e dela não se destacam. Lammersmark menos que Shosonna. Venenosa, esta se veste de borbõ, sensualíssima, para o golpe fatal. E tem rara cena amorosa com Marcel, preparando-se para o desfecho. É a derradeira “leitura” tarantiniana. Diferente da espiã Lammersmark, ela encarna a vingança judaica contra o nazismo, materializado em Hitler, em pessoa, a poucos metros dela. O banho de sangue a seguir remete o espectador ao Sam Peckinpah de “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969). E a uma nova diluição, demonstrando que este tipo de utilização escorrega no contexto histórico. Na citada obra o desfecho tem o sentido da rebeldia, da revolução, do fim de uma era e o início de um tempo de transformações.
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Os velhos assaltantes de banco, em meio à revolução mexicana, percebem que lutaram sempre do lado errado. Decidem se redimir, enfrentando ao custo da própria vida, o exército mexicano, chefiado pelo General Mapache (Emílio Fernandez), que travava sua guerra particular contra outros generais em plena Revolução Mexicana. Talvez, quem sabe, Tarantino, quisesse equiparar os dois momentos. É difícil saber, mas os contextos são adversos. As sequências de “Meu Ódio Será Sua Herança” tiveram – ainda têm – um impacto tal que o espectador se vê em meio à revolução, a Guerra do Vietnã, a luta contra os generais no Brasil. Se ele, Tarantino, quis provocar na platéia judaica esta espécie de catarse, nada contra, só que o impacto é menor. Assim como a sequência da escadaria da estação ferroviária em “Os Intocáveis” (1987) cria menos tensão e esvazia a força política do carrinho com o bebê deslizando velozmente pela escadaria de Odessa, em “O Encouraçado Potemkin”(1925). Eisenstein tinha propósito político-ideológico ao fazê-lo; De Palma queria gerar tão só prazer estético.
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Citações sempre ficam longe do contexto real
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Este, aliás, é o problema dos cineastas que adoram referências, citações, “homenagens” – elas ficam sempre fora de contexto. Em “A Época da Inocência” (1993), Scorcese quis homenagear o conde e militante comunista Luchino Visconti. Sua referência era o genial “O Leopardo” (1963), que Visconti havia adaptado do romance de Giuseppe de Lampedusa. Faltou alma ao filme do ítaloamericano. Os ambientes novaiorquinos no início do século XX não nos remetem à nobreza, ao ambiente histórico, à cultura milenar italiana – os personagens de Scorcese, retirados do romance de Edith Warton, parecem – e são – novos ricos, burgueses enfastiados, frios, incapazes de circular pelos ambientes com desenvoltura, leveza, graça e, sobretudo, fineza. Embora a burguesia continue querendo ser nobre, falta-lhe a historicidade milenar, ainda que ambos representem a ostentação, a exploração e o saque da riqueza coletiva. Então, os filmes ficam superficiais, quase sem vida.
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É diferente das influências, elas enriquecem as obras. Permitem o burilamento do próprio estilo. Nem se percebe de onde vêm as de Win Wenders, até se defrontar com as obras de Yashurijo Ozu (“Dia de Outono”, “Viagem a Tóquio”). Ou se o espectador já o sabe, fica mais fácil. Em “No Decorrer do Tempo” dá para ver algumas citações de Ozu. Ali estão os planos fixos, com câmera baixa, os lençóis no varal, a paisagem imóvel, que se encaixam perfeitamente nos entrechos e na narrativa. O mesmo se dá com outro gênio: Akira Kurosawa. Não dá para esquecer os westerns de John Ford (“Paixão dos Fortes”) quando se vê “Os Sete Samurais”, no entanto, o diretor nipônico dota-o de uma encenação, coreografia, posições de câmera, que enriquecem sua obra e a diferenciam do mestre estadunidense. Igual tratamento deu Glauber Rocha no essencial “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, produzido em plena efervescência do faroeste italiano. Num filme que trata do misticismo, da luta pela terra, do cordel, do coronelismo, ele inclui desfecho primoroso com Antônio das Mortes (Maurício do Valle) executando jagunços na caatinga, remetendo ao western, à Ditadura Militar e à Guerra do Vietnã.
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Cinema do 3º Milênio Está sendo gestado
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Essa questão da influência é tão central que até mesmo um cineasta hollywoodiano por excelência, Budd Boetticher, fez um tratamento de cor, usando a roupa feminina como metáfora para o desejo, em “Sete Homens Maus”, faroeste, com Randolph Scott e Lee Marvin. A fonte: o já citado Ozu. Trata-se, assim, de uma referência. Só. Não uma profusão de citações que dilua a arte e a torne estéril, campo fértil para esvaziar a identificação de uma obra, por ela mesma. Fato que também não se dá com Jean-Luc Godard, a quem Tarantino é comparado. Há aqui também discrepâncias sem fim. A obra do francosuiço sempre teve o caráter desmisticador, revolucionário, vanguardista, em razão de suas posições político-ideológicas. Em certo momento, voltou-se para o cinema militante (“Masculino/Feminino”, “Tempo de Guerra”, “A Chinesa”), ao fundir metalinguagem, estética do cinema mudo, diálogos políticos, à luta contra o imperalismo. Foi sua fase maoísta, voltada para o cinema anti-hollywoodiano, dos superespetáculos.
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Depois se voltou para as pesquisas em super 8, a historicidade do cinema e nos últimos tempos às tecnologias digitais. Suas influências, centradas nos filmes noir dos anos 40 e 50, acabaram servindo à produção de filmes de baixo custo, até hoje usadas pelos cineastas asiáticos, africanos e americanos. É fruto, portanto, de uma época onde a estética servia ao conteúdo e não o contrário. De qualquer forma, a arte das citações, referências e homenagens é típica destes tempos globalizados, que estilhaçam as identidades. Quanto menos espaço para identificações houver, melhor. Cria com isto deslocamentos, desenraizamentos, esquizofrenia, típicos da burguesia cosmopolita que circula tão desembaraçada quanto seu capital pelas bolsas do planeta. E vende a idéia de que todos, inclusive o trabalhador comum, pode fazê-lo, mesmo diante das fronteiras que lhes são bloqueadas e as chances de integração sociais constantemente negadas.
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É urgente a criação de um novo cinema
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Não é à toa que o cinema hollywoodiano está em franca decadência, sem boas histórias criativas para contar. Só oferece ao público ávido por cultura essa repetição infindável de “citações”, que fica bem em programas de auditório da TV ou em brincadeiras para se saber “Onde Está Wally”. Ainda está se gestando o cinema que escapará a esta armadilha burguesa, de estar em vários centros – o que significa não estar em lugar algum. Bem diferente do incentivar o fluxo de mercadorias, a circulação da moeda e integrar os povos, permitindo o acesso à riqueza. Não a concentrando em alguns centros de poder do 1º Mundo. É urgente a criação de um cinema identificado com as camadas emergentes, populares, interessadas em produzir filmes que contem suas histórias, a partir mesmo das experiências já registradas. 

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As novas tecnologias digitais o permitem. O cotidiano é o grande gerador do olhar e da experiência. Afinal, a câmera afinal pode ser isenta, o que ela registra e como ela registra, não. Se o cinema pretende – e deve - superar a arte moderna burguesa, herdeira do romantismo, travestida de realismo ou naturalismo, é uma tarefa que cabe aos novos cineastas, roteiristas, principalmente. O resto continuará sendo cópia ou diluição.
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“Bastardos Inglórios” (“Inglourious Basterdes”). EUA/Alemanha. 2009. 153 minutos. Roteiro/Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Diane Kruger, Daniel Brühl, Sylvester Groth, Danis Menochet, Martin Wuttke, Jacky Ido.



* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Historia do Cinema - ECODESIGN


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Ícone de canal

nucleoexp1

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Video feito pelo grupo EcoDesign, do segundo semestre de 2006 no seminario sobre o casaco da materia NUCLEO DE EXPERIMENTAÇÃO 1
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domingo, 26 de julho de 2009

Walter Salles: cinema independente vive sua pior fase





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No filme de Wim Wenders que ganhou o Festival de Veneza em 1982, O Estado das Coisas, uma equipe de cinema independente para em plena rodagem de uma ficção científica por falta de financiamento. O que era ficção tornou-se realidade. Em vários países, o cinema independente passa pela maior crise desde que, há 50 anos, a nouvelle vague e realizadores como John Cassavetes deram sentido ao termo.

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Por Walter Salles*, na Folha de S.Paulo

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O resultado é, em diversas latitudes, inquietante. Nos Estados Unidos, os estúdios fecharam várias distribuidoras que haviam criado para lançar ou coproduzir filmes independentes. A New Yorker Films, a emblemática distribuidora que levou nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Abbas Kiarostami e mais recentemente Jia Zhang-ke às telas norte-americanas, também cerrou as portas.

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Mais de 90% dos filmes apresentados no Festival Sundance no início do ano nunca sairão nos cinemas, por falta de distribuição. Com a crise, é paradoxalmente mais provável que filmes de US$ 150 ou US$ 200 milhões sejam produzidos hoje nos Estados Unidos do que um pequeno filme independente de baixo orçamento.

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A lógica dos estúdios mudou: produzir menos filmes, com conteúdo já testado, lançados no maior número de salas ao redor do mundo, simultaneamente. Nessa equação industrial, o custo não é um problema. O risco, sim.

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Resultado: o cardápio cinematográfico norte-americano está se tornando cada vez mais restrito, e o conteúdo, mais conservador — em grande parte, "sequels", "prequels" ou adaptações de séries de televisão. A safra excepcional de 2007 (Onde os Fracos Não Têm Vez, Sangue Negro, Não Estou Lá e Zodíaco, entre outros) não deve se repetir tão cedo. E dá-lhe Transformers 2, 3, 4...

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Na Europa, a política cultural instaurada há décadas em países como a França ou a Espanha defende o cinema independente e o protege de um terremoto como esse que os Estados Unidos estão vivenciando. Mas, mesmo por lá, a situação é cada vez mais preocupante. A sólida safra de autores em competição em Cannes 2009 ainda é o reflexo de uma situação pré-crise. Como o ciclo de produção de um filme é, em média, de dois anos, pode-se temer pelas safras de 2010 e, sobretudo, 2011.

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Com a falta de crédito, produtores e realizadores europeus estão mais dependentes das TVs. E com a privatização das redes, só os longas que respondem a uma lógica de grande público e podem passar em horário nobre encontram rapidamente financiamento. Os outros penam. Como exercício, pode-se imaginar o tipo de filmes que as três redes de Silvio Berlusconi cofinanciam.

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Numa Europa em recessão, até realizadores como Milos Forman tiveram filmes em pré-produção suspensos. Mais uma vez, a equação se repete: menos risco, mais previsibilidade, menos diversidade.

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Num encontro recente em Berlim, Wim Wenders dizia que, hoje, é provável que um filme como Asas do Desejo (1987) não fosse mais financiado. O filme, assim como Alice nas Cidades (1974), não tinha um roteiro escrito. Tinha, ao contrário, uma ideia que nutria o filme, e que era desenvolvida a cada dia durante a filmagem. Em grande parte improvisado, Asas do Desejo foi viabilizado em um momento em que o processo decisório em torno do cinema independente era outro.

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Poucas fontes

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Hoje sobram apenas algumas fontes de financiamento, canais culturais independentes como a Arte na França, o Film Four e a BBC na Inglaterra, que ainda se aventurariam em projetos semelhantes. Porém, a maioria desses canais sofreu cortes importantes de orçamento em 2009.

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Wenders também se inquietava com a crise da cinefilia: mesmo que um filme como Asas do Desejo ainda pudesse ser feito, haveria público para assisti-lo? Lançado com poucas cópias, o filme de autor depende de tempo de permanência nas salas. Em sentido contrário, a rotatividade dos filmes nos cinemas acelera-se a cada ano. Na Europa como no Brasil, o perfil das salas de exibição tem mudado rapidamente, de salas independentes de rua para multiplexes em shoppings. Nesses novos espaços, o mesmo filme ocupa frequentemente várias salas de exibição.

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Mudança de hábito, mudança de público. Foi-se o tempo em que um filme como Sem Destino (1968), de Dennis Hopper, ficava 20 anos em cartaz em Paris. A sala onde isso aconteceu, o Cinoche em St. Germain, fechou em 2008. Deu lugar a uma rede de fast-food. Em alguns países, filmes têm saído diretamente dos festivais para as telas das cinematecas, sem passar pelo mercado exibidor tradicional.

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É o caso de Kiarostami e Nuri Ceylan na Inglaterra. Seus últimos filmes só chegaram ao público inglês graças ao National Film Theatre — salas de exibição mantidas pelo British Film Institute.

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Godard e Truffaut

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Voltando ao ponto de partida, a nouvelle vague: Godard e Truffaut instauraram a ideia de que o cinema era uma arte total, o ponto de encontro entre a literatura, o teatro, a pintura, a fotografia, a arquitetura, a filosofia. Desde então, gerações se formaram tendo o cinema como instrumento de compreensão e desvendamento do mundo. Como seria viver em um mundo em que esses filmes que vão além do simples entretenimento não mais existiriam?

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O teatro foi dado muitas vezes como morto — e não parou de renascer desde então. O mesmo foi dito do cinema quando a TV se tornou dominante. A sentença repete-se agora com a internet. Quando o cinema foi inventado, as primeiras exibições de filmes aconteceram em circos.

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"O cinema é primo da roda-gigante", disse uma vez Walter Lima Jr. A roda-gigante também foi dada como morta, e nunca morreu. Talvez porque ela nos ofereça uma visão única, panorâmica, do mundo — e a possibilidade do encantamento.

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* Walter Salles é cineasta e diretor de Central do Brasil e Diários de Motocicle

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in Vermelho - 24 DE JULHO DE 2009 - 18h52

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sábado, 18 de julho de 2009

Cenas reencontradas mudam forma de ver "Metrópolis", diz restauradora

Cultura | 18.07.2009

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Meia hora de metragem do clássico de Fritz Lang, reencontrada na Argentina, será restaurada e acrescentada à versão conhecida. Restauradora Anke Wilkening fala do conteúdo das cenas e dos desafios da restauração digital.

Deutsche Welle: Uma versão completa de Metrópolis, de Fritz Lang, foi descoberta em 2008 na Argentina. Você trabalhará na restauração digital do filme, na Fundação Friedrich-Wilhelm Murnau de Wiesbaden. O que é tão importante assim nessa versão longa?

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Anke Wilkening: Todas as versões que conhecemos hoje são consideravelmente mais curtas. O filme foi originalmente cortado em aproximadamente 30 minutos pela Paramount, e os estúdios UFA [Universum Film AG] igualmente o abreviaram de forma semelhante para a distribuição na Alemanha e exportação, cerca de quatro meses após a estreia alemã. Os distribuidores decidiram que ele era longo demais por razões econômicas. A restauração da meia hora que falta mudará completamente o filme em relação à forma como o conhecemos até agora.

Uma das cenas antológicas  da película

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Uma das cenas antológicas da película

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Quando se encurta uma película, é mais fácil eliminar cenas envolvendo personagens secundárias do que protagonistas, e foi precisamente isso o que ocorreu com Metrópolis. Neste caso, três coadjuvantes masculinos – muito importantes para a obra por sua relação com uma das personagens principais, Freder – foram quase eliminados, reduzidos à figuração. Em todas as versões anteriores a relação ficara sempre obscura.

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Metrópolis é muito bem documentado, temos o roteirosde Thea von Harbou, a partitura de Gottfried Huppertz, temos numerosas fotografias, as críticas da estreia. Portanto era fácil imaginar como essas cenas teriam sido. Mas ter a metragem original é bem diferente.

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De que forma a versão editada modificou a mensagem de Lang?

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Metrópolis parecera sempre um filme muito bombástico, uma estranha mistura de ficção científica e outras coisas. Agora toda a estrutura narrativa mudará. Fritz Lang aborda aqui seu tema favorito: a amizade entre homens e como ela fracassa.

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Como ocorre a restauração digital? Pode explicar a técnica?

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Em 2001, a Fundação Murnau já realizara uma restauração digital de Metrópolis, baseada nos negativos de câmera remanescentes. Na época, não era possível restaurar o filme completo, claro. Os negativos foram escaneados em resolução de 2K [2.048 pixels na horizontal], e esses arquivos serão a base para a nova restauração. Escanearemos as duplicatas em 60 mm que se encontram agora em Wiesbaden, as restauraremos o máximo possível e as integraremos nos arquivos digitais de 2001.

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Então, restaurar o filme significa escanear e armazenar no computador?

Cineasta austríaco Fritz Lang

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Cineasta austríaco Fritz Lang

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Esse é o primeiro passo para tudo o que seja novo na versão da Argentina. O seguinte, e mais difícil, é a correção digital dos estragos. A cópia está em péssimo estado, e é só uma duplicata. Após a distribuição na Argentina, o original fora exibido em cinematecas por um colecionador particular, até a década de 1960. Como pode imaginar, ele estava realmente gasto, após mais de 35 anos de projeções.

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Todos os defeitos no material foram copiados na duplicata de 60 mm, o que significa que são agora parte da imagem. É muito difícil, mesmo na restauração digital, lidar com esse tipo de dano. O problema mais sério são linhas que atravessam todo o quadro, da esquerda para a direita. E temos problemas de estabilidade de imagem. Toda a sujeira da cópia foi também reproduzida.

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Também enfrentamos alguns problemas de contraste. A cada nova geração de um elemento fílmico, há sempre perda de nitidez e contraste e um aumento de granulação.

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Mas há programas de computador capazes de corrigir esses defeitos?

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Esperamos poder melhorar o contraste, aumentar a estabilidade e provavelmente eliminar parte da sujeira. Mas contamos que o dano sério, as linhas horizontais, permanecerão mais ou menos. Estão sendo realizados testes em diferentes laboratórios, para ver o que se pode alcançar no campo digital. Aí temos que decidir, antes de tudo, qual deles será encarregado da restauração, em segundo lugar, até que ponto vamos interferir no filme.

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Metrópolis é considerado um clássico, e muitos estudantes de cinema têm que assisti-lo. Qual é a sua relevância para o ensino?

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Por um lado, Fritz Lang é um dos mais importantes diretores alemães (austríacos), mesmo internacionais, da era do cinema mudo. Metrópolis é muito típico de sua época. A UFA estava tentando competir com os Estados Unidos, ostentando a técnica elaborada que tinha à disposição. É também uma mescla dos problemas mais cruciais daquele tempo: questões políticas e ideológicas se misturam e se fundem nessa película. Encontram-se elementos de ficção científica, romance, combinados à tecnologia avançada dos estúdios da UFA.

Cartaz do clássico do cinema mudo

Bildunterschrift: Cartaz do clássico do cinema mudo

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Ele foi um modelo cinematográfico por longo tempo. Há elementos de Metrópolis em muitos filmes de ação, como Blade Runner e O quinto elemento; mesmo em videoclipes como Express yourself da Madonna, ou Radio Gaga do Queen. Ou a ideia do cientista louco, que foi um modelo para os filmes de terror da Universal na década de 30.

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O outro motivo é que essas cenas preciosas estiveram perdidas por tanto tempo. E tantas pessoas diferentes reviraram arquivos por todo o mundo, procurando seriamente esses 30 minutos, por razões científicas, sensacionalismo, ou por mera curiosidade. Sempre houve especulações sobre essa cena, e como ela poderia modificar o filme. E esta é uma razão importante por que Metrópolis é tão famoso.

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Autor: Louisa Schaefer
Revisão: Alexandre Schossler

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Mais artigos sobre o tema

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in DW World 1987.07.18
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Cinema de Portugal

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Índice


Cinema de Portugal refere-se essencialmente a filmes realizados por autores portugueses. São em princípio considerados também portugueses alguns filmes de autores estrangeiros com participação financeira nacional.




HISTÓRIA


PRIMÓRDIOS


origens

O início do cinema português tem lugar com a exibição das primeiras curtas-metragens amadoras de um empresário da cidade do Porto, Aurélio Paz dos Reis (Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança), em 1896, réplica do filme dos irmãos Lumière (1894 - 1895) La Sortie de l'usine Lumière à Lyon, considerado o primeiro filme, depois das descobertas do chamado «pré-cinema».
Paz dos Reis tem em mente explorar o seu cinematógrafo. Organiza alguns espectáculos que não obtêm os resultados esperados e tenta o Brasil. O Kinematógrafo Português seria apresentado no Teatro Lucinda do Rio de Janeiro, a 15 de Janeiro de 1897. Regressa desiludido, depois de captar algumas cenas na Avenida Rio Branco, nessa cidade, das primeiras imagens animadas filmadas no Brasil.
O interesse de Paz dos Reis pelo cinematógrafo provém do conhecimento de Edwin Rousby, enviado do inglês Robert William Paul, fabricante de máquinas de filmar e projectar, o mesmo a quem Georges Mélies, inventor do filme de ficção, comprou um projector que ele próprio transformou em máquina de filmar, aparelho híbrido que faria sucesso no seu já famoso Théatre Robert Houdin, em Paris. É por influência da mesma personagem que, entre outros, Manuel Maria da Costa Veiga, que se tornará exibidor de filmes em Lisboa, se mete no fabrico das imagens animadas. Será «O Segundo Caçador de Imagens português». Paz dos Reis e Costa Veiga fundam em Portugal essa tradição.
Saída do Pessoal da Fábrica Confiança
Saída do Pessoal da Fábrica Confiança

os primeiros géneros

A ficção cinematográfica portuguesa nasce em 1907, uns bons onze anos depois das primeiras obras do género terem sido criadas por Georges Méliès, em França. É uma curta-metragem filmada pelo fotógrafo lisboeta João Freire Correia e realizada por Lino Ferreira, O Rapto de uma Actriz. Com este filme, tem início o primeiro Ciclo de Lisboa. Fundada no Porto em 1912, a Invicta Film destacar-se-ia um pouco mais tarde na história do cinema em Portugal, estabelecendo um alternância entre Lisboa e o Porto na liderança da produção nacional, até ao surgimento do filme sonoro.
A Portugália Film, empresa lisboeta de João Freire Correia, equipa-se e começa a produzir em 1909. Dedica-se ao filme documentário e de actualidades, géneros que têm particular sucesso pela curiosidade que despertam. João Correia elege entretanto um motivo e investe na ficção: uma velha história dos bandidos de Lisboa. Os Crimes de Diogo Alves, de João Tavares - 1911, filme falado, com vozes por trás do écran, faz enorme sucesso. Temíveis, muito badalados na literatura de cordel, tais como o espanhol Diogo Alves, «boleeiro em algumas das melhores casas, com a alcunha de O Pancada», outros bandidos havia : o João Brandão, o José do Telhado, o Remexido. Instala-se a marginalidade como tema recorrente do cinema português.
Surge o filme histórico Raínha depois de morta (1910), de Carlos Santos e outro intitulado Guiomar Teixeira, A Filha de Tristão das Damas, de João Gomes: cristãos contra sarracenos no século XVI. João Tavares adapta uma obra de Camilo Castelo Branco (Carlota Ângela - Portugália Film, 1912). E Charlot entra em cena: duas imitações feitas por um cómico espanhol conhecido por Cardo, filmado por Ernesto de Albuquerque (Chegada de Cardo as Charlot a Lisboa e Uma Conquista de Cardo as Charlot no Jardim Zoológico de Lisboa - 1916). De Chalot faz-se ainda uma réplica lisboeta, de Emídio Pratas (Pratas, Conquistador - 1917), em que, depois de várias tropelias, o dandy alfacinha acaba por ficar com um olho negro. Fecha-se o ciclo de Lisboa.
Contratado pela Invicta Film, Georges Pallu – que se apaixona pelo cinematógrafo e desiste de ser secretário de ministro francês –, filmará em Portugal, até à extinção da empresa, em 1924, uma longa série de ficções de vários géneros. Começa com Frei Bonifácio 1918), filme desaparecido, e prossegue com a A Rosa do Adro (1919). Leitão de Barros inicia carreira com duas curtas metragens e uma proclamação do Presidente da República.

ANOS 20

o surgimento da indústria

A indústria de cinema em Portugal terá início em 1918, após a reestruturação da produtora Invicta Film, que reactiva o Ciclo do Porto, o segundo. Durante os anos vinte, a produção cinematográfica portuguesa dedica-se principalmente à transposição dos clássicos literários portugueses para a tela, entregando a direcção dos projectos a realizadores estrangeiros. Georges Pallu filma uma adapatação de Eça de Queirós, O Primo Basílio (filme) (1922). Roger Lion tenta o drama (A Sereia de Pedra - 1922), protagonizado por um jovem forcado, e filma uma história dramática vivida por pescadores da Nazaré (Os Olhos da Alma - 1923). Rino Lupo explora o drama rústico (Os Lobos – 1923) e a aventura (José do Telhado (1929), que será objecto de uma remake anos mais tarde.
Entretanto, em 1920, Raul de Caldevilla, abre a sua Caldevilla Film, na cidade do Porto, e depois compra um terreno para construir um estúdio na Quinta das Conchas, no Lumiar, em Lisboa, lugar onde surgirá, com o aparecimento do sonoro, a Tobis Portuguesa. É outro francês, Maurice Mariaud, quem ele contrata para realizar Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor (1923), uma adaptação da obra homónima de Júlio Diniz. A companhia será sol de pouca dura, por questões de dinheiros e maus entendimentos entre sócios. Entre 1926 e 1927, Manuel Luís Vieira (A Calúnia), realizador, produtor e director de fotografia, e o ousado Repórter X, o jornalista Reinaldo Ferreira, (O Táxi nº 9297 - 1927), criam expectativas.

os primeiros filmes artísticos

Louis Feuillade, anti-academista francês, reagindo contra o cinema teatral do Film d'Art, revolucionou o ofício propondo-se mostrar «a vida tal e qual ela é». Fê-lo numa paisagem urbana servindo de décor a "fantasmas", à acção rocambolesca. Dando a ver a vida tal e qual ela é, Rino Lupo, que trabalhou com ele e que com ele se aperfeiçoou nas lides do cinema, mantém o propósito, mas tece o enredo com menos tropelias, com outro coração, preferindo outro enquadramento. Lupo inspira-se ainda no conceito que Feuillade desenvolvera sobre o Film Esthétique, a prática de um cinema mais «pictórico». Declarando ter veia de pintor, bucólico, Lupo propõe-se assim enquadrar a vida na paisagem. O francês Georges Pallu, homem de estúdio, mais academista, mais urbano, menos fascinado pela natureza, prefere servir-se da paisagem para enquadrar a vida como ela é, tout court, no campo ou na cidade. Com novas fantasias, a ficção explora a realidade.
Herdeiro desse estado das coisas e muito virado para o mar, o jovem Leitão de Barros vai seguir o exemplo, recorrendo a certos temas já explorados mas inovando, imprimindo nas suas imagens traços da nova estética do cinema soviético (Eisenstein), usando a forma para gerar outro sentido.
Em 1926, o golpe do 28 de Maio instala em Portugal a ditadura nacional que, durante quase meio século, com a mão férrea de António de Oliveira Salazar, condicionará drasticamente a vida econónima, social e cultural do país.
Em Nazaré, Praia de Pescadores (1929), Leitão de Barros utiliza como intérpretes pescadores e gente do povo, numa ousada incursão no documentário, inaugurando no cinema português a prática da antropologia visual. O muito jovem Jorge Brum do Canto (A Dança dos Paroxismos - 1929, filme que não teve saída comercial), inova a seu modo, numa obra experimental que dedica a Marcel L'Herbier, expoente do futurismo na sétima arte. Ambos sabem explorar a força da imagem, abrindo caminho para um cinema que, pretendendo mostrar a realidade ou fazer um retrato romântico do país, teria o seu público. [1].

ANOS 30

a indústria de cinema e o Estado

Leitão de Barros, no primeiro ano da década de trinta, começa com humor numa obra de regime (Lisboa, Crónica Anedótica - 1930) e explora o drama: (Maria do Mar - 1930), a primeira docuficção do cinema português e a segunda etnoficção mundial depois de Moana de Robert Flaherty. É ele ainda que, em Portugal, faz o primeiro filme sonoro: A Severa (1931).
Maria do Mar
Maria do Mar
Os estúdios da Tobis (Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klangfilm) são construidos em Lisboa no ano seguinte, no Lumiar [2], e Lisboa inicia novo ciclo, sem retorno. Nessa década, com a falência do mudo, surge nova geração de cineastas, muitos deles jovens vindos do velho ofício.
Em 1935 é criado o Secretariado Nacional de Informação, que se dá conta do interesse que o cinema tem para o regime. Lopes Ribeiro torna-se a voz cinéfila da ditadura salazarista. A propaganda ideológica e política faz-se com fundos públicos e há que geri-los bem. Nos filmes, a que o público acorre, seduzido pelas imagens animadas que desvelam o país, tornam-se reis actores de revista: Beatriz Costa, António Silva, Maria Matos, Vasco Santana. É a época áurea da comédia, que, em questões de amor, se envolve com o musical.

o cinema sonoro

O filme sonoro implica mudanças radicais, que se fazem notar mais na forma que no sentido, mais nos estilos que nos conteúdos. Os equipamentos usados nessa época para o registo dos diálogos são pesados. Os processos de dobragem complicam as técnicas, tornando menos ágil a linguagem cinematográfica, dificultando a escolha de actores, o seu trabalho. É um período de transição que abrirá caminho a novos resultados, sendo o principal a notória atracção que o filme falado passará a exercer sobre as audiências. Mantem-se a ideologia. Também no cinema o bom uso da palavra é útil para defender a moral e servir de propaganda.
Temas prometedores aumentam o ruído, esvaiem-se subtilezas do mudo. É A Canção de Lisboa (1933), as cantigas da moda das raparigas bonitas de Cottinelli Telmo. É a eterna tourada: o Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro (1934). É o romance ao vivo, as intrigas vistas e ouvidas, a literatura na tela, completa, com música de fundo. São As Pupilas do Senhor Reitor (1935), é Bocage (1936), o poeta boémio e a descuidada gazela, e é ainda a Maria Papoila (1937), a infeliz pastorinha das Beiras a servir em Lisboa (Leitão de Barros). É A Revolução de Maio (1937) : António Lopes Ribeiro. Entre outros ainda é, coisa nova, o Narciso Aviador e mais duas viagens triunfais do Presidente da República (1939), ano em que estreia A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia, obra ilustrativa da "pureza" rural.

ANOS 40

nova ficção e novo documentário

O Pai Tirano (1941) de António Lopes Ribeiro e O Pátio das Cantigas (1942) do seu irmão Francisco Ribeiro, o «Ribeirinho», são os primeiros da década de quarenta embarcados no mesmo rumo.
Aniki-Bobó (1942), de Manoel de Oliveira, neste contexto, é nota dissonante. Nesse mesmo ano, Leitão de Barros, volvendo ao tema marítimo, afirma-se com Ala-Arriba! na "contra-corrente" (Taça Volpi, Festival de Veneza), o último filme da sua trilogia sobre o mar e a segunda docuficção na história do cinema português. Com Robert Flaherty, pioneiro do documentário e seu contemporâneo, Leitão de Barros segue-lhe o exemplo explorando um domínio específico: o da etnoficção.
Na linha dos projectos de grande público, Arthur Duarte filma O Costa do Castelo (1943) e A Menina da Rádio (1944). Armando de Miranda repete a aventura de Lupo: José do Telhado (1945), saga (literatura) popular e êxito de bilheteira. Camões, filme que Salazar considera de interesse nacional, apresentado no Festival de Cannes de 1946, é o mais caro até então produzido em Portugal. Também nas artes do cinema faz o regime sentir a força da sua vontade.
Regressado dos Estados Unidos onde trabalhou como montador de actualidades da Paramount (Pathé News), Perdigão Queiroga explora a vertente populista: Fado, História de uma Cantadeira (1947), com Amália Rodrigues. Ainda nesse ano, explorando o mesmo público, Arthur Duarte obtém sucesso com O Leão da Estrela, que ironiza a doença da bola, e Armando de Miranda também o alcança com Capas Negras.
Em 1944 é entretanto criado o Secretariado Nacional de Informação, que tomaria o lugar do Serviço Nacional de Propaganda. Em 1948 é promulgada a lei nº 2027, que protege o cinema português e promove a produção artística, controlando-a.

ANOS 50

estagnação e mudanças

A década de cinquenta anuncia já certas roturas, sendo no entanto um período de estagnação. António Lopes Ribeiro prossegue o seu trabalho, moralizando (Frei Luís de Sousa – 1950), e Queiroga continua o seu, tentando excitar o imaginário pequeno-burguês (Sonhar é Fácil - 1951). Perdigão Queiroga passará a investir como produtor de documentários de actualidades e de filmes de propaganda que antecedem as projecções nas salas de cinema e que circulam por todo o país (Imagens de Portugal)
O primeiro sinal de mudança é dado por Manuel Guimarães que, com veia neo-realista (ver: neo-realismo), opta por dar a ver às pessoas o lado mais cru das coisas: Saltimbancos (1951), Nazaré (1952). Manuel Guimarães, assumindo-se na convergência da tradição realista, de Pallu a Barros, acentuará a nota vanguardista no seu assumido neo-realismo, que nunca o chegará verdadeiramente a ser, pelo menos tanto quanto ele desejava que tivesse sido. Nazaré foi um filme ferozmente censurado. Realismo sim, mas de boas maneiras. Marcas destas por certo teriam tido outro uso no cinema se o regime o tivesse permitido.
Alguns outros filmes da década :
Chaimite (1953), de Jorge Brum do Canto, a velha África nossa, O Dinheiro dos Pobres (1954), de Artur Semedo, censurado, Vidas sem Rumo (1956) de Manuel Guimarães, censurado, A Viagem Presidencial ao Brasil (1957), média metragem apoteótica de António Lopes Ribeiro, A Costureirinha da Sé (1958), de Manuel Guimarães, a bonitinha Aurora, o mar do Porto, a faina do Douro, a alta costura a cores, A Luz vem do Alto (1959), de Henrique Campos, a crença e a descrença em aceso confronto, e, desse mesmo ano, a média metragem de Manoel de Oliveira, O Pão nosso de cada dia. [3]

os novos agentes

A RTP (Rádio Televisão Portuguesa) é criada em 1955 e terá um papel importante na divulgação dos clássicos, na mudança dos hábitos de consumo de conteúdos fílmicos e, em especial, quando abre as suas portas à produção externa depois de 1974. Entretanto, o Estado, em precoce primavera marcelista, consente em financiar o cinema português e cria, em legislação desta e da década seguinte, o Fundo de Cinema. Os fundos são destinados tanto à produção de filmes como à Cinemateca Portuguesa (1948), que só tardiamente abre portas, em 1958. A sua primeira iniciativa é uma retrospectiva do cinema americano, com os films d'auteur descobertos pela Nouvelle Vague, evento que Alberto Seixas Santos e António Pedro Vasconcelos orgulhosamente consideram, na revista O Tempo e o Modo, como «o maior acontecimento cultural desde o aparecimento de Orfeu».

ANOS 60

continuidade e inovações

Os primeiros anos da década de sessenta são de continuidade. Queiroga persiste (As Pupilas do Senhor Reitor - 1960). Augusto Fraga excede-se no primeiro filme em cores de Portugal: (Raça - 1961). A primeira e grande rotura com o velho cinema dá-se com Dom Roberto (1962), personagem do teatro de fantoches, criado pelo vagabundo João Barbelas, que ganha a vida com espectáculos de rua, um filme de José Ernesto de Sousa. Teórico do neo-realismo mas também íntimo da Nova Vaga francesa, Ernesto de Sousa ousa agitar as águas, suscitando questões de consciência e sentimentos de revolta. O filme, que tem reminiscências de Os Saltimbancos, ganha um prémio no Festival de Cannes mas ele é preso pela PIDE, que o impede de lá ir. A rotura é dupla: é de género e estilo, no que toca a maneira de filmar e o modo de produção, e é política. Dom Roberto e o filme de Paulo Rocha, Os Verdes Anos (1963), imbuídos desse espírito e de uma vontade implicitamente denunciadora, marcam o início do chamado Novo Cinema.

a geração de sessenta

Fernando Lopes, também influenciado pelo realismo italiano e pela vanguarda francesa, filma Belarmino (1964), António de Macedo Domingo à Tarde (1965), ambos os filmes produzidos por António da Cunha Telles. Enquanto produtor, Cunha Telles teria um papel significativo na história do cinema português, ao tentar criar condições de auto-suficiência na produção de filmes e conciliar cinema de arte com cinema de grande público. Nessa linha, Sete Balas para Selma de António de Macedo - (1967), um policial, seria pretensão com consequências polémicas. Depois de graves precalços financeiros como produtor, António da Cunha Telles realiza O Cerco (1969). Ousado, o filme vai ao Festival de Cannes, obtém êxito comercial e alguns prémios oficiais.
Em 1969, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian é criado o Centro Português de Cinema, que produzirá, em espírito cooperativo, uma parte significativa dos filmes da nova geração, inconformada com a situação social e política e admiradora das novas tendências de autores estrangeiros que os cine-clubes vão revelando.
Realismo e vanguarda são dados lançados. Co-habitando nalguns filmes, seriam em Portugal valores alternativos no futuro do cinema. [4].

ANOS 70

as inovações antes da revolução

Dessa geração, já nos anos setenta, seguem o movimento do Novo Cinema António de Macedo (Nojo aos Cães – 1969, estreado em 1970 – proibido pela censura), Fernando Lopes (Uma Abelha na Chuva – 1971): com O Cerco, são estes os «três filmes do desespero», produzidos com fundos pessoais, material emprestado, ajuda de amigos.
Já com outros meios de produção, alinham ainda no movimento José Fonseca e Costa (O Recado – 1971), António Pedro Vasconcelos (Perdido por Cem - 1972), Alfredo Tropa (Pedro Só - 1972), João César Monteiro (Fragmentos de um Filme Esmola - 1973), Fernando Matos Silva (O Mal Amado - 1973), Alberto Seixas Santos (Brandos Costumes – 1974). Macedo dá visibilidade internacional ao movimento: A Promessa (1972) é seleccionada para o Festival de Cannes em 1973, o primeiro filme português aceite neste festival.
O Estado marcelista, fragilizado, confrontado com sinais de rebelia, excede-se nos receios e aperta com a repressão e a censura. Artur Ramos seria entretanto seriamente atingido pelas armas do regime. [5]
Manoel de Oliveira reinicia uma longa carreira a partir de 1971 (O Passado e o Presente), o primeiro filme produzido pelo CPC (Centro Português de Cinema), que dará à luz uma boa parte das obras dos novos realizadores. Nesse ano, é promulgada a Lei nº7/71 que originará o Instituto Português de Cinema, em 1973 (ver ICA), destinado a gerir os financiamentos públicos para a produção de filmes nacionais. Nesse mesmo ano também é criada a Escola Piloto de Cinema, que será integrada, com a escola de teatro, no Conservatório Nacional.

as novas técnicas e o novo cinema

A década seria ainda marcada pelo amplo recurso a uma inovação técnica com origem nos anos sessenta: o uso de máquinas de filmar de 16 mm com capacidade de gravação de som sincronizado com a imagem. Estas câmaras revolucionariam não só as técnicas como também a própria linguagem cinematográfica, permitindo grande agilidade na filmagem e a possibilidade de reduzirem consideravelmente os custos de produção. A abordagem de temas que seria bem mais complexa com câmaras de 35 mm torna-se mais fácil. Isso contribui de um modo decisivo para que alguns cineastas portugueses optem pela prática do chamado cinema directo, explorando temas que até então tinham escapado ao olho da objectiva.

a vertente antropológica

Por longínqua inspiração de Leitão de Barros (Nazaré, Praia de Pescadores - 1929) e de Manoel de Oliveira (Douro, Faina Fluvial - 1931), com Oliveira entre eles (Acto da Primavera – 1962, a terceira docuficção portuguesa), no trilho já aberto pelas obras de Robert Flaherty ou de Jean Rouch, lançam-se no documentário alguns realizadores, criando obras cinematográficas associadas ao conceito de antropologia visual : António Campos (A Almadraba Atuneira - 1961, Vilarinho das Furnas - 1971, Falamos de Rio de Onor - 1974) e António Reis (Jaime - 1974, Trás-os-Montes - 1976). O primeiro cultiva um estilo que, submetendo-se aos imperativos da verdade, ao documentário puro, brilha pela sobriedade poética. O segundo, exaltando uma certa nobreza do real, da própria natureza, projecta-a no retrato humano com forte carga poética. Saído de uma revolução inesperada, que ele se mete a filmar logo às primeiras horas (Cravos de Abril - 1974/76), Ricardo Costa, com recursos escassos, segue-os, apressado (Avieiros - 1976). Participará nesse registo, urgente, de rostos, gestos, de modos de viver hoje desaparecidos -– todos eles marcados por essa mesma nobreza -–, correndo o seu país de uma ponta à outra, escrevendo no real , improvisando ao sabor dos eventos : mar, planície, montanha. Em todo o lado descobrirá um rosto idêntico.
São, cada obra em si, o modo de as fazer, o que elas revelam e ao que se propõem, aquilo que permite considerar as obras destes descobridores como a vanguarda do documentário, na vaga do Novo Cinema. O filme politico, o cinema militante, o filme etnográfico, a docuficção e a etnoficção são géneros que contaminam o cinema que se faz em Portugal nesta década e que nela se reinventam. O fascínio pela etnoficção acentua-se, marcando muitos filmes, mesmo aqueles que, como os de Manoel de Oliveira, são ficção pura.

o cinema depois da revolução

A Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974) seria decisiva para o futuro do cinema português, quer pelas liberdades que introduziria nas práticas sociais e culturais quer pelo papel que a RTP viria a desempenhar na produção e difusão de obras cinematográficas nacionais, em particular na área do documentário [6].
Como consequência directa da revolução são criadas no IPC (Instituto Português de Cinema) as Unidades de Produção, que, usando os meios técnicos de produção e pós-produção disponibilizados pelo IPC e funcionando com um espírito colectivista, têm como objectivo garantir a actividade dos profissionais de cinema, ilustrar as transformações radicais com que o país se confronta, fazê-las chegar a locais onde nunca chegaram, educar e agitar politicamente as consciências. Um dos exemplos representativos do movimento é o filme colectivo As Armas e o Povo, produção do Sindicato de Trabalhadores do Cinema e Televisão. O filme documentário e algumas ficções, tocados por esse espírito ou pelo simples desejo de renovação, marcam o início de uma nova época, marcada pelo gosto do cinema militante. O produtor e director de produção Henrique Espírito Santo terá papel importante nesse momento da história.
Surgem as cooperativas de cinema : a Cinequipe, a Cinequanon, o Grupo Zero e certos produtores independentes. Na prática do cinema militante empenham-se António de Macedo e Luís Galvão Teles (Cinequanon). Fernando Matos Silva e José Nascimento (Cinequipe), Alberto Seixas Santos (Grupo Zero). Rui Simões (cineasta), da Virver, um dos independentes mais activos, filma Deus, Pátria, Autoridade (1975), um dos marcos do filme político da época. Todos filmes de intervenção num mesmo sentido: intervir viabilizando o cumprimento de um desejo que ninguém tinha por utopia. Para serem irreversíveis as coisas, teriam certos filmes que ser feitos. Arma automática, a câmara era perfeita para ajudar a reviravolta. Retrato de uma época, ocupam estes filmes um lugar especial na história [6].
Além do papel que tiveram na renovação formal do cinema em Portugal, muito contribuíriam as cooperativas e alguns produtores independentes para a formação de técnicos de cinema, que, com qualidade, iriam depois servir outros patrões.

ANOS 80

efeitos da mudança

Os anos oitenta são na história do cinema português uma década reveladora. Anos de ouro, pelo volume de produções, pela novidade e diversidade nas formas e nos conteúdos, mas também por essas produções prefigurarem consequências das transformações ocorridas e do trabalho desenvolvido na década anterior, como resultado da Revolução dos Cravos.
A ficção, sujeita logo em 1980 a provas intensas, revela novos autores e novas tendências. Vindo do teatro, estreia-se no cinema Jorge Silva Melo com a sua Passagem ou A Meio Caminho. Cerromaior (filme), de Luís Filipe Rocha, expressão inovadora, seca e acutilante, do neo-realismo, objecto de consensos mas também de algum conservador despeito, obtém um Grande Prémio no Festival da Figueira da Foz e um Colón de Oro em Huelva. A Manhã Submersa (filme), de Lauro António, em que também se explora o rigor formal e a memória da repressão, obtém menções e prémios no estrangeiro. A Culpa, de António Vitorino de Almeida, sarcasmo, panfleto, espelho do sentimento nacional de culpa pela guerra colonial, satisfaz o público mas irrita a crítica (Colón de Oro, Huelva, 1981). Verde por Fora, Vermelho por Dentro de Ricardo Costa, filme insólito tanto pelo modo de produção (sem subsídios) como pelo seu jeito de caricatura surrealista (símbolos nacionais, personalidades delirantes em intrigas políticas), sujeita-se à flagelação crítica nacional mas faz-se notar com agrado em festivais internacionais. Estreado em 1981, (Oxalá), de António Pedro Vasconcelos – o primeiro filme que Paulo Branco produz –, explora também o retrato social, questionando a consciência de uma minoria : a do jovem intelectual refugiado em França para escapar à guerra colonial. Rui Simões (cineasta) questiona todo o país numa fase crítica, denunciando protagonismos, no documentário Bom Povo Português que, pela sua frontalidade política, suscita também controvérsia e será objecto de discriminação, como outros filmes incómodos, que teriam voz na imprensa e o seu público.

tradição e vanguardas

Os anos seguintes da década de oitenta caracterizam-se pelo prosseguimento de tendências como estas, pela intervenção de cineastas mais jovens e pela aposta feita por Paulo Branco e pelos agentes culturais em Manoel de Oliveira, que se torna cineasta oficial, filmando desde Amor de Perdição (1978) ao ritmo de cerca de um filme por ano.
Da gente nova, João Botelho, um dos primeiros frutos da escola oficial de cinema, ganha estatuto com a Conversa Acabada (1981), obtendo alguns prémios nacionais e internacionais. Nesse ano, Oliveira faz-se notar com Francisca e João César Monteiro com Silvestre (filme), que é selectionado para o Festival de Veneza e que obtém dois prémios noutros festivais internacionais. Com obras de invocação histórica e de registo teatral, terão um público atento. João Mário Grilo levará a sua segunda longa metragem, A Estrangeira (1982), ao Festival de Veneza - Prémio George Sadoul. José Álvaro Morais obtém o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno de 1987 (O Bobo).
Todo um conjunto significativo de autores de várias tendências, tanto na ficção como no documentário, terão presença relevante durante esta década : António Reis, Paulo Rocha, António de Macedo, Fernando Lopes, José Fonseca e Costa, Lauro António, Luís Filipe Rocha, Jorge Silva Melo, Ricardo Costa, este bastante activo no documentário.
Na ficção ressalta um facto pouco notado. Manoel de Oliveira, do velho cinema, homem ousado mas de bons costumes, desvalorizando a opção realista, crente de outra religião, instala-se na vanguarda bem a seu modo, juntando na mise-en-scène arte do cinema e arte do teatro: criando modelos, representações picantemente oníricas de certas almas típicas da nação. O outro, António de Macedo, instala-se nela com um irrealismo radical. Explora labirintos. Representam as suas figuras esotéricas algum mistério por explicar. Ao contário de Oliveira, Macedo, menos poeta, mais seco na transgressão, mais hermético, mais empenhado no enigma, não interpreta: dá a interpretar. O agora avô terrível do cinema novo, seria o outsider, o enfant terrible que sempre foi.

arte e indústria

A década de oitenta assiste a sucessos de bilheteira. Um dos grandes é O Lugar do Morto (1984) de António Pedro Vasconcelos. A obra de José Fonseca e Costa (Kilas, o Mau da Fita - 1980 e A Mulher do Próximo - 1988) será marcante por essa mesma razão e, mais ainda, por ilustrar a opinião de certos cineastas que defendem a necessidade em Portugal de um cinema de grande público, visto por eles como indispensável para a simples existência ou sobrevivência de uma indústria nacional de cinema.
Em termos de reconhecimento internacional, são no entanto as obras de António Reis, de Manoel de Oliveira, de João César Monteiro, de José Álvaro Morais ou mesmo de João Botelho que mais se farão notar. Em 1985, é atribuido no Festival de Veneza um "Leão de Ouro" ex-aequo a Federico Fellini, a John Huston e a Manoel de Oliveira, com a exibição do seu longo filme O Sapato de Cetim. No ano de 1988 são produzidas em Portugal cerca de quinze longas-metragens, número excepcional na produção média. Em 1989 é a vez de João César Monteiro receber no mesmo festival o "Leão de Prata" (Recordações da Casa Amarela).
O modo de fazer cinema (fazer filmes de autor ou filmes que se vergam aos imperativos comerciais), radicalizando-se em posições extremas, tornar-se-ia, em vários aspectos, objecto de polémica cerrada, por vezes surda e discriminatória, proveniente de antigas querelas e da cisão, mais recente, entre representantes do Novo Cinema, dando origem a duas associações rivais de realizadores. O problema, que prevalece, centra-se nos critérios de apoio financeiro à produção de filmes nacionais, particularmente dependentes dos apoios do Estado.
Um dos oriundos da escola oficial de cinema, Joaquim Leitão, não subestima o grande público e, com outros, terá êxito comercial. Entretanto, o produtor Paulo Branco, afirmando-se como defensor radical da opção artística, tem um papel determinante na divulgação em França de autores e filmes portugueses, ajudado pela circunstância de ser também produtor e distribuidor nesse país.
De assinalar que, num enquadramento político, em particular no enquadramento das políticas audiovisuais, os meados da década revelam mudanças significativas. No cinema, dois factos ressaltam. É o início do fim das cooperativas e de alguns produtores independentes por quebra de laços com a RTP e é, em contraponto, a comparticipação financeira das televisões em projectos de filmes portugueses. O documentário sai de cena, a ficção entra nas luzes da ribalta. Ambas as coisas sugerem que algo de importante mudou e que isso teria consequências. Os factores históricos dessa mudança, que se prolonga nos anos, são complexos e nem sempre se mostram compatíveis com a arte do cinema.

ANOS 90

os velhos e os novos caminhos

A partir da década de noventa, com o aparecimento de uma nova geração de cineastas, em grande parte antigos alunos do Conservatório Nacional (Escola Superior de Teatro e Cinema) – que teve como professores António Reis ou Seixas Santos, um dos seus promotores –, geração favorecida pelos critérios de apoio oficiais a primeiras obras, o cinema portugues renova-se e sofre novo impulso : Pedro Costa, Teresa Villaverde, João Canijo, Manuel Mozos, Fernando Vendrell, Joaquim Sapinho, Margarida Cardoso, vindos da escola de cinema e outros, como Cláudia Tomaz, vindos de outros cursos. Alguns dos mais velhos, raros, como Manoel de Oliveira (Vale Abraão - 1993) ou João César Monteiro, (A Comédia de Deus - 1995) filmam com regularidade.
No ano de 1995 inicia-se uma alternância entre a presença de autores afectos a uma e outra das tendências, acompanhados por alguns de visibilidade mais rara. Adão e Eva, (1995) de Joaquim Leitão, terá o público que ele quer, A Comédia de Deus, um dos filmes de expressão auto-biográfica de João César Monteiro e O Convento, ensaio filosófico de Manoel de Oliveira, terão os seus espectadores, por cá e lá por fora. Dos novos, Joaquim Sapinho, aflorando questões típicas da juventude, tenta o seu jovem público (Corte de Cabelo). Luís Filipe Rocha, persistente no seu particular classicismo, tenta toda a gente (Sinais de Fogo (filme) e Adeus Pai - 1996). No ano de 1996, José Fonseca e Costa aposta na biografia de Álvaro Cunhal para tocar o coração dos portugueses (Cinco Dias, Cinco Noites). Party (Oliveira, com seus improvisos) e Le Bassin de John Wayne (Monteiro, com os seus meneios) preferem tocar o dos franceses. Mas fora alguns verdadeiros devotos, poucos mais corações no mundo se deixam tocar.
Em 1997 Joaquim Leitão, em terra hostil, esforça-se na Tentação, mas há pouca gente disposta a deixar-se tentar. A essa mesma conclusão chega Leonel Vieira que, por idênticas paragens, tenta impressionar com sombrias lembranças (A Sombra dos Abutres), aventurando-se por lugares onde por desgraça poucos portugueses ficam. Lugares semelhantes àqueles a que Oliveira nos leva, numa peculiar Viagem ao Princípio do Mundo: mostrando, desta vez de um modo bem cinematográfico, que nele não é muito habitual, que por tais paragens o bom povo há muito se confronta com o esquecimento. Dos novos, Fernando Vendrell, explorando outras paragens inóspitas onde o futebol é rei, também não consegue : Fintar o Destino (1997). Mantendo o seu público e o seu mérito, o cinema português continua a viajar pouco lá por fora.

alternâncias

No ano de 1998, prolífero em filmes, rodeado de ex-combatentes da guerra colonial que diante do perigo não hesitam em descarregar a metralhadora, Joaquim Leitão faz também a sua viagem a um lugar inquietante, a que chama Inferno (filme). Do grupo de cineastas mais exigentes, apostados na arte pura, Manoel de Oliveira volta ao passado mostrando, com considerações filosóficas, que já nesses tempos a melhor solução seria o suicídio (Inquietude). Paulo Rocha, que menos que Oliveira não pretende, bem tenta mostrar que na velha aldeia da Barquinha, no Douro, as coisas não são diferentes (O Rio de Ouro). Teresa Villaverde, da nova geração, que viaja por mais perto, nos ambientes marginais da cidade de Lisboa, acaba também por demonstrar que por ali não há lugar sem exílio nem gente sem dilacerado rosto: Os Mutantes. João Mário Grilo, «baseado em factos reais, ocorridos na Penitenciária de Lisboa», em ambientes similares, prefere ver coisas como essas bem Longe da Vista. Perante as duras realidades da vida, João Canijo não hesita, escolhe o Alentejo e, recorrendo a um assassino a soldo, mete-se em Sapatos Pretos.
No último ano do século, bem ciente do estado das coisas, agravado por problemas pessoais e quando tudo parece perdido, João César Monteiro volta a meter em cena o alter-ego. Nas tintas para o melodrama, a verdade não é verdadeira, não há nada como a festa. A pobre Joana está a afogar-se. O valente João atira-se à água, salva a inocente e, levando-a nos seus braços, mete-a no convento, e são As Bodas de Deus (1999).
Entretanto a Zona J (1998) de Leonel Vieira é sucesso de bilheteira ao abordar do lado de fora o mesmo tema que Pedro Costa aborda do lado de dentro: os bairros marginais de uma cidade como Lisboa. Depois de uma ficção pura sobre o tema, (Ossos - 1997), escolhe a docuficção para tornar o retrato mais fiel, introduzindo no documentário elementos de ficção, usando uma simples câmara digital mini-DV e uma antropologia mais crua. Pedro Costa fará o seu percurso na tradição dos anos sessenta e setenta, de António Campos a Ricardo Costa, que usavam câmaras ligeiras de 16 mm. Cultivará um cinema em que o olhar se fixa, se cristaliza numa lenta, pesada e exaustiva observação de personagens do universo suburbano – um bairro periférico de Lisboa – seguindo-as, no estar ali ou na mudança, esforçando-se por dar a ver que também nessa humilhada gente há fulgores de nobreza. Nessa fusão de géneros, entre real e ficcional, é cru o seu teatro da miséria. Serge Treffaut, em quem o olho antropológico se ajusta ao tempo, seguirá idêntico percurso, numa perspectiva mais crítica. Filmará em ambientes urbanos com outras etnias, cuja nobreza também não perderá de vista.
Com frequentes toques de melodrama, como nos velhos tempos, na ficção domina a tendência realista, sempre tocada pelas influências da ‘’Nouvelle Vague’’. Além de certas incursões em meios rurais, sobretudo do norte de Portugal, abundam nela retratos de sectores marginais da cidade de Lisboa.

SÉCULO XXI

irreverências, arrojos e inconsequências

O século tem entrada animada. O início é marcado por uma derradeira irreverência do João César Monteiro, que andava mal parado nos seus devaneios auto-biográficos, e pouco tempo depois pelo seu desaparecimento (Fevereiro de 2003). A Branca de Neve, que ele deixou sem imagem, ficaria a negro. Pelos caminhos de um negro imaginário, mas com imagem bem ao vivo, prosseguirá o cinema português – sempre muito fechado em casa, agora um bocadinho mais visto por fora – na tradição realista e no retrato social. Retrato de pessoas e de um país, no caso de José Álvaro Morais, de um país «que agarra as pessoas com tanta força ao mesmo tempo que lhes dá vontade de fugir» (Quaresma (filme), 2003) - Festival de Cannes, Quinzena dos Realizadores, 2003).
João Pedro Rodrigues, cineasta radical, cruel no que exibe (O Fantasma - 2000), provoca à sua maneira ao abordar a obsessão e o fetiche na homossexualidade masculina e o seu filme, em certos dos nossos meios e nalgumas salas lá de fora, torna-se objecto de culto. Influenciada por Pedro Costa, a jovem Cláudia Tomaz, explorando também o tema da marginalidade e da toxicodependência, «um filme só pele e osso», obtém com a sua primeira longa-metragem Noites (2000) o Prémio Melhor Filme da Semana da Crítica no Festival de Veneza. O começo do século é visto em film noir.
Na passagem de 2001 para 2002, a obra de Manoel de Oliveira é tema para uma retrospectiva no Centre Pompidou, em Paris, com a presença do realizador, de ilustres personalidades portuguesas e com particular pompa e circunstância, só quebradas pelo sempre juvenil atrevimento do velho Jean Rouch, cujos amores errantes lhe deixaram na alma imagens fortes de Portugal. Nessa errância, por amor também, dois anos volvidos, soltará ele de vez a sua alma em África, terra de cinema, que O Gotejar da Luz (Fernando Vendrell - 2001) levaria ao Festival de Berlim (2002). No caso do documentário casado com a ficção – tipo de aventura pela qual o irrequieto antropólogo gaulês se pelava –, Pedro Costa leva as coisas ao extremo (No Quarto da Vanda (2000), Festival de Cannes 2002). Em 2003, Ricardo Costa, arriscando por paragens menos urbanas, marca presença com uma docuficção nos Novos Territórios do Festival de Veneza (Brumas - 2001/3).
O grande público é agora mais escasso para o cinema português, não é o mesmo de há vinte anos. O sonho de distribuir filmes no Brasil esvai-se mal se percebe que por lá não seriam melhor as coisas. A Selva (2002) de Leonel Vieira não responde às expectativas. O Delfim de Fernando Lopes fica abaixo do esperado. Afoita-se outra vez Leonel Vieira e dá Um Tiro no Escuro (2005). O Fascínio (2003) de José Fonseca e Costa fica aquém do previsto. O mesmo sucederá em idênticas tentativas. Tipificando pelo lado do teatro como faz Oliveira, João Botelho tenta a comédia em estilo de revista. Rodeada de personagens típicas da nação, A Mulher que Acreditava ser Presidente dos Estados Unidos – 2003) também lá não chega.
São de 2003 duas viagens à infância, algures como a de Aniki-Bobó: Brumas, docuficção autobiográfica de Ricardo Costa e André Valente, ficção intimista de Catarina Ruivo, uma das excepções com boa presença em França. Desse mesmo ano é Odete, (João Pedro Rodrigues), uma jovem que também se debate com fantasmas. É de João César Monteiro, nesse ano também, a ilustração do seu fantomático ir sem regresso: Vai Vem. Marco Martins, cineasta gráfico, que vê as coisas mais pelo olho que pelo coração, noutro caso ainda em que a infância é fantasma (Alice - 2005), faz-se representar com uma primeira obra no Festival de Cannes e terá o seu público. Em pólo oposto, propenso ao folhetim e sempre teatral na paródia, ilustrando bem a seu modo a força do destino, João Botelho volta a ser visto no Festival de Veneza: O Fatalista (2005).

utopias e apologias

Entretanto, no ano em que, com Stanley Donen, Manoel de Oliveira é homenageado com um "Leão de Ouro" pela sua carreira (o segundo), também no Festival de Veneza (2004), onde foi exibido Um Filme Falado, por cá, mas noutro registo, dá que falar O Crime do Padre Amaro, de Carlos Coelho da Silva, que se apresenta em estilo de telenovela, bem temperada, versão cinematográfica de uma série da SIC. É filme pensado para entrar na guerra das audiências e nas salas de cinemas obtém grandes resultados. Sucede algo de parecido com o Filme da Treta (2006), um filme de José Sacramento, no humor rasteiro de Luís de Carvalho e Castro, montagem de sketches de uma série de televisão da SIC adaptada a cinema.
O ano de 2006 caracteriza-se pela manifestação de duas divergências entre convergências de colegas de escola. Fernando Lopes (98 Octanas) e José Fonseca e Costa (Viúva Rica Solteira não Fica) continuam convergindo no desejo de melhores audiências com temas apelativos. No retrato de grupos marginais – imigrantes russas votadas ao sub-mundo ou desenraisados de alma mestiça vindos de um bairro de lata – convergem Teresa Villaverde (Transe - 2006) e Pedro Costa (Juventude em Marcha) - 2006, ambos presentes no Festival de Cannes, o último dos quais terá forte apoio institucional (Instituto Camões, ICA, Cinemateca Portuguesa) visando a promoção do seu autor na América do Norte e Inglaterra.
Agora, mais com apoios oficiais que televisivos, prossegue a tradição experimental no documentário outro grupo de jovens, alguns deles já com algum currículo : Pedro Sena Nunes, Catarina Alves Costa, Catarina Mourão, Sílvia Firmino, Miguel Gonçalves Mendes, Luísa Homem, Susana Sousa Dias, Cristina Ferreira Gomes e outros. A árvore deixaria seus frutos.
Na área do filme experimental, utilizando o vídeo, artes plásticas e as tecnologias digitais como ferramenta, Edgar Pêra, vídeo-cineasta polémico, é um dos autores mais originais das novas gerações.

perspectivas

Despercebidamente misturam-se géneros e linguagens, o vídeo e a televisão entram em força no reino do cinema. A meio de uma década em crise vê-se o cinema português numa encruzilhada. Tem diante de si questões delicadas que ainda ninguém sabe lá muito bem como resolver.
A questão complica-se com o maniqueísmo de alguns críticos de cinema, bem instalados na comunicação social, que preferem esse modo de ser e que, como historiadores, optam com frequência pela prática da omissão. O mesmo sucede com alguns comentadores que do mesmo modo elegem o princípio do «bom gosto» e do consenso táctico em desfavor da análise informativa, de uma avaliação menos parcial e menos subjectiva, da critica sem elogio ou desprezo, dos filmes que vão saindo. O «público», que já se habituou a excumunhões e santificações no átrio da igreja, desconfia e não acredita em nada disso, preferindo, com o pouco que tem, deixar-se levar pelo alarde brejeiro que fazem as televisões que lhes condicionam o gosto.
A crise que o cinema português vai vivendo desde a passada década perante a concorrência do pequeno écran é de ordem conjuntural e cultural. É possível que, em coisas dessa ordem, com a explosão do digital, da aproximação do pequeno ao grande écran, com a banda-larga, com o progresso dos novos suportes áudio-visuais, alguma coisa mude.

Consulta

  1. ↑ O Cinema Mudo Português em Amor de Perdição (base de dados)
  2. ↑ 75 Anos em 2007 (Cronologia da Tobis na pág. da Tobis)
  3. ↑ Dos filmes sonoros ao cine-clubismo (1945-1962)
  4. ↑ Paulo Cunha Modernidade e tradição no discurso do novo cinema português (1955-74)
  5. ↑ Paulo Filipe Monteiro; Uma margem no centro: a arte e o poder do «novo cinema» in Luís Reis Torgal (coord.), O Cinema sob o Olhar de Salazar, Lisboa, Círculo de Leitores, 2000, pp. 306-338
  6. ↑ 6,0 6,1 José Filipe Costa; A revolução de 74 pela imagem: entre o cinema e a televisão; 2001

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