Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc
Mostrar mensagens com a etiqueta Marx. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marx. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sobre Darwin e o darwinismo - Reflexão crítica de Álvaro Cunhal


Exemplo dos bicos de tentilhões de Galápagos.
.



.

Sobre Darwin e o darwinismo
Reflexão crítica de Álvaro Cunhal


As notas sobre a obra de Darwin, hoje republicadas no Avante!, são mais uma pequena ilustração de um facto incontestável: Álvaro Cunhal foi um notável intelectual. Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa. Apesar das suas raízes familiares burguesas e sua formação académica em Direito, enquanto militante do PCP (a partir de 1931, com 17 anos) aprofundou uma ligação estreita com os trabalhadores e o povo português, condição indispensável para conhecer as carências e aspirações mais profundas do nosso povo, o que veio a justificar inteiramente a sua auto-caracterização, em 1950, durante o seu julgamento perante o tribunal plenário, como «filho adoptivo da classe operária».

Manteve porém sempre a sua natureza de intelectual, de estudo constante, de uma curiosidade sem limites. Era capaz de conversar em detalhe tanto sobre formas de rega como de design finlandês. E mesmo nas condições mais austeras procurava sempre aprofundar o seu conhecimento intelectual. As notas sobre a obra de Darwin foram publicadas após a sua terceira passagem pelas prisões fascistas (foi preso em 1949), quando ainda na Cadeia Penitenciária de Lisboa, e antes da sua transferência para a Cadeia do Forte de Peniche, donde se veio a evadir, juntamente com outros presos, na épica fuga de 1960. Alí, teve oportunidade de ler e estudar mais atentamente as duas obras fundamentais de Charles Darwin, nos seus títulos completos: Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural, ou A Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Sobrevivência (1859) e a Descendência do Homem, e a Selecção em Relação ao Sexo (1871).
Não era a primeira vez que lia Darwin. Já na sua tese final na Faculdade de Direito Aborto, Causas e Soluções (em 1940) (i) – mais uma ilustração do seu humanismo e capacidade de antecipar o tratamento de temas determinantes, neste caso para a condição feminina – Cunhal faz referência a Darwin e aos panfletos sobre os princípios da população humana do Rev. Thomas Malthus, que inspiraram Darwin a desenvolver a teoria da selecção natural. Não fossem as condições adversas em que Cunhal estudou as obras de Darwin já suficientes motivos de admiração, há que acrescentar dois elementos adicionais que fazem da atenção dada a Darwin ainda mais reveladoras do seu espírito intelectual.
Por um lado, durante a primeira metade do século XX, Darwin foi uma figura relativamente relegada. Durante a sua vida, tinha sido uma figura de referência, e as suas obras eram alvo de grande atenção e debate, em particular a sua teoria de evolução (por oposição à ideia conservadora de criação independente das espécies). Ainda durante a sua vida, as suas ideias foram apropriadas por várias figuras políticas, para justificar e dar fundamento natural ao individualismo e competição promovidos pela burguesia industrial ascendente. Mas após a morte de Darwin, em 1881, embora a evolução se tivesse estabelecido, a influência da Origem e das restantes teorias aí enunciadas, incluindo a teoria da selecção natural, perderam influência, e outras escolas de pensamento dominaram, incluindo escolas que reintegraram a teleologia e o progresso na visão de evolução (ideias rejeitadas por Darwin).

Perspectiva dialéctica

No início do século XX, foram redescobertas as experiências de Gregor Mendel, e o mendelismo – ou a evolução por meio de mutações – tornou-se uma área de intensa investigação científica. Isto é, a biologia e o pensamento evolutivo encontrava-se profundamente dividido e fragmentado. Só na década de 1940 começou a ganhar raízes uma visão mais integradora da biologia (a Síntese Moderna), sintetizando a evolução darwinista de evolução por selecção natural, a paleontologia, a sistemática e a área mais recente da genética (ii). E só em 1959, quando foi comemorado o centenário da Origem, é que as ideias de Darwin voltaram a ser discutidas de forma mais generalizada.
Por outro lado, na URSS, pátria do socialismo e referência para qualquer comunista, a figura mais influente no campo da biologia durante a década de 1930-40 foi Trofim Lysenko, que rejeitava a genética mendeliana e a evolução darwiniana, defendendo antes ideias neo-lamarckianas, em particular a herança de características adquiridas. A influência de Lysenko teve efeitos dramáticos sobre o avanço da ciência agrícola soviética, e foi responsável, na URSS, por um considerável atraso científico na área da Biologia.
Apesar deste contexto, Cunhal, na prisão, na condição de isolamento prolongado, leu Darwin e foi capaz de reconhecer a sua importância científica, criticando inclusivamente a falta em Portugal da sua discussão mais alargada e do seu ensino (que se encontra hoje novamente em condição empobrecida: a evolução biológica do ser humano não é tratada nos actuais programas curriculares). Cunhal faz mesmo uso presciente de uma metáfora («só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia de evolução») que constitui o título de um artigo científico de Dobzhansky (de 1973) – «Nada em Biologia faz sentido excepto à luz da Evolução» (iii) – que hoje é frequentemente citado e parafraseado. Cunhal salienta também as limitações do tratamento de Darwin relativamente ao Homem social. Darwin, porém, não pretendeu nos seus estudos abordar esta componente social. Embora Darwin se tenha manifestado intrigado pelo social noutras espécies (caso das formigas e abelhas), não logrou encontrar uma explicação para comunidades sociais animais, que só nos anos 1960-70 veio a ser melhor entendida do ponto de vista biológico. Em Contribuição para o Estudo da Questão Agrária, publicado em 1966 (iv), Cunhal acusa Darwin de ter «reintroduzi[do] os princípios malthusianos no estudo das sociedades humanas». Porém, esta falácia naturalista não foi cometida por Darwin, mas antes por outros, com ambições políticas, que se apropriaram das ideias darwinistas e desenvolveram o chamado «Darwinismo Social», caso de Herbert Spencer, e fundaram movimentos eugénicos, que assumiram grande influência no início do séc. XX. É certo que Darwin se inspirou nos trabalhos de Malthus (tal como veio a suceder com Alfred Wallace, co-descobridor da teoria da selecção natural), mas Darwin recolhia inspirações de múltiplas fontes, aproveitando ideias para as aplicar no seu tema de interesse: a adaptação e diversidade biológica. É impreciso pensar em Darwin como um subscritor das ideias políticas de Malthus, cujos trabalhos eram efectivamente panfletos políticos contra o apoio social do Estado às massas empobrecidas. Na verdade, a competição por recursos limitados não é sequer condição necessária para a actuação da selecção natural. Trata-se de um caso particular, destacado por Malthus, que permitiu a Darwin inferir um processo mais geral. O sublinhar do papel da competição deve-se mais aos que se apropriaram da onda darwiniana para fins políticos. Tão pouco será correcto historicamente dizer que Darwin desprezava os «selvagens» da Tierra del Fuego ou era racista. Darwin pertencia a uma família anti-esclavagista, e ficou profundamente impressionado pelo tratamento dos escravos no Brasil e pelas condições extremas dos Fueginos, regressando da viagem no Beagle mais convencido de que todas as «raças» pertenciam à mesma espécie, e portanto todas teriam direito à sua emancipação (v).
Cunhal sublinha na sua análise «a incapacidade [de Darwin] para compreender que as transformações quantitativas se convertem em qualitativas». Darwin efectivamente propunha uma visão gradual da evolução, à semelhança das transformações geológicas graduais propostas por Lyell. Cunhal faz uma crítica ao gradualismo, aplicando a sua formação marxista-leninista, que veio na segunda metade do século XX a ser defendida por um biólogo evolutivo, também marxista: Stephan Jay Gould e a teoria do pontualismo. Efectivamente, há evidências crescentes de que pequenas modificações genéticas podem dar azo a significativas alterações nas características individuais, e a alterações qualitativas na evolução.
Por não consistir parte do seu objecto de estudo, por limitações da sua origem burguesa, ou por mero receio, Darwin não aplicou o seu materialismo histórico à evolução social do Homem. Felizmente houve quem o tenha feito. No funeral de Marx, em 1883, Engels proclamou que «tal como Darwin descobriu a lei da evolução na natureza orgânica, assim Marx descobriu a lei da evolução na história humana.» Não devemos porém cair no erro de pensar que em dado momento o processo de evolução orgânica humano terminou, o homem se libertou da sua história biológica e entrou numa fase em que apenas passaram a actuar as leis sociais do materialismo histórico. O ser humano é um biológico e social e, tanto as leis marxistas como as darwinianas, de modo dialético, continuam a influenciar a sua história.

André Levy
_____________________

i) Reproduzido nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, 1935-1947, Tomo I. (2007) Edições Avante!

ii) Sobre a história da biologia evolutiva após a morte de Darwin até aos nossos dias, vejam a introdução de Evolução: Conceitos e Debates (2009) Esfera do Caos.

iii) Publicada em português em Evolução: História e argumentos (2008) Esfera do Caos.

iv) Disponível na internet em http://www.marxists.org/portugues/cunhal/ano/agraria/

v) Ver o livro recente Darwin's Sacred Cause: How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution, (2009) de Adrian Desmond e James Moore, Houghton Mifflin Harcourt.

6 de Outubro de 1951
[Sobre a obra de Darwin]1


Devolvida carta com indicação de não poder seguir nada do que nela dizia acerca da obra de Darwin (e seria «ciência comunista»!)

«Tenho estado a fazer uma revisão geral das duas grandes obras de Darwin a fim de ordenar em apontamentos algumas ideias fundamentais. Não só me foi muitíssimo útil esta leitura – dum modo geral pelo que aprendi e, em particular, por me permitir um mais completo esclarecimento de um problema em estudo para o ensaio sobre a questão agrária que estou preparando – como me deu profundo prazer. Se é certo que na Descendência do Homem, várias centenas de páginas sobre os «caracteres sexuais secundários» em todas as classes do reino animal se tornam por vezes (só por vezes) um tanto pesadas, há tanto nesta obra como principalmente na Origem algumas conquistas definitivas da ciência e tudo o resto (mesmo quando não é acertado) é extremamente educativo e chega a ser entusiasmante. Contudo, quando se lêem alguns livros escritos e publicados no século XX e quando se ouvem certos conferencistas e outros discursadores, dir-se-ia que Darwin nunca existiu, que nunca foi escrita a Origem das Espécies e que o grande passo dado pela biologia no século XIX continua por dar em grande parte do mundo. Há muito se faz uma verdadeira campanha de silêncio sobre a obra de Darwin. Nos laboratórios e no domínio da técnica aproveita-se os seus resultados práticos. Mas em público nega-se as suas ideias teóricas. Não me recordo de ter ouvido o seu nome nos bancos das escolas, nem me consta que haja referência à selecção natural e à evolução das espécies nos livros de «ciências naturais» para estudos secundários. Compreende-se uma tal campanha de silêncio. O evolucionismo nas ciências biológicas (assim como na geologia), além de tudo quanto afirma e implica acerca da origem do homem e do mundo, traz consigo (embora contra a intenção de Darwin) a ideia particularmente indesejável de que também as sociedades humanas evoluem, também nas sociedades humanas nada há de permanente e eterno. Lyell, que descobriu a evolução geológica, duvidou longos anos da evolução das espécies. Darwin, que descobriu a forma da evolução das espécies, nunca compreendeu a evolução do homem e das sociedades humanas. E, contudo, estas conquistas, no domínio da geologia, da biologia e da sociologia, não são de forma alguma divergentes. Mas Lyell só cerca dos 70 anos e contra os seus próprios sentimentos e crenças se rendeu à evidência dos factos e aceitou o transformismo. E Darwin não pôde sair de um grande número de limitações que lhe tolhiam a investigação acerca do homem, não na sua estrutura física (em que foi mestre), mas na sua vida social e na sua actividade intelectual. Respondendo a um autor que lhe oferecera uma obra fundamental de economia política, Darwin escrevia ser apenas um naturalista e nada perceber dessas questões… (2) A resposta não foi sincera, pois Darwin bebera em Malthus a sua Struggle for life e a sua «selecção natural». Mas essa resposta explica a sua impossibilidade de ver além do acanhado horizonte do seu extracto. Daí ter considerado a evolução do homem no ponto de vista exclusivamente biológico como se nela não interviesse fundamentalmente a vida social. Daí ter considerado as super-estruturas ideológicas como de natureza puramente animal (e não de origem social) e ter não só aproximado (como seria legítimo), mas identificado as emoções e os sentimentos humanos como os das outras espécies animais. Daí ter aceitado a existência de conceitos universais e imperecíveis como do belo, do justo e do bom. Daí a sua aproximação de certas raças humanas com os animais inferiores não compreendendo as razões do seu atraso e as possibilidades actuais de o superar. Daí a sua incapacidade para compreender que as transformações quantitativas se convertem em qualitativas e a consequente evolução por saltos bruscos, tanto no campo biológico como no social. Daí o seu desprezo pelos «selvagens», o seu racismo, o seu antifeminismo, o seu espírito marcadamente britânico e whig. Só ideólogos de um novo e ascendente extracto poderiam e puderam romper essas limitações, vencer essas dificuldades e resolver o problema da evolução do homem como evolução distinta (a partir do momento em que criou e empregou instrumentos de trabalho) da evolução das outras espécies vivas. Darwin não pode alcançar que, desde esse momento, o homem, com um propósito consciente, passou a agir sobre a natureza e a transformá-la. Apesar porém dessas limitações, os resultados fundamentais obtidos por Darwin não só afastaram de vez a teologia e o finalismo do campo das ciências biológicas, como se mantêm de pé nos dias de hoje. Antes de Darwin estudava-se a biologia com a ideia formada da imutabilidade das espécies e o próprio Darwin, ao declarar a 1.ª vez o seu convencimento da evolução, dizia parecer-lhe «estar a confessar um assassínio». Depois de Darwin só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia da evolução; só é possível o estudo da pré-história iluminado pela ideia de que o homem provém de uma espécie inferior desaparecida; e no domínio dos outros ramos da ciência (geologia, embriologia, etc.) não pode haver um estudo científico se se ignorar Darwin. Negando-se Darwin, a ciência volta à sua fase teológica e medieval.»

6 de Outubro de 1951


Ex.mo Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa

Álvaro Cunhal, preso nesta Penitenciária, vem, perante V.Ex.cia expor o seguinte:

1 – Foi-me hoje devolvida uma carta, que tinha escrito à minha família1, com a indicação de não poder seguir, por conter «ciência comunista». Dada a minha surpresa e o meu pedido para me serem indicadas as passagens da carta que motivaram essa opinião e a decisão correspondente, fui esclarecido que se tratava de tudo quanto nela dizia acerca da obra de Darwin. Embora eu soubesse o que tinha escrito e, como sempre, me tivesse esforçado (dada a minha situação) para não dizer tudo quanto penso, fui ler e reler a carta censurada. E se, ao ser-me comunicada a decisão acima referida, senti apenas surpresa, depois de nova leitura do que tinha escrito fiquei verdadeiramente perplexo.

2 – Se eu tivesse abordado, em volta das teorias darwinistas e à base do marxismo-leninismo, alguns dos problemas cruciantes da sociologia contemporânea; se, em confronto com Darwin, tivesse abordado as formas de selecção na sociedade dividida em classes e aproximado a selecção natural da luta de classes; ou se, contra Darwin, tivesse mostrado como a exploração económica e a opressão política levam muitas vezes à «selecção dos piores»; ou se tivesse abordado o problema da revolução proletária, do socialismo, do desaparecimento das classes e da evolução subsequente da espécie humana; ou se tivesse mostrado como a struggle for life darwinista não era mais que a concorrência e a luta na sociedade burguesa transplantada para os reinos animal e vegetal e uma verdadeira declaração de guerra da burguesia ao proletariado; se tivesse estudado à luz dessas noções a sociedade portuguesa contemporânea e alguns aspectos da política seguida actualmente em Portugal – então bem justificado seria que V.Ex.cia considerasse existir na minha carta uma exposição de ideologia comunista. E, dado o regime de falta de liberdade existente em Portugal, seria para mim compreensível que, nesse caso, exercesse a sua censura. Mas, quando tem havido e continua a haver da minha parte o cuidado de não só afastar dos meus estudos problemas como os apontados, como de não abordar na correspondência questões que possam ser levadas à conta de «políticas», sinceramente digo não ter compreendido a decisão.

3 – A mim mesmo pergunto: terá sido considerado «ciência comunista» a aceitação da evolução das espécies e da origem animal do homem? Ou afirmar haver na obra de Darwin algumas conquistas definitivas da ciência? Será menos exacto (aqui não se trata sequer duma orientação) referir a campanha de silêncio sobre a obra de Darwin e atribuir a causa desse silêncio ao que tal obra afirma ou implica acerca da origem do homem e do mundo e do carácter transitório das sociedades humanas? Será «ciência comunista» afirmar que, no estudo das ciências biológicas antes de Darwin, estavam presentes a teologia e a teleologia e que a negação de Darwin conduz de novo à intervenção duma e de outra? Será «ciência comunista» afirmar as limitações de Darwin no estudo do homem e das sociedades humanas? E que na evolução do homem intervêm factores sociais? E que os sentimentos humanos, os pensamentos humanos, as noções de beleza, de bondade, de justiça, não são comuns (ainda que em grau diferente) a moluscos, insectos, peixes, aves e mamíferos (incluindo o homem), mas especificamente humanos, diferenciados de povo para povo e mesmo dentro de um mesmo povo através da história? E que no mundo animal e vegetal e na transformação das espécies, assim como na história das sociedades humanas, não se verifica o preceito de Leibniz (natura non fecit saltus2) mas há que dar uma grande atenção aos «saltos bruscos» (as «mutações» ou as invasões bárbaras, por exemplo)? Será menos verdadeiro dizer que Darwin manifestou desprezo («cientificamente» fundamentado e explicado em numerosas passagens) pelos «selvagens», pelas outras raças, pelas mulheres? Confesso, Sr Director, que não enxergo aqui (e está aqui condensada toda a passagem censurada da minha carta) qualquer ideia que não seja ou não possa ser aceite por qualquer homem com um mínimo de instrução e que preze a verdade, embora nada tendo de comunista, nem no pensar nem no agir.

4 – Se o que feriu a sensibilidade de V. Ex.cia e determinou a sua decisão foram as alusões, mais que genéricas, à incompatibilidade das ideias darwinistas e da investigação científica com as crenças católicas acerca da origem do mundo e do homem, julgo ser legítimo (sem que isso tenha alguma coisa a ver com política) que qualquer pessoa se prenuncie por umas ou por outras. Aliás na minha carta referi-me à teologia e à teleologia em geral, não abordando nenhuma das mil e uma questões referentes ao catolicismo e à ciência que poderia eventualmente ter abordado. Não sei se V. Ex.cia já leu a Bíblia. Eu li mais que uma vez e com a atenção devida. Não sei também se V. Ex.cia já conversou a este respeito com cientistas católicos que tenham lido a Bíblia e conheçam a obra de Darwin (não daqueles que defendem a primeira e criticam a segunda, sem jamais terem folheado nem uma nem outra). Eu já conversei e alguma coisa aprendi com eles. Não tenha V. Ex.cia a mínima dúvida de que qualquer antropologista católico se debruça com mais atenção sobre os restos de Neandertal ou de Cro-Magnon do que sobre o número de gerações contadas desde Adão pelos velhos escritores hebraicos; de que qualquer geólogo católico atende mais aos Princípios de Lyell3 do que à Génese4; de que qualquer zoólogo ou botânico católico não ignora nem pretende ignorar Darwin. Ninguém mais do que eu respeita as crenças alheias, como infelizmente não respeitam as minhas. E se um homem culto, ou mesmo apenas instruído, me disser (não por conveniências de qualquer natureza, mas com íntima sinceridade) acreditar nas origens da terra e do homem tal como Velho Testamento as descreve, se me disser que a sua inteligência aceita melhor a Génese do que a Origem das Espécies ou os resultados de Laplace, de Newton, de Lyell, isso não faz mais do que comprovar a minha velha convicção do grande poder que sobre as almas e as inteligências têm as crenças religiosas. Não penso entretanto que exista no mundo um único homem de ciência (seja qual for a sua crença) que se sujeite ao ridículo de defender a imutabilidade das espécies. Nem algum historiador que, no século XX, se sujeite à aventura de estudar a pré-história como o fez o frei Bernardo de Brito. Mas, Sr. Director, qualquer que seja a opinião que se possa ter sobre este assunto, que tem isto a ver com «política»? e com «comunismo»? Que tem isto a ver com ideias que um preso não pode manifestar?

5 – Neste momento sou um preso escrevendo ao Director da Cadeia onde me encontro. Sei o que esta situação implica. Mas se me fosse lícito esperar que V. Ex.cia pudesse meditar, apenas com a sua inteligência e o seu espírito crítico, sobre o que nesta carta digo, não tenho dúvidas de que acordaria em que não refiro factos controversos e em que algumas das minhas ideias censuradas não excedem conhecimentos elementares ou meras indicações de senso comum.

6 – Ainda sobre um aspecto me permito solicitar a atenção de V. Ex.cia. Estou isolado há mais de dois anos e meio, dos quais 14 meses em prática incomunicabilidade. Entre várias outras restrições invulgares, não me é dado conversar um pouco com quem quer que seja, além da hora de visita semanal. V.Ex.cia, como Director duma Penitenciária, conhece perfeitamente os efeitos normais do isolamento prolongado na saúde dos reclusos e, nesta mesma Penitenciária, há afixados nas paredes gráficos bem elucidativos a esse respeito (mortalidade nos regimes «auburniano» e «pensilvaniano»5. Creio que as razões fundamentais por que tenho conseguido manter, em tão prolongado isolamento, um estado de saúde razoável (além da tranquilidade de consciência, do tratamento médico6 e da dieta fornecida por esta Penitenciária) são o meu amor pelo estudo, o facto de absorver no estudo total e permanentemente a minha atenção e a grande alegria que me dá ver uns instantes aqueles que me são queridos e conversar com eles por correspondência um pouco mais. Se, desde que estou preso, me é imposto não manifestar quanto penso, não me pode ser exigido (nem certamente foi essa alguma vez a ideia de V.Ex.cia) manifestar o que não penso, e muito menos pensar com o pensar dos outros. Dada a minha incompreensão dos reais motivos da censura da minha referida carta, não sei se houve mudança de critério e se há o propósito de me cortar esta bem magra possibilidade de trocar algumas impressões com semelhantes meus.
A censura desta minha carta sucede-se com poucos dias ao indeferimento duma solicitação minha para utilizar uma máquina portátil de escrever7, indeferimento esse que também não compreendi, dado que estou permanentemente fechado na cela, dado que se trataria de usar papel numerado e rubricado e dado que nesta Penitenciária já tive ocasião de ouvir escrever à máquina dentro de outras celas, certamente portanto por outros presos. O futuro me esclarecerá do significado destes incidentes na minha vida de prisioneiro.

.
in Avante 1845 - 2009.04.09
.
.

No bicentenário do nascimento de Charles Darwin: Um texto de Álvaro Cunhal

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
No bicentenário do nascimento de Charles Darwin: Um texto de Álvaro Cunhal

O Poder do Homem

Foi em grande parte por se ter inspirado em Malthus que Darwin não pôde compreender o problema humano. É certo que as ideias da concorrência e da luta aplicadas à natureza viva facilitaram a descoberta da selecção natural e do processo fundamental da evolução das espécies. Mas, embora Darwin, contra o que pretendem alguns dos seus detractores, considerasse a "luta pela vida" não apenas a luta de um indivíduo com indivíduos da mesma espécie, mas também e, fundamentalmente, "com indivíduos de espécies diferentes ou com condições físicas de vida"(67), embora considerasse justamente em muitos casos a "concorrência" dentro de uma espécie não como uma guerra, mas como a simples "sobrevivência do mais apto", ou seja, a sobrevivência do mais capaz de resistir ao meio e à luta que lhe movem as outras espécies, ele não pôde sonhar a existência da ajuda mútua entre indivíduos da mesma espécie.

Darwin viveu numa sociedade onde predominava a concorrência e a luta sem tréguas entre classes sociais. Dada a acção da base material das sociedades sobre as respectivas ideologias, compreende-se que, pela sua mão, a "lei" de Malthus, reflectindo essa concorrência e essa luta, tenha estendido a sua aplicação à natureza viva e que a organização social da Inglaterra do século XIX, com as suas ideologias e sentimentos dominantes, se apresente ingenuamente atribuída a animais e plantas. Foi preciso que homens se educassem numa sociedade sem classes para tornar possível a descoberta da ajuda mútua entre os indivíduos de uma mesma espécie, ponto concordante do mundo biológico com essa nova sociedade. E, se algum espanto ou reparo há a fazer, acerca desta descoberta, não é que ela se tenha feito sem factos bastantes em que se apoiar, mas que tenha tardado tanto a fazer-se quando agora se vê que os factos há muito a justificam. Se mesmo no domínio da biologia, a influência malthusiana limitou e prejudicou o seu trabalho, o grande erro de Darwin foi reintroduzir os princípios malthusianos no estudo das sociedades humanas, fortalecidos agora por uma pretensa comprovação na natureza e aparecendo assim como leis, universais e inelutáveis cientificamente aferidas. A concorrência, a luta de classes, o esmagamento violento de algumas camadas da população (fenómenos temporários correspondendo a uma fase do desenvolvimento da sociedade) seriam leis válidas e eternas para todas as espécies, incluindo a humana.

Darwin, a quem se deve a descoberta e provas definitivas da transformação das espécies e da origem animal do homem, não pôde compreender a evolução e transformação das sociedades humanas, das ideologias e dos sentimentos, e do próprio homem depois que emergiu da animalidade. Não pôde compreender que as sociedades, evoluindo por acção do homem, transformam o próprio homem que as faz evoluir.

Com frequência, Darwin insistiu em que "as espécies evoluem em passos muito pequenos"(69), em que a evolução é "um processo extremamente lento"(68), em que a "selecção natural não pode produzir grandes ou repentinas modificações"(70). Não pôde assim compreender como as transformações quantitativas se convertem em qualitativas, e a consequente importância dos saltos bruscos, tanto na evolução no mundo biológico como na evolução das sociedades humanas.

Darwin definiu a selecção natural como a "preservação de diferenças e variações individuais favoráveis e a destruição das que são nocivas"(71), de onde resulta que "todos os dotes corporais e mentais tenderão a progredir para a perfeição"(72). Não pôde, assim, compreender como os progressos em um sentido são retrocessos em outros sentidos e como nas sociedades humanas a selecção, muitas vezes, determina a preservação dos piores e menos aptos.

Darwin defendeu que "as faculdades mentais do homem e dos animais inferiores não diferem em qualidade, embora difiram imensamente em grau"(73), viu nos animais inferiores sensibilidade, ideias, conceitos estéticos e morais semelhantes aos do homem e tomou geralmente como padrão de beleza, de moralidade e até de civismo (padrão para a humanidade e as outras espécies animais) o seu próprio padrão de beleza, moralidade e civismo(74). Não pôde assim compreender que as ideologias são especificamente humanas e determinadas por uma base social material, que numa mesma sociedade não há ideologia uniforme e geral, mas conceitos e sentimentos divergentes, e que a evolução da vida material dos homens determina a evolução da sua vida mental.

Considerando o homem sob o ponto de vista puramente animal, Darwin atribuiu a causas biológicas o atraso de povos de algumas raças, aproximou-os constantemente (tanto nos seus caracteres físicos como intelectuais) dos animais inferiores e foi ao ponto de considerar alguns macacos moralmente superiores aos "selvagens"...(75) Não compreendeu, assim, a existência de razões sociais determinando o atraso desses povos nem as possibilidades actuais de superar esse atraso.

Darwin fez aceitar pela ciência a origem do homem. A sua contribuição foi, a este respeito, decisiva. Mas foi incapaz de vislumbrar que, a partir de certo momento da sua evolução, os caracteres do homem se diferenciaram qualitativamente dos das outras espécies.

A partir do momento em que o homem fabricou instrumentos de trabalho, a sua evolução passou a reger-se por leis diversas das que regem a evolução das outras espécies. O homem deixou de ser apenas uma espécie animal, adaptando-se ao meio e a novas circunstâncias por acção incontrolável da selecção natural. Na sua evolução, o homem não se limita a adaptar-se ao meio; ele adapta o meio a si próprio. "[...] o homem — escreve Marxage em face da matéria natural como uma força natural. [...] age sobre a natureza exterior, modifica-a e modifica ao mesmo tempo a sua própria natureza."(76) Modificando o meio com um propósito consciente, o homem, na sua luta com a natureza, não se limita a combater e eliminar outras espécies. O homem povoa o mundo com espécies por ele próprio escolhidas e ajuda e orienta a sua selecção. A "luta pela existência" do homem não toma assim apenas o carácter da destruidora e implacável "luta pela vida" de Darwin e Malthus; ela toma, também, o carácter de uma luta construtiva e criadora.

Darwin, que partia da selecção pela domesticação para a selecção natural, que conhecia (como ninguém) as transformações pela selecção, que em alguns casos verificou terem sobrevivido espécies graças apenas à acção do homem, sem a qual soçobrariam na natureza, não soube aí descobrir a afirmação das características específicas da espécie humana. E, embora acreditando no poder seleccionador e transformador do homem sobre outras espécies, apenas considerava a capacidade humana "pelo grande efeito produzido pela acumulação de uma mesma direcção, durante gerações sucessivas, de diferenças absolutamente inapreciáveis para olhos inexperientes"(77). Esta ideia foi ultrapassada pela história. O campo da intervenção modificadora do homem na evolução das espécies animais e vegetais alarga-se dia a dia. Quando nos lembramos de que o visconde de Coruche, justificando o atraso da agricultura, julgou ter encontrado argumento irrespondível e definitivo ao referir que "não é possível produzir hoje cereais, linho, lã, uvas, batatas ou laranjas em menos tempo do que em outras eras"(78), não podemos deixar de sorrir, porque a vida deu já um desmentido literal à fraca ironia do visconde.

O poder do homem permite-lhe construir o seu próprio futuro. Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas que limitem o ritmo da produção das subsistências. Esse ritmo depende apenas da acção do homem. De há muito o homem dispõe de meios técnicos capazes de inverter as progressões nos dois termos da "lei" de Malthus.

Com métodos rudimentares, apenas à custa de trabalho e da sua imaginação criadora, pôde o povo português transformar, em vastas regiões, a fisionomia agrícola de Portugal. Nas encostas nuas do Douro ergueu essa monumental escadaria onde hoje se exibem os vinhedos que dão do melhor vinho do mundo. Nas íngremes vertentes e nos vales apertados do Minho, de Trás-os-Montes, da Beira, da Estremadura, foi também dispondo e segurando em socalcos terra trazida à força de braços e foi buscar às entranhas da terra água para fazer verdejar jardins. Desde o canteiro minúsculo ao retalho rendoso, solo fértil surgiu onde ontem existiam apenas penedias. Terras minhotas, naturalmente pobres, tornaram-se terras ricas pela rega e estrumagens. Nas areias safaras da Gafanha ou da Póvoa ou nas dunas das Caldas, com adubações intensas de caranguejo, de sargaços, de moliço, nasceram belas hortas. Nas serras mais pedregosas — na Estrela, na de Aire, em tantas outras — das fendas da pedra brotaram olivais ou, nos ásperos declives, manchas lavradas. Nas charnecas alentejanas e na borda do Tejo, os seareiros romperam os matagais e obrigaram a terra a dar pão. Nos "foros" de Almeirim, Mugem, Salvaterra, culturas viçosas surgiram como oásis em campos de areia. Na generalidade dos casos, todo esse esforço gigantesco, realizado com a miragem de uma vida desafogada, revelou-se uma ilusão para os seus autores. Uns semearam, outros colheram. Mas esse esforço evidencia o poder do homem, evidencia como o homem pode impor e impõe à natureza uma direcção, como pode arrancar e arranca da terra as subsistências que ela por si só recusa, como pode modificar e modifica a terra, as espécies vivas, a paisagem. E se isto pôde fazer o nosso povo à força de braço e de imaginação, mas apegado a recursos velhos de séculos, o que não poderá ele fazer ganhando para o seu serviço a ciência e a técnica modernas?

Quando nos dizem e repetem ser Portugal país pobre, de solo fraco, de terreno acidentado e pedregoso, de clima irregular, e quando assim pretendem amarrar o povo português a um irremediável destino de miséria — nós respondemos que não só o nosso país tem raras e favoráveis aptidões agrícolas, como pode o nosso povo transformá-lo num verdadeiro jardim da Europa à beira-mar, que só o é no entender dos poetas.

Centenas de milhares de hectares no Alentejo, nos incultos e nas terras áridas sem fim podem encher-se de campos vicejantes com águas levadas das bacias do Tejo e do Guadiana ou arrancadas aos lençóis subterrâneos. Os rios podem ser dominados e disciplinados, dando rega e energia, em vez de enxurradas e cheias devastadoras, alternando com secas. Grandes manchas de floresta podem levantar--se em montes descarnados, em areias nuas, em terrenos pantanosos, também junto às linhas de água, dando novos meios de vida, formando cortinas de protecção contra os ventos prejudiciais e contra as areias e torrentes, aumentando a capacidade de absorção de humidade pelos solos, diminuindo o escoamento e a evaporação, facilitando a condensação do vapor de água da atmosfera, defendendo o solo da erosão, dando até melhor ar para o homem respirar e paisagem mais bela para alegria dos olhos.

A oliveira e a nogueira, os freixos e ulmos, o eucalipto e a acácia tornarão ricas e acolhedoras zonas hoje desérticas. A arborização de cumes rochosos de onde as torrentes trazem marés de areia salvará magníficos terrenos de aluvião da ameaça agora iminente da ruína e da esterilidade. A regulamentação do regime das águas abundantes das Beiras oferecerá prados onde se multiplicará o gado. A defesa das cheias, o enxugo, a drenagem, darão produtividade insuspeitada aos aluviões do Mondego e dos seus afluentes, às margens do Lis, às baixas dos afluentes do Tejo, particularmente do Sorraia, assim como aos "focos miasmáticos e palustres" do sul do Tejo. Os ricos fundos dos pauis e brejos numerosos podem ser roubados às águas estagnadas. Pela defesa das marés, o dessalgamento, a drenagem e a irrigação podem tornar-se fertilíssimos os aluviões marítimos e fluviais do Algarve e os vastos sapais do Ribatejo, ilhotas e esteiros no delta do Vouga e podem ser libertados da esterilidade.

Podem fabricar-se solos ricos das terras pobres. Podem escolher-se, seleccionar-se e criar-se os tipos de plantas mais apropriados ao meio português, ou, mais exactamente, aos diversos meios portugueses. Podem obter-se plantas mais rendosas e também animais mais rendosos: podem apressar-se os prazos de maturação das plantas e de desenvolvimento dos animais. Uma planificação da agricultura permitirá um melhor aproveitamento do solo nacional. Com as máquinas e a técnica ao seu serviço, o trabalho será menos penoso e renderá incomparavelmente mais.

Haverá mais fartura nos lares e sairá do que se produz para a compra do que se necessita.

Temos no nosso próprio país todo um novo país a conquistar, um país mais fértil e até mais belo. Temos todas as condições naturais para uma vida desafogada para todos os portugueses. Que se chame a isto um sonho: são legítimos os sonhos de quem dá a vida para realizá-los. Mas não, não é apenas um sonho. Acrescentando-se à simples consideração dos factos nacionais, o triunfo do socialismo em grande parte do mundo dá a certeza de que tal sonho será realizado.

Se já no século XIX alguém pôde dizer ter o homem modificado de tal forma a natureza que "os efeitos da sua actividade não podem desaparecer senão com a morte geral do planeta"(79), seguindo o mesmo pensamento os mitchurianos, seguros do carácter material da vida, puderam demonstrar no século XX ser possível "obrigar cada variedade de animais ou vegetais a desenvolver-se e a modificar--se mais rapidamente e no sentido favorável ao homem". Sendo o homem guiado pela máxima de que não podemos esperar as dádivas da natureza, antes é necessário arrancar-lhas, não é possível prever quaisquer limites a essa criadora intervenção humana.

Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas, qualquer fraqueza de espécie humana, que forcem a agricultura ao atraso. Apenas factores sociais a isso a obrigam.

Notas:

(67) The Origin of Species by Means of Natural Selection or the Preseruation of Favored Races in the Struggle for Life, Ed. The Modern Library, New York, III, p. 53.

(68) Ibid., VII, p. 182.

(69) Ibid., X, p. 249.

(70) Ibid., XV, p. 351.

(71) Ibid., IV, p. 64.

(72) Ibid., Conclusão, p. 373.

(73) The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, Ed. The Modern Library, VI, p. 513.

(74) Ibid., III, pp. 467-468; VIII, pp. 570-571; XIII, p. 697; IV, pp. 480-481; V, p. 498; etc.

(75) Ibid., Conclusão, pp. 919-920.

(76) Marx, O Capital, t. 1, 3.ª secção, V, 1.

(77) The Origin of Species, 1, p. 30.

(78) Visconde de Coruche, A Agricultura e o País, p. 7.

(79) Engels, Dialéctica da Natureza, Introdução.

In «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária», Edições «Avante!», 1976, Vol. 1, págª 125-132

Transcrito de AQUI

Para Ler:

adaptado de um e-mail enviado pelo Raimundo e pelo Jorge


sinto-me:

publicado por António Vilarigues às 13:45

1 comentário:

De João Valente Aguiar a 13 de Fevereiro de 2009 às 11:14
Este texto do Álvaro é extraordinário! Não o conhecia e é uma desmontagem genial e simples das teses biologistas (e hoje muito em voga por causa da descodificação do genoma humano) e geneticistas que atribuem os comportamentos humanos unicamente a características naturais e biológicas. Aliás, esse é um lado da luta ideológica que por vezes se descura e que tem um impacto imenso na reprodução da ideologia (e da classe) dominante.
.
in -
http://ocastendo.blogs.sapo.pt/565394.html
.
.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Marx e a questão judaica


26 DE JANEIRO DE 2009 - 21h55

Marx e a questão judaica


por Carlos Pompe*

Abençoado por Deus e financiado em especial pelos Estados Unidos, Israel continua a cometer patifarias. Seu primeiro-ministro, Ehud Olmert, disse que sabia que mataria civis palestinos na ofensiva em Gaza. ''Quando você vence, você automaticamente fere mais pessoas do que se fere. E nós não queríamos perder. O que você queria, que centenas de nossos soldados morressem? A alternativa era essa'', disse. Israel é um Estado racista, que se arvora embasado em desígnios divinos para com um povo eleito, o povo judeu. A questão judaica foi tratada num texto juvenil de Karl Marx, quando ele ainda começava a elaborar sua concepção de mundo materialista dialética. Publicado quando ele tinha 26 anos, é um trabalho que merece reflexão.


Sobre a questão judaica foi escrito em 1843 e apareceu nos Anais Franco-Alemães, revista cujo primeiro e único número foi publicado na França, em março de 1844. Bruno Bauer, com quem Marx tinha amizade, publicou no ano anterior dois artigos sobre a questão judaica. O artigo dos Anais os aborda criticamente e Marx vai expondo seu próprio ponto de vista. O assunto trazia também interesse pessoal ao autor, pois seu pai teve de se converter ao protestantismo em função da discriminação aos judeus. ''Bauer coloca, em termos novos, o problema da emancipação dos judeus, depois de nos brindar com a crítica das formulações e soluções anteriores do problema. ... E o resultado, resumido, é o seguinte: Antes de poder emancipar os outros, precisamos emancipar-nos'', registra o artigo.


Marx se queixa de que Bauer exige ''que o judeu abandone o judaísmo e que o homem em geral abandone a religião, para ser emancipado como cidadão. E, por outro lado, considera a abolição política da religião como abolição da religião em geral. O Estado que pressupõe a religião não é um verdadeiro Estado, um Estado real''. Para Marx, nesta visão ''manifesta-se claramente o caráter unilateral da formulação da questão judaica'', pois é necessário indagar-se ''de que espécie de emancipação se trata; quais as condições implícitas da emancipação que se postula''.


Referindo as discrepâncias entre cristãos e judeus, o jovem autor se pergunta ''como se torna impossível uma antítese religiosa?'', e responde: ''Abolindo a religião. Tão logo o judeu e o cristão reconheçam que suas respectivas religiões nada mais são do que fases diferentes do desenvolvimento do espírito humano, diferentes peles de serpente com que cambiou a história, sendo o homem a serpente que muda de pele em cada uma destas fases, já não se enfrentarão mais num plano religioso, mas somente no plano crítico, científico, num plano humano. A ciência será, então, sua unidade. E, no plano científico, a própria ciência se encarrega de resolver as antíteses''.


O jovem filósofo já argumenta, com razão: ''A emancipação política do judeu, do cristão e do homem religioso em geral é a emancipação do Estado do judaísmo, do cristianismo e, em geral, da religião''. Consequente com isto, conclui seu artigo, onde realiza também um exame crítico das Declarações do Direito do Homem de 1791 e de 1793, afirmando: ''A emancipação dos judeus é, em última análise, a emancipação da humanidade do judaísmo''.


Os artigos de Bruno Bauer sobre a questão judaica voltarão a ser abordado no livro A sagrada família, escrito por Marx e Engels de setembro a novembro de 1844. Marx se refere ao artigo publicado nos Anais: ''O erro fundamental do texto'' (de Bauer), ''a confusão entre a 'emancipação humana' e a 'política' foram descobertos''. Repreende: ''O senhor Bauer nem sequer suspeita, portanto, que o judaísmo real, secular e, portanto, também o judaísmo religioso é engendrado constantemente pela vida burguesa atual e encontra sua culminação no sistema monetário.''


Em contraposição, Marx demonstrou no seu artigo ''que o judaísmo se conservou e se desenvolveu através da História, em e com a História'' e esse desenvolvimento tem de ser descoberto ''pelo olhar do homem mundano, uma vez que não se encontra na teoria religiosa, mas apenas na prática comercial e industrial.'' E reafirma que ''a emancipação dos judeus para a condições de homens, ou a emancipação humana do judaísmo'' é uma ''tarefa prática geral do mundo de hoje, que é um mundo judaico até a raiz''.


Em A sagrada família, o autor faz questão de reafirmar que ''assim como o Estado se emancipa da religião ao emancipar-se da religião do Estado, mesmo a religião ficando confinada a si mesma no seio da sociedade burguesa, assim também o indivíduo se emancipa politicamente da religião ao comportar-se em relação a ela não mais como se ela fosse um assunto público, mas sim como se fosse um assunto privado''.


Tendo como referência próxima as Declarações dos Direitos Humanos do final do século XVII, Marx registra que ''os direitos humanos não liberam o homem da religião, mas apenas lhe outorgam a liberdade religiosa, não o liberam da propriedade, mas apenas lhe conferem a liberdade da propriedade, não o liberam da sujeira do lucro, mas, muito antes, lhe outorgam a liberdade para lucrar''.


Nota-se, nesses textos, que em Marx ainda prevalece uma crítica repleta de referências morais em relação aos assuntos econômicos e sociais e uma visão de Estado influenciada pela idéia de Friedrich Hegel de que o Estado deve ser a encarnação da razão e o Estado só será racional quando, confundindo-se com a sociedade civil, for o Estado para todos os homens. Sua ruptura com esta concepção será marcada pela elaboração de Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, no próprio ano de 1843, quando escreveu Sobre a questão judaica. Ainda não chegará, contudo, à visão do Estado de classe mas, em 1859, analisando este período, dirá que estava sendo levado ''à conclusão de que as relações jurídicas, assim como as formas de Estado, não podiam ser compreendidas por si mesmas, nem pela pretendida evolução geral do espírito humano, inserindo-se, pelo contrário, nas relações materiais da vida...''


Quanto à economia, só em 1859, quando, em 1º. de junho, publica Contribuição para a Crítica da Economia Política, Marx vai fazer uma exposição sistemática de sua teoria do valor e do dinheiro, já sem baseá-la em condenações morais da ''sujeira do lucro''. No prefácio desta obra, apresenta sua concepção materialista da história, quando considera: ''O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é pelo contrário o seu ser social que determina a sua consciência''.


Numa carta de 30 de novembro de 1842 a Arnold Ruge, que com ele editou os Anais , Marx critica os integrantes do grupo Die Freien ( Os Libertos), integrado por Bruno Bauer e outros: ''Convidei-os a não se contentarem com vagos raciocínios, frases pomposas, a não se mostrarem demasiado complacentes para consigo próprios, a interessarem-se por analisar exatamente as situações concretas e a demonstrarem conhecimentos preciosos''. Sobre a questão judaica busca esse caminho de análise, como fica claro ao chamar a atenção para o fato de o judaísmo ser fruto do desenvolvimento histórico (e não de uma revelação ou opção divina) e de que é através da história que a humanidade vai adquirindo sua consciência. Valiosa também sua indicação de que a religião deve ser enfrentada no campo científico e não no estatal.


O Estado de Israel, o Estado cristão ou o Estado islâmico resistiriam a essa abordagem? Não é por acaso que poucos buscam no marxismo a base para suas análises das crises e dos conflitos do mundo atual. Interesses de classe de analistas e analisados ficariam evidenciados? é assim a ciência.




*Carlos Pompe, Jornalista e Curioso do mundo.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.


.
in Vermelho 2009.01.2t6
.

Marx em luta com o ópio do povo

2 DE FEVEREIRO DE 2009 - 09h56

Marx em luta com o ópio do povo


por Carlos Pompe*

Judeus, islâmicos, cristãos, budistas não encontrarão a felicidade na terra construindo Estados de suas seitas (como foi a criação de Israel no século passado), mas, como os demais integrantes da humanidade, livrando-se do ópio religioso e criando uma sociedade sem classes e com base científica. É este o pensamento que Karl Marx começa a construir nos seus textos de juventude.


A Crítica da filosofia do Direito de Hegel – Introdução foi publicada por Marx em março de 1844 na mesma edição única dos Anais Franco-Alemães em que publicou Sobre a questão judaica. Se naquele texto (abordado nesta coluna na semana passada) Marx já se referia ao judaísmo como uma religião entre outras, fruto da história humana, na Introdução, escrita após o texto sobre o judaísmo, Marx defende o fim de toda a religião. Após afirmar que ''a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica'', faz estas considerações que contêm algumas de suas frases mais divulgadas (e combatidas):


''O homem, que na realidade fantástica do céu, onde procurara um ser sobre-humano, encontrou apenas o seu próprio reflexo, já não será tentado a encontrar a aparência de si mesmo – apenas o não-humano – onde procura e deve procurar a sua autêntica realidade.


É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. (A religião CP) É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.


A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.


A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real''.


Neste texto Marx também, pela primeira vez, expressa sua adesão ao comunismo como a sociedade que tornará humana a existência do homem neste vale de lágrimas. E afirma a necessidade de alterações nas relações sociais a partir da ação de ''uma classe determinada''. Refere-se à Alemanha, mas no Manifesto do Partido Comunista, que escreverá com Engels em 1847, estenderá esta conclusão para todas as sociedades capitalistas:


''... uma classe que tenha cadeias radicais, de uma classe na sociedade civil que não seja uma classe da sociedade civil, de um estamento que seja a dissolução de todos os estamentos, de uma esfera que possua caráter universal porque os seus sofrimentos são universais e que não exige uma reparação particular porque o mal que lhe é feito não é um mal particular, mas o mal em geral, que já não possa exigir um título histórico, mas apenas o título humano; de uma esfera que não se oponha a consequências particulares, mas que se oponha totalmente aos pressupostos do sistema político alemão; por fim, de uma esfera que não pode emancipar-se a si mesma nem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade sem emancipá-las a todas ? o que é, em suma, a perda total da humanidade, portanto, só pode redimir-se a si mesma por uma redenção total do homem. A dissolução da sociedade, como classe particular, é o proletariado.


Na Alemanha, o proletariado está apenas começando a se formar, como resultado do movimento industrial; pois o que constitui o proletariado não e a pobreza naturalmente existente, mas a pobreza produzida artificialmente, não é a massa do povo mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade, mas a massa que provém da desintegração aguda da sociedade e, acima de tudo, da desintegração da classe média. Desnecessário se torna dizer, contudo, que os números do proletariado foram também engrossados pelas vítimas da pobreza natural e da servidão germano-cristã''.


Esta é a primeira conceituação do proletariado na obra de Karl Marx.


Essas palavras só encontrariam eco dezenas de anos depois de escritas. Os reacionários estavam atentos ao que Marx produzia. O Ministério do Interior prussiano considerou que os textos dos Anais constituíam, ''tanto pela sua tendência como suas numerosas passagens, um crime de alta traição e de lesa-majestade''. A polícia austríaca considerou que a publicação ''ultrapassa tudo o que a imprensa revolucionária tinha até então produzido'' devido ao seu conteúdo ''escandaloso e repugnante''. Cem exemplares foram apreendidos em um vapor que transitava no Reno, 214 na fronteira entre a França e o Palatinado.


Voltando-se para esse período de sua formação e produção, Marx escreverá na introdução ao livro Para a crítica da economia política que suas investigações chegaram ''ao resultado de que tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser compreendidas por si mesmas, nem pela chamada evolução geral do espírito humano, mas sim assentam, pelo contrário, nas condições materiais de vida cujo conjunto Hegel resume, seguindo o precedente dos ingleses e franceses do século XVIII, sob o nome de 'sociedade civil', e que a anatomia da sociedade civil deve ser buscada na Economia Política''.


E é a essa anatomia, ao estudo da Economia Política e à análise do capitalismo, que ele voltará suas atenções, visando municiar o proletariado com a arma da crítica para melhor travar a crítica das armas ao capitalismo.




*Carlos Pompe, Jornalista e Curioso do mundo.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
.
in Vermelho 2009-02.02
.