Aprender, Aprender Sempre ! (Lenine) ..... Olá, Diga Bom Dia com Alegria, Boa Tarde, sem Alarde, Boa Noite, sem Açoite ! E Viva a Vida, com Alegria e Fantasia (Victor Nogueira) ..... Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
No imaginário colectivo as cegonhas são brancas e trazem bebés. Mas aqui são pretas. E precisam que alguém cuide dos seus próprios bebés. Mergulhamos na garganta escarpada do Tejo Internacional, com biólogos da Quercus que querem salvar juvenis assustados. As histórias das cegonhas já não são como eram.
Carlos Pacheco prestes a colocar uma toalha sobre a cabeça do filhote de cegonha-preta, para o acalmar
(Foto: Sérgio Azenha)
Por esta altura do ano os ninhos de cegonha-branca apoderam-se da paisagem de Castelo Branco. E não é só da paisagem campestre nas imediações da cidade que falamos. As cegonhas-brancas também se instalaram nos telhados e chaminés dos prédios altos e nos postes de electricidade e telefone no centro da cidade. O escritório da associação ambientalista Quercus em Castelo Branco não tem mãos a medir para os telefonemas que recebe de moradores que ligam, preocupados: ora porque lhes caiu uma cria de cegonha assustada no quintal, ora porque foi atropelado um adulto que precisa de cuidados. As cegonhas-brancas fazem parte da vida da cidade.
Nesta altura é hora dos juvenis largarem o ninho. A bem ou a mal. E preocupam a população: "Ligou-nos agora uma pessoa a dizer que achou mais uma. O que dizemos a quem telefona é que, se não está prostrada e ainda se põe de pé, a deixem ficar. Só depois de 48 horas com estes sintomas é que se deve agir." Samuel Infante fala de cegonhas como os pediatras falam dos bebés. "Às vezes são os próprios pais que os deixam de alimentar para os juvenis saírem do ninho. É altura de começarem a voar. Temos só de estar atentos a sinais de desidratação."
O engenheiro de recursos naturais que já não se lembra há quantos anos está com a Quercus é um dos responsáveis pelo Centro de Estudo e Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco, pertencente à associação. Com ele trabalha a veterinária Beatriz Azorín. Já lá estão instaladas 11 cegonhas, para além de corujas e abutres, entre outras espécies. O centro tem uma taxa de sucesso na recuperação de 56 por cento. "Os telefones não param. A cegonha procurou sempre esta proximidade com o homem."
Mas, ao contrário da sociável e abundante cegonha-branca, cada vez mais vista de norte a sul, há uma outra história menos feliz, a da cegonha-preta (Ciconia nigra), que preocupa a Quercus. A associação tem em curso um programa de anilhagem e controlo veterinário desta espécie, que conta apenas com 102 a 112 casais em todo o país, de acordo com os dados do último censo, o de 2004.
Álbum de família
É no Tejo Internacional que reside a maior parte destes indivíduos, que são ligeiramente mais pequenos do que os seus congéneres brancos (a cegonha-branca tem uma envergadura de 1,95 a 2,15 metros e a preta mede entre 1,85 e 2 metros). Ali residem 20 a 22 casais.
"É uma espécie com estatuto de vulnerável. Já esteve em perigo, mas sofreu uma tendência positiva no lado espanhol", diz Carlos Pacheco, o biólogo da Quercus que conduz, desde 1995, o programa de anilhagem e controlo veterinário da espécie, que é responsável já por mais de 500 anilhagens e que este ano conta com o mecenato da Delta. "O exemplar mais velho anilhado tinha 14 anos. Temos toda a sua história de vida. Por onde andou, quantas crias teve... Construímos o seu álbum de família", explica o biólogo.
Um trabalho dispendioso, falta de financiamento e poucos biólogos preparados para a investigação nesta área tornam o estudo da cegonha-preta muito complexo e difícil, diz Carlos Pacheco. "Pode ser duro aceitar, mas as espécies têm o seu preço em termos de conservação, que pode ser compensador ou não. Este projecto não seria exequível sem mecenato."
O jipe da Quercus parte do centro de Castelo Branco e serpenteia rumo ao Tejo Internacional, ao porto de Malpica. É lá o ponto de partida para uma das últimas anilhagens de juvenis de cegonha-preta. O biólogo e a veterinária da associação vão visitar um dos últimos ninhos que ainda não viram na região. "Já anilhámos 17 juvenis", diz Beatriz Azorín.
"A Quercus começou a comprar terrenos em Malpica na década de 1980 para evitar a catástrofe que hoje se vê por estas bandas - a substituição dos sobreiros por eucaliptos, algo que agora se está a tentar reduzir", explica Carlos Pacheco, apontando para as pequenas árvores, com cerca de metro e meio, espalhadas pelo caminho: "Está a ver estes sobreiros? Já têm dez anos e continuam deste tamanho."
Para ajudar à conservação da cegonha-preta, a associação pretende agora usar o projecto financiado pelo mecenato para criar uma charca em Monte Barata, Monforte da Beira, e recuperar o habitat das margens do Tejo, acrescenta Samuel Infante.
O barco pneumático que leva os especialistas até ao ninho, algures no meio do rio, onde só os abutres e grifos observam a paisagem, já tinha sido posto de parte, quando Carlos Pacheco decidiu recuperá-lo. Tem vários remendos, mas é seguro, garante o biólogo, enquanto bombeia o ar que enche a embarcação.
A primeira paragem, já rio acima, entre escarpas, no meio de um silêncio quebrado pelo motor, é perto de uma formação rochosa que alberga nada mais nada menos do que 46 ninhos de grifos que pairam sobre as visitas, curiosos. Carlos já os visitou todos. "As primeiras saídas para anilhagem que fazemos no ano são dedicadas aos grifos. Depois vêm as águias-de-Bonelli, depois as águias-reais. E a seguir os abutres-do-Egipto e as cegonhas-pretas."
Ainda se seguem cerca de dez minutos de caminho até chegar ao tão esperado último ninho de cegonha-preta que a equipa vai visitar, já no Aravil, afluente do Tejo. Fica numa escarpa, mas é acessível facilmente com um salto a partir do barco. O casal escolheu uma plataforma na rocha para criar o seu bebé.
A abordagem é feita com cuidado e em silêncio. "Podem atirar-se do ninho. Depois dos 40 dias já não os anilhamos, porque ficam mais violentos", explica o biólogo que se orgulha de nunca ter tido acidentes com crias. "Por vezes temos de ir a ninhos em locais de muito difícil acesso. Podemos ter de descer 20 a 40 metros de escarpa, em rappel." Uma vez uma cria caiu do ninho. "Mas não morreu. Conseguimos apanhá-la." Tudo acabou bem.
Um exame rápido
O juvenil espreita as visitas, de cabeça espetada, com a rala plumagem ainda esbranquiçada no ar. Está curioso. "Este tem 33 a 35 dias. É a partir dos 50 dias de vida, mais ou menos, que começam a ter plumagem definitiva e, aos 65, ganham a plumagem para voar."
Biólogo e veterinária aproximam-se do ninho e o bebé passa de curioso a assustado. Emite barulhos estridentes e só sossega quando Carlos lhe coloca uma toalha turca por cima. "Se não nos estiverem a ver acalmam bastante."
A operação é rápida. Beatriz Azorín recolhe uma amostra de sangue, faz uma zaragatoa da garganta para despistar gripe aviária e recolhe uma amostra de plumagem para apurar o sexo do juvenil. "E apanhei também caca fresca. É a primeira que apanho", diz com uma alegria de cientista na voz.
Acabada a operação, a toalha é retirada e o bebé fica encolhido, à espera que os intrusos desapareçam. "Este ninho só tinha uma cria, mas podem ter até cinco", diz Carlos Pacheco.
Por vezes, diz o biólogo, morrem ninhadas inteiras sem que se conheça a causa aparente: "Pode ser doença, intoxicação.... Até agora são casos pontuais, mas, se se tornarem mais frequentes, podem ter impacto na preservação da espécie", acrescenta. A perturbação por acção humana nos locais de nidificação e a escassez de alimento (as cegonhas-pretas alimentam-se de peixe e pequenos anfíbios) são os maiores entraves ao sucesso da conservação. Sem paz e comida não se reproduzem.
A partir de hoje aquele bebé só vai receber mais uma visita da equipa da Quercus: "Queremos só certificar-nos de que vai sobreviver até conseguir voar."
Com a anilhagem de juvenis de cegonha-preta o projecto da Quercus procura respostas a perguntas que ajudarão a conhecer melhor a espécie e vão contribuir para a conservação: onde passam o Inverno? Que longevidade alcançam? Como se dispersam geograficamente? Que distância percorrem entre o sítio onde nasceram e o de nidificação?
"Os machos aqui dispersam-se menos, mas nunca voltam ao mesmo lugar. Afastam-se pelo menos 5 a 15 quilómetros. Mas temos casos em que os indivíduos percorreram 400 quilómetros. Identificámos um que nidificou em França, junto ao Luxemburgo."
E o trabalho que tem acompanhado desde 1995 já revelou algumas novidades sobre a espécie: "Havia a dúvida se os indivíduos ibéricos eram diferentes dos do resto da Europa, se eram uma subespécie. Já provámos que não." E descobriram também que a área de influência da espécie é maior do que se pensava: "Vai do Senegal, Mali, Camarões, até ao Sul de Espanha."
No Ano Internacional da Biodiversidade, vamos publicar quinzenalmente, e até Novembro, reportagens sobre os trabalhos que investigadores portugueses desenvolvem em Portugal e no estrangeiro na conservação da natureza. Os conteúdos são da inteira responsabilidade do P2. A série Biodiversidade é patrocinada pelo Banco Espírito Santo
Banco genético numa ilha do Ártico já contém mais de 500 mil sementes e no futuro deverá armazenar todas as espécies vegetais do planeta. E talvez seja a chave para a sobrevivência da humanidade.
Na ilha ártica de Spitsbergen, na Noruega, a quase 1.500 quilômetros do Polo Norte, estão armazenadas mais de meio milhão de sementes de todo o mundo. Em um abrigo subterrâneo do Svalbard Global Seed Vault (Banco Mundial de Sementes de Svalbard), sob camadas de permafrost, o material está protegido de guerras, catástrofes ou da mudança climática global.
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Local mais seguro do mundo
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A "Arca de Noé botânica" é mantida pelo governo norueguês e pela Global Crop Diversity Trust (Fundo de Diversidade Global de Plantas Cultiváveis) desde 2008, na confiança que, mesmo no caso da pior catástrofe, ali estaria a base para um recomeço da humanidade, assim como um importante elemento para a segurança alimentar.
Ao escolher-se o local, o interior da montanha próxima a Longyearbyen, 130 metros acima do Mar Ártico, ele foi considerado o "mais seguro do mundo".
Bildunterschrift: Vista da Ilha de Spitsbergen, Noruega
Tão maior foi a inquietação internacional quando, no ano seguinte à inauguração, a entrada do abrigo foi danificada pelo derretimento do permafrost. Os reparos ainda estão em curso, porém isso não representa qualquer perigo para os grãos armazenados, assegura Roland von Bothmer, professor de Genética Botânica na Universidade de Agricultura da Suécia.
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Ele é uma das poucas pessoas a terem acesso à caixa-forte, aberta apenas poucas vezes ao ano. Trajando vestimentas térmicas, a descida é feita por um túnel de concreto de cerca de 100 metros de comprimento até uma porta de aço, ao longo do percurso o gelo cintila nas paredes. Von Bothmer esclarece tratar-se de uma antecâmara cuja segunda porta só é aberta depois de fechar-se a da entrada.
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Backup global
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A caixa-forte é como um gigantesco freezer. Para padrões árticos, o armazém que a antecede é relativamente temperado, pois o permafrost tem uma temperatura natural de -6ºC a -5ºC. O local só será utilizado quando o depósito principal estiver repleto, algumas prateleiras já estão preparadas. O professor Von Bothmer demonstra:
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"Aqui temos amostras de sementes embaladas a vácuo, vindas da Dinamarca e de Nova Délhi. Elas foram secas, o componente líquido é de apenas 5% a 6%. Elas são trazidas numa caixa escura; nós as registramos e colocamos a caixa no tesouro."
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As informações sobre os grãos armazenados são acessíveis a qualquer pessoa, através da internet. O material permanece propriedade de quem o armazenou, geralmente um banco de sementes ou autoridades públicas de agricultura.
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Geralmente os países possuem seus próprios bancos de sementes, porém as duplicatas em Spitsbergen formam uma espécie de "backup global".
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Biodiversidade ameaçada
"O mais importante é armazenarmos as duplicatas em segurança, para, caso necessário, podermos devolvê-las aos proprietários, por exemplo, se os originais se perderem. No mundo inteiro acontecem problemas. Considere o Haiti, ou os deslizamentos de terra, outras catástrofes, guerras civis."
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Contudo, mesmo sem catástrofes, a agrobiodiversidade já está ameaçada, explica o especialista da Universidade da Suécia, que realiza projetos próprios de coletas de sementes em regiões como o Quirguistão ou o Tadjiquistão.
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"Há 10 mil anos ocorre uma seleção natural e outra influenciada pelo ser humano. A cevada e o trigo, por exemplo, foram 'domesticados' há 10 mil anos. E por todo o mundo se desenvolveram novas variedades, adaptadas às condições locais. Isso se perde quando os agricultores preferem cultivar variedades modernas, com histórico genético muito restrito."
Bildunterschrift: Roland von Bothmer tranca a porta do banco
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Todas as espécies do mundo
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No banco de sementes propriamente dito, reinam -17ºC. "A meta é chegarmos a -18ºC, que consta ser a temperatura ideal para conservar grãos vivos a longo prazo. Mas isso ainda vai demorar anos."
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"Eis aqui as prateleiras com recipientes numerados", prossegue o professor, "alguns da Síria, outros dos Estados Unidos". O galpão comporta cerca de 520 mil amostras e não está nem mesmo cheio até a metade. "Quando todos os três armazéns estiverem em funcionamento, teremos lugar para todas as espécies que existem no mundo."
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Os operadores da "Arca de Noé botânica" estão seguros de que os frutos de seu trabalho não serão visíveis apenas em caso de uma catástrofe global. Von Bothmer lembra que a Cúpula Mundial da Alimentação de 2009 constatou ser preciso elevar em 70% a produção mundial de alimentos até 2050. Ao mesmo tempo, as áreas agricultáveis desaparecem.
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Também a mudança climática exige que se preserve para o futuro uma ampla gama de recursos genéticos, alerta o geneticista. "Em muitas regiões o clima está ficando mais seco, em outras choverá mais; novas doenças e pragas surgirão. Precisamos da biodiversidade para melhorar a resistência, para que se vençam essas novas circunstâncias. O interesse aumentou nos últimos anos, tanto do ponto de vista político como do cultivo agrícola. E isso também se deve ao Banco Global de Sementes."
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Autoria: Irene Quaile (av)
Revisão: Carlos Albuquerque
Mais de 70 cientistas estiveram na maior expedição de sempre às ilhas Selvagens
22.07.2010
Teresa Firmino .
Não tem uma árvore, nem água doce. As gentes da Madeira iam caçar aves marinhas e pescar a este pedaço de terra no Atlântico, que agora é reserva natural. Rochedo apenas, como diz Espanha, ou ilha, como diz Portugal? A maior expedição portuguesa de sempre às ilhas Selvagens esteve a inventariar a biodiversidade e foi também uma afirmação de soberania.
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Agora que acabaram de tomar o pequeno-almoço no alpendre da casa encravada no sopé da Selvagem Grande, com vista para a baía das Cagarras, estão preparados para subir a encosta quase a pique da ilha e continuar o trabalho que os trouxe até aqui.
Avançam escarpa acima, uma parede castanha árida que, num repente, brota mais de 100 metros do mar como o dorso de um animal marinho, com cabeça e cauda mergulhadas na água. Paulo Catry segue na dianteira, chapéu e mochila às costas, Ana Almeida de lenço na cabeça e também mochila, e pelo trilho íngreme delimitado por pedras, ziguezagueando como equilibristas, cruzam-se a cada passo com os principais habitantes da ilha - as cagarras, aves marinhas, migradoras admiráveis.
Daqui elas têm vista privilegiada: os ninhos que fizeram nos buracos na escarpa escancaram-se para um azul imenso. Ao longe, a 11 milhas, podem aperceber-se de um pedaço de terra tão esborratado que mal se distingue entre o mar e o céu, a Selvagem Pequena, apenas com 20 hectares e 49 metros de altitude máxima. Ao lado, mais pequeno ainda, fica o ilhéu de Fora.
E lá em baixo, deparam-se com a rampa que permite o desembarque de botes entre os rochedos na Selvagem Grande, com a casa dos dois vigilantes da natureza sempre presentes, os únicos habitantes humanos, mais a única casa privada da ilha uns metros acima na falésia - e, nos últimos dias, com um cenário nunca antes presenciado.
Há agora um colorido de tendas no terreiro em frente à casa dos vigilantes e no pátio da casa privada, além de estendais com roupa dos 19 recém-chegados à Selvagem Grande, ilha do arquipélago da Madeira. Desembarcaram no fim de Junho por uma semana para inventariar a fauna e a flora marinhas (na semana anterior, fizeram o mesmo na Selvagem Pequena).
Sem telemóveis, sem Internet, sem água doce para tomar banho ou uma praia, e sem um produto muito desejado por quase todos - queijo, que viria a protagonizar uma peripécia -, os cientistas vieram vasculhar a ilha, desde o topo do planalto até aos cinco metros de profundidade, passando pela zona entre marés. Podem sempre contentar-se em pôr um postal no marco de correio no alpendre da casa dos vigilantes, com carimbo das "Selvagens, Portugal" (vai é demorar até ao destino, uma vez que os vigilantes são rendidos a cada três semanas e é nessa altura que levam a correspondência num navio-patrulha até ao Funchal).
Indiferentes aos passos de Paulo Catry e Ana Almeida, as cagarras chocam os ovos. Enquanto um dos elementos do casal permanece no ninho, o outro viaja durante uma semana no mar alto à procura de alimento. Depois ficam juntos alguns dias e revezam-se.
É pelas cagarras que os cientistas caminham pela encosta abrupta - esta manhã, mais uma vez. Sem se deterem nos ninhos do varandim panorâmico, dirigem-se para as que optaram por se instalar no topo da ilha, mesmo no centro.
Nova paragem, agora numa parte mais plana do trilho, quase, quase no topo, uff. Avistam-se os três navios da expedição que assentaram arraiais ao largo deste pedaço de terra, e que representam três tempos da descoberta e exploração dos oceanos pelos portugueses: a Vera Cruz, réplica das caravelas dos Descobrimentos, da Associação Portuguesa de Treino de Vela; o veleiro Creoula, construído nos anos 30 como bacalhoeiro na Terra Nova e agora ao serviço da Marinha; e o navio oceanográfico Almirante Gago Coutinho, também da Marinha, equipado com tecnologias do século XXI, de que o Luso, veículo não tripulado que mergulha até aos seis mil metros, é a estrela principal.
O que faz tanta gente nesta ilha e à sua volta? Em terra e no mar, mais de 70 cientistas inventariam a biodiversidade marinha, naquela que é a maior expedição científica às ilhas Selvagens, 163 milhas náuticas a sul da Madeira e apenas 82 a norte das Canárias. O extremo sul de Portugal é aqui. A pergunta é: porquê uma expedição às Selvagens e não a outro sítio qualquer?
As cagarras são a expressão mais visível da biodiversidade das Selvagens (e audível, dirá quem dorme nas tendas). Ou não albergasse a Selvagem Grande a maior colónia mundial desta ave do tamanho de uma gaivota - desde o final de Fevereiro, quando chegam as primeiras para a época de nidificação, até Novembro, quando partem as últimas.
A equipa de Paulo Catry, de 42 anos, ornitólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), em Lisboa, estuda-as há cerca de sete anos. Por vezes, vira-se na escarpa e explica o seu trabalho, uma oportunidade para quem o acompanha recuperar o fôlego. "Há cinco anos contámos todos os ninhos de cagarras, por isso sabemos que os casais que nidificam na ilha são 30 mil."
É também possível saber o número aproximado de cagarras na Selvagem Grande porque lhes têm posto anilhas (serão, assim, mais de 60 mil). "Como têm uma taxa de sobrevivência elevada, a maior parte já foi anilhada. Há aves cuja idade é superior a 30 anos."
Nesta história há um nome incontornável: Paul Alexander Zino, ornitólogo de origem inglesa natural da Madeira, que luta pela preservação das cagarras das Selvagens. Participa na primeira expedição científica multidisciplinar: em Julho de 1963, o director do Museu Municipal do Funchal traz às Selvagens um grupo de cientistas europeus e, quando regressa ao Funchal, Zino quer salvar as cagarras.
Nesses tempos, são um pitéu: apreciadas na Madeira pelos pescadores, organizam-se campanhas sazonais de recolha das crias na Selvagem Grande. Espalmadas, salgadas e secas ao sol, armazenam-nas em barricas que seguem para a Madeira. Numa campanha anual, podem matar-se 20 mil juvenis. Os adultos são poupados, senão esta actividade económica acabaria. Nada se desperdiça: das penas fazem-se colchões e até os excrementos se aproveitam como adubo.
As Selvagens são na altura propriedade privada: concedidas a quem se distinguiu nas conquistas além-mar, em 1904 acabam por ser vendidas pelos herdeiros ao banqueiro madeirense Luiz da Rocha Machado. Por oito mil escudos, ou 40 euros.
Na última caçada, que parte do Funchal em Setembro de 1967, o declínio das cagarras é tal que já só se apanham 13 mil. Nesse ano, Zino compra a licença de caça por alguns anos, quer que a colónia recupere. Tem também autorização do proprietário para construir a primeira casa da Selvagem Grande, como apoio ao estudo das cagarras, que o filho de Zino, médico e ornitólogo, ainda mantém.
As anilhagens começam a partir de 1968, com Zino, entre outros ornitólogos portugueses e franceses. Ele defende que as Selvagens sejam uma reserva natural e, em 1970, negoceia a sua compra pelo Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF), associação internacional de defesa da natureza. Mas, em 1971, o Estado português prefere comprá-las - por 1500 contos, ou 7500 euros (450 mil euros, no valor actual). Nesse ano, são classificadas como reserva natural.
Não restam muitas aves anilhadas nos primeiros tempos, porque em 1976, na ilha até aí sem vigilantes, há uma matança indiscriminada de adultos e crias. "Alguém veio anilhar cagarras em 1976 e, em vez de milhares, encontrou menos de uma centena", recorda Paulo Catry.
Anos sem pisar terra
Vinte minutos de escalada e está-se finalmente no planalto. Não há uma árvore. A vegetação é rasteira ou limitada a tufos, o terreno pedregoso. O ponto mais elevado, o pico da Atalaia, a 163 metros, ostenta o farol. Tudo o que se ouve é o vento que assobia.
Mas encontra-se gente aqui - que tinha até agora os 245 hectares do planalto só para si. Hany Alonso, de 27 anos (do ISPA), e João Pedro Pio, de 22 (colaborador do Museu Nacional de História Natural de Lisboa), ornitólogo e biólogo, andam absortos com os ninhos.
No centro do planalto dispõem-se quatro muros de pedra, com ninhos numerados. Quando chegam Paulo Catry e Ana Almeida, de 30 anos, bióloga marinha, eles já vão no buraco 52 de um dos muros.
Os quatro, a equipa das aves na Selvagem Grande, continuam a ronda pelos ninhos. Há anos que acompanham perto de 400. "Verificamos se estão ocupados e por quem", explica Catry. "Estes muros são quase de certeza anteriores ao século XX. Não se sabe quem os fez, nem quando. Mas deixaram buracos para recolher os pintos."
Como um ritual, passam em revista cada ninho. Ajoelham-se, retiram a cagarra que choca um único ovo, tomam nota do número da anilha, verificam se é o macho ou a fêmea, cortam o pedaço de uma pena e marcam a ave com tinta. Na próxima ronda podem identificar logo se o ocupante é o mesmo e, se for o outro, repetir o ritual.
Querem saber tudo da vida dos bichos. "A sobrevivência, o sucesso reprodutivo, a fidelidade entre casais, a taxa de divórcio - esse tipo de trabalho", acrescenta Alonso.
O casal mantém-se junto para a vida? "Acasalam quase sempre com o parceiro do ano anterior. Há divórcios, mas a taxa é baixa, talvez da ordem dos três a quatro por cento ao ano", diz Catry. Para que querem a pena? "Para análise da composição química e de isótopos." Através da análise de formas de carbono e azoto, pode saber-se onde comem e o quê durante o Inverno. "Não é possível ter informação directa sobre a alimentação nas zonas de invernada, porque elas estão no mar alto", explica Alonso, que faz o doutoramento sobre a ecologia alimentar das cagarras, co-orientado por Catry.
Descobriu-se, através de receptores GPS nas costas das cagarras, que as das Selvagens vão alimentar-se muito longe durante a nidificação. "A maior parte vai à costa de Marrocos, a 400 quilómetros", diz Catry.
Terminada a época de nidificação, os adultos abandonam as Selvagens em Outubro, as crias em Novembro. As ilhas ficam então desertas de cagarras. Os adultos regressam no ano seguinte, mas os juvenis ficam no mar alto. "Só voltam a pôr o pé em terra firme ao fim de três ou quatro anos. Mesmo passados esses anos, estão aqui uma semana, a socializar e a conhecer o sítio, e vão-se embora. Só nidificam em média aos nove anos." Seleccionado o local de reprodução, é raro mudarem.
No Inverno, as cagarras das Selvagens vão até ao largo da África do Sul, mas podem ir até Moçambique e Madagáscar. Algumas, porém, ficam no Atlântico Noroeste, entre os Açores e os EUA.
A equipa de Catry seguiu a migração de 70 cagarras das Selvagens, com um aparelho na pata, e concluiu que têm seis áreas de invernada (além do Atlântico Noroeste, dirigem-se ao meio do Atlântico Sul e às correntes de Agulhas, de Benguela, do Brasil e das Canárias). Um dos juvenis fez algo extraordinário: "Em dois anos, visitou as seis áreas. Andou a explorar o mundo. Voou mais de 30 mil quilómetros por ano."
Nisto tudo, é hora de almoço. É a vez de o grupo das aves cozinhar para os 19 cientistas na ilha, mais aqueles que vêm e vão para os navios, e, por isso, há que descer à casa dos vigilantes. À noite, os quatro tencionam voltar a subir. Querem ter informação directa sobre a alimentação das cagarras. A coisa promete.
Caravelas da descoberta
Há que ter cuidado a atravessar o planalto. "A partir daqui é a colónia de calcamares." Zona interdita aos caminhantes incautos portanto, porque estas aves marinhas que andam sobre o mar, daí o nome, escavam os ninhos no chão arenoso. Só há esta subespécie nas Selvagens.
Desde a erradicação dos coelhos na Selvagem Grande, proliferam também os tufos acinzentados da Schizogyne sericea, planta endémica destas ilhas e das Canárias.
Pouco depois da descoberta das ilhas no século XV, os coelhos e as cabras são introduzidos na Selvagem Grande como fonte de alimento de quem a visita. O navegador português Diogo Gomes é o descobridor oficial, pensa-se que em 1438. Encontra-as com as suas caravelas quando regressa de uma viagem à costa africana, ao serviço do Infante D. Henrique.
Cedo começa a recolher-se urzela, um líquen que cresce nas escarpas, para tingir de púrpura tecidos e papel. Além das cagarras, a pesca e a salga de peixe são fontes de rendimento. Sobrevivem vestígios das tentativas de colonização humana, de que são exemplo os muros de pedra. A inexistência de água doce na ilha ditou o seu falhanço.
As cabras extinguem-se devido à caça no século XIX, mas os coelhos persistem até ao início do século XXI. No fim do século XIX também é introduzida a planta tabaqueira para lenha, mas atinge uma área tal que prejudica as aves marinhas. Está a ser erradicada (desde 2001, pelo que restam poucas), tal como uma outra planta invasora, a Conyza bonariensis.
O Serviço do Parque Natural da Madeira quer preservar os tesouros biológicos das Selvagens, de que é outro exemplo a osga Tarentola boettgeri bischoffi, subespécie que ocorre só nestas ilhas vulcânicas. O Governo Regional da Madeira tenciona recandidatar as Selvagens a património mundial natural da UNESCO (depois de a candidatura de 2002 ter sido retirada por falta de informação sobre a biodiversidade marinha) e esta expedição pode facilitar o processo.
Se até há muita informação sobre a biodiversidade em terra, com as cagarras entre as espécies mais estudadas, a vida neste mar mantém-se bastante desconhecida. Por isso, os cientistas têm batido as costas da Selvagem Grande na zona entre marés, à procura de algas, cracas, peixes nas poças...
Ao mesmo tempo, no Creoula, equipas de mergulhadores vão até aos 25 metros de profundidade recolher exemplares de fauna e flora, fotografar e filmar. Entre os afazeres obrigatórios para todos - limpar o navio ou ajudar na cozinha a escamar douradas e a lavar panelões -, cumprem-se cinco mergulhos por dia. Dispostos em tabuleiros no convés, os exemplares recolhidos são triados, identificados, preservados em frascos.
Entretanto, o Luso, da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), também tem mergulhado até aos dois mil metros e trazido amostras biológicas, rochas e água.
Todos os dados, das equipas em terra e nos navios, vão sendo inseridos no M@rbis - Sistema de Informação para a Biodiversidade Marinha, desenvolvido pela EMEPC e o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade. O projecto pretende inventariar de forma exaustiva as espécies marinhas em Portugal.
Da passagem pela Selvagem Pequena, antes portanto de a expedição se mudar para a Selvagem Grande, encontram-se ecos no diário pessoal de Mónica Albuquerque, bióloga da EMEPC. "O dia promete ser animado, porque vem muita gente a terra e há o jogo de Portugal [com a Costa do Marfim]", escreve a 15 de Junho, acrescentando que, após o pequeno-almoço, as visitas começam a chegar para ajudar nas saídas entre marés e na recolha de lixo. "Chocou-me o facto de serem ilhas desabitadas, mas com muito lixo provocado pelo homem e que é lançado no mar chegando a destinos tão longínquos como este", anota. "De tarde, a vida em terra foi abalada com a chegada de 30 ou 40 pessoas para verem o jogo. Conseguiram mesmo trazer do Creoula uma televisão maior."
A noite dos vómitos
Voltando ao almoço preparado pelo grupo das aves, atum com batatas e ovo cozido vai ser servido numa mesa ao correr do alpendre na casa dos vigilantes. Por esta altura, já muitos andam desejosos de queijo.
A saga das bolas de queijo começou uns dias antes entre Mónica Albuquerque, em terra, e Manuel Pinto de Abreu, o responsável pela EMEPC, a bordo do Almirante Gago Coutinho. Quem estava no Creoula e na caravela Vera Cruz, que transportou cientistas até às Selvagens, também ouviu.
"Professor, do Gago Coutinho preciso de queijo", disse Mónica Albuquerque via rádio.
"Tenho aqui cinco testemunhas que carregaram as bolas de queijo. Não há mais queijo!", respondeu Pinto de Abreu.
"Vou pôr toda a gente à procura do queijo perdido", devolve a bióloga, que voltará ao assunto. "Professor, queremos queijo!"
"Vou telefonar para o Funchal para termos queijo à nossa espera", brinca.
Inglaterra vai jogar com a Eslovénia, e na televisão na sala ao lado da kitchenette na casa dos vigilantes vai poder ver-se o jogo, até porque aqui há painéis solares. Os cadeirões convidam.
Numa estante da sala guardam-se os diários da Selvagem Grande onde os vigilantes registam os pequenos nadas. "Terça-feira, 8 de Junho de 2010: dia dedicado a limpezas na estação, visto que amanhã está prevista a chegada de três embarcações com cientistas e outras pessoas para ficarem cá cerca de 20 dias. Ao fim do dia foi efectuada uma subida ao topo para ver se estava tudo bem e ainda arrancámos alguns pés de Conyza."
Cinco dias depois, a 13 de Junho: "[Na comunicação via rádio com a Selvagem Pequena] ficámos a saber que o [Almirante Gago Coutinho] ia para o Funchal reparar o robô submersível que tinha avariado."
Tinha-se partido a peça que permite determinar a posição do Luso em relação ao navio. Era um percalço menor face ao que viria a acontecer.
Depois do jantar, pelas dez da noite, a equipa das aves volta a subir a encosta para descobrir o que jantaram as cagarras. Na escarpa e no planalto, o sossego do dia deu lugar a uma chinfrineira desde as sete da tarde, quando as cagarras começam a regressar do mar. Fazem voos rasantes e ouvem-se entrecruzados os característicos gritos dos machos "au, au, au, hã".
Com uma lanterna no chapéu, Paulo Catry avança pelo escuro e apanha uma cagarra, que encandeou e que não pára de gritar. "Este, em princípio, é um novo reprodutor que veio do mar", diz Hany Alonso quando o recebe.
João Pedro Pio: "Como sabes que é um novo reprodutor?"
Paulo Catry: "Um macho adulto em reprodução não anda armado em parvo a meio da noite. Tem mais que fazer do que andar nas coboiadas da juventude. Os reprodutores podem dar dois gritos à entrada do ninho e vão lá para dentro."
Sentado no chão, com um tabuleiro e um garrafão de água salgada à frente, Alonso empurra um tubo pela boca da ave. Ana Almeida bombeia a água, até que o bicho vomita no tabuleiro o que parece um pedaço de lula. Com uma pinça, coloca-o num frasco com álcool, enquanto João Pedro Pio toma notas de tudo.
"Pronto, já passou", diz Alonso, enquanto submete outra cagarra ao mesmo procedimento.
Seis cagarras depois, finalmente uma lavagem ao estômago dá um resultado de jeito. "Há ali uma espinha", avisa Ana Almeida. "Olha, talvez carapau, talvez...", diz Alonso, que observa melhor. "É carapau quase de certeza."
Nesta ilha não há sossego? "Não!", atira Ana Almeida. "Há no Inverno. Deve ser uma tristeza", e ri-se.
"Uau, uma lula inteira", diz a bióloga marinha. "A pota-voadora é a espécie que mais aparece na dieta", explica Alonso sobre a lula em questão. "Disseste pota-voadora?! Que espectáculo!", comenta João Pedro Pio.
Doze cagarras depois, os vómitos forçados terminam. "Queremos perceber melhor o ecossistema deste mar profundo e pouco produtivo. Há pouca pesca, só ao atum", explica Catry.
Encosta abaixo à meia-noite, a iluminação do Almirante Cago Coutinho sinaliza que o Luso se encontra em operação. Está a terminar um mergulho a 615 metros, saber-se-ia depois, o quinto ao largo das Selvagens.
Na manhã seguinte, dia da visita já programada de Marcos Perestrello e Humberto Rosa, secretários de Estado da Defesa Nacional e do Ambiente, chega à Selvagem Grande a má notícia. O cabo de ligação do Luso ao navio cortou-se, perto das 11 da noite. O veículo, que já estava a 130 metros de profundidade, voltou ao fundo. Seria montada mais tarde uma operação de resgate (o que já ocorreu com sucesso).
Acto de soberania
Mesmo com este revés, vai começar um frenesim mediático. Ao início da tarde, aproxima-se da ilha das aves um helicóptero militar, que levanta uma nuvem de poeira no planalto onde pousa. Dele desembarcam também os chefes de Estado-Maior da Armada e da Força Aérea, o almirante Fernando Melo Gomes e o general Luís Araújo, e um batalhão de jornalistas. Da ilha seguem de bote para o Creoula, depois para o Almirante Gago Coutinho, há declarações de circunstância, sublinha-se a dimensão da expedição da EMEPC e a cooperação entre muitas instituições científicas, quer dar-se visibilidade política à missão, e ao fim da tarde quase todos os que vieram partem na ave metálica.
Expedição e visitas podem também interpretar-se como um acto de soberania. "Não foi essa a razão por que pensámos ir às Selvagens, mas não podemos dizer que o que estivemos a fazer não teve importância na afirmação da soberania. Teve com certeza", reconhece Pinto de Abreu. Entre os motivos principais da expedição está o M@rbis, acrescenta, que precisava de ser testado no terreno.
Aliás, em Julho de 2008, o El País publicava uma reportagem nas Selvagens, com o título O maior litígio, referindo-se aos cinco séculos de disputa por estes pedaços de terra. Apenas em 1997 Espanha reconheceu a soberania portuguesa, mas o conflito, lembrava o jornal espanhol, mantém-se quanto à delimitação da zona económica exclusiva (ZEE).
Em causa está a natureza das Selvagens. São meros rochedos, incapazes de suportarem habitantes humanos e uma actividade económica, como diz Espanha? Ou são ilhas, como defende Portugal? Como rochedos, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982, estabelece que o Estado apenas tem direito às 12 milhas do mar territorial e a uma zona contígua, até às 24 milhas. Como ilhas, o Estado tem por exemplo direito a uma ZEE, que pode chegar às 200 milhas.
A distância entre as Selvagens e as Canárias é de 82 milhas, por isso Portugal defende que a delimitação da ZEE se trace a meio das duas - ou seja, a 40 milhas de cada uma. Esta proposta empurra a ZEE portuguesa cerca de 80 milhas mais a sul do que Espanha quer, refere o El País. Espanha quer que a linha seja traçada entre as Canárias e a Madeira, separadas por cerca de 245 milhas, o que traria a delimitação mais para norte. A pouco mais de 120 milhas da Madeira, que, recorde-se, fica a 163 das Selvagens.
"As Selvagens são ilhas de facto", afirma Pinto de Abreu. "Em determinada altura, eram fonte de alimento para a população da Madeira e havia um comércio associado às cagarras."
Só por motivos de protecção ambiental se acabou com esse comércio e estão habitadas pelos vigilantes, escrevia o jornal espanhol sobre os argumentos portugueses: "No dia em que se decidir povoá-las, poderia desenvolver-se uma actividade económica baseada no turismo ecológico. Se dúvidas restassem, pregaram uma caixa de correio na maior ilha para deixar clara a sua soberania."
Por agora, as Selvagens recebem 500 visitantes por ano, vindos sobretudo nos seus iates, e a ida a terra requer autorização do Serviço do Parque Natural da Madeira.
Afirmação ou não da soberania, na expedição na Selvagem Pequena e na Selvagem Grande os biólogos fizeram 100 mergulhos, houve 25 saídas de campo, apanharam-se mais de 3300 exemplares de fauna e flora,identificaram-se 900 espécies, há outras 700 por triar e uma imensidão de fotografias e vídeos. E, com as visitas governamentais, pôs-se fim a pelo menos um problema imediato. Mónica Albuquerque pediu um favor. As visitas não se esqueceram e trouxeram duas bolas de queijo.
No Ano Internacional da Biodiversidade, vamos publicar quinzenalmente, e até Novembro, reportagens sobre os trabalhos que investigadores portugueses desenvolvem em Portugal e no estrangeiro na conservação da natureza. Os conteúdos são da inteira responsabilidade do P2.
A série Biodiversidade é patrocinada pelo Banco Espírito de Santo.
A Estradas de Portugal (EP) abateu uma dezena de plátanos centenários existentes na EN10, em Azeitão, Setúbal, sem dar conhecimento nem à autarquia nem à direcção do Parque Natural da Arrábida.
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A EP justifica a iniciativa com uma carta enviada pela Protecção Civil Municipal, assinada pelo comandante dos Bombeiros Sapadores, onde era solicitada uma "avaliação conducente ao desbaste, ou eventualmente, ao abate dos plátanos". O documento surgiu após a queda de algumas pernadas de árvores durante os últimos temporais e perante a possibilidade de alguns poderem constituir risco para quem circula na via pública.
Rui Higino, vereador responsável pelos espaços verdes em Setúbal, tem "sérias dúvidas em relação à legitimidade do abate, uma vez que apenas uma árvore estaria doente". Além disso, não existe "qualquer relatório técnico que sustente o estado de fragilidade mecânica das árvores". O autarca explica ainda que o procedimento normal no município não passa pelo abate directo. "Há que fazer primeiro um inventário fitossanitário e uma avaliação visual das árvores. Só depois de analisar os resultados, e em falta de alternativas, se faz o abate, faseado e com vista à replantação". A câmara pediu uma reunião de urgência à EP, mas pondera avançar com uma queixa. A presidente da Junta de Freguesia de São Lourenço apresentou já queixa na GNR.
O ruivaco-do-oeste integra um projecto para a conservação de peixes fluviais que estão a desaparecer. Nos tanques, a reprodução em cativeiro está a ser um sucesso, só falta poder trazê-los de volta para os rios.
A espécie é uma linhagem independente com cinco milhões de anos de evolução
(Rui Gaudêncio)
À saída de Torres Vedras o rio Sizandro já está morto. É um canal de cor acastanhada que se precipita para o oceano Atlântico com rapidez.
Tínhamos sido avisados por Carla Santos-Sousa, uma bióloga de 32 anos. Vinte minutos antes, na estrada que serpenteia o Sizandro a caminho da cidade, entre a passagem de vilarejos, suiniculturas, campos verdes e cooperativas de vinho, a investigadora foi directa: "Querem ver o rio antes ou depois de Torres Vedras? Mau ou mesmo mau?" Mesmo mau.
Não é só o rio poluído, a paisagem é desoladora porque estéril de ideias. É estéril o declive artificial das margens com uma vegetação rudimentar, são inconsequentes as pedras que tentam segurar as margens do rio por baixo de uma ponte. A imaginação dos homens que não consegue fazer melhor.
"É ridículo. Já temos as ferramentas, conhecimento académico e há experiências feitas noutras partes do mundo que se podem aplicar na reabilitação deste rio", desabafa a investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que estuda há quase dez anos peixes fluviais, enquanto olha para a água incessante a passar. Carla Santos-Sousa é uma das muitas pessoas envolvidas no Projecto de Conservação Ex-situ de Organismos Fluviais em risco de extinção. O ruivaco-do-oeste, das cinco espécies de peixes que estão criticamente em perigo escolhidas para este projecto, é o caso mais preocupante.
O peixe só existe em Portugal, em três rios do Oeste: o Alcabrichel, o Sizandro e o Safarujo. Só em 2005 é que a equipa do ISPA, liderada pelo professor Vítor Almada, compreendeu com ajuda da genética que estas três populações pertenciam a uma espécie que está individualizada do outro ruivaco que existe mais a norte.
Mais cedo no mesmo dia, a montante de Torres Vedras, perto da aldeia Dois Portos, quando Carla nos mostra um Achondrostoma occidentale nas suas mãos, o que ela vê é "uma linhagem independente com cinco milhões de anos de evolução". E tudo se perderá se não for feita a reabilitação dos rios.
O Sizandro que passa em Dois Portos ainda é outro - mais calmo, selvagem e mais limpo, apesar dos canos de esgotos vindos das habitações. A paragem reservou boas surpresas à bióloga, que repete a técnica que já aplicou em dezenas de rios portugueses, de norte a sul. Da bagageira do carro saem umas jardineiras de borracha com botas incorporadas e uma mochila com uma bateria de carro ligada a um aparelho eléctrico. A investigadora vai à caça.
Liga o aparelho a um camaroeiro e solta um fio directamente para a água. Escolhe um fundão à esquerda para fazer a primeira tentativa. "Ninguém toca na água", avisa. Descarga eléctrica. Salta uma enguia para a rede que acaba num balde preto com água. Mais descargas. No fundão, onde normalmente os peixes se protegem no Inverno contra a velocidade do rio e sobrevivem no Verão às secas, nada. "Não há peixes", diz a bióloga, enquanto se ouve uma ovelha a balir para os lados do amieiro que está do outro lado da margem.
Mas não desiste, anda uns metros para baixo e instala-se a seguir a uns mini-rápidos para voltar a fazer uso dos 16 quilos que leva às costas na mochila. Desta vez é diferente e quando olhamos já Carla tem vários ruivacos-do-oeste na rede. "Quando dei o primeiro choque, vieram logo uns 50!" No balde contamos 13, três não aguentaram a descarga e morreram.
A bióloga segura um exemplar e faz-nos uma descrição física da espécie: um adulto alcança uns nove centímetros, tem nas costas um padrão oliváceo que é muito diferente da barriga branca e manchas laranjas na base de todas as barbatanas.
Abril é época de reprodução e só agora é possível distinguir os machos das fêmeas. Carla diz-nos para passarmos o dedo pela cabeça do macho e confirmamos a existência de tubérculos: pontos rijos que aparecem agora e servem para estimular a fêmea. "Aqui está outra fêmea bastante cheia", mostra-nos a bióloga, acrescentando que largam centenas de ovos.
Perguntamos se está contente com o número de peixes que encontrou: "É muito bom, não estava à espera."
Cada curso tem um ecossistema próprio e vive em isolamento. Do ponto de vista biológico, mesmo falando da mesma espécie, quando se perde uma população de um rio, perde-se uma riqueza genética única, que teve uma evolução distinta de tudo o resto.
Projecto com quatro anos
"Cada rio é uma ilha, os princípios biológicos que se aplicam a uma ilha aplicam-se aqui a um rio", explica a investigadora, enquanto devolve ao rio os ruivacos-do-oeste, a enguia e a água do balde e depois de ter medido o oxigénio, o pH, a temperatura, a condutividade e a concentração de oxigénio no rio. Os parâmetros estão bons. "Temos grande disponibilidade de água, daqui a um mês as condições mudam radicalmente." E é tempo de deixar o Sizandro.
Além da poluição, a seca é outro problema que afecta estes rios e a sobrevivência deste peixe. Desde a seca de 2005 que não se encontra o ruivaco no rio Safarujo, que com os seus 20 quilómetros é o mais pequeno dos três cursos de água onde vive a espécie.
Vítor Almada arrancou com a ideia do projecto na sequência da famosa seca de 2005. "O projecto surgiu porque havia espécies que estavam muito em perigo", explica Vítor Almada por telefone, que reuniu à equipa do ISPA o Aquário Vasco da Gama e a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.
O primeiro passo era garantir a conservação das espécies através da reprodução em cativeiro e garantir a reintrodução no habitat natural, depois de os rios serem recuperados. Além do ruivaco-do-oeste, a boga- portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum), a boga- do-sudoeste (Iberochondrostoma almacai) e duas espécies de escalo que só existem em Portugal, o Squalius torgalensis e o Squalius aradensis.
O primeiro protocolo foi feito em 2006. Às três instituições juntaram-se a Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, a Câmara de Figueiró dos Vinhos e a EDP - a empresa termina a sua ligação com o projecto a 1 de Junho depois de um apoio de três anos. "Temos dinheiro até ao final do ano", disse Paulo Lucas, da Quercus; a partir daí continuam com fundos próprios da associação. "Uma eventual extensão do projecto está dependente de uma candidatura ao Fundo EDP para a Biodiversidade", disse por email Gilda Sousa, do departamento de comunicação da EDP.
Luz no cativeiro
No Aquário Vasco da Gama, subimos até ao terraço do edifício que recicla a água salgada, de onde se avista o Tejo e ao fundo Lisboa. Às 10h30 da manhã, o sol aquece a água dos vários tanques cheios de peixinhos.
Onde é que está o ruivaco-do-oeste? Do lado do rio, no tanque mais à direita, 265 indivíduos nadam num espaço com plantas que filtram a água, lugares para se esconderem feitos de rede e tijolos, vasos cheios de seixos para as fêmeas colocarem os ovos. O habitat mais natural possível dentro de um tanque rectangular com cerca de três metros quadrados.
Fátima Gil está colada ao tanque e remexe as pedrinhas dos vasos. "Uma forma de se dar com os ovos do ruivaco-do-oeste é apalpar as coisas", explica a bióloga, que trabalha no museu há 22 anos. Encontra primeiro um ovo com um aspecto envelhecido, já morto. Procura mais e anos de experiência com a reprodução de peixes em cativeiro não a deixam ficar mal. Colado a um seixo está um ovo pequenino, de um branco translúcido, com um ar decididamente vivo. "Vêem-se dois pontos pretos brilhantes que são os olhos do embrião. Se utilizássemos uma lupa, até se conseguia ver o coração a bater."
O Aquário Vasco da Gama também serviu para Alexandrina Pipa aprender as bases da reprodução em cativeiro, durante o mês que esteve em Lisboa, antes de voltar à aldeia de Campelo, perto de Figueiró dos Vinhos. É aí que ficam as instalações onde se fará a reprodução a longo prazo do ruivaco-do-oeste. Com a ajuda da câmara, que cedeu as instalações, o projecto investiu 35 mil euros para recuperar os tanques da Estação Aquícola de Campelo.
Mais de 500
Encontramos Alexandrina, que é voluntária da Quercus há 12 anos, na estação de comboio da Caxarias. No caminho até Campelo, vai explicando as espécies vegetais da paisagem. Vêem-se muitos Quercus faginea, o carvalho-português que nos últimos 20 anos tem vindo a substituir antigas zonas de cultivo. Mas existem também azinheiras, medronheiros, pilriteiros, além do tradicional pinhal e das manchas de eucalipto, onde Alexandrina diz que já viu veados e javalis.
A ribeira do Alge, que passa por Campelo, uma aldeia com menos de 30 habitantes, alimenta continuamente os viveiros. Na estação, só se ouve a água a correr. "Apostámos mais na recuperação dos tanques do que no edifício", explica a técnica.
Cá fora, há vários tanques muito maiores do que os do Aquário Vasco da Gama. Um deles, com cerca de nove metros de comprimento e três de largura, está pronto para receber a boga-portuguesa que vem do aquário de Lisboa. Só falta a temperatura da água subir mais um pouco.
Os moradores de dois dos nove tanques são ruivacos-do-oeste, um com exemplares do rio Sizandro, o outro do Alcabrichel, que chegaram a 31 de Março de 2009. Já desovaram no ano passado. Há 400 jovens de Alcabrichel e entre 150 e 200 do Sizandro, que ainda não se conseguiram contar. "Eu espero que, se não for este ano, seja para o próximo que se faça a reintrodução destes peixes na natureza", explica Alexandrina Pipa. "Não faz sentido fazer reintrodução, se o local ficar com as mesmas condições que existiam", defende.
À espera do Alcabrichel
Voltámos para o concelho de Torres Vedras, mas agora estamos a torrar ao sol, junto à margem do rio Alcabrichel, um calor insuportável. À nossa frente está parte do troço de 1500 metros do rio que corre por baixo da ponte do Ramalhal, a norte de Torres Vedras, até à ponte da A8.
Paulo Lucas, o responsável da Quercus pelo projecto, aponta para o cano do esgoto de onde corre um risco viscoso e castanho, tira fotografias e desabafa: "Isto é inacreditável."
O projecto da Quercus para a reabilitação do rio Alcabrichel ainda tem que ser aprovado pela Administração da Região Hidrográfica do Tejo, mas deverá avançar.
O futuro do ruivaco-do-oeste vai começar aqui - é esta fatia de 300 metros do rio que vai sofrer uma intervenção de reabilitação.
Mas o líquido castanho que corre constantemente do esgoto e se dissolve no ribeiro, com o cheiro indiscutível de uma suinicultura, compromete tudo. "Há alguma decantação dos materiais sólidos, mas a carga poluente é elevadíssima", explica o ambientalista de 41 anos que trabalha na Câmara Municipal de Ourém. O esgoto é uma fonte de matéria orgânica, faz explodir o crescimento de microrganismos que consomem o oxigénio e tornam inviável a existência do ruivaco. "Já pedimos uma solução para esta suinicultura. Só colocamos aqui os peixes quando o problema estiver resolvido."
Antes disso, contudo, há muito trabalho a fazer. O Alcabrichel é mais um exemplo de um rio encanado. O início dos trabalhos será em Junho: alargar as margens entre seis a sete metros para cada lado; retirar o canavial com cinco metros de altura; plantar salgueiros, choupos-negros, espécies autóctones que criam raízes, filtram o rio e dão sombra aos fundões, que no Verão são a salvação das populações de peixes. No final de Novembro, Paulo Lucas espera ter a primeira fase terminada. Os 300 metros de reabilitação vão custar 50 mil euros e o ambientalista calcula que vão ser necessários mais cinco anos de trabalho e 200 mil euros por ano para o Alcabrichel voltar ao que era, quando se podia tomar banho no rio.
Peixes no lago
O Sizandro vai ter que esperar. Apesar da melhoria da cobertura da rede de esgotos domésticos que passou de cerca de 50 por cento em 2000 para 75 por cento em 2010, só no final de 2011 o vereador Carlos Bernardes, vice-presidente da Câmara de Torres Vedras, espera ter 90 por cento das casas do concelho com os esgotos tratados. Mesmo assim, o tratamento dos resíduos da indústria agro-pecuária continua a léguas do necessário e em 2009 o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos lançou um relatório onde o Sizandro, com leituras feitas já perto da foz, era dos rios mais poluídos do país.
Junto à entrada do rio em Torres Vedras, onde o leito está cimentado, há quem diga que o Sizandro está mais limpo do que era, depois do encerramento da destilaria de Runa, há uns anos. José Anselmo Gregório, um ferroviário de 59 anos, lembra-se de outro rio: "Dantes não estava cimentado, havia fundões onde a malta apanhava peixe. Tomava-se banho no rio." Já voltou a ver peixes na cidade, diz sentado num banco da estação de comboios.
Mostra-nos um pequeno lago ao lado do muro da estação. A água tem uma película de algas verdes. Com uma mangueira afasta as algas e aponta. Um peixe-vermelho grande passa. Ao lado, mais pequenos, com uma cor escura no dorso e brancos na barriga, ruivacos-do-oeste. Estão lá.
Foi lançado na internet um vídeo de Heath Ledger que denuncia a violência sobre os animais. O actor e realizador do clip morreu em Janeiro do ano passado, mas o vídeo foi completado por Terry Gilliam e outros amigos seus. O videoclip que critica violentamente a caça à baleia chama-se “King Rat” e consiste numa animação a partir da música da banda de indie rock Modest Mouse. “Tivémos muito gozo a fazer este vídeo, mas é obviamente um vídeo sério”, disse Daniel Auber, co-autor do clip e um dos responsáveis pela animação. “Heath estava muito interessado em defender as vidas das baleias e dos golfinhos. Era muito importante para ele fazer um vídeo que tivesse impacto. Tínhamos de ter o efeito de choque. Se não fosse negro não seria impressionante.” .
O filme imagina um mundo em que as baleias são as caçadoras e procuram presas humanas no mar.
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O último filme de Heath Ledger como actor está ainda na calha – trata-se de The Imaginarium of Dr Parnassus, de Terry Gilliam – e vai ser lançado em Outubro no Reino Unido. Johnny depp, Colin Farrell e Jude Law completaram as cenas que Heath Ledger não pôde terminar antes da sua morte por overdose, aos 28 anos.
Tem três metros de largura, dois de altura e pesa 900kg. O bisonte europeu, maior mamífero do continente, corre sérios riscos de desaparecer da superfície terrestre.
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Durante centenas de anos, esta foi uma espécie protegida em diversas regiões da Europa por vários monarcas, que consideravam parte dos seus deveres zelar pela sobrevivência dos mamíferos. Porém, no início do século XX os bisontes tornaram-se alvo de caçadores furtivos, interessados na sua carne e pele. Segundo o diário espanhol El País, no ano de 1919 já não restava nenhum em liberdade.
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in Esquerda.net
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Apesar dos esforços de biólogos da época, que tentaram reconstruir as manadas com alguns animais que tinham sobrevivido em jardins zoológicos e colecções privadas, conseguiram recuperar apenas quatro machos e três fêmeas para multiplicar os exemplares da espécie, disse à BBC Malgorzata Tokarska, do Instituto de Investigação de Mamíferos da Academia Polaca de Ciências em Bialowieza, na Polónia. É precisamente aqui, em Bialowieza, na fronteira entre a Polónia e a Bielorrúsia, que se encontra a reserva onde actualmente restam apenas duas manadas selvagens de bisontes europeus.
O número de animais em liberdade ascende aos 800, mas todos estes bisontes descendem de um mesmo macho, o que levanta graves problemas genéticos: mais de 90% dos genes foram herdados de dois únicos exemplares que se reproduziram na década de 1920, o que reduz a população efectiva desta espécie a 25 bisontes e coloca em riscos graves a sua sobrevivência. Os investigadores procuram agora soluções para contornar este problema.
A Liga para a Protecção da Natureza alertou que mais de metade das espécies de animais e plantas em Portugal estão ameaçadas, como o lince ou o lobo ibérico. Cerca de 160 espécies estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. .
«Temos a espécie de felino mais ameaçada do mundo, o lince ibérico, também o lobo ibérico, estamos também a falar de muitas espécies de morcegos, absolutamente essenciais para a regulação das nossas populações de insectos, e também o caso de diversas aves rapinas», esclareceu o vice-presidente da Liga para a Protecção da Natureza.
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A União Internacional da Conservação da Natureza alter que a meta de reduzir a perda de biodiversidade no próximo ano já não será atingida, porque, nessa altura, haverá 17 mil espécies em risco de extinção em todo o mundo. Calcula-se que, nos últimos 500 anos tenham sido extintas 800 espécies de animais e plantas.
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«As taxas actuais de extinção de espécies são muito superiores às que se verificaram em fases anteriores da história do Homem e conseguem competir com a extinção que encontraríamos associadas a uma grande catástrofe mundial, como aconteceu há alguns milhões de anos atrás», explicou Carlos Teixeira, em declarações à TSF.
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in Diário Digital - quinta-feira, 2 de Julho de 2009 | 08:51
A preservação das baleias estará em foco a partir de hoje no Funchal, ilha da Madeira, no âmbito da 61/a reunião plenária da Comissão Baleeira Internacional (CBI) que reúne durante quatro dias mais de 600 pessoas nesta cidade. .
«Derreter o gelo» no relacionamento entre defensores e opositores mundiais da caça à baleia, por forma a criar um modelo de gestão dos interesses destas duas forças oponentes, será um dos objectivos deste encontro.
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Entre os partidários da caça à baleia mais influentes estão o Japão, que efectua esta actividade sob o pretexto de fins científicos, a Islândia e a Noruega (com objectivos comerciais), países que vêm defendendo a alteração da moratória criada em 1986 que proibia esta prática e que matam uma média de dois mil exemplares por ano.
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Diário Digital / Lusa- segunda-feira, 22 de Junho de 2009 | 06:22