Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

‘A era da inocência’, por Roberto Pompeu de Toledo

veja


20/04/2012
 às 16:43 \ Feira Livre

‘A era da inocência’, por Roberto Pompeu de Toledo

PUBLICADO NA VEJA DESTA SEMANA
Brasília, em 1958, era da inocência (Foto: Marceu Gautherot / Dedoc)
Brasília, em 1958, era da inocência (Foto: Marceu Gautherot / Dedoc)

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Brasília chega aos 52 anos, no próximo sábado, 21, malfalada e cansada de guerra. Nem parece, mas já teve uma era da inocência. A poeta americana Elizabeth Bishop a visitou em 1958, dois anos antes da inauguração. Bishop morava no Rio de Janeiro, com sua amada Lota Macedo Soares, e viajou para Brasília numa pequena comitiva organizada pelo Itamaraty, cujo integrante mais ilustre era o escritor inglês Aldous Huxley. O pouco conhecido (e, ao que consta a este colunista, não traduzido) relato de viagem que a poeta escreveu em seguida lembra certos filmes que tentam reconstruir o mundo antes da criação, com os mares reclamando seus espaços, continentes em formação e dinossauros. Bishop flagra Brasília na véspera de si mesma. O equivalente aos dinossauros eram a “confusa e barulhenta cena” dos caminhões e tratores que, noite e dia, se empenhavam em fazer brotar do solo as futuras Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios.
A Brasília de Bishop é calor, suor e poeira – uma poeira vermelha, que se levanta em nuvens à passagem dos veículos e impregna as roupas e os tapetes do Brasília Palace Hotel, onde ela ficou hospedada. A poeta se surpreende com a secura e a desolação do local. Comparado com qualquer outro espaço habitável deste país “fantasticamente bonito”, escreve, o lugar parece “notavelmente pouco atrativo e pouco promissor”. Não há “nem montanhas, nem colinas, nem rios, nem árvores”, tampouco “o sentimento de grandeza, de segurança, de fertilidade, do pinturesco” ou qualquer outra das qualidades “que se imagina capazes de dar beleza e caráter a uma cidade”. Mundo em criação que era, Brasília não tinha ainda o seu lago. As únicas dádivas que a “Mãe Natureza” proporcionou ao lugar, conclui a poeta, são “o céu e o espaço”.
Havia apenas dois prédios prontos – o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada. As colunas do Palácio da Alvorada deslumbraram os visitantes. Huxley deslocou-se para examiná-las de vários ângulos. Outros membros da comitiva as tocaram e fotografaram à exaustão. Bishop as descreve com imagens de poeta: “Se alguém imagina uma fileira de enormes pipas brancas, postas de cabeça para baixo, e então agarradas por mãos gigantes e apertadas em todos os seus quatro lados, até que sejam elegantemente atenuados, pode ter uma ideia delas razoavelmente acurada”. Já o interior do palácio não lhes agradou. Bishop critica a decoração e a falta de conforto. Alguém lhes conta que o secretário de Estado Foster Dulles, em recente visita, quase caíra da escada sem corrimão que conduz ao andar superior. Huxley já experimentara os perigos da notória ojeriza de Oscar Niemeyer pelos corrimões. Horas antes, escorregara na escada do hotel, e comentará que “é uma vergonha abandonar tão útil invenção” quanto o corrimão, conhecida há milhares de anos.
A comitiva foi conhecer a “Cidade Livre”, a improvisada cidade de madeira onde verdadeiramente transcorria a ação – ali moravam as pessoas que trabalhavam na construção da cidade, e ali se estabeleceram, para servi-las, os mercados, os bares, as farmácias, as lojas. Os homens andavam de jeans, botas altas e chapéus de aba larga. O Brasil, onde, segundo observa Bishop, raras são as construções de madeira, surpreendia-se com o cenário de faroeste, mostrado nas fotos das revistas. Para a poeta, tratava-se da “velha e familiar cidade de fronteira da Metro-Goldwyn-Mayer”. A comitiva foi informada de que, ao ser criada, no ano anterior, a Cidade Livre tinha 400 habitantes; agora tinha 45 000. Possuía até cinema, e personagens improváveis. A comitiva conheceu uma delas – uma condessa polonesa, ninguém menos do que isso, jovem e bonita, refugiada de seu país e dona de um inglês impecável.
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A poeta americana Elizabeth Bishop registrou em palavras o que outros fotografaram: "nem montanhas, nem colinas, nem rios, nem árvores" (Foto: Joseph Breitenbach)
A condessa Tarnowska lhes serviu de cicerone e anfitriã na Cidade Livre. Ela era, justamente, a dona do cinema local. Disse que “amava” viver ali. E contou-lhes uma história que ocorrera em seu cinema, pouco tempo antes, quando estava em cartaz o filme E Deus Criou a Mulher, com Brigitte Bardot. A projeção caminhava normalmente, até que, na mais esperada cena, no momento mesmo em que a Bardot desfazia o primeiro botão da roupa, parava. As luzes então se acendiam e o projetista avisava: “Queiram as senhoras e senhoritas, por favor, deixar a sala”. As mulheres saíam e aglomeravam-se lá fora, na rua de terra, sem calçada. A projeção continuava só para os homens. Terminada a cena de nudez, parava de novo, e as senhoras e senhoritas eram avisadas de que estavam liberadas para voltar. Pudor era o que não faltava, na Brasília daquele tempo.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/a-era-da-inocencia-por-roberto-pompeu-de-toledo/

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Brasil - Fundación Telefónica revisa la trayectoria de Óscar Niemeyer al completo


Óscar Niemeyer   Museu de Arte Contemporânea da Prefeitura de Niterói – RJ – Brasil   Foto Michel Moch

Óscar Niemeyer
Museu de Arte Contemporânea da Prefeitura de Niterói – RJ – Brasil
Foto Michel Moch

Óscar Niemeyer   Auditório do Parque Ibirapuera – São Paulo – SP – Brasil   Foto Nelson Kon

Óscar Niemeyer
Auditório do Parque Ibirapuera – São Paulo – SP – Brasil
Foto Nelson Kon

Óscar Niemeyer   Palácio da Alvorada – Brasília - DF, c. 1960   Foto Marcel Gautherot – Acervo Instituto Moreira Salles

Óscar Niemeyer
Palácio da Alvorada – Brasília - DF, c. 1960
Foto Marcel Gautherot – Acervo Instituto Moreira Salles


Maquetas, películas, fotografías y documentos originales componen la antológica dedicada al arquitecto brasileño




"Óscar Niemeyer". Madrid, hasta el 22/11/09

FUNDACIÓN TELEFÓNICA

C/ Fuencarral, 3 Madrid (España)

Del 17 de septiembre al 22 de noviembre de 2009, en Fundación Telefónica, Madrid

Comisario: Lauro Cavalcanti

Obras: 17 maquetas, 21 dibujos, 50 croquis + 2 libros, 25 fotografías, 1 sofá, 1 escultura y varias proyecciones
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Organizan: Fundación Telefónica, Fundación Cultural Hispano-Brasileña, Fundación Óscar Niemeyer
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Nacido en 1907 en Río de Janeiro, Óscar Niemeyer se graduó como ingeniero arquitecto en 1934, fecha en la que comenzó a trabajar en el estudio de Lúcio Costa y Carlos Leao, de forma gratuita y movido por el único interés de transformar el urbanismo de su ciudad. Desde entonces, el brasileño ha desarrollado su vasta producción en numerosos países, a través de proyectos en cuya puesta en marcha se ha involucrado siempre de manera personal y directa, plasmando en ellos la originalidad propia de su trazo y el aspecto grácil y ligero de sus diseños.
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Fundación Telefónica repasa ahora cada una de las etapas de la trayectoria de Niemeyer, y el modo en que ha incidido en su producción su compromiso político y su crítica de la injusticia, a través de fotografías, maquetas, proyecciones, croquis, dibujos e incluso un sofá y una escultura.
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El que fuera Premio Príncipe de Asturias de las Artes en 1989 pudo trabajar desde 1956, y de la mano de Lúcio Costa, en la reforma urbanística de Brasilia, encargándose de la proyección de los nuevos edificios de la capital brasileña, espacios residenciales, comerciales y administrativos entre los que destacan la Catedral, el Palacio de la Alvorada, el Congreso Nacional y el Palacio de Planalto.
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Años después, Niemeyer daría un giro internacional a su carrera, abriendo oficina en los Campos Elíseos de París y logrando clientes en los cinco continentes: para Argelia diseñó la Universidad de Constantina y la mezquita de Argel y en Francia proyectó la sede del Partido Comunista Francés y la plaza dedicada al Coronel Fabien en París, pero el arquitecto también es autor de la sede de la editorial Mondadori en Italia, el Pestana Casino Park de Funchal (Portugal) y la mezquita estatal de Penang (Malasia).
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Tras el fin de la dictadura militar que gobernó Brasil entre los sesenta y los ochenta, Niemeyer regresó a su país, donde proyectaría, entre otras obras, el Memorial JK de Brasilia, los sambódromos de Río de Janeiro y Sao Paulo, el Memorial de América Latina en esta última ciudad, y el considerado por muchos su mejor edificio, el Museo de Arte Contemporáneo de Niteroi, en Río de Janeiro.
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Entre su última producción, destaca el complejo del Museo Óscar Niemeyer de Panamá, el Complejo Cultural de la República en Brasilia y el Teatro Popular que lleva su nombre en Río de Janeiro. De entre los proyectos aún en curso y pendientes de finalización, cabe mencionar el Centro Cultural Internacional Óscar Niemeyer en Avilés (que el arquitecto prevé convertir en una gran plaza abierta a todos los ciudadanos y a la ría y la ciudad vieja de la localidad asturiana), el Puerto de la Música de Rosario y la Plaza de la Soberanía de Brasilia.
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in boletín masdearte.com/no. 343
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Niemeyer, aos 101, conclui dois novos projetos e lança livro



O arquiteto Oscar Niemeyer, 101, concluiu dois novos projetos imponentes -uma torre de 60 metros em Niterói (a 15 km do Rio) e o prédio que abrigará em Argel (Argélia) uma biblioteca árabe/sul-americana. Ele ainda lança nesta quarta-feira (27), no Rio, o livro ilustrado Oscar Niemeyer 1999-2009, síntese de sua obra nos dez últimos anos, e o quarto volume de Nosso Caminho, revista trimestral que edita com a mulher, Vera Lúcia.

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O maior arquiteto do Brasil:101 anos e cheio de disposição
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Com 60 metros de altura, avistada a quilômetros quando pronta, a torre em forma de cogumelo foi projetada para ficar a dez passos da baía de Guanabara --e é rara no portfólio do mais consagrado arquiteto brasileiro.

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A Prefeitura de Niterói espera obter os R$ 19 milhões para a obra -ou ao menos parte deles- junto à iniciativa privada. Ao projetar a torre, Niemeyer procurava algo para suprir o veto da Igreja Católica, em 2004, à catedral que desenhara para Niterói -projeto do qual se orgulhava; reputava-o como um de seus melhores em décadas de trabalho. Da mesma forma, também não seria erguida a catedral evangélica.

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Quase lado a lado, as catedrais seriam destaques do Caminho Niemeyer, prédios do arquiteto ao longo da orla. O primeiro deles, na década passada, foi o MAC (Museu de Arte Contemporânea), grande atração turística brasileira. Também estão prontas uma estação hidroviária, a praça JK, o Teatro Popular (em reforma) e um memorial. Os museus Oscar Niemeyer e do Cinema já têm os prédios erguidos.

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''O tal Caminho Niemeyer vinha muito devagar, não havia dinheiro. De modo que, o tempo correndo assim lentamente, a gente vai tendo ideia. O projeto vai se modificando. A torre foi uma coisa que me ocorreu. Estava no meio da baía, lembrei da torre'', disse ele no escritório de Copacabana (zona sul do Rio).

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Para acompanhar as obras que estão em andamento, o arquiteto vai toda quarta a Niterói. Também projetou para o local um centro de convenções e uma nova estação de barcas.

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''Estou me dedicando muito a essa obra em Niterói. Acho que vai ficar muito bom. O momento não dá ideia. Os prédios estão dentro da praça. No dia em que tivermos a praça completa, os prédios aparecem. Acho que essa obra em Niterói vai ser uma surpresa.''

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Já o convite para construir a biblioteca na capital da Argélia veio no início do ano. Na década de 1970, Niemeyer projetou lá uma universidade e uma mesquita. A construção será uma das principais sedes do projeto BibliAspa (Biblioteca América do Sul-Países Árabes), aprovado em 2005, com o objetivo de criar uma rede de centros de divulgação e pesquisa. Ainda não há previsão de construção, conclusão ou custos.

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No Brasil, o projeto é dirigido por Paulo Daniel Farah, professor da USP. Tem um portal bilíngue na internet (www.bibliaspa.com.br). Além da divulgação de textos literários e acadêmicos sul-americanos, árabes e africanos, a BibliAspa Brasil promove cursos e pesquisas sobre temas pertinentes às regiões.

Fonte: Folha de S.Paulo




in Vermelho - 27 DE MAIO DE 2009 - 15h40
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Oscar Niemeyer fez cem anos - O importante é a Vida



Oscar Niemeyer fez cem anos
O importante é a vida

É com esta simplicidade que Oscar Niemeyer, desenrolando as evidências com a mesma certeza da mão que risca no papel um dos seus projectos extraordinários, se revela o Homem em que vive, em estreita convivialidade, o comunista e o arquitecto. Realidades que nunca se dissociam, surgindo a cada passo da sua vida evidenciando uma genialidade e uma generosidade, ambas legendárias.

«A Arquitectura? Vale a pena repetir:
o importante é a vida, os amigos,
este mundo injusto que devemos mudar.
O resto…Vivemos num regime capitalista,
e os seus governantes,
por mais progressistas que sejam,
nada de essencial nos oferecem.
Representam essa sociedade de classes,
de ricos e pobres, de sem-terra,
de sem-tecto,
que só a revolução pode modificar.»
(1)


Generosidade transbordante não só nos gestos mais triviais, cujo relato incomoda Oscar, mas os mais grandiosos, como o de ter prescindido de ser o titular do projecto do edíficio-sede das Nações Unidas em favor de Le Corbusier, por saber do extremo empenho desse seu mestre, amigo e admirador, em o realizar. Deixar de ser autor desse projecto emblemático para se tornar um quase anónimo colaborador, depois de ter ganho o concurso público internacional quando Niemeyer, embora já sendo conhecido, ainda estava muito longe da fama que uns anos depois adquiriu por mérito próprio, é certamente incompreensível para a esmagadora maioria dos arquitectos contemporâneos, cavalos de raça: arquitectura, prémio, medalha no dizer pitoresco de Paulo Mendes da Rocha, gente que se morde sem olhar a meios à porta de papel couché das revistas do glamour arquitectónico e que considera os concursos prescindíveis a favor da entrega directa de obras desde que seja a si-próprio, a mais das vezes em função de um mérito adquirido em suado marketing.
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Nos antípodas dessa gente está o comunista, o arquitecto, o homem Oscar Niemeyer, a infinita grandeza de alma num corpo fisicamente pequeno de incomensurável estatura humana, de trasbordante imaginação e criatividade que o tornam no arquitecto do século XX, no político sem desvios ideológicos, numa das figuras centrais do seu tempo e da História de todo o sempre.
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A arquitectura de Niemeyer rapidamente começou a ser conhecida. Logo nas primeiras obras o arquitecto libertava-se dos frios constrangimentos da função, sem deixar de a cumprir com rigor, para expandir a imaginação explorando até ao limite as possibilidades técnicas proporcionadas pelos novos materiais de construção. Libertava-se dos espartilhos do modernismo mais extremo, com uma linguagem muito própria que fazia a leitura dos lugares geográficos, da sua realidade física para dar corpo a objectos arquitectónicos incomparáveis. Quando Niemeyer diz que a natureza desconhece a linha recta, não está a fazer retórica, está a estabelecer um diálogo aberto entre a arquitectura e a natureza e a transpor esse diálogo para um desenho substantivo que desenvolve com mestria sem supérfluos. Nada é dispensável e tudo se torna e descobre coerente. Niemeyer não desenha contra a natureza, esteja ela virgem de sinais construídos ou poluída por ordenamentos ou desordenamentos edificados. Recupera-a para fazer da natureza material de arquitectura. É assim dos seus primeiros aos últimos projectos: na Pampulha, a deslumbrante curva parabólica da Igreja de S. Franscisco de Assis a fazer desaparecer paredes e cobertura unindo-as numa forma única; o edifício Copan, em S. Paulo, corpo ondulante de movimento sublinhado pela sobreposição de finas linhas horizontais, ameaçando ir até à lua, fronteira entre o interior e o exterior de grande delicadeza e sensualidade que adquire uma enorme força visual atirando para segundo plano a solução técnica encontrada para, em curva e contracurva, contraventar o corpo edificado e resolver a dificuldade de construir com aquela dimensão sem recurso a pesada estrutura; continua a ser assim na sede do Partido Comunista Francês em Paris onde o terreno onde está implantado é radicalmente transformado por um edifício que parece flutuar atrás de uma cúpula que marca a confluência de duas avenidas limítrofes que fazem duro e apertado ângulo agudo; continua a ser assim no Museu de Arte Contemporânea em Niteroi, flor-ovni suspenso no extremo de uma falésia à beira mar. Quase cem anos entre o primeiro e o mais recente projecto, a imaginação que se plasma nos desenhos contínua jovem para assombro do mundo. Poder-se-ia desfiar o resto do rol de projectos de arquitectura que continuam a sair da mão, sobretudo da cabeça genial de Niemeyer para continuar a descobrir em cada um deles a extraordinária inventiva que se, por um lado, libertou a arquitectura dos espartilhos funcionais que a esqueletizavam, apagando o valor da forma arquitectónica para se satisfazerem na aridez de ver o tubo digestivo funcionar com precisão relojoeira, por outro, nunca resvalou nos maneirismos patéticos que subalternizam o uso para que se projecta acenando com as gloríolas de frustres iconografias, um decorativismo de adereços que enxameiam até ao bocejo as revistas de arquitectura. Próximo do seu modo de pensar e fazer arquitectura estiveram os construtivistas soviéticos explorando novos materiais, novas técnicas levando o «espaço arquitectural» aos limites da imaginação desamarrando-se do racionalismo funcional sem perder o seu sentido.

Arquitectura e política

Lá está Brasília para o mostrar! O tempo em que se projectou a cidade, quatro anos apenas, ainda continua a espantar o próprio Niemeyer e é bem reveladora da espantosa intuição, feita de muito e muito trabalho, do arquitecto que, com um traço despojado, desenha com extraordinária clareza edifícios monumentais e blocos habitacionais dando corpo ao plano piloto de Lúcio Costa. É igualmente emocionante olhar para os projectos construídos e olhar para os desenhos desses projectos. O que desilude Óscar é que a «sua» cidade que só será «sua» quando houver uma outra política mais justa, uma sociedade sem classes. Essa sociedade burguesa, capitalista que rasteirou miseravelmente o que projectou e construiu em Brasília conseguindo com um artificio malévolo na aplicação das celebradas leis do mercado impor a discriminação social entre as duas alas habitacionais com tipologias rigorosamente iguais, impondo preços de venda e aluguer brutalmente diferentes entre a ala nascente e a poente. Será porque o sol que nasce de um lado é diferente do que se põe no outro? Não, o sol quando nasce neste mundo não é igual para todos.
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«Você é arquitecto para fazer o quê? Uma excepção ou outra!? No Brasil faltam doze milhões de habitações e você é arquitecto para esperar por um cliente rico, para fazer um palácio, um teatro, um museu? Você vai fazer uma casa diferente de outra, de “arquitecto”? Ter obras de arquitectura como facto isolado, não faz sentido», diz Paulo Mendes da Rocha. Assim pensa também Óscar Niemeyer a fazer centenas de obras de excepcionais, sejam as escolas que acaba de desenhar para oferecer a Cuba em que ele quer que a arquitectura seja um incentivo para o prazer de aprender seja na catedral de Brasília, deslumbrante vista do exterior mais deslumbrante, se possível, quando se percorre um corredor enterrado, obscurecido para, subitamente, se ter uma explosão de luz coada por vitrais fantásticos ou na forma aparentemente simples do Hotel Casino do Funchal, que marca a paisagem e o turismo da Madeira de forma diferente, exemplar.

A luta vale a pena

A revolta de Niemeyer cresce com as injustiças, com a exploração, a violência, legal ou ilegal, que é o ADN desta sociedade. «Às vezes o (José Aparecido) nas suas idas às cidades-satélites. Logo um grupo de moradores o cerca, aflito por velhas promessas – promessas centenárias – a implorar ajuda dos sucessivos governantes. Pedidos humildes, mas fundamentais para os que lutam por subsistir, dentro dessa discriminação odiosa que o capitalismo institui. Não reivindicam casa para morar, mas apenas um pedaço de terra que também lhes pertence e que nada representa num país imenso, um verdadeiro continente. Passei a compreender então como nós, arquitectos, estávamos enganados quando pensávamos nos grandes complexos populares, nas casas pré-fabricadas, moduladas e económicas, que a técnica actual oferece. E senti, dentro da realidade brasileira, que a miséria do povo é maior, muito maior – tão grande que os nossos irmãos mais pobres só reclamam um pequeno lote onde possam construir seus míseros barracos.» (2)
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A arquitectura?
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Indigna-se com a sociedade capitalista, indigna-se quando partidos comunistas perdem o espírito revolucionário, acomodando-se até miserável apagamento. O seu compromisso enquanto homem e arquitecto é, sempre foi, político e social.
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«Afinal o que vocês comunistas pretendem? Mudar a sociedade respondi. O homem dirigiu-se ao rapaz que batia á máquina: escreve aí… mudar a sociedade. E o dactilógrafo, voltando-se para mim, retrucou: Vai ser difícil.» (3)
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Pois vai, camarada Niemeyer, pois vai mas olhando para ti, olhando para a tua arquitectura, para os cem anos de vida que acabaste de celebrar, sabemos que, sem nenhuma esperança teológica, se fará. Não se pode é desistir de lutar.
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(1) O comunismo, os comunistas continuam a incomodar muita gente. Um tal Rui Caruana, arquitecto, deduz, no Ypsilon do Público, que «o Óscar escolheu entre dois monstros. Entre Estaline e Hitler, escolheu seguir aquele que não defendia a supremacia de uma raça sobre a outra». O jornalista conclui que isto é contextualizar. Quando se levanta um pouco a tampa da cabeça dessas criaturas o fedor é insuportável e revela imediatamente o seu conteúdo.

(2) Citando parte deste texto de Niemeyer, a celebrada historiadora de arquitectura e arquitecta Ana Vaz Milheiro consegue extrair a tese extraordinária que é a do fim da inocência da arquitectura que a aliviam de compromissos ideológicos e sociais que impediam a sua progressão. O resto do texto tem outras teses de jaez equivalente. Ou isto se inscreve na vigarice intelectual normal que permite as mais mirabolantes piruetas ou a velocidade de circulação da senhora é muito reduzida. Provavelmente estão as duas hipóteses correctas.

(3) Relato de Óscar Niemeyer de um interrogatório policial a que foi submetido.
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in Avante 2007.12.27


ver também: