Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 5 de março de 2013

Granovsky: Quando a inquisição colocou Boff no assento de Galileu

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4 de Março de 2013 - 11h29



Ele esperou até 1992 para deixar os hábitos de monge franciscano e abandonar o monastério onde vivia. A essa altura já havia atravessado uma experiência impactante: no dia 7 de setembro de 1984, o chefe da antiga Inquisição, hoje chamada de Congregação para a Doutrina da Fé, o colocou no mesmo assento que ocuparam o teólogo Giordano Bruno e o astrônomo Galileu Galilei.

Por Martín Granovsky, Página 12





montagem redação Vermelho

O inquisidor era o cardeal Joseph Ratzinger, então braço direito doutrinário de João Paulo II e depois Papa a partir de 2005 até a última quinta-feira (28). O interrogado era o brasileiro Leonardo Boff.

Boff não foi queimado vivo como Giordano nem foi obrigado a pedir perdão como Galileu. Mas, em 1985, Raztinger o condenou ao silêncio e, desde então, as hierarquias eclesiásticas dificultaram cada vez mais a chance de expressar suas ideias com liberdade. Depois de Igreja, Carisma e Poder, o livro que o levou diante de Ratzinger, cada novo trabalho encontrava obstáculos para sua publicação em editoriais ou revistas obrigadas a pedir permissão às autoridades da Igreja católica.

Nos últimos dias, durante o debate sobre o futuro da Igreja em função do impacto da renúncia do Papa, Boff recordou em seu blog (http://leonardoboff.com ) que ele foi “colocado na mesma banqueta de Giordano e Galileu”. Ler essa frase provoca uma perplexidade: Foi, realmente, o mesmo banco? Era possível que a mensagem da Santa Sé para demonstrar autoridade fosse transmitida com uma nitidez tão crua? O Página/12 decidiu fazer essas perguntas diretamente a Boff.

Esta foi sua resposta, enviada por email: “Fui julgado no prédio que fica à esquerda da grande praça para quem vai na direção da basílica (de São Pedro). Há séculos que é a sede da Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício e ex-Inquisição. É um edifício grande, escuro, com três pisos ou mais. Teve um processo doutrinário com todos os requisitos jurídicos. Eu me sentei onde todos os julgados pela Inquisição foram julgados. Ali sentaram Galilei Galilei, Giordano Bruno e outros. Não estou jogando com metáforas, mas sim com a realidade”.

Inquisidor e condenado se conheciam bem. O teólogo brasileiro nascido em 1938 estudou em Munique e Ratzinger, então um sacerdote de mente aberta, era conferencista. Talvez por isso ou por simples pudor – é difícil de acreditar, mas no mundo tem gente que vivem sem olhar o próprio umbigo -, Boff jamais deixou de criticar Bento XVI por suas ideias e atos, mas nunca travou esse debate em termos pessoais. E uma vez, há três anos, chegou a ser até profético.

Boff falou à revista IstoÉ, em 28 de maio de 2010, segundo pode se ler: “O Papa, para seu próprio bem e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão. É um homem doente, velho, com problemas próprios da idade e com dificuldades para a administração, porque é mais professor do que pastor. Por esse motivo faria bem em ir para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade que sofre, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina”.

Os dois anos que se passaram entre a opinião de Boff e o helicóptero de Ratzinger são um lapso curto para os ritmos vaticanos. O certo é que depois desse tempo, Ratzinger se converteu em Papa emérito e, em seguida, predicará em um convento.

Giordano e Galileu
Campo de Fiori é a única grande praça de Roma sem igreja. A vinte quadras do Vaticano e muito perto de Piazza Navona, pela manhã funciona um mercado. Senhoras vestidas de preto que parecem recém chegadas do campo vendem fruta, massa seca e verduras, brócolis romano, de cor verde clara e odor suave, ou brócolis siciliano, escuro e mais forte, que se come aqui. À tarde, as pizzarias e restaurantes das ruas laterais ficam cheios e, no lugar das matronas, estão os turistas de vinte e poucos anos que comem penne regate e, sobretudo, bebem cerveja como se fosse a última vez.

As senhoras da manhã e os meninos da tarde vivem sua vida alheios à estátua que está sobre o pavimento de Campo de Fiori. Mostra um monge alto e ligeiramente encurvado. O escultor Etore Ferrari deu a ele um rosto com gesto decidido e arrumou as dobras da batina de modo que elas parecem seguir se movendo. Abaixo, uma frase em italiano: “A Bruno – Secolo da lui divinato, qui dove il rogo arse”. A tradução: “O século que ele adivinhou (está) aqui, onde o fogo ardia”.

Em 1600, o napolitano de 52 anos que havia sido frei dominicano foi queimado pela ordem da Santa e Geral Inquisição no mesmo lugar onde hoje está a estátua. O queimaram vivo por heresia. “Tremeis mais vós ao anunciar esta sentença do que eu ao recebê-la”, disse um pouco antes de morrer. Entre outras ideias sustentou a centralidade do sol, como Copérnico, e desafiou a centralidade do papa. Jamais, nos 413 anos que se seguiram à sua execução, a hierarquia da Igreja pediu perdão ou voltou a incluí-lo de alguma maneira em seu seio.

A instalação da estátua foi ela mesma uma grande batalha no século XIX. Promovida por personalidades de toda a Europa, desde Vitor Hugo até Mikhail Bakunin, a homenagem a Giordano Bruno só se configurou no monumento de Campo de Fiori em junho de 1889. E o Papa de então, Leão XIII, inclusive ameaçou afastar-se ostensivamente de Roma neste dia. Só se absteve de fazê-lo quando o governo italiano o advertiu que se deixasse a cidade era melhor que não voltasse.

Trezentos anos antes dessa polêmica, na Inquisição, o julgamento foi conduzido pessoalmente pelo cardeal Roberto Belarmino, o mesmo que obrigou Galileu Galileu a se retratar do heliocentrismo em 1616 para não acabar torturado e incinerado como Bruno.

O pontífice, sumo
Belarmino não era um simples chefe de torturadores, mas sim um teórico fino e um sutil funcionário da Santa Sé. Em seu Tratado sobre o poder dos sumos pontífices nos assuntos temporais, de 1610, disse que o papa pode se opor a quem politicamente possa colocar em perigo a cristandade. E meio à crise da Igreja e ao nascimento da Reforma protestante, Belarmino atualizou assim a doutrina do papa Gregório VII que, em 1075, deu o grande giro na construção da Igreja como monarquia absoluta quando estabeleceu que ao pontífice “é lícito depor os imperadores”, que tem o direito exclusivo de depor ou recolocar bispos e que “pode eximir os súditos da fidelidade até aos príncipes iníquos”.

O investigador Jean Touchard escreveu em seu livro clássico, “História das ideias políticas”, que “o movimento iniciado por Gregório VII é irreversível”. E explicou: “A centralização romana e a refundação administrativa (com a organização da Cúria, que é seu principal elemento) farão do bispo de Roma o Soberano Pontífice, dignidade ou autoridade que os papas dos séculos precedentes nunca conseguiram assegurar de forma duradoura”.

Depois que Boff se sentou pela última vez no assentou de Giordano e Galileu, a Congregação para a Doutrina da Fé seguiu trabalhando, até que um ano depois pediu que ele ficasse em silêncio. A notificação dos inquisidores a Boff está disponível na internet e pode ser consultado neste endereço: http://bit.ly/YEk3j0 .

Vale a pena o esforço de ler alguns parágrafos inteiros, onde uma visão teológica aparece como um modo de respaldar a construção do poder supremo do Vaticano desde Gregório VII e Belarmino até o último período de João Paulo II (papa que teve Ratzinger como inquisidor) e Bento XVI. Boff, ao contrário, teria cometido o pecado de cair em “uma concepção relativizante da Igreja”, a partir das “críticas radicais dirigidas à estrutura hierárquica da Igreja Católica”. Os parágrafos:

“A única fé do Evangelho cria e edifica, através dos séculos, a Igreja Católica, que permanece una na diversidade dos tempos, diferentemente das situações que caracterizam as múltiplas igrejas particulares.”

“A Igreja universal se realiza e vive nas Igrejas particulares e estas são Igreja, permanecendo precisamente como expressões e atualizações da Igreja universal em um determinado tempo e lugar. Assim, com o crescimento e progresso das Igrejas particulares cresce e progride a Igreja universal; enquanto que, com a atenuação da unidade, diminuiria e faria decair também a Igreja particular”.

“Por isso, a verdadeira reflexão teológica nunca deve se contentar somente em interpretar e animar a realidade de uma Igreja particular, mas sim deve tratar de penetrar os conteúdos do sagrado depósito da Palavra de Deus, confiado à Igreja e autenticamente interpretado pelo Magistério”.

“A práxis e as experiências, que surgem sempre de uma situação histórica determinada e limitada, ajudam o teólogo e obrigam a tornar acessível o Evangelho a seu tempo. No entanto, a práxis não substitui a verdade nem a produz, mas sim está a serviço da verdade que nos foi entregue pelo Senhor”.

“L. Boff se situa, segundo suas palavras, dentro de uma orientação na qual se afirma ‘que a Igreja como instituição não estava no pensamento no Jesus histórico, mas sim que surgiu como evolução posterior à ressurreição, especialmente com o progressivo processo de desescatologização’”.

“(p. 129) Por conseguinte, a hierarquia é, para ele, “um resultado da terrena necessidade de se institucionalizar”, “uma mundanização” ao “estilo romano e feudal” (p.70). Daí se deriva a necessidade de uma ‘mudança permanente da Igreja (p. 112); hoje deve surgir uma “Igreja nova” (p. 110 e seguintes), que será “uma nova encarnação das instituições eclesiais na sociedade, cujo poder será simples função de serviço” (p. 111).

“Não resta dúvida de que o Povo de Deus participa na missão profética de Cristo (cf. LG 12); Cristo realiza sua missão profética não só por meio da hierarquia, mas também por meio dos laicos (cf. LG 35). Mas é igualmente claro que a denúncia profética na Igreja, para ser legítima, deve estar sempre ao serviço da edificação da própria Igreja. Não só deve aceitar a hierarquia e as instituições, mas também cooperar positivamente para a consolidação de sua comunhão interna; além disso, o critério supremo para julgar não só seu exercício ordenado, mas também sua autenticidade, pertence à hierarquia (cf. LG 12).”

LG é Lumen Gentium, Luz dos Povos, uma das constituições emanadas do Concílio Vaticano II, que se reuniu entre 1962 e 1965 e atualizou a Igreja, Ratzinger foi um de seus secretários. Boff relacionou o Concílio com a Teologia da Libertação que, nos anos 60, foi abraçada por muitos sacerdotes, religiosos e laicos no mundo e na América Latina. Segundo consta na notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, na sessão de 1984, com Boff, Ratzinger foi assistido por um argentino, Jorge Mejía, que havia sido diretor da revista católica argentina Criterio.

A era do gelo
Em 1992, quando deixou a batina porque sentiu que estava se chocando, segundo suas palavras, “contra uma muralha”, Boff disse que “a forma atual de organização da Igreja (que nem sempre foi a mesma na história)” cria e reproduz desigualdades”.

Quando a Congregação o citou, Boff buscou e obteve a cobertura pastoral de dois cardeais, o arcebispo de Fortaleza, Aloisio Lorscheider, e o arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, ambos franciscanos e simpatizantes da doutrina de opção pelos pobres. A sanção a Boff pode ter sido também uma resposta a este grupo de bispos brasileiros. A história posterior talvez seja uma prova de que a mensagem tinha múltiplos destinatários, porque nenhum deles foi substituído por bispos da mesma linha, mas sim por conservadores.

Na quarta-feira passada, outro teólogo, o suíço Hans Kung, uma figura chave para os teólogos da libertação, escreveu no The New York Times uma coluna na qual se perguntava ser era possível uma primavera vaticana.

Kung, que foi companheiro de estudos de Ratzinger e trabalhou com ele como teólogo no Concílio há cinquenta anos, assinalou que o Vaticano pode ser comparado a outra monarquia absoluta, a Arábia Saudita, ainda que esta tenha somente duzentos anos de vida. Também mencionou três reformas de Gregório VII para conformar o “sistema romano”: um papado “centralista-absolutista”, “um clericalismo compulsivo” e “a obrigação do celibato para sacerdotes e outros membros do clero secular”.

Nem sequer o Concílio Vaticano II, segundo Kung, limitou o poder da Cúria, “o corpo de governo da Igreja”. E nos papados de João Paulo II e Bento XVI houve, além disso, “um retorno aos velhos hábitos monárquicos da Igreja”.

Apesar de que, como símbolo, o Papa tenha dialogado quatro horas com Kung em 2005, “seu pontificado esteve marcado por colapsos e más decisões”. Por exemplo, “irritou as igrejas protestantes, os judeus, os muçulmanos, os índios da América Latina, as mulheres, os teólogos reformistas e os católicos partidários de uma reforma”. E reconheceu a Sociedade de São Pio X, dos seguidores do arcebispo ultraconservador Marcel Lefebvre, do mesmo modo que fez com o bispo Richard Williamson, um negador do Holocausto. Para não falar dos abusos de crianças e jovens por parte de clérigos que o Papa encobriu quando era o cardeal Joseph Ratzinger. Ou dos fatos relevados nos Vatileaks, com “intrigas, lutas pelo poder, corrupção e deslizes sexuais na Cúria, que parecem ser a razão principal da renúncia de Bento”.

Kung escreveu que “nesta situação dramática, a Igreja necessita de um Papa que não vida intelectualmente na Idade Média, que não encabece nenhum tipo de teologia, constituição da Igreja e liturgia medievais”. O papa necessário deveria voltar à democracia seguindo “o modelo do cristianismo primitivo”.

O exemplo alemão reflete algumas tensões. “Uma pesquisa recente mostra que 85% dos católicos da Alemanha está a favor de que os sacerdotes possam se casar, 79% apoiam que os divorciados possam voltar a ser casar e 75% apoia a ordenação de mulheres”, aponta Kung. Depois de se perguntar se a Igreja será capaz de convocar um novo concílio reformista ou uma assembleia de bispos, sacerdotes e laicos, Kung apresenta sua conclusão: “Se o próximo conclave eleger um papa que siga o mesmo velho caminho, a Igreja nunca experimentará uma nova primavera, mas sim cairá em uma nova era do gelo e correrá o perigo de ficar reduzida a uma seita crescentemente irrelevante”.

Neste caso, o assento de Giordano, Galileu e Boff será um vestígio tão ou mais forte que o trono de Pedro.

(Título original "Quando a inquisição colocou Boff no mesmo assento de Giordano Bruno e Galileu" alterado por redação Vermelho; tradução: Marco Aurélio Weissheimer)

sábado, 2 de março de 2013

Como os heróis anónimos dos Descobrimentos abriram caminho à ciência moderna

Público Público

 


A exposição 360º Ciência Descoberta é inaugurada esta sexta-feira em Lisboa. Muitas das peças, incluindo réplicas, vieram de Espanha, Itália, Inglaterra, que contam como as viagens oceânicas dos portugueses e espanhóis abriram as mentes.



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Revelada composição de pílula com 2000 anos



Cientistas italianos reconstituíram, por assim dizer, a bula de um medicamento datado do século II antes da nossa era.
Em cima, a latinha e o seu conteúdo (à direita); em baixo, um comprimido visto de frente e de lado DR

Circa 140 a.C. Um médico viaja a bordo de um barco vindo da Grécia e com destino ao porto etrusco de Populónia, Toscana. Mas o navio afunda-se a 18 quilómetros da costa - e só será descoberto em 1974, perto da praia de Pozzino.
Entre os objectos recuperados no Relitto del Pozzino (nome dado aos destroços), várias caixinhas cilíndricas em latão, 136 frasquinhos de madeira, um pequeno pilão de pedra, um vaso de bronze "com uma forma peculiar, típica de uma ferramenta médica usada para fazer sangrias",escrevem Erika Ribechini, da Universidade de Pisa, Itália, e colegas, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Isto "sugere que um médico estaria a viajar no mar com o seu equipamento profissional", salientam.
Uma das latinhas revelou conter seis comprimidos redondos e cinzentos de quatro centímetros de diâmetro e um de espessura e levou os cientistas a realizarem análises químicas, mineralógicas e botânicas para determinar a composição do que parecia ser um medicamento com mais de 2000 anos. "Em arqueologia", escrevem, "é muito raro descobrir-se medicamentos antigos e conhecer-se a sua composição química." Mas, desta vez, foi possível reconstituir a bula deste medicamento "fóssil".
Composição: compostos de zinco, amido, cera de abelha, resina de pinheiro, gorduras de origem vegetal e animal, carvão, fibras de linho, pólen de oliveira e de trigo, entre outros. Substâncias activas (prováveis): os compostos de zinco e talvez o carvão.
Excipientes: azeite, resina de pinheiro (antioxidante e antibacteriano), cera de abelha, fibras de linho (reforçam os comprimidos).
Indicações: colírio contra problemas oculares. "A composição e a forma dos comprimidos de Pozzino parecem indicar que eram usados em oftalmologia", escrevem os cientistas, acrescentando que o nome latino collyrium (gotas para os olhos) vem de uma palavra grega que significa "pãezinhos redondos".

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sequenciado genoma do 'Homem dos Gelos'


Diário de Notícias

ANTROPOLOGIA

 

por DN.ptHoje
O 'homem dos Gelos' tinha 46 anos e pesva cerca de 50 quilos quando morreu
O 'homem dos Gelos' tinha 46 anos e pesva cerca de 50 quilos quando morreu
Fotografia © Nature Communications
Um grupo de cientistas conseguiu sequenciar o genoma completo de Otzi, o homem dos gelos, com mais de 5300 anos, cujo corpo foi encontrado em 1991.
A investigação foi publicada pela revista 'Nature Communications' e revela que tinha os olhos castanhos, era de grupo sanguíneo O e intolerante à lactose; além do mais, tinha predisposição genética a padecer de doenças cardiovasculares.
A análise do ADN revelou ainda estar aparentado aos atuais habitantes da Córsega e da Sardenha, ou não tivesse sido encontrado nos Alpes italianos.
Albert Zink, do Instituto Eurac em Bolzano (Itália), que dirigiu a investigação, explicou que a análise do ADN representa um grande avanço para conhecer a fundo uma das múmias naturais más estudads pela comunidade científica.
A análise do ADN sugere ainda que, provavelmente, os seus antepassados emigraram para o Médio Oriente numa época de transição para a agricultura, o que pode explicar a intolerância à lactose.O 'Homem dos Gelos' media 1,59 e pesava cerca de 50 quilos e teria 46 quando morreu. A causa de morte foi um ferimento por flecha, provavelmente no decurso de um confronto.


A múmia do Homem do GeloA múmia do Homem do Gelo (DR)A múmia do Homem do GeloReconstituição de Ötzi
Estudo genético

Homem do Gelo tinha olhos castanhos, tez branca e intolerância à lactose

28.02.2012 - 23:20 Por Nicolau Ferreira

A múmia mais completa de sempre, encontrada em 1991, nos Alpes italianos, continua a ser uma fonte de informação. Agora foram reveladas as conclusões da análise genética do seu ADN. Ötzi teria olhos castanhos e pele branca, era intolerante à lactose e tinha disposição genética para ter problemas cardíacos, revela o estudo publicado nesta terça-feira na revista Nature Communications.



A história deste representante do neolítico, que morreu há 5300 anos, por motivos mais ou menos misteriosos, mas que envolveram certamente uma seta que carrega no ombro esquerdo e um corte na mão direita, é rica em detalhes conhecidos nos últimos 20 anos.

Em 1991, um casal de alpinistas alemão encontrou no Vale Ötzal, a 3120 metros de altura, um corpo mumificado, que estava protegido há milénios da deterioração pelo frio, pela escuridão e pelo gelo. O Homem do Gelo foi encontrado e descrito. 

Como múmia, Ötzi é mais completo do que os faros egípcios, pois continua a ter todos os órgãos, que nos faraós foram retirados. Tinha 1,59 metros, pesava em vida 50 quilos e quando morreu teria cerca de 46 anos. Vestia coro de cabra e tinha se alimentado, recentemente, de carne de veado e cabra.

O cabelo era rico em arsénio e cobre, o que poderá indicar que trabalhava com a fundição de cobre. Com ele viviam uma série de parasitas: piolhos do cabelo, piolhos do corpo, lombrigas. Sofria de artrose. Tratava-se para algumas destas maleitas e, para um homem do neolítico, viveu bastante.

Já a causa da sua morte é mais especulativa. Primeiro julgou-se que tinha sido apanhado numa tempestade de neve. Depois descobriu-se que tinha uma seta enfiada no ombro esquerdo que o terá ferido mortalmente e uma outra ferida profunda na mão direita. Os cortes terão-no feito perder sangue durante horas, em sofrimento, até morrer e indicam ter havido uma luta. Mas por quem e em que contexto, não se sabe.

Os novos dados caracterizam a genética e fisiologia deste antepassado. A equipa liderada por Albert Zink, do Instituto de Múmias e do Homem do Gelo, ligado ao Museu Arqueológico de Bolzano, na Itália, onde está a múmia, analisou o ADN celular pela primeira vez. 

Até agora, só se tinha sequenciado o ADN das mitocôndrias, as baterias das células. Desta vez, com a ajuda de uma nova tecnologia, sequenciou-se o ADN dos cromossomas de Ötzi.

Os resultados mostram que o Homem do Gelo tinha “provavelmente olhos castanhos, pertencia ao grupo sanguíneo O e era intolerante à lactose [o açúcar do leite]”, revela o artigo. Além disso, tinha pele branca e tendência genética para aterosclerose coronária.

“Andámos a estudar o Homem do Gelo durante 20 anos. Sabemos tantas coisas sobre ele – onde viveu e como morreu – mas sabíamos muito pouco sobre a sua genética e a informação genética que carregava consigo”, disse Zink à BBC News. A equipa também encontrou informação genética da bactéria que causa a doença de Lyme, que é transmitida pela carraça. É a indicação mais antiga desta doença.

Mas esta nova análise de Ötzi também serviu para comparar a sua assinatura genética com as populações humanas que existem hoje na Europa. Os resultados foram surpreendentes. A população mais próxima do Homem do Gelo vive hoje na ilha da Sardenha, no Mediterrâneo.

Uma das hipóteses é a população na Sardenha “representar uma relíquia da população genética que existia na Itália durante a pré-história, mas que agora está transformada devido fenómenos de migrações e mistura genética posteriores”, sugeriu Peter Underhill, citado num blogue da Scientific American. O investigador da Universidade de Stanford, na Califórnia, fez parte da extensa equipa de investigadores.

A análise da sequência genética vai continuar. “Gostaríamos de aprender mais com estes dados – estamos apenas no início da sua análise”, disse Zink. Ficamos à espera dos próximos capítulos sobre a história de Ötzi.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Secas moderadas poderão ter causado o fim da civilização Maia




Science
23.02.2012 - 22:13 Por AFP

A civilização Maia vivia no território onde hoje é o México
A civilização Maia vivia no território onde hoje é o México (Science)

O colapso da civilização Maia poderá ter sido provocado por secas não muito severas, parecidas com situações que se esperam que ocorram nos próximos anos devido às alterações climáticas, defendeu uma equipa de cientistas, que publicou nesta quinta-feira um artigo na revista Science com novos dados.

Os peritos defendem há décadas que uma seca enorme causou as condições extremas que provocaram o fim da antiga cultura conhecida pelo seu domínio na linguagem, na matemática e na astronomia. Mas os investigadores do Centro de Investigação Científico de Yucatan, no México, e da Universidade de Southampton, no Reino Unido, obtiveram dados que mostram que a seca só causou reduções de 25 a 40% da quantidade anual de precipitação.

“Os dados sugerem que a principal causa foi a diminuição da actividade de tempestades de Verão”, disse o co-autor Eelco Rohling, da Universidade de Southampton. Esta menor quantidade de precipitação terá tido impacto na água disponível nos lagos. A evaporação da água dos lagos não era contrabalançada com a mesma quantidade de chuva. 

A investigação é pioneira ao tentar identificar pela primeira vez a quantidade exacta de chuva que caiu entre 800 e 950 d.C., altura em que a civilização Maia entrou em declínio. Os cientistas basearam estas conclusões a partir de dados que retiraram das estalagmites (formações parecidas com estalactites, mas que crescem a partir do chão) e de lagos de pouca profundidade. 

As análises mostraram que períodos de seca modestos podem ter provocado grande falta de água numa área onde não existem rios e nenhuma outra fonte de água a não ser a que se acumula da chuva. “O Verão era a principal estação para o cultivo e para o reabastecimento do sistema de armazenamento de água doce dos Maias e não existem rios na planície de Yucatan. As roturas sociais e o abandono das cidades são consequências prováveis da falta de água, especialmente porque parece ter havido uma repetição de episódios de seca que duraram vários anos”, explicou Rohling. 

Especialistas prevêem que estes tipos de seca voltem a acontecer na região de Yucatan devido às alterações climáticas. Apesar das sociedades modernas estarem, à partida, mais bem equipadas para lidarem com este tipo de crises, os riscos continuam a existir. 

“Este problema não é exclusivo à Península de Yucatan, mas aplica-se a todas as regiões com características semelhantes em que a evaporação é grande. Hoje, temos o benefício de termos consciência [sobre o assunto], e podemos actuar de acordo com isso”, disse Martin Medina-Elizalde, primeira autora do trabalho, do centro de investigação do México.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Descoberta floresta fossilizada com 298 milhões de anos







China
22.02.2012 - 18:13 Por PÚBLICO


Uma representação da floresta encontrada na China
Uma representação da floresta encontrada na China (DR)

 Na China desenterrou-se uma Pompeia do mundo natural com 298 milhões de anos. As cinzas de uma erupção cobriram uma floresta de fetos arbóreos, que ficou preservada até agora. O retrato deste pântano tropical está descrito na revista Proceedings of the Natural Academy of Sciences desta semana e permite compreender melhor a evolução das florestas da Terra numa altura em que ainda não havia flores.

“É como [a cidade romana] Pompeia”, disse em comunicado Herrmann Pfefferkorn, um dos autores do estudo, que pertence à Universidade de Pensilvânia, referindo-se à cidade situada na Itália que ficou cristalizada pelas cinzas do Vesúvio durante a erupção de 79 d.C. “Pompeia dá-nos um conhecimento profundo sobre a cultura romana, mas não nos diz nada sobre a história da [civilização] romana em si mesmo.”

Por outro lado, permite a comparação. Pompeia “elucida-nos o tempo que veio antes e que veio depois. Esta descoberta é semelhante. É uma cápsula do tempo, e desse ponto de vista permite-nos interpretar muito melhor o que aconteceu antes e depois”, disse o cientista.

E que tempo é este? Na cronologia da história geológica, há 298 milhões de anos, a Terra encontrava-se no início do período Pérmico, antes da era dos dinossauros. Nesta altura os mamíferos e as plantas com flor ainda não existiam e os répteis e as coníferas – o grupo de plantas a que os pinheiros pertencem – eram uma aquisição recente da evolução.

O mundo terrestre era dominado por anfíbios e por fetos com porte de árvore. E as placas tectónicas estavam a acabar de se juntar para formar a Pangeia. O local arqueológico que os cientistas da Academia de Ciência chinesa estudaram, na região da antiga Mongólia, no Norte da China, era na altura uma super ilha separada do continente, que se situava a latitudes tropicais, no Hemisfério Norte.

Os cientistas fizeram um verdadeiro trabalho de ecologia paleontológica com estratos soterrados que desenterraram, analisando 1000 metros quadrados de área florestal em três sítios diferentes. Se não tivesse havido erupção, ao longo de milhões de anos aquela paisagem teria se transformado em carvão no interior da Terra, como aconteceu em muitos locais semelhantes a norte a sul da formação. 

Mas a cinza fez fossilizar a floresta, que ficou comprimida em 66 centímetros de solo e fez com que a equipa pudesse recriar um retrato detalhado da floresta. “Está maravilhosamente preservada”, disse Pfefferkorn. “Podemos estar ali a olhar e encontrar um ramo com folhas, e depois encontramos o outro ramo e o outro ramo. Depois encontramos um cepo da mesma árvore. É realmente emocionante.”

Os cientistas encontraram seis grupos de plantas diferentes com várias espécies em cada grupo. Há um estrato mais basal com fetos arbóreos, de onde de quando em vez saem árvores mais finas e altas que parecidas a um espanador de penas, com 25 metros de altura. Encontraram também um grupo de plantas extinto que libertava esporos e árvores que parecem ser antepassados das cicadófitas, plantas sem flores que fazem lembrar palmeiras.

"Isto agora é a base. Qualquer outra descoberta, normalmente muito menos completa do que esta, tem que ser avaliada com base no que determinámos aqui", disse Pfefferkon, referindo-se à evolução da flora daquela altura.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cientistas russos ressuscitaram flor com 30 mil anos




Descoberta

21.02.2012 - 17:41 Por Nicolau Ferreira

A planta que os cientistas ressuscitaram
A planta que os cientistas ressuscitaram (DR)


É uma história que faz lembrar o Jurassic Park, sem âmbar nem dinossauros mas com a ajuda de esquilos pré-históricos: os cientistas russos conseguiram fazer crescer uma flor a partir de material vegetal congelado há 30 mil anos que foi guardado em buracos pelos pequenos mamíferos da época. Os resultados da investigação foram publicados agora na Proceedings of the National Academy of Sciences .




O poder de conservação das plantas é bem conhecido pelos cientistas. As sementes podem germinar passado muito tempo, 2000 anos até, no caso de sementes de palmeiras encontradas numa fortaleza de Masada, perto do Mar Morto, em Israel. Mas os resultados obtidos pela equipa liderada por Svetlana Yashina e David Gilichinsky, da Academia de Ciências Russa, não têm precedentes. “No presente, as plantas da S. stenophylla são os mais antigos organismos multicelulares viáveis”, escreveram os autores no artigo.

A planta que conseguiram regenerar da espécie Silene stenophylla continua a crescer na Sibéria. Mas este material biológico da flor estava escondido num dos 70 buracos de hibernação feitos pelos esquilos que viviam naquela altura, que os cientistas investigaram, no Nordeste da Sibéria.

“Todos os buracos foram encontrados a profundidades de 20 a 40 metros, da superfície de hoje, e estão localizados nas mesmas camadas onde existem ossos de grandes mamíferos como mamutes, rinocerontes-lanudos, bisontes, cavalos, veados, alces, e outros representantes da fauna” do Plistocénico tardio, escreveu a equipa.

Os buracos estão na acamada de permafrost, uma camada de solo gelada e que funciona como um congelador gigante. Este solo manteve durante dezenas de milhares de anos o material a uma temperatura média de -7 graus célsius. No laboratório, através da técnica de Carbono 14, os cientistas aferiram a idade do material, que tem cerca de 31.800 anos, com um erro de 300 anos. 

O material continha sementes e partes do fruto da espécie vegetal. A equipa tentou germinar as sementes, mas não obteve sucesso, depois utilizaram partes vivas do furto da planta. Ao contrário dos animais, é possível regenerar uma planta a partir de partes vivas de um espécime, que nas condições certas, acabam por se desenvolver dando origem a raízes, caules, folhas, flores e frutos. No fundo, desenvolve-se um clone. Foi o que aconteceu nesta experiência, os cientistas colocaram a germinar pedaços do fruto, que germinou e deu uma planta com flores. Os cientistas conseguiram ainda produzir novas plantas a partir das sementes produzidas por estas flores.

Segundo os autores, este “milagre” foi possível, porque as células do fruto utilizadas para a germinação eram ricas em açúcar, o que protegeu o ADN e o material das células do frio. Esta protecção possibilitou a multiplicação celular quando a equipa pôs o material a germinar.

“Isto é uma enorme descoberta”, disse Grant Zazula, cientista do Programa de Paleontologia de Yukon, do Canadá, ao New York Times, defendendo que “não tem dúvidas” dos resultados obtidos pelos cientistas russos serem verdadeiros.

As novas plantas têm uma fisionomia diferente no formato das flores em relação aos espécimes de hoje. Os cientistas não conseguiram explicar a causa destas diferenças. A equipa defende que esta descoberta pode ajudar a compreender melhor o processo da evolução das espécies, além de dar mais informação sobre o clima que existia ali há 30.000 anos.

Mais excitante, contudo, são as novas possibilidades de regenerar plantas que entretanto se extinguiram, e cujo material se mantém conservado na natureza por um processo semelhante. “Há uma oportunidade de ressuscitar flores que foram extintas da mesma forma que falamos em trazer os mamutes de volta à vida, a ideia parecida com a do Jurassic Park”, disse Robin Probert, do Banco de Sementes Milénio, Reino Unido, citado pela BBC News.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Stephen Hawking descarta Deus no surgimento do Universo


Geral

Vermelho -3 de Setembro de 2010 - 18h13

O cientista britânico Stephen Hawking afirma em seu novo e inédito livro que a física moderna descarta a religião na origem do Universo e diz que aparentemente o Big Bang foi uma consequência natural das leis da física.

Em The Great Design (“O Grande Projeto”, em tradução livre), que teve trechos publicados nesta quinta-feira pelo jornal britânico The Times, Hawking afirma que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada”.

O cientista cita a descoberta de um planeta orbitando uma estrela que não o Sol, ocorrida em 1992, como algo que faz as condições planetárias terrestres – como a relação entre a massa solar e a distância para o Sol, por exemplo - parecerem provas “muito menos convincentes de que a Terra foi cuidadosamente projetada somente para agradar a nós, seres humanos”.

"Devido à existência de uma lei como a da gravidade, o Universo pode e vai criar a si mesmo do nada”, afirma o físico no livro.

"A criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada, do porquê do universo existir, do porquê de nós existimos”, diz Hawking.

The Great Design foi escrito em parceria com o físico Leonard Mlodinow e tem lançamento previsto para o próximo dia 9.

Da redação, com informações da BBC
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  • boa!

    03/09/2010 23h05
    Outro anestésico é esse, acreditar em um deus superior e justo.apartir daí induz o homem a não querer fazer justiça, a esperar a ´´divina``, que haverá um mundo melhor próximo, já se passaram mais de 2.000 anos e nada, (no caso do cristianismo). Enquanto isso os detentores do poder contam com essa vantagem, que alias está até na nossa constituição que o nosso país é cristão. Enfim...isso que citei é o mínimo.
    FILIPE
    TEIXEIRA DE FREITAS - BA
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