Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 18 de maio de 2010

As vilas e os pátios que Lisboa esconde

Vasco Neves
Maria Dolores espera vaga num lar. Será a primeira vez que sairá de Vila Berta. Tem 93 anos

Histórias

As vilas e os pátios que Lisboa esconde

Na Graça, uma vila ruiu este mês. São precisos muitos dedos para contar todas as que existem na capital. A Domingo foi espreitar.
  • 16 Maio 2010 - Correio da Manhã
Por:Marta Martins Silva 
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No miolo de Alfama, num bairro com cheiro de aldeia, um gancho em ferro "do antigamente" resiste a todas as obras – rezam os moradores que era ali que os carrascos enforcavam os condenados. Será o único vestígio de um passado tão longínquo que ninguém que ali mora pode dizer com certeza que naquele pátio se encontravam mais do que as cavalariças do antigo Palácio do Conde Andeiro. 
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Até porque os moradores do Pátio do Carrasco não se fiam nas desgraças apesar de saberem as lendas de cor. São gente que ali nasceu, ali cresceu e ali deu à luz. Gente que dá sal e azeite, que empresta brasas para assar sardinhas e que até serve um "copinho" de água se a sede do vizinho o justificar. Lisboa esconde vilas e pátios como este nas ruelas e calçadas. Seriam mil em 1992, ano em que uma centena foi considerada de interesse patrimonial pela autarquia. A antiga vila situada nas Escadinhas da Graça, na rua Damasceno Monteiro – que ruiu no início do mês – não constava da lista a recuperar. 
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O Carrasco sim. "Temos muito orgulho do nosso pátio, primamos por ter tudo bonito e adoramos quando os turistas tiram fotografias". Um anúncio de uma marca de refrigerantes foi inclusive aqui filmado – uma rodagem que insuflou o ego aos moradores. Em época de Santos Populares, quando o cheiro das sardinhas que os vizinhos assam em conjunto convida os visitantes a entrar, o difícil "é explicar que isto não é nenhum restaurante típico". É Fernanda Campos quem o conta. Em 59 anos de vida, passou 15 fora do pátio onde nasceu, num casamento que a levou dali para fora mas terminou em divórcio. 

A tia, Maria Susete, de 80 anos, é a mais antiga moradora do bairro. O filho, que morava no 5, "casou com a moça do 3, namorada desde a infância" e só não moram na zona "porque as casas são pequenas e caras". Tirando a juventude, que escolhe fazer vida nos subúrbios, os que já foram é porque não voltam nunca mais. "Do nosso tempo já morreu muita gente aqui do pátio", conta a prima de Fernanda, Gabriela Rua, de 65, que no Pátio criou quatro filhos. "Esta casa está na minha família há pelo menos 100 anos". Em regime de arrendamento, tal como a maioria das casas que ali convergem. "Os meus irmãos saíram todos, alguns até para o estrangeiro, eu fiquei sempre. Nem me imagino a sair do sítio onde sempre morei". 
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93 ANOS NA VILA
Maria Dolores não mora em Alfama – mas na Graça, numa vila de onde também nunca saiu. Nem mesmo o casamento tardio, aos 40 anos, lhe alterou a morada. Só agora, com 96 anos, prepara a mudança. "E não é lá para o outro lado", diz, referindo-se à morte. "É para o Lar dos Inválidos do Comércio, estou à espera de uma vaga". Será a primeira vez em 93 anos que sairá da Vila Berta – onde mora desde os três. Vai ter saudades da vila onde brincou, namorou, casou – e onde perdeu partes do coração à medida que iam desaparecendo os seus. "Mas não sou muito apegada aos bens materiais, também já não vejo bem, por isso aquilo que me vai fazer mais falta é o meu afilhado", que lhe faz companhia à noite. 
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Se saísse amiúde de casa a idosa encontrar-se ia várias vezes com Estêvão Tojal, bisneto do fundador da Vila Berta, que mora na ‘Casa da Quinta’, a maior do bairro. Segundo conta o arquitecto, "o nome da Vila, que existe desde 1900, deve-se ao facto do Joaquim Francisco Tojal ter tido apenas uma filha mulher, Berta". A influência do início do século vê-se no uso do ferro – "era a única vila de carácter essencialmente imobiliário e não operário, como as demais. Foi dividida em duas frentes: uma mais nobre, a zona das varandas, a outra menos. O meu bisavô era um investidor ligado à construção civil e ainda estão na posse da família cerca de 40 a 50% dos prédios". 
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Chegou a ter, "até ao 25 de Abril, um guarda a cargo da família, que regava também as plantas e era na nossa casa que se acendia a luz da Vila". Jorge Ferreira, funcionário da Câmara, comprou ali o seu T4 há onze anos. "Custou 15 mil contos e como queria morar na Graça achei que era uma boa oportunidade de preço". Não queria sair da freguesia porque foi lá que nasceu, curiosamente na Vila Sousa, uma outra vila, a poucos passos da Berta. Lembra-se, por isso, de "ir em garoto buscar água em garrafões à cisterna que havia num pátio por detrás". E de ouvir a mãe contar que assistiu à fuga de umas presas da Cadeia das Mónicas, que era ao virar da esquina". 
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A CASA ERA UMA VACARIA
Onde hoje estão os naperons, a mobília e as memórias de 35 anos de vida "era uma vacaria. A minha casa era uma vacaria no tempo dos Agostinhos. Também foi de condes e de gente importante", repete Assunção Redondo, uma reformada de 62 anos que encontramos na Vila Sousa, em conversa de janela com uma vizinha da frente. 
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"Muita gente dos antigos já foi morrendo mas quem ainda está continua a falar". A perguntar se as dores passaram, a xingar o tempo frio para Maio. No livro ‘Prédios e Vilas de Lisboa’, de Nuno Teotónio Pereira e Irene Buarque, lê-se que esta vila "constitui um caso à parte, visto tratar-se da ampliação de um antigo palácio, em cujas traseiras existe um amplo pátio – o tal onde Jorge ia buscar água – construído em 1889". Bem depois disso, já durante o século XX, houve ali uma oficina, uma padaria e a conhecida mercearia das velas, além do botequim de Natália Correia. 
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Hoje já não, mas o único desabafo de Assunção não tem a ver com a renda (a idosa paga 12 euros) mas com o facto de "os carros de fora estacionarem aqui dentro, coisa que não acontecia quando tínhamos porteiro, que às cinco e tal da manhã já andava a varrer". 
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COLECTIVIDADE HÁ 80 ANOS
Na íngreme travessa do Conde da Ribeira, em Alcântara, esconde-se uma vila com mais frequência de reformados que o centro de saúde. Não que lá more muita gente – actualmente duas famílias contra a dezena de outrora – mas por causa da fama da colectividade ‘Os 31 de Santo Amaro’. Diz o presidente do grupo de excursionistas, José Silva, que a vila "era antes uma cocheira do Palácio Valle-Flor, daí ainda ter os ferros onde amarravam os cavalos". Há quase um século que ali está o grupo que nasceu "por causa de um balão, que se tornou uma adega" e que hoje é sinónimo de cartas, jogo da laranjinha (uma espécie de bowling artesanal) e de dois dedos de prosa antes da noite cair e retornarem a casa. 
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A dona Olinda bem os ouve na conversa – mas não se importa nada. Nos últimos anos a vizinhança tem saído a passo acelerado. "Morou aqui mais gente. Conhecíamo-nos todos, vimos os filhos uns dos outros crescer (e abalar), agora está muito sossegado". Na parte de trás da casa cria galinhas, coelhos e orienta uma horta. Os animais que compra não vêm da esquina – "vou buscá-los a Tires de autocarro, ainda hoje lá fui". Porque esta vila onde mora também tem cheiro de aldeia. Mas não exageremos na comparação. 
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PÁTIO NO LUMIAR EM RISCO DE DERROCADA
Há-os castiços. Mortiços ou agitados. Com mais ou menos gente. Alguns são aproveitados para videoclips, publicidade, outros não. Mas também os há em estado tal que ninguém lá devia viver. É o caso do Pátio dos Piçarra, no Lumiar, onde ainda moram duas cabo-verdianas, Adelina Brito e Maria Sameiro, com a respectiva prole. Tomam banho na rua e despejam o penico na pia. Chove-lhes em casa. Ao défice de higiene junta-se a insegurança que sentem. "Os drogados metem-se aqui no pátio e nós cheias de medo". 
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A associação de moradores do Lumiar fez pressão com a autarquia e conseguiu realojar os outros residentes. Adelina e Maria esperam: porque à data não tinham papéis. 
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NOTAS
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SÉCULO XIX
Em meados do século XIX a industrialização provoca a concentração de operários. Foi o início dos pátios.
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PERIGOS
Em Fevereiro, uma casa apalaçada em Alfama ruiuL. Em Maio, foi a vila das Escadinhas da Graça.
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1.000
Das 1.000 vilas contabilizadas pela autarquia em 1992 muitas eram de particulares. "Por isso podem ter sido demolidas".
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ÚLTIMAS
As últimas iniciativas privadas de construção de vilas datam da década de 20, lê-se no estudo do arquitecto Nuno T. Pereira.
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domingo, 9 de maio de 2010

Vila operária em ruínas sumiu-se de repente numa colina de Lisboa

Duarte Roriz
As casas resvalaram encosta abaixo e com elas todo o recheio. Um monte de entulho ocupou os bombeiros durante horas em busca de vítimas. Vizinhos de um prédio contíguo foram retirados

Lisboa: Moradores da freguesia dos Anjos alertaram câmara para o perigo

“Vi degraus engolidos pela terra”

"Gritei tanto para a minha vizinha me vir ajudar. Pensei que morria porque vi os degraus a serem engolidos pela terra e de repente as casas dos meus vizinhos deixaram de existir." Os lábios de Madalena Gonçalves tremiam cada vez que recordava o momento em que cinco casas ruíram com um deslizamento de terras, ontem à tarde, nas escadinhas Damasceno Monteiro, na freguesia dos Anjos, na encosta da Graça, em Lisboa. Só um milagre fez com que as três pessoas que viviam na Vila Martins, casal de idosos e a mulher de 52 anos, escapassem à tragédia.
  • 06 Maio 2010 - Correio da Manhã
Por:Magali Pinto/Helder Almeida com L.M./A.P..
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Apenas duas casas eram habitadas, sendo que as restantes eram ocupadas apenas durante a noite por sem-abrigo e toxicodependentes. 'O meu vizinho ficou sem nada, com a casa completamente destruída. Eu só me salvei porque fui alimentar os meus cães e quando vi aquela destruição toda só tive tempo de fugir', continuava a mulher, que vive sozinha. O casal de idosos não estava em casa porque tinha ido a uma consulta no médico. Foram também retiradas dezenas de pessoas, de pelo menos cinco prédios, por haver risco de novas derrocadas. Ao todo são quinze as pessoas desalojadas (ver págs. 6 e 7). 'Eu comecei a estranhar porque o meu pátio começou a abrir, mas nunca pensei que uma coisa dessas pudesse acontecer aqui', disse, incrédula, a mulher de 52 anos.
A situação provocou ainda uma onda de revolta entre os moradores da zona, que referiram ter enviado vários alertas à Câmara a dar conta do estado de degradação das casas da Vila Martins. 'Os canos já vertiam água por todos os lados e nunca ninguém nos ouviu. É preciso haver uma desgraça para alguém fazer alguma coisa', salientou Manuela Antunes, 55 anos, que há dois anos tinha juntado 1500 assinaturas para a Câmara intervir. 
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De resto, está é uma situação confirmada ao CM pelo presidente da Junta dos Anjos. 'Admito que há mais de dois anos que recebemos a mesma queixa, mas não podemos fazer muita coisa porque não é da nossa competência e, da parte da Câmara, também nunca tivemos qualquer feedback', garantiu João Grave. Já o vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Lisboa disse que 'é muito cedo para encontrar causas'.
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DISCURSO DIRECTO
'É MUITO CEDO PARA AVALIAÇÕES': Manuel Brito, Vereador da Protecção Civil da CML
Correio da Manhã – Já são conhecidos os motivos que levaram ao deslizamento de terras?
Manuel Brito – Neste momento o mais importante é assegurar que as pessoas que ficaram desalojadas estão a ser acolhidas e já a partir de hoje [ontem] vamos lutar para conter a situação, mas ainda é muito cedo para avaliações concretas. A partir de agora temos de pensar em limpar.
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– Quais as medidas que vão ser tomadas a partir de hoje?
– Já fizemos uma reunião de emergência e decretámos o estado de necessidade, devido à gravidade do que se passou. Em primeiro lugar temos de pensar no bem das pessoas que, felizmente, sobreviveram. 
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– Quais os meios que ficam envolvidos a partir de agora?
– A PSP fica cá e hoje [ontem] vamos fazer vistoria completa até para avaliar a segurança de quem cá fica e que está com medo. 
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CÃES À PROCURA DE CADÁVERES
O primeiro alerta chegou ao Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa por volta das 17h20. Num primeiro momento suspeitou-se da existência de vítimas, pelo que foram desde logo accionados vários meios de socorro e salvamento, entre os quais os cães da Unidade Especial de Polícia (UEP), que procuravam cadáveres. Estiveram também no local vinte bombeiros, com cinco viaturas, várias ambulâncias do INEM, a Polícia Municipal de Lisboa, a EDP e ainda a EPAL.
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'ESCAPÁMOS POR MINUTOS'
Na Vila Martins, José António, de 51 anos, Vítor Sousa, de 42, (estes dois na foto à direita) e Francisco José, de 38, utilizavam uma das casas arrasadas para manter um pequeno ginásio privado. O proprietário da casa, José António, conta que ontem a habitação já estava com 'rachas de cerca de dez centímetros, enquanto no dia anterior não passava os dois'. Naquela vila, os problemas eram muitos. 'Não havia luz eléctrica na rua, nem esgotos, e havia muito lixo acumulado', descreve por sua vez Vítor Sousa.
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Ontem, foi por pouco que os três homens não ficaram debaixo dos escombros. 'Estávamos a ir para o ginásio, que eu tinha remodelado há pouco tempo, quando começámos a ver tudo a cair. Ainda tentei salvar uma máquina mas foi impossível', refere José António. 'Aquilo foi uma desgraça total, por cinco minutos que não ficámos ali os três. Se tivéssemos ido mais cedo não tínhamos escapado', assegura Vítor Sousa. Foram estes três homens que correram a chamar por socorro assim que as casa caíram, provocando 'um estrondo enorme' e libertando 'uma nuvem de poeira gigante' que cobriu todo o bairro por algum tempo. 
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'É LOCAL DE GRANDE PERIGO'
Um total de 15 pessoas ficaram desalojadas ontem, na sequência da derrocada que destruiu cinco casas, na Vila Martins, na zona dos Anjos, em Lisboa, confirmou ao início da noite o vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Manuel Brito. Doze destas pessoas são moradoras num prédio que fica junto ao local da derrocada e que, segundo o responsável pela Protecção Civil, ficou descalço, constituindo por isso 'um local de grande perigosidade'. As outras três viviam na vila que ficou destruída.
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Os três moradores da Vila Martins que ficaram sem casa vão ficar temporariamente com familiares, enquanto os restantes doze vão ser realojados durante os próximos dias em habitações da câmara, assegurou ao CM o director do Departamento de Protecção Civil da CML, Vítor Vieira.
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A Polícia ficou no local durante a noite a guardar o perímetro de segurança que foi criado. Todos os outros meios de emergência – bombeiros, INEM e equipas de resgate – foram desmobilizados, depois da certeza de que ninguém tinha ficado soterrado. Havia o receio de que alguns toxicodependentes que frequentavam as casas abandonadas tivessem ficado debaixo dos escombros.
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As causas da derrocada ainda não foram apuradas, mas a vereadora da Habitação da CML, Helena Roseta, apontou o facto de o terreno naquela zona estar 'muito húmido', corroborando as suspeitas de moradores que falavam de um cano que durante muito tempo verteu água sem ser arranjado.
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Hoje, os bombeiros vão proceder à limpeza do local, depois de cortarem a electricidade na zona. Manuel Brito admite que vai ser um trabalho de alto risco. 'Os bombeiros podem mesmo correr risco de vida, o local é muito perigoso'. Já Helena Roseta afirma que não pode dizer 'quanto tempo vai demorar' a voltar tudo ao normal. Os dois vereadores admitiram mesmo ter assistido a uma segunda derrocada quando chegaram ao local.
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Os dois vereadores da CML decretaram ainda, verbalmente, o ‘estado de necessidade’ que permite à câmara intervir em terrenos de privados sem notificar os proprietários. Hoje vão ser também reforçadas várias estruturas para evitar mais derrocadas. 

SAIBA MAIS
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O QUE É UMA VILA?
Habitação das famílias operárias, as vilas datam do séc. XIX. Não tinham sanitários nem água corrente e construíam-se à margem dos arruamentos a que acediam por serventia. Aproveitavam os interiores dos quarteirões.
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350
vilas foram contabilizadas em Lisboa na edição 1979 do Anuário Geral de Portugal..

A VILA AO LUXO
O Páteo Bagatella, às Amoreiras, hoje urbanismo de luxo, era antes a Vila Bagatella, construída em 1890 por Manuel Monteiro, emigrante regressado rico do Brasil.
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DISCURSO DIRECTO
'ÁGUA PODE TER AJUDADO À DERROCADA': Gonçalo Ribeiro Telles, Arquitecto paisagista
Correio da Manhã – O que terá provocado o deslizamento de terras nos Anjos?
Gonçalo Ribeiro Telles – Há muitas hipóteses, mas a mais provável é o excesso de água no solo. A infiltração de água nos diferente estratos pode ter ajudado à derrocada.
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– Há outras situações semelhantes a esta em Lisboa?
– É uma cidade colineira, logo onde há colinas pode haver deslizamentos. Um dos exemplos é o Vale de Alcântara.
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– Como se evitam estas situações?
– Através de um ordenamento de território sério que leve em consideração a circulação das águas. Estudar os diferentes vales da cidade e como é feita a circulação das águas.  
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'TÍNHAMOS VÁRIOS ALERTAS HÁ DOIS ANOS'
João Grave, presidente da Junta de Freguesia dos Anjos, afirmou ter conhecimento do estado de degradação das casas da Vila Martins. 'Tínhamos vários alertas há mais de dois anos mas sem o apoio da câmara não podemos actuar. Felizmente não houve vítimas, porque se trata de habitações muito antigas e que têm de ter uma atenção especial e ,portanto, temos de intervir', disse o presidente ao CM. 
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Só duas das oito casas estavam habitadas. Não houve vítimas

Vila operária em ruínas sumiu-se de repente numa colina de Lisboa

Público  06.05.2010 - 08:51 Por José António Cerejo
"Aquilo desabou tudo de um momento para o outro." Francisco José, trinta e tantos anos, nem teve tempo de salvar os aparelhos de ginástica que tinha numa das casas da degradada Vila Martins, na encosta que liga o miradouro da Senhora do Monte, na Graça, à Rua Damasceno Monteiro, por cima do Intendente, em Lisboa.
A derrocada fez 12 desalojados  
A derrocada fez 12 desalojados (Nuno Oliveira)
Pouco passava das 17h30 e os oito tugúrios térreos que em grande parte do século passado alojaram famílias de operários - seis dos quais desabitados e semi-arruinados - desapareceram pela encosta abaixo, no meio do pó e de um estrondo surdo.

"Por sorte não estava ninguém lá dentro", conta uma jovem enfermeira, residente num prédio vizinho, que saiu de casa a correr, a ver se podia ajudar alguém. Os cães pisteiros da PSP reforçariam depois a sua convicção, não encontrando sinal de vida sob os escombros acumulados na base da encosta. O casal de idosos que habitava uma das casas estava ausente e a mulher que vive na outra estava ali, desesperada, a contar como tinha sido obrigada a fugir, ao ver as paredes a rachar e a poeira a levantar-se. Os sem-abrigo que por vezes pernoitavam nas casas abandonadas não tinham sido vistos durante a tarde e os cães, um dos quais feriu uma pata no meio do entulho, não encontraram vestígios deles.

Amontoados no cruzamento da Damasceno Monteiro com as Escadinhas do mesmo nome, por onde se acedia à Vila Martins, através de uma estreita travessa, dezenas de moradores assistiam ao vaivém dos bombeiros e da protecção civil e assestavam baterias contra a Câmara de Lisboa e os senhorios. Uns falavam num primeiro abaixo-assinado há perto de 30 anos, a pedir a demolição dos casebres, que "nem sequer tinham casa de banho nem estavam ligados aos esgotos". Outros já só se lembravam de um protesto com cerca de 20 anos, realizado pouco depois de uma outra "barraca" existente junto à vila ter ido abaixo.

Os mais novos já não tinham conta das cartas, telefonemas, abaixo-assinados e e-mails a pedir uma solução. Nem tão-pouco das vistorias camarárias que confirmavam, segundo garantem, o risco de ruína e a falta de condições de habitabilidade da velha Vila. "O problema é que os senhorios estão-se marimbando. Pagam as coimas e pronto. Fica tudo na mesma", queixava-se um morador de um dos prédios da Damasceno Monteiro, situado mesmo por baixo das casas que agora se sumiram.

Nas traseiras deste edifício ainda estão dois armazéns, já assentes em socalcos, uns metros abaixo e à esquerda da Vila, onde em tempos se fabricou um dos ex-libris de Lisboa: a ginjinha Espinheira, que ainda tem loja aberta nas Portas de Santo Antão. "Há uns 30 anos, quando fizemos o primeiro abaixo-assinado, o senhor Espinheira foi um dos subscritores", recorda um reformado que abriu as portas do seu quarto andar aos jornalistas que não tinham outra maneira de ver o local do acidente.

Do topo do prédio, o rasgão lavrado na escarpa mostra o que sobra de uma das muitas chagas que Lisboa esconde. É um espaço minúsculo, de pouco mais de uma centena de metros quadrados, escondido entre prédios, visível apenas dos telhados. A encosta sobe a pique, quase na vertical, e era por ela que seguiam a escada ao longo da qual se empoleiravam as oito barracas, que já tinham sido casas pobres, de gente pobre, mas de tijolo e cimento. A imagem lembra morros e favelas e põe a nu muito do que a cidade tem de podre. "A encosta está oca por falta de drenagem das águas. Ainda pode cair algum prédio nas escadinhas", dizia um dos moradores.
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