Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 8 de abril de 2012

Cinco mulheres mais importantes do que se pensava na vida de Jesus



Religião


08.04.2012 - 17:59 Por António Marujo
     Foi uma mulher a primeira a receber o anúncio da ressurreição de Jesus, que os cristãos hoje assinalam. Mas há outras mulheres importantes na vida de Cristo, mais decisivas do que tradicionalmente se acreditava.
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Pormenor do "Tríptico da Descida da Cruz", no Museu de Arte AntigaPormenor do "Tríptico da Descida da Cruz", no Museu de Arte Antiga (Miguel Manso)


Maria de Nazaré, Maria Madalena, a samaritana ou a cananeia. Elas estavam lá desde o início. Apesar de desprezadas pela história, várias mulheres tiveram um papel fundamental na vida de Jesus. Muito mais decisivo do que se pensava tradicionalmente. A investigação bíblica recente começa a desvendar factos que contradizem a ideia feita. E a vincar que as mulheres fazem parte do grupo de discípulos de Jesus de forma igual à dos homens. 


Assim é: elas estavam lá desde o início e foram apóstolas, discípulas, evangelizadoras, financiadoras, interpeladoras de Jesus. “Jesus aceitou-as e não as discriminou pelo facto de serem mulheres”, diz à 2 Maria Julieta Dias, religiosa do Sagrado Coração de Maria e coautora de A Verdadeira História de Maria Madalena (ed. Casa das Letras). “Jesus não foi misógino, foi sempre ao encontro das mulheres”, acrescenta Cunha de Oliveira, que acaba de publicar Jesus de Nazaré e as Mulheres (ed. Instituto Açoriano de Cultura). 

Os evangelhos citam várias vezes as mulheres que seguiam Jesus “desde a Galileia”, onde ele começara o seu ministério de pregador itinerante. No momento da crucifixão, são elas que estão junto a Ele. Lê-se no evangelho de S. Mateus: “Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” E é a uma mulher que primeiro é anunciada a ressurreição de Jesus, que os cristãos assinalam hoje, Domingo de Páscoa. 

Maria Julieta Dias recorda que, em outra passagem do evangelho de Lucas, já se diz que acompanhavam Jesus “os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens”. 

As mulheres estavam lá, como discípulas. Em Um Judeu Marginal (ed. Imago/Dinalivro), John P. Meier, um dos mais conceituados exegetas bíblicos contemporâneos, não tem dúvidas: “O Jesus histórico de facto teve discípulas? Por esse nome, não; na realidade (...), sim. Por certo, a realidade, mais do que o rótulo, teria sido o que chamou a atenção das pessoas. (...) Quaisquer que sejam os problemas de vocabulário, a conclusão mais provável é que ele considerava e tratava essas mulheres como discípulas.” 

Julieta Dias explica que só se fala em discípulo, no masculino, porque, em aramaico, a palavra não existia. Discípulo era aquele ou aquela que servia o mestre. Mesmo assim, “deve ter sido tão forte o testemunho dessas mulheres que foi quase impossível ignorar o seu testemunho, 40 anos depois, quando os evangelhos foram escritos”. 

Em Jesus e as Mulheres dos Evangelhos (ed. Multinova), Maria Joaquina Nobre Júlio recorda que, na ressurreição, o desconhecido que se dirige às mulheres que iam perfumar o corpo de Jesus, lhes diz: “Porque buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou! Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia.” Este facto revela que as mulheres estavam incluídas entre o auditório de Jesus, comenta. Sobre o seu ministério, “Jesus não falou afinal só aos discípulos homens”. 

A teóloga espanhola Isabel Gómez Acebo (que é também empresária, casada e dirigente das associações de Teólogas Espanholas e Europeia de Mulheres para a Teologia) diz à 2 que “a todos os discriminados, incluindo às mulheres, Jesus veio devolver a dignidade e a liberdade”. 

“As mulheres mostram uma forma nova de Jesus se aproximar”, diz Maria Vaz Pinto, freira das Religiosas Escravas do Sagrado Coração de Jesus há 26 anos e provincial (responsável) portuguesa da congregação desde Setembro de 2009. “Com elas, Jesus mostra a sua ternura e o seu humor, chama à verdade da vida e à radicalidade da entrega.” 

Como se apagou então o protagonismo das mulheres? Com o tempo, as primeiras comunidades assumiram a cultura envolvente e voltaram a dar predominância aos homens. No momento da redacção dos evangelhos, entre os anos 70 e 100, já essa realidade é inexorável. Explica Joaquina Nobre Júlio: “A recordação do acolhimento de Jesus às mulheres foi-se esvaindo, a visibilidade e a autonomia que ganharam com Ele foram-se perdendo.” O protagonismo dado aos doze apóstolos como líderes da comunidade cristã tem outra razão, na opinião de Julieta Dias: “É um valor simbólico, para dizer que no grupo de Jesus havia capacidade de levar a boa nova às doze tribos de Israel, ou seja, a todo o povo.” 

Mas várias mulheres foram decisivas na vida de Jesus: a mãe, Maria de Nazaré; Maria Madalena, a primeira a quem é anunciada a ressurreição; ou as amigas de Betânia, as irmãs Maria e Marta. A samaritana ou a cananeia discutem com ele e acabam por ser fundamentais para que Cristo repense a sua própria missão. Há ainda a mulher pecadora que entra em casa de Simão e unge Jesus com perfume, e outras a quem ele liberta de pesos pesados: a mulher com fluxo de sangue, a que é curada ao sábado, a viúva que intercede pelo filho, a adúltera que querem apedrejar. Ou ainda as que são nomeadas junto da cruz. 

Elas estavam lá, também, na Última Ceia. “Seria anacrónico se não estivessem. A Última Ceia era uma ceia pascal e a ceia pascal dos judeus era familiar, onde estavam as mulheres e os filhos”, diz Julieta Dias, que no próximo sábado, com a teóloga Teresa Toldy, intervém num debate sobre Jesus, Mulheres e Igreja, promovida pelo movimento Nós Somos Igreja (Convento de São Domingos, Lisboa, 16h). Isabel Gómez Acebo ironiza: “Quem cozinhou na noite da Última Ceia? As mulheres.” 

Maria de Nazaré: de máe a discípula
Descontadas as narrativas da infância de Jesus, de carácter simbólico, não são muitas as referências dos evangelhos à figura da sua mãe. E quando as há nem sempre são simpáticas. Nos três textos sinópticos (os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, assim designados por terem narrativas paralelas), há mesmo discussões porque a família de Jesus queria que ele deixasse o ministério itinerante de pregação. “Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, responde um convicto Jesus quando a família o procura. 

Geza Vermes, nascido na Hungria, actualmente professor emérito da universidade inglesa de Oxford, e um dos estudiosos da Bíblia mais conceituados na actualidade, comenta (Quem é Quem no Tempo de Jesus, ed. Texto): “Depreende-se ser óbvio que a família não era bem-vinda. Eles representavam a atitude dos familiares que estavam determinados a [impedir Jesus] de prosseguir a sua carismática missão.” Outras frases semelhantes apontam “claramente para um desacordo sério entre ele e os seus mais próximos e mais amados.” 

Maria aparece junto da cruz apenas no evangelho de S. João. Depois, está com os discípulos no Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. Jacques Ducquesne (Maria — A Verdadeira História da Mãe de Jesus, ed. Asa) refere outro mistério que é preciso esclarecer: Maria ocupa um lugar “considerável” nos evangelhos apócrifos, que não foram reconhecidos como autênticos pelas primitivas comunidades cristãs, “muitíssimo maior” do que nos quatro evangelhos canónicos. Aliás, as narrativas da infância de Jesus dos textos de Mateus e Lucas são, em alguns aspectos, próximas das narrativas dos evangelhos apócrifos. 

Em Dizer Deus — Imagens e Linguagens (ed. Gótica), escreve Julieta Dias: “Maria, a mãe de Jesus (…) é a discípula por excelência”, é o “paradigma do discipulado de Jesus”. Foi a personagem de Maria de Nazaré que levou Julieta Dias a estudar teologia, conta agora: “A forma como falavam dela irritava-me e levava-me a pensar que não podia ser o meu modelo: ela era virgem e mãe; eu, sendo virgem, não podia ser mãe; se fosse mãe, não seria virgem.” E quando rezava, na comunidade de religiosas, a oração do Magnificat ao final da tarde, achou que “qualquer coisa não batia certo”. Aquele hino, que Maria de Nazaré recita quando visita a prima Isabel, depois de ambas ficarem grávidas, diz: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. (…) Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias (…).” 

Este é o “texto mais revolucionário” que se poderia cantar, diz Isabel Gómez Acebo. “Há uma linha de pensamento no catolicismo que fala do silêncio de Maria, mas ela questiona muito: quando faz perguntas ao anjo na anunciação, no Magnificat ou quando diz ao filho, nas bodas de Caná, que não há vinho... É uma personalidade muito marcada.” 

Tema debatido é também se ela teve ou não mais filhos. A posição católica e ortodoxa diz que não, várias igrejas protestantes admitem que sim. Frédéric Manns (Maria, Uma Mulher Judia, ed. UCEditora) recorda argumentos linguísticos de ambos os lados para resumir: “A exegese não pode apoiar com certeza a posição tradicional católica e ortodoxa. Mas a posição contrária também não se impõe.” 

Maria Madalena: a apóstola dos apóstolos
“Quem foi, de facto, Maria Madalena: uma pecadora arrependida, uma discípula predilecta, a enviada (apóstola) a anunciar a ressurreição, a esposa de Jesus?”, perguntam Julieta Dias e Paulo Mendes Pinto no livro já citado. Foi o Papa Gregório Magno (590-604) que, num sermão de Páscoa, identificou Maria Madalena, Maria de Betânia e a pecadora que unge Jesus com o perfume como a mesma mulher. Nada mais errado, pois os evangelhos são claros em distinguir três pessoas diferentes. 

Natural de Magdala (Madalena será corruptela do nome), pequena cidade da Galileia (no Norte do actual Israel), Maria é referida nos evangelhos como alguém que, a par de outras mulheres, cuidava de Jesus e colocara os seus bens ao serviço do grupo. O facto “sugere que Maria Madalena era uma pessoa com recursos, que ofereceu a sua devoção a Jesus, que a curara” de “sete demónios”, nota Geza Vermes, que dirige o Centro de Estudos Hebraicos de Oxford. A expressão “sete demónios”, escreve Régis Burnet (Maria Madalena — De Pecadora Arrependida a Esposa de Jesus, ed. Gradiva) remete para “um poder nefasto que a ultrapassa”, um problema do foro psicológico. 

“Era uma mulher com posses, que se apaixonou por Jesus enquanto profeta itinerante”, comenta Cunha de Oliveira à 2. “É alguém que gostou de Jesus de modo incrível”, diz Maria Vaz Pinto. “Não me importa de que cor era o amor que ela tinha, o que interessa é que era tão grande que mudou a sua vida.” 

“Gosto de pensar que ela estava enamorada de Jesus”, acrescenta Isabel Gómez Acebo. “Os evangelhos apócrifos apresentam Maria Madalena como rival de Pedro. Ela tinha tido um protagonismo tão forte que algumas comunidades cristãs do início a seguiram a ela.” 

Madalena é, disso não há dúvida, a primeira pessoa a quem Jesus aparece após a ressurreição. “É a ela que ele diz: vai e anuncia; é patente que Jesus não aparece a Pedro nem à mãe”, nota a teóloga espanhola. E Maria Vaz Pinto recorda que, após a ressurreição, quando Maria pensa que é o jardineiro e reconhece Jesus ao ouvir chamar pelo seu nome, ela quer agarrá-lo. Mas Jesus diz-lhe “não me detenhas” — o célebre “Noli me tangere” fixado em dezenas de obras ao longo da história da arte. “Ele empurra-a para os outros e ela vai”, o que faz dela uma das principais seguidoras. Isabel Gómez Acebo observa que, durante séculos, as relações de Jesus com mulheres foram reduzidas “à sua mãe ou a mulheres pecadoras”. Não convinha, diz, que fossem “amigas nem discípulas”. Mas Maria “foi a primeira discípula”. Por isso a tradição irá apresentá-la “como prostituta a quem Jesus tinha tirado da miséria”. O que “nada tem a ver com a personagem real”. 

Maria de Betânia: a discípula que escuta o hóspede
Irmã de Marta e Lázaro (amigos de Jesus), Maria de Betânia, aldeia próxima de Jerusalém, aparece em duas cenas no evangelho: quando as irmãs choram a morte de Lázaro (texto do evangelho de João, lido nesta semana que antecede a Páscoa) e quando Jesus passa por sua casa e Maria se senta a escutá-lo enquanto Marta se atarefava “com muitos serviços”, como conta Lucas. Marta queixa-se da irmã a Jesus, mas este repreende-a: “Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.” 

“Estar aos pés do mestre é, na literatura rabínica, ser discípulo de alguém”, diz à 2 a religiosa espanhola Isabel Maria Fornari, autora de uma tese com o título La Escucha del Huésped (ed. Verbo Divino, Espanha), onde estuda este episódio. Mas a cena remete também para a hospitalidade bíblica, que inclui um elemento importante: o da comunicação. “É importante servir, comer, mas, quando alguém vem a nossa casa, mais importante é a comunicação que se estabelece.” 

Isabel Fornari relaciona este episódio com outro passado já depois de Jesus ter deixado o convívio com os seus: no livro dos Actos dos Apóstolos, conta-se que a comunidade cristã de Jerusalém tem de optar por colocar um grupo a servir à mesa para que os apóstolos possam dedicar-se ao anúncio da mensagem de Jesus. “O mandato de Jesus ‘ide, fazei discípulos e ensinai’ supõe aprender. E isso faz-se num novo horizonte de hospitalidade que dá prioridade à comunicação.” 

Este episódio foi lido durante muito séculos como afirmando a primazia da vida contemplativa sobre a vida activa. “Não tem nada que ver”, diz Isabel Gómez Acebo. “Jesus foi um homem de acção, que orava de noite mas de dia estava com as pessoas”, diz. “Jesus era um homem activo que tinha a presença de Deus a seu lado; não ficou a orar no deserto, foi de cidade em cidade falar às pessoas.” 

O facto de Maria de Betânia se colocar à escuta, diz ainda Maria Vaz Pinto, é “também uma manifestação de amor: estar quieta, aprender, ouvir, deixar-se tocar”. 

Samaritana: saltar todas as normas da moral
É, provavelmente, um dos textos mais notáveis dos evangelhos, este em que Jesus pede água a uma samaritana. Duplo pecado: dirigir a palavra a uma mulher, ainda por cima da Samaria — “os judeus não se dão bem com os samaritanos”, explica a narrativa de São João. A cena decorre por volta do meio-dia, junto ao poço de Jacob, em Sicar. Jesus está cansado e quer descansar e refrescar-se. 

“Jesus adopta logo, implicitamente, o lugar inferior. As suas palavras não são uma ordem, mas um pedido. Dirige-se [à samaritana] de mãos vazias, à procura de qualquer coisa que só ela é capaz de lhe dar”, escreve o Irmão John, de Taizé (À Beira da Fonte, ed. AO). 

“Jesus salta todas as normas da moral judia”, diz Isabel Acebo. “Os patriarcas de Israel encontravam-se naquele poço. Jesus aparece a esta mulher, que já tinha tido seis maridos, como um esposo novo”, de cariz diferente. A mulher espanta-se: “Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?” Jesus responde: “Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!” Jesus acrescenta depois: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.” 

O diálogo prossegue com Jesus a dizer que chegará a hora em que Deus será adorado “em espírito e verdade” e não num qualquer templo. E quando a mulher diz que todos esperam o messias, Jesus diz-lhe: “Sou eu, que estou a falar contigo” — é a única vez em que se assume como tal perante alguém. 

Em Dizer Deus, escreve a teóloga italiana Nicoletta Crosti: “Esta mulher representa-nos a todos (...) representa o caminho do ‘acreditar’, (...) a nossa sede de uma vida mais rica (...), as infinitas perguntas sobre as coisas últimas e penúltimas.” 

A pecadora de Betânia: Jesus deixa-se acariciar
É uma mulher que “entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar”, escreve o biblista José Tolentino Mendonça em A Construção de Jesus (ed. Assírio & Alvim). Nesta obra, o autor analisa o episódio em que uma pecadora irrompe pela casa de Simão, um fariseu, que convidara Jesus. 

“Estando por detrás, aos seus pés, chorando começou a banhar-lhe os pés com lágrimas e com os cabelos da sua cabeça os enxugava e beijava-lhe os pés e ungia-os com perfume”, conta o texto de São Lucas. Simão diz para consigo: “Se este fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca, pois é uma pecadora!” Jesus pressente o que ele pensa e, depois de lhe contar uma parábola, diz que a mulher lhe banhou os pés com as suas lágrimas e o perfumou. E conclui: “São perdoados os pecados dela, os muitos, porque amou muito.” 

“É impressionante como Jesus se deixa acariciar e não faz nenhum gesto para a afastar”, diz Isabel Gómez Acebo. Para Maria Vaz Pinto, a mulher traduz “outra característica de quem ama, o lado feminino do que não é estritamente necessário, a extravagância que enche a vida de cor e de perfume”. Trata-se, acrescenta, de algo que “não serve para nada, mas que é um gesto muito bonito no seu excesso”. 

“A transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo” pelo próprio evangelho, comenta Tolentino Mendonça. E “nesse encontro, mais do que noutros”, essa mulher “assinala, reconhece, toca, molha e unge o mistério de Jesus”. 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Última ceia de Jesus pode ter sido numa quarta-feira e não na quinta-feira santa

Investigador revela que a Última Ceia aconteceu numa quarta-feira
Última Ceia - Leonardo da Vinci
Nova investigação


18.04.2011 - 18:15 Por PÚBLICO »
 E se a Última Ceia de Jesus Cristo tiver sido numa quarta-feira e não na comemorada quinta-feira? Num estudo publicado esta semana, Colin Humphreys, professor da Universidade de Cambridge, assegura que a última refeição que Jesus partilhou com os seus 12 apóstolos aconteceu um dia antes daquilo que se pensa.

No livro, intitulado “The Mystery of the Last Supper” (“O Mistério da Última Ceia”, tradução livre), Colin Humphreys explica que os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas usaram um calendário mais antigo do que o de João, causando discrepâncias sobre a data da refeição. 


O académico explicou à BBC que enquanto Mateus, Marcos e Lucas dizem que a Última Ceia foi uma refeição pascoal, João afirma que aconteceu antes da Páscoa judaica. 



“Há séculos que isto tem confundido os estudiosos da bíblia. Na verdade, alguém disse que este é ‘o assunto mais controverso' do Novo Testamento,” disse Humphreys, explicando que esta mudança de datas faz mais sentido tendo em conta o contexto histórico. 



“Jesus não pode ter sido preso, interrogado e julgado em apenas uma noite. Os especialistas e os cristãos acreditam que a última ceia começou depois do pôr do sol de quinta-feira, e a crucificação foi realizada no dia seguinte de manhã. O processo de julgamento de Jesus aconteceu em várias áreas de Jerusalém e os investigadores já percorreram a cidade com um cronómetro para perceber como as coisas terão acontecido e a maioria concluiu que era impossível tudo acontecer em tão pouco tempo”, explicou o professor.



Segundo a investigação, Mateus, Marcos e Lucas terão usado um calendário antiquado - adaptado do que era utilizado no Egipto nos tempos de Moisés - em vez do calendário lunar que era largamente adoptado pelos judeus na época. 



“A solução que encontrei é que todos têm razão, mas que se referem a dois calendários diferentes.”



Analisando e confrontando os dois, Colin Humphreys concluiu que a Última Ceia, aconteceu na verdade, na quarta-feira, dia 1 de Abril, do ano 33.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O tempo passa e as coisas mudam…

Semente da Renovação www.sementedarenovacao.com 

 
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Eu como web design, e nerd de carterinha, tenho um fascínio imensurável pela tecnologia da informática, isso desde guri. E o que mais me impressiona, é o fato de  o mundo da tecnologia, por sua vez, conseguir correr mais rápido que o tempo. Visto que, o que é moderno e tecnologia de ponta hoje, amanhã torna-se obsoleto e ultrapassado. Como por exemplo, há 15 anos atrás, um computador com Windows 95, memória RAM de 32 mb, e com 10gb de HD, era a sensação do momento. Hoje qualquer um teria um ataque de nervos com a lentidão deste computador, pois já está acostumado com máquinas 10x, ou 20x mais velozes do que esta.
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Todavia, esta é a tendência do mundo contemporâneo, substituir o que tornou-se obsoleto por algo “mais moderno”. E a sociedade tem se alimentado disso, mesmo que sem perceber. Não é conspiração ou coisa assim. Mas nada mais é do que o produto da nossa própria sociedade, o qual chamamos de civilizada e moderna.
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Sem dúvidas, o mundo mudou muito desde os tempos de Jesus. Mas as palavras de Cristo parecem ser tão atuais, como se Ele houvesse dito hoje. Ainda mais, quando as suas palavras se deram ao redor de um contexto de características universais, independente de época ou lugar. Pois sempre houveram e ainda há: religiosos, fanáticos, pobres, oprimidos, injustiças, arrogantes, amantes do dinheiro, impérios, guerras, etc.
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Selecionei algumas passagens do evangelhos, que a isso retratam:
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“E Jesus lhes disse: Por causa de vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível.” —Mateus 17.20
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“…disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” —João 8.7
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“Como vocês podem crer, se aceitam glória uns dos outros, mas não procuram a glória que vem do Deus único?“—João 5.44 NVI.
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“Jesus disse a eles: – Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem peca é escravo do pecado. O escravo não fica sempre com a família, mas o filho sempre faz parte da família. Se o Filho os libertar, vocês serão, de fato, livres.“—João 8.34-36 NTLH
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“Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu[...], nem pela terra [...]. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna“. —Mateus 5.34-36
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Fé um elemento universal entre todas as religiões; julgar alguém pelos erros, é algo presente em qualquer sociedade; a busca pela glória humana é um fator primordial em qualquer meio político; todo homem já errou, independente de seu caráter; e a todo segundo alguém faz juramentos debaixo do céu.
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Existem ainda, inúmeras passagens bíblicas que abordam temas que continuam atuais como estes. De fato, contudo, não há dúvidas no que Jesus afirmou sobre a sua própria pregação: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.”— Mateus 24.35
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Graça e paz,
Giovani Mariani
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Natal Cristão: Redenção ou Mito? - Jorge Messias



 

Geral

 
Vermelho - 14 de Dezembro de 2009 - 17h15

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"O tema escolhido para o presente debate poderá parecer, à partida, deslocado e sem grande interesse. O Natal é Redenção para uns, para outros é pura ficção. O Natal cristão consiste, deste modo, numa questão de leitura". 

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Por Jorge Messias*, em debate por ele coordenado realizado no dia 11 de dezembro na Câmara Municipal de Setúbal, em Portugal.

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No entanto, uma vez ultrapassado este limiar é possível, a partir da história tradicional do Natal, abrir uma janela por onde se possa olhar criticamente o passado, se entenda melhor o presente e se entrevejam algumas bases de uma posição ética comum face aos gigantescos problemas sociais que surgem a ritmo galopante. Tentemos a aventura.
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O "Natal Cristão" é revelação ou mito? Mito é, com certeza, ainda que esta evidência não envolva à partida qualquer carga negativa. Todas as formas do conhecimento passam por uma fase mítica. O mito é, simplesmente, um enigma que se transforma em símbolo. Torna-se depois necessário traçar-lhe o rumo, compreender os significados da sua substância e depurá-los.
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Numa síntese muito rápida lembremos que a Festa da Natividade assenta na tradição pagã das celebrações do solstício; que os festejos em 25 de dezembro foram marcados para essa data porque nela se perfaziam nove meses (o tempo de uma gestação) desde que a Maria de Nazaré surgira o anjo que a fecundara com o Espírito Santo; e que a narrativa inicial que dá corpo à história do Natal só é tentada pela primeira vez pelos evangelistas uns 60 anos após o nascimento de Cristo, sofrendo posteriormente o texto numerosas alterações.
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Tudo em grego e em latim, línguas só acessíveis às camadas mais cultas. A primeira tradução da Bíblia para uma língua moderna, o alemão, deveu-se a Lutero e foi impressa já no século 16. Por outro lado, as diferentes versões bíblicas tinham de receber a chancela do Concílio dos Bispos.
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De qualquer modo, o mito natalício contém em si mesmo, ainda que de uma forma simbólica e não-organizada, muitos dos ingredientes ou valores básicos que vieram a integrar a teologia e a liturgia católicas e a definir os dogmas e os contornos sociais da Igreja como instituição. Também convém recordar que só três séculos depois do nascimento de Cristo, o mito cristão se transformou em projeto utópico, com a instalação de formas rígidas de organização eclesiástica e a antevisão profética de uma cidade quimérica reservada por Deus para os seus escolhidos.
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O império romano desagregava-se e em todas as suas províncias reinava o caos, a violência e a fome. Desabavam, com a nova ordem instituída, os velhos cultos pagãos. Sentia-se estar-se em presença de uma ruptura civilizacional favorável ao estabelecimento de novos quadros de valores, nomeadamente à fundação de uma nova religião fortemente centralizada e monoteísta; da afirmação de uma hierarquia forte que atraísse e conduzisse as massas populares e ligasse as elites ao culto do sagrado, que impusesse os princípios da disciplina e da obediência e que estabelecesse um laço de relações íntimas e permanentes entre a "cidade de Deus" (a Igreja) e a "cidade dos homens" (a Coroa, o Estado feudal e as Ordens monásticas e militares).
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É retomando a substância do mito do Natal que iremos reencontrar muitas das referências dessa ideologia inovadora nas vertentes religiosas, políticas e eclesiásticas da “Nova Ordem” nascente estabelecida pela “ Igreja una, santa, católica e apostólica”. Tudo se passou há muitos séculos, o que não impede que se possa estabelecer um paralelo com os percursos do capitalismo globalizante dos nossos dias.
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Na história do Natal tudo depende do maravilhoso e do sobrenatural, nada precisa de ser fundamentado e sujeito ao pensamento crítico. O anjo apareceu a Maria, transformou-se num sonho e surgiu a José, ditando-lhe o que ele devia fazer; uma estrela guiou os reis magos; uma voz alertou a Sagrada Família do projeto de Herodes de matar os meninos.
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Em todas estas passagens, os anjos foram obedecidos disciplinadamente e terá sido essa a causa da salvação de Jesus, Maria e José. A obediência a Deus é a chave da salvação.
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Também a história dos "Reis Magos", vindos para adorarem o menino, merece reflexão. Os magos eram sábios pagãos com estatuto de realeza, senhores do ouro, do incenso e da mirra imprescindíveis ao culto e recobriam-se com mitras douradas e coroas reais. Reuniam em si mesmos a fortuna, a autoridade e o poder da profecia ou adivinhação. Eram profetas pagãos.
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Estes reis magos atravessaram pela fé o deserto hostil, guiados por uma estrela e prestaram vassalagem ao Menino-Deus que prefigurava a futura Igreja Universal. Assim, o poder pagão e laico convertia-se e reconvertia, através da obediência ao divino, toda a sociedade feudal.
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É sintomático o fato de a época do Natal começar o ciclo das celebrações a 25 de dezembro, data do nascimento de Cristo, encerrando esse breve período em 6 de Janeiro, com a Festa dos Reis Magos.
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A magia pagã, fulcro essencial do poder antigo, curvava-se perante a Criança Divina e o mundo ia nascer de novo, conduzido ao Paraíso pela mão segura da igreja profética prestes a revelar-se. Uma escassa dezena de dias resgatados pela Doutrina mas que, no entanto, contêm a simbologia básica que rege o mundo cristão.
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Estavam dados os primeiros passos para a construção da "cidade de Deus", aquela que abrigaria na Igreja o poder espiritual, o poder político e financeiro e a autoridade eclesiástica. Esta relação de intimidade atravessou a História e continua poderosa e presente nas estruturas de decisão políticas globais do século 21.
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Porém, o código oculto da história do Natal não acaba aqui. Jesus era filho de um carpinteiro e de uma camponesa. Os humildes pastores foram os primeiros a adorá-lo. Nasceu num estábulo. Toda a sagrada família, fugindo à guerra e à perseguição, a pé atravessou o deserto. Tudo sugeria ruralidade e pobreza. Porém, Mateus, com um toque de magia, introduziu na primeira versão do seu Evangelho, logo na abertura do livro, um capítulo onde se explica, com minúcia de historiador, que a estirpe de Jesus era antiquíssima e ilustre, entroncando no rei David e em Abraão. Estava feita a ligação do mito cristão ao sistema feudal (clero, nobreza, povo).
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Todavia, ao inverter assim o enquadramento social da história que iria contar em seguida (o Evangelho segundo S. Mateus), nobilitando a imagem do filho pobre de um carpinteiro, Mateus compreendeu ser incorreto e impopular desprezar o povo simples e trabalhador, os pobres. Então, retocou o seu próprio discurso. Foi o caso da curiosa "parábola do jovem rico" que a seguir se resume.
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Certo dia, um jovem ajoelhou-se aos pés de Jesus e interrogou-o acerca do que deveria fazer para salvar a sua alma. Jesus respondeu e disse: "Falta-te fazer uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos céus".
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A conclusão da história é curiosa e pode ser citada como um paradigma das regras táticas da Igreja, nessa altura ainda em processo de formação. Comenta o evangelista: “Mas o mancebo, pesaroso desta palavra, retirou-se triste. Porque possuía muitas propriedades”. E Mateus concluía: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus".
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Abriam-se de par em par para o futuro as portas do magistério ao uso e abuso do duplo sentido, do sofisma e da fusão ou da distanciação dos contrários, o largo corredor da contradição, tão frequente nas teses da igreja católica.
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Note-se que Mateus sabia do que estava a falar. Antes da sua conversão ao cristianismo fora publicano isto é, cobrador de impostos ao serviço do Império Romano. Cargo terrivelmente tentador e pouco transparente. E se insistimos nesta parábola, é porque ela inspirou nitidamente os dogmas e o tipo de ética que a Igreja viria depois a perfilhar. Uma leitura ambivalente assente na prática que consagra simultaneamente, duas doutrinas de classe: a Igreja dos Pobres e a Igreja dos Ricos. Duas linhas de desenvolvimento de sinais contrários para a mesma doutrina. Mas também duas linhas sempre disponíveis para serem usadas alternadamente pela hierarquia da Igreja.
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Valores opostos entre si que a hierarquia pode manipular permanentemente através da palavra redonda e do carácter abstrato dos seus valores-chave tais como Conversão, Perdão, Reconciliação, Compaixão, Misericórdia, etc., etc. Tal como as pitonisas gregas, o discurso da hierarquia da igreja nunca é claro e evita ser excessivamente categórico.
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Atualmente, nesta área as estratégias da igreja são servidas pela experiência acumulada ao longo dos séculos e por um aparelho eclesiástico extremamente rico e poderoso. A Igreja é presentemente "a maior e mais antiga multinacional em todo o mundo" tal como o reconheceu, há poucas semanas, uma autorizada fonte de investigação empresarial estadunidense. Não deixa de ser curioso verificar que toda esta gigantesca estrutura que domina o mundo surgiu e organizou-se no tempo, a partir do fato banal que foi o parto de Maria.
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Agora, o poder eclesiástico instalado "lá vai governando a sua barca de ouro" nos cenários edílicos do retábulo e das palhinhas. Mas os tempos são outros. Se o poder político e financeiro de que a Igreja dispõe é praticamente ilimitado, o Vaticano tem uma crescente dificuldade em ocultar as suas alianças secretas. De esconder que a força dominante que salva o lenho divino das tempestades e marés é, sem sombra de dúvida, a igreja dos ricos e não os Anjos ou a Virgem Maria. Os "ricos" com os seus escândalos, a sua cupidez, a sua completa falta de escrúpulos, amoralidades que a doutrina católica aparentemente condena.
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A questão, no entanto, é que a Igreja precisa deles, os ricos, e eles da Igreja. Mas como justificar perante o povo católico esta relação de unha com carne quando reinam no mundo a fome, a pobreza e o desemprego? Como manter intocável o "mito do Natal", fonte de muitos outros mitos? Sobretudo, como explicar às massas que a Igreja consegue "agradar a Deus e ao Diabo", sendo una e santa e planando acima de todas as contradições?
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Outrora, os povos mais humildes permaneciam pacíficos, ingênuos, crentes e submissos, perante as ofensa e as humilhações. Punham a sua esperança no sobrenatural. Uma palavra da Igreja bastava para emudecer a sua ira. E já então, tal como agora a Igreja, aliada dos poderosos, cumpria o seu papel de tampão nas lutas sociais. Mas com o rolar dos tempos muitas coisas se alteraram e estão a mudar.
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O grande problema que agora alarma o Clero é o de começar a sentir-se incapaz de inverter o curso de tendências cada vez mais presentes na própria igreja. Crescentemente, os homens põem em dúvida o sobrenatural e denunciam o papel que a Igreja desempenha no venenoso enredo capitalista. É cada vez mais evidente que são incompatíveis as perspectivas que o Papa, a Companhia de Jesus ou a "Opus Dei", alimentam acerca da religião ou do Estado e aquelas que resultam da observação, do sofrimento e da experiência dos povos.
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O homem explorado, alienado pela sociedade e duvidoso do que lhe contam e dizem, está a um passo de contestar a tutela da Igreja. Alarmada, a hierarquia observa receosa a progressão deste clima de contestação, antecessora potencial de uma eventual luta de classes no interior da própria confissão. Num futuro próximo, os jogos malabares da manipulação das realidades sociais parece terem os seus dias contados.
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O atual panorama mundial é grave e alarmante. Vivemos num mundo onde se agudizou até ao extremo a corrupção, a exploração do homem pelo homem e o fosso entre pobres e ricos. E é incontroverso que os meios de comunicação se desenvolveram explosivamente e que, no imediato, ainda que ferozmente manipulados pelos interesses dominantes, não deixam de dar a milhões de famintos a noção do poder criador do gênero humano, o saber que se choca frontalmente com a tradição dos mitos sobrenaturais. O homem tudo pode mudar. Assim o homem o queira. E se tentarmos transportar para dentro da esfera religiosa esta consciência crescente da capacidade criadora da humanidade, veremos que hoje, tal como nos tempos do Natal, as fronteiras da sociedade civil e religiosa se abeiram da ruptura, da mudança e da negação do mito.
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Agora, os povos entendem como nunca o que é a injustiça e já sabem distinguir aqueles que lutam pelos direitos das classes trabalhadoras, dos outros que muito falam mas pouco ou nada fazem para evitarem a corrosão e a destruição das sociedades a caminho da democracia.
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Quanto à Igreja, é nítido que não coloca o seu poder serviço da razão, da ética, da transformação positiva do mundo e da defesa dos pobres. O que lhe tolhe os movimentos – tal como nos tempos do mito do Natal aconteceu com o Império romano – é a ilimitada e persistente ambição do poder que a caracteriza, o arbítrio do sobrenatural convertido em dogma, o carácter impositivo da sua doutrina férrea e a duplicidade de intenções da acção das suas teias sociais em relação aos pobres e aos explorados. A Igreja caminha para o isolamento.
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Em jeito de conclusão, apenas uma alusão mais ao velho mito do Natal cristão. Com o rolar dos séculos, o Natal não cessou de evoluir negativamente. Sendo inicialmente fruto de uma proposta ingênua e utópica, com a passagem do tempo foi-se degradando. O capitalismo, tornou-o uma mercadoria e orientou-o para a busca da inovação e de novos mercados. Então, o Natal converteu-se ao paganismo da publicidade. Enredou-se nas técnicas de venda e para se valorizar aceitou intrusos a que era alheio, como os Pinheiros de Natal, o Papai Noel, a Carruagem das Renas, os Presentes Natalícios, os Retábulos, o Sapatinho na Chaminé, etc. Abastardou-se. O Natal não é já cristão, nem sequer é mito cristão.
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Existe como marca de referência. Vende-se no mercado. Distingue os ricos, com poder de compra, dos pobres que pouco têm. Mas a sua história merece ser estudada como um roteiro dos caminhos seculares da Igreja.
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* Jorge Messias é colaborador de Odiario.info

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