Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 21 de julho de 2009

Amazônia, Poesia & Socialismo




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por Eron Bezerra*
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A 61ª edição da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) recém realizada em Manaus (AM) contou, dentre a sua eclética programação, com uma mesa sobre “Amazônia, Ciência e Cultura”. A mesa foi organizada em parceria com a Fundação Mauricio Grabois e Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG) e teve como expositores o poeta Thiago de Melo, o professor Enio Candotti, Hugo Valadares (ANPG) e Eron Bezerra, que vos incomoda com este artigo.

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Num auditório bastante concorrido, com uma platéia igualmente diversificada, cada expositor se empenhou em tratar a complexidade amazônica sob a ótica proposta.

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Hugo Valadares enfatizou a importância de se conhecer a Amazônia e, ao mesmo tempo, registrou o profundo desconhecimento da região pela maioria da sociedade brasileira, até mesmo no ambiente acadêmico em que freqüenta.

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Enio Candoti destacou a necessidade de se considerar e respeitar a cultura milenar de que são detentores os povos da Amazônia. Destacou, como reforço de seu argumento, a recente descoberta arqueológica que identificou restos humanos de mais de 9 mil anos na região. O que significa, segundo sua sustentação, de que a Amazônia é possuidora de uma civilização milenar, o que até hoje não era ou é reconhecido.

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De minha parte, voltei a insistir naquilo que considero a essência de qualquer debate sobre a Amazônia: reafirmação da soberania nacional sobre a mesma e a correta compreensão das correntes que a polemizam e as suas motivações ideológicas. Ressaltei o papel da ciência e do conhecimento tradicional como forma de ocupá-la adequadamente, partindo da premissa de que não é possível imaginar a região como santuário e nem tampouco adotando um processo produtivo nos moldes tradicionais das demais regiões do país e de boa parte da própria Amazônia.

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Cada um, a seu modo, fez um grande esforço e deu sua contribuição.

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Thiago de Melo foi além. Ouviu com extraordinária atenção a todos os demais expositores, reforçando aqui e ali alguma observação que considerava pertinente. Na sua intervenção propriamente dita começou chamando a atenção da necessidade da academia e dos intelectuais falarem de forma mais compreensiva para o povo, denunciando – mesmo que não fosse essa a sua intenção – o enorme elitismo que tem caracterizado a produção acadêmica em nosso país e, certamente, no mundo.

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Em seguida, como que para demonstrar de forma didática como se faz isso, recitou um poema de sua autoria – não sem antes solicitar que se retirasse da sala os que eventualmente não podiam se concentrar, pois a poesia exige silêncio e atenção.

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Após o belo poema, discorreu sobre a sua vivência na Amazônia, seus encantos e as dificuldades por que passam os povos da Amazônia. Denunciou a ausência do estado, enquanto poder público, especialmente nos anos de política neoliberal.

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Mas, disse em tom de desabafo, é preciso continuar lutando, buscando um novo rumo. E por isso “continuo socialista e, apesar de eventuais reparos, tenho em Cuba uma referência daquilo que considero mais justo para a humanidade”.

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Não precisava dizer mais nada. O auditório quase veio abaixo. Sinal dos tempos.

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*Eron Bezerra, Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas, Membro do CC do PCdoB.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 21 DE JULHO DE 2009 - 19h12
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terça-feira, 5 de maio de 2009

Índios x “Cultura”



por Eron Bezerra*

Conheci um seringalista que negava a existência de índios na sua região argumentando que eles usavam relógio, calça jeans e falavam português melhor do que ele. A sua noção de índios estava claramente associada à falta de conhecimentos e de “cultura”, pelo menos no que ele entendia como cultura. Desconhecia ele que uma etnia não existe ou deixa de existir pelo grau de desenvolvimento econômico ou de conhecimento científico que eventual possui, mas sim pelo fato objetivo de ser um grupo social com peculiaridades próprias.


Lamentavelmente a opinião desse seringalista (os conquistadores da Amazônia) não é um fato isolado. Aqui e ali encontro pessoas, de diferentes camadas sociais, que ainda hoje verbalizam opiniões semelhantes.


Afora essas aberrações o Brasil seguiu em frente. No momento, portanto, em que a jovem nação brasileira inicia o 6º século de sua existência é oportuno que se passe em revista a sua peculiar trajetória, especialmente no que diz respeito à sua formação cultural e a sua composição antropológica básica: índios, africanos e europeus.


Juntamos num único território três culturas completamente distintas e a resultante foi um país dinâmico, de um povo trabalhador, criativo e inventivo como poucos no mundo. Até hoje, cinco séculos depois, os traços fundamentais de nossa cultura ancestral continua presente. Embora a maioria de nossos ancestrais indígenas tenha sido eliminada (e com eles a sua língua), ainda se fala mais de 200 línguas na Amazônia e seus hábitos e costumes se incorporaram à nossa vida.


Talvez alguns achem estranho se falar de cultura e associar tal palavra aos índios, na medida em que para esses os índios são bárbaros incultos. Mas a cultura indígena, assim como a africana e européia continuam presentes em todas as nossas manifestações. Da música à culinária, passando por hábitos comezinhos como tomar banho diariamente ou fazer a sesta após o almoço a cultura de nossos ancestrais está presente.


A mistura desses grupos formou um povo mestiço, geneticamente melhor adaptado ao meio ambiente, conhecido como povo brasileiro. A nação brasileira, portanto, deve muito a cada uma dessas matrizes antropológicas que lhe deu vida. O mínimo que pode fazer é tratá-las com respeito e assegurar meios adequados para que tenham uma existência plena.


A eventual miscigenação entre esses grupos, o que é desejável do ponto de vista genético e cultural, é uma opção não uma imposição. A integração, portanto, só ocorrerá se forem respeitadas as tradições, a cultura, o legitimo direito às terras e o seu modo de vida.


Ainda falta muito, mas não podemos deixar de registrar os avanços, dentre eles o que acaba de ser anunciado pelo governo do Amazonas em criar, provavelmente, a primeira secretaria de Assuntos Indígenas do país.




*Eron Bezerra, Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas, Membro do CC do PCdoB.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.



in Vermelho .- 4 DE ABRIL DE 2009 - 17h42
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