Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Salvar o planeta - mais um negócio

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Olle Johansson





A generalidade da televisão portuguesa foi muito discreta ao anunciar a vitória eleitoral do presidente Evo Morales. É certo que essa discrição foi ajudada pelo justo relevo dado ao início da Conferência de Copenhaga, facto de primeiríssima importância no contexto internacional. Não obstante, compreende-se que a TV portuguesa, democrática e atlântica, não tenha grande simpatia por um homem que, para além de se assumir como sendo de esquerda, amigo de Fidel e de Chavez, ainda se atreveu a expulsar em 2008 o embaixador dos Estados Unidos, crime que agravou ao afirmar que a Bolívia vive melhor sem a presença daquele diplomata. Já acontecera que em Outubro passado, quando por iniciativa do presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Miguel d’Escoto, ao presidente boliviano foi atribuído o título de Herói Mundial da Mãe Terra, as três operadoras portuguesas de televisão se haviam dispensado de nos dar a notícia. Cheias de razão ou, pelo menos, cheias das suas razões. Agora, naturalmente, não tiveram outro remédio: a TV pode ajeitar a realidade mas nem sempre pode propriamente suprimi-la. Mas a omissão daquele facto e a redução ao mínimo da inevitável notícia da reeleição de Morales podem talvez levar-nos a imaginar como andamos, enquanto telespectadores, mal servidos em matéria de informações acerca do que se vai passando na América Latina. Entende-se: as coisas por lá vão mal encaminhadas para os grandes negócios norte-americanos e, parafraseando um antigo secretário de Estado norte-americano, bem se pode dizer que o que vai mal para as grandes empresas USA vai mal para os Estados Unidos, o grande país que é como pai e mãe de alguma actividade informativa em Portugal. Assim, e para não irmos mais longe, podemos interpretar o desafecto relativamente a Evo Morales e outros como efeito de um louvável sentimento de fidelidade filial por parte do telejornalismo lusitano. E ficarmos por aqui.

Como Luís XV

Entretanto, a passada segunda-feira teve por tónica da informação televisiva, como já acima foi referido, a abertura da Cimeira de Copenhaga. E é claro que com toda a justificação: como se sabe, a degradação ambiental atingiu dimensões tais que pode estar em questão a sobrevivência da própria espécie humana, designadamente se as coisas continuarem como até aqui. Sendo assim, é obviamente urgente travar o sinistro deslize para a autodestruição, encontrar os caminhos para essa travagem, parar a gigantesca máquina que nos trouxe a todos para a beira deste abismo. Tratando-se, porém, de encontrar uma solução, não será decerto inadequado que se procure identificar as mais pesadas causas do desastre em curso e, não sei porquê, parece duvidoso que esse trabalho seja feito em Copenhaga ou que, pelo menos, dele se notem ali sequer vestígios. Contudo, há factos, há indícios, há evidências. Sabe-se que a gula negocista não hesita em sacrificar os mais óbvios princípios da preservação ambiental quando se trata de arrecadar lucros. Sabe-se que a dinâmica interna do capitalismo na sua fase imperialista obriga à conquista de novas fontes de matérias-primas e de novos mercados por todo o planeta, e isto a qualquer preço. Sabe-se que a exploração dos países pobres pelos poderes fácticos do capitalismo implica não só a pauperização das vítimas mas também a infracção das mais elementares regras de preservação ambiental. De tudo isto, que ainda está longe de ser tudo, emerge uma espécie de retrato-robot do criminoso: o retrato-robot do capitalismo. De onde uma conclusão dificilmente evitável: é preciso detê-lo para que nos salvemos todos e sobretudo os que vierem depois de nós. De facto, o esmagador domínio capitalista/imperialista sobre os quatro cantos do planeta tem vindo a agir como que seguindo a velha regra de Luís XV (de quem, de resto, a generalidade dos dirigentes capitalistas saberá apenas que foi um europeu da «velha Europa», e isto se a tanto lhes chegar a sabedoria): «-Depois de mim, o dilúvio!». Pois bem: o dilúvio aí está, bem à vista. E a tarefa que a Cimeira de Copenhaga tem pela frente é a de sustá-lo, o que parece passar por, com excelentes modos, convencer os criminosos a deixarem de o ser embora com o sacrifício de alguns dólares. Para que se salve o planeta. Regressa à memória a antiga fábula do escorpião e da rã, já nestas colunas uma vez recordada e por isso não convocada de novo, agora. Mas lá que ela existe há séculos, isso é verdade. E é sábia
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Nº 1880
10.Dezembro.2009
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17 de Novembro de 2009


Copenhaga

O primeiro-ministro dinamarquês, Lars Loekke Rasmussen, admitiu hoje é pouco provável que se consiga um tratado que substitua o Protocolo de Quiotoque na cimeira de Copenhaga, em Dezembro.
Entretanto Estados Unidos e China (os maiores poluidores) anunciaram que vão trabalhar para que em Copenhaga seja alcançado um acordo com efeito imediato sobre alterações climáticas.
Sem comentários. Vale o cartoon.
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Cartoon de Paresh Nath para o The Khaleej Times
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scente.blogspot.com/2009/11/copenhaga.html 

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quinta-feira, 30 de julho de 2009

A Corrida Espacial EUA-URSS


A Lua e a Terra

Completaram-se quarenta anos sobre a data em que Neil Armstrong pisou o solo lunar, e sobretudo a RTP assinalou o aniversário transmitindo programas a condizer e pontuais entrevistas acerca do assunto. Convém registar que esses momentos comemorativos ocorreram sobretudo na «2», presumivelmente porque o primeiro desembarque de um homem na Lua terá um vago aroma de coisa cultural e, como se sabe, a RTP parece entender que os telespectadores da «1» não devem ser incomodados com assuntos que de perto ou de longe lhes sobrecarreguem as meninges, bastando-lhes o enlevo com que olham o «Dá-me Música», os concursos e programinhas equiparáveis. Uma coisa é certa: a chegada à Lua de um ser humano mais ou menos como qualquer de nós foi um acontecimento cuja dimensão épica teve a ver com todos os homens e mulheres que há uns bons milénios vêm habitando o nosso planeta, e não foi por acaso, mas sim por lucidez e bom senso, que as palavras proferidas então por Armstrong falaram da Humanidade e não dos Estados Unidos da América. De facto, como é sabido, há muitos séculos, nem ninguém sabe dizer ao certo quantos, que os homens sonhavam aportar ao disco por vezes redondo, noutras vezes nem por isso, que lhes iluminava as noites e as quimeras líricas tocadas por um pouco de nostalgia. Um homem na Lua era verdadeiramente um sinal de vitória da espécie humana sobre o que durante tanto tempo parecera impossível mas sempre gerara sonhos e projectos. Surgia em 1969 como razão para festa e surge hoje como motivo para celebrar.
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Naquele tempo
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Infelizmente, porém, a realidade não é representável por uma longuíssima fila de homens e mulheres de mãos dadas em torno do planeta, e é claro que já não o era em 1969, longe disso. Pelo contrário, era o tempo da chamada Guerra Fria, muitas vezes citada sem que se diga ter sido praticamente declarada em Fulton, no Missouri, em Março de 46, isto é, pouco depois do fim da guerra muito quente, escaldante, que foi a Segunda Guerra Mundial, por um senhor chamado Winston Churchill. Segundo ele, descera sobre a Europa uma «cortina de ferro» que pelos vistos o incomodava muito sem que fosse exactamente esclarecida a razão do incómodo, embora se pudesse inferir que a tal «cortina», como aliás a própria designação sugeria, impediria os do Ocidente de marchar para Leste, quer fisicamente quer no plano político-ideológico. Não parece, contudo, que alguém do lado de cá da «cortina» tivesse vontade de iniciar qualquer marcha nessa direcção: Hitler tentara-o pouco tempo antes e dera-se muito mal. O que se pretenderia, isso sim, era caminho aberto para a propaganda anticomunista e para a promoção publicitária do capitalismo, a livre entrada de pessoal ocidental habilitado com diversas capacidades interessantes e secretas. Era, enfim, acabar com o péssimo exemplo que era a URSS aos olhos de muitos milhões em todo o mundo. Já os partidos comunistas haviam saído da guerra enormemente reforçados na França, na Itália, noutros lugares, o que alarmava. Convém dizer que a tal «cortina», mesmo sendo alegadamente «de ferro» não impediu as sementeiras que resultaram nos casos de Budapeste em 57 e de Praga em 68. Quem queira supor que o Ocidente capitalista não teve nada a ver com esses dois dramáticos momentos tem de esquecer o que muitas séries televisivas norte-americanas nos ensinaram, «a brincar», sobre a actividade dos serviços secretos USA no Leste europeu.
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«Jogada obrigada»
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Mas a necessidade de extirpar o mau exemplo soviético encontrou outros e porventura mais eficazes caminhos: os que deveriam levar à ruína financeira e económica da URSS mediante uma corrida aos armamentos que atingiria custos fabulosos de todo desaconselhados para um Estado em grande parte reduzido a escombros pela invasão nazi. Os Estados Unidos, cujo território atravessara intacto a guerra e cuja economia se dera muito bem com o conflito, estavam em óptimas condições para impor à União Soviética, como «jogada obrigatória» a que ela não poderia furtar-se, uma competição armamentista que incluía a mobilização bélica do espaço extraterrestre. Infelizmente, a epopeia humana consubstanciada pela chegada de um homem à Lua está contaminada por uma realidade melancolizante: a corrida para a Lua foi parte integrante da corrida para o domínio do Espaço que foi um capítulo da Guerra Fria. Nem por isso deixou de ser epopeia, nem por isso deixou de ser humana. Mas é mais bonito contemplarmos as verdades inteiras, tal como é mais lindo olharmos a Lua Cheia.
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in Avante 2009.07.23
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Goya, de súbito, actual



Goya, de súbito, actual

Gostava de frequentar mais a «2:», o canal que se presume ser culturalizante, acho mesmo que tenho obrigação de o fazer, mas a verdade é que as circunstâncias não me ajudam. Por um lado, acontece que não gosto de frequentar lugares de solidão, e a baixíssima afluência de espectadores àquele canal (sondagem de audiência dixit) faz-me sentir tão isolado como se estivesse sozinho num enorme salão fechado ao público.
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Por outro lado, a amálgama aparentemente anárquica e desarrumada que é a programação da «2:» não me parece estimular a fixação de um público, e pelo menos quanto a mim não funciona como forma de atracção. De qualquer modo, como apesar de tudo o dever obriga, lá vou passando os olhos por lá no decurso das inúmeras viagens em zapping que vou fazendo vezes sem conta, dia após dia, na quase sempre frustrada esperança de deparar com qualquer coisa que me mereça o tempo e a atenção. Por sinal, agora que mudou a direcção do canal (embora lamente a partida de Carlos Vargas, que com razão ou sem ela sempre creditei por algumas das boas coisas da «2:»), renovou-se-me a esperança sempre obstinada, e por isso mesmo um poucochinho pateta, de que as coisas melhorem por lá. Mas o que até agora me tem acontecido é um sólido fastio perante a perspectiva de me tirar de outros cuidados e de passar por aquele sítio ermo em busca de momentos interessantes. Fastio que apesar de tudo tenho vindo a vencer, como se depreenderá do que acima ficou escrito. E foi precisamente num desses momentos em que o sentimento do dever e, quem sabe?, talvez também o instinto secular da descoberta através dos mares tenebrosos, me levou a passar uma vez mais pela «2:», ou talvez previamente pela programação de rigor sempre duvidoso que a imprensa diária publica, que aportei a uma rubrica relativamente obscura que decerto raros visitam, ou porventura nenhuns, intitulada «A vida íntima das obras-primas». O título tem, aliás, qualquer coisa de aliciante, mas não sei se não pretende jogar, embora com excelentes e culturais intenções, com a apetência generalizada que o telepúblico dos nossos dias tem por outras intimidades escassamente culturais. A ser assim, é mais uma situação em que os fins justificarão os meios. E bom seria que a mesma regra nunca fosse aplicada noutras situações, eticamente indefensáveis.

A similitude

A série é uma produção da BBC que, pelos vistos, ainda não abandonou inteiramente a obsoleta convicção de que a TV deve servir para mais qualquer coisa que para despejar-nos em casa concursos e notícias de desgraça. Naquela vez, a obra-prima abordada pelo programa era «Os Fuzilamentos do 2 de Maio», de Goya, uma espécie de «Guernica» com cerca de um século de antecipação, pelo menos no sentido de que é também uma indignada homenagem às vítimas da brutalidade da guerra. Porém, diversamente do que acontece em «Guernica», as vítimas que Goya fixou eram resistentes a um invasor, ou pelo menos como resistentes aprisionados estavam a ser abatidos pelo pelotão de fuzilamento. E eu fiquei-me a rever no ecrã a imagem do quadro já bem conhecido. Olhei os soldados executores, bem defendidos do clima pelos casacões espessos, os gorros de pele, os botins sólidos. Olhei os que iam cair sob as balas ou já tinham sido executados, de roupas leves, com excepção do hábito de frade que pelos vistos se teria «metido em política», isto é, teria cumprido o dever fraterno de estar do lado do seu povo. E, naturalmente, olhei sobretudo a figura central do quadro: aquele homem visivelmente de extracção modesta, de braços abertos a exporem às balas o peito que a camisa aberta mal cobria, iluminado por uma espécie de luar intenso vindo não se sabe de onde. Olhei-o, demorei o olhar naquelas feições que se diria grosseiras, e de súbito senti que aquelas bem poderiam ser as feições de um árabe que estivesse hoje a defrontar um pelotão de execução que não seria decerto do exército francês de Napoleão. É que a semelhança não estava apenas no rosto, estaria também no facto de aquele homem de feições toscas e derradeiro gesto corajoso estar ali por ter querido defender a sua terra contra a presença de estrangeiros invasores. E, então, aquela paisagem já não seria a de algures em Espanha mas de um outro lugar; aquela torre que se via ao fundo já não era a de uma igreja cristã mas a de uma mesquita. Reconheço, é claro, que nos breves segundos que durou esta minha espécie de miragem a partir do quadro de Goya houve muito, quase tudo, de devaneio. Mas o importante era outra coisa: era a fragrante similitude essencial. Era o inesperado, mas justificado efeito, de uma produção da BBC acerca de um quadro oitocentista.
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Avante
Nº 1680
09.Fevereiro.2006
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domingo, 6 de janeiro de 2008

Um lugar em Alcântara


Reportagem na SIC. O local, talvez devesse dizer-se que o cenário de um pungente drama permanente que não é de ficção, que infelizmente é bem do quotidiano real, é o balneário público do bairro de Alcântara, em Lisboa.
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Como se sabe, Alcântara tem a justa tradição de bairro operário, isto é, de bairro cuja população dominante não é constituída por gente que se habituou a viver explorando o trabalho alheio, bem pelo contrário. Não sei até que ponto os tempos mais recentes terão alterado este perfil, mas o certo é que o que nos foi mostrado por esta reportagem coincide com a vertente mais triste dessa tradição.
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Por aquele balneário e perante os olhares já habituados mas não endurecidos dos dois funcionários que ali trabalham, desfilam dia após dia homens e mulheres que sobrevivem despojados de tudo ou de quase tudo. Velhos na sua maioria, envelhecidos muitos deles, mas também gente ainda numa maturidade robusta e até jovens. Estes últimos são os há muito desempregados e a eles se refere o funcionário do balneário quando diz, com a amarga sabedoria que a sua experiência profissional lhe dá, que em certas circunstâncias «os que não sabem roubar caiem na miséria».
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Mas é claro que a observação também é válida, e de que maneira!, para os mais velhos. O facto é que vastíssimas camadas da população portuguesa são hoje flageladas pela efectiva desumanidade das políticas sociais, ou da ausência delas, decididas por sucessivas governações que escolheram ficar do lado oposto ao dos mais desamparados.
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Em suposta substituição dos deveres de solidariedade activa que cabem ao Estado prega-se a prática da velha caridadezinha, tão do agrado dos que têm o bastante ou, mais frequentemente, dos que têm tudo ou quase tudo e ainda lhes sobeja muito. Diz-se então, num requinte de hipocrisia, que é preciso dar lugar a iniciativas dessa espécie de fantasma de imprecisos contornos que é comummente designada por «sociedade civil».
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Não terá sido por acaso, e tem mesmo um significado esclarecedor, que o mais importante semanário português tenha designado como «figura nacional do ano de 2007» a presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares e dirigente do Banco Alimentar contra a Fome em Lisboa, Isabel Jonet. Estão fora de dúvida as virtudes e méritos da senhora, mas seria esperável que neste limiar já avançado do século XXI português a tarefa de «dar de comer a quem tem fome», obra de caridade secularmente recomendada pelo cristão, não constituísse uma área de actividade de tão destacado protagonismo.

Presépio

Porém, como a reportagem da SIC mostrou, as fomes que diariamente passam no balneário público de Alcântara não são apenas de natureza alimentar embora o sejam também. É que falta de roupa que permita uma defesa eficaz contra o frio (vestuário, cobertores), a marginalização social que condena os velhos ao deserto afectivo que é a solidão, a espera da morte em habitações degradadas contudo cheias de memórias que são afinal os sinais agridoces de uma vida inteira, correspondem a diversas formas de fome.
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E não se diga que apesar de tudo não se morre dessas penúrias, porque na verdade por elas se vai também esvaindo a vida numa espécie de hemorragia lenta. Por isso, o balneário da freguesia de Alcântara é muito mais que o lugar onde carenciados vão tratar do corpo, é porto de fugaz abrigo e ponto de dolorosa observação social que justifica não apenas a consternação mas também e sobretudo o alarme.
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A isso mesmo foram decerto sensíveis os autores da reportagem, os jornalistas Miriam Alves e Filipe Ferreira (escapou-me, infelizmente, o responsável pelo comentário musical a sublinhar com perfeita adequação tudo quanto na reportagem se via e ouvia, mais aquilo que facilmente se adivinhava).
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Na verdade, esta reportagem não apenas correspondeu às mais nobres tarefas que esperam o jornalismo, que são as de abordar o que de mais significativo e urgente ocorre na sociedade onde se inscreve, mas também correspondeu a um «espírito de Natal» que devia ser imperativo mas de facto se tornou raro. Não será arrojo excessivo dizer que aquele balneário surge, em tempos de Natal, como uma espécie de presépio. Não onde nasça um Jesus menino, o que é costume festejar, mas sim onde um invisível Jesus é todos os dias crucificado.
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in Avante 2008.01.03
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ADENDA
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007
Balneário de Alcântara

Esta notícia demonstra uma das várias maneiras que existem para ajudar os sem-abrigo.

Jornal Global
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
"Balneário público de Alcântara dá banhos gratuitos e apoio social"
Texto de Cristina Fernandes Ferreira e Ana Correia.

Trata-se de um balneário construído nos anos 30 que pertence à Câmara de Lisboa e está a cargo da Junta de Freguesia de Alcântara.

Este balneário permite aos sem-abrigo e aos idosos tomar banho diariamente, ter roupa lavada e companhia.

Esta iniciativa também conta com o apoio de donativos anónimos e dos utentes do balneário que proporcionam melhores condições de higiene aos utilizadores desta instalação.

Texto escrito por: Ana Espírito Santo e Sara Inês Antunes

in

http://c_pandora.blogs.sapo.pt/4674.html



quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Guerra Colonial - Preâmbulo na RTP


* Correia da Fonseca

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Durante anos, o jornalista Joaquim Furtado trabalhou numa longa série acerca da Guerra Colonial que a Radiotelevisão Portuguesa começou a transmitir na passada terça-feira e se prolongará por dezoito semanas. Quarenta e seis anos depois da sua eclosão, trinta e dois após o seu termo, bem se pode dizer que era tempo; mas é preciso acrescentar que o longo silêncio lançado ao longo de tanto tempo sobre os anos finais do colonialismo português em África não foi casual nem inocente: denuncia a presença hegemónica, pelo menos desde finais de 75, de sectores de algum modo ligados ao colonialismo e ao seu espírito nos efectivos comandos dos media portugueses, com óbvio destaque para a televisão. Ora, aconteceu que um pouco como preâmbulo à transmissão da série, o «Prós e Contras» que Fátima Campos Ferreira gere há não sei quantos anos dedicou a esse assunto a emissão da passada segunda-feira. O programa, coitado, começou mal logo pelo título: na esteira de uma discutível hesitação de Joaquim Furtado quanto ao título da própria série, coibiu-se de chamar à Guerra Colonial àquilo que ela foi, colonial. Assim se pouparam as sensibilidades colonialistas que, como depois se viu, estavam fartamente representadas no teatro/estúdio Armando Cortês, e se proporcionou uma controvérsia de surpreendente obsolescência sobre o carácter da guerra. E depois continuou mal, ou pior que isso, nas primeiras imagens transmitidas: as terríveis e conhecidos fotos dos massacres cometidos a 16 de Março de 61 pela UPA de Holden Roberto, o homem dos americanos, identificando-as com o início da rebelião, de facto começada a 4 de Fevereiro com o ataque às prisões de Luanda por gente do MPLA. Como se percebe, aquele «Prós e Contras» estava mesmo mal encaminhado, e não parece que só por acaso. Nos primeiros minutos pareceu que ele podia ser salvo pelas intervenções do coronel Matos Gomes, e nesse período chegou mesmo a surgir o dado mais interessante em toda a noite: a acusação, sustentada por mais de um testemunho, de que Salazar teria sido avisado com alguma antecedência do ataque que a UPA desencadearia e que só não tomou qualquer providência de defesa por motivos «estratégicos» de política interna. A ser assim, é mais um grave crime a acrescentar ao extenso e pesado cadastro do ditador. Registe-se que Jaime Nogueira Pinto, devoto de Salazar e ali presente em destacado lugar, nada objectou quanto ao que acerca deste ponto foi dito, o que será significativo.

Espoliados, quais?

Além de Nogueira Pinto estavam no teatro abundantes saudosos do colonialismo que tiveram oportunidade de exprimir o seu acendrado patriotismo. Homens dos movimentos de libertação africanos é que estavam poucos, dois por junto. De entre os nostálgicos do passado colonial destacou-se pelo verbo incandescente e pelo disparate um senhor tenente-coronel, Ferreira de seu apelido, que sustentou iradamente que a ocupação colonial portuguesa remontaria aos finais do século XV, o que é violentar a História mais do que a elementar probidade permite. Mas também por lá estiveram e debitaram as suas razões os porta-vozes da saudade civil, ditos «os espoliados» (em tempos designados por «retornados» ou «devolvidos», esta segunda qualificação parecendo em certa medida esclarecedora). É claro que têm eles todo o direito a ser compreendidos, tanto mais que, como disse Lucas Martins, que veio de Angola, por lá «vivia-se bem». Também se disse que «Portugal vivia do que vinha de Angola e de Moçambique», afirmação que, a ser verdade, constituiu um depoimento comprometedor acerca da generosidade da acção civilizadora de Portugal em África. Porém, o mais importante é, sem dúvida, que quando se fala de «espoliados» a propósito da presença portuguesa em África é elementar dever, por lucidez e por obrigação ética, falar das populações africanas, essas sim, espoliadas de tudo, a começar pelo direito à vida, durante séculos. Ora, isso nem de longe aconteceu ao longo deste «Prós e Contras», e não sei se essa omissão não deve ser considerada intelectualmente criminosa; sei, isso sim, que despojou o programa de credibilidade e de respeitabilidade. Fico a fazer votos para que, embora referida apenas ao tempo de guerra, a série de Joaquim Furtado não incorra em défice equiparável. E quero acrescentar que tenho quanto a essa equidade indispensável uma expectativa optimista.
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in Avante - Nº 1768 - 18.Outubro.2007
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Gravura - Goya - Desastres da Guerra
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Para ver a série completa das gravuras de Goya ver - > Goya -Los desastres de la guerra

sábado, 6 de outubro de 2007

Os lobos não faltaram


* Correia da Fonseca
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A televisão permitiu-me, permitiu-nos, ouvir Ruy de Carvalho ler, no Panteão Nacional e em plena cerimónia da trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro, umas páginas de «O Malhadinhas». Apesar da voz esplêndida de Ruy de Carvalho e da sua indiscutível capacidade de leitura, por mim teria preferido um outro texto onde a beleza da prosa de Aquilino se revelasse melhor e a oralidade regional não implicasse o risco de confundir o auditor. Talvez as páginas iniciais de «A Casa Grande de Romarigães», por exemplo. Suponho, porém, que a escolha de «O Malhadinhas» correspondeu também à ideia muito generalizada de que aquela é a mais conhecida obra de Aquilino (embora tenha surgido como um conto apenas de «Estrada de Santiago», em 1922, desse livro tendo sido retirado e ampliado mais tarde, em 46, um pouco a contragosto do autor). Por mim, se convidado a indicar qual a obra de Aquilino mais conhecida neste pardacento tempo em que «Aquilino já não é lido», como agora se ouviu dizer na TV por mais de uma vez, indicaria «Quando os Lobos Uivam», onde aliás muitos e significativos textos como que aguardavam a voz do Ruy de Carvalho. Não foi essa a escolha, tenho pena, não é grave, mas, tendo mau feitio, sinto que me fica a mordiscar uma suspeita decerto injusta: a de que a preterição do livro pelo qual Aquilino foi arrastado para um tribunal fascista terá resultado da intenção de não lembrar esse momento no decurso de uma cerimónia desejada como de «união nacional». Contudo, como se sabe, «Quando os Lobos Uivam» até surgiu há relativamente pouco tempo aos olhos dos portugueses sob a forma de uma série televisiva de excelente qualidade. Sendo assim, intriga-me que se possa dizer que «O Malhadinhas» é mais conhecido. Enfim, pode ser. Porque, como repete agora um fatigante estribilho publicitário, «há coisas fantásticas, não há?».

O que está provado

É preciso registar que a RTP cumpriu desta vez o seu dever, fazendo uma larga cobertura da trasladação e das intervenções que homenagearam Aquilino (incluindo a intervenção musical com obras de Luís de Freitas Branco), recorrendo à útil e saborosa colaboração de Baptista-Bastos, fazendo umas entrevistazinhas não muito bem conduzidas e repetindo tudo isso noutros canais. Alguém terá lembrado à RTP os seus deveres de «serviço público». Entretanto, já terminara a cerimónia e as figuras presentes em dispersão, estava a reportagem então sediada ao ar livre, diante do portal da Igreja de Santa Engrácia, quando chegou aos microfones e também aos ouvidos dos presentes um distante clamor, qualquer coisa que chegou a lembrar uns uivos mas que eram apenas vaias lançadas por um grupo monárquico discordante da homenagem. Invocavam esses tais que Aquilino Ribeiro terá estado envolvido na conspiração de que resultou o regicídio, isto é, a morte do rei D. Carlos e do príncipe Luís Filipe no Terreiro do Paço quando regressavam de mais uma caçada em Vila Viçosa. De facto, é apenas uma acusação, nada está apurado. O que está apurado e provado, isso sim, é que desde o ano anterior, 1907, D. Carlos se situara numa posição de ilegalidade constitucional ao colocar o País sob uma ditadura gerida por João Franco. E também que grandes escândalos, com relevo para o chamado «escândalo dos adiantamentos à Casa Real», agravados por uma intensificação feroz da repressão policial, colocavam o rei na situação moral de réu. A 28 de Janeiro uma tentativa revolucionária malogrou-se em Lisboa. O País estava como que em guerra civil virtual. Rei e príncipe foram abatidos nesse contexto por dois homens que bem sabiam que também iriam morrer imediatamente, como veio a acontecer. Tudo isto é aqui sumariamente lembrado para sublinhar que, de qualquer modo, estar de acordo com os conspiradores não era estar de acordo com vulgares assassinos. Mas o caso serviu para que um punhado de obsoletos monárquicos tentasse dar nas vistas. Por isso se lhes ouviu as vaias que pareceram uivos. Era natural os lobos não faltarem à cerimónia.
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in Avante 2007.09.27