Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 25 de março de 2013

Zillah Branco: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

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5 de Março de 2013 - 13h37

Zillah: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

 

A definição do território pátrio estabelece as fronteiras com outros territórios vizinhos, as milhas marítimas que cada um tem para seu abastecimento e defesa, os rios, o solo e o subsolo.

Por Zillah Branco*


A gente que aí habita, com a sua cultura, idioma e história, o povo, tem o poder e a responsabilidade de proteger o território, desenvolver as potencialidades existentes para assegurar a melhor condição de vida coletiva, zelar pelas riquezas naturais existentes para que o patrimônio nacional seja aplicado para o bem comum e conservado para as gerações futuras. As nações europeias que alcançaram durante a Idade Média maior poder em relação ao mundo ainda desconhecido, afirmaram-se como centro do conhecimento científico, filosófico e artístico e impuseram, através do domínio dos mares e da capacidade de organização de instituições que consolidaram Estados e relações políticas internacionais, o seu modelo de pensamento às nações mais pobres conquistando o estatuto de "poder cultural ocidental".

Subordinado ao modelo dos mais ricos (ou mais fortes), o mundo colonizado esmagou o orgulho nacional que defendia os seus patrimônios – naturais, culturais e históricos – que constituem a riqueza, material e imaterial, que alicerça o desenvolvimento da sua economia e do seu povo.

Hoje, em investigações arqueológicas, desvendam-se conhecimentos científicos, conceitos filosóficos e sociológicos, noções de arte, enfim, traços de uma inteligência criativa avançada que se interpenetrava de sentimentos humanísticos que ainda faltam no conhecimento atual divulgado pelo mundo ocidental.

Constata-se o tempo perdido no desenvolvimento da precária "civilização" que traduziu a sua capacidade e brilho intelectual em uma elite fortemente armada e de poder autoritário que manipula os seus dependentes.

Séculos de predação e rapina do patrimônio cultural e natural de povos que foram sendo exterminados bárbaramente no "Terceiro Mundo" – que o colonialismo e o neo-colonialismo criaram no planeta com o resíduo da sua exploração da riqueza resultante das suas "descobertas" nunca reconhecidas como "encontros entre povos" – que com o impulso propiciado pelo socialismo revolucionário deu, no século 20, decididos passos no sentido da libertação ainda que subjugados pelo sistema capitalista dominante que segue o seu curso com ideal imperialista.

Novas formas de espoliação foram criadas na Europa, agora por empresas multinacionais que acobertam as nações ponta-de-lança do imperialismo que atuam dentro das instituições administrativas das sociedades dependentes (como antes fizeram no Terceiro Mundo por meio de empresas concessionárias de serviços públicos) assenhoreando-se das riquezas do subsolo como os minérios raros e, agora, a água, e passam a vender como se fosse seu, o patrimônio que pertence ao povo.

Diferentes estratégias expansionistas deram origem à criação e povoamento europeu das nações no Terceiro Mundo onde velhas culturas indígenas foram esmagadas e povos primitivos foram escravizados com o objetivo de ser implantado um modelo "civilizado" com as características do europeu.

Paralelamente, a exploração das riquezas naturais do novo mundo enriqueceu o sistema comercial europeu que passou a constituir a base do poder econômico e político que mantinha a aristocracia reinante no continente europeu.

A Inglaterra capitaneou a Revolução Industrial esvaziando o seu território de um campesinato pobre que emigrou, com facções religiosas conflitantes com o poder instituído, para o norte da América onde sobreviveram e povoaram os Estados Unidos e o Canadá na companhia de franceses e holandeses que seguiram o mesmo caminho.

Naturalmente estas condições históricas de colonização, pelo empenho de nações europeias mais ricas que aplicavam a cultura no desenvolvimento de uma nova sociedade que se organizava no caminho da industrialização com as bases do capitalismo nascente, deram origem a colónias que permaneceram como instrumentos de poder aliadas às suas metrópoles.

No final do século 19, depois de processos de independência em que Inglaterra e França competiram hora como colonialistas, hora como libertadores do novo mundo, os Estados Unidos seguido pelo Canadá, deram início à sutil penetração nas nações latino-americanas levando tecnologia e ideias modernas de desenvolvimento econômico diferentes dos conceitos libertários herdados tanto da Revolução Francesa como da Revolução Americana que já tinham desaparecido no curso da Guerra de Secessão que dividiu o povo norte-americano entre os racistas escravocratas e os que idealizavam o socialismo utópico.

Abria-se para os países capitalistas, independentes e agora aliados, a fase do "imperialismo" que substituiu o mercantilismo e a dominação colonial por fórmulas modernas de neo-capitalismo acompanhadas de ação destruidora das culturas tradicionais e perseguição sem tréguas a qualquer expressão individual ou coletiva de doutrinas libertárias ou do socialismo científico.

Todo o Terceiro Mundo, inclusive no Oriente, foi invadido pelo vírus imperial que ficou colado às sementes da cultura e do desenvolvimento equilibrado com as origens tradicionais e as características de cada povo, com características de humildade submissa, o reverso da medalha dos preconceito de superioridade racial e civilizacional usado como instrumento de domínio.

A Revolução Socialista realizada na Rússia e que expandiu o seu exemplo por mais 15 nações da Ásia Central e da Europa do norte, tendo por base teórica o conhecimento gerado na Alemanha e França, com participação de intelectuais e instituições de muitas outras nações europeias e mesmo dos Estados Unidos, dividiu a humanidade como um todo entre explorados e exploradores, sem divisões raciais e com a consciência dos iguais direitos humanos.

A Segunda Guerra Mundial contra a expansão do domínio fascista na Europa foi vencida pela união da humanidade contra um perigo global, apesar das diferenças ideológicas históricas. A reconstrução das nações europeias também foi fruto da mesma solidariedade humanista e recebeu a ajuda (que abriu caminho para desenvolver os seus interesses de domínio) do núcleo imperial do sistema que deu grande impulso à imagem da Europa como "poder cultural" ao qual se manteve aliado até conseguir minar o sistema socialista no Continente.

Como assinala a exposição feita sobre a história da União Europeia, apresentada em final de 2012 em Bruxelas, a construção deste caminho teve início com a formação do Clube de Bilderberg formado na sequência da Segunda Guerra com políticos e militares europeus e norte-americanos que também definiram o Estado de Israel a ser implantado sobre o mundo árabe.

Este fato, que é publicitado amplamente na Europa, impede que se avalie a penetração subtil do imperialismo na sua habitual forma de dominação dos países fragilizados da própria Europa.

A aliança de uma elite política e econômica na Europa, a qual é integrada pela realeza que encabeça vários governos republicanos, com o núcleo imperial que comanda os Estados Unidos mantendo a nação como primeira potência militar e econômica no planeta, traçou em conjunto o caminho para o combate às ideias libertárias e socialistas que germinaram em toda Europa e formaram movimentos sindicais sólidos capazes de defender o direito dos trabalhadores e os direitos sociais de toda a população que são o objetivo de luta da esquerda que resistiu às invasões fascistas e às pressões ditatoriais permanentemente.

O imperialismo, fase superior do capitalismo, que sempre apareceu como uma "estratégia" da primeira potência - amplia a sua imagem mostrando que também é europeu no mundo global.

Permanece a humanidade, que se divide em exploradores e explorados, diante da ameaça de uma guerra que parece unir os dois lados adversários na paz, em defesa da dignidade humana e o direito elementar de viver.

Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho

sábado, 14 de agosto de 2010

António Dias Lourenço, um camarada inesquecível - Zillah Branco

Vermelho

www.vermelho.org.br

13/08/2010

António Dias Lourenço, um camarada inesquecível

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Zillah Branco *


Choro com os camaradas do PCP a morte de Antonio Dias Lourenço. Recordo os tempos felizes que vivemos no início da Revolução dos Cravos. Conservo o calor daquele encontro, daquele momento vivido, da aprendizagem que fizemos, da solidariedade e do amor que nos uniu para sempre cimentando a confiança na luta e na humanidade. 
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Antonio Dias Lourenço, um ser humano pleno, feito da mais dura realidade. Herói em Portugal, valoroso comunista no mundo. Nasceu em 25 de Março de 1915 em Vila Franca de Xira, de pais operários. Aos 14 anos iniciou sua carreira de torneiro mecânico e começou a procurar todas as formas de participação social, cultural e política. Aos 19 anos entrou para o PCP tornando-se logo funcionário clandestino para desempenhar as tarefas necessárias em qualquer lugar de Portugal, sempre andando de bicicleta.
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Destacou-se como ativista nas grandes greves que abalaram Portugal nos anos 1942 e 1943. Estimulado pelo movimento neo-realista por dois grandes escritores portugueses – Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol – promoveu encontros e debates sobre a literatura que retratava a vida do povo pobre e oprimido pelo fascismo de Salazar.
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Cresceu na pobreza dela extraindo a maior riqueza. Foi operário metalúrgico, militante sindical, comunista perseguido, sempre estudando e aprendendo, sobretudo observando com amor os seres humanos. Destacou-se na luta pela coragem e pela tenacidade, moldou na prisão a figura heróica do fugitivo audaz e inteligente que escapa da masmorra no Forte Militar de Caxias, para o mar aberto e frio. Das ondas procura refúgio junto a trabalhadores como ele, anônimos. É acolhido pela solidariedade eterna dos que sofrem juntos.
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Três anos depois foi novamente preso e torturado. Construiu no seu rosto um sorriso para não dar satisfação aos torturadores que nunca conseguiram arrancar-lhe qualquer informação.
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Somando as várias prisões, ficou detido 17 anos. Da sua libertação em Maio de 1974 disse sentir “uma alegria incrível”, que nunca mais perdeu até aos 95 anos quando morreu.
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Orador cativante formou milhares de seguidores. Exerceu todas as funções necessárias à luta do PCP fazendo-se dirigente do Partido, diretor do jornal “o Avante” (de 1974 a 1991, com a experiência adquirida como responsável pelo “o Avante”clandestino de 1957 a 1962), deputado na Assembléia da República de 1975 a 1987,  escritor da história profunda de Portugal publicou “Alentejo – legenda e esperança”, “um trajeto marcado pela determinação e a energia de um povo ao longo do qual se foi corporizando e adquirindo contornos precisos uma velha legenda escrita a fogo e sangue no mais fundo da alma camponesa – a terra a quem a trabalha!”, como registrou com documentação que vai desde a Baixa Idade Média até a realização da Reforma Agrária alcançada em Abril de 1975.
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Incansável, dirigia adormecido sem errar as estradas e sem causar acidentes. Caminhava sempre, adiando o descanso, sem nunca esquecer de ajudar quem encontrava.
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Era um forte, uma rocha no cumprimento das tarefas, um comunista cabal. Nesta fortaleza habitava um coração terno que se comovia com a expressão de um rosto de criança, com o afeto sincero que lia no olhar de companheiros de caminhada.
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Deixou saudade no nosso coração, de todos que de alguma maneira o amaram.
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Deixou o exemplo de um homem digno, de um comunista inteiro, de um amigo inesquecível, de um dos muitos heróis portugueses que o PCP gerou.
Adeus Dias Lourenço,


* Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.



  • Tudo certo…

    13/08/2010 5h42 Só um pequeno detalhe: a fuga de Dias Lourenço foi no forte de Peniche. Aí sim, é que há mar. Um abraço, em vésperas da maravilhosa «Festa do Avante!».


    António Lopes
    Lisboa-Portugal - EX
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