Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 23 de janeiro de 2010

Sexo, gênero e o bicho homem - Regina Abrahão *


Colunas

Vermelho - 17 de Dezembro de 2009 - 0h10

Sexo, gênero e o bicho homem

Regina Abrahão *

Dois sexos, independente da orientação sexual que possuam, é a regra básica de quase todos os seres vivos existentes na natureza. Tirando algumas espécies como bactérias, fungos, etc., para a reprodução ocorrer é necessário que haja um ser masculino e outro feminino.

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As diferenças morfológicas e as relações entre os dois sexos, entretanto, variam a cada espécie, mas não apresentam diferenças entre casais da mesma espécie. A relação entre casais animais são sempre iguais, independente da cor, da raça ou do continente destes.
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Entre os seres humanos, porém, a maneira como o casal se relaciona varia de acordo com a época, o local, a religiosidade, a cultura e outros inúmeros fatores. Podendo, inclusive, o casal ser formado por dois seres do mesmo sexo, já que, entre humanos, a procriação não é o eixo central das relações. Portanto sexo como definição biológica e gênero como definição cultural.
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Mas o que diferencia homens e animais?
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Para o marxismo, é a capacidade que o homem tem de transformar a natureza. Seja em transformar galhos em armas, ou encontrando novas plantas no lugar das sementes enterradas, esta foi a diferença fundamental entre nós, seja do jeito que éramos, e o resto da fauna do planeta.
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Da transformação da madeira em apetrecho à agricultura, passando pela descoberta da produção do fogo, muito tempo se passou. O que sabemos destes homens primitivos? Muito pouco. E grande parte de nosso conhecimento foi obtido misturando-se a pesquisa histórica, arqueológica e a observação antropológica, em tribos ou povos em estágios de evolução semelhantes. E como eram as relações familiares entre estes nossos antepassados?
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Presume-se que nestas sociedades primitivas, a capacidade gestacional conferia às mulheres a condição de seres superiores, uma vez que o ato sexual não era identificado como fator responsável pela reprodução. Estas primeiras sociedades foram chamadas de matrilineares: A descendência era definida em função da origem materna, e, o cuidado com as crianças era responsabilidade coletiva. As tarefas eram divididas de acordo com a força física.
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Quando o ser humano deixa de ser um coletor (que pega da natureza o que precisa), descobre a agricultura e começa a domesticar animais, as relações familiares e sociais também mudam. Com a plantação, surgem as primeiras cercas, delimitando a propriedade. Neste período o homem já entendia que a geração de novos seres dependia não só da mulher, mas do casal. E ao acumular terra e animais, preocupou-se em transmitir sua herança a quem possuísse laços consangüíneos, ou seja, seus filhos. E aí as coisas complicaram-se um pouco mais.
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* Funcionária pública, direigente municipal do PCdoB de Porto Alegre, estudante de ciências sociais da UFRGS. Dirigente da Semapi - RS
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Cidade do Silêncio

    17/12/2009 18h46 Companheira Regina, faz tempo que não nos vemos, desculpe não lhe responder várias mensagens, mas agora eu pediria, se possível, que você analisasse (será que meu ss tá correto?)um filme que passou justo na "globo" no último sábado, o qual não foi muito comentado "Cidade do Silêncio". Neste filme me parece que se destacam temas muito caros: Liberdade de imprensa (Bandeiras é personagem jornalista mexicano, desde do inicio é sacaneado, no fim é assasinado) A mídia venal, interpretada atravéz daquele grande ator, Sheen, manda a personagem no inicio investigar as mortes de mulheres em Juares, depois manda calar a boca, afinal tinha o livre comércio assinado pelo México e queriam espandir para a América Central, devido à pressão do senado dos EUA e México; A personagem central para de pintar o cabelo numa etapa, assume que é mexicana (no filme `avários frechs, seus pais foram mortos, ela volta à lembra sua origem); Um triste filme, mas por que a globo passou? Por quê não foi comentado?
    Arnaldo de Salvo Júnior
    São Paulo - SP
  • materialismo histórico é um deleite

    17/12/2009 15h59 Muito bom camarada Regina. Seus estudos antropológicos são riquissimos. E baseados nos materialismo histórico se tornam um deleite pra quem busca a trajetória percorrida pela humanidade. Como dizia Paulinho da Viola: "Quando penso no futuro, não me esqueço do passado".
    Marcelo Buraco
    Santo André - SP
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Nós mulheres e o começo das coisas - Regina Abrahão *


Colunas

Vermelho - 24 de Dezembro de 2009 - 0h10

Nós mulheres e o começo das coisas

Regina Abrahão *

O grau de desenvolvimento ou as condições geopolíticas, comerciais ou militares, que dentre as primeiras civilizações encontramos referências de que o status da mulher variou entre semi-divindade, propriedade e reprodutora de força de trabalho, trabalhadora (não assalariada), além do compartilhamento já habitual, desde este tempo, da prestação dos serviços sexuais.

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Estas formas de relação entre homens e mulheres variavam conforme a assimetria das relações de poder, determinavam o tipo de sociedade desenvolvida e as relações entre os habitantes destas sociedades com o que eles reconheciam como mundo. Entre os quesitos para classificar as condições de vida da mulher nestas sociedades, podemos usar como indicativos o direito à vida (em caso de litígios com pai ou marido), a guarda de filhos em caso de viuvez, à escrita, à religião, à propriedade (raramente reconhecido), e, mais raro ainda, à política.
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De forma que, nas sociedades ditas primitivas, enquanto não eram estabelecidos elementos formais e consistentes de dominação do homem pelo homem, podemos dizer que a mulher podia ainda gozar de relativa autonomia.  Ao desenvolver-se, porém, formas de dominação, escravidão, servidão, o primeiro destes movimentos é realizado dentro da estrutura familiar, do homem em relação à mulher e a prole, num movimento crescente de repasse da submissão.
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Apesar da divisão social das sociedades mais antigas não seguirem o padrão do que hoje determinamos sociedades de classes, é certo que as divisões de tarefas não eram as mesmas entre mulheres abastadas, que contavam com escravos ou preceptores para auxiliar na educação de seus filhos, e as outras, que eram mulheres do povo e, como já conhecemos bem a história, tinham as sucessivas jornadas de trabalho para dar conta. Mas também é provável que, tanto quanto a burguesa hoje conta com toda a parafernália eletrônica, além dos serviços domésticos de outras mulheres para atenuar sua exposição à dupla jornada, e mesmo assim, apesar de ver, ou diminuída, ou suprimida sua discriminação enquanto classe, dificilmente escapará de sofrer seu quinhão de preconceito e violência enquanto gênero.
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Portanto, não é de hoje que camponesas e rainhas são discriminadas enquanto mulheres, mas sem dúvida, camponesas tem uma jornada de trabalho bem mais pesada que a da rainha, sofre mais opressão, mais riscos, menos acesso a bens, etc. Nada que tenha mudado muito nestes últimos milênios...


* Funcionária pública, direigente municipal do PCdoB de Porto Alegre, estudante de ciências sociais da UFRGS. Dirigente da Semapi - RS
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Seculo XXI

    24/12/2009 10h47
    O texto da camarada nós traz um historico de exploração do sexo feminino, que como sabemos de frágil não tem nada,porque resiste com sua prole ao longo dos tempos tanto sofrimento e luta para sobreviver. Esta tomada de conciencia de varias mulheres no limar do seculo XXI, vai demonstrando que esta surgindo uma nova mulher nos marcos do sistema que transforma tudo em produto. Parabens camarada Regina e Saudações Tricolores e Socialistas da Serra Gaucha!!!!
    Flavio Maia
    Caxias do Sul - RS
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Mulheres: registros das primeiras civilizações


Colunas

Vermelho - 31 de Dezembro de 2009 - 0h00 
Regina Abrahão *
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No Egito antigo a família tinha organização patriarcal, com participação de mulheres na religião e política, dependendo de sua classe social. Durante a história deste povo, homens e mulheres governaram, e havia divindades de ambos os sexos com os mesmos poderes e qualidades. Citamos como governantes Nefertiti, que instituiu por um breve período o monoteísmo no Egito.

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Hatchepsut, durante seu reinado de 22 anos empreendeu duas grandes campanhas militares, conquistando as regiões da Núbia e hoje Somália, além de realizar obras, como templos, monumentos e obeliscos.Importante ressaltar que tanto, Hatchepsut quanto Cleópatra, segundo egiptólogos, eram morenas, cabelos crespos alisados à henna, obesas e de baixa estatura. Nada parecidas com as deusas hollywoodianas. Belezas egípcias, compatíveis com o padrão norte-africano da época.
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Já na Grécia, conhecida como a origem da democracia as mulheres não possuíam direito à cidadania. Ficava ao seu cargo a manutenção do lar, o cuidado com os filhos e com os não produtivos (velhos, enfermos, incapacitados). A elas era reservada uma peça da casa chamada gineceu, onde habitavam mulheres, crianças e criados, sendo vetado seu trânsito nas outras dependências, exceto para manutenção e organização. Inclusive as refeições eram feitas em separado dos homens. Meninos eram separados das mulheres a partir da idade de treinamento militar, aos sete anos (Esparta), ou adolescência (outras cidades-estado gregas). Também o acesso a atividades como filosofia, política e artes eram proibidas às mulheres. A única exceção eram as mulheres minóicas. Ao contrário de outras cidades gregas, onde a mulher não tinha direitos políticos e era vista apenas como uma reprodutora, a mulher minóica era livre, podia adquirir propriedades e ser independente.
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No Império romano A instituição do paterfamilias garantia ao homem poder absoluto sobre as mulheres, filhos e escravos, inclusive de vida e morte. O casamento (justum matrimonium) determinava à mulher abastada as tarefas de cuidar da educação dos filhos, administrar os escravos, e a casa. As não abastadas, na indisponibilidade de escravos, acumulavam as tarefas domésticas, educação e cuidado com os filhos e trabalhos na agricultura ou urbano. Era concedido às mulheres casadas o direito de acompanhar os maridos. Política, artes, participação na vida pública eram proibidas para mulheres, que também não tinham direito à propriedade. Mesmo assim, existem registros de mulheres literatas e outras que participaram de movimentações políticas, como Semprônia e Clódia.

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* Funcionária pública, direigente municipal do PCdoB de Porto Alegre, estudante de ciências sociais da UFRGS. Dirigente da Semapi - RS
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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terça-feira, 21 de julho de 2009

Dia de quem?

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por Regina Abrahão*
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Sabidamente, datas tradicionais têm forte apelo emocional. Natal, páscoa, dia das crianças, além de movimentar bilhões, movimentam sonhos não só infantis, mas mexem com carências e afetos dos seres envolvidos com a divulgação do consumo. Na sociedade do ter, dar é amar. Mas como fica quem não ganha? São natais e páscoas, dias da criança, das mães, dos namorados. Vezes em que mais importante em que ter o ser, é ter para receber. Quem não tem ou não ganha é olhado com diferença. E quem não compra para dar, pode não gozar de boa fama.
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Palavras rebeldes? Não, não se trata de rebeldia. Ou talvez trate-se da boa rebeldia. É que ao buscar a origem destas datas, encontraremos primeiro algumas festas pagãs, com sentido absolutamente diverso, depois cooptadas pelo cristianismo e por fim adaptadas pelo capitalismo, que via em cada comemoração personalizada a possibilidade de ganhos, lucros e vendas. Desta forma, o dia dos pais nos EUA teve sua data unificada por Nixon em 1972; antes disto, cada estado comemorava seu dia, de acordo com o comércio local.

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O próprio natal, ápice do consumo no mundo inteiro, deriva de uma festa pagã. A cultura celta comemorava o nascimento do sol em um festival, aproximadamente na data do natal, quando os romanos cristianizaram a Europa e os ''pagãos'', apropriando-se inclusive desta festa. Daí o primeiro natal com sentido de nascimento de Cristo data do ano de 336, em Roma. Ou seja, totalmente descolado do que seria a idéia original. Como a Bíblia diz que os reis magos trouxeram presentes, a idéia pegou. O resto, todo o povo conhece...

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Na Grécia e Roma antigas haviam festivais chamados Lupercália, dedicados à fertilidade. Aconteciam em fevereiro. Depois, o catolicismo proibiu a realização destas festas e se apropriou da data, que virou dia de San Valentin. Aqui no Brasil, o publicitário João Dória da Standart Propaganda fez uma campanha para as lojas Clippert, tentando movimentar as vendas que estavam fracas. A campanha dizia: ''Não é só com beijos que se prova o amor''. A moda pegou. Assim nasce o dia dos namorados. Foi um sucesso.

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O primeiro dia das mães no Brasil acontece em 1912 numa campanha conjunta entre a Associação Cristã de moços e os lojistas de Porto Alegre, num mês de fraquíssimo movimento. Marcaram para 12 de maio uma comemoração que tinha com o slogan ?Dê um presente para quem lhe deu o maior presente: a vida.? Em seguida, a idéia espalhou-se pelo país e unificou-se, uma vez que a data já era comemorada em maio em outros países.

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O problema todo fica sendo os sem. Sem, bem entendido, dinheiro para comprar os presentes, sem presentes para receber ou vontade para presentear. Os sem vontade de se enquadrar no que diz o capitalismo que devemos, obrigatoriamente fazer.

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Como agora, quando amigos e amigas surgem sorridentes a se abraçar, passam torpedos e e-mails, e até aí, tudo bem. Inofensivo dia do amigo. Em algumas floriculturas já vi pequenos vasos de flores para amigos. Cartões para amigos. Torpedos telefônicos O docinho, o bom-bom. A flor, a cerveja, café com chantili. Talvez esteja na hora de instituirmos o dia do só abraço no amigo. Mas penso que este não contará com apoio da mídia.

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*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 21 DE JULHO DE 2009 - 20h09
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

O papel das religiões na opressão da mulher (final) 3/3

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por Regina Abrahão*

Mais um produto do caldo cultural religioso brasileiro, as igrejas evangélicas misturam em seus cultos elementos do cristianismo protestante, da umbanda e do espiritismo. Como não existe um órgão ou poder centralizador, cada igreja na prática é uma religião autônoma e independente, com culto, liturgia e regras morais próprias.

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O resgate do pecado original

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Originária da reforma protestante, com ênfase em conceitos bíblicos patriarcais, reproduz a opressão masculina mais arcaica. ''Mulheres, sujeitai-vos aos vossos maridos'', parece ser o dogma central norteador das relações entre homens e mulheres. Como os evangélicos acreditam em possessões e realizam exorcismos, episódios como estupros e violência sexual podem ser explicados como influência demoníaca e resolvidos através de intervenções espirituais. É comum a culpabilização da mulher neste tipo e casos, como ''provocadora'' da situação: volta-se a idéia da mulher que induz o homem ao erro, ao pecado. Já os casos de violência doméstica tendem a ser caracterizados como problemas a ser resolvidos entre o casal, por meio de preces e orações. A indissolubilidade do casamento é obrigatória. Em sua maioria, mulheres também não ascendem a postos de sacerdócio, entre os evangélicos chamados de pastores. São no máximo obreiras, ou auxiliares.

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Em momentos de crise, quando se acirram as condições de vida, nota-se um ascenso da credibilidade religiosa. Que também é mais forte nas populações mais desfavorecidas de poder econômico e políticas públicas. Quanto maior a ignorância de um povo acerca de seus direitos, maior também a aceitabilidade de dogmas e regras morais rígidas, buscando satisfazer suas raivosas divindades. É a expiação das culpas, o velho pecado original. Afinal, não só a maternidade deverá ser dolorosa: O homem também deverá ''comer o pão com o suor de seu rosto''.

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O recente caso da excomunhão de uma criança de nove anos, grávida em decorrência de estupro, e de toda a equipe que lhe prestou assistência reacende o debate sobre a crueldade de determinados dogmas e de seu impacto sobre a vida das mulheres. Foram culpabilizadas todas as pessoas envolvidas, menos o homem estuprador. Até que ponto a intolerância da igreja teria o direito de obrigar uma criança de nove anos a correr risco de vida para gerar filhos que ela não optou por ter? Quem determina como deverá reagir a mulher vítima de estupro? Mais: Já que se arvora a legislar, porque a Igreja isenta de punição o homem, causador de toda a tragédia?

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Que Deus, caso ele exista, ajude a humanidade a desfazer os conceitos que seus (em tese) filhos criaram para usar em seu nome.


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*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.



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in Vermelho - 2 DE MAIO DE 2009 - 18h42
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Ambientalismo e Socialismo: lutas indissociáveis

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por Regina Abrahão*

Sempre que o homem transformou a natureza houve prejuízos ao ambiente natural. As pirâmides do Egito utilizaram quantidade formidável de pedras, extraídas das regiões próximas, modificando consideravelmente o bioma antes existente. O solo da Babilônia foi exaurido pela cultura de cevada e do trigo (uma variedade chamada espelta). Vários povos já utilizavam barragens para irrigação em solos pouco férteis. Os rios da Europa desde a Idade Média sofreram com a contaminação por curtumes e dejetos urbanos, e as cidades da época eram mal cheirosas, insalubrese contaminadas.

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A partir da revolução industrial o mundo conheceu a poluição industrial. As guerras sempre tiveram efeito devastador sobre a natureza, mesmo funcionando como elemento de controle populacional. As primeiras experiências atômicas, porém, tiveram não só o efeito de arrasar as regiões atingidas, mas também o de provocar mudanças genéticas nos seres vivos por várias gerações. O uso de napalm na guerra do Vietnam comprometeu grande parte da área agricultável do
país.

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A revolução verde, ocorrida a partir da década de 70 no mundo todo provocou outro tipo de poluição. O uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos transformou terras pouco produtivas em férteis e com produção abundante, mas por pouco tempo. Em contrapartida, trouxe a contaminação nos alimentos, o fortalecimento de pragas antes controladas de forma biológica e o empobrecimento do solo.

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A monocultura decorrente do latifúndio completou o quadro, com a desertificação de vastas áreas no planeta, uma vez que terras impróprias para a agricultura foram transformadas, com o uso de nsumos químicos, em campos de plantações. Por dez ou doze colheitas. Depois, a terra volta a tornar-se imprópria para a agricultura, trazendo a erosão, mudanças climáticas e alterações profundas na fauna e flora locais. Mas talvez o efeito mais perverso do agronegócio seja a substituição da agricultura voltada para a alimentação pela agricultura voltada para a exportação, notadamente de oleaginosas, cana-de-açúcar e matéria prima para celulose e carvão.

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A plantação de árvores exóticas no Brasil tem mais de cem anos. O eucalipto, inicialmente, foi plantado em áreas alagadiças a fim de permitir seu uso para outros fins, devido ao grande consumo de água que necessita (de 30 a 50 litros por dia). Aos poucos, foi sendo usado para moirões, como lenha, e a partir da década de 70 inicia-se o uso do eucalipto para a fabricação da pasta de celulose. O processo de
fabricação da pasta está entre os mais poluentes da indústria. Além de consumir grande quantidade de nutrientes, água, inviabiliza qualquer outra cultura durante ou após (cerca de 30 anos) seu plantio. Os únicos animais que conseguem coexistir com o eucalipto são cupins, aranhas e caturritas.

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Uma área de 50 ha, que sustenta economicamente uma família de quatro ou cinco pessoas anualmente produzindo alimentos para cerca de 50 pessoas ocupa, no primeiro ano, um trabalhador. Entre o segundo e o sétimo ano um único trabalhador dá conta de uma área de 1.000 ha, unicamente para aplicação de fertilizantes. No sétimo ano, um trabalhador, operando máquinas de corte, trabalha cerca de 500 ha. A pasta de celulose é processada em empresas nem sempre próximas da região de plantio; depois do processamento sofre o processo de lareamento, a base de cloro. E depois de pronta para ser transformada em produto final é exportada. Esta situação ocorre hoje na África e no Brasil. Atualmente, o Brasil possui 5,3 milhões de ha plantados com eucalipto. As empresas planejam ainda ampliar esta área em mais 2,6 milhões de ha.

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A sociedade capitalista bem poderia chamar-se sociedade do esperdício.

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Afinal, nos países ricos, entre 30 e 40% de todos alimentos comprados são postos no lixo. O que inclui o desperdício de toneladas de água potável gastas na produção destes alimentos. Isto enquanto existem no mundo cerca de um bilhão de famintos e desnutridos crônicos, e uma criança morre a cada cinco minutos vítima de doenças decorrentes de problemas relacionados ao mau uso da água e falta de saneamento.

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A promoção do consumo, carro-chefe do capitalismo, exige a produção de artigos em quantidades cada vez maiores, para usufruto de uma pequena parcela da população. Para garantir a circulação de bens e mercadorias, uma das táticas é a produção de produtos com pouca durabilidade, ou de uso único; outra tática é a artificalização de necessidades, visando produção e venda de supérfluos. O preço deste processo, é exaustão de recursos, a geração de resíduos além da capacidade de eliminação e a criação de mazelas sociais próprias do capitalismo. Afinal, na sociedade do ter, onde em uma única estação climática são produzidas duas coleções de moda, e mesmo o papel higiênico deve passar por cloramento e receber estampas, a efemeridade é o tom dominante.

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Esta situação toda não passou despercebida nem mesmo aos olhos do capital. Ciente que a luta pela preservação ambiental pode se transformar em ferramenta valiosíssima contra o sistema econômico vigente, o sistema encampou, com relativo sucesso, o discurso ambientalista. Apesar de cumprir, em certa medida, a função de denúncia e de promover medidas protetivas à natureza, este modo de luta se torna inócuo por estar descolado do enfrentamento ao modelo econômico e social que o mundo vive hoje. Seria cômico, não fosse trágico, ver as transnacionais poluidoras investindo em publicidade...

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Defendendo a natureza! Assim como o discurso dos ''verdes'' que nãotocam no centro do problema: Consumo, lucro e exploração.

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A simples luta pela preservação, se não lincada à luta pelo socialismo, por outro modo de produção, pela diminuição do consumo, pelo fim do latifúndio, terá o mesmo efeito do perfume antes do banho. Sem esquecer que a miséria que degrada o homem é também uma das responsáveis pela degradação ambiental.

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O problema, finalmente, não é ''cada um fazer a sua parte'' e a sensação de dever cumprido. Não basta reciclar o próprio lixo, embora seja impensável não fazê-lo. Não basta economizar água no banho, manter-se alheio aos debates nacionais e internacionais. A luta ambiental não acontece isolada, não é individual. Só funcionará se, ao lado da indispensável mudança de atitudes individuais, houver um comprometimento coletivo com a construção de uma nova sociedade.




*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 2 DE JUNHO DE 2009 - 20h02
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terça-feira, 5 de maio de 2009

O papel das religiões na opressão da mulher (2)


por Regina Abrahão*

No Brasil, até que o Estado fosse declarado laico a Igreja acumulava os poderes ao mesmo tempo espirituais e terrenos, confundindo-se com o próprio Estado. Cobrava o dízimo, tinha o poder de aplicar multas, recolher e repassar impostos. Mais do que isto, ditava as normas de conduta e moral. A superioridade do homem descrita na bíblia era confirmada pela igreja. Numa época em que o importante era povoar a terra recém ocupada, nada mais conveniente do que uma mulher como a sugerida por Paulo de Tarso em Cartas para Timóteo (2:9,15):


Não existe pecado ao sul do Equador

''Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes e se enfeitem com pudor e modéstia. Não usem tranças nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; pelo contrário, enfeitem-se com boas obras, como convém às mulheres que se dizem piedosas. Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. e não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade''

Quando, no século VXI, os portugueses invadem o continente recém ''descoberto'' e para cá enviam os degredados, criminosos e aventureiros pouquíssimas mulheres havia entre eles. Os homens que vieram foram responsáveis por estupros, raptos e inúmeras violências contra índias, o que resultou na imensa miscigenação do povo brasileiro. As mulheres enviadas mais tarde, com a finalidade de estabelecer uniões conjugais eram, igualmente, mulheres que ?não faziam falta? á sociedade portuguesa: Órfãs, criminosas, prostitutas, adúlteras. De forma que as relações que se estabeleceram por aqui não eram nada parecidas com os casamentos da metrópole. O território só começou a ser efetivamente colonizado em meados do século XVI, com o envio de religiosos determinados a implantar a moral da corte na colônia. Uma das primeiras providências foi instalar uma pesada taxa para os concubinatos, que beiravam 80% das relações estáveis; Depois, passaram a reforçar a importância da família patriarcal nuclear, instituir as ordens religiosas, e implantar, por aqui, os conceitos morais dominantes na Europa.

Com a chegada dos escravos africanos, outras idéias religiosas vieram a incorporar-se na sociedade brasileira. Mesmo proibidos de exercer seu culto, misturando suas divindades aos santos católicos, a influência da religiosidade e da cultura africana na sociedade brasileira é inquestionável. O trato do homem branco com a mulher negra, além de toda a carga do preconceito racial e religioso recebeu ainda o ''reforço'' da encíclica papal que afirmava ''Não existir pecado ao sul do equador'', já que negros e índios não possuíam alma. Enquanto nos matrimônios a idéia de pecado e a repressão faziam do sexo algo penoso para as mulheres e tedioso para os homens, as mulheres negras, com outro conceito de sexualidade,relacionavam-se com os homens brancos. Com ou sem vontade. Afinal, não tinham alma, mas possuiam corpo! As mulheres negras, portanto, eram destinadas ao trabalho, sexo e reprodução. Não tinham direito à família e seus filhos, as vezes filhos também do senhor de escravos, podiam ser arrancados para venda.

Nas religiões politeístas, originárias de civilizações ditas primitivas, as mulheres exerciam papéis diversos dos homens, mas nem por isso, menos relevantes. A lenda da criação do mundo, segundo a religião Yorubá, na vertente Nação Cabinda (RS), só é transmitida por tradição, de Babalaorixás (pais-de-santo) para seus Yalorixás (filhos-de-santo).

?No início, Olorum tinha e contemplava todo o universo, mas estava entediado. Um dia, ele olhou para a Terra, viu o mar, e achou-o lindo! Recolheu sua espuma, e dela criou Yemanjá, para que ela usufruísse de tudo o que havia na terra. Mas Yemanjá caminhava pela praia, banhava-se no mar, e não sorria. Então ele buscou um punhado de areia do fundo do mar e criou Oxalá. Os dois se encontraram, e ouviram de seu deus a sentença: A terra é de vocês, desde que cumpram minhas três leis: Não plantem mais do que possam colher, não cacem mais do que possam comer e não queiram mais do que possam usar. Enquanto os Yorubás cumpriram a sentença, a vida foi boa; Havia caça e pesca em abundância, e o que eles plantavam nascia.. Mas seus filhos e netos dividiram-se em nações, e depois começaram a brigar por cobiça. Aí vieram outros homens, e com eles a escravidão. Enquanto houver cobiça, haverá escravidão. (relato verbal de Oldair de Oiá, Babalaô).

Nas religiões afro-brasileiras, pais e mães-de-santo gozam de igual prestígio, e no Orumalé (conjunto de santidades) os orixás têm prerrogativas semelhantes. Sem contar que Yemanjá é considerada a mãe da criação. O contato com o catolicismo, entretanto, fez com que alguns tabus cristãos fossem incorporados, como a proibição do exercício dos cultos pelas mulheres menstruadas, ou a diferenciação das vestes (calças para homens e saias para mulheres). De qualquer forma, a lenda da criação Yorubá é certamente das mais feministas e libertárias, além de extremamente atual: Quem dera que a humanidade não desejasse mais do que necessita... Sobre a homoafetividade, outro tabu recorrente nas religiões monoteístas (que dão ao sexo a finalidade básica da procriação), os yorubás têm outra visão. Ogum, filho dileto de Yemanjá, guerreiro conceituado, tem uma relação homoafetiva com Odé; No candomblé, Oxumaré troca de sexo no outono e na primavera, o que aponta para a bissexualidade. As lendas nos dão conta ainda de inúmeros casos de disputas amorosas, traições, separações, paixões, protagonizadas indistintamente por divindades homens e mulheres, sem a moralização e culpabilidade habitualmente atribuídas neste tipo de situações em estórias ocidentais.




*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 5 DE MAIO DE 2009 - 20h53
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

O papel das religiões na opressão da mulher (1)


por Regina Abrahão*


Este texto não tem como finalidade a crítica pura e simples sobre as diversas religiões ou sobre quem as professa, muito menos o questionamento da fé. Em determinados momentos da história, religiosos progressistas cumpriram e cumprem papéis importantes na emancipação de povos oprimidos, e a liberdade religiosa, garantida constitucionalmente é um direito inquestionável. Mas também é importante ressaltar que inúmeras atrocidades foram e são cometidas em nome de Deus.


Deus, à imagem e semelhançado homem?


Para Mary Daly, a complexidade das representações do divino das religiões monoteístas (judaísmo,cristianismo e islamismo) tem sua origem no poder unilateral androcêntrico (centrado no masculino). Portanto, a mediação com o sagrado, o sacerdócio, passa a ser exercido exclusivamente pelo homem. Se as mulheres não são suficientemente capazes para a mediação com o divino, está legitimada a opressão e a desigualdade nas relações de gênero. No livro "Beyond Deus, o Pai", a autora diz: "Uma vez declaradas “não aptas” para o sagrado, ficam numa posição de sofrerem sob o sagrado. Esta prática está coerente com a compreensão do sagrado como masculino. Deus é projetado como homem nestas religiões, que, por sua vez, legitima a centralidade no macho na sociedade: o sacerdote é homem, o rei é homem, os profetas são homens, os salvadores são homens... “Enquanto Deus é homem, os homens serão deuses”".


Uma das principais características de qualquer doutrina religiosa é exercer forte influência nos padrões de comportamento moral e social na população que pratica a sua fé. Desde que os primeiros hominídeos associaram fenômenos da natureza a “entidades” sobrenaturais para poder entendê-los, criaram também normas de conduta que imaginavam poder agradar a estas entidades. Quanto mais assimétricas se tornam as relações de poder entre os membros de uma sociedade, mais esta sociedade usará do artifício religioso para impor diferenças entre seus membros. E notadamente, sobre a mulher. Desta forma, quanto mais “evoluídas” as relações sociais, mais as religiões buscam regras e leis visando enquadrar a mulher nos papéis convenientes para a sociedade. E nada melhor para justificar este convencimento do que a vontade divina. A concepção de Deus muda segundo a concepção da humanidade a respeito de si própria. O que a observação nos demonstra é que inicialmentea ideia de Deus era feminina, já que associada à concepção e geração. Isto até a humanidade entender que a geração de bebês era conseqüência do ato sexual. Conforme mudam as percepções do homem sobre si mesmo, mudam também suas ideias sobre Deus. Ou o homem muda sua concepção sobre Deus, que ele concebe à sua própria imagem e semelhança.


Como a maioria dos brasileiros criados e educados à sombra de valores morais do cristianismo, as mulheres têm sua primeira relação com o divino em uma figura masculina. Um único Deus homem, severo, vingativo, que tudo vê e que condena a maioria das coisas interessantes, entre elas sexo, diversão, prazer e iniciativas. E para entender o papel da mulher para as diversas, correntes religiosas que o Brasil conheceu e conhece em sua história, é preciso entender cada momento político vivido e as necessidades da sociedade deste momento.


Duas correntes religiosas influenciaram majoritariamente a formação do povo brasileiro: a católico-cristã e a africana, uma vez que a população indígena foi parte dizimada, parte aculturada através da catequese. A miscigenação étnica e cultural da população provocou o fenômeno que conhecemos por sincretismo religioso. Exemplo maior deste caldo é a umbanda, doutrina genuinamente brasileira, com pouco mais de um século de existência, que mistura elementos esotéricos, católicos, espíritas kardecistas, das pajelanças indígenas, e do yorubá. Mais fiel a suas raízes, as chamadas religiões afro-brasileiras conservaram não só seus elementos originais mas também os valores morais dos grupos que aqui aportaram escravizados para servir de força de trabalho durante o Brasil colônia. Hoje, segundo o Babalaô Clóvis do Aganjú, de Nação Oió, “O Brasil é o país com o maior número de católicos praticantes das religiões afro, atualmente freqüentando as sessões de descarrego das igrejas evangélicas.” Eis aí a explicação para os milhões de católicos auto-declarados nos censos e igrejas católicas vazias em seus cultos dominicais.


(continua)




*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.



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in Vermelho -
28 DE ABRIL DE 2009 - 18h35
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