Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma igreja que é uma coroa em Famalicão

O novo templo católico de Santiago de Antas está carregado de referências simbólicas. Foi inaugurado no passado domingo.
***PÚBLICO - Uma igreja que é uma coroa em Famalicão

A partir da nova estrada aberta junto à igreja de Santiago de Antas, em Famalicão, o templo românico fica perfeitamente enquadrado entre a torre sineira e a nave do novo local sagrado da freguesia. Os dois edifícios não podiam, porém, divergir mais: o mais antigo é rectangular, pequeno, e granítico; o novo, que foi inaugurado no domingo, é elíptico, enorme, e construído em betão pintado de branco. “Queríamos fazer este contraste para mostrar às pessoas que é uma peça completamente diferente”, explica Hugo Correia, arquitecto que assina a obra.

A igreja antiga, com origem no século XII, está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958. O projecto de arquitectura do novo edifício teve, por isso, que passar pelo crivo do  Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar). Nas conversas com os técnicos do património “surgiu muitas vezes a pergunta: por que não reveste a granito ou de algum material próximo a nova igreja?”, conta Correia. “Nós éramos completamente contra. A igreja antiga é tão valiosa, que não queríamos correr o risco de confundir as pessoas”.

Acabou por convencer os técnicos do Igespar e desenhar uma igreja moderna, de linhas simples, mas carregada de simbolismo. No interior, os únicos ornamentos estão no retábulo do altar, desenhado por Tiago Costa, arquitecto que esteve a colaborar no gabinete de Hugo Correia nos últimos anos. Esses dois painéis foram construídos em cerâmica e decorados com folhas de ouro e prata, com imagens de S. Tiago e de Nossa Senhora da Conceição. A igreja tem formato oval e no exterior é circundada por vários anéis que se entrecruzam, criando um efeito de malha. De acordo com Correia, pretendem simbolizar a coroa de espinhos que terá assentado sobre a cabeça de Jesus Cristo no momento da sua crucificação.

Há outras referências a símbolos da doutrina da Igreja Católica na obra. O piso de madeira é percorrido por duas linhas paralelas em mármore, que ligam o exterior do edifício ao altar. A primeira, azul, representa o rio Jordão, local do baptismo de Cristo, e liga o exterior do templo à pia baptismal e depois ao retábulo mor. A segunda linha, vermelha, representa o sangue do profeta, e termina sob o púlpito onde são feitas as leituras dos textos sagrados.

A freguesia de Santiago de Antas foi uma das que foi absorvida pela cidade com o crescimento de Vila Nova e Famalicão nos últimos anos. O vizinho Parque da Devesa e novos empreendimentos imobiliários fizeram crescer uma localidade que até há 30 anos era marcadamente rural. Hoje, tem cerca de 8.000 pessoas e a velha igreja não tinha condições para acolher os que, dentro destes novos habitantes, são católicos.

“Não havia assentos para todos”, conta o padre Agostinho Alves, que está na paróquia há seis anos. Aeixou de ser um problema dentro da igreja, onde há também lugar para muitas mais pessoas – o novo edifício tem 500 lugares sentados e espaço para mais 200 pessoas nas naves laterais – e condições acrescidas para as actividades da paróquia no piso subterrâneo, onde foi criado um centro pastoral com quatro salas para as sessões de catequese e uma sala com capacidade com 200 pessoas e possibilidade de receber espetáculos e festas.

A construção da nova igreja era, por isso “uma festa que há muito tempo se esperava” na freguesia de S. Tiago de Antas, ilustra Agostinho Alves. Esse dia chegou no domingo, com a realização de uma missa inaugural a que presidiu o Arcebispo de Braga, Jorge Ortiga.

Ao todo, a obra da nova igreja de Santiago de Antas custou 3,2 milhões de euros, financiados quase exclusivamente por fundos próprios da paróquia e por intermédio de um peditório feito de porta a porta juntos da população local e do apoio de alguns beneméritos. A Câmara de Famalicão deu também um auxílio, cedendo o terreno em que o edifício foi implantado por um prazo de 100 anos e atribuindo dois subsídios, num total 230 mil euros, que serviram para pagar o projecto de arquitectura e os arranjos exteriores.

https://www.publico.pt/2016/11/28/local/noticia/uma-igreja-que-e-uma-coroa-em-famalicao-1752885

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Paço da Quinta Real de Caxias em acelerada degradação

***

foto Ricardo Campos

Palácio sob tutela militar vandalizado e a cair aos bocados em Caxias
Milhares de azulejos do século XVIII foram roubados nos últimos anos de um palácio mandado construir por um irmão de D. João VI. Paço Real de Caxias está à beira da ruína e depende do Ministério da Defesa.

Em resposta ao PÚBLICO ao fim do dia, o gabinete do ministro informou que “ainda não houve tempo para analisar a situação dos imóveis que são propriedade do Ministério da Defesa, e deste em concreto”. O porta-voz de Azeredo Lopes acrescentou que vai ser pedida informação aos serviços por forma a  tomar as medidas que for possível.
Em 2012, o anterior Governo decidiu vender em hasta pública o Paço Real de Caxias, bem como outros imóveis militares, intenção que não se concretizou até agora. 
Os jardins do paço foram recuperados pela Câmara de Oeiras, com base num protocolo celebrado com o Ministério da Defesa em 1986, mas a sua pretensão de ficar com o palácio não foi atendida pelo Governo. Embora também já revelem sinais de algum abandono por parte do município, os jardins estão abertos ao público desde há vários anos.
http://www.publico.pt/local/noticia/palacio-sob-tutela-militar-vandalizado-e-a-cair-aos-bocados-em-caxias-1718150

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Ossos de antiga prisão de Évora dão voz às vítimas da Inquisição

CATARINA ROCHA 

09/09/2015 - 07:41


Atiraram-nos para o lixo, sem qualquer respeito pelos corpos já sem vida. É o que contam os esqueletos de homens e mulheres presos pelo Tribunal do Santo Ofício de Évora. Tinham problemas nos dentes e nas articulações – mas a tortura a que eram submetidos não ficou registada no esqueleto.






O castigo era das almas, mas os corpos foram abandonados sem direito a cerimónias fúnebres ou compaixões de últimos instantes. Nos 20 metros quadrados do “quintal da limpeza dos cárceres”, a lixeira da prisão do Tribunal da Inquisição de Évora, 12 esqueletos e 980 ossos desarticulados são hoje a memória última que sobejou da vida de homens e mulheres perseguidos pelo Santo Ofício. Uma equipa de investigadores foi analisar essas ossadas, que datam dos séculos XVI e XVII, e recuperar os respectivos processos acusatórios e determinou que as vítimas terão sido acusadas de “judaísmo”, “heresia” e “apostasia”.

Os restos mortais foram encontrados por acaso, entre 2007 e 2008, durante as intervenções arqueológicas desenvolvidas para a recuperação do antigo Tribunal da Inquisição, edifício que hoje pertence à Fundação Eugénio de Almeida. Ao lado, o templo romano do século I d.C. ergue-se como símbolo da liberdade que teima em persistir. A empresa Crivarque Arqueologia e a Universidade de Évora foram responsáveis pelas escavações no “quintal da limpeza dos cárceres”, onde se encontravam dispersos, entre lixo doméstico, ossos que pertenceram a pelo menos 16 pessoas. Entre 2012 e 2013, o material osteológico foi estudado pela equipa de cientistas do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra e do Departamento de Biologia da Universidade de Évora, que publicou os resultados em Julho deste ano na revista Journal of Anthropological Archaeology.

“Encontrámos ossos de pelo menos 16 indivíduos [distinguidos pelo osso do fémur esquerdo]. Pelos relatórios arqueológicos de campo, sabemos que mais alguns esqueletos ficaram no local, porque a área onde se encontravam não iria ser afectada pelas obras”, diz Bruno M. Magalhães, da Universidade de Coimbra. A área escavada constitui apenas 11,5% do total do quintal, motivo que leva os investigadores a pensar ser possível encontrar mais restos mortais na área não explorada. “Uma vez que se escavou uma área pequena, é previsível que mais algumas dezenas de indivíduos falecidos nos cárceres de Évora tenham sido atirados para aquela lixeira.”

O que fez os investigadores concluírem que os corpos teriam sido para ali atirados foi a posição em que se encontravam. A disposição dos esqueletos era variável, o que revelou a ausência de cerimónia fúnebre. Uns estavam de barriga para baixo, outros de lado e outros virados para cima; nenhum apresentava qualquer orientação da cabeça relativamente aos pontos cardeais. Além disso, a sua posição relativamente à camada de terra indicava que os corpos não teriam sido sepultados.

“Dos 12 esqueletos recuperados sabemos que um elemento comum a quase todos é que não foi aberta sepultura para a sua colocação. Foram apenas descartados, atirados para aquele local”, diz Bruno Magalhães. “Se eram tapados ou não, não temos dados que nos digam isso, mas penso que seriam, principalmente pelos maus cheiros que existiram no local. Pelo menos uma pequena quantidade de terra seria colocada.”

Depois de analisarem fotografias do local tiradas durante as escavações – nas quais participou ainda Teresa Matos Fernandes, das universidades de Coimbra e Évora, e uma das autoras do segundo estudo –, os cientistas foram traçar o perfil biológico de cada um dos indivíduos encontrados. Os esqueletos pertenciam a 12 adultos, três homens e nove mulheres.

E o que contam os ossos sobre os indivíduos e a vida na prisão? “Sobre as condições de vida no cárcere, os ossos não contam muito. Sabemos que aqueles indivíduos morreram no cárcere, mas nem todas as doenças deixam provas nos ossos. E também não encontramos provas de torturas, como, por exemplo, membros superiores ou inferiores partidos”, diz Bruno Magalhães. “Provavelmente, se o local fosse todo escavado, teríamos outro tipo de provas. Essencialmente, as provas que temos indicam patologia oral, patologia degenerativa articular e não articular, vertebral, alguma patologia infecciosa e traumática, mas que não parecem estar associadas a tortura.”

Notícias do padre António Vieira

Mas neste caso, a literatura veio preencher as lacunas no que a biologia não pôde contar. Nas Notícias Recônditas do Modo de Proceder a Inquisição de Portugal com os Seus Presos, publicadas em 1821, o padre António Vieira ilustra as condições em que eram mantidos os presos no cárcere de Évora, enquanto aguardavam julgamento.

“Nestes cárceres estão de ordinário quatro, e cinco homens; e às vezes mais, conforme o número de presos que há; e a cada um se lhe dá seu cântaro de água para oito dias, (e se acaba antes, tem paciência) e outro mais para a urina, com um serviço para as necessidades, que também aos oito dias se despejam: e sendo tantos os em que conservam aquela imundícia, é incrível o que nele padecem estes miseráveis, e no Verão, são tantos os bichos, que andam os cárceres cheios, e os fedores tão excessivos, que é benefício de Deus sair dali homem vivo. E bem mostram os rostos de todos, quando saem nos Actos, o tratamento que lá tiveram, pois vêm em estado que ninguém os conhece.”

No cárcere de Évora, os presos estavam ainda sujeitos a tortura. Para confessarem os crimes de que eram acusados, os seus carrascos utilizavam a tortura da polé e do potro. “A tortura da polé foi preferencialmente utilizada pela Inquisição de Évora e era aplicada por ordem crescente de gravidade das acusações. O réu era colocado no banco com as mãos atadas com correias atrás do corpo e ligadas ao calabre que o içava. Era depois erguido até onde a gravidade da sua acusação o levava e largado lenta ou bruscamente”, explica Bruno Magalhães. “Na tortura do potro, que apenas foi pedida pela Inquisição de Évora em 1593, o réu era deitado com uma coleira em ferro no seu pescoço e era atado em várias partes nos braços e nas pernas. As cordas eram depois apertadas e giradas como um torniquete, pressionando de forma progressiva os membros do condenado e podendo chegar ao ponto de esmagar a sua carne e ossos.”

Numa outra fase do estudo, os investigadores foram explorar as fontes documentais que poderiam ajudar a reconstituir a identidade dos ossos. Os manuscritos do Arquivo Distrital de Évora e os registos dos encarcerados conservados na Torre do Tombo, em Lisboa, contribuíram em grande escala para conhecer melhor a história. Um dos manuscritos constatava que o “quintal de limpeza da prisão” não estaria associado à Inquisição pelo menos até 1568. Por outro lado, os planos de construção do edifício, projectado em 1634 pelo arquitecto da Inquisição Matheus de Couto, indicavam que nesta altura o quintal já não era usado como um local de depósito de lixo doméstico. Estes dados levaram os investigadores a concluir que os corpos teriam sido ali depositados entre 1568 e 1634.

Devolver a identidade

Delimitado o período de tempo, a equipa pôde recuperar 87 registos de indivíduos que teriam morrido na cadeia entre essas datas. Desses 87 registos, 11 referiam-se a presos que, depois de mortos, teriam sido depositados no quintal da prisão. Acusados de “judaísmo”, “heresia” e “apostasia”, os 11 indivíduos tinham profissões como tendeiro, ferreiro, trapeiro, rendeiro, ourives ou maceiro.

“Se eram ou não judeus, isso é impossível de afirmar. Aquela era uma época de medo e vários historiadores referem que as pessoas acusavam familiares, amigos, vizinhos com medo de eles próprios serem acusados primeiro por essas pessoas. Se eram realmente culpados daquele ‘crime’ ou não, isso nunca saberemos”, explica Bruno Magalhães. Isabel Vaz, Leonor Mendes, Gabriel Fernandes ou António Mendes são alguns dos nomes que não se perderam no tempo.

“Nem todos os processos dizem qual é o local onde a pessoa foi enterrada. E também não conseguimos acesso a uma boa parte dos processos na Torre do Tombo, porque estão em muito mau estado. Essencialmente, não nos é possível dizer que aquele processo pertence àquela pessoa”, diz Bruno Magalhães. “É possível, sim, estudarmos os indivíduos como um todo e percebermos aquilo por que passaram desde que entraram na prisão até à sua morte enquanto esperavam julgamento.”

Mas em grande parte dos casos o julgamento nunca chegava. “Estes, que mal se sabem benzer, e que, se lho perguntarem, não hão-de saber explicar que cousa é ser cristão, nem o que é ser judeu, vão logo pelos caminhos persuadindo aos presos que confessem, e tornem para suas casas”, lemos ainda nas Notícias de Vieira. “Porque os Senhores Inquisidores são de muita misericórdia, que a usarão com eles: e que se não confessarem, estarão lá muitos anos, e sairão a morrer.”

Os documentos analisados sugerem ainda que apenas pessoas acusadas de não seguir a religião católica eram depositadas no jardim, depois de mortas. Mas a lei da Inquisição portuguesa também o corrobora. O caso de Francisco Machado é exemplo que mostra as diferenças de tratamento consoante o “crime”. Acusado de poligamia, o réu recebeu em 1608 um funeral, tendo sido sepultado na Igreja de Santo Antão, junto ao Tribunal da Inquisição de Évora. “O propósito deste tratamento inapropriado aos mortos era não só para punir os seus corpos, mas mais ainda para enfraquecer e destruir as suas almas”, disse à revista Forbes, em Agosto, Bruno Magalhães.

A instituição do Tribunal do Santo Oficio em Portugal foi em 1532, no reinado de D. João III. O tribunal era simultaneamente régio e eclesiástico e a sua acção estendia-se a todo o país e territórios da Coroa portuguesa. Em 1821 a Inquisição portuguesa era finalmente extinta. Hoje, e desde Janeiro deste ano, é possível a descendentes de judeus sefarditas, expulsos de Portugal a partir do século XV, pedirem a nacionalidade portuguesa, por naturalização.

Se a equipa vai voltar ao “quintal da limpeza dos cárceres” para fazer mais escavações, ainda não há certezas. “Infelizmente, penso que o proprietário do local, a Fundação Eugénio de Almeida, não tem planos para escavar o resto do espaço nos próximos tempos. Quanto aos ossos agora estudados, também não está para já previsto outro tipo de trabalho.” Segundo refere o artigo científico, assinado ainda por Ana Luísa Santos, da Universidade de Coimbra, o estudo até agora realizado vem “manter viva a memória das vítimas” para que no futuro “actos ignóbeis como estes” não voltem a repetir-se.

“Quatro palmos de casa cabe a cada um. Aos mortos são concedidos sete pés de sepultura, e nem tantos de casa cabem a cada um destes desgraçados vivos”, assim testemunhava o padre António Vieira, cristão destemido na luta contra a Inquisição.

Texto editado por Teresa Firmino


terça-feira, 13 de maio de 2014

ÁLVARO CUNHAL: BIOGRAFIA DE UMA BIOGRAFIA

13.11.13

ÁLVARO CUNHAL: BIOGRAFIA DE UMA BIOGRAFIA

1. Entre 1999 e 2005, publiquei três volumes de uma biografia de Álvaro Cunhal, e estou neste momento a trabalhar no quarto, correspondendo aos anos de 1960-1968. Começa na primeira noite que Cunhal viveu em liberdade, depois da fuga [da prisão de Peniche], e termina com a queda de Salazar da cadeira e a sua incapacitação para continuar presidente do Conselho. Será o primeiro volume da série que termina num facto cujo significado é essencialmente político, o início do "marcelismo", e não é marcado por nenhum acontecimento dramático da vida do próprio Cunhal. Até então, no final de cada volume, havia uma mudança significativa das próprias circunstâncias biográficas de Álvaro Cunhal, a "reorganização" do PCP em 1941, a sua prisão em 1949, e a fuga de Peniche em Janeiro de 1960. Acresce que cada um destes acontecimentos compreendia um ciclo de dez anos, cada década muito diferente da anterior. Do ponto de vista da narração era uma sequência ideal, e marcava um fim lógico para cada volume que podia assim conter uma "história" com princípio, meio e fim.


2. Quando comecei a trabalhar na biografia de Cunhal, a URSS terminara como realidade geopolítica, o sistema comunista mundial desagregara-se e a guerra fria passara à história com uma clara vitória americana e dos seus parceiros da OTAN. Um subproduto dessa importante mudança história foi a abertura atribulada dos arquivos soviéticos e, mais tarde, de muitos outros partidos comunistas europeus. Essa abertura foi caótica e conheceu avanços e recuos, documentos que era possível ver nos anos 90 era quase criminoso tentar ver na década seguinte, porque se tinha de novo retomado a sua classificação de "secreto". Do mesmo modo, a abertura era desigual, centrava-se nos documentos da antiga Internacional Comunista, depositados no então chamado Instituto do Marxismo-Leninismo, mas depois esta fonte fechava-se nos chamados "arquivos presidenciais", só para se abrir excepcionalmente com a decisão de Ieltsin de permitir o acesso aos financiamentos do PCUS aos partidos comunistas. Os dinheiros deixaram de ser segredo, mas muito do resto voltou à velha tradição soviética onde só outro dinheiro, o das grandes instituições universitárias e fundações americanas, permitia, em joint-ventures com investigadores russos, continuar a aceder a novas fontes.


3. Porém, pela primeira vez, era possível fazer uma história do comunismo que não se concentrava apenas nos escassos arquivos conhecidos, uns apreendidos durante a Segunda Guerra Mundial, outros resultado de personalidades que, com risco da sua própria vida e em segredo, guardavam cópias dos papéis que lhes passavam pelas mãos, como era o caso do kominterniano Jules Humbert-Droz. Começou também a conhecer-se mais daquilo que os serviços de informação ocidentais sabiam, porque nesses arquivos também a guerra fria ia acabando, como foi o caso do tráfego rádio conhecido como "Venona", que retratava as relações clandestinas da Internacional Comunista e depois do Kominform, mas também dos serviços secretos soviéticos. O impacto desse acesso a documentos numa história até então dominada pelo testemunho memorialístico, muito marcado pela dicotomia comunismo-anticomunismo, foi enorme e traumático. Em partidos como o PCF ou o PC dos EUA, e para o movimento comunista mundial como um todo, a abertura dos arquivos soviéticos suscitou polémicas duríssimas, algumas que se reflectiram na recepção hostil do Livro Negro do Comunismo e, nos EUA, na polémica ainda em curso sobre o julgamento dos Rosenberg [Julius e Ethel Rosenberg, casal norte-americano executado em 1953 por espionagem a favor da URSS], do papel de personagens como Alger Hiss [alto funcionário norte-americano acusado de espionagem em 1948] na espionagem soviética da época.


4. Por volta de 1997, numa conversa com Francisco José Viegas, discuti um dilema que tinha entre escrever uma primeira história não-oficial do PCP ou uma biografia de Álvaro Cunhal. Pensava então que ainda não havia condições para fazer a história do PCP, mas que podia haver para escrever a biografia. Portanto, a decisão inicial foi puramente pragmática e a escolha biográfica não tem o sentido que hoje se lhe atribui de favorecer uma interpretação predominantemente subjectiva, pessoalizada da história, repetindo as suspeitas contra as biografias, que vinham da interpretação marxista da história e da sua revisão mais recente pelo estruturalismo.

É verdade que havia também a intenção de alguma maneira de reabilitar a biografia, género que tinha caído quase em extinção. Que me recorde, apenas Maria Filomena Mónica, na mesma época, fazia um trabalho semelhante sobre Eça de Queirós. Depois as biografias tornaram-se moda. A escolha pela biografia como género tinha também outra vantagem - era privilegiar uma narração que pudesse ser facilmente lida por não especialistas (na verdade, na época quase não havia especialistas...) e usar a figura de Cunhal para fazer um embrião de história da oposição a Salazar. Se se quiser havia, e há, uma intenção pedagógica e cívica no que escrevi.


5. Nunca esteve em causa fazer senão aquilo que nos meios anglo-saxónicos se chamava uma "biografia não autorizada". Tinha igualmente decidido não referir os aspectos da vida de Cunhal de natureza estritamente pessoal, quando não fossem relevantes para sua acção política. Eu sei que essa fronteira era muitas vezes ténue, mas pretendia respeitar a privacidade de Cunhal, então vivo. Tal não significava que não recolhesse todos os elementos sobre a sua vida, mas afastei deliberadamente da biografia as referências quer à sua vida pessoal e afectiva, assim como outros detalhes, como seja relatórios médicos. Escrevi então uma carta a Álvaro Cunhal dizendo-lhe da minha intenção de fazer uma biografia essencialmente política, sem voyeurismo pessoal sobre a sua vida, pedindo-lhe a sua disponibilidade para ser entrevistado. Nunca esperei que respondesse, mas entendi que o devia fazer à partida.


6. Era por isso uma biografia não autorizada sobre uma figura como Cunhal, que não era uma pessoa qualquer, e sabia que corria à partida um enorme risco: seria sempre muito difícil sobreviver a um ataque directo de Cunhal, uma vez publicado um volume, que podia pegar em dois ou três pormenores e tentar desacreditar a obra. Sempre era da vida dele que se tratava e como argumento de autoridade não havia melhor. Isso levou-me a um extremo cuidado em fundamentar cada linha, mesmo sabendo que era quase certo que havia imprecisões e erros nas fontes, que ele poderia apontar atribuindo-me negligência ou dolo, mas que eu não podia corrigir sem outros elementos.

Cunhal nunca o fez, nem ninguém do PCP por ele, e isso foi o primeiro sinal que tive de que a recepção do primeiro volume e dos seguintes pelo biografado tinha sido mais favorável do que os meus receios iniciais. Mais tarde vim a saber por diferentes testemunhos, que Cunhal manifestou várias vezes, na fase final da sua vida, uma apreciação positiva da biografia. Disse ao seu médico que eu sabia "mais da vida dele" do que ele, o que num certo sentido era verdade, porque pudera consultar documentos que ele desconhecia, como seja a parte soviética das notas das reuniões em que participara, por exemplo, com Suslov [ideólogo do Partido Comunista da União Soviética].


7. Porém, não foi fácil, nem Cunhal facilitou a tarefa, bem pelo contrário. Cunhal, prevenido, tentou tudo para evitar que recolhesse depoimentos de que precisava, principalmente sobre os seus anos de juventude. As pessoas com que precisava de falar eram quase todas octogenárias e já em número reduzido. Carolina Loff recusou liminarmente. Ludgero Pinto Basto aceitou e depois, quando compareci a um encontro combinado em sua casa, não abriu a porta. Soube depois que Cunhal o contactara. Havia uma espécie de omertà que reduzia o número de depoimentos directos, em particular os mais importantes para esse período.
Eu dispunha de alguns depoimentos obtidos sobre o PCP e Cunhal, anteriores à decisão de escrever a biografia, desde o tempo da revista Estudos sobre o Comunismo, incluindo os de Francisco Ferreira e Cansado Gonçalves, e tivera um encontro com "Pável" quando ele esteve em Portugal. Podia sempre fazer essa história com os documentos da Internacional em que Cunhal estava presente, mas seria diferente sem o comentário testemunhal de quem o conhecera in the making. Foi Stella Piteira Santos que rompeu esse silêncio e a sua colaboração dedicada foi fundamental para obter um fluxo de informações e "percepções" fundamentais. Fiquei-lhe sempre agradecido com o seu acto de coragem, porque de coragem se tratou.


8. Quando comecei a escrever a biografia de Cunhal, sabia-se muito pouco sobre a história do PCP. Hoje, muito do que entretanto se veio a conhecer teve origem na biografia que escrevi, muito usada mas pouco citada ou nunca citada, no caso do PCP. Esta exclusão, que continua nestas "comemorações", estendia-se para além dos círculos do PCP para muitos que pretendiam fazer algum trabalho sobre Cunhal ou o PCP, e pretendiam usar a biografia ou usar-me como "consultor", mas punham como condição não me citar, "visto que isso impedia a colaboração do PCP". Mandei-os passear num sítio bizarro, mas nem por isso o plágio ou a estrutura da biografia deixou de ser usado extensivamente, havendo casos de um filme em que a vida de Cunhal era muito detalhada até à data em que podiam consultar a biografia que escrevera e depois repetia os lugares-comuns que ainda hoje circulam sobre Cunhal e o PCP. Passemos adiante.


9. O que o PCP fizera de facto, que papel tinham tido Bento Gonçalves, José de Sousa, Miguel Wager Russell, Gilberto de Oliveira, e acima de tudo Francisco Paula de Oliveira "Pável" era ou ignorado, ou mitificado no caso de Bento Gonçalves. Numa altura em que o PCP era verdadeiramente uma "secção" da Internacional, controlado por quadros estrangeiros como Stella Blagoeva (nome então completamente desconhecido na história do PCP), tudo se desconhecia. O mesmo acontecia com a participação do PCP na guerra civil espanhola, as circunstâncias do seu afastamento da Internacional, e o confuso e obscuro processo da reconstituição das redes internacionais, entre a política e a espionagem, depois de 1939. No meio disso tudo, era preciso retratar o papel que começava a ter esse jovem em ascensão que era Álvaro Cunhal, papel que a "história oficial" ocultava de todo, até porque estava bem longe de ser linear.

 
10. Essa "oficialidade" da história reflectia-se em particular nos anos muito complexos de 1939-41, o período do Pacto Germano-Soviético, com o PCP afastado do movimento comunista internacional, e nos anos de duro conflito fraccionário interno entre o grupo libertado do Tarrafal e a direcção legítima do partido no interior. Cunhal foi um activo defensor do Pacto Germano-Soviético, escrevendo sob o seu nome no Diabo alguns dos artigos que mais longe iam na legitimação da concepção de que Inglaterra e França eram iguais à Alemanha nazi. Porém, a colaboração de Cunhal no jornal que substituíra o Avante!, o Em Frente, foi e é cuidadosamente esquecida. Aliás, para todos os efeitos o Em Frente não existiu nunca na historiografia do PCP.

A mesma ocultação se passava do papel de Cunhal, que estava ligado à direcção do interior, era visto com suspeita pelos "reorganizadores" e depois muda de campo e torna-se um dos principais activistas do grupo de Fogaça, Militão, Pires Jorge, Vilarigues e Dias Lourenço, escrevendo um violento requisitório contra os seus antigos companheiros, agora intitulados de "grupelho provocatório".

11. Ao escrever sobre Cunhal tive que reconstruir uma parte importante da história do Partido Comunista Português (PCP). Isto significava dar uma outra vida a personagens que eram nomeadas (as que não tinham caído em desgraça), mas que, com excepção da memorialística da repressão, na prática não existiam como parte activa dessa história. Cunhal ofuscava muitas dessas pessoas, muitas vezes com um papel decisivo em eventos da história partidária, mas a "história oficial" ofuscava-os muito mais. Eles apareciam como paisagem, mas não como actores.

Ora essa história foi feita por eles, para o bem ou para o mal da "história oficial", mas eles eram homens de carne e osso, muitos ainda vivos quando comecei a escrever a biografia e com um sentimento de injustiça, que algumas vezes exprimiam sobre o seu "apagar" da história. Estavam na história heróica e épica, mas não na história política.


12. Havia casos flagrantes de pessoas como Pires Jorge, com um papel decisivo em toda a história do PCP, dos anos trinta até ao pós-25 de Abril, que deixara um pequeno volume de memórias ao estilo habitual e impessoal, mas cujos actos, decisões, opções, modus operandi na clandestinidade, fora decisivo na história do PCP, e que falecera sendo um "nome", mas não uma vida. O mesmo acontecia com muitos outros como Dias Lourenço, que era uma daquelas pessoas que "sabia tudo", ou Jaime Serra, militantes e dirigentes cujo contributo para a história do PCP está muito para além da versão "oficial". Muitos outros, cujo rastro nas breves necrologias do Avante! aparecia retratado em frases vagas e estandardizadas. Um dos aspectos mais problemáticos de ter uma "história oficial" é não incentivar a história real, e objectivamente favorecer o esquecimento.

Recordo-me a este propósito de um encontro (junto com João Arsénio Nunes) com Manuel Guilherme de Almeida, um velho alfaiate, decano da sua classe profissional, na sua loja de alfaiataria chamada Academia de Corte Maguidal. Ele recordava que quando foi preencher a sua ficha depois do 25 de Abril no PCP e, perguntado sobre desde quando era membro do PCP, respondeu 1921. E contava ele, com ironia e alguma revolta, a "menina" nem pestanejou, ignorando que estava perante o último sobrevivente vivo da fundação do PCP.


13. Na biografia de Cunhal este foi um aspecto que sempre me interessou, dar cabeça, tronco e membros a todos aqueles que fizeram o PCP e a resistência ao salazarismo. Devo por isso e para isso, muito a homens como Dias Lourenço ou a Jaime Serra. Lourenço, comquem várias vezes me encontrei e que, mais do que factos e histórias, me permitiu perceber as relações pessoais entre o pequeno grupo de dirigentes que conduziu o PCP desde a "reorganização" de 1941 até ao pós-25 de Abril, as suas idiossincrasias, simpatias e antipatias.

O papel de Fogaça, que já pudera antever em conversas com os seus companheiros dos anos trinta, em Portugal e no Tarrafal, como era o caso de Francisco Ferreira ou Francisco de Sousa ("Macedo"), podia assim ser "actualizado" até aos anos do "desvio de direita" e à sua queda e condenação. O modo como a questão da homossexualidade de Fogaça era vista por dentro do partido, onde era conhecida sem ambiguidades, fez-me sempre duvidar da ideia de que fora afastado por essa razão, por um qualquer sobressalto moralista. Estamos a falar de um partido onde centenas de militantes passaram pela prisão e, quer no Tarrafal, quer nas prisões insulares e continentais, práticas homossexuais eram conhecidas e aceites, com muito menos puritanismo do que se imagina. Como sempre acontece em organizações clandestinas perseguidas como era o PCP, o problema essencial era saber se elas punham em causa a "segurança" da organização. Essa é que era a "linha vermelha".


14. O enorme pragmatismo dos dirigentes clandestinos com mais experiência, em que talvez o caso mais evidente seja o de Pires Jorge, levavam-nos a ver com muito mais desprendimento e sem qualquer puritanismo, as forças e fraquezas da condição humana de homens e mulheres que viviam no limite do risco. A excepcional experiência clandestina da direcção do PCP, que Cunhal também traduziu no Se Fores Preso Camarada..., apelando mais aos valores mediterrânicos da "honra e vergonha" do que à ortodoxia comunista, permitia muito mais consciência e tolerância com as fraquezas do que apologia das forças. A sexualidade tinha aí um papel importante, como bem eles sabiam, mesmo para o caso de Cunhal, sabendo bem de mais o que significava para um homem estar preso na pujança da sua idade adulta. Ou para os pais de crianças na clandestinidade que tinham que se separar dos seus filhos, o ónus que isso significava para as mães.


15.Esquece-se também que os critérios morais dos anos trinta em que estes homens se formaram e dos anos cinquenta em que eram dirigentes são muito diferentes dos posteriores aos anos sessenta, e muitas atitudes, principalmente face às mulheres, não podem ser vistas do presente para o passado. A idealização meli-melo da biografia de Cunhal, hoje em curso por certo jornalismo apoiado pelo PCP, a quem interessa reconstruir a "humanidade" de Cunhal transformando-o num bom filho, bom pai, bom irmão, bom marido e bom "namorado", pode ser sobre muita gente, mas não é sobre o Cunhal real.


16.Com pesar da minha editora, o meu próximo volume da biografia de Cunhal não vai sair a tempo do centenário de Cunhal. Digo isto à vontade, porque sou sensível à fragilidade do mercado livreiro e se tivesse possibilidade teria certamente acabado o livro a tempo de engrossar a "moda Cunhal". Mas continua a não ser fácil escrever sobre Cunhal e o PCP, e em cada época os problemas são diferentes.

Para o período de 1960-8, há um problema central com as fontes disponíveis, diferente dos volumes anteriores. Existe um número de depoimentos e testemunhos possíveis muito superior, embora ainda muito marcados quer pela dissidência, quer pela dicotomia comunismo-anticomunismo. Mas, pelo contrário, escasseiam os documentos que contam. Os arquivos soviéticos para este período estão fechados ou são escassos, embora alguma coisa possa ser reconstruída dos arquivos dos partidos comunistas europeus ou americanos que já estão abertos. Porém, desde 1961 que a PIDE nunca mais apreendeu qualquer arquivo "central" do PCP, visto que desde 1960, o PCP usando uma máquina que viera da RDA, passou a fotografar e microfilmar os seus documentos e a levá-los para fora do país. De igual modo, muito do que de mais significativo aconteceu nesses anos já ocorreu fora de Portugal, reuniões do Comité Central, o VI Congresso e toda a documentação do Secretariado, nunca entrou em Portugal até 1974. Depois do 25 de Abril parte significativa dessa documentação regressou, mas permanece encerrada no arquivo do PCP. Não perdi de todo a esperança de o PCP poder ter uma atitude de maior abertura - apesar de tudo a publicação das Obras Escolhidas de Cunhal é uma ruptura nas práticas da "história oficial" -, percebendo que muitos dos documentos cujo acesso nega podem permitir que o verdadeiro papel do PCP na história portuguesa se possa estabilizar sem mitificações, mas também sem vilipêndio.


17. Sem os documentos, subsiste o problema das fontes testemunhais disponíveis, a cujo acesso o PCP tem facilitado em particular a jornalistas de direita cujo conhecimento da história do PCP é escasso. Na elaboração do actual volume coloco em bases de dados toda a informação disponível que é possível extrair desses depoimentos e defronto-me com um problema que muita da indústria do centenário desconhece ou omite: é que, mesmo oriundos da mesma pessoa, mesmo vindos de gente com enorme proximidade aos factos, os depoimentos não "encaixam" nem nas datas, nem nas circunstâncias, nem no conteúdo. E então quando há documentos, ainda menos "encaixam". Umas vezes é a memória que falha e é inocente a reconstrução errada do passado, outras vezes é deliberado.


18.  Por exemplo, como e onde viveu Cunhal em Moscovo? A habitação muitas vezes referida como sendo a de Cunhal, numa espécie de "Telheiras" soviética, é-lhe atribuída por deliberação datada do Politburo do PCUS, quase em vésperas da sua saída de Moscovo para Paris. Cunhal teve que viver noutros locais, e de facto fê-lo em hotéis do partido soviético, e noutro apartamento diferente. Por que razão deixou Moscovo por Paris, aparentemente sem grande antecipação? Como é que vivia em França clandestinamente, tanto mais que existia um mandato da polícia francesa contra ele? Por que razão as relações próximas com o partido romeno e com Ceausescu, visível em várias fotografias do exílio omitidas nas fotobiografias, são minimizadas, apesar da rádio do PCP estar em Bucareste? Foi Cunhal em 1961 em viagem para a URSS, tendo sido a decisão de aí permanecer apenas posterior à queda do Secretariado em finais de 1961, ou já havia a decisão do exílio antes dessa data? Quis Cunhal desencadear alguma forma de luta armada em 1964, ou pelo contrário, como dizem os esquerdistas, nunca o admitiu? Como compatibilizar a simpatia que Cunhal mostra pela experiência checa de Dubcek [líder comunista durante a Primavera de Praga, em 1968] e o imediato apoio à invasão soviética?

As questões são muitas e é uma resposta fundamentada a essas questões que me atrasa, mesmo dedicando todo o tempo possível a trabalhar na biografia.


19..As minhas objecções à mitificação de Cunhal, que à direita e à esquerda se faz no seu centenário, vem de considerar que Cunhal é muito mais interessante como personagem, e foi suficientemente importante na História contemporânea de Portugal, para ficar preso num pedestal. Talvez se perceba melhor a complexidade da personagem, que é outra coisa diferente da reconstrução "afectiva" de Cunhal ou do seu culto de personalidade político, se tivermos em conta como ele se retratou na sua autobiografia, que não tem este nome.

Na sua ficção, Cunhal escreveu mais do que as suas memórias, escreveu a sua autobiografia e, com excepção da sua experiência moscovita, de que é parco em palavras, escreveu sobre a sua juventude e a viagem à URSS nos anos trinta, sobre a sua estadia em Espanha no início da guerra civil, sobre a sua passagem por um regimento de "corrécios", sobre a sua clandestinidade nos meios camponeses, sobre a sua prisão e os seus companheiros de prisão, sobre a sua passagem de fronteiras, mesmo sobre o pós-25 de Abril e o mundo dos Centros de Trabalho do PCP. E retratou-se sempre em várias personagens, algumas compósitas outras inteiramente identitárias.

Todas são perfeitas a seu modo, mesmo nos seus defeitos. As palavras mais sensatas saem da sua boca, as decisões mais acertadas pelo bem de todos, do partido, dos seus companheiros, são por ele ditas, os sentimentos mais humanos de compreensão e tolerância, são por si manifestados, a maior disponibilidade para o sacrifício, as maiores exibições de ausência de vaidade e, como se diz hoje, de "protagonismo" é sempre ele no papel das suas personagens que o revela.


20..Ao homem que escreve assim sobre si próprio falta pelo menos uma coisa que os teólogos da Idade Média, que tinham que lidar com as ordens monásticas, conheciam bem. Falta-lhe "humildade", manifesta uma forma muito especial de vanitas, de vaidade. Não é a das pessoas comuns, mas é vaidade, é actuar como se a corrente invisível da História, com H grande, passasse pelo seu corpo. S. Bernardo, que escreveu para os monges, ou seja gente dedicada a Deus e à sua Ordem, como Cunhal o era à História e ao seu partido, sabia bem como era difícil combater esta forma de orgulho, que faz muito grandes homens, mas não os torna santos, nem santos laicos.


(url)

© José Pacheco Pereira 

domingo, 29 de setembro de 2013

Leonard Bernstein esteve prestes a abandonar West Side Story

Público

Colectânea de cartas a editar em Outubro revela dificuldades nos bastidores de um dos mais importantes musicais de sempre. Espelha ainda as diferentes facetas da personalidade do compositor
Tony e Maria, os protagonistas da versão cinematográfica de "West Side Story" DR

Um dos mais celebrados e reencenados musicais de sempre podia não ter existido ou, pelo menos, não ter soado como os nossos ouvidos o reconhecem até hoje. Sem MariaTonight ou America, podia ter havido um West Side Story sem Leonard Bernstein? Durante a pré-produção do espectáculo a relação do compositor com o escritor e dramaturgo Arthur Laurents deteriorou-se ao ponto de Berstein ponderar abandonar o projecto, revelam cartas inéditas de Berstein a editar em livro em Outubro.
Yale University Press publicará uma compilação da correspondência do compositor norte-americano que colaborou com Laurents, Stephen Sondheim (letras) e com o coreógrafo Jerome Robbins na feitura de West Side Story, uma visão do clássico shakesperiano Romeu e Julieta passado na Manhattan dos anos 1950. Os seus imigrantes porto-riquenhos, os trabalhadores de ascendência polaca, os gangues rivais e os respectivos códigos de fidelidade com cor e sonoridade única chegaram aos palcos em 1957 – aliás, a estreia de Sondheim na Broadway. Depois, em 1961,West Side Story chegou ao cinema através dos realizadores Robert Wise e Jerome Robbins e dos protagonistas Natalie Wood, Rita Moreno e Richard Beymer, tornando-se num êxito que tocaria várias gerações
Tudo isto podia soar diferente ou mesmo não existir se a “hostilidade” entre o compositor e o dramaturgo tivesse mesmo feito com que Bernstein desistisse do projecto. Na colectânea de cartas, escreve este sábado o Guardian, está incluída uma missiva de 1949 (dois anos depois de o coreógrafo Jerome Robbins ter tido a ideia para a peça) endereçada pelo dramaturgo ao compositor em que é referida uma conversa anterior entre os dois sobre a vontade de Bernstein abandonar o projecto. “Lamento que tenha decidido não fazer o espectáculo”, escreve Laurents.
Note-se que a data da carta precede em muito a estreia da peça na Broadway, dando a entender que o tema foi alvo de querela durante algum tempo. Como escreve agora o diário britânico, foram os amigos de Bernstein que convenceram o músico a regressar àquele que se tornaria um marco na história do teatro musical. As cartas mostram que em 1955 Bernstein estava de novo a bordo.
As divergências entre Bernstein e Laurents terão surgido logo no primeiro esboço para a peça, então chamada East Side Story (o West Side e o East Side referem-se aos bairros da ilha de Manhattan), com o compositor a criticar alguns elementos da escrita e guião do dramaturgo e com diferentes opiniões sobre a abordagem musical à história (se deveria ser uma opereta ou uma peça lírica), por exemplo.
A colectânea de correspondência editada pelo musicólogo britânico Nigel Simeone, lançada no final de Outubro em inglês, contém 650 cartas que revelarão, como escreve o seu editor, a personalidade complexa de Bernstein, ora assertivo ora profundamente inseguro, as suas relações afectivas e problemas políticos. São cartas trocadas com os seus amigos compositores e colegas de trabalho, mas também com figuras como Jacqueline Kennedy, Bette Davis ou Boris Pasternak.
Das cartas emergem as suas relações com homens, nomeadamente com o compositor Aaron Copland, e o conhecimento que disso tinha a sua mulher e mãe dos seus filhos. Sabe-se agora também que foi vigiado pelo FBI e teve dificuldades em manter a cidadania norte-americana, tema sobre o qual escreveu ao seu irmão e ao compositor David Diamond. É ainda revelada a vontade que tinha de fazer um musical sobre Eva Perón, manifestada numa carta de 1952.
Após a sua morte em 1990, os arquivos de Bernstein estavam interditados ao acesso público por ordem da família. Mas quando o seu espólio transitou para a Biblioteca do Congresso norte-americano, há três anos, tornaram-se possíveis novos vislumbres sobre a vida pessoal do compositor.  

sábado, 6 de abril de 2013

Morreu Luís Andrade, o comandante do Zip-Zip

(actualizado às )
Antigo director de programas da RTP e realizador de programas que marcaram a televisão em Portugal morreu em Lisboa aos 77 anos.
Luís Andrade em 2002, quando ainda estava na RTP David Clifford/Arquivo
Antes de cada nova emissão, dizia aos colegas: “Fala o comandante, vamos levantar voo”. Quando abandonou a RTP em 2007, disse: “Meus senhores, vamos aterrar”. Luís Andrade, uma das figuras-chave da televisão em Portugal, faleceu ao início da tarde deste sábado em Lisboa, onde se encontrava hospitalizado há alguns dias.
 
A RTP era a sua “família” e, mesmo depois de se ter “reformado” da estação continuava a ser “da família”. Não apenas por os seus três filhos terem feito carreira no canal público – Serenella, locutora e apresentadora, Hugo, responsável pelo canal de cabo RTP Memória, promovido a actual director de programas, e Ricardo, também profissional da estação.
 
É que, como com poucos outros, a história da televisão em Portugal é indissociável dos 44 anos que Luís Andrade passou na RTP, de 1963 a 2007. “A minha mulher costuma dizer que eu me casei com a RTP e não com ela”, disse quando abandonou a direcção de programas em 2005. Num comentário feito à Antena 1, Margarida Mercês de Mello, que conviveu com Andrade quando se iniciou na estação na década de 1970 como locutora de continuidade, lamentava que não existisse nenhum registo das recordações do antigo realizador e director de programas, que esteve ligado a algumas das emissões mais memoráveis do canal.
 
É o caso do lendário Zip-Zip de Carlos Cruz, José Fialho Gouveia e Raul Solnado, verdadeiro símbolo televisivo da Primavera Marcelista, que se tornou num fenómeno sem paralelo no Portugal de 1969 e cuja primeira emissão foi para o ar sem ensaio prévio. Ou ainda do concurso A Visita da Cornélia, apresentado por Solnado e criado pelo actor e por Fialho Gouveia, que fez parar o país em 1977.
 
Andrade dirigiu igualmente os Jogos sem Fronteiras, uma dúzia de edições do Festival RTP da Canção, programas como o Sabadabadu (com Ivone Silva e Camilo de Oliveira) e muitos especiais musicais, para os quais os seus estudos provaram ter especial importância. O realizador começou por ser cantor de ópera, profissão que exerceu um pouco por todo o mundo durante oito anos, antes de decidir abandonar o canto. Pouco depois do regresso definitivo a Lisboa, em 1963, foi convidado para se juntar à RTP, convite que aceitou com a exigência de ir “ver como se fazia lá fora”, visitando no processo várias televisões europeias.
 
Ao longo de quase meio século, Andrade exerceu igualmente uma série de cargos administrativos dos quais o mais importante terá sido a responsabilidade pela programação ao longo de vários períodos a partir de 1983, o último dos quais entre 2002 e 2005. Num texto colocado na rede social Facebook, Nuno Santos, que foi adjunto de Andrade durante esse período e lhe sucedeu como director de programas em 2005, lamenta o desaparecimento de um “príncipe da televisão”, um “(quase) pioneiro” a quem a RTP devia muito.
 
Com a morte de Luís Andrade perdeu-se "um romântico", afirmou à Lusa o apresentador de televisão Júlio Isidro, sublinhando que partiu "a pessoa que mais amava a RTP na história destes 56 anos de televisão em Portugal". Isto porque o realizador tinha "um profundo amor pela sua casa, a casa em que nunca deixou de participar mesmo nestes anos em que já estava teoricamente afastado", recordou.

A colaboração de Luís Andrade com a RTP terminou com a coordenação das comemorações do 50º aniversário da RTP em 2007, sendo agraciado em 2008 com a Ordem de Mérito atribuída pelo Presidente da República. Em entrevista há ano e meio à revista Nova Gente, manifestava-se contra a eventual privatização da estação, entendendo que o serviço público devia “servir as pessoas, educar e promover a cultura” e que devia passar ao lado da guerra das audiências.

Em comunicado, o Conselho de Administração da RTP lembra que Luís Andrade era "dos profissionais mais respeitados da televisão portuguesa" e que "a ele se devem muitos dos bons momentos de televisão a que gerações de portugueses assistiram e que ainda recordam". Recordando que o antigo director de programas era "dotado de um trato exemplar" e que era "muito querido de todos os colegas e de quantos com ele trabalharam", a administração da RTP sublinha: "Hoje Portugal e a RTP ficam mais pobres."
 
O corpo de Luís Andrade vai estar em câmara ardente na Igreja de São João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa, a partir das 11h30. O funeral está marcado para segunda-feira: a missa é às 9h30 e o corpo segue depois para o cemitério do Alto de São João, às 10h30.

Os arquitectos às voltas com a fotografia

Viagem a Portugal

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Começou por ser uma encomenda do Governo de Salazar, mas viria a tornar-se num momento marcante na alteração do paradigma da arquitectura portuguesa a meio do século XX. Olhado agora à distância de meio século, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa mostra-se também como um sinal de renovação na história da fotografia portuguesa

Território comum é o título da exposição que reúne uma centena de fotografias do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, 1955-57, patente desde quarta-feira, dia 4 de Abril, na galeria da Fundação EDP, no Porto. (Rua de Ofélia Diogo Costa, 46). Trata-se de uma selecção, da responsabilidade de Sérgio Mah, feita a partir das dez mil fotografias realizadas por um colectivo de 18 fotógrafos e arquitectos na segunda metade dos anos 1950, e depois publicadas no livro que se tornaria mítico, “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”, editado em 1961.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

José Pacheco Pereira - No centenário de Álvaro Cunhal


NO CENTENÁRIO DE ÁLVARO CUNHAL


 



Deixado para trás um trabalho - parte de outro trabalho maior, de muitos anos, sobre a extrema-esquerda -, que vai sair em livro muito em breve, volto à biografia de Álvaro Cunhal. Desde a publicação do terceiro volume, cobrindo os anos de prisão entre 1949 e a fuga nos primeiros dias de 1960, mantive sempre uma contínua recolha de materiais relativos ao biografado, cujo número aumentou consideravelmente. Entretanto Cunhal morreu, e um número significativo de livros e recolhas têm vindo a ser publicados, à volta da personagem, quer como homenagens relacionadas com a sua morte, quer explorando aspectos da sua vida e testemunhos biográficos. Este ano, ano do centenário do seu nascimento, o PCP anuncia um número significativo de iniciativas comemorativas, pelo que muito se irá ouvir falar de uma das personagens mais interessantes do século XX português, com enorme importância para a vida nacional, das antigas colónias e mesmo do movimento comunista internacional nas últimas décadas de existência da URSS. 


O funeral de Álvaro Cunhal, a última grande manifestação de massas do comunismo histórico, ocorrida numa democracia ocidental, mostra como a personagem ultrapassou o PCP e os comunistas, para em Portugal ser visto como uma espécie rara de "santo" laico, exemplo de virtudes pessoais na vida política, exactamente aquelas que quase ninguém associa hoje a qualquer político: honestidade, probidade, dedicação a uma convicção própria, sem esperar benesses ou vantagens, bem pelo contrário. Não é possível negar que Cunhal tinha essas virtudes, mas também é óbvio, para quem conheça a sua vida e a sua obra, que cultivou deliberadamente essa imagem de si próprio. E Cunhal é muito mais complexo psicologicamente e contraditório nos seus sentimentos do que a fachada férrea que construiu, o que é evidente na caracterização das personagens em que se auto-retrata na sua ficção.


Fora alguns escassos estudos sobre a história do PCP, menos numerosos do que a bibliografia sobre Cunhal ele mesmo, alguns de carácter académico ainda inéditos, e deixando de lado uma excepção na regra dominante que é o livro de citações de Miguel Carvalho, Álvaro Cunhal Íntimo e Pessoal, a maioria do que se publicou sobre Álvaro Cunhal é de carácter testemunhal, sem distanciação qualquer em relação aos eventos. Os livros de João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as Mulheres Que Tomaram Partido, e Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal, são os que neste tipo de publicações contêm testemunhos mais interessantes. 


Há igualmente muita hagiografia sobre Cunhal, como é o caso da série de depoimentos organizada por Urbano Tavares Rodrigues, É Tempo de Começar a Falar de Álvaro Cunhal e alguns livros de entrevistas a Cunhal nos seus últimos anos de vida. Um exemplo é a entrevista excessivamente sentimental que Maria Valentina Paiva faz, intitulada Ao Canto do Espelho, no mesmo tom das Cinco Conversas com Álvaro Cunhal de Catarina Pires. Não é que procurando bem não se encontrem algumas informações úteis, no meio de páginas e páginas de panegírico acrítico, mas são um efectivo desperdício. 


O que elas revelam é à revelia dos seus autores. Como é o caso deste retrato perfeito da notável capacidade de sedução que Cunhal tem para com as mulheres, visível neste início de entrevista que é todo um tratado:

"Catarina - Se estiver de acordo, podemos começar por falar sobre a história e sobre a forma como esta tem sido escrita ao longo dos tempos...
Álvaro - ... desculpa interromper... mas eu trato-te por tu... estás a tratar-me na terceira pessoa... não é cómodo numa conversa...
Catarina - Está bem, eu trato-o por tu..."

Catarina tem 24 anos, o "Álvaro" tem 85 e era quem era. A partir daqui, desta intimidade forçada, quem manda na conversa é Álvaro Cunhal, que, aliás, salvo raras excepções, era muito mais aberto a ser entrevistado por mulheres do que por homens.


Outros testemunhos mais hostis são muito desiguais, e, no caso das obras escritas por ex-companheiros de Cunhal no PCP, há que ultrapassar o ajuste de contas interno, que muitas vezes acompanha esta memorialística, como é o caso de Zita Seabra. Isso não significa que muito do seu testemunho pessoal não seja certeiro e útil, mas, como igualmente acontece com Cândida Ventura, há um excesso de tese e de justificação que impregna o depoimento e que torna difícil separar o evento da sua interpretação. De qualquer modo, há igualmente silêncios, cuja superação admito ser difícil, quando se trata de mulheres, cuja relação com o mundo que viviam na clandestinidade comunista em Portugal exige uma enorme prudência, mesmo pudor, no seu tratamento. De qualquer modo, essas memórias, como quase todas, são bastante omissas quanto às relações que qualquer militante no topo acabava por ter, ou por conhecer, dos mecanismos de controlo soviéticos.


De todas essas memórias, as mais interessantes são as de Carlos Brito, que abrangem o período posterior a 1966, data do seu primeiro encontro, até à ruptura com o PCP, e que mantém intacta a complexidade da personagem, sem excluir o contexto conflitual em que ambos se envolveram, apesar da reverência que o autor manifesta para com Cunhal. Cunhal aqui é mais severo e não é propriamente homem de muitas reverências com os que abandonaram o PCP, embora com a idade e a velhice alguma complacência aumentasse. Cunhal, no fundo, como revela o Se Fores Preso Camarada e alguma ficção, era um bom conhecedor das fragilidades humanas e, verdade seja, nunca foi propenso ao moralismo.


A biografia "pessoal e íntima" de Adelino Cunha é um trabalho demasiado superficial e acrítico, em que o tom jornalístico da revelação se sobrepõe a uma análise da personagem e do seu contexto. Contando com o apoio da família, irmã, companheiras e filha de Cunhal, e de alguns militantes comunistas históricos, o livro contém algum material inédito sobre a vida de Cunhal, em particular na URSS e sobre as suas relações pessoais, numa irónica verificação, que não é só portuguesa, de que como autores e jornalistas de direita são mais capazes de aceder a dirigentes comunistas que costumam erguer uma firewall sobre a sua vida.
Porém, onde o livro é mais frágil é na colocação de Cunhal no contexto da história do PCP, da oposição portuguesa e do movimento comunista internacional, onde uma "personalização" da acção de Cunhal, com os seus amores e ódios, substitui um conhecimento real do que efectivamente se passou, resultado da escassa investigação dos materiais existentes, escritos e em arquivos, e de uma enorme insensibilidade e ignorância sobre o mundo comunista e a mentalidade militante.


Esta lista não é exaustiva e deixa de fora, por exemplo, alguns artigos originais e os filmes documentários feitos por volta da morte de Cunhal. Mas, fora dos testemunhos e depoimentos, mostra a escassez de investigação, documentação e materiais úteis, trazidos nos últimos anos para uma biografia política de Álvaro Cunhal. Neste período de tempo, onde houve uma significativa revolução para os trabalhos sobre o PCP foi de onde menos se esperava: do próprio PCP. Duas iniciativas foram fundamentais: a colocação em linha de uma parte muito significativa da imprensa do PCP na clandestinidade, o Avante!, o Militante, o Têxtil, o Marinheiro Vermelho, e muitos outros periódicos e documentos; e a publicação das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, no seu terceiro volume, de responsabilidade de Francisco Melo. No seu conjunto, significam uma viragem na atitude tradicional do PCP de fechar a sua história à investigação independente, publicando inclusive alguns textos e documentos até então incómodos e contraditórios com a história "oficial" do partido. Falta dar o passo de abrir os arquivos históricos do partido, pelo menos até 25 de Abril, como acontece com a maioria dos partidos comunistas europeus.


A personalidade de Álvaro Cunhal merece neste ano do seu centenário um conhecimento menos preso à mitologia, quer hagiográfica, quer hostil, para poder devolver-se à memória histórica dos portugueses um homem real e bem pouco comum, em vez de uma abstracção mecânica, que, essa sim, será rapidamente esquecida. Ora, nos anos desta década infeliz, precisamos bem dessa memória mais profunda e complexa da história, para não nos embrutecermos mais do que o que já estamos.

(url) http://abrupto.blogspot.pt/2013/02/no-centenario-de-alvaro-cunhal-deixado.html