Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Batismo de fogo: um século de favela no Brasil

Posted: 08/12/2010 by Revista Espaço Acadêmico 
por UBIRACY DE SOUZA BRAGA*
“Isso é uma guerra. E como em toda guerra, você tem que reconquistar territórios”. (Sérgio Cabral)
Toda cultura opera uma di-visão entre ela mesma, que se afirma como representação par excellence do humano, e os outros, que participam da humanidade apenas em grau menor. O discurso que as sociedades fazem sobre si mesmas, discurso condensado nos nomes que elas se dão, é, portanto etnocêntrico de uma ponta à outra: afirmação da superioridade de sua existência cultural, recusa de reconhecer os outros iguais. O etnocentrismo aparece como a coisa do mundo mais bem distribuída e, desse ponto de vista pelo menos, a cultura do Ocidente não se distingue das outras. Ipso facto, aprofundando o nível de análise estrutural, devemos pensar o etnocentrismo como uma propriedade formal de toda formação cultural, como imanente à própria cultura. Em outras palavras, a alteridade cultural nunca é apreendida como diferença positiva, mas sempre como inferioridade segundo um eixo hierárquico. No entanto, se toda cultura é etnocêntrica, somente a ocidental é etnocida, o que reitera a abordagem estruturalista para a compreensão da diacronia, da história concreta, como apresentaremos hic etnunc sobre a cidade do Rio de Janeiro.
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Contudo, para o que nos interessa, há pelo menos uma coisa em comum desde a década de 1980 entre o polêmico jornalista João Saldanha, ex-treinador da seleção brasileira de futebol e ex-militante do Partido Comunista Brasileiro – PCB e o general Antônio Carlos Muricy, um dos próceres da linha dura golpista militar até vestir o pijama. É a mesma que liga outras duplas de cariocas, por nascimento ou adoção, igualmente díspares – como o escritor mineiro Fernando Sabino e a novelista Janet Clair, ou o banqueiro Frank Sá e o ator Hugo Carvana. Todos são exemplos acabados de que um flagelo do Rio de Janeiro – os assaltos à mão armada – ainda faz vítimas famosas em número suficiente para formar uma singular categoria, por assim dizer, de “colunáveis do crime”.
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O grupo foi reforçado pela inclusão do empresário Drault Ernanny Filho, assaltado à porta de seu prédio, na praia do Leblon, reagiu, conseguiu esquivar-se de um tiro e conservou o dinheiro que levava nos bolsos e um relógio no pulso. “Com 38 anos de idade, eu ainda não tinha entrado para as estatísticas da criminalidade”, conta o empresário. “Foi meu batismo de fogo”, afirma. A julgar pelos resultados de uma pesquisa de opinião divulgada pelo Instituto Gallup, o “batismo de fogo” talvez tenha até demorado, pois um em cada dois integrantes da chamada “classe A” do Rio de Janeiro, já foi assaltado fechando o círculo da violência sobre o Rio, transformando-o em cenário político de verdadeira guerra civil. O governo prometeu endurecer a ação contra os criminosos que promovem uma onda de ataques em todo o estado. E a reação dos bandidos promete ser dura. Em entrevista o governador Sérgio Cabral foi curto e grosso quando afirmou: “Isso é uma guerra”.
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Os planos dos criminosos foram descobertos pelos serviços de inteligência da Secretaria de Segurança do Rio por meio da interceptação de conversas entre os telefones celulares dos traficantes. De acordo com o jornal O Globo, os diálogos revelam “planos de ataques”, como analisamos no artigo “Rebeliões da Cidade” (cf. Jornal O Povo. Fortaleza, 27. 5. 2006) no caso dos presídios comandados pelo chamado “crime organizado” e, nestes dias contra as sedes dos governos estadual e municipal, além do lançamento de explosivos em áreas de grande circulação, como pontos de ônibus e shopping centers na zona sul, onde predominam condomínios de luxo. Em entrevista  o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, admitiu que há indícios de que membros do Comando Vermelho(CV), cuja principal área de atuação é o Complexo do Alemão, na baía de Guanabara, como também da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA), que chefia o tráfico na favela da Rocinha, estariam unidos com o objetivo de desestabilizar a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no estado. A polícia investiga informações de que 100 homens do CV estejam na favela da Rocinha com o objetivo de dificultar uma possível ação do Bope na favela para a implantação de uma UPP.
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Em 29 de outubro de 2006, com apoio dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho (cf. Achegasnet, n˚ 17, 2004) Sérgio Cabral foi eleito, em segundo turno, governador do Rio de Janeiro pelo PMDB, em chapa com Luís Fernando de Sousa, com 5.129.064 votos (68% dos votos válidos em todo o Estado), derrotando Denise Frossard do PPS que obteve 32% dos votos válidos. Foi empossado governador do estado do Rio de Janeiro em 1 de janeiro de 2007. Em outubro de 2010, foi reeleito governador, ainda no primeiro turno, com mais de 66% dos votos válidos.  Cumprindo o atual mandato o governador Sérgio Cabral priorizou as áreas de saúde e segurança pública.
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Na primeira, criou e instalou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que ajudaram a desafogar as emergências dos hospitais públicos. O modelo, inclusive, passou a ser adotado pelo governo federal e até por outros países. Na área de segurança pública, a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) resultou na queda significativa dos índices de criminalidade em regiões antes dominadas pelos traficantes de drogas. No bairro Cidade de Deus, os índices de homicídios,roubo de veículos e assalto a pedestres foram alguns dos que tiveram queda. Os resultados da política de pacificação do governo Sérgio Cabral receberam elogios do New York Times, considerado o jornal mais influente do mundo contemporâneo.
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O atual governo também conseguiu colocar as finanças em dia e fazer do Rio de Janeiro o primeiro estado brasileiro a receber o “grau de investimento”, atestado pela agência de risco Standard & Poor’s, a mais importante do mercado financeiro mundial. O resultado só foi possível após um severo ajuste fiscal e a adoção de modernas técnicas de gestão, como a implementação do pregão eletrônico. Em 2006, na administração anterior, o governo havia realizado apenas um único pregão. No ano seguinte – o primeiro da gestão Cabral – este número saltou para 798. Em 2008, foram 1519 e em 2009, 1769. O secretário de Fazenda, Joaquim Levy, deixou o cargo em maio de 2010, sendo substituído por Renato Villela.
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De fato, as favelas mais conhecidas do Brasil estão localizadas na cidade do Rio de Janeiro e surgiram por volta de 1900, no período da Guerra de Canudos (cf. Cunha, 1929; Abreu, 1994). A cidadela de Canudos foi construída próxima a alguns morros, entre eles o Morro da Favela, que recebeu este nome devido à vegetação predominante no local, que era a favela, uma planta típica da caatinga, extremamente resistente à seca. Os soldados ao retornarem ao Rio de Janeiro, deixaram de receber seu soldo e instalaram-se provisoriamente em alguns morros da cidade, juntamente a outros desabrigados. A partir deste episódio, os morros recém-habitados ficaram conhecidos como favelas, em referência à “favela original”.
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A preocupação do poder público com a nova forma de moradia instalada informalmente no Rio de Janeiro só aconteceu em 1927, através do Plano Agache, que representou a denominação popular do plano de remodelação urbana da cidade do Rio de Janeiro elaborado, ao final da década de 1920, por Alfred Agache, por solicitação do então prefeito da cidade, Antônio Prado Júnior. Embora não tenha sido efetivamente implementado, o Plano abriu novas perspectivas para o urbanismo no Brasil e deu origem à criação do Departamento de Urbanismo da Prefeitura Municipal.Em 1948 foi realizado o primeiro Censo nas favelas cariocas e neste contexto a Prefeitura do Rio de Janeiro, afirma, surpreendentemente, num documento oficial, precedente às estatísticas, que: “os pretos e pardos prevaleciam nas favelas por serem hereditariamente atrasados, desprovidos de ambição e mal ajustados às exigências sociais modernas”. Esta afirmação recuperada no livro escrito por Alba Zaluar “et al”, Um Século de Favela, exemplifica como o preconceito em torno das favelas e seus moradores se fixaram tristemente na sociedade brasileira.
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Considerada oficialmente a primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, que fica atrás da estação ferroviária Central do Brasil, foi batizado no final do século 19 como Morro da Favela, daí também a origem do nome (substantivo) que se espalhou depois por outras “comunidades carentes”, na falta de melhor expressão, do Rio de Janeiro e do Brasil. Os primeiros moradores do Morro da Favela eram ex-combatentes da Guerra de Canudos e se fixaram no local por volta de 1897. Cerca de 10 mil soldados foram para o Rio com a promessa do Governo de ganhar casas na então capital federal. Como os entraves políticos e burocráticos atrasaram a construção dos alojamentos, os ex-combatentes passaram a ocupar provisoriamente as encostas do morro – e por lá acabaram ficando. Ipso facto, tanto a origem do nome Favela quanto Providência remete à Guerra de Canudos, travada entre tropas republicanas e seguidores de Antônio Conselheiro no sertão baiano. Favela era o nome de um morro que ficava nas proximidades de Canudos e serviu de base e acampamento para os soldados republicanos. Faveleiro é também o nome de um arbusto típico do sertão nordestino.
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O então jornalista e escritor Euclides da Cunha descreveu assim o morro da Favela no seu livro Os Sertões, sobre a Guerra de Canudos: “O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais alto, tendo no sopé, fronteiro à praça, alguns pés de quixabeiras, agrupados em horto selvagem. À meia encosta via-se solitária, em ruínas, a antiga casa da fazenda (…). O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a distância suavisando-lhes as encostas e aplainando-os… davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande” (Cunha, 1929; Morais Filho, 1985).A pesquisadora Sônia Zylberberg, autora do livro Morro da Providência: Memórias da Favella, no entanto, não acredita nessa hipótese. Segunda ela, o solo do morro carioca é bastante diferente do encontrado no sertão baiano. Já a antropóloga Alba Zaluar lembra que na virada do século já existiam barracos parecidos com os da Favela em outros morros do Rio de Janeiro. O nome Favela continua a ser usado até hoje por moradores antigos. A primeira associação de moradores da comunidade, por exemplo, fundada nos anos 1960, ainda adota em seus estatutos o nome oficial de Associação Pró-Melhoramento do Morro da Favela.Salvo engano, não há nada igual em toda a história da civilização.
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Enfim, Historicamente sabemos que, no caso brasileiro, repetimos, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da guerra do Paraguai ali se instalaram. No best-seller Abusado: O Dono do Morro Dona Marta, o consagrado jornalista Caco Barcellos desvenda a lógica e o modus operandi da criminalidade carioca. A partir de revelações chocantes feitas por um conhecido traficante, identificado no livro com o codinome Juliano VP, o autor mostra a realidade social “nua e crua” (sic) do tráfico de drogas e revela como o CV tomou conta da favela Santa Marta, onde temos muito próximo o Pão de Açúcar (bairro nobre da Urca), o Canecão (enseada de Botafogo), a melhor casa de shows do Brasil que projetou o maior DJ`s de todos os tempos: Big Boy ou onde ouviu-se a voz de la negra Mercedes Sosa cantando “Gracias a la vida…”, mas nesta “zona de compromisso” (cf. Anderson, 1996) formou-se praticamente uma geração inteira de traficantes (cf. Caco Barcellos, Abusado – O dono do Morro Dona Marta. 19ª edição. São Paulo: Publifolha, 2008; 560 páginas). Existe uma clara “geografia da fome” ou “geografia política” ou ainda “marginalidade de massa”, na expressão de M. de Certeau (1994), na cidade do Rio de Janeiro (cf. Janice Perlman, The Myth of Marginality: Urban Poverty and the Politics in Rio de Janeiro. Berkeley: University of California Press, 1975; Idem, “Favelas do Rio e o Mito da Marginalidade” (In: Ensaios de Opinião/Bernard-Henri Lévy “et al”. Rio de Janeiro: Inúbia, 1978, pp. 50-65).
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Se Umberto Eco penetrou em profundidade sobre a minudência dos detalhes sem perder de vista a arquitetura em sua totalidade (forma e conteúdo) no sentido contemporâneo e magistral de Oscar Niemeyer (2000), posto que é considerado “um arquiteto de curvas e convicções”, é porque a ideia de que a Arquitetura seja uma forma de comunicação de massa está bastante difundida. Ora, uma operação que se dirige a grupos humanos para satisfazer algumas de suas exigências e convencê-los a viver de determinado modo pode ser definida como comunicação de massa. De acordo com Eco (1967; 1976: 224 e ss.), no ensaio A Arquitetura: Comunicação de Massa?,também em relação a essa problemática a Arquitetura parece ter as mesmas características das mensagens-massa. Tentemos individuar algumas relações: 1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso; 2)O discurso arquitetônico é psicacógico (do gr. psychagogía): com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, o qual não apenas significa funções, mas promove e induz (no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica); 3) O discurso arquitetônico é fruído na desatenção, como se fruem o discurso fílmico e televisivo, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, (ao contrário de como se frui a arte propriamente dita, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas supostas intenções do remetente); 4) a mensagem arquitetônica pode carregar-se de significados aberrantes sem que o destinatário perceba estar com eles interpretando uma traição.
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Quem usa a Vênus de Milo para obter uma excitação erótica sabe que está traindo a primitiva função comunicacional (estética) do objeto; mas quem usa o Palácio Ducal de Veneza para abrigar-se da chuva, ou quem aboleta tropas numa igreja abandonada, não percebe que está perpetrando um tipo especial de traição; 5) Nesse sentido, a mensagem arquitetônica move-se em um máximo de coerção (você terá que morar assim) e um máximo de irresponsabilidade (você poderá usar essa forma como quiser); 6) A arquitetura, finaliza Eco, está sujeita a rápida obsolescência e sucessão de significados se não postular um recurso filológico; ao contrário do que acontece com o quadro ou o poema, e à semelhança do que acontece com as canções e trajes da moda; 7) A Arquitetura move-se numa sociedade de mercadorias; está sujeita a determinações de mercado, mais do que as outras atividades artísticas e tanto quanto os produtos da cultura de massa. Os morros cariocas representam sua antítese.
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Ainda uma observação tópica sobre os conflitos do ponto de vista da revista Veja (n˚ 2193, 1 de dezembro de 2010) que funciona como um partido político. Antonio Gramsci foi o primeiro a perceber tal relação (cf. Gramsci,1975): “Ao retomar o controle de uma das principais trincheiras do tráfico no Rio de Janeiro, o estado dá um passo decisivo para vencer a bandidagem que ganhou poder sob a complacência de populistas”. Talvez nosso último guardião tenha sido o líder político liberal radical Leonel de Moura Brizola (1922-2004), porque foi “um influente político brasileiro, controverso, carismático, mobilizador”, como é descrito exemplarmente, mais uma vez pelo livro El Caudilllo (cf. Leite Filho, 2008; 544 páginas), lançado na vida pública por Getúlio Dornelles Vargas (1883-1954).
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Leonel Brizola levou a ação política predominantemente até o fim de sua vida, tal como Getúlio Vargas ou Tancredo Neves o fizera. Um dia antes do agravamento definitivo de seu estado de saúde ele articulava politicamente, do leito de sua residência na praia de Copacabana, numa reunião com lideranças políticas, mas também intelectuais e artistas, a sua candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro com o apoio do PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Para tanto contava com o casal de políticos populistas Anthony Garotinho e do também político da tradição “amarelista” Moreira Franco. Enfim, a morte de Leonel Brizola pelas circunstâncias, tal como o fora a de Tancredo Neves, no leito do hospital das Clínicas, em São Paulo, comovera a opinião pública. A sua liderança popular ficou mais uma vez confirmada pelas homenagens recebidas no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paraíba, Ceará e, evidentemente, em São Borja, onde foi sepultado. Brizola foi o único político eleito pelo povo para governar dois estados absolutamente distintos cultural (Rio de Janeiro) e politicamente (Rio Grande do Sul), para distinguir no plano de análise a “sobredeterminação” (übereinanderlagerung, übergang, übergangszustand, überlagerung), em toda história republicana recente do Brasil. Exerceu também a presidência de honra da Internacional Socialista, o que dispensa-nos comentários.

Bibliografia geral consultada
BRAGA, Ubiracy de Souza, “Das Armas dos Traficantes e das (Re) Portagens Policiais: Efeitos Sociais sobre a Utilização de Armas no Brasil”. In: Revista Jurídica Dataveni@hotmail.com. Campina Grande, PB. Ano II. n˚ 14, abril de 1998; Idem, “Das Armas dos Traficantes e das Reportagens Policiais: Efeitos sociais sobre a utilização de armas no Brasil”. Disponível em: www.datavenia.net.com; Idem, “Rebeliões da Cidade” (cf. Jornal O Povo. Fortaleza, 27. 05. 2006); GAROTINHO, Anthony, “Drogas, Fuzis, Granadas, Minas e Guerras de Quadrilhas ou ‘Enxugando Gelo’”. Subcomissão de Segurança Pública do Senado. Brasília, DF, 26.04.2004. In: Achegas.net. Revista de Ciência Política. Rio de Janeiro, n˚ 17, maio/junho de 2004; ZALUAR, Alba, A Máquina e a Revolta: As origens populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994; ZALUAR, Alba; ALVITO, Marcos (orgs.), Um Século de Favela. 5ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 2007; Silvio Back, Guerra do Brasil. Prêmio Especial do Júri no III Rio-Cine Festival, 1987; CUNHA, Euclides da, Os Sertões (Campanha de canudos). 11ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1929; MORAES FILHO, Evaristo, (org.), O Socialismo Brasileiro. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981; Idem, Medo à Utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. ABREU, Regina Maria, “Emblemas da Nacionalidade: O Culto a Euclides da Cunha”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 24, n° 1, 1994;Idem, “Museu da Maré: Memórias e narrativas a favor da dignidade social”. In: Musas (IPHAN), v. 3, 2007;ANDERSON, Perry, Zona de Compromisso. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996; ECO, Umberto, Appunti per una semiologia delle communicazioni visivi. Milão: Bompiani, 1967; Idem,A Estrutura Ausente. Introdução à Pesquisa Semiológica. 3ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; Mauro Guilherme Pinheiro Koury (org.), Imagens & Ciências Sociais. João Pessoa: Editora Universitária, 1998, cap. 5 – “Fotografia e Pobreza”, pp. 109-117; LEITE FILHO, F. C., El Caudillo, Leonel Brizola em perfil biográfico. Rio de Janeiro: Editora Aquariana, 2008; GRAMSCI, Antonio, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Ed. Einaudi, 1975.No caso da cidade de Fortaleza, last but not least a exígua regulação urbana, aliada a fiscalização insuficiente e o desrespeito às leis ambientais, entre outros aspectos de ordem social e política, resultaram numa cidade com cerca de 620 favelas e 98 áreas de risco que podem ser vistas pela lente do fotógrafo Eduardo Queiroz. Cf. “A estética da desigualdade”. In: Diário do Nordeste. Fortaleza, 14.04.2009, p. 10, entre outros.

* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Comentários
sergio disse:
Quando o artigo fala que “o governador Sérgio Cabral priorizou as áreas de saúde e segurança pública”, incorre num êrro fatal para um estudo acadêmico: mergulha na propaganda. O governo carioca instalou as UPP’s, cujos benefícios se mostraram limitados: o tráfico não diminuiu e a interação entre bandidos e polícia, com a “‘pacificação”, se acentuou. Dimuíram as mortes em certos locais, justamente pela não interferência da Policia nos negócios dos bandidos.
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De modo geral, os índices de criminalidade aumentaram no período, no Rio e o governo olera niveis alarmantes de homicídios, roubos e contravenções. Não poderia ser diferente, pois o Cabral pretende legalizar as drogas, não se opondo, portanto aos bandidos e levando-o a acordos imorais: não é feita uma só operação no Alemão, há quase dois anos.
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A política de segurança, se é que existe, faliu: a intervenção armada e repressora ocorrida é o oposto da filosofia das UPP’s e se parece mais com as propostas de Serra, com a integração dos diversos niveis de governo. l
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domingo, 12 de setembro de 2010

Mia Couto: Moçambique; A pobreza sai muito caro


Mídia

Vermelho - 11 de Setembro de 2010 - 16h19

O escritor moçambicano Mia Couto comenta neste artigo os recentes e violentos episódios de agitação de rua em Maputo, capital de Moçambique. Registre-se a certeira afirmação "Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião". Leia a seguir a íntegra do artigo, publicada no blog O Diário.Info.

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.

E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo atuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, exceto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.

A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este paradoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.

Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.

Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutoras e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direção política do país.

Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.

Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a "quem de direito".

Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam "uma resposta". Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expetativa.

Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.

As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.

Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os "não eventos" da nossa história recente. Um deles é a chamada "guerra civil". O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio.

Entre esquecimentos e distorções, o fenômeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.

Vivemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos "bandos armados" esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas.

Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os "maravilhosos" avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjetivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é "maravilhoso", que o nosso país é "belo".

Mas todos os povos do mundo são "maravilhosos", todos os países são "belos". A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mídia perdeu capacidade de análise: o Haiti não é o Afeganistão

América Latina

Vermelho - 4 de Fevereiro de 2010 - 11h13

Os 20 mil soldados norteamericanos no Haiti, país com 9 milhões de habitantes perfaz proporção superior às forças conjuntas dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão nesse primeiro ano do governo Obama: 70 mil para uma população de 28 milhões. Nenhuma emissora de televisão e nenhum jornal de renome chamaram a atenção de sua audiência e de seus leitores para esse fato.

Por Washington Araújo*, em Carta Maior

A repórter se aproxima, cria o suspense básico, informa que tem uma pessoa soterrada a menos de três metros de seus pés, aumenta o suspense carregando aflição na voz, aproxima o microfone do chão sem deixar de dizer que “já posso ouvir a voz de uma pessoa, de uma mulher, tem uma mulher aqui embaixo!”
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Quantas dessas cenas não assistimos nas últimas semanas? É inegável que havia compaixão nas cenas gravadas pela repórter. Também é inegável que ela já intuíra que aquelas cenas iriam ocupar o melhor espaço na escalada de notícias da noite, levadas ao conhecimento público por seu principal telejornal. Reportagens como esta correram o mundo e imagens das vítimas, vivas ou mortas, fizeram o mesmo trajeto.
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Foi assim que o mundo tomou consciência da existência do Haiti. Em nosso imaginário, o Haiti assume as feições de pessoa ferida, impotente, entre a vida e a morte, cercada por destroços de construções e também nas informações dando conta que 150 mil a 200 mil pessoas morreram no país em decorrência do terremoto do dia 12/01/2010. As imagens na televisão capturam aquela poeirinha fina, agregando ao ar respirado partículas de areia, cimento e cal.

Repórteres incluem em suas matérias frases, antes impactantes e agora absolutamente normais, óbvias como: “Aqui, no que foi um prédio de 6 andares, deve haver algumas centenas de pessoas soterradas” ou frases mais elaboradas e não menos dramáticas como “Estamos em um imenso cemitério... Porto Príncipe está todo assim!” A linha que separa jornalismo de sensacionalismo foi, é e continuará sendo tênue, muito tênue.
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Nos últimos 21 dias o trabalho da imprensa se resumiu a mostrar imagens da destruição da capital haitiana. Devastação e caos. Resgate das vítimas. Ajuda humanitária a caminho. A cobertura brasileira abriu capítulo especial: estamos de luto também por Zilda Arns, Luiz Carlos da Costa e mais 19 militares que atuavam na Força de Paz mantida pela ONU em Porto Príncipe. A imprensa potencializou as dificuldades do país: para lidar com sua reconstrução e demonstrou que o país caribenho apresentava sérios ´defeitos´ de construção.
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Terra de ninguém. Será mesmo?
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A história do Haiti verá o terremoto como evento que desnudou de vez a extrema pobreza e miséria em que o país se encontrava aprisionado. É corrente a percepção que se o Haiti fosse menos pobre os efeitos da tragédia seriam imensamente menores. O Haiti aparece no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) relativo a 2008 na 148ª posição, sendo a nação mais pobre das Américas, com uma expectativa de vida de 60,78 anos e analfabetismo atingindo 52,9% da população. Dos quase 9 milhões de habitantes, 80% vivem abaixo da linha da pobreza. Nos últimos anos, empresas multinacionais, principalmente têxteis, se instalaram no Haiti atrás de mão de obra barata.
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Um mundo tão permeado de boas intenções, tão rápido em oferecer (e enviar) ajuda humanitária, tão sensível a ponto de oferecer aporte financeiro de monta para a reconstrução do devastado país parece deslocado ou incompetente para criar plano de reconstrução do país calcado em princípios básicos de autosustentabilidade.
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O Haiti precisa ser ajudado não apenas por ter sofrido terremoto de magnitude 7 mas porque tem uma história marcada por outras tragédias. No século XIX três potências européias invadiram o Haiti, a França em 1869, a Espanha em 1871 e a Inglaterra em 1877; no século XX os Estados Unidos invadiu o Haiti três vezes: 1914, 1915, permanecendo até 1934; e novamente voltou a invadi-lo em 1969. Cada invasão externa assemelha-se a uma fábrica de saques, ruínas, destruição, dor e morte.
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Os haitianos foram, portanto, vítimas de terremotos morais provocados por outras nações tiveram sua autoestima como nação e povo reduzida a nota de rodapé da História. É bom recordar que uma nação não invade outra, mobiliza tropas, gasta fortunas com deslocamentos e guerras unicamente pelo prazer de invadir. Um país é invadido porque tem riquezas a serem saqueadas, possui localização geográfica estratégica e sua população – militar e civil – é despreparada para o exercício bem sucedido da autodefesa.
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As invasões, isoladamente, não foram suficientes para exterminar o Haiti e na entressafra de invasões estrangeiras o povo haitiano foi vítima de ditaduras sanguinárias instaladas pelo médico François Duvalier, o temido bicho-papão (tonton macoute) conhecido como Papa Doc (1957 a 1971), sucedido por seu filho Papa Doc (1971 a 1986). Ajoelhado, ante o pedestal dos dominadores estrangeiros, o Haiti viu sua história desaparecer no ralo. E de forma quase ininterrupta.
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A imprensa substitui olho humano por olho de vidro
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A imprensa vem informando que o maior desafio pós-terremoto é levar a ajuda humanitária aos milhões de necessitados, no menor espaço de tempo possível. E até a guerra de bastidores envolvendo brasileiros e usamericanos para determinar qual país seria o responsável pela coordenação geral das operações recebeu amplo espaço na imprensa. O Brasil tinha 1.266 militares no Haiti, subiu para 2.600. Os Estados Unidos que tinha menos que 1.000 soldados no país apoiando a Força de Paz da ONU para Estabilização do Haiti (Minustah) elevou este contingente para 20.000.
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Considerando que a embaixada dos EUA em Porto Príncipe era a terceira maior embaixada americana no mundo e tinha 3 mil homens, o número de americanos no Haiti ronda os 25.000. Neste ponto a imprensa tem deixado vazios abissais como o de não apresentar tabelas comparativas com número de militares, por nacionalidade, chegando e saindo do Haiti e inexistência de “boxes” no estilo “Entenda o caso” para informar sobre a história do país e a relação destes com algumas das potências estrangeiras que no passado ali estiveram como invasores e agora como pontas-de-lança de ajuda humanitária pós terremoto.
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A cobertura privilegia o superficial, as imagens da tragédia, as dificuldades para a vida voltar ao normal na capital haitiana, denúncias sobre seqüestro de crianças vem sendo veiculadas. Mas nenhuma emissora de televisão e nenhum jornal de renome chamaram a atenção de sua audiência e de seus leitores para o fato de que os 20.000 soldados norteamericanos no Haiti, país com 9 milhões de habitantes perfaz proporção superior às forças conjuntas dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão nesse primeiro ano do governo Obama: 70 mil para uma população de 28 milhões.
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A imprensa parece ter perdido nos escombros de Porto Príncipe sua capacidade de análise, afinal, em um cálculo preliminar constata-se que numa base per capita haverá mais tropas no Haiti do que no Afeganistão, zona de guerra declarada já há bastante tempo.
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Para além das imagens de mães em transe acalentando filhos mortos em seus braços, cenas que perfuraram minha alma como se fossem afiados ganchos, a imprensa apresentou ao mundo o Haiti como um país, como um Estado falido, uma nação desgovernada por completo, como se um terremoto - por maior que fosse sue grau na escala Richter – tivesse o poder letal de transformar em ruína a capacidade de um povo de usufruir o direito à autodeterminação.
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Nesse sentido, vemos o terremoto como pano de fundo para que se passe à opinião pública mundial o conceito de que o Haiti é incapaz de se organizar e se governar por si só. Está, então, desfraldada a perversa tese de que o Haiti necessita ser monitorado e seu bem-estar passa por um regresso aos tempos dos protetorados. E tudo isso para o seu bem. Os haitianos que vi nos telejornais eram todos eles sobreviventes da catástrofe.
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Procuram-se: 8.800.000 haitianos
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Onde se encontram os demais oito milhões e oitocentos mil haitianos, esse formidável contingente populacional não afetado diretamente pelo terremoto? Faltam imagens em minha mente de haitianos não afetados diretamente pelo terremoto e falando de seu país. É preciso destacar que a população do Haiti ultrapassa aos 9 milhões. Onde estão professores, engenheiros e médicos haitianos? E seus comerciantes e donas de casa? Por que não foram alcançados pelos diligentes profissionais da imprensa?
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Será que não deveríamos saber a opinião dos próprios haitianos sobre como entendem que deveria ser conduzido o trabalho de reconstrução de Porto Príncipe? Como a população vê a ação de militares estadunidenses ao empreender o resgate de seu país tão terrível e tragicamente empobrecido? Eles entendem que se trata, desta vez, de uma ação humanitária ou de uma nova invasão? Alguém conhece algum jornalista haitiano que tenha se pronunciado sobre o dia seguinte sobre a semana seguinte após o terremoto?
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A cobertura sobre o Haiti, como um todo, nos subtraiu a voz e o pensamento dos haitianos. E chega de mais matérias tratando apenas do sofrimento humano.
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É mais fácil, claro, tirar um peso da consciência assinando cheque de US$ 375 milhões ou de 50 milhões de euros do que propor e executar políticas públicas de inclusão social e educacional, diminuir sua elevada taxa de mortalidade infantil e criar mecanismos para elevar a qualidade de vida do povo haitiano. Quanto a este aspecto penso que a imprensa tem um importante papel a desempenhar trazendo tais temas para a agenda relacionada à cobertura do Haiti nos próximos meses.
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Existem muitas maneiras de ajudar o povo do Haiti, mas nem só de pão vivem vítimas de catástrofes, sejam estas naturais ou históricas. Veículos de comunicação poderiam influir no futuro do Haiti se mantivessem ´acesas´ reportagens críticas ao mero assistencialismo - sábio e oportuno num primeiro momento e danoso como forma de minar a capacidade de seu povo – e colocassem na agenda do dia a necessidade de que governos e organismos multilaterais agissem de forma ousada e consistente para reconstruir a confiança dos haitianos de que é eles quem melhor poderão... escrever seu próprio futuro.
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*Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México.
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  • 1277214002130030071

    06/02/2010 17h05 "E não paro por aqui",pois todos aprendemos recorrente e pedagogicamente "os meios ,a vontade e a visão das grandes potências para cumprir os compromissos assumidos".Ora,Thiago,ou você é uma alma inocente,absolutamente pura,que não teve que se expor aos martírios e sofrimentos de que somos objetos ao conhecermos os horrores registrados nas páginas da História- que nos falam precisamente dos "meios,da vontade e dos compromissos das grandes potências",para com os povos por elas colonizados,saqueados.assassinados,etc-ou,então,é um agente a serviços dos interesses dessas potências a militar contra os interesses dos povos,como tantos outros que também nos deparamos.Não se esqueça jamais que foi com essa massa podre que Golbery moldou o seu SNI.Mas,como em nós ainda subsiste um pouco de pureza,queremos acreditar de todo coração,que não passas de uma alma pura e boa, comovida com os acenos de ajuda humanitária e desinteressada das grandes potências,recusados por nós.
    Darcy Brasill rodrigues da Silva
    Rio de Janeiro - RJ
  • 1277214002130030071

    06/02/2010 14h16 Desde quando "um grupo de intelectuais haitianos" é representativo do contingente de 9 milhões de haitianos?E mais,tal grupo em vez de denunciar a ameaça que as tropas americanas representam à soberania do Haiti,capitulam e subscrevem um atestado de incapacidade do povo haitiano para autogovernar-se?"Intelectuais" como estes,nós também os temos-e aos montes-espraiados pelas nossas academias,embora não constituam a sua maioria.Um destes"intelectuais",por sinal,por aqui nos deu aulas inesquecíveis de traição nacional.A propósito,Papa Doc também se contava entre o seleto grupo de intelectuais haitianos.Conhecemos bem o material de que são feito supostos membros desta "elite intelectual",em um país onde a maioria do seu povo carece de escolarização .São espíritos colonizados.Neles,a instrução não afugentou o complexo de inferioridade que o colonilismo secular buscou impingir em seu povo-muito pelo contrário-somente a reforçou.Trata-se de uma "doença"de que você,Thiago,também padece!
    Darcy Brasill rodrigues da Silva
    Rio de Janeiro - RJ
  • Erro

    04/02/2010 15h55 Caro Washington Araujo, Com todo o respeito, o senhor comeca o texto com um erro grosseiro: 20.000 sobre 9 milhoes nao eh proporcao maior do que 70.000 sobre 28 milhoes. Nao que o numero nao seja consideral, mas o tal fato que anunciou eh um erro matematico. Abraco
    Pedro Fernandes
    Rio de Janeiro - RJ
  • E não para por aí

    04/02/2010 15h13 O grupo ainda afirma que "apenas as grandes potências têm a vontade, a visão e os meios para responder no longo prazo pelos compromissos assumidos. O Haiti não tem condições de servir outra vez como tubo de ensaio para ambições de POTÊNCIAS REGIONAIS, cujo papel nos últimos anos tem sido, na melhor das hipóteses, supérfluo. Erros repetidos não podem ser acobertados pelos escombros. A responsabilidade jamais assumida por resultados jamais alcançados não deve desaparecer numa vala comum". Assinam o texto os seguintes haitianos: Michèle Oriol (professora de sociologia da Universidade de Estado do Haiti); Daniel Supplice (professor de história da Universidade de Estado do Haiti; Michel Soukar (historiador); Eric Balthazar (sociólogo) e Jean-Philippe Belleau (professor de antropologia da Universidade Harvard). Taí... Para bom entendedor, pingo é letra!
    Thiago Nogueira
    Rio de Janeiro - RJ
  • O que os haitianos realmente querem

    04/02/2010 15h10 Por ignorância ou má-fé, o autor do texto omite que os haitianos já expressaram a sua vontade sobre o processo de reconstrução da capital Porto Princípe. Pouco mais de uma semana após o terremoto que devastou a cidade, a Folha públicou um artigo escrito por grupo de intelectuais haitianos. Gostaria de destacar alguns trechos: "Nos últimos seis anos, os arranjos estabelecidos entre um Estado falido e as desorientadas Nações Unidas e outras organizações multilaterais produziram um fracasso retumbante. Enquanto estas ofereciam os fundos de ajuda, aquelas legitimavam-nas e implementavam-nos, com resultados, na melhor das hipóteses, inexpressivos. À frente dessa nova estrutura de comando e coordenação SOMENTE PODERIAM ESTAR OS AMERICANOS OU OS FRANCESES, uma vez que a liderança dos esforços multilaterais por países caribenhos ou latino-americanos nos últimos 15 anos simplesmente não funcionou".
    Thiago Nogueira
    Rio de Janeiro - RJ
  • A ponta de um iceberg...

    04/02/2010 13h42 Washington Araújo, voce está de parabens pelo excelente texto que resume a tragedia do Haiti. Fica demonstrado que existe uma tragedia bem anterior ao terremoto.E este só fez trazer a tona a ponta de um iceberg de dominações historicas explicitas ou disfarçadas de naçoes europeias e dos USA mais recentemente.O rei estava nú, a grande midia esconde esta nudez e voce disse tudo.
    Tadeu Colares
    Recife - PE
  • Perda d.e. capacidade

    04/02/2010 11h53
    Parabéns ao Mestre Araújo pelo texto, mas a mídia não perdeu capacidade de análise, perdeu a capacidade de informar, o que é muito pior!
    Edú Fróes
    Belo Horizonte - MG
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domingo, 24 de janeiro de 2010

“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

Entrada » Agência Brasil de Fato » Entrevistas » “A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

Acções do Documento
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por Admin última modificação 2010-01-21 12:11 

Segundo o historiador Mário Maestri, séculos de intervenção colonialista e imperialista sobre o país caribenho geraram a miséria que hoje potencializa os efeitos do terremoto do dia 12

21/01/2010

Igor Ojeda
da Redação

Leia mais:

Terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não


Um terremoto oportuno?


Se existe uma análise com a qual todos os meios de comunicação do mundo concordam em relação ao tremor de terra ocorrido no dia 12 no Haiti é a que diz que se o país fosse menos pobre, os efeitos do desastre seriam menores. As causas dessa pobreza, no entanto, muito raramente são explicadas. De acordo com o historiador Mário Maestri, professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), do Rio Grande do Sul, o subdesenvolvimento haitiano tem suas raízes na extrema dependência em que a nação do Caribe foi permanentemente mantida pelas potências coloniais e imperialistas.
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Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Maestri analisa as causas estruturais da pobreza e do êxodo rural no Haiti – que, ao gerar moradias precárias nas cidades, também contribuiu para o agravamento das consequências do terremoto –, a responsabilidade da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, o envio de militares pelos EUA e os riscos do processo de reconstrução do país. “A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos”.
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Brasil de Fato – A grande mídia, nacional e internacional, vem insistindo que a extrema pobreza do Haiti fez agravar as consequências do terremoto. No entanto, a mesma imprensa não diz quais são as causas dessa pobreza. Por que o Haiti é o país de menor IDH do hemisfério ocidental?
Mário Maestri – A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade, em 1804. Isso após derrotar expedições militares francesas, inglesas e espanholas. Ao se transformar no segundo Estado americano a obter a independência, após os EUA, e o primeiro a abolir a escravidão, o Haiti passou a ser temido, pois poderia servir como exemplo para os cativos americanos. Foi objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986].
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Algumas análises indicam que a grande quantidade de haitianos vivendo em Porto Príncipe, em casas amontoadas nas favelas, foi um dos fatores que determinaram um alto número de vítimas do terremoto. Por que se chegou a essa situação de forte migração do campo para a cidade?
O regime histórico da propriedade da terra no Haiti foi a plantagem escravista. Com a revolução de 1804, houve importante divisão de latifúndios em lotes unifamiliares, que retomaram as tradições camponesas negro-africanas, ensejando independência alimentar. Isto não produzia excedentes mercantilizáveis. As intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade. A expropriação da terra e a reversão para produtos comerciais ensejou enorme migração urbana, nascida também da depredação do meio ambiente, com o desmatamento selvagem para a produção de carvão vegetal, com o aumento do seu uso como combustível doméstico, imposto pelo imperialismo. As enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti. As forças brasileiras e da ONU têm reprimido duramente as manifestações pelo aumento do ínfimo salário mínimo.
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Seis anos após o golpe contra Jean-Bertrand Aristide e a chegada da Minustah, a situação não melhorou. Por quê?
A intervenção militar franco-estadunidense orquestrada pelo governo Bush afastou o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide, em 29 de fevereiro de 2004. Ainda que ele tivesse rompido com suas antigas raízes populares e de esquerda, seu governo lutava por autonomia relativa e despertava a mobilização social. O que era inaceitável, em uma região próxima de Cuba e fundamental aos EUA. Devido ao envolvimento no Iraque, Bush 2º convocou o presidente Lula da Silva para capitanear a ocupação militar (e pagar seus custos, é claro), participando da organização de governo títere pró-imperialista. Essa ocupação deveria reorganizar a ilha segundo os interesses políticos do grande capital, sobretudo franco-estadunidense. O governo Lula da Silva aceitou o convite envenenado para fortalecer seu objetivo de ingressar, inferiorizado, sem direito, como membro do Conselho de Segurança Permanente da ONU. Foi também uma concessão à alta oficialidade das Forças Armadas brasileiras, com interesses econômicos, políticos, ideológicos na operação. Nos últimos seis anos, as tropas brasileiras comandaram a repressão, praticamente sem qualquer oposição por parte da imensa maioria dos partidos, sindicatos, organizações etc. ditos populares e de esquerda do Brasil. Deve-se destacar o silêncio do movimento negro organizado, atrelado ao governismo. A prova dos nove dessa intervenção se deu durante e sobretudo após essa terrível catástrofe, com a total ausência de Estado e de instituições haitianas autônomas, que jamais se pretendeu criar. Apenas o presidente [René] Préval funciona como testa de ferro do despudorado intervencionismo internacional em nome da solidariedade que acaba de se concluir com a ocupação militar dos EUA no país, que ignorou olimpicamente a ONU e o seu preposto brasileiro, que já não sabe mais onde se meter. Hillary [Clinton, secretária de Estado dos EUA] acaba de propor que o parlamento e o presidente dêem carta branca aos Estados Unidos nas operações!
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Fala-se em "desconcentrar" a capital, oseja, incentivar a volta da população para seus povoados de origem, de onde saíram devido à falta de oportunidades. O senhor acha isso uma boa ideia no momento? O que isso pode trazer como consequência a médio e longo prazo?
A operação humanitária tem se dado no contexto de enorme desprezo imperialista, prenhe de racismo implícito. Realidade que se registra na proposta de enviar parte da população urbana ao campo sem qualquer consulta à mesma! Deve-se destacar o claro corte polpotiano da proposta e que parte dessa população não tem mais raízes agrárias. Não podemos esquecer, também, que o campo não apresenta condições para incorporar os que aceitem a solução – acesso à terra, recursos contra a erosão, combate à falta de água, financiamento, ajuda durante os primeiros tempos, preços mínimos para a produção etc. Após a terrível passagem do furacão Jeanne [em 2008], a única contribuição real da chamada comunidade internacional foi a reorganização da política para reprimir os seguidores de Aristide.
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Qual sua avaliação sobre a atuação que a comunidade internacional vem tendo em relação ao terremoto no Haiti, como por exemplo o anúncio da liberação de centenas de milhões de dólares?
O que vemos, até agora, passada uma semana do desastre, é uma desassistência indiscutivelmente responsável por dezenas de milhares de mortos. Dizer que não era possível chegar aos necessitados por razões logísticas é piada. Se fosse insurreição popular desarmada, em dois dias haveria um soldado imperialista em cada esquina! No frigir dos ovos, muito se falou e pouco se fez. Até porque o objetivo era esse. Para além dos bem intencionados, há uma enorme indústria internacional, ligada ao imperialismo, formada por milhares de pequenas, médias e grandes ONGs especializadas na assistência às catástrofes que necessitam e se locupletam com tais sucessos, para financiar seus enormes aparatos administrativos que mitigam o desemprego do Primeiro Mundo. Boa parte dos fundos postos à disposição do Haiti pelos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial são empréstimos que deverão ser pagos sempre com o sangue e suor da população.
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Ao mesmo tempo, o Haiti possui uma dívida externa de mais de 1 bilhão de dólares. Não é contraditório?
Não, não é contraditório. É necessário, para manter a dependência. Veremos que no final de tudo, essa dívida será ainda maior! Temos que lembrar que a catástrofe haitiana mantinha-se nos últimos anos, com parte da população do país comendo literalmente bolos de terra, sem que nada fosse realmente feito, a não ser controlar militarmente o país e reprimir a organização e a mobilização popular. Víamos sempre belos soldados, belos tanques, belos fuzis, funcionários bem falantes e uma enorme miséria popular.
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Há algumas críticas (inclusive de Brasil e França) em relação a um suposto controle excessivo dos EUA sobre a ajuda humanitária. Os trabalhos de resgate estão sendo organizados pelo Pentágono e pela USAID. Inclusive, alguns denunciam que, no aeroporto de Porto Príncipe, controlado pelos EUA, os estadunidenses estariam priorizando o pouso de aviões de seu país, alguns deles vindo com militares. Além disso, Obama prometeu enviar 10 mil marines ao Haiti, o que causou preocupação sobre uma eventual ocupação militar. O que o senhor pensa sobre tudo isso?
Aristide, deposto em 1991 pelo governo estadunidense republicano [de George Bush pai], voltou ao governo, em 1994, devido à intervenção patrocinada pelos democratas, de novo no governo [Bill Clinton]. A intervenção no Haiti, em 2004 foi novamente ação republicana de um país sob a presidência de Bush 2º, que contou com a oposição dos democratas, sobretudo da burguesia e da intelectualidade negra desse partido. Atualmente, no governo dos EUA se encontra um democrata negro. Se associamos isso à tradição imperialista, compreenderemos o enorme ativismo estadunidense com viés militarista. Cuba manda médicos. Os EUA, porta-aviões e marines de fuzis! Não é certo ainda o que os democratas e Obama pretendem para o Haiti. Talvez sequer eles saibam precisamente o que fazer com o sofrido país, devido ao caráter inesperado da crise. Há, porém, elementos claros. A ocupação militar do país, com tropas infinitamente maiores às da ONU, deixam claro que, nessa região, é o imperialismo estadunidense que manda. Um movimento que se associa ao retorno dos EUA à América Central e do Sul, expresso no golpe de Estado em Honduras, nas bases militares na Colômbia etc. O governo Obama teme igualmente uma imigração maciça clandestina de haitianos para os EUA. Vai ficar muito feio prender em campos de concentração uma população negra! É melhor no próprio país dela, mesmo morrendo de fome! Hoje, na região, o grande problema é a Venezuela. Certamente teremos novas bases militares dos EUA no Haiti, região estratégica, e muito barata!
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Já se começa a ouvir algumas vozes falando em reconstrução do Haiti. Quais os riscos que trazem as reconstruções depois de tragédias naturais e o que o senhor acha que pode ocorrer no Haiti?
A grande imprensa do Brasil, com destaque para a Globo, retoma a proposta internacional de tratar o Haiti como Estado falido. Ou seja, nação incapaz de se organizar e reger por si só, tendo que ser monitorada, para seu bem. Como está ocorrendo agora! Uma volta aos tempos dos protetorados. A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos. Nuvens terríveis cobrem os horizontes do povo haitiano. Os trabalhadores e todos os homens e mulheres de bem do país devem se mobilizar contra isso. A primeira exigência deve ser a imediata saída das tropas de ocupação brasileiras do Haiti, substituídas por médicos, enfermeiros, engenheiros, agrônomos. Temos que ajudar a plantar a vida, não a morte, nesse país glorioso. Se o Nelson Jobim quiser voltar fantasiado ao país sofrido, que seja de médico!

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sábado, 23 de janeiro de 2010

Haiti - A maldição branca - Eduardo Galeano

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Acções do Documento
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A maldição branca

por Admin última modificação 2010-01-19 12:44 Eduardo Galeano 
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Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo

19/01/2009
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Eduardo Galeano
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No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; não pelo aniversário da liberdade universal, mas porque ali se desatou um banho de sangue que acabou derrubando o presidente Aristide.
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O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.
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Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.
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O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.
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Da maldição branca não se falou.
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A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:
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- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?
- O anterior.
- Pois, que seja restabelecido.
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E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.
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Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.
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Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.
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Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.
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Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.
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Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.
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E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.
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A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.
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E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.
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Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.
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Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.
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Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.
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Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.
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Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…
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Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.
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O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente. (IPS/Envolverde)
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Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de "As Veias Abertas da América Latina" e "Memórias do Fogo"*

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domingo, 17 de janeiro de 2010

O fim da classe média negra nos EUA

 

Mundo

Vermelho - 26 de Novembro de 2009 - 16h32

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A julgar pela maioria dos comentários sobre o assunto Gates-Crowley [1], poder-se-ia pensar que uma perigosa "elite negra" está perigosamente fora de controle. Primeiro, Gates mostrou muito pouca deferência com Crowley, depois Obama ao exceder-se quando declarou que a polícia tinha atuado "estupidamente".

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Por Barbara Ehrenreich*, para o Sin Permiso

Este foi o fim dos "Estados Unidos brancos" que a Atlantic tinha previsto na sua capa de janeiro/fevereiro? Ou será que os preconceitos de classe – classe trabalhadora no caso Crowley – impuseram-se, finalmente sobre os preconceitos de raça?
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Para lá do emaranhado de comentários de raça e de classe, está aumentando o empobrecimento – digamos antes o reempobrecimento – dos afro-estadunidenses enquanto grupo social. De fato, o efeito mais notável e duradouro da atual crise poderá ser o fim da classe média negra. De acordo com um estudo da Demos e do Instituto for Assets and social Policy, 33% da classe média negra já está ameaçada de perder esse status com o começo da crise. Gates e Obama, tal como Oprah e Cosby, manterão sem dúvida a sua posição, mas milhões de negros idênticos ao oficial Crowley – de operários fabris até empregados da banca de colarinho branco – caminham para a demissão.
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Para os afro-estadunidenses – e um grande número de latinos – a recessão acabou. Ocorreu entre 2000 e 2007, período em que o emprego negro diminuiu 2,4% e os rendimentos diminuíram 2,9%. Durante a longa recessão negra de sete anos, um terço dos negros vivia na pobreza e o desemprego – inclusive o de licenciados – cresceu o dobro do desemprego branco. O que acontece é que agora há uma depressão.
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O desemprego entre os negros está em 14,7% comparado com 8,7% dos brancos. Em Nova Iorque o desemprego negro cresceu 4 vezes mais rapidamente que o dos brancos. Lawrence Mishel, presidente do Economic Policy Institute, estima que, em 2010, 40% dos afro-estadunidenses terão experimentado o desemprego ou o sub-emprego, o que aumentará a pobreza infantil das crianças negras estadunidenses de um terço para cerca de 50%. Ninguém consegue explicar totalmente a extraordinária perda de postos de trabalho entre os afro-estadunidenses, ainda que se possa dizer que entre os fatores que o influenciam se inclui a relativa concentração de trabalhadores negros nos massacrados setores de retalho e de manufaturas, tal como é menor percentagem de trabalhadores negros em posições de colarinho branco, as mais bem pagas.
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Uma coisa é certa: a velha diferença de riqueza racial torna os afro-estadunidenses particularmente vulneráveis à pobreza quando vão para o desemprego. Em 1998, o valor líquido das casas dos brancos era em média de mais 100.700 dólares que o das casas dos brancos. Em 2007, a distância aumentou para 142.600 dólares. O estudo das finanças do consumidor, elaborado cada 3 anos pela Reserva Federal, cada vez que é feito constata que a diferença da riqueza racial aumentou. Em outras palavras: em 2004, por cada dólar de riqueza de uma família branca, uma família negra tinha somente 12 centavos. Em 2007 tinha 10. De forma que quando um trabalhador negro estadunidense cai no desemprego normalmente não há poupanças que o possam defender, não têm pais bem colocados em quem se apoiem nem poupanças de reforma.
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A tudo isto há que somar a grande calamidade de cunho racial que são as hipotecas de alto risco. Depois de décadas de recusa de hipotecas por critérios raciais, os negros estadunidenses apareceram como um mercado tentador para os prestamistas da bolha imobiliária, como Countrywide, onde indivíduos negros de elevados rendimentos tinham quase o dobro das probabilidades de ter uma hipoteca de alto juro do que brancos de rendimentos baixos. De acordo com o Center for Responsible Lending, os latinos acabarão por perder, na avaliação da casa para venda devido às hipotecas lixo, entre 75 e 98 bilhões de dólares, enquanto os negros perderão entre 71 e 92 bilhões de dólares. United for a Fair Economy qualificou como a "maior perda de riqueza pelos negros na história moderna dos EUA".
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Mas apesar da profunda depressão dos afro-estadunidenses, alguns comentaristas, tanto brancos como negros, ainda estão obcecados com as supostas deficiências culturais da comunidade negra.
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Num editorial do Washington Post, Kay Hymowitz atribuiu os problemas da economia dos negros ao fato de 70% das crianças serem filhas de mães solteiras, mas não se referiu às famílias tradicionais de pai e mãe brancos estarem em diminuição a um ritmo superior ao das das famílias tradicionais negras. A proporção de crianças negras em famílias monoparentais aumentou 155% entre 1960 e 2006, enquanto a proporção de crianças brancas vivendo em famílias monoparentais aumentou surpreendentes 229%.
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Precisamente no mês passado na PNR, o comentarista Juan Williams despreciou a NAACP (Organização de Defesa dos Afro-estadunidenses e contra o Racismo) dizendo que cada vez mais os grupos relevantes se centram em "pessoas que obtiveram vantagens da integração e oportunidades de educação e emprego ao contrário dos que estão apanhados por ciclos geracionais de pobreza" que, prosseguiu, se caracterizam pelo envolvimento nas drogas e no crime. O fato de estar em curso uma crise que afeta desproporcionalmente a classe média afro-estadunidense – provocada mais pela cobiça de Wall Street que pelos "valores do gueto" - parece não lhe importar.
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Não precisamos de mais análises moralizantes e eloquentes, de classe e raça, que podiam ter sido escritas nos anos 70 do século passado. A crise está mudando tudo. Está redesenhando os contornos de classe nos Estados Unidos de tal forma que nos deixarão mais polarizados que nunca e, isso sim, castiga as antigas classes médias e trabalhadoras. Mas a depressão sofrida ameaça com algo em uma escala completamente diferente, que é o desaparecimento dos negros da classe média.
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[1] Nota do Tradutor: Refere-se ao professor negro que foi preso em sua própria casa e humilhado, apesar de ter provado a sua identidade e ser proprietária da casa, por ter entrado pela janela, em virtude de ter perdido as chaves.
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*Barbara Ehrenreich é presidente da United Professsionels.
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Publicado em ODiario.info. O original está em www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=2831.
 
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domingo, 29 de novembro de 2009

Direitos da criança continuam deficitários, 20 anos após convenção da ONU

Mundo | 06.10.2009

DWorld

 

Apesar das melhorias conquistadas, porta-voz da Unicef afirma que metade das crianças do mundo é vítima de injustiça. Coisas bastante básicas lhes faltam, como água potável, casa, escola e comida suficiente.

 

Todas as pessoas são iguais e gozam dos mesmos direitos e liberdades. Assim está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Segundo a declaração, a igualdade de todas as pessoas é válida "sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião pública ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição".
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Os autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, todos homens, esqueceram um fator diferencial: a idade. Por esse motivo, há 20 anos, em novembro de 1989, a Declaração Universal foi reformulada para abranger todas as pessoas com menos de 18 anos – que, afinal, representam mais de um terço da população mundial. Na ocasião, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Convenção sobre os Direitos da Criança.
Garantia de direitos
Unicef reconhece melhoras 
Segundo a porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Helga Kuhn, a Convenção é necessária justamente pelo fato de as crianças não serem adultos. "Elas ainda não podem fazer tudo o que os adultos podem. Precisam de proteção especial. E por esse motivo também precisam de um ambiente especial, de proteção, que é responsabilidade dos adultos proporcionar. Por esse motivo, é necessário estabelecer que as crianças tenham direitos próprios, e então garantir que eles sejam respeitados".
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Os 54 artigos da Convenção incorporaram, pela primeira vez, direitos políticos civis, como também direitos culturais, econômicos e sociais das crianças em acordo válido segundo o direito internacional. A Convenção sobre os Direitos da Criança garante aos menores de 18 anos o direito à sobrevivência, desenvolvimento, proteção e participação.
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Protocolos adicionais
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Ao menos no papel, a Convenção sobre os Direitos da Criança encabeça a lista dos diversos acordos internacionais assinados desde a fundação da ONU em 1945. Segundo a porta-voz da Unicef, a Convenção sobre os Direitos da Criança foi a mais rapidamente ratificada na ONU, e pelo maior número de Estados, sendo os EUA e a Somália as únicas exceções.
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O balanço de sua aplicação, no entanto, é bastante desigual. Segundo Kuhn, a conscientização sobre a violação dos direitos da criança aumentou. Hoje é visto – e em parte perseguido – como crime o emprego de crianças na guerra, o abuso sexual e a exploração do trabalho infantil. "São problemas, no entanto, que ainda estão longe de ser resolvidos e que ainda temos que trabalhar dura para resolver", concluiu.
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Para combater a exploração infantil no serviço militar, como também no tráfico humano, prostituição e pornografia, foram estipulados dois protocolos adicionais à Convenção sobre os Direitos da Criança. Tais protocolos, todavia, foram ratificados por menos de um terço de todos os Estados.
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Desvantagem no tratamento da aids
Crise afetará sobretudo crianças de países mais pobres 
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No combate à aids, as crianças sofrem desvantagem clara em relação a adultos, como comprovou estudo divulgado no final de setembro pela Unicef, Organização Mundial da Saúde (OMS) e programa da ONU contra aids.
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Segundo o estudo, em todo o mundo crianças infectadas com o vírus HIV recebem assistência médica com bem menos frequência do que os adultos. E isso apesar de, sob pressão da Unicef e outras organizações de defesa de direitos infantis, a indústria farmacêutica ter desenvolvido medicamentos específicos para menores soropositivos, nos últimos anos.
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Consequências da crise
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Os direitos da criança ainda se encontram à sombra dos direitos humanos, 20 anos após a aprovação da Convenção? Devido às melhorias conquistadas desde então, a porta-voz da Unicef diz que não iria tão longe, mas confirma que "metade das crianças do mundo é vítima de injustiça. Faltam-lhes coisas bastante básicas, como água potável, um teto sobre a cabeça, vaga escolar, comida suficiente".
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Devido à crise financeira, a situação que continua alarmante pode piorar ainda mais, alerta a Unicef. Segundo Kuhn, os direitos da criança são violados frequentemente, sobretudo em países onde a situação dos direitos humanos não é boa.
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"Crianças precisam bastante de proteção. Por isso, temos a obrigação de garantir que as crianças não sejam as principais vítimas da atual crise financeira que atinge os países mais pobres. E esse perigo é sempre enorme", explica a porta-voz da Unicef.
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Autor: Andreas Zumach (ca)
Revisão: Augusto Valente
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