Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Gable, o cão que conhece mais de mil palavras




Para um cão, qual é a diferença entre pedir para ir buscar uma bola ou um cubo? A resposta é: quase nenhuma, desde que ambos tenham o mesmo tamanho e a mesma textura.


Gable e os seus brinquedos DR

Para entendermos como é que os cães identificam os objectos, precisamos da ajuda de Gable. Este cão de cinco anos reconhece a maioria dos seus brinquedos pelo nome e tem grande facilidade em aprender palavras novas. Talvez por pertencer a uma raça considerada inteligente, este border collie ajudou a perceber como é que os cães relacionam as palavras com os objectos e mostrou que a sua forma pouco importa.
Em 2010, Rico, outro cão da mesma raça, também foi notícia por ser inteligente. Tinha nove anos e mostrou, num jogo de procura de objectos, que conseguia identificar 200 palavras. Nessa altura, os cientistas acreditaram que o mecanismo de aprendizagem das palavras era semelhante ao utilizado pelas crianças para aprenderem – ou seja, reconheciam os objectos pela sua forma. Agora, o estudo feito com o Gable contrariou esses resultados. Humanos e cães, diz a equipa de Emile van der Zee, da Universidade de Lincoln, no Reino Unido, aprendem de maneira diferente.
Gable conhece mais de mil objectos pelo nome, mais ou menos o mesmo número que uma criança pequena e, tal como elas, tem a capacidade de associar palavras a categorias de objectos. Esta estranha facilidade do cão levou o grupo de Emile van der Zee a testar a suas capacidades.
Para isso, os cientistas usaram um jogo já conhecido pelo cão, em que ele tinha de identificar um objecto através do nome e depositá-lo num contentor. O jogo foi dividido em partes e, em cada uma delas, ele tinha de identificar, entre dez objectos, aquele que era o certo. Para superar as provas, o cão teria de distinguir os objectos pela forma, textura e pelo tamanho. O objectivo do estudo era verificar se os cães e os homens partilham a mesma capacidade linguística e, com isso, perceber o processo evolutivo da linguagem humana e as suas diferenças em relação a outras espécies. 
Os resultados do estudo e do jogo, publicados na revista PLOS ONE, mostram que Gable identifica perfeitamente os objectos que já conhece, mas em relação a objectos novos o caso é um pouco diferente. Quando teve de procurar um objecto desconhecido, na dúvida, escolheu primeiro um do mesmo tamanho, depois, noutro exercício, apanhou um com a mesma textura. Aparentemente, para ele, a forma do objecto pouco importa e, por isso, não a usa para identificar o objecto certo.
As crianças, ao contrário dos cães, primeiro fazem a identificação com base na forma e só depois no tamanho, na cor ou no material. Por exemplo, uma criança, antes de qualquer outra classificação, inclui as bolas de pingue-pongue, as bolas de ténis e as bolas de futebol numa única categoria: bolas. Só depois aprendem a fazer a distinção pelo tamanho e, mais tarde, pela textura.
As diferenças na forma como os cães e os humanos identificam os objectos levaram os cientistas a concluir que a maneira como as duas espécies armazenam no cérebro sons com significado é bastante diferente, tanto na maneira como esse mapa é construído como utilizado.
“O sistema visual humano identifica a forma dos objectos para fazer o seu reconhecimento. Nas nossas experiências, impedimos que o Gable pudesse usar o faro [para reconhecer os objectos]. Isto mostra que o seu sistema visual e o sistema sensorial da boca não estão centrados na forma dos objectos, mas sim no tamanho e na textura”, explica Emile van der Zee, citada num comunicado da sua universidade.
Mais estudos poderão ajudar a deslindar o processo de reconhecimento das palavras em diferentes espécies. “Só comparando outras espécies com os humanos poderemos ficar a conhecer mais sobre as origens neurológicas e genéticas do reconhecimento das palavras”, conclui a investigadora. Para já, informação de que os cães não reconhecem inicialmente as formas pode ser útil para desenvolver novos programas de treino de cães ou para melhorar os já existentes.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Idosos são vítimas de fraudes porque o seu "alarme cerebral" não dispara



Quando envelhecemos, deixamos de prestar atenção aos sinais manifestos da desonestidade alheia e tornamo-nos mais vulneráveis às vigarices de todo o tipo. Este fenómeno tem uma base biológica.
As pessoas mais velhas têm tendência para reparar mais nas coisas positivas do que nas negativas ADRIANO MIRANDA******
Shelley Taylor sabe, por experiência própria, que as pessoas mais idosas são extremamente propensas a serem alvo de fraudes: o pai e uma sua tia foram vítimas de vigarices financeiras. E como psicóloga que é, decidiu tentar desvendar as causas de tão desproporcionada vulnerabilidade.
Os resultados de dois estudos realizados pela sua equipa da Universidade da Califórnia ­- e publicados na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences - revelam que o cérebro dos adultos mais velhos não percebe tão bem os sinais suspeitos de desonestidade como o dos mais novos.
"O meu pai [na altura com cerca de 75 anos] foi ao banco acompanhado por uma pessoa que descreveu como sendo "um homem muito simpático", conta a cientista em comunicado. "Era um sem-abrigo e qualquer pessoa que olhasse para ele teria percebido logo que não devia dar 6000 dólares a esse homem." A tia, quanto a ela, comprou uns brincos de "diamante" pelo correio. "São de vidro. Uso-os sempre que dou uma conferência sobre este trabalho", comenta.


As consequências desta confiança excessiva em desconhecidos estão à vista: "Segundo um estudo recente", explica ainda Shelley Taylor, "estima-se que, nos EUA, em 2010, os adultos de mais de 60 anos perderam 2900 milhões de dólares devido à exploração financeira, que pode ir de esquemas para fazer arranjos em casa a complexas fraudes monetárias."
Num primeiro estudo, 199 adultos com 55 a 84 anos e 24 adultos mais novos (com 23 anos em média) avaliaram 300 fotos de rostos que tinham sido deliberadamente seleccionados para parecerem ou claramente dignos de confiança, ou neutros ou a merecer desconfiança. E constataram que, embora os dois grupos avaliassem de forma semelhante os rostos honestos e neutros, o mesmo já não se verificava com os rostos que denotavam manifesta falsidade. Enquanto os mais novos reagiam fortemente a esses sinais de alarme, os mais idosos não os conseguiam distinguir. "Os adultos mais velhos ignoravam expressões faciais [suspeitas], apesar de serem fáceis de detectar", diz Shelley Taylor.
Intuição deficiente
No segundo estudo, os cientistas quiseram ver o que se passava no cérebro dos participantes quando olhavam para as fotos, recorrendo, para isso, à técnica de ressonância magnética funcional. Desta vez, os participantes foram 44 - 23 adultos mais velhos (em média, com 66 anos) e 21 mais novos (em média, com 33 anos). E foi aí que descobriram a diferença, ao nível de uma estrutura chamada ínsula anterior. Esta região cerebral, que se activava fortemente nas pessoas mais novas mesmo quando elas estavam a avaliar uma face manifestamente cândida, quase não se activava nos mais velhos. A ínsula anterior está associada às reacções de repulsa e, portanto, influencia, em particular, a nossa capacidade de distinguir entre pessoas sinceras e pessoas que estão a tentar enganar-nos.

"Nos adultos mais novos, o próprio acto de avaliar se uma pessoa é digna de confiança activa a ínsula anterior. É como se estivessem a pensar que têm de ser prudentes no seu juízo", frisa Shelley Taylor. E isso, acrescenta, não tem nada que ver com o facto de os jovens serem melhores avaliadores da qualidade de um investimento - até porque as típicas vítimas de vigarices costumam ser homens com 55 anos e com experiência na área dos investimentos financeiros. Tem que ver, isso sim, com a maior capacidade dos jovens em detectar as dicas visuais relacionadas com as intenções alheias.
A ínsula anterior funciona como um "sensor" da nossa paisagem corporal interna, das nossas reacções viscerais, e o "mapa" que produz do nosso estado fisiológico a cada instante serve de base para gerar aquilo a que chamamos palpites ou intuições, explica, por seu lado, Elizabeth Castle, co-autora do trabalho. "Isto leva-nos a pensar que os palpites que alertam para o facto de alguém não ser de confiança se encontram atenuados nas pessoas mais velhas." O que não significa que a situação seja patológica: pelo contrário, é possível, escrevem os autores, que a tendência para reparar e lembrar-se mais facilmente das coisas positivas do que das negativas contribua para o bem-estar na velhice.
Shelley Taylor tem um conselho para as vítimas potenciais: "Não falem com quem vos tenta vender qualquer coisa, desliguem-lhe o telefone, respondam simplesmente: 'Não.'" Nem sempre é fraude, conclui, mas quando o cérebro não ajuda, mais vale evitar essas pessoas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Damásio - A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

Ípsilon



António Damásio

A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

22.09.2010 - Ana Gerschenfeld

Há dez anos, em "O Sentimento de Si", o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em "O Livro da Consciência", volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar. 
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"Fa franziu o sobrolho e olhou para a sua barriga, levou a mão direita à cabeça e disse: 'tenho uma imagem'. Abandonou a escarpa e apontou para o bosque e o mar: 'estou ao pé do mar e tenho uma imagem. É uma imagem de uma imagem. Estou - disse, levantando a cara e franzindo o sobrolho - a pensar."
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William Golding (mais conhecido como o autor do Senhor das Moscas) escreveu estas linhas em Os Herdeiros (The Inheritors, 1955), um romance onde imagina o encontro, há dezenas de milhares de anos, de duas espécies de seres humanos. Uma mais evoluída (nós?), os "cara de osso", imberbes, erguidos, magros, com rituais e ferramentas mais complexos; a outra mais primitiva (os Neandertais?), peluda, robusta e ágil a trepar às árvores.
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Uma das características mais salientes da estranha e maravilhosa narrativa de Golding é o número de vezes que recorre à palavra "imagem". Os Neandertais estão constantemente a "ter" imagens e a declarar que têm imagens (que portanto lhes pertencem) e a reflectir sobre essas imagens. Enquanto isso, as imagens, combinadas com o que vai acontecendo no mundo exterior e com a memória do passado, vão gerando emoções e sentimentos que geram outras imagens e orientam os seus actos, tanto exteriores como interiores. Estas personagens primitivas são seres perfeitamente conscientes do mundo e de si próprios, dotados de uma história pessoal e individual.
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Os hipotéticos neandertais têm contudo alguma dificuldade em manipular ideias complexas - talvez um sinal de que as suas capacidades de memória ainda não desabrocharam totalmente. A tribo mais evoluída, essa, tem muito mais jeito para todos esses exercícios mentais (algo que o autor talvez quisesse sugerir quando abandona o uso da palavra "imagem", mesmo no fim, mal o relato passa a ser do ponto de vista dos "cara de osso").
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Os humanos modernos tornaram-se mestres na produção de imagens mentais, na sua análise consciente e na análise, também consciente, dos sentimentos que elas provocam em nós. O nosso cérebro produ-las em contínuo e nem sequer quando dormimos conseguimos interromper o seu fluxo. Somos todos cineastas mentais natos.
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As imagens são "a principal moeda da nossa mente", explica António Damásio no seu novo livro, intitulado O Livro da Consciência. E a palavra não se esgota apenas nas imagens visuais, mas aplica-se aos padrões, aos "mapas" neuronais auditivos, viscerais, tácteis e por aí fora, que o cérebro constrói em permanência. Nem os sentimentos fogem à regra: são igualmente imagens. Mais ainda, o nosso cérebro que é "viciado" na criação de mapas, também mapeia o seu próprio funcionamento, gerando imagens totalmente abstractas. "Estou convencido", escreve Damásio, "que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de imagens."
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Esse filme super-multimédia que vemos na nossa cabeça começa na nossa infância - e de facto, através das relações sociais, da cultura e da aprendizagem, remonta até muito mais longe no passado, quando ainda não tínhamos nascido. Mais ainda, conseguimos antecipar o futuro e agir sobre ele em nosso benefício, individual e colectivo. E mais mais ainda, sentimos que o filme é nosso e só nosso (e de facto, somos o público exclusivo do espectáculo da nossa mente).
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Mas como é que lá chegámos? O que aconteceu no nosso cérebro que tornou a consciência possível?
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Cérebro, mente, consciência
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Como já aconteceu nos seus livros anteriores, as respostas que Damásio se propõe dar a estas perguntas só podem ser válidas se forem firmemente ancoradas na biologia. Afinal de contas, os neurónios que suportam a mente e a consciência são células vivas como as outras; afinal de contas o cérebro, com as suas várias subdivisões e as ligações nervosas entre elas que suportam a mente e a consciência, é a mente e a consciência. Afinal de contas, tudo o que se passa na nossa mente passa-se na nossa cabeça e no nosso corpo (where else?). "De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente" escreve Damásio.
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O Livro da Consciência é a mais recente incursão neste território do célebre neurologista português (radicado nos EUA desde 1975 e figura de primeiro plano não só da comunidade internacional das neurociências, mas também, desde o seu O Erro de Descartes, de 1995, junto do grande público). O título original em inglês do novo livro, Self Comes to Mind, talvez seja mais sugestivo do que o da versão portuguesa, editada pela Temas e Debates/ Círculo de Leitores, que vamos poder ler a partir de hoje (o original só será publicado nos EUA e na Europa em Novembro).
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Mas o que importa sublinhar é que o livro define um programa para a futura investigação nesta área. Damásio é o primeiro a admitir que ainda está longe de ter resolvido o mistério do que é a consciência humana (se é que alguma vez o poderá fazer), que está meramente a arranhar a superfície, que nem sequer tem uma teoria, mas apenas um "enquadramento" teórico da questão.
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Mas acha que, apesar de haver quem considere a tarefa impossível, ainda é muito cedo para os cientistas desistirem de explicar o que é a consciência em termos rigorosos e testáveis através da experimentação. Tanto mais quanto, nos últimos dez anos, os avanços das técnicas de imagens médicas têm permitido visualizar de forma cada vez mais sofisticada, ao vivo e em directo, o cérebro de pessoas (com e sem lesões neurológicas) a realizar diversas tarefas - para ver qual a região do cérebro que entra em acção a cada instante. Essas manchas de cor nas imagens poderão ser apenas um eco longínquo do filme na nossa cabeça, mas têm muito para nos contar.
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A quarta dimensão
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Toda essa massa de trabalho científico teve como consequência, para o pensador atento, metódico, profundo que é Damásio, uma mudança radical das premissas do empreendimento. O estudo do aparecimento da consciência humana, explica no livro, já não pode ser encarado da mesma maneira que há dez anos. Tornou-se preciso contar a história da consciência humana de outra maneira - e, por vezes, virada do avesso.
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Em primeiro lugar, acrescenta-lhe uma "quarta dimensão": a perspectiva da evolução das espécies. Para conseguir perceber como surge e como funciona a mente humana - e em particular a mente consciente - é preciso abandonar a ideia de que ela é única em todos os seus aspectos. É única nalguns, que não deixam de ser espectaculares (a cultura e as artes estão lá para o provar). Mas a mente nasceu nos organismos vivos muito antes de a espécie humana aparecer na Terra. A consciência não é o apanágio do cérebro humano.
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"A evolução brindou?nos com diferentes tipos de cérebro", lemos, "no que diz respeito à mente e à consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do Aplysia californica, [um] caracol marinho (...). Existe o tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos - comportamento, mente e consciência -, de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insectos."
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Há mesmo, segundo Damásio, uma série de animais que poderão, ao que tudo indica, possuir uma consciência rudimentar: "os lobos, os nossos primos os símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie especial chamada cão doméstico".
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O que lhe permitiu chegar a uma tal conclusão? "A organização dos seus cérebros e a sofisticação dos seus comportamentos sociais", responde-nos, numa troca de e-mail com o Ípsilon. E significa isso que esses animais são conscientes, tal como nós? Que sabem que existem? "Claro que a sua consciência não é tão abrangente como a nossa, mas penso que eles sentem as suas mentes e os seus comportamentos."
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Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?, perguntámos ainda. Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.
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Seja como for, uma consequência não trivial desta perspectiva evolutiva é que, desde os primórdios da vida na Terra, os cérebros, seja qual for sua sofisticação, sempre estiveram e permanecem dedicados em primeiro lugar à manutenção da integridade dos organismos que os contêm, humanos e não humanos. "A forma mais directa de explicar o motivo pelo qual a consciência prevaleceu na evolução é dizer que contribuiu de modo significativo para a sobrevivência das espécies com ela equipadas. A consciência chegou, viu e venceu", escreve Damásio no seu livro.
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Os andares da consciência
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Para o demonstrar, o cientista vai, por um lado, desmontar os diferentes sistemas e processos, de complexidade crescente, que culminam na consciência; e, por outro, especular de forma cientificamente informada sobre os locais no cérebro candidatos a ser o "lugar" onde cada um tem a sua sede principal (sem esquecer que o cérebro faz tudo de forma relativamente deslocalizada, o que também não significa que a totalidade do cérebro participe em todas as funções cerebrais; algumas estruturas são mais adequadas do que outras para o desempenho de uma dada função). A cada passo da construção (ou desconstrução), Damásio fornece uma profusão de provas baseadas na observação de doentes com problemas cerebrais muitas vezes trágicos - adultos com Alzheimer, epilepsia, coma, estado vegetativo, síndrome locked-in, crianças que nasceram sem córtex cerebral, a camada exterior do cérebro responsável por todas as funções cognitivas de alto nível a começar pela linguagem, lesões cerebrais maciças ou localizadas - e na de pessoas que não são doentes neurológicos. O seu conhecimento da anatomia do cérebro e a sua capacidade de interpretar sinteticamente os resultados da investigação (a própria e a dos outros), sempre em relação com essa anatomia, constitui um acto de autêntico virtuosismo. O que não significa que o seu livro seja de fácil leitura; antes pelo contrário. Seguir os meandros das explicações encadeadas de Damásio exige a concentração de um jogador de xadrez.
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A construção da consciência começa pela formação de um "proto-eu", seguido de um "eu nuclear" e coroado por um "eu autobiográfico". Estes três módulos foram sendo acrescentados um por cima do outro ao longo da evolução e nós humanos possuímos os três, simplesmente porque não podemos prescindir de nenhum deles.
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O proto-eu é uma semente, um germe primitivo do eu. A partir das imagens mentais que vêm do corpo, escreve Damásio, o proto-eu produz "sentimentos primordiais" (por exemplo, diversos níveis de dor e de prazer, o "sentir" de base), que são espontâneos e contínuos quando estamos acordados e que "garantem a experiência directa do nosso corpo vivo,
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sem palavras, sem adornos e sem qualquer outra ligação que não seja a própria existência". Ou seja, um primeiro sinal de que as nossas imagens mentais são nossas, ponto de partida indispensável da consciência.
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Cérebro arcaico
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A principal consequência disto, segundo Damásio, é que a existência da consciência humana é assegurada em parte por sistemas muito "arcaicos" do cérebro, tais como certas estruturas da parte superior do tronco cerebral (o tronco cerebral liga a espinal medula ao cérebro). Isto não fazia até agora parte dos "ingredientes" habituais da consciência. "São muito poucos os cientistas com trabalhos publicados a defender esta ideia", diz-nos Damásio. No livro, escreve: "O cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível do córtex cerebral, mas sim ao nível do tronco cerebral. Os sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens geradas pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o proto?eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu." E acrescenta: "estas ideias estão em conflito directo com os pontos de vista tradicionais sobre a consciência".
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Não é possível esgotar em poucas palavras a complexidade do pensamento de Damásio, mas podemos tentar alinhar os personagens e o enredo da peça da consciência. Além do proto-eu, existem mais dois participantes que completam o elenco da consciência: o eu nuclear (que se desenvolve "numa sequência de imagens que descrevem um objecto a interagir com o proto?eu e a modificá?lo") e o eu autobiográfico (que surge quando todas essas sequências de imagens de múltiplas origens, "cuja totalidade define uma biografia", geram por sua vez "impulsos de eu nuclear" e ligam o eu "ao passado bem como ao futuro antecipado"). O proto?eu, com os seus sentimentos primordiais, e o eu nuclear constituem um "eu material". O eu autobiográfico, que abrange todos os aspectos da pessoa social, constitui um "eu social" e um "eu espiritual".
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Mas para realizar o estado de consciência plena - aquele a que só os humanos temos acesso - ainda falta no palco da mente "um dono, um protagonista da existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção. Falta o narrador que não apenas sabe, mas que sabe que sabe, o "conhecedor" que permite atingir o mais alto patamar da consciência tal como a conhecemos hoje. São o eu nuclear e o eu autobiográfico que vão "dotar?nos a mente [desta] outra variedade de subjectividade", escreve Damásio. "A consciência humana normal corresponde a um processo mental onde operam todos estes níveis do eu".
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Dez anos depois
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Onde é que as etapas finais da construção da consciência se operam no cérebro? Onde é que se concretiza a subtil e complexa coordenação dos processos que permitem a sua emergência?  Devido à sua posição no cérebro e as ligações nervosas que estabelecem com outras regiões, o tálamo, situado entre o tronco e o córtex cerebrais, e uma área do córtex chamada PMC (córtex postero-medial) recolhem o voto favorável de Damásio. Mas isso não significa que exista uma separação de funções: o cérebro não funciona assim. Cada uma dessas três principais "grandes divisões anatómicas" contribui para algum aspecto da "tríade directora" da consciência, formada pelo estado de vigília, a mente e o eu.
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Perguntámos a Damásio o que, ao longo desta década, tinha tornado necessária esta sua nova viagem à consciência humana. "Muitas, muitas coisas", diz-nos por e-mail. E especifica que "embora tenha sempre reconhecido o valor das estruturas subcorticais, a perspectiva d'O sentimento de Si era predominantemente centrada no córtex. A d'O Livro da Consciência não é; o subcórtex e o córtex partilham os papéis - e o papel principal vai mesmo para o tronco cerebral."
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"Embora [no primeiro livro] também tivesse chamado a atenção para o córtex postero-medial, considerei-o como principalmente relacionado com o eu nuclear. Dez anos volvidos, com base em todos os resultados de neuroanatomia e neurofisiologia (...), vejo o seu papel como principalmente ligado ao eu autobiográfico. (...) Fiz ainda alterações teóricas a partir da reavaliação do comportamento das criaturas 'pequenas', das bactérias e por aí fora - e mais geralmente, daquilo que no seu conjunto descrevo como a quarta perspectiva.
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E qual a maior novidade no novo livro? "É o que digo sobre o tronco cerebral e sobre a fusão, literalmente, do corpo e do cérebro, que são duas caras da mesma moeda. Este é sem dúvida um dos pontos centrais do livro - e talvez o mais original e o mais sujeito a controvérsia."

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