Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"Stalin: história e crítica de uma lenda negra". Um livro de Domenico Losurdo

"Stalin: história e crítica de uma lenda negra". Um livro de Domenico LosurdoPDFImprimirE-mail
História
Miguel Urbano Rodrigues   
Ter, 27 de Outubro de 2009 10:04
StalinHá meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projecto foi adiado dia após dia.
Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin -Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.
Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.
Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo -Sobre Trotsky - Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos académicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.
Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polémicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.
Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.
Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atracção por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de actos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.
A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.
A DEMONIZAÇÃO DE STALIN
A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durant e a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar "o fim do comunismo", a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo "fracasso inevitável da utopia socialista". Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavrastalinismo entrou no léxico político como sinónimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos.
]Não são apenas académicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin.
Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos - Breve História do Século XXum retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.
O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em Janeiro passado um prémio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenómeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza.
DA ESPERANÇA À REALIDADE
Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abi smo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.
Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.
O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena.
Acompanhando a trajectória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma selecção de factos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que actuou.
Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi excepção à regra. Mas quando ela triunfou eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica.
O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine, sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: "A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional".
A previsão foi rapidamente desmentida pela História.
O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de "O Estado e a Revolução" teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do "socialismo num só pais" e, desaparecido Lenine, acusou de cobardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial.
Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais.
Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polónia, das repúblicas bálticas, e das grandes potencias capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais.
Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com "o ascetismo universal", Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: "seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres."
Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS post Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações.
São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado.
A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx, e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial.
Às críticas de Trotsky - então no exílio - à Constituição Soviética de 36, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica.
O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS "consiste num trabalho pacífico de organização económica e no trabalho cultural e educativo". A antiga função repressiva fora "substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da acção dos ladrões e dos esbanjadores do património do povo".
Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que em 1938 "imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag".
Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista?
Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS actuava num terreno minado o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky.
A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de "agentes do inimigo".
Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trots ky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam "libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano", intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas.
A OUTRA "GUERRA CIVIL"
Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 17 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional.
Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polémicos no Politburo e no Comité Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte.
Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apre senta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista.
A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade Kirov tinha uma grande admiração por Stalin que depositava nele uma confiança total.
As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem na opinião do filósofo marxista italiano para falsificar a história. E atingiram esse objectivo.
Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalómano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khru chov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas.
]Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polémica em Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscovo.
De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS - lida por Krupskaia mas somente publicada anos depois - estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine.
Losurdo define o conflito ideológico da época como uma "guerra civil" que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano 38. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polémicas mantid as com Lenine.
O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller - Técnica do Golpe deEstado - publicado em França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano 27, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão.
Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objectivo era o afastamento de Stalin, mas o projecto fracassou e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky.
Bukharin, sempre imprevisível, fora até então - segundo Losurdo - como director do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da colectivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adoptada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adoptando uma orientação democratico-burguesa, o que significaria uma regressão histórica.
Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear "uma guerra civil preventiva" contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique.

A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo.
Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de "um acesso de violência irracional e insensata", o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama "as verdadeiras forças comunistas".
Nos processos de Moscovo os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projecto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo. 
Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários.
Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa.
Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa.
Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polónia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 36 contra o Japão na Mongólia.
Transcorridos 70 anos, continua a ser polémica a questão dos contactos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no "Bonaparte da Revolução Bolchevique" acumularam provas que o comprometem.
O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contactos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filo alemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma "conspiração dos militares". O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que "tudo depende daquilo que se entenda por conspiração".
Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão "as três guerras civis" para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin.
O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin "o representante do neotrotskismo" e "intrigante sem princípios". Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky que lhe inspirava temor e admiração.
AS ORIGENS DO STALINISMO
A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores.
Losurdo, no capítulo em que estuda as "origens do stalinismo", recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um "nacionalismo sadio", do "sentimento nacional e da ideia de pátria" com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler.
Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação reflectiu contradições antagónicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de "povos sem história", incluindo o da sua Polónia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária.
Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram porém tradução na praxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto.
Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de "uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar a nível mundial". Sublinhando que a língua não é uma super estrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas "por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações".
No seu denso ensaio, cuja rique za conceptual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da colectivização das terras.
Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o "stalinismo" não é o resultado " nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de excepção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914".
A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado.
Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: "hoje não é mais possível dirigir com métodos militares"; "a gora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização"... Então considerava um erro "identificar o Partido com o Estado" e repetia que "o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado".
Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projecto da colectivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direcção do Partido. Atingiu o objectivo, mas o preço político e social foi altíssimo.
Mas terá sido somente a p artir de 37,com o Grande Terror - expressão utilizada por Losurdo - que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia.
Nas Obras Completas de Stalin são, porém numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um carácter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos.
O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que após a derrota do III Reich hitleriano se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista.
Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polónia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. � ��Não é obrigada a isso, não é necessário". E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: "é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado". E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: "Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa".
O americano Robert Conquest, o historiador de ultra direita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que "Stalin estava repensando activamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo".
O que não suscita duvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade.
SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG
Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin.
Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente.  Mesmo durante o biénio do Grande Terror, 37-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se.   Verifica-se, escreve Losurdo, "uma interacção paradoxal e trágica".Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento económico e cultural e por outro do medo suscitado pela repressão, "dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se directores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas".
Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscovo, ao passar pela Praça Vermelha resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: "Quem esteve em Moscovo e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa».
Nas campanhas anti comunistas, os textos sobre os Gulag siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin.
Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual.
Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos.
Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulag, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho sov iéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS- salienta Losurdo - a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulag onde os homens eram tratados como "animais selvagens".
Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direcção promovia espectáculos, concertos e conferencias e que os prisioneiros em muitos Gulag estavam autorizados a publicar jornais murais.
A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de amnistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas.
Losurdo, numa critica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, fals ificando-a, procede a um breve inventario dos horrores de campos de concentração criados por potencias ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silencio.
A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, alias, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais.
E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa - incluindo crianças - cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos.
É do domínio público que na primeira metade do século XX os linchamentos d e negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles.
Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes.
O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo.
Na Alemanha ignora-se o genocídio planeado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colónia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II.
Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o facto de que o objectivo dos campos da morte do pa� �s foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto.
A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo.
Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola.
STALIN E OS JUDEUS
A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram nas últimas décadas uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin.
A receita é primária: Stalin e Hitler seriam "monstros gémeos".
Losurdo na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi ana lisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola.
Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um anti-semita fanático. Atribui-lhe uma "política canibalesca"contra os judeus, baseada num ódio racial feroz.
O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a colectivização afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num "imenso Bergen Belsen" (um campo de extermínio alemão).
Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por "infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich".
Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilharam a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra-Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS.
Losurdo, ao refutar as acusações de anti-semitismo feitas a Stalin, recorda que após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adoptou "uma politica fundamentalmente filo hebraica". A URSS foi aliás o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos actuaram como "advogados de Israel" na Conferencia da ONU sobre a questão palestiniana.
Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam aliás documentação que confirma uma realidade hoje incomoda por muitos motivos: "a União Soviética contribuiu de maneira essencial - como escreve Losurdo - para a cri ação e fortalecimento do Estado hebraico."
Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o anti-semitismo com expressões como "chauvinismo racial" e "canibalismo".
Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus, Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita também era judeu. E durante décadas milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético.
Hitler nas suas catilinárias anti-semitas atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma "horda terrorista hebraica" de "asiáticos circuncisados" e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue mas pelo espírito.
A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 gr aus, assumindo uma orientação anti-sionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meier a Moscovo, iniciaram contactos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objectivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos.
"Cada hebreu - teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev - é um nacionalista, é um agente da espionagem americana".
Losurdo aborda com cautela o tema da alegada "conspiração" dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polémicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu na époc a que os médicos do Kremlin eram "culpados de traição".
COMUNISMO ANTITESE DO FASCISMO
A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista na qual um dos objectivos era a destruição da imagem positiva projectada no mundo pela União Soviética produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine.
A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como "O império do mal" e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas criticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferências dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projecto fracassado não apenas utópico, mas monstruoso.
Qualquer cientista p olítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas simulando ignorar a evidencia- o comunismo é uma fase superior do socialismo - os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS.
A maioria dos Partidos Comunistas - o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são na Europa excepções ao revisionismo - não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas.
Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas.
Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que académicos de gra ndes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicado sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, forambest-seller mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade.
Domenico Losurdo nos capítulos dedicados á psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler desce às origens e motivações da estratégia anticomunista.
Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente umComplot alemão e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial.
Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biénio 37-38 dos Processos de Moscovo, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin.
Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos "monstros comunistas".
Recorda - apenas um exemplo que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porem, que esse massacre abjecto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros - como prova do carácter bárbaro, desumano do regime soviético.
Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manua is de História, Losurdo cita entre outros:
- A morte por fome e maus-tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos Alemães na Frente Leste.
- A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quénia, após a rebelião dos Mau Mau.
-O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objectivos militares com o objectivo de aterrorizar as populações.
- A execução na Sicília por ordem do general Patton de soldados italianos que se tinham rendido ao exercito americano.
- O genocídio nas Filipinas no começo do século XX durante a revolta contra a ocupação norte-americana.
- O extermínio total da população aborígene da Tasmânia.
- A recusa de fazer prisionei ros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX na qual Churchill participou como oficial de cavalaria.
- A execução em Taejon em Julho de 1950 de 1700 coreanos que antes do fuzilamento foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados.
- O extermínio pelo exercito dos EUA do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos.
- A ordem de Nixon no inicio dos anos 70 para que fossem lançadas nas áreas rurais do Camboja mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial.
- E o mais trágico e abjecto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki em Agosto de 1945.
O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA
Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial.
Churchill declarou e m 1933 que via "o génio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo"...
Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político "extremamente competente", com um "sorriso que desarmava"e um "subtil magnetismo pessoal".
Lloyd George, o ex Primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como "um grande homem".
Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS.
Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que na Conferencia de Teerão lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura.
Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referencias altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX.
Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar no famoso discurso de Fulton os perigos daquilo a que chamou a "Cortina de Ferro".
Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin.
A abertura dos Arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência directa na condução da guerra patriótica.
A tese provocatória dos monstros gémeos", difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin.
Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS Staliniana.
A escritora sionista pretende iluminar " a origem do totalitarismo", mas na realidade o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão.
A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia.
Losurdo pulveriza a tese e lembra com fundamento que pelo pensamento e pela sua intervenção na Historia foram precisamente duas personalidades antagónicas.
Enquanto Hitler fez do racis mo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos.
Sob a sua direcção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direcção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na Africa, na Ásia e na América Latina.
Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que sem a Revolução russa o chamado estado social não teria sido possível na Europa.
Publicado na Itália por Carocci Editore, S.p.A, Roma, 2008

sábado, 24 de julho de 2010

A mentira na História e a compreensão da crise - Miguel Urbano Rodrigues

  • Miguel Urbano Rodrigues

A mentira na História
e a compreensão da crise
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O capitalismo atravessa uma crise estrutural para a qual não encontra soluções. 
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Para que os povos se mobilizem na luta contra o sistema que os oprime e ameaça já a própria continuidade da vida na Terra é indispensável a compreensão do funcionamento da monstruosa engrenagem que deforma o real, impondo à humanidade uma História deformada, forjada pelo capitalismo para lhe servir os interesses. 
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Essa compreensão é extraordinariamente dificultada pela máquina de desinformação mediática controlada pelas grandes transnacionais. Nunca antes a humanidade dispôs de tanta informação, mas em época alguma esteve tão desinformada. Nesta era da informação instantânea, as forças do capital estão conscientes de que a transformação da mentira em verdade é cada vez mais imprescindível à sobrevivência do capitalismo.
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No esforço para enganar e confundir os povos, a primeira mentira é inseparável da afirmação categórica, difundida através de um bombardeamento mediático, de que nos EUA irrompera uma grave crise, definida como financeira, resultante de especulações fraudulentas no imobiliário. Obama e os sacerdotes de Wall Street reconheceram a cumplicidade da banca e das seguradoras quando surgiram falências em cadeia, mas garantiram que o tsunami financeiro seria superado através de medidas adequadas. Trataram de ocultar que se estava perante uma crise profunda do capitalismo, de âmbito mundial.
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A simulação da surpresa fez parte do jogo.
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O presidente dos EUA e os senhores da finança mentiram conscientemente.
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As grandes crises mundiais raramente são previstas e anunciadas com antecedência. Mas quando se produzem não surpreendem. Inserem-se na lógica da História.
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Isso aconteceu, por exemplo, após a II Guerra Mundial. A aliança que fora decisiva para a derrota do III Reich não poderia prolongar-se. Era incompatível com as ambições e o projecto de dominação do capitalismo.
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A dimensão da vitória, ao eliminar a Alemanha como grande potência militar e económica, gerou uma situação potencialmente conflituosa.
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A partilha dessa dramática herança foi feita, numa atmosfera de aparente cordialidade, nas conferências de Teerão e Yalta. Mas quando os canhões deixaram de disparar, Washington e Londres logo se entenderam para criar tensões incompatíveis com o respeito pelos compromissos assumidos.
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A Guerra Fria foi uma criação dos EUA e do Reino Unido. Derrotado um inimigo, o fascismo, o imperialismo precisava de inventar outro. A tarefa não exigiu muita imaginação. Os slogans que nas duas décadas anteriores apresentavam o comunismo como ameaça letal à democracia foram rapidamente retomados.
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Como os povos estavam sedentos de paz, uma gigantesca campanha de falsificação da História foi desencadeada para persuadir no Ocidente centenas de milhões de pessoas de que a União Soviética configurava um perigo para a humanidade democrática. Essa ofensiva contribuiu decisivamente para dissipar as esperanças geradas pelas Nações Unidas e o discurso humanista sobre uma paz perpétua.
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A chamada Guerra Fria nasceu dessa mentira. O famoso discurso de Fulton, quando Churchill carimbou a expressão Cortina de Ferro para caracterizar a imaginária ameaça soviética, foi previamente discutido com a Casa Branca. O medo da «barbárie russa» abriu o caminho à doutrina Truman e à NATO.
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Não foi a URSS quem tomou a iniciativa de romper os acordos assinados pelos vencedores da guerra.
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Cabe recordar que, somente após o afastamento dos comunistas dos governos da França e da Itália, os ministros anticomunistas deixaram de integrar governos de países do Leste europeu.
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É também significativo que os historiadores norte-americanos e ingleses – com raríssimas excepções – omitam que a implantação de regimes alinhados com a União Soviética se concretizou na Europa sem recurso à força armada, enquanto na Grécia – país situado na zona de influência inglesa – o exército de ocupação britânico desencadeou uma violenta repressão quando os trabalhadores revolucionários estavam prestes a tomar o poder. Foram então abatidos milhares de comunistas gregos para garantir a sobrevivência de uma monarquia apodrecida, mas os media ocidentais ignoraram esses massacres. O tema era incómodo.
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O tão comentado plano russo de «conquista e dominação mundiais» não passa de um mito forjado em Washington e Londres para criar o alarme e o medo propícios à criação da NATO como «aliança defensiva» capaz de se opor «à subversão comunista». E a arma atómica passou a ser usada como instrumento de chantagem.
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Na realidade, a URSS, a quem a guerra custara mais de 20 milhões de mortos (a maioria homens de menos de 30 anos), precisava desesperadamente de paz para se reconstruir. As hordas nazis tinham devastado as zonas mais desenvolvidas e industrializadas do país. Como poderia desejar a guerra e promover o «expansionismo comunista» uma sociedade nessas condições?
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A agressividade vinha toda dos EUA que tinham sido enriquecidos por uma guerra que não atingiu o seu território e na qual as suas forças armadas sofreram perdas muito inferiores às do seu aliado britânico.
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A Grã-Bretanha, cujo império principiava a desfazer-se, ligou, porém, o seu destino ao colosso americano. Os elogios ao aliado russo, antes frequentes, foram substituídos por insultos e calúnias. Aos jovens de hoje parece quase inacreditável que Churchill, o inventor da Cortina de Ferro, meses antes do final da guerra tenha afirmado: «não conheço outro governo que cumpra os seus compromissos (…) mais solidamente do que o governo soviético russo. Recuso-me absolutamente a travar aqui uma discussão sobre a boa fé russa» (Citado por Isaac Deutscher em Ironias da História, pág. 184, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968).
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Assim falava o primeiro-ministro do Reino Unido pouco antes de transformar o aliado que tanto admirava em ogre que ameaçava o mundo…

Mesma hipocrisia
numa crise muito diferente

Desagregada a União Soviética e implantado o capitalismo na Rússia, o imperialismo sentiu a necessidade de reinventar inimigos para justificar novas guerras. E eles foram rapidamente fabricados. Surgiu assim «o eixo do mal». Pequenos países como Cuba, o Iraque e a Coreia do Norte, metamorfoseados em potências agressoras, foram apresentados como «ameaça à segurança» dos EUA e dos seus aliados. Um homem, Osama Bin Laden, foi guindado a «inimigo número um» dos EUA. O Afeganistão, onde supostamente se encontrava, foi invadido, vandalizado e ocupado. Bin Laden, aliás, não foi sequer localizado. Permanece vivo, em lugar desconhecido. Mas a sua organização, a fantasmática Al Qaeda, é responsabilizada como a fonte do terrorismo mundial.
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Seguiu-se o Iraque. Durante meses, a máquina mediática dos EUA inundou o mundo com notícias sobre «as armas de extinção massiva» que Sadam Hussein teria acumulado para agredir a humanidade. O secretário de Estado Colin Powell declarou perante o Conselho de Segurança da ONU que Washington tinha provas da existência desse arsenal de terror. O britânico Tony Blair garantiu que também dispunha dessas provas.
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O Iraque foi invadido, destruído, saqueado e, tal como o Afeganistão, permanece ocupado. Mas Bush e Blair acabaram por reconhecer que, afinal, as tais armas de extinção massiva não existiam.
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Entretanto, o complexo militar industrial dos EUA agigantou-se. O Orçamento de Defesa do país é o maior da História.
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Agora chegou a vez do Irão. O berço de uma das mais importantes civilizações criadas pela Humanidade é a mais recente ameaça à «segurança dos EUA». A Agência Internacional de Segurança Atómica não conseguiu encontrar qualquer prova de que o país esteja a utilizar as suas instalações nucleares com o objectivo de produzir armas atómicas. Com o aval do Brasil e da Turquia, o governo de Ahmanidejah comprometeu-se a que o seu urânio seja enriquecido no exterior com fins pacíficos. Mas Washington acaba de impor, através do Conselho de Segurança da ONU, novas sanções a Teerão. Mais: o presidente dos EUA ameaçou já utilizar armas atómicas tácticas contra o país se ele não se submeter a todas as suas exigências.
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Isto acontece quando Obama se viu forçado a demitir o comandante chefe norte-americano no Afeganistão na sequência de uma entrevista na qual o general Mc Chrystal – aliás um criminoso de guerra – (ver artigo de John Catalinotto em odiario.info, 12.7.2010) criticou duramente o presidente e esboçou um panorama desastroso da política da Casa Branca na Região.

Entre a farsa e a tragédia

Diariamente, os grandes media norte-americanos repetem que a crise foi praticamente superada nos EUA graças às medidas tomadas pela administração Obama. É outra grande mentira. A taxa de desemprego mantém-se inalterada e a situação de dezenas de milhões de famílias é crítica.
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É suficiente ler os artigos sobre o tema de prémios Nobel da Economia, aliás empenhados na salvação do capitalismo – Joseph Stiglitz e Paul Krugman, por exemplo – para se compreender que a situação, longe de melhorar, pode eventualmente agravar-se.
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Não é a taxa do PIB que lhe define o rumo, porque a crise, global, é do sistema e não apenas financeira.
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Os discursos do presidente contribuem para confundir os cidadãos em vez de os esclarecer. Persistem contradições entre a Casa Branca e a finança. Mas elas resultam de os senhores de Wall Street e os chairman das grandes transnacionais considerarem insuficientes as medidas da administração que os beneficiaram. Pretendem voltar a ter as mãos totalmente livres.
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A retórica presidencial não pode esconder que a estratégia de Obama visou no fundamental salvar e não punir os responsáveis por uma crise que adquiriu rapidamente proporções mundiais.
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As empresas acumulam novamente lucros fabulosos enquanto os trabalhadores apertam o cinto. A desigualdade social aumenta e os banqueiros, driblando decisões do Congresso, continuam a atribuir-se prémios principescos.
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O grande capital resiste, aliás, com o apoio firme do Partido Republicano, a todas as medidas de carácter social, na maioria tímidas – como a reforma do sistema de saúde – que a administração adopta (ver artigo de John Bellamy Forster, odiario.info,13.7.2010).
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É cada vez mais transparente que estamos perante uma crise do capitalismo, sem solução previsível, embora a esmagadora maioria da humanidade não tenha tomado consciência dessa realidade.
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A tentação de ampliar a escalada militar na Ásia como saída «salvadora» é muito forte, mas no próprio Pentágono generais influentes temem as consequências de um ataque ao Irão. A invasão terrestre está excluída e o bombardeamento com armas convencionais de alvos estratégicos não produziria outro efeito que não fosse uma gigantesca vaga de antiamericanisno no mundo muçulmano.
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O recurso a armas nucleares tácticas é a opção de uma minoria. Essa hipótese tem sido admitida por destacadas personalidades internacionais, mas não se me afigura que possa concretizar-se.
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Não obstante a vassalagem dos governos da União Europeia e do Japão, os povos condenariam massivamente uma repetição do genocídio de Hiroshima. Seria o prólogo de uma tragédia cujo desfecho poderia ser a extinção da humanidade.
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Retomo assim a afirmação do início, tema desta reflexão. A mentira na História dificulta extraordinariamente a compreensão da crise de civilização que o homem enfrenta.
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Avante 2010.07.23
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A batalha de Kursk e a falsificação da História - Miguel Urbano Rodrigues



Miguel
Urbano
Rodrigues

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A batalha de Kursk e a falsificação da História
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As comemorações do desembarque anglo-americano na Normandia, em Junho de 44, serviram mais uma vez de pretexto para uma campanha de falsificação da História de dimensão planetária. Este ano, pela primeira vez, até a Alemanha, o país vencido, se fez representar através da chanceler Angela Merkel. De Obama a Brown, com passagem por Sarkozy, os líderes do Ocidente repetiram que a batalha da Normandia foi não só decisiva para a vitória sobre o nazismo como o maior acontecimento militar da História. Todos estavam conscientes de que mentiam.
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Da contribuição da URSS para o esmagamento do III Reich não se falou praticamente.
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É significativo que os historiadores militares norte-americanos e britânicos, com raríssimas excepções, desconheçam nas suas obras a batalha de Kursk ou se limitem a breves referências.
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A omissão não resulta de ignorância. Tornar pública a verdade sobre Kursk pulverizaria os mitos forjados por Hollywood sobre a participação dos EUA na II Guerra e arrancaria a máscara à moderna historiografia norte-americana, tirando-lhe credibilidade.
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Kursk foi pelos efectivos e armamentos nela empenhados a maior batalha da História. Nela participaram 4 155 000 soviéticos e alemães. A fase defensiva e a ofensiva somadas duraram escassas semanas (Estalinegrado prolongou-se por sete meses). Mas os meios utilizados – 69 000 canhões, 13 200 tanques e canhões de propulsão e 11 950 aviões – superam de longe o total dos equipamentos bélicos terrestres e aéreos mobilizados por americanos e japoneses durante os quase quatro anos da Guerra no Pacifico. (1)
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A batalha de Kursk mudou o rumo da guerra. O Exército Vermelho retomou ali a iniciativa e passou à ofensiva para a manter até à tomada do Reichstag, em Berlim, em Maio de 45, que ficou a assinalar a capitulação incondicional da Alemanha nazi.
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Julgo útil esboçar para o povo português muito resumidamente o quadro em que ocorreu o gigantesco confronto de Kursk e alguns factos e situações que os historiadores ocidentais – incluindo os da Alemanha – têm omitido nas suas obras.
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Em Fevereiro e Março de 1943, quando o Exército Vermelho deteve o movimento ofensivo iniciado após o aniquilamento e capitulação em Estalinegrado do VI Exército Alemão de Von Paulus, a Wehrmacht desencadeou uma contra-ofensiva que lhe permitiu reocupar na Região Centro – Sul, entre outras, as cidades de Karkhov, Orel e Bielgorod.
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Formou-se assim naquela área, quando a Frente se estabilizou no início da Primavera, aquilo a que se chamou o Saliente de Kursk, um território quase quadrado, com uma dimensão equivalente à da Bélgica, que entrava como uma cunha pelas linhas alemãs.
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Consciente da importância estratégica do Saliente, o Grande Estado Maior Geral Soviético (EMGS) começou a acumular na retaguarda poderosas forças com a intenção de desencadear uma grande ofensiva no início do Verão. Durante o Inverno a indústria de guerra soviética ultrapassara pela primeira vez na produção de tanques e aviões a do bloco nazi. A força de combate do Exército Vermelho era também já largamente superior à da Whermacht e satélites (italianos, romenos, húngaros entre outros).
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No início de Abril, o EMGS, que tinha decifrado os códigos utilizados pelos alemães, tomou conhecimento de que Hitler decidira retomar a ofensiva no Verão para vingar a humilhante derrota de Estalinegrado que destruíra o mito da invencibilidade alemã. Por informações posteriores de pilotos e oficiais capturados soube-se que «Citadel» seria o nome da grande operação em estudo.
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O plano, elaborado pelo marechal Von Manstein, previa o ataque simultâneo a partir do Sul e no Norte, a meio do Saliente, com o objectivo de cercar as forças soviéticas ali concentradas, cortando-lhes a retirada. Para o efeito, os alemães mobilizaram 950 000 homens, 10 800 canhões, 3000 tanques (16 divisões Panzer) e três mil aviões, entre os quais os Focke-Wulf 190 e bombardeiros Henschel-129. Entre as novas armas a utilizar figuravam os tanques pesados Tigre e Pantera. A operação seria desencadeada entre 3 e 6 de Julho. Na sua ordem de serviço Hitler afirmou que ela deveria transformar o inimigo numa tocha que iluminaria o mundo.
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Em Nuremberga, o marechal Keitel reconheceu que o Estado Maior alemão subestimara o poder do Exército Vermelho e ignorava que ele conhecia em pormenor o «Citadel».
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Foi precisamente o conhecimento do plano alemão que levou o marechal Zhukov, em relatório enviado ao Grande Quartel General em 8 de Abril, a sugerir uma alteração da estratégia prevista. Propôs que, em vez da ofensiva em preparação, o Exército Vermelho aguardasse o ataque da Wehrmacht em linhas fortificadas a construir e, após uma curta batalha defensiva em que seriam infligidas enormes perdas aos alemães, passasse imediatamente à ofensiva. Estaline, após alguma hesitação, aprovou o projecto de Zhukov que contou com o apoio de Vassilevsky.
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Os marechais Manstein e Kluge estavam convictos de que na sua fulminante ofensiva iriam enfrentar apenas os Exércitos soviéticos das Frentes Central e de Voronej, no interior do Saliente. Esperavam uma vitória tão rápida que descuraram o problemas das reservas.
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Na realidade intervieram na batalha os Exércitos Soviéticos de mais quatro Frentes – a Ocidental e a de Briansk, a Norte, e a da Estepe e a do Sudoeste, do lado Sul.
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O dispositivo defensivo, montado em menos de três meses, foi considerado inultrapassável pelo Quartel General Soviético. Contra o que é habitual, na batalha defensiva, a superioridade soviética era considerável. Dispunham de 1 632 000 homens, 27 000 canhões e morteiros, 5000 tanques, entre os quais o T-34, considerado pelos especialistas o melhor veículo couraçado da II Guerra, e 3000 aviões de combate.
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A Frente da Espete foi concebida para funcionar na prática como um conjunto de exércitos de reserva.
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Na madrugada do dia 5, os alemães, surpreendidos por um bombardeamento inesperado da artilharia soviética, desencadearam a ofensiva. A Luftwaffe despejou milhares de toneladas de bombas sobre as linhas soviéticas e as divisões Panzer ao arrancarem foram apoiadas por uma barragem ininterrupta de artilharia.
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A extraordinária concentração de meios numa área de extensão reduzidíssima permitiu aos alemães avançarem alguns quilómetros nos dias 6, 7 e 8: 10 a 12 a Norte e um máximo de 30 a 35 a Sul. Mas foram incapazes de romper as linhas soviéticas. Longe iam os dias da blietzkrieg, a guerra relâmpago.
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No segundo dia da batalha a Força Aérea soviética conquistou o domínio definitivo do ar e uma semana depois a Luftwaffe foi praticamente varrida dos céus de Kursk.
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Consciente de que «Citadel» estava a evoluir mal e de que a esperança de fechar as tenazes em torno do inimigo, cercando-o, eram remotas, Manstein lançou os seus panzer contra Prokovohka, uma pequena cidade, a sudeste do Saliente, na charneira das Frentes Central e da Estepe.
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Nessa planura travou-se durante quase três dias a maior batalha de tanques da História. Nela participaram de ambos lados 1200 carros. As perdas foram elevadíssimas nos dois campos, quase metade dos tanques empenhados. Mas no dia 12 o ímpeto germânico esgotara-se. Os alemães careciam de reservas e as soviéticas afluíam maciçamente da retaguarda.
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No dia 12, um fortíssimo contra-ataque soviético assinalou o fim da fase defensiva da batalha. As tropas das Frentes Ocidental e de Briansk atacaram nesse mesmo dia a Noroeste do Saliente. No dia 15 Koniev e Rokossovsky contra-atacaram e os alemães iniciaram a retirada. Hitler foi informado de que «Citadel» fracassara. No dia 3 de Agosto as Frentes da Estepe (marechal Zakharov) e do Sudoeste passaram também à ofensiva.
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A 5 de Agosto troaram os canhões em Moscovo para festejar a libertação de Orel e Bielgrod; no dia 23, as tropas soviéticas expulsaram os últimos alemães de Karkhov.
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A ausência de reservas aumentou muito as dificuldades da ininterrupta retirada alemã. A Wehermacht perdera em Kursk, numa semana, definitivamente, a sua capacidade ofensiva.
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Roosevelt e Churchill em mensagens a Estaline felicitaram-no com entusiasmo pela a grande e decisiva vitória alcançada pela União Soviética. Roosevelt escreveu então que «o mundo nunca viu tão grande devoção, determinação e capacidade de sacrifício como as do povo russo e dos seus exércitos». Mas, anos depois, quando principiou a Guerra Fria, a batalha de Kursk desapareceu da historiografia anglo-americana.
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Na Alemanha, o próprio marechal Manstein dedica-lhe poucas páginas nas suas Memórias e em «Vitórias Perdidas» (Bona, 1955). A falsificação da História, montada com perversidade por iniciativa dos governos de Washington e Londres foi levada tão longe que um conceituado académico estadunidense, Hanson Baldwin, num livro dedicado às «Onze maiores batalhas» da II Guerra apenas inclui Estalinegrado na Frente Leste. Kursk não é sequer citada, mas da lista constam Corregidor (uma humilhante derrota americana nas Filipinas) e Tarawa, uma desconhecida ilhota do Pacífico onde 10 000 americanos enfrentaram outros tantos japoneses...
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Estratégia e tácticas inovadoras
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A historiografia soviética dedicou milhares de páginas à Batalha de Kursk, mas somente algumas dessas obras foram traduzidas para idiomas estrangeiros.
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A atenção preferencial dedicada pelos historiadores militares a essa batalha resulta não tanto por ela ter mudado o rumo da guerra mas sobretudo por ter assinalado uma viragem inovadora naquilo que definem como «a arte militar soviética».
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A maioria coincide na conclusão de que Kursk não deve ser considerado um «modelo» para outras batalhas porque nunca mais foi possível utilizar tantos meios humanos e materiais numa área tão reduzida. Os marechais Zhukov, Vassilevsky e Zakharov reflectem sobre o tema nas suas obras. Uma síntese especialmente esclarecedora figura num ensaio do coronel Vasily Morozov, professor de História no Instituto de História Militar do Ministério da Defesa da URSS.
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O autor nesse estudo alerta para os aspectos mais inovadores do grande choque.
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O primeiro deles foi a súbita inversão de estratégia. Kursk foi concebida para ser uma batalha ofensiva. Daí as enormes reservas acumuladas na retaguarda, das quais os alemães tinham um conhecimento superficial. Pela primeira vez na História – salienta Morosov – as forças que defendiam eram muito superiores às do atacante em efectivos e na qualidade e quantidade do armamento.
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A opção pela defensiva inicial baseou-se na certeza de que essa superioridade impediria a ruptura da frente pelo inimigo. As defesas, em toda extensão do Saliente, desdobravam-se em três escalões todos protegidos por obstáculos anti tanques, campos de minas e uma densidade de artilharia por quilómetro inédita.
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As forças alemãs, como já foi sublinhado, não conseguiram romper a frente em qualquer dos sectores da mesma.
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O facto de a contra-ofensiva soviética ter partido com diferença de poucos dias de seis frentes diferentes surpreendeu e desorientou o Alto Comando da Wehermacht e desmoralizou os exércitos alemães forçados a passar da ofensiva a uma defensiva caótica.
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Outra inovação em Kursk foi o emprego pela primeira vez de exércitos de tanques autónomos. Até então as forças blindadas estavam ligadas a exércitos ou grupos de exércitos de infantaria de cujo comando dependiam.
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A coordenação das acções dos exércitos de tanques, da força aérea, da infantaria, e da intervenção das reservas obedeceu também a esquemas inovadores.
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Informações sobre a localização exacta dos aeródromos alemães recebidas dos guerrilheiros que combatiam na retaguarda dos nazis permitiram bombardeamentos de precisão que destruíram ou danificaram muitos aviões da Luftwaffe.
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A engenharia militar construiu no Saliente uns 6000 quilómetros de trincheiras, dezenas de pontes, centenas de quilómetros de estradas e ramais ferroviários, 78 hospitais (alguns com instalações subterrâneas), campos de aviação.
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A logística preparada para a batalha excedeu tudo o que no género se fizera desde o início da invasão. As redes de abastecimento de alimentos e combustíveis e de comunicações telefónicas e telegráficas desempenharam um papel importantíssimo durante a batalha, assegurando comunicações seguras entre as Frentes, as unidades da vanguarda e da retaguarda e Moscovo.
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Os generais Pavel Doronin e Konstantin Krainyukov publicaram importantes estudos sobre a participação do PCUS em todas as fases da batalha. O trabalho político desenvolvido pelos representantes do Partido das trincheiras à retaguarda contribuiu muito para o elevado moral das tropas. No auge da luta foram realizados concertos e espectáculos teatrais com a presença de destacados artistas nacionais.
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Não há falsificações dos escritores e académicos da burguesia que possam apagar o significado histórico da batalha de Kursk.
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Acontecimento estratégico de viragem, o seu desfecho não teria sido possível se os homens que ali quebraram a coluna vertebral da Wehrmach não contassem com o apoio total do seu povo, agredido pelas hordas hitlerianas.
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Kursk não foi uma excepção. Inseriu-se numa saga de sobrevivência nacional.
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Os seus combatentes, como os de Moscovo, de Stalinegrado, do Cáucaso, da Bielorrússia e de outras batalhas vitoriosas pertenciam a uma geração que deu continuidade ao espírito revolucionário dos heróis de Outubro de 17. Nas circunstâncias mais difíceis, os soldados da União Soviética bateram-se com a convicção inabalável de que assumiam não somente a defesa do seu povo como a causa da humanidade ameaçada pela barbárie fascista.
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(1) Os números citados neste artigo foram extraídos do Livro «The Battle of Kursk», Ed. Progresso, Moscovo, 1974, que reúne ensaios e depoimentos de 25 altas personalidades soviéticas, entre as quais o marechal Georgi Zhukov, comandante supremo, do marechal Alexander Vassilevsky, chefe do Estado Maior General e os marechais Rokossovsky e Koniev, comandantes de duas das seis Frentes que participaram na batalha.
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Outros Títulos:
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• Maioria dos trabalhadores fica de fora
• Um poeta militante
• A quem lucram os grandes projectos?
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Avante 1383 - 2009.12.30
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