Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 25 de julho de 2010

Caravaggio contra o tempo

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Ípsilon

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Público - 08.06.2010 - Sérgio Costa Andrade, em Roma, com Luís Miguel Queirós


Os santos deste mestre do barroco são da mesma carne dos pecadores e os seus anjos têm sexo - a assinalar o 4.º centenário da morte de Caravaggio, um mestre que ajudou a fundar a pintura moderna, Roma está a expor a maior reunião jamais realizada dos seus quadros, nas Escuderias do Quirinal.
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Tem sido sempre um a corrida contra o tempo, e agora mais do que nunca, porque já só há mais uma semana para ver a exposição que está a confirmar-se como "o acontecimento artístico do ano" em Roma. 
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Trata-se da exposição comemorativa dos 400 anos da morte de Caravaggio (1571-1610), que está nas Escuderias do Quirinal, mesmo ao lado do palácio presidencial na capital italiana, só até ao próximo domingo.

Quando a visitámos, há pouco mais de uma semana, o cartão de jornalista poupou-nos a uma longa fila de pessoas aguardando a sua vez durante horas sob o sol quente do Mediterrâneo. Mas não evitou que, já dentro da galeria, tivéssemos que fazer também longos compassos de espera atrás das pequenas multidões que se detinham frente a cada uma das pouco mais de vinte obras do grande pintor nascido em Milão. As filas têm sido, aliás, uma constante desde que a exposição foi inaugurada ano dia 20 de Fevereiro, quando já se acumulavam 50 mil reservas para ver Caravaggio.

Mesmo que, pouco tempo antes, muitas obras do pintor tivessem sido também exibidas em Roma na exposição Caravaggio-Bacon, na Galeria Borghese (2 de Outubro de 2009 a 24 de Janeiro de 2010). O que é que este pintor que marcou a transição do maneirismo para o barroco tem de especial que atrai assim multidões? "É o pintor do diabo", comentava um visitante perante o impressivo quadro David com a Cabeça de Golias (1610), esse mesmo em que, dizem os especialistas, o próprio Caravaggio se auto-retratou no rosto do gigante decapitado pelo jovem rei que conquistou Jerusalém. Nele, David manifesta mais compaixão do que júbilo pela morte do inimigo, cuja expressão está paralisada num esgar de dor. A tela David com a Cabeça de Golias - que, juntamente com A Anunciação (1608), fecha o percurso da exposição no Quirinal, na segunda das duas alas que ela ocupa - foi pintada no último ano de vida do pintor, que nessa altura e desde 1606 andava fugido pelo Sul da península itálica (com passagens por Nápoles, Malta e Sicília), tentando escapar a uma condenação à morte por ter assassinado um jovem numa rixa com arma branca. As armas, que Caravaggio manejava tão bem como o pincel, eram o outro instrumento que melhor expressava a energia deste homemiconoclasta e um pouco rufia, que viveu depressa, morreu jovem (aos 38 anos), mas que não terá tido um cadáver bonito, já que foi vitimado pela malária numa praia da Toscana - as reais circunstâncias da sua morte estão ainda por apurar de forma fidedigna
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Michelangelo Merisi, que ficaria conhecido por Caravaggio por ter vivido a infância na localidade com o mesmo nome, na região de Milão, em 1571, iniciou-se na pintura em oficinas da sua terra e depois em Veneza. Mas seria a sua fixação em Roma, em 1592, que viria a confirmar a sua vocação e a abrir horizontes para a sua arte e carreira. Na cidade dos Papas, desenvolve a sua aptidão e o seu interesse pela ilustração de temas do cristianismo junto de mestres como Lorenzo, "o Siciliano" eAntiveduto Grammatica, este um pintor maneirista protobarroco que haveria de marcar o percurso do jovem artista. Três anos depois de chegar a Roma, Caravaggio conhece o cardeal Francesco Maria del Monte (1549-1627), figura eminente da aristocracia eclesiástica e política, que se torna no seu mecenas. É ao longo da década de 90 que pinta uma série de quadros em que avultam Jogadores de Cartas (1594), Os Músicos (1595), Cabeça de Medusa (1597) e Cesta de Frutas (1599) - este último abrindo, juntamente com Rapaz com Cesta de Frutas (1593), a exposição no Quirinal. 
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São obras que definem desde logo um novo estilo de utilização da cor, no jogo claro-escuro e numa inovadora utilização dramática da iluminação. "Caravaggio é um dos fundadores da pintura moderna", diz Vítor Serrão, especialista em História da Arte e professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em simultâneo com os trabalhos sobre esta temática secular, Caravaggio vai encenando também a mitologia cristã, dando expressão nova a inúmeras figuras e episódios do Velho e do Novo Testamento. A Anunciação, sucessivas representações de João Baptista, desde 1602 (quando o pinta ainda criança, corpo e sexo nus e expostos com um realismo até aí nunca ousado, até o representar na idade adulta e na sua decapitação a pedido de Salomé), e quadros como Judite e Holofernes, Adoração dos Pastores, Flagelação de Cristo, A Deposição e Conversão de Saulo (todos visíveis na exposição do Quirinal) são algumas das obras com que o pintor celebrou a iconografia católica.
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"Caravaggio acredita piamente nos valores cristãos", nota Vítor Serrão, mas realça o facto, absolutamente inovador para a época, de o fazer na linha do "cristianismo primitivo, mais ecuménico e mais democrático". Interessa-lhe mostrar "o drama humano" através de "gentevulgar" e, para isso, Caravaggio recorre à gente da rua e à margem da sociedade - bêbados, prostitutas, delinquentes e outros membros do bas-fond - para serem modelo dessas cenas religiosas. É uma pintura que faz "um aprofundamento radical do realismo", que assume a (sua)contemporaneidade e que contrasta com a pintura efabulativa italiana da época, acrescenta Vítor Serrão.
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Também Paulo Cunha e Silva, conselheiro cultural da Embaixada Portuguesa junto do Palácio do Quirinal, realça esta "marca carnal" na pintura de Caravaggio. E explica que foi essa característica que, de certo modo, justificou a associação da obra do pintor barroco com a do ritânico Francis Bacon (1909-1992), na exposição realizada no final do ano passado no Palácio Borghese. Caravaggio-Bacon sugere-nos "um confronto óbvio, desde logo por aquilo a que poderíamos chamar o império da carne que os dois dominam", mas também pela presença, na obra de ambos, daquilo a que o médico, professor e diplomata designa como "uma ontologia do vulgar". Paulo Cunha e Silva refere-se também ao recurso que tanto Caravaggio como o pintor britânico do século XX fazem a modelos da marginalidade social para essa "promoção da carne".
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"Este convívio com a marginalidade que os dois praticavam à saciedade levou-os a transformar o vulgar num novo ser, numa nova entidade", acrescenta o conselheiro cultural e ex-presidente do Instituto das Artes. E defende que, na exposição que antecedeu a do Quirinal, foi óbvio que Bacon "perdeu" no confronto com Caravaggio, no sentido em que este "cria um império positivo", ao passo que o britânico cria "um império negativo". "Para os dois, a carne é central, mas Caravaggio sacraliza-a e Bacon bestializa-a", explicita Paulo Cunha e Silva, não querendo, com isso, significar que o italiano seja melhor que o autor da série em torno do Papa Inocêncio X. Não pondo em causa a importância da exposição em exibição em Roma - que é a mais extensiva alguma vez realizada sobre a obra do pintor, que continua a ser alvo de muita discussão, nomeadamente no que diz respeito à autenticação dos seus quadros -, Paulo Cunha e Silva considera, contudo, que o melhor lugar para ver a obra de Caravaggio é nas igrejas. "Trata-se de um autor muito site specific", diz, referindo-se às múltiplas obras que o milanês pintou correspondendo a encomendas para lugares específicos. Este facto constitui, curiosamente, uma boa alternativa para quem não conseguir visitar, até ao próximo domingo, a exposição do 4.º centenário da morte de Caravaggio (que passa no dia 18 de Julho, e que está também a ser assinalado com outras exposições espalhadas por Itália, e inúmeras iniciativas de investigação sobre aspectos ainda obscuros da sua biografia e obra). É que a capital italiana continua a dispor de um "roteiro Caravaggio" invejável, por entre igrejas, palácios e museus.
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Algumas dessas obras estão actualmente na exposição do Quirinal (que reúne quadros vindos de instituições de todo o mundo, de Nova Iorque a Berlim, de Dublin a Florença, do Texas ao Vaticano). Mas quem não puder arranjar tempo (ou bilhete) para visitá-la, poderá, bem junto à Praça Navona no centro histórico de Roma, entrar na Basílica de Santo Agostinho e aí admirar, calmamente, a Madonna dos Peregrinos (ou do Loreto). Ou, mesmo ao lado, na Igreja de S. Luís dos Franceses, ver o tríptico com que Caravaggio decorou uma das capelas, entre 1599-1602, uma encomenda que lhe foi proporcionada pela intervenção do Cardeal Del Monte. A Vocação, Martírio e São Mateus e o Anjo são, juntamente com a Madonna, obras que expressam bem aquilo que é a quinta-essência da arte de Caravaggio: o realismo e a verdade com que impregnou os seus quadros (onde os anjos têm sexo). Na Madonna dos Peregrinos, o pormenor que nos surge em primeiro plano é o dos pés nus, sujos e gretados de um homem ajoelhado aos pés da Virgem com Jesus ao colo, também ela uma mulher do mundo real, e usando um manto vermelho - quando a cor da iconografia tradicional da representação da Virgem era o azul... E também a utilização das cores vivas e do claro-escuro - os feixes de luz como elemento de dramatização da cena, seja o Anjo a deitar a mão a São Mateus prostrado no chão, seja Cristo a fazer o chamamento do futuro Evangelista quando este se encontrava a jogar numa mesa de taberna...

Essa luz que fez Caravaggio vencer a sua corrida contra o tempo. 


Madonna de Loreto

De Wikipedia, a enciclopedia livre

Madonna de Loreto ou dos Peregrinos
(
Madonna dei Loreto ou dei Pellegrini)
Caravaggio, 1604
Pintura ao óleo - Barroco
260 cm × 150 cm
Sant'Agostino, Roma, Itália
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Madonna de Loreto é um quadro de Michelangelo Merisi dá Caravaggio, feito em 1604 por ordem de Ermete Cavalletti, que o desejava para sua capilla familiar na basílica de Sant'Agostino. A pintura é de um carácter votivo, afastado da natureza morrida própria de Caravaggio. A virgen tem uma pose muito pouco religiosa, pois o modelo era a prostituta conhecida como «Lena», comum nos quadros de Caravaggio. A obra chegou no tempo do Jubileo Contrarreformista de 1600, pelo que o pintor foi duramente criticado e até tachado de herege.
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== Bibliografía utilizada CARRASAT, Patricia: Maestros da pintura, Spes Editorial, S.L.2005. ISBN 84-8332-597-7

Referências em linha

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De Wikipedia, a enciclopedia livre

    Ficheiro:Michelangelo Caravaggio 062.jpg
    Dimensões desta vista prévia: 586 × 599 píxeles


    Menino com um cesto de frutas, h. 1593. Óleo sobre lienzo, 67 x 53 cm. Galería Borghese, Roma.

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    Ficheiro:Michelangelo Caravaggio 069.jpg
    Dimensões desta vista prévia: 394 × 600 píxeles
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    A morte da virgen. 1601 - 1606. Óleo sobre lienzo, 396 x 245 cm. Museu do Louvre, Paris.
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    Ficheiro:Amor Victorious.jpg
    Dimensões desta vista prévia: 439 × 600 píxeles
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    O amor vitorioso. 1602 - 1603. óleo sobre lienzo. 156 x 113 cm. Gemäldegalerie, Berlim. Caravaggio mostra a Cupido acima de todos os poderes terrenales: guerra, música, ciência, governo.
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    Ficheiro:Michelangelo Caravaggio 052.jpg
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    Ficheiro:Judith Beheading Holofernes by Caravaggio.jpg
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    Ficheiro:Caravaggio.emmaus.750pix.jpg
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    Os discípulos de Emaús, 1601. Óleo sobre teia, 139 x 195 cm. National Gallery de Londres.
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    quinta-feira, 3 de junho de 2010

    Rosa Coutinho (1926 - 2010)




    Rosa Coutinho ao lado de Vasco Gonçalves, também ele já falecido rui gaudêncio
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    Rosa Coutinho teve uma carreira política breve mas que ainda hoje suscita polémica

    Por Luís Miguel Queirós e Maria José Oliveira
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    .  Integrou a Junta de Salvação Nacional e o Conselho da Revolução. Foi uma das figuras do 25 de Abril de 1974. Mas a sua acção política foi sobretudo marcante e controversa em Angola
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    O 25 de Novembro

    A identificação de Rosa Coutinho com o sector gonçalvista do MFA não o impediu de assumir um papel pacificador no 25 de Novembro. "A Marinha praticamente evitou a guerra civil", diz o contra-almirante Martins Guerreiro, que conta ter ido com Rosa Coutinho à base naval do Alfeite, na noite do dia 24, para "impedir que gente mais exaltada tomasse uma atitude menos responsável".

    Na manhã de 25, dirigiram-se ambos a Belém para "manifestar todo o apoio ao Presidente da República [Costa Gomes]".

    Também a historiadora Maria Inácia Rezola atribui a Rosa Coutinho e a Guerreiro o mérito de terem evitado a insurreição dos fuzileiros, que poderia ter tido consequências dramáticas.

    Poucas figuras da política portuguesa do pós 25 de Abril suscitam ainda hoje tanta controvérsia como Rosa Coutinho. O "almirante vermelho", como lhe chamavam, morreu ontem, aos 84 anos, vítima de cancro, e as reacções ao seu falecimento mostram bem que os últimos 35 anos não bastaram para que se criasse consenso em torno do papel que desempenhou em Angola, onde foi alto-comissário nos meses que precederam a independência da ex-colónia.

    Mal foi conhecida a notícia da sua morte - o funeral sai amanhã, às 15h00, da Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, no Terreiro do Paço, para o cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado -, os sites dos jornais e a blogosfgera foram invadidos por comentários que o acusam de ter pactuado com o MPLA na perseguição e expulsão dos portugueses de Angola ou de ter negociado com os cubanos a intervenção militar no território. "Calúnias", disse ontem ao PÚBLICO Vasco Lourenço. "Os militares de Abril mais caluniados foram aqueles que se envolveram nos processos de descolonização", afirma o tenente-coronel na reserva, que não subscreve a tese de que Rosa Coutinho tenha privilegiado o MPLA em detrimento da UNITA e da FNLA, os outros dois movimentos angolanos de libertação.

    Mas a posição mais consensual entre os historiadores não parece ser esta. Maria Inácia Rezola, que entrevistou o almirante no decurso dos seus estudos sobre os militares no pós 25 de Abril, conta que o próprio Rosa Coutinho "não escondia que favorecera o MPLA". É o que pensa também o historiador Pedro Aires Oliveira, que vê em Rosa Coutinho "um homem identificado com as estruturas do MFA em Angola" e que soube "estar à altura das circunstâncias". Não duvida de que o almirante tenha apostado no MPLA, que "era o movimento mais ocidentalizado e com elites mais aportuguesadas", mas acha que o seu papel fundamental não foi tanto esse, mas o facto de ter conseguido consolidar, naquele movimento, a liderança de Agostinho Neto, num momento em que esta estava seriamente ameaçada por facções internas, como a "Revolta Activa" dos irmãos Pinto Andrade, ligada aos sectores intelectuais, ou a "Revolta do Leste", dirigida por Daniel Chipenda. "Mesmo a URSS", diz Pedro Oliveira, "estava muito hesitante entre apoiar Neto, o seu interlocutor histórico, ou Chipenda, que dera boas provas de capacidade de liderança". O objectivo do almirante, defende, foi "dar tempo ao MPLA para chegar aos acordos de Alvor com um só líder e um só interlocutor".

    Torturado no cativeiro

    Como figura pública, Rosa Coutinho praticamente não existia antes do 25 de Abril. É quando surge como um dos nomes da Junta de Salvação Nacional que o país fica a conhecê-lo. Nascido a 14 de Fevereiro de 1926, em Celorico da Beira, iniciou-se na vida militar aos 18 anos, ingressando na Marinha, tendo-se depois formado em engenharia hidrográfica. O seu primeiro contacto com Angola aconteceu ainda nos anos 40, tendo depois integrado, em 1959, a Missão Hidrográfica de Angola e de São Tomé e Príncipe, informa a investigadora Leonor Figueiredo, No início da guerra colonial, em 1961, foi preso pela FNLA e terá sido torturado durante o cativeiro. A sua libertação, alegadamente feita por agentes da PIDE, nunca foi devidamente esclarecida. Com o 25 de Abril, o prestígio que granjeara "juntos dos seus camaradas mais novos da Armada", diz Vasco Lourenço, resultou no convite para integrar a Junta de Salvação Nacional. Em Julho de 1974, no primeiro governo de Vasco Gonçalves, foi nomeado presidente da Junta Governativa de Angola. Raimundo Narciso, presidente do movimento Não Apaguem a Memória, refere que Rosa Coutinho "estava praticamente ao lado do MPLA, na ala militar dos "gonçalvistas"". "Não foi uma figura consensual", diz o socialista Almeida Santos, antigo ministro da Coordenação Interterritorial: "Defendeu sempre ideias muito próximas do PCP e foi em Angola que conquistou mais adversários".

    Rosa Coutinho conseguiu acordar um cessar-fogo com o MPLA, a UNITA e o FNLA, indispensável para as conversações sobre a independência. Ontem, Isaías Samakuva, presidente da UNITA, lembrou-o como alguém de "triste memória para Angola", e Ngola Kabango, da FNLA, disse que o almirante "influenciou negativamente o processo de descolonização, a favor do MPLA".

    O PCP foi ontem o único partido a reagir à notícia da morte de Rosa Coutinho, lamentando o desaparecimento de um "aliado" e de um "amigo", e enaltecendo a sua "postura de total fidelidade aos valores e aos ideais da Revolução de Abril". O "almirante vermelho" regressou a Portugal em Janeiro de 1975, na sequência da assinatura do Acordo de Alvor. Após o 11 de Março, foi convidado a integrar o Conselho da Revolução (CR). Apesar da sua actuação pacificadora no 25 de Novembro, foi afastado do CR e, pouco depois, passado à reserva. Como figura pública, eclipsou-se, mas terá desempenhado um relevante papel nas décadas seguintes como mediador de negócios entre Portugal e o regime de José Eduardo dos Santos. Numa coisa, os historiadores estão todos de acordo. Rosa Coutinho continua a ser uma figura muito pouco estudada
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    Arquivo CM

    Rosa Coutinho em 2004
    Almirante tinha 84 anos

    Rosa Coutinho vai ser cremado amanhã

    O almirante António Alva Rosa Coutinho morreu esta quarta-feira, aos 84 anos, de doença prolongada. O corpo de uma das figuras mais destacadas e polémicas do pós-25 de Abril já se encontra em câmara ardente na Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, em Lisboa, de onde partirá às 15h00 de quinta-feira para o Cemitério dos Olivais, onde será cremado uma hora mais tarde.
    • 02 Junho 2010 - Correio da Manhã
    Por:Paula Serra

    Oficial da Armada, passou grande parte da sua carreira naval a bordo - e, a partir de um certo momento, no comando - de navios hidrográficos. Nos anos 60, uma missão de patrulhamento e pesquisa no rio Zaire valeu-lhe a captura por guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e alguns meses de privação da liberdade. 
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    Aquando do 25 de Abril de 1974,  era capitão-de-fragata e foi um dos elementos da Armada designados para integrar a Junta de Salvação Nacional (JSN); data de então a sua promoção a vice-almirante. Nos primeiros meses da nova situação a sua actuação foi discreta; chegou a coordenar o Serviço de Extinção da PIDE-DGS e da Legião Portuguesa.
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     Em finais de Julho, após a demissão do último governador-geral de Angola, general Silvino Silvério Marques, Rosa Coutinho foi chamado a substituí-lo, na qualidade de presidente da Junta Governativa de Angola.
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    .Confirmado membro da JSN após os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974, ganhando a qualidade de alto-comissário em Angola a partir de Outubro, Rosa Coutinho permaneceu no território até à assinatura dos Acordos de Alvor (Janeiro de 1975), entre o Estado Português e os três movimentos de libertação - FNLA, Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). A sua actuação em Angola é normalmente vista como favorável ao movimento que ainda hoje detém o poder no país africano.
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    A sua actuação ao longo de 1975, num sentido próximo do Partido Comunista  (PCP), valeram-lhe o epíteto de "almirante vermelho". Nos primeiros meses do ano viu o seu nome ligado à preparação de "legislação revolucionária", num sentido de radicalização do processo político iniciado em Abril do ano anterior, o que se concretizou após os acontecimentos de 11 de Março. Após esta data ingressou no Conselho da Revolução (CR), então criado.
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    Se a sua imagem 'esquerdista' não deixou de se acentuar, saliente-se que aquando da tentativa de golpe de 25 de Novembro do ano em causa cumpriu plenamente as instruções do Presidente da República e Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), general Francisco Costa Gomes, no sentido de desmobilizar forças navais da Margem Sul, inicialmente favoráveis aos golpistas.
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    Afastado do CR no novo quadro pós-25 de Novembro, passado à reserva pouco depois, o almirante Rosa Coutinho não mais voltaria à ribalta político-militar.


    REACÇÕES
    'Almirante foi saneado injustamente da Armada'
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    Recordando o almirante António Alva Rosa Coutinho, falecido esta quarta-feira, aos 84 anos, o coronel Sousa e Castro, que o substituiu após o 25 de Novembro de 1975, na presidência do Serviço de Apoio ao Conselho de Revolução - órgão que geria todo o apoio logístico e outros dossiers - diz que "o almirante foi saneado muito injustamente da Armada, depois do 25 de Novembro, pelo então Chefe de Estado-Maior da Armada, almirante Souto Cruz". Segundo Sousa Castro, "o próprio conselho de disciplina da Armada votou unanimamente pelo não afastamento de Rosa Coutinho", acrescento que "na altura, nem o Conselho da Revolução (extinto em 1982), nem o Presidente da República (Ramalho Eanes), que acumulava as funções de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), poderiam ter feito alguma coisa par aimpedir o afastamento". Tratava-se, diz o capitão de Abril, de "uma decisão do chefe do ramo".
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    Sousa e Castro frisa que "tem sido muito injusta a ligação estabelecida entre o almirante Rosa Coutinho e sectores mais esquerdizantes e Partido Comunista, depois do 25 de Abril" e que "essa colagem se deve ao papel que ele teve em Angola e no processo dos Acordos de Alvor", que segundo este militar "está mal interpretado, devido a uma falsa percepção passada por antigos residentes nas colónias, particularmente, em Angola".
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    "O almirante deixou o SACR integro, e até para meu espanto na altura, quando assumi funções não encontrei nada que fosse, segundo os padrões da época, ilegal", revela este capitão de Abril.
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    Sousa e Castro recorda que António Rosa Coutinho mantinha inclusive "boas relações com o antigo embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, no período revolucionário, Frank Carlucci, com alguns empresários internacionais e até com jornalistas conotados com a direita, designadamente com Nuno Rocha director do jornal O Tempo" e que "não tinha qualquer ligação orgânica a nenhum partido". 
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    O general Loureiro dos Santos, que foi secretário do Conselho da Revolução entre Abril e Agosto de 1975, afirma sobre António Rosa Coutinho "conheci-o muito pouco, mas o que constatei é que se tratava de um homem muito determinado, sabia o que queria, agia de acordo com as suas deliberações". Loureiro dos Santos adianta que "ele defendia com veemência as suas ideias".


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    02-06-2010 17:21 - AngolaPress

    Portugal
    Morreu almirante Rosa Coutinho



      Lisboa, - O almirante Rosa Coutinho, um dos mais controversos militares do 25 de Abril, morreu, hoje, quarta-feira, aos 84 anos, vítima de cancro.

    O corpo de Rosa Coutinho está em câmara ardente na Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, realizando-se o funeral na quinta-feira, a partir das 15 horas.

    Na reserva desde Novembro de 1975, Rosa Coutinho notabilizou-se no pós-25 de Abril de 1974, tendo ficado conhecido como o "almirante vermelho" pela sua proximidade ideológica com o PCP.

    Após a revolução de 1974 integrou a Junta de Salvação Nacional e em Outubro de 1974 foi designado Alto Comissário em Angola até à assinatura do Acordo de Alvor  em janeiro de 1975.

    No período pós-revolucionário, coordenou o Serviço de Extinção da PIDE-DGS e da Legião Portuguesa.

    Na Marinha, Rosa Coutinho passou grande parte da sua carreira embarcado e capturado nos anos 1960 numa missão de patrulhamento e pesquisa no rio Zaire.

    No 25 de Abril de 1974, era capitão-de-fragata e foi um dos elementos da Armada designados para integrar a Junta de Salvação Nacional
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    Cremado no Cemitério dos Olivais
    Miguel A. Lopes

    Urna do almirante à saída da capela

    Duzentos aplaudem urna de Rosa Coutinho

    Cerca de 200 pessoas aplaudiram hoje a saída da urna com o corpo do almirante Rosa Coutinho da Capela de São Roque, nas instalações da Armada no Arsenal, para o Cemitério dos Olivais, em Lisboa.
    • 19h27 - Correio da Manhã
    Por:Lusa
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    Numa cerimónia discreta em que não foram feitos elogios fúnebres, não se realizou qualquer rito religioso, nem se prestaram honras militares, por pedido expresso do almirante, que morreu na quarta-feira vítima de cancro, explicaram à Lusa fontes militares e da família. 
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    O chefe do Estado-Maior da Armada, Melo Gomes, que na quarta-feira esteve presente na capela, fez-se hoje representar pelo almirante Oliveira Viegas.  
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    O cortejo fúnebre seguiu para o Cemitério dos Olivais, onde o corpo do militar, que esteve envolvido na revolução do 25 de Abril de 1974, seria  cremado.   
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    Hoje no pátio do Arsenal, entre cidadãos anónimos, amigos da família e do falecido militar, bem como antigos camaradas de armas, estavam presentes  o coronel Vasco Lourenço, um dos homens do 25 de Abril, e o ex-ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro.   
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    Rosa Coutinho com Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho
    Rosa Coutinho com Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho

    segunda-feira, 24 de maio de 2010

    Primeira edição da Peregrinação vendida em leilão por 15 mil euros


    NELSON GARRIDO 
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    Uma obra rara vendida anteontem no Porto  Por Luís Miguel Queirós.
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    A obra impressa por Pedro Craesbeeck em 1614 teve um preço base de 10 mil euros. Apesar de o leilão ter sido disputado, o valor final ficou abaixo das expectativas

    Um exemplar da primeira edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto foi vendida por 15 mil euros no leilão da biblioteca de Laureano Barros (1921-2008), que a Livraria Manuel Ferreira está a promover no Porto. A obra, impressa por Pedro Craesbeeck em 1614, provocou uma disputa renhida na sessão de anteontem à noite - o preço base era de 10 mil euros -, mas o valor atingido acabou por se revelar um pouco decepcionante, mesmo tendo em conta que o exemplar em leilão tinha algumas pequenas imperfeições e restauros.

    Ainda assim, foi a peça mais cara até agora vendida neste gigantesco leilão da biblioteca do matemático e bibliófilo Laureano Barros, que se iniciou em 2009 e cuja terceira e última parte terminará no próximo dia 29. No total, são mais de seis mil lotes, desde obras que valem sobretudo pelo conteúdo - Laureano Barros foi um grande leitor e mantinha relações de amizade com muitos dos mais importantes escritores portugueses da sua geração - até absolutas raridades que, em alguns casos, podem não aparecer no mercado durante décadas.

    Uma delas, a primeira edição dos Sonetos de Antero de Quental, foi licitada na sessão de ontem e atingiu 9400 euros, tendo acabado por propiciar o momento mais emocionante da noite, já que partira de um preço relativamente modesto: dois mil euros.

    Outras edições que ontem atingiram cotações elevadas foram a segunda edição da Peregrinação - o bibliófilo conseguira reunir as dez primeiras edições da obra - e um exemplar da edição original de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.

    Na primeira sessão desta útima parte do leilão, que decorreu na quinta-feira, a estrela tinha sido Fernando Pessoa. Os livros de poesia inglesa que publicou em vida - 35 Sonnets (1918), Antinous (1918) e English Poems (dois opúsculos editados em 1921) - renderam, respectivamente, 1900, 2200 e 2400 euros. Uma primeira edição da Mensagem chegou aos 2300, o Ultimatum de Álvaro de Campos foi comprado por 2000 euros, o panfleto Aviso por Causa da Moral, assinado pelo mesmo heterónimo, atingiu 1800, e a raríssima folha volante Sobre Um Manifesto de Estudantes, com a qual Pessoa saiu em defesa de Raul Leal, foi arrematada por 2200 euros.

    A estimativa de Herculano Ferreira, da Livraria Manuel Ferreira, é a de que, no total das sessões, este leilão possa "chegar ao meio milhão de euros".
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