Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sem Augusto Boal, o que fazer do Teatro do Oprimido?


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Representantes de 25 países — da Áustria ao Sudão, dos Estados Unidos ao Nepal, da Suécia à Palestina — começaram a desembarcar no Rio para realizar um sonho do diretor de teatro Augusto Boal, morto em maio de leucemia. A partir desta terça-feira (21), até segunda-feira, o Rio será a sede da 1ª Conferência Internacional do Teatro do Oprimido, para discutir o futuro do método criado por Boal nos anos 60, durante a ditadura militar. A apresentação das peças é aberta ao público.

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Hoje existem 150 núcleos do Teatro do Oprimido em 55 países. Por esse trabalho, Boal chegou a ser indicado ao Nobel da Paz, em 2008. Não ganhou, mas, em março deste ano, foi nomeado Embaixador Mundial do Teatro pela Unesco. “Temos um movimento forte no mundo. Chegou a hora de discutir qual o futuro do Teatro do Oprimido”, acredita Helen Sarapeck, coordenadora geral do Centro do Teatro do Oprimido e discípula de Boal há 19 anos.

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O método se baseia na crença de que qualquer pessoa pode fazer teatro. Mais do que isso. Acredita na força do teatro para mudar a vida dos oprimidos. As peças usam problemas reais de um determinado grupo e estimulam a discussão pública de qualquer tema.

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No Brasil discute-se, por exemplo, a luta pela posse da terra. Em Moçambique, o combate à aids. Na Palestina, a violência de Israel nos territórios ocupados. Na Alemanha, a força dos grupos neonazistas. Na França, o preconceito contra os imigrantes. Na Índia, os abusos contra mulheres. “Não faltam oprimidos no mundo. Por isso mesmo nossa luta é grande”, acredita o sociólogo Geo Britto, que acompanhou Boal por 19 anos.

A metodologia é a técnica do Teatro Fórum. O grupo apresenta uma cena curta, de uns 15 minutos, e termina com a pergunta: o que o espectador faria se estivesse no lugar daquele personagem? “É ele quem dá a resposta. Por exemplo, uma peça em que a mulher apanha do marido. O que você faria no lugar dela? Cada espectador encena a solução proposta e os outros atores reagem. A gente trava um grande debate com a plateia de temas que muitas vezes são tabus”, explica Helen.

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O encontro que ocupa dois teatros da Caixa Cultural, no centro do Rio, é, antes de tudo, uma homenagem ao criador do método. Boal, carioca do subúrbio da Penha, filho de um padeiro e de uma dona de casa, morreu desfrutando de mais prestígio no exterior do que no Brasil. “Na Inglaterra as escolas públicas ensinam o método nas aulas de teatro. Em São Francisco e em Nova York é comemorado o Dia do Teatro do Oprimido. A cada dois anos é realizado um festival na Áustria e na Escandinávia”, enumera Geo Britto.

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“No Brasil, conseguimos crescer — mas ainda estamos longe do que podemos”, diz Helen. Sem Boal, tudo fica mais difícil. “Ficamos mais tristes sem ele aqui. Mas vamos preenchidos das coisas que ele deixou para a gente. Não são apenas os livros, os textos, o método, mas um legado de cidadania, de fraternidade, de acreditar que o outro é seu irmão. Aprendemos tudo isso com ele.”

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Uma das definições mais precisas do método criado por Augusto Boal veio dos Estados Unidos. O autor é Richard Schechner, da New York University. “Boal conseguiu fazer aquilo com que Bertolt Brecht (diretor alemão) apenas sonhou e escreveu: um teatro alegre e instrutivo. Uma forma de terapia social.”

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Da Redação, com informações do O Estado de S. Paulo

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in Vermelho - 21 DE JULHO DE 2009 - 19h18
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

A última entrevista de Augusto Boal, o ativista teatral


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A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo. Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte. Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos. Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Ao que me consta, foi a última longa entrevista concedida por ele.

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por Ana Paula Sousa
para o Terra Magazine



ATIVISTA TEATRAL

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Foi no Thèatre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.

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O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?

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Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.

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Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

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Boal: Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.

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Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.

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Na prática, isso significa o que?

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Boal: Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.

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O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.

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As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.

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O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.

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Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

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Boal: O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.

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Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.

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O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

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Boal: Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.

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O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.

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Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

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Boal: Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.

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O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.

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Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.

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Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

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Boal: Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.

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A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.

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Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?

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Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

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Boal: Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.

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Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.

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A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.

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O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

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Boal: Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.

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Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.

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Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.

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No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.

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Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.

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Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.

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Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

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Boal: Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.

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Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.

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Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.

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O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?

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Boal: Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.

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A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.

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Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

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Boal: Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.

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Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.

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Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.

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Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.

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Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

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in Vermelho . 3 DE MAIO DE 2009 - 19h24

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Augusto Boal - Vida e obra

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Augusto Boal
Augusto Boal
Boal recebe o Crossborder Award for Peace and Democracy no Abbey Theatre. Dublin, 2008.
Nome completo Augusto Pinto Boal
Nascimento 16 de Março de 1931
Rio de Janeiro, RJ
Falecimento 2 de Maio de 2009 (78 anos)
Rio de Janeiro, RJ
Nacionalidade Bandeira do Brasil brasileira
Ocupação ensaísta, dramaturgo, diretor e teórico de teatro

Augusto Pinto Boal (Rio de Janeiro, 16 de março de 1931 - Rio de Janeiro, 2 de Maio de 2009) foi diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro, uma das grandes figuras do teatro contemporâneo internacional. Fundador do Teatro do Oprimido, que alia o teatro à ação social, suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, notadamente nas três últimas décadas do século XX, sendo largamente empregadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política mas também nas áreas de educação, saúde mental e no sistema prisional.


Nas palavras de Boal:


«O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'. [1]»


O dramaturgo é conhecido não só por sua participação no Teatro de Arena da cidade de São Paulo (1956 a 1970), mas sobretudo por suas teses do Teatro do oprimido, inspiradas nas propostas do educador Paulo Freire.


Tem uma obra escrita expressiva, traduzida em mais de vinte línguas, e suas concepções são estudados nas principais escolas de teatro do mundo. O livro Teatro do oprimido e outras poéticas políticas trata de um sistema de exercícios ("monólogos corporais"), jogos (diálogos corporais) e técnicas de teatro-imagem, que, segundo o autor, podem ser utilizadas não só por atores mas por todas as pessoas.


O Teatro do oprimido tem centros de difusão nos Estados Unidos, na França e no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, Santo André e Londrina.

Índice


Família e estudos

Augusto Boal nasceu no subúrbio da Penha, Rio de Janeiro.[2] Filho do padeiro português José Augusto Boal e da dona de casa Albertina Pinto, desde os nove anos dirigia peças familiares, com seus três irmãos. Aos 18 anos vai estudar Engenharia Química na antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, e paralelamente escrevia textos teatrais.


Na década de 1950 enquanto realizava estudos em nível de Ph.D em Engenharia Química, na Columbia University, em Nova York,[3], estuda dramaturgia na School of Dramatics Arts, também na Columbia, com John Gassner, professor de Tennessee Williams e Arthur Miller. Na mesma época, assistia às montagens do Actor’s Studio.


Teatro de Arena


De volta ao Brasil, em 1956, passa a integrar o Teatro de Arena de São Paulo, a convite de Sábato Magaldi e José Renato. O Arena tornou-se uma das mais importantes companhias de teatro brasileiras, até o seu fechamento, no fim da década de 1960.


Sua primeira direção é Ratos e Homens, de John Steinbeck, que lhe valeu o prêmio de revelação de direção da Associação Paulista de Críticos de Artes, em 1956. Seu primeiro texto encenado foi Marido Magro, Mulher Chata, uma comédia de costumes. Depois de uma série de insucessos comerciais e diante da perspectiva de fechamento do Arena, a companhia decide investir em textos de autores brasileiros. Superando as expectativas Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por José Renato, torna-se um grande sucesso, salvando o Arena da bancarrota. O grupo ressurge, provocando uma verdadeira revolução na cena brasileira, abrindo caminho para uma dramaturgia nacional.


Para prosseguir na investigação de um teatro voltado para a realidade do Brasil, Boal sugere a criação de um Seminário de Dramaturgia que se tornará o celeiro de vários novos dramaturgos. As produções, fruto desses encontros, vão compor o repertório da fase nacionalista do conjunto nos anos seguintes. Sob direção de Boal o Arena apresenta Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, 1959, segundo êxito nessa vertente.


Arena e Oficina


Depois de dirigir, em 1959 A Farsa da Esposa Perfeita, de Edy Lima, Boal apresenta Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa, em 1960, uma produção conjunta entre o Arena e o Teatro Oficina, através da qual orienta um curso de interpretação. Dirige também, para o Oficina A Engrenagem, adaptação dele e de José Celso Martinez Corrêa do texto de Jean-Paul Sartre.


Em 1961, Antônio Abujamra dirige um outro texto de Boal, José, do Parto à Sepultura, com os atores do Oficina, que estréia no Teatro de Arena. No mesmo ano, o espetáculo Revolução na América do Sul estréia, com direção de José Renato. Augusto Boal se torna um dos mais importantes dramaturgos do período.


Em 1962, o Arena inicia nova fase: a nacionalização dos clássicos. José Renato deixa a companhia e Boal torna-se líder absoluto e sócio do empreendimento. Encerra-se a leva de encenações dos textos produzidos no Seminário de Dramaturgia.


Em 1963 encena O Noviço, de Martins Pena e Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, no teatro Oficina, em colaboração com grandes artistas do teatro brasileiro, tais como o cenógrafo Flávio Império e Eugênio Kusnet, responsável pela preparação dos atores. Ainda desta fase são O Melhor Juiz, o Rei, de Lope de Vega e Tartufo, de Molière, produções de 1964.


Depois do golpe militar, Boal dirige no Rio de Janeiro o show Opinião, com Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão - depois substituída por Maria Bethânia). A iniciativa surge de um grupo de autores (Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa) ligados ao Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, posto na ilegalidade. O grupo pretendia criar um foco de resistência política através da arte. De fato evento é um sucesso e contagia diversos outros setores artísticos. O Opinião 65, exposição de artes plásticas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), surge na seqüência, aglutinando os artistas ligados aos movimentos de arte popular. Esse é o nascedouro do Grupo Opinião.


Musicais


A partir de Opinião, Boal inicia o ciclo de musicais no Arena, com Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo, apresentando Arena Conta Zumbi (1965), primeiro experimento com o "sistema curinga" onde oito atores se revezam, fazendo todas as personagens. O sucesso de público abre caminho para Arena Conta Bahia, com direção musical de Gilberto Gil e Caetano Veloso, e Maria Bethânia e Tom Zé no elenco.


Em seguida, é encenado Tempo de Guerra, no Oficina, com texto de Boal e Guarnieri, poemas de Brecht e vozes de Gil, Maria da Graça (Gal Costa), Tom Zé e Maria Bethânia, sob a direção de Boal.


No ano seguinte, é a vez do espetáculo Arena Conta Tiradentes, centrado em outro movimento histórico de luta nacional - a Inconfidência Mineira. Também uma aplicação do sistema curinga, a peça não propõe retratar os fatos de forma ortodoxa e cronológica, mas criar conexões com fatos, tipos e personagens que se referem constantemente ao período pré e pós-1964.


A Primeira Feira Paulista de Opinião, concebida e encenada por Boal no Teatro Ruth Escobar, é uma reunião de textos curtos de vários autores - um depoimento teatral sobre o Brasil de 1968. Estão presentes textos de Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge Andrade, Plínio Marcos e do próprio Boal. O diretor apresenta o espetáculo na íntegra, ignorando os mais de 70 cortes estabelecidos pela censura, incitando a desobediência civil e lutando arduamente pela permanência da peça em cartaz, depois de sua proibição.


Exílio


Com a decretação do Ato Institucional nº 5, em fins de 1968, o Arena viaja para fora do país, excursionando, entre 1969 e 1970 pelos Estados Unidos, México, Peru e Argentina. Boal escreve e dirige Arena Conta Bolivar. Em seu retorno, com uma equipe de jovens recém-saídos de um curso no Arena, cria o Teatro Jornal - 1ª Edição, experiência que aproveita técnicas do agitprop e do Living Newspaper, grupo norte-americano dos anos 1930 que trabalhava com dramatizações a partir de notícias de jornal.


A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Brecht, é a última incursão de Boal no sistema curinga, que entretanto não acrescenta grandes novidades na linguagem do grupo.


Em 1971, Boal é preso e torturado. Na seqüência, decide deixar o país, com destino à Argentina, terra de sua esposa, a psicanalista Cecília Boal. Lá permanece por cinco anos e desenvolve o Teatro Invisível. Naquele mesmo ano, Torquemada, um texto seu sobre a Inquisição, é encenado em Buenos Aires.


Em 1973, vai para o Peru, onde aplica suas técnicas num programa de alfabetização integral e começa a fazer o Teatro Fórum. Em 1974, seu texto Tio Patinhas e a Pílula é encenado em Nova York.


No Equador, desenvolve, com populações indígenas, o Teatro Imagem. Esse período é representado por Boal em seu texto Murro em Ponta de Faca.


Muda-se para Portugal, onde permanecerá por dois anos. Ali, com o grupo A Barraca, realiza a montagem A Barraca Conta Tiradentes, 1977. Lá também escreve Mulheres de Atenas, uma adaptação de Lisístrata, de Aristófanes, com músicas de Chico Buarque.


Finalmente, a partir de 1978 estabelece-se em Paris, onde cria um centro para pesquisa e difusão do teatro do oprimido, o Ceditade (Centre d'étude et de diffusion des techniques actives d'expression). Lá, com ajuda de sua esposa desenvolve um teatro mais interiorizado e subjetivo, o Arco-íris do desejo (Método Boal de Teatro e Terapia).


Enquanto isso, em São Paulo (1978) Paulo José dirige, para a companhia de Othon Bastos, Murro em Ponta de Faca, texto em que Boal enfoca a vida dos exilados políticos.


Boal visita o Brasil em 1979, para ministrar um curso no Rio de Janeiro, retornando, no ano seguinte, juntamente com seu grupo francês, para apresentar o Teatro do Oprimido, já consagrado em muitos países.


Em 1981, promove o I Festival Internacional de Teatro do Oprimido. Volta ao Brasil definitivamente em 1986, instalando-se no Rio, onde inicia o plano piloto da Fábrica de Teatro Popular, que tinha como principal objetivo tornar acessível a qualquer cidadão a linguagem teatral e cria o Centro do Teatro do Oprimido.


Homenagem


Uma das canções de Chico Buarque é uma carta em forma de música - uma carta musicada que ele fez em homenagem a Boal, que vivia no exílio em Lisboa, quando o Brasil estava sob a ditadura militar. A canção Meu Caro Amigo, dirigida a ele, foi gravada originalmente no disco Meus Caros Amigos 1976.


Teatro popular


Boal preconizava que o teatro deve ser um auxiliar das transformações sociais e formar lideranças nas comunidades rurais e nos subúrbios. Para isto organizou uma sucessão de exercícios simples, porém capazes de oferecer o desenvolvimento de uma boa técnica teatral amadora, auxiliando a formação do ator de teatro.


Nobel


Augusto Boal foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2008, em virtude de seu trabalho com o Teatro do Oprimido.


Em março de 2009, foi nomeado pela Unesco embaixador mundial do teatro.


Morte

Este artigo ou seção é sobre um evento atual.
A informação apresentada pode mudar rapidamente. segunda-feira, 4 de maio de 2009

Augusto Boal morreu por volta das 2h40' do dia 2 de maio de 2009, aos 78 anos, no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, por insuficiência respiratória. Boal sofria de leucemia.


Sobre a importância de Boal para o Teatro


Suas idéias, adotadas em diversas iniciativas em todo o mundo, renderam-lhe um reconhecimento que pode ser expresso nos seguintes comentários, que figuram no seu livro Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (ISBN 85-2000-0265-X):

  • "Boal conseguiu fazer aquilo com que Brecht apenas sonhou e escreveu: um teatro alegre e instrutivo. Uma forma de terapia social. Mais do que qualquer outro homem de teatro vivo, Boal está tendo um enorme impacto mundial" - Richard Schechner, diretor de The Drama Review.
  • "Augusto Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawski." - The Guardian.


Prêmios


  • 1962 : Prêmio PADRE VENTURA, melhor diretor - São Paulo
  • 1963 – Premio SACY, melhor diretor, São Paulo
  • 1965 – Premio SACY, São Paulo, Brésil
  • 1959-1965 – Vários prêmios de Associações de Críticos de Teatro do Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e São Paulo
  • 1965 - Prêmio MOLIÈRE pelo espetáculo A Mandrágora de Machiavel - Brasil
  • 1967 - Prêmio MOLIÈRE pela criação do "Sistema Curinga" - Brasil
  • 1971 -OBIE AWARD para o melhor espetáculo off - Broadway. LATIN AMERICAN FAIR OF OPINION, EUA
  • 1981 - OFFICIER DES ARTS ET DES LETTRES – Ministère de la Culture, França
  • 1981 – Prémio OLLANTAY, de Creación y Investigación Teatral, CELCIT, Venezuela
  • 1994 - Prêmio CULTURAL AWARD da cidade de Gävle, Suécia
  • 1994 - Medalha PABLO PICASSO da UNESCO
  • 1995 - OUTSTANDING CULTURAL CONTRIBUTION - Academy of the Arts - Queensland University of Technology, Austrália
  • 1995 - PRIX CULTURAL - Institut Für Jugendarbeit - Gauting, Baviera
  • 1995 - THE BEST SPECIAL PRESENTATION - Manchester News – UK
  • 1996 – Doctor Honoris Causa in Humane Letters, University of Nebraska, EUA
    • TRADITA INNOVARE, INNOVATA TRADERE, University of Göteborg, Suécia
  • 1997 - LIFETIME ACHIEVEMENT AWARD, American Theatre Association in Higher Education, ATHE, EUA
    • - PRIX DU MÉRITE, Ministère de la Culture do Egito
  • 1998 – PREMI D´HONOR, Institutet de Teatre, Barcelona, Espanha
    • – PREMIO DE HONOR, Instituto de Teatro, Ciudad de Puebla, México
  • 1999 - Honra ao mérito. União e Olho Vivo. Brasil.
  • 2000 – Proclamation of the City of Bowling Green, Ohio. EUA
    • Doctor Honoris Causa in Fine Arts, Worcester State College, EUA
    • – Montgomery Fellow, Dartmouth College, Hanover, EUA
  • 2001 – Nominated (for July, 2001) DOCTOR HONORIS CAUSA in Literature, University of London, Queen Mary, UK
  • International Award for Contribution of Development of Drama Education „Grozdanin kikot“.
  • 2002 – Baluarte do Samba, homenagem da Escola de Samba Acadêmicos da Barra da Tijuca
  • 2005 – Comendador Governo Federal. Brasil.[4]
  • 2008 - Crossborder Award for Peace and Democracy.Irlanda[5]


Livros publicados



Em português


  • Arena conta Tiradentes. São Paulo: Sagarana,1967.
  • Crônicas de Nuestra América. São Paulo: Codecri, 1973.
  • Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. São Paulo: Hucitec, 1975.
  • Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1975.
  • Jane Spitfire. Rio de Janeiro: Codecri,1977.
  • Murro em Ponta de Faca. São Paulo: Hucitec, 1978.
  • Milagre no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
  • Stop: ces’t magique. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
  • Teatro de Augusto Boal. vol.1. São Paulo: Hucitec,1986.
  • Teatro de Augusto Boal. vol.2. São Paulo: Hucitec,1986.
  • O Corsário do Rei. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986.
  • O arco-íris do desejo: método Boal de teatro e terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.
  • O Suicida com Medo da Morte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992
  • Teatro legislativo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
  • Aqui Ninguém é Burro! Rio de Janeiro: Revan, 1996
  • Jogos para atores e não-atores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
  • Hamlet e o filho do padeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira – 2000
  • O teatro como arte marcial. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.

Em espanhol

  • Categorias de Teatro Popular. Buenos Aires: Ediciones Cepe,1972.

Em francês

  • Théâtre de l’opprimé. Éditions La Découverte, 1996.
  • Jeux pour acteurs et non-acteurs. Éditions François Maspero, 1978.
  • Pratique du théâtre de l’opprimé. Centre d’étude et de diffusion des techniques actives d’expression, 1983.
  • Stop ! c’est magique. Éditions Hachette, 1980.
  • Méthode Boal de théâtre et de thérapie. Éditions Ramsay, 1990.
  • L’Arc-en-ciel du désir. Éditions La Découverte, 2002.


Em inglês

  • Theatre of the Oppressed. Londres: Pluto Press,1979.
  • Games for Actors and Non-Actors. London: Routledge, 1992.
  • The Rainbow of Desire. London: Routledge, 1995.
  • Legislative Theatre: Using Performance to Make Politics. London: Routledge, 1998.
  • Hamlet and the Baker's Son: My Life in Theatre and Politics. London: Routledge, 2001.
  • The Aesthetics of the Oppressed. London: Routledge, 2006.


Referências


Ligações externas


Sobre o Teatro do Oprimido

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Quotes


  • "Oppression is a relationship in which there is only monologue. Not dialogue."
  • "While some people make theater, we all are theater."
  • "Theatre for the people, by the people"

References



External links

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domingo, 3 de maio de 2009

A última entrevista de Augusto Boal, o ativista teatral




A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo. Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte. Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos. Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Ao que me consta, foi a última longa entrevista concedida por ele.

por Ana Paula Sousa
para o Terra Magazine



ATIVISTA TEATRAL

Foi no Thèatre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.


O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?


Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.


Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

Boal: Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.


Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.


Na prática, isso significa o que?

Boal: Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.


O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.


As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.


O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.


Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

Boal: O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.


Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.


O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

Boal: Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.


O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.


Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

Boal: Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.


O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.


Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.


Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

Boal: Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.


A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.


Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?


Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

Boal: Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.


Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.


A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.


O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

Boal: Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.


Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.


Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.


No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.


Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.


Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.


Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

Boal: Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.


Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.


Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.


O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?


Boal: Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.


A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.


Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

Boal: Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.


Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.


Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.


Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.


Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

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in Vermelho - 3 DE MAIO DE 2009 - 19h24

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