Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

porcalhões e gaiteiros

antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]
porcalhões e gaiteiros
27.5.06


[um deslinque por deslize todos os temos. Aproveita-se a ocasião para repor aqui uma porcalhada com dupla dedicatória-
Aos nossos
porquinhos de estimação e ao gaiteiro (salvo seja) do Luís Rei ,a quem há três anos foi oferecido o bácoro e a sanfona].

Por tradição ancestral a gaita-de-foles sempre foi associada à provocação sexual. O tema populariza-se na Idade Média na literatura e na iconografia jocosa.


O termo "gaiteirice" prende-se com estes costumes e vemo-lo aplicado à luxúria desbocada dos loucos, dos velhos e das velhas afoitos a críticas e penitenciais da Igreja, por força da insistência no gozo.


De um modo mais descomprometido, os tocadores de gaita-de-foles fazem parte das festas do riso saudável e desbragado das patuscadas populares, acompanhadas de bebida e muita outra diversão.


Gil Vicente e Camões referem-no a propósito dos tempos soturnos trazidos pela Inquisição. A "apagada e vil tristeza" que já aparecera noTriunfo do Inverno vicentino:


Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro
E gaita em cada palheiro;
E de vinte anos a cá
Não há hi gaita nem gaiteiro,
A cada porta hum terreiro,
Cada aldeia dez folias,
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
hé nosso tamborileiro.
Só em Barcarena havia
tambor em cada moinho,
E no mais triste ratinho
S'enxergava uma alegria
 (Gil Vicente, Triunfo do Inverno).

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Amores e calores fora de época parece que sempre atacaram em todas as épocas. Gil Vicente não os poupou nas suas sátiras:


Moça "Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?
Velho "Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d'agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!
Moça "Oh miolo de coelho mal assado! (...)

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A badalhoquice da velha era ainda mais caricata, estando na base da inversão da Tempo e da Ordem nas festas do solstício de Verão, em que o tema da Serração da Velha se inscreve.


Velho " Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas!
Gil Vicente,O Velho da Horta

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No Triunfo do Inverno, tragicomédia concebida como uma assoada e festa de Maio*, a velha Brásia Caiada, faz um percurso pela serra, suportando as intempéries invernais, porque deseja casar-
com um mancebo solteiro
filho de priol d’Aveiro
e eu sua namorada
e o moço sapateiro
Porque diz o exemplo antigo
quando te dão o porquinho
vai logo có baracinho.
Ora eu cá assi o digo.
E mais quem inda s’atreve
com’eu que o posso fazer.
Que assi case eu com prazer
que vou cada vez mais leve.-Vingando-se da morte do Inverno, a velha do charivari, acaba por desaparecer na Natureza.


retábulo Sé Velha CoimbraNo bestiário medieval o porco ou javardo, significa literalmente essa gula ou luxúria depravada. Já Santo Isidoro de Sevilha o recordava nas Etimologias: "os porcos são imundos porque se revolvem e sujam na terra à procura de alimentos". Na obra Hortus Sanitatis (1485), inspirada em Aristóteles, Jehann von Cube desenvolve a ideia da associação do porco à luxúria, referindo a precocidade sexual do animal que aos oito meses já é capaz de copular.


Os exemplários acrescentam os mesmos atributos aos macacos beberrões e a todo o tipo de gula e prazeres carnais. Representam-se com este sentido em cortejos festivos, tocando instrumentos musicais, a par de sátiros, centauros e outras figuras humanas bestializadas e em despique com os homens selvagens.
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Nestas gaiteirices, a gaita-de-foles parece ter esse específico significado sexual. Arcipreste de Talavera, na recolha de refrães que incluiu no El Corbacho (1438), a propósito de frades e seculares dados a assediar a mulher do próximo, utiliza a frase: "dignos por us fechos de tañer la cornamusa"


Parece que a música popular e profana não se fazia apenas ouvir nas festarolas e touradas nos adros das igrejas. A confecção simples e pouco dispendiosa deste instrumento musical, levava a que muitas paróquias usassem a gaita no lugar do órgão.


Oviedo


O Louco ou bufão, termo de origem toscana, significava o chocalheiro, o bobo por cuja boca saem os disparates, venenos, malícias e todo o tipo de licenciosidades que servem para entreter os ignorantes e indiscretos, como foram definidos por Sebastián de Covarrubias no século XVII.
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O bufo que diz coisas vãs e cujas palavras leva o vento representa também as cabeças aéreas, a razão adormecida. Este personagem domina grande parte da cultura satírica medieval, prolonga-se nos tempos modernos, numa confluência entre o erudito e o popular.
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Da Nave dos Loucos de Sebastian Brandt ao Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, passando pelas trovas populares e teatro vicentino, o louco é o antecessor do palhaço pobre dos tempos modernos.
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O efeito escatológico das suas provocações tanto actua nas festas populares, feiras e vagabundagens de saltimbanco, como o promove a bobo de corte em meados do século XIV.
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Nas cidades multiplicavam-se as companhias de loucos com ordenanças e cerimónias burlescas próprias e as Festas de Loucos, dos Inocentes e doAsno servem também como momento de iconoclastia colectiva de que nos restam testemunhos iconográficos.


Na descrição de uma festa de loucos decorrida em Ecija diz-se mesmo que no meio do espectáculo se ouvia tambores e a "gaita dos loucos" 
(ver Caro Baroja, El Carnaval (Análisis histórico-cultural), Madrid, 1965, p. 326.)


































Algumas representações do toque da gaita-de-foles aproximam-se de figuras metamorfoseadas (especialmente monges) cujos narizes se prolongam nos tubos da gaita ou nas flautas imprimindo-lhes um nítido carácter fálico. Noutros casos a associação sexual é mais explícita, mostrando claramente cenas de sexo contra natura ao lado dos porcos, macacos e coelhos gaiteiros.





















Os tempos passam, os gostos mudam mas porcalhadas e gaiteirices não desapareceram nas brincadeiras pos-modernas. Aqui fica um grande porcalhão mais recente.


 
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*segundo Maria José Palla, A Palavra e a Imagem. Ensaios sobre Gil Vicente e a Pintura Qinhentista, Editorial Estampa, Lisboa, 1996.

consultar também:
site dedicado a gaitas-de-foles

imagens:
- Les Très Riches Heures du Duc de Bérry, 1413.
-Pieter Brueghel o Velho, Dança de camponeses, 1556 
- Pieter Brueghel o Jovem, interior de festa de casamento (detalhe), c. 1620
- Pieter Brueghel o Jovem, velho gaiteiro
- retábulo da Sé Velha de Coimbra, provocação sexual entre homem selvagem e javardo a tocar gaita
- campónio a tocar gaita, gárgula da catedral de Plasencia
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porcos músicos- cadeiral de Santa Cruz de Coimbra;
-javardos a copularem ao som da gaita, cadeiral de Oviedo
-gravura da Reforma- "Papa doutor em Teologia e Mestre da Fé", Lucas Cranach, meados do século XVI
-Erhard Schoen O demónio a tocar gaita de foles c. 1530
- Sebastian Brandt, A Nave dos Loucos, louco gaiteiro, gravura de Dürer.
cena de felatio entre meninos, portal da Sé de Lamego
-menino a masturbar-se ao lado de coelho gaiteiro, capitel da igreja conventual de Vilar de Frades

Jeff Koons, 1988, porquinhos e S. João Baptista
nota: acrescentada a gravura satírica do Papa de Lucas Cranach, graças ao BibliOdissey 

http://www.cocanha.com/porcalhoes-e-gaiteiros/

sábado, 21 de novembro de 2009

Teatro - Fechados dentro da história de Deus


Adicionado em:
19-11-2009
Fonte:
Ípsilon
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Fechados dentro da história de Deus
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Nuno Carinhas não combinou com José Saramago, mas parece-lhe "absolutamente pertinente" debater a vida, a religião
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As personagens não saem de cena. Podemos vê-las, podemos não vê-las, mas estão sempre lá, como que presas naquele espaço. Há camas encavalitadas de um lado, camas encavalitadas do outro, de madeira áspera, a remeter para os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.
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O encenador e cenógrafo Nuno Carinhas tem queda para enfiar o teatro dentro do teatro. Fez isto ao encenar as "Beiras" (2007), a partir de "Farsa de Inês Pereira", "Farsa do Juiz da Beira" e "Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela", de Gil Vicente. E fê-lo agora, neste "Breve Sumário da História de Deus", do mesmo autor.
Podemos ver ali um campo de concentração, como o que aparece n' "A Vida é Bela", de Roberto Benigni. E podemos não ter idade para isso e ver "um colégio interno, um convento, um albergue nocturno". Em qualquer caso, um espaço minado (gerido?) por figuras demoníacas.

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Carinhas quis "fazer nascer o auto como um ritual ou representação que pode advir da espera". Os espectadores entram na sala do Teatro Nacional de São João e os actores já estão no palco. Há uma cortina de tule (quarta parede). Através dela, pode ver-se como se movem ou se deixam estar. É como se redistribuíssem papéis de uma peça já tantas vezes feita. 

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Um anjo criado à imagem da estátua Anjo de Portugal (Joana Carvalho), que Carinhas viu no Museu de Arte Antiga e que pertence ao Convento de Cristo, apresenta o auto. Lúcifer (António Durães), o anjo caído, tem voz de trovão. Satanás (Paulo Freixinho) silva como o Gollum do "Senhor dos Anéis", trilogia cinematográfica de Peter Jackson, a partir de J.R.R. Tolkien. É ele que faz pecar Eva (Lígia Roque), que logo arrasta Adão (João Cardoso), e com ele toda a humanidade até Jesus Cristo (Daniel Pinto) a vir redimir. 
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Pelo palco, desfila Abel (Pedro Frias), o justo pastor assassinado pelo irmão, Caim. E o inquebrável Job, atingido por sucessivas perdas. E Abraão (Jorge Mota), Moisés (Alberto Magassela), David (José Eduardo Silva), Isaías (Mário Santos), a representar a Lei da Escritura. E, depois deles, João Baptista (João Pedro Vaz), Jesus Cristo. E, entre eles, o Mundo (Pedro Almendra), o Tempo (João Castro), a Morte (Alexandra Gabriel). A Morte, neste espectáculo, é pálida, frágil, andrógina. E Jesus Cristo transborda cor, calor, humanidades.
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O encenador não combinou com José Saramago, que acaba de lançar o livro "Caim". Parece-lhe "absolutamente pertinente" debater a vida, a religião. "Pode a nossa sociedade estar arredada desse livro fundamental, que é a Bíblia?", pergunta. "Parece que há um luxo, mais entre os católicos do que entre os protestantes, de não querer saber, de não querer reflectir."
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Carinhas encara "Breve Sumário da História de Deus" como "um poema sobre um poema". E nele enxerta três poemas contemporâneos: o Salmo 139, traduzido por Herberto Hélder, "Palavras de Jacob depois do sonho", de Ruy Belo, e "Reconciliação", de Else Lasker-Schuler.
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Não acha que falta qualquer coisa ao "Breve Sumário..." para viver enquanto narrativa: "Adoro este auto. Acho Gil Vicente um génio. Há bocados de Gil Vicente que me lembram Camões". Julga até "um disparate" pensar em actualizar a sua linguagem. Parece-lhe, porém, "legítimo" fazer aqueles enxertos, produzir sobressaltos, "suspensões de sentido" nos ouvidos os espectadores através de "linguagens diversas". E assim dele "aproximar o texto".
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Teatro -- Contar a Bíblia sem fazer catequese

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Teatro

Contar a Bíblia sem fazer catequese

por MARIA JOÃO CAETANO
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Contar a Bíblia sem fazer catequese
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Estreia-se hoje, no Teatro Nacional de São João, no Porto, 'Breve Sumário da História de Deus', de Gil Vicente, com encenação de Nuno Carinhas
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Do pecado original à última tentação de Cristo. A Bíblia pode até ser o "manual de maus costumes", como lhe chamou Saramago, mas o encenador Nuno Carinhas prefere olhar para o texto como uma oportunidade para pensar naquilo que somos hoje. "O que mais me interessa aqui é tratar a condição humana, não quero fazer catequese", diz, referindo-se ao Breve Sumário da História de Deus, texto de Gil Vicente que hoje se estreia no Teatro Nacional de São João, no Porto.
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O São João tem, como se sabe, "uma tradição vicentina" que Nuno Carinhas tem acompanhado. A sua primeira colaboração com o teatro aconteceu precisamente em 1996, a convite de Ricardo Pais, para fazer os figurinos de A Tragicomédia de Dom Duardos. "Gil Vicente é um autor maior. Nós estamos habituados ao dramaturgo das farsas e das brejeirices, mas nem sempre é assim. Ele costuma ser tratado como um autor light mas aqui temos um Vicente mais sombrio", afirma.
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Para a sua primeira encenação como director do teatro do Porto, cargo que ocupa desde Fevereiro deste ano, Nuno Carinhas escolheu um dos textos menos conhecidos de Gil Vicente. "Estranhamente, pois é um texto muito saboroso do ponto de vista da linguagem e que não nos fala só da história de Deus mas também do teatro e da condição humana." Em Breve Sumário da História de Deus, Gil Vicente parte "de um poema", que é a Bíblia, para criar um outro poema. A peça percorre as Sagradas Escrituras, revelando a misteriosa condição de criaturas cuja desesperada humanidade se redime na esperança de Deus.
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Apesar de no palco estarem figuras bíblicas (Moisés, João Batista, Abraão, Lúcifer...) ao lado de figuras alegóricas (Anjo, Morte, Mundo e Tempo), ao longo do texto, abordam-se temas que a todos dizem respeito - as expectativas, a dor, a enfermidade, "inevitavelmente, a morte" . "Gosto muito da economia do autor, das opções que vai fazendo em relação aos episódios e às personagens que escolhe, culminando com a aparição de Cristo e a necessária redenção", diz o encenador.
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Às referências bíblicas e ao texto de Gil Vicente, Nuno Carinhas juntou três poemas - o Salmo 139 mudado para português por Herberto Hélder, Palavras de Jacob depois do sonho de Ruy Belo e Reconcliação de Else Lasker-Schüler - sublinhando, assim, a contemporaneidade e humanidade do que em palco se vê. Para que não restem dúvidas.
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Com encenação e cenografia de Nuno Carinhas e um elenco composto por 17 nomes, entre os quais António Durães, João Cardoso, João Pedro Vaz, Lígia Roque, Alberto Magassela e Miguel Loureiro, Breve Sumário da História de Deus vai ficar em cena no Porto até 20 de Dezembro, viajando em Janeiro até ao Teatro Nacional de D. Maria II, em Lisboa.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

'O Pranto de Maria Parda' em cena - Uma comédia burlesca


* Carla Pacheco
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Maria do Céu Guerra sobe ao palco dos Paços da Cultura de S. João da Madeira, no próximo dia 19, pelas 21h45, com ‘O Pranto de Maria Parda’. A peça, uma produção d’A Barraca, centra-se na “lamentação”, posta na boca de uma velha bêbeda que, além disso, é mulata (e, por isso, se chama ‘Parda’).
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O texto, escrito em 1522, é um monólogo de Gil Vicente que veio a ser muito popular e teve numerosas reedições. Nesse ano, o reino enfrentou um terrível período de fome. Os camponeses esfaimados morriam ao longo dos caminhos.
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No texto, a falta de vinho relaciona-se com a falta de víveres em geral. Maria Parda a morrer à sede é a imagem invertida dos desgraçados que morriam à fome.
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“O seu desespero é cómico e o seu testemunho burlesco”, lê-se na informação difundida pela produção. É assim que a personagem exorciza o drama da fome. Ou seja, ‘O Pranto de Maria Parda’ é uma paródia: “No estilo da chocarrice popular, esconjura e elimina o sofrimento e a morte”.
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Esta é uma das maiores interpretações de Maria do Céu Guerra, que por ela recebeu o Prémio UNESCO no Festival de Artes Cénicas da Expo’92, em Sevilha. Dos milhares de espectáculos aí apresentados, o júri internacional seleccionou 25, entre os quais esta peça, encenada e interpretada pela actriz portuguesa.
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in Correio da Manhã 2007.10.16
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foto de Pedro Catarino - Maria do Céu Guerra dá voz às lamentações de uma velha bêbeda