Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma igreja que é uma coroa em Famalicão

O novo templo católico de Santiago de Antas está carregado de referências simbólicas. Foi inaugurado no passado domingo.
***PÚBLICO - Uma igreja que é uma coroa em Famalicão

A partir da nova estrada aberta junto à igreja de Santiago de Antas, em Famalicão, o templo românico fica perfeitamente enquadrado entre a torre sineira e a nave do novo local sagrado da freguesia. Os dois edifícios não podiam, porém, divergir mais: o mais antigo é rectangular, pequeno, e granítico; o novo, que foi inaugurado no domingo, é elíptico, enorme, e construído em betão pintado de branco. “Queríamos fazer este contraste para mostrar às pessoas que é uma peça completamente diferente”, explica Hugo Correia, arquitecto que assina a obra.

A igreja antiga, com origem no século XII, está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958. O projecto de arquitectura do novo edifício teve, por isso, que passar pelo crivo do  Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar). Nas conversas com os técnicos do património “surgiu muitas vezes a pergunta: por que não reveste a granito ou de algum material próximo a nova igreja?”, conta Correia. “Nós éramos completamente contra. A igreja antiga é tão valiosa, que não queríamos correr o risco de confundir as pessoas”.

Acabou por convencer os técnicos do Igespar e desenhar uma igreja moderna, de linhas simples, mas carregada de simbolismo. No interior, os únicos ornamentos estão no retábulo do altar, desenhado por Tiago Costa, arquitecto que esteve a colaborar no gabinete de Hugo Correia nos últimos anos. Esses dois painéis foram construídos em cerâmica e decorados com folhas de ouro e prata, com imagens de S. Tiago e de Nossa Senhora da Conceição. A igreja tem formato oval e no exterior é circundada por vários anéis que se entrecruzam, criando um efeito de malha. De acordo com Correia, pretendem simbolizar a coroa de espinhos que terá assentado sobre a cabeça de Jesus Cristo no momento da sua crucificação.

Há outras referências a símbolos da doutrina da Igreja Católica na obra. O piso de madeira é percorrido por duas linhas paralelas em mármore, que ligam o exterior do edifício ao altar. A primeira, azul, representa o rio Jordão, local do baptismo de Cristo, e liga o exterior do templo à pia baptismal e depois ao retábulo mor. A segunda linha, vermelha, representa o sangue do profeta, e termina sob o púlpito onde são feitas as leituras dos textos sagrados.

A freguesia de Santiago de Antas foi uma das que foi absorvida pela cidade com o crescimento de Vila Nova e Famalicão nos últimos anos. O vizinho Parque da Devesa e novos empreendimentos imobiliários fizeram crescer uma localidade que até há 30 anos era marcadamente rural. Hoje, tem cerca de 8.000 pessoas e a velha igreja não tinha condições para acolher os que, dentro destes novos habitantes, são católicos.

“Não havia assentos para todos”, conta o padre Agostinho Alves, que está na paróquia há seis anos. Aeixou de ser um problema dentro da igreja, onde há também lugar para muitas mais pessoas – o novo edifício tem 500 lugares sentados e espaço para mais 200 pessoas nas naves laterais – e condições acrescidas para as actividades da paróquia no piso subterrâneo, onde foi criado um centro pastoral com quatro salas para as sessões de catequese e uma sala com capacidade com 200 pessoas e possibilidade de receber espetáculos e festas.

A construção da nova igreja era, por isso “uma festa que há muito tempo se esperava” na freguesia de S. Tiago de Antas, ilustra Agostinho Alves. Esse dia chegou no domingo, com a realização de uma missa inaugural a que presidiu o Arcebispo de Braga, Jorge Ortiga.

Ao todo, a obra da nova igreja de Santiago de Antas custou 3,2 milhões de euros, financiados quase exclusivamente por fundos próprios da paróquia e por intermédio de um peditório feito de porta a porta juntos da população local e do apoio de alguns beneméritos. A Câmara de Famalicão deu também um auxílio, cedendo o terreno em que o edifício foi implantado por um prazo de 100 anos e atribuindo dois subsídios, num total 230 mil euros, que serviram para pagar o projecto de arquitectura e os arranjos exteriores.

https://www.publico.pt/2016/11/28/local/noticia/uma-igreja-que-e-uma-coroa-em-famalicao-1752885

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Pensamento científico do Missionário António Barroso

PORTAL DO UÍGE E DA CULTURA KONGO

Publicado por Muana Damba activado 30 Octubre 2013, 12:47pm
Por Dr. José Carlos de Oliveira


Jose Carlos de Oliveira l
 
Contam ainda hoje os indígenas, que o Nisoio querendo convencer o seu parente e suzerano de que devia abraçar o christianismo, lhe dissera que os novos Nganga a Nzambi, tinham o poder de tornar novos os que mesmo muito velhos recebessem o baptismo.
   
Acerca desta eterna vontade do homem desejar reconquistar a sua plenitude masculina, o grande Goethe abordou magistralmente a figura de Fausto que no afã de superar os conhecimentos de sua época, evocou espíritos e, por fim, Mefistófeles, o demónio com o qual negociou a sua vida para viver por artes mágicas, vinte e quatro anos sem envelhecer.
 
Na língua Kongo o terno Nganga traduz-se literalmente por mágico, porém os kongo para os distinguirem dos seus mágicos deram-lhes o nome de Nganga a Nzambi25, mágicos de Deus. Torna-se claro que um sacerdote cristão não queria, e não quer, ser intitulado por mágico. O que estou a afirmar, é como os kongo os entendiam. Repare-se num termo muito comum entre nós para designar uma coisa que não presta: bugiganga, pois não é outra coisa senão a corruptela Bougie Nganga; é uma mistura do francês bougie e do Kikongo nganga. Ora bougie era na circunstância uma espécie de ”lâmpada mágica de Aladino” usada pelos missionários católicos e protestantes, para impressionarem os nativos. Esta era uma luta de titãs, a batalha dos deuses. Podiam os “psiquiatras Kongo” tremer sempre que viam aparecer “o branco de saias”. Com o tempo, foram percebendo que os brancos, em geral, não duravam muito. Podiam invocar os seus espíritos e até reencarnar neles, mas por pouco tempo, e mais, nem as sepulturas ficavam para assinalar a sua presença. Depois os Kinganga, ou aqueles que falavam em nome dos antepassados notáveis, seriam novamente ouvidos pelos soba, muata, mfumu (diversos títulos de chefe).Era só uma questão de tempo…
 
Por muito que esta verdade nos custe (a nós portugueses) foi este o estado em que Faria Leal, (tal como o missionário Barroso) encontrou as ruínas da mais significativa (e 1ª) igreja erigida pela igreja católica na África Ocidental.
 
 
  
  Ruínas da Sé Catedral NKULU MBIMBI no dizer dos Kongos e erigida pela igreja católica em finais doSec.XV
                               (fotografia do álbum da família Faria Leal.)
 
Ao ler e reler algumas considerações de Faria Leal, nada abonatórias, sobre a obra dos missionários católicos no reino do Kongo, tive dificuldade no seu encadeamento, em que parte do artigo as enquadrar, passei inclusive pela incerteza se devia mencioná-las ou não. Parece-me que o melhor é transcrever alguns segmentos dos registos de Faria Leal por uma razão muito simples: fazem parte de dados históricos da opinião do Residente Faria Leal, e porque se referem a informações muito relevantes sobre a igreja de Santa Cruz mais tarde elevada a Sé Catedral, denominada em língua Kongo Nkulu Mbimbi.
 
“Foi no reinado de D.João II, poucos anos depois da descoberta do Congo por Diogo Cam, que começou a propaganda religiosa no reino do Congo, sendo Gonçalo de Sousa, quem, em 3 de Maio de 1491, lançou a pedra fundamental da igreja de Santa Cruz em Embasse, hoje São Salvador do Congo, elevada a Sé Catedral em 1534 (fotografia das ruínas da Sé)…De toda a propaganda religiosa que seguiu esta instalação se apagaram todos os vestígios morais…O vetusto arco da Sé foi respeitado por imposição nossa, quando o superior da missão católica, cónego Sebastião José Alves, o quis também demolir para lhe aproveitar a pedra.
 
 
 
  A mesma Igreja já devidamente restaurada em 1896. (Fotografia da família F. Leal)
 
De uma coisa estou certo: os valores morais a que nos encontramos vinculados, quando somos confrontados com a nossa miséria humana a breve trecho e perante tantas amarguras facilmente se desvanecem.
 
E naqueles tempos? Tempos em que esta gente deixava a terra natal, os confortos da civilização, atravessava mares e florestas, internava-se no sertão, convivia com as populações, a que chamavam de “selvagens”, (e ao fim de alguns anos pouca diferença faziam desses “selvagens”). Tudo o que queriam era construir uma capela, seguida de uma escola, depois a enfermaria e, mais tarde, uma oficina.
 
O isolamento levava inexoravelmente à degradação da saúde mental e física, consequentemente, à depravação dos valores morais. A noção de auxiliar, a troco de nada, em breve, se esvaía no embrutecimento que ia tomando conta de muitos dos missionários.
 
Finalmente mais uma breve nota dos registos históricos de Faria Leal:
 
“O esforço e o zelo dos missionários levantou na capital do Congo e em nome de Deus os seguintes templos, cujas ruínas nos são hoje marcadas entre grandes hervas por alguns comoros pouco elevados, exceptuando a antiga Sé, que conserva alguns pedaços de muros levantados e um arco da capela-mor em estado de segurança. Existiam em S. Salvador os seguintes templos, cujas ruínas visitou antes das ultimas guerras do Congo, o sr, Alfredo Sarmento em 1856: Santa Sé Apostólica, S. Miguel, Nossa Senhora da Conceição, S. Tiago, Vera Cruz, Nossa Senhora do Rosário, S. João Baptista, S. José, Espírito Santo e as igrejas dos jesuítas, do convento dos capuchinhos e da santa casa da Misericórdia…nas imediações de S. Salvador existiam umas sete paróchias do que hoje não aparecem vestígios alguns".
 
Perguntar-se-á: que utilidade teriam tantas igrejas e paróquias? Vejamos o que disse a certa altura, acerca da escravatura, António Barroso na comunicação à Sociedade de Geografia de Lisboa durante a sessão de 7 de Março de 1889.
 
 
 
  A nova casa dos missionários católicos em Banza Kongo, 1896
 
“os missionários pregariam, sem dúvida, que os homens eram irmãos, que foram remidos todos no sacrifício cruento do Calvário; tratariam com carinho e bondade os seus subditos, como o indica ainda hoje o facto de povoações que pertenceram aos missionários, nas quaes os pretos dizem sem rebuço que eram escravos dos mesmos, notando-se que a maior offensa que se pode dirigir a um congo é apellidá-lo assim “…Os portugueses não inventaram a escravatura, que é muito anterior a elles, apesar de que já alguém lhes importou esse crime; exerceram-na porém como todos os povos europeus, e quiçá com mais brandura que alguns. As leis admittiam este aleijão social, os costumes não se irrritavam, e um traficante de carne humana passa por tão honrado, o que vergava aos excessos da fadiga e trabalho para ganhar o pão de todos os dias…Durante anos foi o comércio de homens quasi o único que tivemos com o Congo. Se exceptuarmos algumas esteiras vindas de Macuta, e mabellas, com pouco marfim, todo o comércio era alimentado à custa da despopulação do paiz”.
 
Estas são algumas verdades que só um missionário da grandeza de António Barroso seria capaz de escrever. Quando embarcou para Angola, levava consigo informações absolutamente secretas, salvo para um grupo muito restrito que viria a encontrar em S. Salvador do Kongo. Admito até que tivesse de haver uma saudação, por sinais, para se reconhecerem. Mais á frente, abordarei ao de leve esta importantíssima questão. Assim, o missionário Barroso estava de sobremaneira inteirado da complexa vida que ia levar. A sua missão era indiscutivelmente politico-religiosa. Já se tinha inteirado dos preliminares da cultura tradicional Bantu. Como superior das missões no Kongo foi informado do tipo de missionários ingleses que iria encontrar e do sigiloso pacto que iria ter de executar. Como nota interessante repare-se como trata o secretário perpétuo da Sociedade de Geografia por “meu amigo”.
 
“Seja pois, o meu bom amigo o interprete dos nossos sentimentos, perante a benemérita Sociedade, e que ela aceite, como preito de profundo reconhecimento, o humilde trabalho do menos prestimoso dos seus sócios"
Lisboa Março de 1889,
Padre António José de Sousa Barroso
 
Era bispo de Angola e Congo, D. José Sebastião Neto, quando se efectivou a Conferência de Bruxelas (1876) resultante de uma associação da “Associação Internacional Africana” criada por Leopoldo II da Bélgica com aparentes ambições humanitárias para a África central e para as quais convidara quarenta peritos escolhidos pelos seus conhecimentos científicos ou por suas conexões com a alta finança.
 
Este acontecimento de enorme projecção para a África Ocidental, resultou numa mudança de paradigma para as populações da bacia do Zaire. A abertura à navegação e ao comércio de toda a bacia hidrográfica do rio Zaire resultou em benefícios, para uns, e prejuízos para outros. A dita conferência foi o prenúncio de um grave risco para a influência dos portugueses na zona. Que poderia fazer a diplomacia portuguesa perante acontecimentos de tal magnitude? Quem iria defender os interesses de Portugal no reino do Kongo? D. José Neto diria mais tarde (chegou a ser cardeal patriarca português) acerca da da personagem escolhida, António José de Sousa Barroso: “ (…) prudente e inteligente, daria um excelente bispo.”. Embarcou então, em Agosto de 1880, para Angola, o Bispo de Angola e Congo, acompanhado dos missionários, António Barroso, Sebastião José Pereira e Joaquim Folga, assim como o capitão Barreto Mena e o guarda marinha Mota e Sousa.
 
  RM2524 560
 
  Sentado à esquerda o missionário Barroso, à sua direita o missionário José Pereira, e em pé dois filhos e um sobrinho do Rei do Kongo.
 
Quem alguma vez, acompanhou e conviveu com missionários religiosos portugueses, ingleses, suíços, franceses, espanhóis, entre outros, tem consciência de que a esmagadora maioria estava pronta a dedicar-se à causa espiritual, e não só. O que teria levado, (um grupo restrito) para tão longe de suas terras, fazia parte do processo político-religioso que os conduziria, mais tarde, a interferirem também politicamente, aquando do processo das independências das antigas colónias portuguesas (1961/1974).
 
Essa “missão” envolveu e arrastou o processo religioso, deteriorando os ideais morais e éticos de alguns desses “degredados” voluntários
.
Devemos ser objectivos, as missões católicas portuguesas em Angola, (as que conheço), não tinham, mas já têm, os recursos materiais e humanos, como por exemplo, têm as missões inglesas, americanas, canadianas, francesas alemãs ou suíças, etc. Diga-se o que se disser, os missionários iam pelo mato fora, como se estivessem a espiar algum crime, iam e continuam a ir, muitos por caridade. Os tempos são outros, as estradas estão feitas (embora agora, parte delas com as pontes destruídas), os novos e cómodos veículos de tracção às quatro rodas existem em todas as missões religiosas. Já não estamos no tempo das “Sandálias do Pescador”, todavia ainda se registam casos isolados de completa abnegação. No que se refere à saúde, o quinino e toda a panóplia de drogas de medicação preventiva, contra febres palustres, diarreias, gripes, tuberculose, varíola, sarna, piolhos, carraças, entre outras doenças, existem nos dispensários da mais modesta das casas dos missionários.
 
Com este olhar podemos ajuizar e respeitar figuras como as dos missionários Weeks, Alfredo Keiling, Grenfell, Bentley, António Barroso, Sebastião José Pereira e Joaquim Folga já citados, para só mencionar meia dúzia de centenas de tantos outros merecedores do nosso respeito. E isto só para o espaço geográfico do reino do Kongo. Nesta lista, deviam estar incluídos os missionários mestiços e negros, mas esses, estavam já física e mentalmente miscigenados e portanto mais preparados, porém, estavam sujeitos a outro tipo de vicissitudes afectas ao seu sincretismo religioso.
 
Não se julgue que eram “lançados” para as missões do interior com conhecimentos que lhes permitisse enfrentar a realidade de uma cultura e mentalidade completamente diferente da sua. Pelo menos é a impressão que nos deixou o missionário Barroso33:
 
“(…) Governava a provincia o exmo. conselheiro Eleutério Dantas, caracter nobre, alma de boa tempera, mas que conhecia tanto do sertão tanto como o sr. Bispo, como eu, e como os meus companheiros. D’aqui uma pessima organização da expedição que devia levar ao rei do Congo os presentes que lhe enviava sua Majestade El-Rei de Portugal (…).”
 
  
 
  Instalações da Missão Católica Banza Kongo, 1896 (foto do acervo do autor)
 
Todavia, algumas informações indiciam que não iam tão às escuras sobre o que os esperava, uma vez que Amadeu Cunha informa, ter sido o missionário Barroso preparado para ir missionar na Índia, encetando mesmo o estudo da língua ‘concani’. Indica-nos também que, embarcaram para Luanda em Agosto de 1880, tendo só iniciado a viagem, na canhoeira Bengo, da marinha real, rumo a Banza Kongo, a 20 de Janeiro de 1881. Este compasso de espera, em Luanda, pode muito bem ter feito parte da adaptação física e da preparação de noções úteis sobre a sua missão. Senão como compreender o seguinte:
 
“ (…) Eu tive de vencer uma grande difficuldade em Luanda para per-suadir que deviamos subir o rio Zaire até o Mussuco ou Noki e que d’este ponto deviamos partir para a velha capital do Congo. Este itinerario tinha sobre o do Ambriz duas vantagens: a primeira era ser mais curto o trajecto a fazer a pé e conhecermos essa região de Noki na margem esquerda do Zaire a S. Salvador; a segunda era evitarmos os povos que tinham sofrido com as nossas últimas campanhas do Bembe, e que de modo algum nos receberiam como bons amigos (…).”
 
Os espaços de tempo que mediavam entre as expedições no terreno e a substituição de novos grupos de expedicionários, quebravam os laços de possíveis de passagem de testemunho o que explica a falta de informações, quando se encetava uma nova expedição. Ninguém sabia nada do que se passava a norte do Ambriz.
 
Os missionários dos finais do século XIX em nada se assemelhavam aos que os tinham antecedido, em séculos anteriores. Já faziam parte das suas equipas e bagagem, técnicos com diferentes aptidões e aparelhos técnico científicos muito eficazes apesar das enormes restrições a que eram sujeitas as expedições portuguesas. Da sua bagagem já fazia parte a técnica do diário de campo. Foi utilizado pelo padre Barroso e também nos relatórios do Residente Faria Leal. Ali registavam, cada um à sua maneira, a base de dados, como por exemplo, os acidentes de terreno mais significativos, os cursos de água, o tipo de vegetação, as culturas de géneros alimentícios, a fecunda arachis hpagaea, ou seja, o nosso amendoim que os kongo conhecem por nguva ou nguba, referindo o missionário que a colheita foi excepcional nos anos de 1879/80. Este cuidado em assinalar dados tão significativos, permite, desde já, avaliar os seus propósitos de colonização efectiva, como por exemplo, o pormenor do registo de António Barroso das principais chuvas ocorridas em 1884. Principiaram a 4 de Setembro e terminaram a 4 de Junho e, em 1885, também começaram curiosamente a 4 de Setembro e terminaram a 14 de Maio, registando-se ainda, no ano de 1886, as primeiras chuvas a 20 de Setembro e as últimas a 21 de Maio seguinte, sabendo-se que esta regularidade se repete todos os anos. Por exemplo, em 1883, o pluviómetro do posto da missão, captou em menos de uma hora 197 milímetros cúbicos de água. As observações meteorológicas registaram também a direcção dos ventos soprando quase constantemente de W. para NW. Nos meses de Julho e Agosto quem vive em S. Salvador necessita de agasalho, chegando as temperaturas aos 10 graus.
 
As transacções do comércio de escravos e do marfim bem como depois, da borracha, tinham sempre de permeio o célebre Linguister frequentemente originário do sub grupo zombo. A esmagadora maioria destes funantes “pré comerciantes do mato” eram os língua dos portugueses). Diz-nos Barroso, nos seus relatórios, que estes chegavam a ficar com cerca de 30% dos lucros, embora tivessem as suas despesas, por exemplo, em espingardas, aguardente e tecidos. As informações de Barroso sobre os célebres línguas (intermediários fundamentais nas relações comerciais) continua:
 
 
 
  Casa rica de Comerciante do Mato, venda de marfim e borracha, 1910
 
“(…) algumas vezes ficam litteralmente depennados pela astucia do linguister, é levado tão longe no Congo, que um qualquer estranho para vender um cabrito ou uma gallinha, chama ou se lhe offerece um d’estes interpretes, o qual tem logo o cuidado de prevenir o europeu, em segredo, da conta que deve fixar para elle “comer”; é textual. (…) Os generos coloniaes que affluem a S. Salvador são o marfim e a borracha, com algum café vindo do Bembe. Os dois artigos primeiro mencionados, sáem da região vizinha do Stanley-pool e mais ainda da região a E., comprehendida entre as bacias do Quango e Cassai, e às vezes de mais longe. Em geral os mexicongos não vão commerciar a estas regiões; os azombo, raça eminentemente traficante, servem-lhes de intermedio. O indigena do Congo em geral, ou compra a borracha aos capos, nas grandes quitandas (mercados) do Zombo, ou entrega as suas fazendas aos Zombo para que lh’as vão permutar ao Pumbo (região da Takula) á Jaka, e outros sertões situados ao N. e NE. Os indigenas d’estas regiões têem pronunciada tendencia para o negocio; é talvez esta a sua feição característica.

A Industria é quasi nula; a agricultura só digna de mulheres. Demais o preto em geral ama as viagens; portanto, a procura de productos favorece as suas tendencias nomadas, que accusam uma épocha recente de fixação territorial (…)”.
 
Paradoxalmente, a segurança que as autoridades portuguesas, belgas e francesas passaram a oferecer, foram factor decisivo para a tal fixação territorial.
 
As feitorias comerciais, pela introdução das quais, o missionário Barroso foi promotor, tiveram, por seu lado, grande importância na fixação das populações, que até aí estavam disseminadas em aglomerações insignificantes. Este factor prende-se com a tendência das linhagens a fragmentarem-se, constituindo novas aldeias, permitindo a emergência de novos chefes que, de imediato, se tornam possuidores de alguns escravos e mulheres, passando a intitular-se mfumu a vata39. Estes dados são particularmente significativos sendo de realçar a forma secular de compra de oleaginosas “a copo”, recentemente (anos 40 a 70 do século XX) passaram-se a utilizar as latas de azeitona de um litro, tendo passado (devido à carestia dos produtos), por entre outras, à lata da Coca-Cola.
 
Um pequeno esclarecimento para a designação de “Companhia Portuguesa” é que em 1881 (data do inicio da estada do missionário Barroso), o reino do Kongo (actual aérea da província do Uije) não era considerada como parte integrante de Angola.
 
 
 
  A casa da Companhia Portuguesa, entregue às missionárias Portuguesas.
 
A sua decisão da fixação de feitorias, em Banza Kongo, permitiu a instalação, em 1882, da Casa de M. Daumas Berout & Cia. de Paris, seguida da de João Luís da Rosa, em 1883, e logo no ano seguinte da forte Companhia de Roterdão, vulgarmente conhecida por Casa Holandesa, que se manteve, em Luanda, até ao final da colonização. Por exemplo, a média anual de permuta do marfim naquela época atingiu seis toneladas e a borracha excedeu as trinta. Estes produtos vinham (como diz acima Barroso, pela mão dos zombo) da região de Stanley Pool e, às vezes, de mais longe, para serem posteriormente reenviados para os portos de embarque em caravanas de 4 a 5.000 carregadores, a quem era pago o valor de 9 000$000 reis em mercadorias. Na Europa, estes produtos atingem valores da ordem dos 50 000$000 reis.
 
 
  Fotografia do percurso Noki, S. Salvador das Irmãs, 1908
 
Quanto à posição social das pessoas (diz Barroso) existiam três classes de pessoas: as livres e de origem livre, a quem se não conhecia ascendente escravo; homens livres, porque compraram a liberdade e, finalmente, os escravos. Dos primeiros, faziam parte as linhagens, seus ascendentes directos, bem como filhos e sobrinhos. Alguns não tinham nada de seu, “ mas não sujavam as mãos,” a não ser para prestar um serviço ao Ntotila. Pouco ou nada faziam de prestimoso pela vida. Seguiam-se-lhe os que receberam
alforria, os chamados burgueses indígenas atingindo postos de relevante importância na guerra.
Também por isso eram abastados, podendo avaliar-se a sua riqueza pela quantidade de escravos e mulheres que detinham. Finalmente, vinha a classe dos escravos que era bem numerosa e, muitas vezes, um indivíduo era escravo em relação a quem o comprou ou herdou e, por sua vez, senhor de outros indivíduos que ele comprou por seu turno. Estes indivíduos entravam na família e as mulheres do seu senhor forneciam-lhe alimentação e, em geral, o escravo também podia casar e, nessa circunstância, era o próprio amo que se incumbia de lhe arranjar companheira, seguindo os filhos a condição da mãe.
 
Uma última palavra para o elemento feminino na educação da mulher indígena. Por mais zelo que o missionário empregue na educação da preta nunca conseguirá o que consegue uma irmã educadora.
 
 
 
  Fotografia, 1908, do acervo do autor, cedida pela família F. Leal

 
Após estas palavras do missionário Barroso, passaram-se vinte anos, a 13 de Julho de 1908 chegaram a S. Salvador as Missionárias de Maria a quem o governo tem subsidiado e que têm tomado a seu cargo a educação de muitas raparigas, algumas das quais já casaram com alunos da missão.
 
Os nomes que tomaram na ordem as seis missionárias são os seguintes: Maria da Visitação, portuguesa, superiora da missão; Maria da Encarnação, portuguesa, professora das alunas; Maria Júlia, portuguesa; Maria das Cinco Chagas, espanhola; Maria Fimbar irlandesa; Maria Sainte Lhecle, francesa. A última faleceu em 24 de Novembro de 1910, de haemoglubinuria anurica. Com excepção da superiora e da irlandesa as outras três eram raparigas novas.
 
Quanto não ganharia o catolicismo se em vez de obrigar homens e mulheres a uma luta improdutiva contra a natureza seguisse o exemplo dos protestantes terminando com o celibato dos padres e com as irmãs professas.
 
Tudo isto e muito mais fazia parte do Presente e do Futuro do qual o padre António Barroso estava incumbido de preservar para dignificar a missão multi secular da igreja católica portuguesa em terras do Kongo.


 http://www.muanadamba.net/article-o-pensamento-cientifico-do-missionario-antonio-barroso-120620271.html

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Mauro Santayana: A Igreja e a reinvenção do Ocidente

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13 de Fevereiro de 2013 - 19h34         

Ao surpreender o mundo – menos alguns íntimos de sua fadiga – com a renúncia ao papado, Bento XVI revela a grande crise por que passa a Igreja Católica. Quando Gregório XII renunciou, em 1415, seu gesto unificou a instituição, então dividida sob três pontífices desde 1378. Ângelo Correr percebeu, com acuidade, que ele serviria melhor à sua própria posteridade ao servir à unidade da Igreja, e abandonar o trono papal.
Por Mauro Santayana, em seu blog

Ele não era O Papa, mas a terceira parte de um poder que, dividido, enfraquecia-se cada vez mais diante do mundo e, o que é pior, diante da História. Os dois anos de vida que lhe sobraram – morreu em 1417 - lhe devem ter assegurado esse consolo. Ele tinha 90 anos ao renunciar – uma idade difícil de atingir naquela véspera do Renascimento – mas deu a seu gesto o claro caráter político, ao negociá-lo com o adversário mais forte, e influir na escolha – unânime, do sucessor, Martinho V – da poderosa família Colonna. Não alegou cansaço, mas, sim, responsabilidade política.

Mais longa do que o Grande Cisma dos séculos 14 e 15, que durou quase 40 anos, é a já duradoura crise do Ocidente, de que a Igreja foi fiadora e principal organização política, desde Constantino e Ambrósio. Depois da morte de ambos, a Igreja se proclamou herdeira do Império Romano, com base em um documento apócrifo, a Constitutum Constantini, segundo o qual Constantino legava ao papa Silvestre I – e, assim, à Igreja – todo o poder político e todos os bens do Império. O documento, forjado no século 8, foi desmascarado por Lourenço Valla, no século 15.

Um dos mais destacados latinistas e gramáticos da História, Valla provou que o latim usado para redigir o documento não existia no século 4. A inteligência lógica de Ambrósio arquitetou a construção política da Igreja, conduzida na sábia combinação entre a concentração da autoridade espiritual no Vaticano, exercida mediante os bispos, e a distribuição do poder temporal entre os reis e os senhores feudais, sem esquecer o domínio direto sobre os estados pontifícios, que garantiam a incolumidade dos papas.

Dessa forma foi possível, em esforço de séculos, domar a anarquia, conter e assimilar os bárbaros e dar estrutura política e social à Idade Média, com a consolidação da injustiça de sempre contra os pobres e os pensadores que os defendiam, quase sempre levados às inquisições e à fogueira, como ocorreu a Giordano Bruno, no auge do Renascimento, em 1600.

Ambrósio, nobre burocrata do Império, que pagão até ser eleito bispo de Milão, não agiu como teólogo, que não era, mas, sim, como um dos mais hábeis estrategistas políticos da História. Coube-lhe salvar os pontos basilares da idéia do Ocidente.

A Igreja sempre fez alianças com o poder temporal, algumas piores do que as outras, a fim de evitar a prevalência do verdadeiro Cristianismo sobre seus interesses políticos no mundo. É assim que o Vaticano de nossos dias – depois de tolerância criminosa com Hitler, sob Pio XII – mantém o acordo firmado entre Reagan e Wojtyla, há mais de trinta anos, com o objetivo, atingido, de destruir a União Soviética e combater o socialismo. É preciso lembrar que, para o êxito da conspiração, contribuíram o traidor Gorbatchov, hoje garoto propaganda dos artigos de luxo da Louis Vuitton, e as operações do Banco Ambrosiano (valha a coincidência), para financiar o Solidarinosc, o sindicato de direita da Polônia, liderado por Lech Walesa.

Mesmo que não a desejasse, Ratzinger seria compelido à renúncia, pelos mais eminentes membros da Cúria Romana, que se preocupam com a sanidade mental do Pontífice, cujo engajamento com os setores mais conservadores da Igreja tem comprometido o seu arbítrio. Acrescente-se o movimento, subterrâneo, mas vigoroso, da Igreja Latina – e mais perceptível no episcopado italiano – de encerrar o período de papas menos universais e empenhados em sua razão nacionalista, como o polonês e o alemão. Isso não significa que o clero italiano recupere a Santa Sé, mas anuncia uma campanha intensa durante o conclave em favor de um candidato com as chances de Ângelo Scola, atual arcebispo de Milão, e advogado de diálogo franco e aberto com o Islã.

Em seu pronunciamento de renúncia, o Papa associou seu gesto à crise do pensamento ocidental, no tempo de alucinantes mudanças:

“... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para

Como anotou Gregório de Tours, no enigmático século 6, o mundo de vez em quando envelhece, encasulado na dúvida, e reclama a metamorfose. A Igreja Cristã (não só a Católica) e o Ocidente, xifópagos há 16 séculos, necessitam reinventar-se. Talvez a astúcia hoje dependa de pensadores abertos, como o arcebispo de Milão, sucessor de Ambrósio no episcopado. Talvez seja o tempo de se convocar não um Concílio da Igreja Católica, mas de organizar-se Concílio Ecumênico Universal, para salvar a idéia de um Deus comum, reunindo todas as crenças em nome da vida e da paz entre os homens de boa vontade.

Ecumenicismo

14/02/2013 10h28
Mauro, toda tua análise dos fatos em relação à direção do vaticano é bastante rica, traz elementos históricos e uma análise minuciosa. Do ponto de vista cristão (e não apenas católico), não é possível "salvar a ideia de um Deus comum reunindo todas as crenças..." já que não existe esse Deus comum. Sem o Cristo (Deus filho, Jesus), não há Deus para um cristão, e essa diferença é irreconciliável. Falta efetivamente TOLERÂNCIA E RESPEITO inter religioso, inclusive com aquelas crenças não monoteistas, afim de qua haja possibilidade de "paz entre os homens de boa vontade."
Alexandre Martins
Florianópólis - SC
  • Democracia

    13/02/2013 23h12Depois de ler neste site o artigo de Paul Craig Roberts: Aconteceu nos EUA; o estado policial existe, não tenho dúvida que precisamos é fortalecer o estado laico e democrático. Será que essas idéias que começam no Norte chegarão aqui.Vide o Nazismo_Integralismo. O Brasil terá dois grandes eventos daqui a alguns anos, no RJ constrói-se um moderno centro de Inteligência contra Terrorismo. Temos alguma lei pra caso de Terrorismo. A lei será aplicada ou será como no EUA? ..........?????
    josé marques vieira filho
    rio de janeiro - RJ
  • Democracia

    13/02/2013 22h42A sobrevivência das religiões deve-se a possibilidade de contniuar aplicando seu seu caráter dogmático durante os tempos. Acontece que a sociedade laica, democrático, heterodoxa acaba enfraquecida quando algum setor prevalece sobre outro. Quando as religiões atuam sobre o Estado laico impedindo o casamento gay(ou união) enfraquece o Estado democrático, pois exclui uma parcela da população de participação cidadã completa. O mesmo ocorre com o combate ao uso de preservativo que atrapalha a saúde pública, pois é também um método de se evitar doenças sexualmente transmissíveis.O mesmo ococrre quando se impede a pesquisa com células troncos. Os galileus continuam indo pra fogueira, só que na democracia as coisas são sutis, mas a censura existe.Precisamos de um fortalecimento do Estado laico democrático que respeita as religiões, mas não é respeitado por elas.
    josé marques vieira filho
    rio de janeiro - RJ
  • sábado, 31 de março de 2012

    Os segredos do arquivo do Vaticano estão a ser revelados a todos


    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI (Fotos: DR)
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Julgamento dos Templários em França: 60 metros de pergaminho
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Assinatura de Galileu Galilei, no documento em que este aceita a sentença que contra ele pronunciara o Santo Ofício, em 1633
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Um “privilégio” concedido por Otão I, pergaminho púrpura em letras de ouro
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Carta dos cardeais ao futuro Papa Celestino V
    Registo de juramento de fidelidade do cardeal Gil de Albornoz ao Papa Incêncio VI
    Um dos corredores do Arquivo do Vaticano

    Cultura

    31.03.2012 - 13:56 Por António Marujo, em Roma


     Exposição mostra uma centena de documentos que fizeram a história da Europa e do mundo e que pela primeira vez saem do arquivo dos papas, que acaba de fazer 400 anos. Galileu está lá.

    O mais impressionante será, talvez, o rolo com o processo dos Templários. Sessenta metros de pergaminho que incluem 231 confissões de outros tantos cavaleiros do Templo, redigidos entre 17 e 20 de Agosto de 1308, perante os três cardeais enviados pelo Papa Clemente V ao castelo de Chinon, em França. Nos depoimentos pode ler-se o confronto entre o medo dos cavaleiros templários em se contradizerem e o frustrado desejo de defender a sua ordem. A contradição significava a morte.

    O mais comovente será, talvez, a assinatura de Galileu Galilei. O volume de pergaminho mostra a página em que o cientista aceita a sentença que contra ele pronunciara o cardeal Roberto Bellarmino, presidente do Tribunal do Santo Ofício. Narra a história que Galileu tomou uma vela na sua mão esquerda enquanto colocava a direita sobre a Bíblia, ajoelhando-se e abjurando as suas afirmações científicas. Foi em 22 de Junho de 1633, no convento de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma.

    Colocado numa espécie de passadeira rolante, o rolo com o processo dos Templários é um dos 100 documentos da História da Europa e do mundo que se podem ver na exposição Lux in arcana - L"Archivio Segreto Vaticano si rivela (Luz sobre os enigmas - o Arquivo Secreto Vaticano revela-se). Uma exposição inédita, aberta pela sentença de Galileu, patente nos Museus Capitolinos, de Roma (Itália), até 9 de Setembro. É um acontecimento histórico porque, pela primeira vez, estes documentos saíram do arquivo papal e podem ser agora contemplados por todos. 

    Mostra-se aqui apenas uma milionésima parte do Arquivo Secreto, criado formalmente há 400 anos pelo Papa Paulo V e que reúne documentação dos séculos VIII ao XX. Secreto vem do latim secretum e quer dizer privado. Ao longo dos séculos, os papas foram guardando documentos e correspondência relativos ao exercício do seu ministério. 

    Hoje há mais de 650 fundos de arquivos diferentes, arrumados em 85 quilómetros de estantes, a maior parte delas colocadas em instalações de acesso reservado, no subsolo do Cortile della Pigna, onde todos os dias passam milhares de visitantes dos Museus do Vaticano. São milhões de documentos, dos quais 30 mil pergaminhos, que desde 1881 estão disponíveis à consulta de investigadores, sem distinção de nacionalidade ou religião. 

    O último núcleo da exposição, o do "período fechado", mostra mesmo documentos duplamente inéditos, já que se referem ao pontificado de Pio XII. Os arquivos do Papa Pacelli estão ainda a ser tratados e deverão ser abertos dentro de dois anos. Bento XVI tem vontade de apressar essa abertura, já que o comportamento de Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial tem sido objecto de debate e polémica. Os documentos expostos referem-se a episódios e memórias fotográficas de vítimas do conflito.

    Na exposição, podem ver-se também 85 selos de deputados a favor dos amores de Henrique VIII (1530). Ou uma carta de Lucrécia Bórgia ao seu pai, o Papa Alexandre VI, avisando-o contra a chegada do exército francês a Roma, em 10 de Junho de 1494. Ou ainda a caligrafia delicada de um califa, também a 10 de Junho, mas de 1250 (648 no calendário muçulmano), e uma carta da última imperatriz da dinastia Ming, escrita num pedaço de seda em 1650, no "11.º dia da 10.ª lua do quarto ano do reino do imperador Yongli". E pode ver-se também o mais antigo documento em língua mongol (1279) ou uma bula do Papa Clemente VIII em língua quechua (1603).

    Poetas e rainhas

    A exposição organiza-se em dez núcleos: no primeiro, Os guardiães da memória, mostram-se documentos fundamentais ou curiosidades da história da Igreja Católica ou da humanidade. Cabem aqui o processo de Galileu, mas também o cancioneiro do poeta persa Muhtašam-i Kašani (1582), a aprovação da regra de São Francisco de Assis (1223) ou a entrega de uma condecoração honorífica a Mozart (1770). 

    Nas secções Tiara e coroa e Sinais de poder, expõem-se documentação relativa aos conflitos ou aproximações entre o poder dos papas e dos reis ou imperadores, como a Concordata entre a Santa Sé e Napoleão (responsável por ter levado o Arquivo do Vaticano para Paris, entre 1810 e 1815, o que fez com que se perdessem documentos preciosos) ou o nascimento do Estado do Vaticano (1929). O ouro e a tinta e Nos segredos dos conclaves revelam episódios de eleições ou deposições de papas (como a de Urbano VI, em 1378, dando origem ao Cisma do Ocidente, ou do único Papa que renunciou ao cargo, Celestino V, em 1294). A reflexão e o diálogo inclui uma carta do Papa Clemente XII ao vice do Dalai Lama, em 1732, bem como a convocatória de João XXIII para o Concílio Vaticano II, em 1961, que se traduziu na actualização da Igreja Católica. E sobram ainda retratos de pessoas: heréticos, cruzados e cavaleiros, santas, rainhas e cortesãs, e cientistas, filósofos e inventores. Aqui se incluem apelos desesperados como o de Maria Antonieta de França ou de Nicolau Copérnico, as condenações de Giordano Bruno ou Martinho Lutero, o horror do Papa Inocêncio III com os relatos das cruzadas e uma carta do anticlerical Voltaire ao "pai do mundo", o Papa Bento XIV. 

    A mostra Lux in Arcana inclui ainda, no final, alguns fragmentos de documentos, através dos quais se pode perceber o que acontece quando os insectos, a humidade ou a luz, entre outros factores, destroem preciosidades de arquivos. 

    Uma vertente multimédia está disponível no site oficial da exposição (www.luxinarcana.org), onde se podem ver alguns dos documentos mais significativos. Também é possível descarregar gratuitamente uma aplicação para Android e iOS que permite fazer uma visita guiada. 

    Na carta Humanae Salutis, com que convocou todos os bispos católicos para o Concílio Vaticano II, em 1961, o Papa João XXIII escrevia: "Se o mundo aparece profundamente mudado, também a comunidade cristã está em grande parte transformada e renovada: isto é, socialmente fortalecida na unidade, intelectualmente revigorada, interiormente purificada, pronta, desta forma, a enfrentar todos os combates da fé." Muitas transformações e muitos combates se contam nestes documentos.

    Tordesilhas e a Passarola de Gusmão

    Há dois documentos relacionados com Portugal expostos na Lux in Arcana: a bula Inter Cetera (1493), do Papa Alexandre VI, o valenciano Rodrigo de Borja, que estabelece a partilha do mundo entre Portugal e Espanha, inicialmente consagrada no tratado de Alcáçovas (1479) e em 1494 corrigida pelo tratado de Tordesilhas; e o desenho da Passarola do padre Bartolomeu de Gusmão. 

    Na bula, Alexandre VI estabelecia que os territórios a oeste de um meridiano imaginário, a 100 léguas dos arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde, passariam a estar submetidos aos reis de Castela. Um ano depois, em Tordesilhas, o novo acordo passaria a zona de influência portuguesa até às 370 milhas para oeste dos Açores - o que incluía já uma parte importante do que é hoje o Brasil. Este facto faz com que vários historiadores pensem que D. João II teria já informações sobre a existência do território do Brasil. 

    O segundo documento é o desenho da "Passarola de Gusmão" (na foto), incluído num dos manuscritos do Fundo Bolognetti. Nascido em Santos (São Paulo, Brasil, então ainda colónia portuguesa), em 1685, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão esteve em Portugal por diversas vezes, tendo sido perseguido pela Inquisição. Em 1709, conseguiu do rei D. João V a autorização de construir um aeróstato e, em Outubro desse ano, mostrou mesmo a sua invenção ao rei e à rainha, Mariana d"Áustria, bem como ao núncio apostólico, o cardeal Michelangelo Conti, futuro Papa Inocêncio XIII. 

    Esta primeira experiência da "máquina para viajar de barco no ar", recorda o catálogo, pode ter sido apenas um balão de ar quente. O desenho de Gusmão deve ser apenas uma forma de chamar a atenção para as suas experiências.

    sábado, 30 de abril de 2011

    Santo? Críticos de João Paulo II duvidam



    30.04.2011 - 08:30 Por António Marujo, em Roma
    "Santo súbito!", pediu o povo católico que esteve no funeral de João Paulo II, em Abril. "Santo? Duvido...", responde outra parte do mesmo povo, que tem reservas em relação à rapidez do processo e ao próprio papel do Papa polaco em relação a alguns temas da sua liderança de 26 anos e meio na Igreja Católica. Por contraste, esses mesmos sectores lançaram esta semana uma petição a pedir a imediata canonização de Oscar Romero, o arcebispo de El Salvador que, em 1980, foi assassinado por esquadrões da morte militares daquele país.
    "A santidade é outra coisa", disse o teólogo James Carrol  
    "A santidade é outra coisa", disse o teólogo James Carrol (Stefano Rellandini/Reuters)

    Este acto deveria encorajar os cristãos do Ocidente a viver novas formas de cristianismo inspirada "no espírito de Romero", de apoio aos "mais pobres" e de busca de mais justiça.

    Posta a circular esta semana pelo movimento Nós Somos Igreja (NSI), da Alemanha, a petição conta já com centenas de assinaturas. Entre elas estão as dos bispos Jacques Gaillot, de França, e Luís Flavio Cappio, do Brasil, a dos teólogos Hans Kung, Leonardo Boff, Eugen Drewermann, Carlos Mesters ou Elisabeth Schüssler Fiorenza.

    Ao ter assumido a defesa dos pobres do seu país e ao ser sido assassinado por causa disso, Romero deveria já ter sido canonizado, diz ao PÚBLICO Ana Vicente, do NSI-Portugal. Ao contrário, o então arcebispo de El Salvador terá ficado desiludido com os dois encontros que teve com João Paulo II, logo em 1979, tendo sido objecto de críticas do Vaticano.

    Já antes, o NSI e outros grupos tinham criticado a beatificação de João Paulo II. Está em causa, para estes críticos, o modo como o Papa polaco geriu várias questões. "A sua atitude perante as denúncias dos abusos sexuais do clero e a sua perseguição a teólogos e teólogas" são dois dos temas principais, diz Ana Vicente. "Mais de 100 teólogos" foram condenados ou chamados a Roma para explicações, recorda a responsável do NSI, um movimento católico que tem pedido uma série de reformas dentro da Igreja.

    Não se pense, no entanto, que as críticas vêm apenas dos católicos "contestatários". Um importante clérigo do Vaticano dizia ao PÚBLICO que "a História ainda não teve tempo para fazer o seu julgamento".

    Admitindo o gigantismo da figura humana de João Paulo II, este responsável olhava para o ecrã gigante colocado na Praça de São Pedro, mostrando imagens do pontificado de Wojtyla: "Quem vai ser canonizado é o Papa viajante", diz.

    Também o papel de João Paulo II na gestão dos casos de abusos sexuais do clero é posto em causa por este eclesiástico: o apoio que ele deu ao padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e ele próprio um pederasta, consumidor de droga e adúltero condenado pelo Vaticano já sob Bento XVI, leva este padre a dizer que a liderança católica actual deveria ter usado mais da prudência - uma virtude que é apresentada como importante noutras situações.

    Ontem mesmo, em declarações à AFP, a rede de vítimas de abusos de padres, dos Estados Unidos, recomenda que a eventual canonização de João Paulo II seja desacelerada, tendo em conta que a maior parte das denúncias de abusos vieram a público durante o pontificado do Papa polaco.

    Os críticos recordam que nem tudo luziu no pontificado de 26 anos e meio. A Adista, agência de informação católica italiana, fez um levantamento dos casos mais polémicos. E recordou a chamada à ordem dos padres jesuítas, em 1981, os sucessivos inquéritos e condenações de teólogos por causa de afirmações que punham em causa a verdade institucional católica, as restrições à colegialidade dos bispos, o "não definitivo" ao sacerdócio feminino, a condenação do pluralismo religioso ou a equiparação entre o Holocausto e o aborto.

    "Tenho muita consideração pela pessoa - a sua juventude heróica, a sua autenticidade, a sua coragem histórica perante o regime comunista da Polónia. Há muito a honrar por essas razões", dizia à Reuters o teólogo e ex-padre James Carrol. "Mas a santidade é outra coisa. Creio que ele fez muito mal à Igreja de diversas maneiras."

    Ana Vicente acrescenta que a avaliação de uma vida e da santidade de uma pessoa são sempre subjectivas. "Quer Romero, quer João Paulo II tinham qualidade e defeitos." Mas "os que seguem Jesus Cristo fazem-no mais por aquilo que são capazes de concretizar ao longo da sua vida do que por causa de um milagre".

    quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

    Governo e a Igreja Instituição católica: a dissimulação - Joaquim Paceco de Lima

    blog da Revista Espaço Acadêmico


    por JOAQUIM PACHECO DE LIMA*
    Há uma inflexão entre o Governo Dilma e a Igreja-Instituição católica. Em entrevista a Folha de São Paulo, 19.01.2011, o Arcebispo de Brasília, aponta que para o diálogo é preciso que a presidenta explicite suas convicções religiosas. A postura de Dom João de Aviz, [conheço-o desde os idos de 1980 na diocese de Apucarana-PR, nos estudos filosóficos e teológicos] e continua com a mesma visão de homem, mundo e sociedade, neotomista, referenciado na teologia fenomenológica europocêntrica. A sua referência política – poder – é a da terceira via, a democracia cristã. Tal corrente política restou o fracasso nas experiências postas (Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Grécia, etc.). O ex-coordenador de pastoral apucaranaense não é um dogmático, mas tem a missão de estabelecer o diálogo Estado-Igreja sem provocar conflito explícito.  Defensor da ‘desigualdade’ como ordem natural da sociedade, a prédica nega, por isso, incumbe-lhe o papel de distender conflito ideológico com o pensamento marxista (PT, PC do B e a plêiade de correntes) dissimulando neutralidade, mas também delimitando campo para evitar que os seus próceres aliem-se a corrente oponente, inimiga. O apoio do parlamentar Gabriel Chalita (PSDBS-SP), por razões particulares da política, a campanha da presidenta Dilma acendeu o farol. Noutro campo, quer demarcar e esconder a aproximação com a social-democracia (PSDB). Faz jogo de movimento (gramsciano) com setores do petismo no governo (o ‘igrejeiros’ da antiga corrente Articulação).
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    A aproximação política da Igreja Universal com o Governo Dilma é notória – por meio da TV Record no embate ideológico. A TV do pastor Edir Macedo, inimiga da TV Globo e da Folha abre espaço para de defesa dos atores e idéias governamentais, contrapondo os seus inimigos no campo da mídia. Por outro lado, setores da Pastoral Social da Igreja Católica e os movimentos sociais aproximados (CPT-CIMI, Movimentos de Barragens, mulheres, setores do MST, Direitos Humanos e outros) fomentam rusgas no campo pragmático do realismo político x princípios matriciais partidários, socialismo – utopia.
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    O arcebispado de Brasília, desde a ditadura e na redemocratização, assumiu postura de defesa da ordem e do pensamento conservador. Considerando a complexidade econômica, cultural e política da sociedade brasiliense, ou dos candangos a identidade da Igreja como ‘capelã dos militares’ não respondia mais a demanda pela nova identidade simbólica religiosa. Para encurtar o diapasão Igreja-mundo, Igreja-sociedade e mediar as relações com o poder-central a Santa Sé escolhe a dedo um de seus colaboradores para tal tarefa.
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    A tentativa de aplicação dos princípios e valores cristãos (solidariedade, partilha, equidade, igualdade, etc.) na vida política nacional e internacional como mimetização do liberalismo, que tem como matriz a propriedade privada e o mercado, escondem uma manipulação grosseira dos elementos religiosos para fins econômicos e interesses políticos das classes dominantes. Na ideologia as idéias não podem explicitar contradições.
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    O sistema capitalista e globalizado pode aparecer envolto de um ‘aroma religioso’ e sua capacidade de produzir e reproduzir mais-valia, classes sociais, também produz e reproduz seu próprio universo simbólico, sua espiritualidade, e sua religião. Capaz as contradições e dissimulações é papel da hermenêutica, da ciência, da filosofia e da teologia.
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    Na gênese do Capital está a morte, no Deus de Jesus de Nazaré está a Vida em abundância. Conciliar, mimetizar tal antagonismo somente com dissimulação.
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    * JOAQUIM PACHECO DE LIMA é professor de filosofia e sociologia. Colaborador da CPT – junto ao Regional da CNBB-Sul II de 1984-1994.
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    quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

    Cátaros: Extermínio dos puros - por Pedro Silva


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    Eles afirmavam que Jesus não era filho de Deus e defendiam a igualdade entre mulheres e homens. Conheça a história dos cátaros, cristãos que foram vítimas de uma cruzada e alvo da Inquisição

    por Pedro Silva
    Os forasteiros chegam à pequena vila sem causar nenhum alarde. Após percorrer centenas de quilômetros a pé, seu andar tornou-se arrastado e seus calçados se deterioraram. Têm a cabeça raspada e vestem-se de forma maltrapilha, com uma longa batina de cor negra presa por uma tira fina de couro. Após uma recepção praticamente inexistente, eles começam a ser reconhecidos e respeitados pela comunidade. Em pouco tempo, se tornarão líderes religiosos capazes de fazer frente à influência da poderosa Igreja Católica.
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    No fim do século 12, as cenas descritas acima se tornariam cada vez mais comuns na ampla região do Languedoc, no sul da atual França. Cidade após cidade, os cátaros iam espalhando sua fé, baseada na simplicidade e na busca da pureza (katharos, em grego, significa “puro”). A religião nascera do cristianismo, mas era marcada por profundas diferenças em relação às doutrinas do Vaticano. Acusados de heresia e até chamados de adoradores do diabo, os cátaros provocaram uma implacável reação do papado. O esforço para eliminá-los incluiu uma cruzada e foi um dos principais motivos para a criação do Tribunal do Santo Ofício – mais conhecido como Inquisição.
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    No século 14, cerca de 200 anos após o catarismo ter surgido, seus últimos representantes foram varridos do mapa. Para entender a intensidade da violência promovida pela Igreja Católica contra eles, é fundamental compreender como os cátaros foram capazes de conquistar os corações e as mentes medievais. E sua brutal eliminação é um dos exemplos mais bem acabados do incrível poder do papado sobre a Europa da Idade Média.
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    Bispos vistosos
    O primeiro grupo cátaro conhecido apareceu na década de 1120, na cidade de Limousin. Logo eles chegaram a povoados próximos, como Albi, Toulouse e Carcassonne, sempre no Languedoc. A região, separada do resto do território francês pelas montanhas dos Pirineus, era governada pela dinastia dos Raimundos. Eram terras prósperas, fortes na agricultura e na indústria têxtil. À primeira vista, seria difícil prever que num local tão estável – e religioso – pudesse surgir uma crença que desafiasse a Igreja. Mas, àquela altura, a sociedade medieval estava passando por importantes transformações.
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    A Europa vivia uma fase de aumento populacional e melhoria das condições de vida, com o desenvolvimento das cidades medievais. No ambiente urbano, aumentava o contato entre as pessoas e a busca pelo conhecimento. Uma parcela da população começou então a refletir sobre várias questões, entre elas a própria fé. Na origem da expansão do cristianismo, que ocorrera cerca de nove séculos antes, estavam valores como a pobreza, o sofrimento pessoal e a sensação de unidade com Deus. Por volta do século 11, entretanto, a situação do clero não era exatamente essa.
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    Por todo lado, pululavam grandes edifícios religiosos, magnificamente ornamentados – alguns deles deram início ao estilo que ficaria conhecido como “gótico”, que caracteriza algumas das principais catedrais da Europa. Além disso, os sacerdotes cristãos (sobretudo os bispos e seus representantes locais, os padres) usavam os fartos recursos da Igreja para garantir a si mesmos uma vida tranqüila. A imagem típica do cristianismo, aquele Jesus magro, de olhar triste e agonizando na cruz, era apenas uma vaga recordação – o perfil do clero estava mais próximo do bispo rechonchudo de roupas vistosas e dedos ornados com toda a sorte de joalharia.
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    Abaixo os dogmas
    Diante das contradições da Igreja, a influência dos cátaros avançava rapidamente. Em 1167, alguns deles se reuniram no encontro que marcou o nascimento oficial da nova religião: o concílio de Saint-Félix-de-Caraman (hoje Saint-Félix-Lauragais, no sul da França). Compareceram cátaros não só do Languedoc, mas de áreas mais distantes como a Lombardia (na atual Itália) e a Catalunha (hoje na Espanha). Muito pouco se sabe sobre o que ocorreu na reunião. Ela provavelmente foi presidida por um homem chamado Nicetas – um cristão dissidente vindo de Constantinopla e apelidado de “papa” – e organizou as bases do catarismo.
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    Para os cátaros, o livro sagrado era a Bíblia (em particular o Novo Testamento). Sua religião, entretanto, divergia muito do catolicismo. O princípio fundamental era o dualismo: segundo ele, o mundo seria composto de dois reinos opostos e coexistentes. O primeiro, comandado por Deus, seria invisível e luminoso, onde só existiria o bem. Já o segundo reino, material e visível, seria controlado pelo diabo. Em outras palavras: segundo o catarismo, o inferno ficava na Terra. E o objetivo da vida humana seria escapar do mal através da purificação dos espíritos, reencarnação após reencarnação. Se isso fosse feito, quando chegasse o Juízo Final, todos se salvariam e iriam para o reino de Deus.
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    Apesar de se considerarem cristãos, os cátaros não acreditavam que Jesus fosse filho de Deus. Ele era apenas considerado um profeta importante, que havia divulgado alguns ideais que mereciam ser seguidos. Para completar a afronta ao catolicismo, os cátaros viam São João Batista como nada menos que um instrumento a serviço do diabo. Afinal, por meio do batismo, ele teria cumprido a profecia de que Jesus era o messias – coisa na qual, como vimos, o catarismo não acreditava.
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    Assim como a teoria, a prática dos cátaros era bem diferente da dos católicos. Eles recusavam o ritual da hóstia sagrada (em suas cerimônias, bastante simples, havia apenas a repartição do pão). Tampouco aceitavam o papel subalterno que o papado romano reservava para as mulheres – para o catarismo, o ser humano não admitia distinção entre sexos. A elas era permitido, inclusive, celebrar ritos religiosos.
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    A autoridade do papa ou de seus bispos não era reconhecida pelos cátaros. Sem uma liderança espiritual única, eles dividiam os seguidores da religião em três níveis. O mais alto deles era o dos Perfeitos, também conhecidos como “bons homens”. Para chegar a esse posto, era preciso passar por duras provas e receber o Consolamentum, o único sacramento cátaro (que, grosso modo, resumia num só o batismo, a ordenação e a extrema-unção). Os Perfeitos eram celibatários e passavam grande parte dos dias em oração e jejum.
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    Abaixo dos Perfeitos estavam os Crentes, categoria que reunia a grande maioria dos cátaros. Eles comungavam das práticas de virtude e humildade, mas não estavam obrigados a qualquer tipo de abstinência. Podiam casar (embora preferissem o concubinato) e só tinham direito a receber o Consolamentum na hora da morte. O terceiro nível da sociedade cátara era composto pelos Ouvintes. Simpatizantes da religião, eles acompanhavam as palestras dos Perfeitos e se curvavam perante eles para receber a bênção.
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    Na virada do século 13, o avanço dos cátaros havia se tornado a maior preocupação da Igreja. “Havia o perigo de que a contestação à ordem imposta por Roma se estendesse rapidamente a outras regiões da cristandade”, escreveu o historiador Ernest Bendriss em artigo publicado na revista espanhola História y Vida em março de 2007. A reação não tardaria.
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    Armas contra a fé
    “Matem-nos todos. Deus saberá reconhecer os seus!” De acordo com alguns registros, foi com essas palavras que o abade Arnoldo de Amaury incitou à aniquilação total dos cátaros que se escondiam na fortaleza de Béziers, no Languedoc, em julho de 1209. Há quem defenda a tese de que a frase nunca foi dita. De qualquer modo, ela resume bem o espírito da sangrenta Cruzada Albigense – graças à grande concentração de cátaros na cidade de Albi, eles também eram conhecidos como “albigenses”.
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    Antes de recorrer às armas, entretanto, a Igreja tentou combater o catarismo no campo da fé. Há relatos de que, entre 1165 e 1198, os cátaros foram perseguidos publicamente em locais tão díspares quanto Lombers (França), Colônia (Alemanha) e Oxford (Inglaterra). Para ouvir e julgar os hereges, a Igreja montou tribunais eclesiásticos. Graças à experiência dos cátaros como oradores, entretanto, eles se defenderam brilhantemente das acusações e viram sua fé ganhar status de religião. Apesar de ter havido algumas condenações, o prestígio dos Perfeitos saiu fortalecido.
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    Em 1205, Domingos de Gusmão criou a ordem dos dominicanos. Pregando uma postura moral exemplar e o retorno aos princípios originais da cristandade, eles tentavam competir com a “pureza” dos cátaros. O problema é que os sacerdotes católicos não conseguiam se aproximar da população como os Perfeitos. Quando um líder cátaro chegava a uma vila, sua primeira preocupação era encontrar emprego. Após trabalhar de dia para se manter, ele dedicava a noite ao diálogo com os locais, procurando transmitir seus conceitos religiosos. Enquanto isso, os monges católicos raramente eram vistos em contato com o povo – optavam, em geral, pela clausura.
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    Diante da contínua perda de fiéis, o papa Inocêncio III decretou o confisco dos bens de todos aqueles considerados hereges. Sua vontade foi cumprida por todos os cantos da Europa. Exceto no Languedoc, onde os governantes se recusaram a agir contra os cátaros. A alternativa encontrada pelo pontífice foi montar uma verdadeira força-tarefa: ordenou que os clérigos se unissem aos pregadores dominicanos para, em conjunto, redobrar a batalha pela fé no Languedoc. Sacerdotes católicos se misturaram aos Perfeitos nas ruas, mas pouca coisa parecia mudar. Até que um crime selou o destino dos cátaros.
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    Em 1208, o legado papal (figura máxima da hierarquia da Igreja na região, representante direto do pontífice) Pedro de Castelnau foi morto por alguns habitantes de Toulouse. Logo correu a notícia de que os assassinos eram, supostamente, cátaros. Inocêncio III teve, então, a deixa de que precisava. Em 10 de março, organizou uma cruzada liderada por Arnoldo de Amaury e pelo bispo Folquet de Marselha. No campo de batalha, o comando coube a Simão de Montfort, à frente de um exército com 10 mil homens.
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    Além dos cátaros, o alvo da cruzada foram os principais nobres que davam proteção a eles: o conde Raimundo VI de Toulouse e o visconde Raimundo Rogério de Trencavel. O primeiro grande ataque, em Béziers, surpreendeu pela violência intensa e indiscriminada. Cátaros e católicos, Perfeitos e padres, não importa: todos foram massacrados pelos cruzados. “Os cruzados não mostravam clemência. Mulheres e crianças amontoaram-se na igreja de Santa Maria Madalena, na parte alta da cidade”, escreve o historiador canadense Stephen O’Shea em A Heresia dos Cátaros. “Deveriam ter sido à volta de mil, um cálculo baseado na capacidade da igreja. Fossem quantos fossem, a igreja estava apinhada de aterrorizados católicos e cátaros quando os cruzados derrubaram os portões e massacraram todos os que ali se encontravam”, completa. Em 1840, durante uma reforma do templo, várias ossadas foram descobertas sob o piso.
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    Estima-se que, em Béziers, nada menos que 20 mil pessoas tenham sido mortas – praticamente toda a população da cidade. Depois disso, os cruzados destroçaram Carcassonne, Bram, Minerve, Termes e Lavaur, ignorando quaisquer tentativas de rendição. Como recompensa pelo extermínio dos hereges, os cruzados ganharam o perdão pelos seus pecados – e puderam repartir entre si as riquezas e terras do Languedoc. A carnificina só parou em 1229, quando foi celebrado o tratado de paz de Meaux-Paris, entre Raimundo VII de Toulouse e o rei Luís IX da França.
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    A fogueira final
    Inocêncio III morreu sem ter conseguido extinguir o catarismo. A tarefa coube a seu sucessor, Gregório IX, que assumira em 1227. Com a situação aparentemente controlada em termos militares, o papa teve uma idéia que seria decisiva para a história dos séculos seguintes. Em 1231, por meio da bula Excommunicamus, criou a Santa Inquisição. Não é exagero dizer que a caça aos cátaros foi uma das principais razões para a novidade. Afinal, após anos de perseguição, eles haviam mudado sua maneira de agir. Agora, os Perfeitos misturavam-se à população, sem usar a tradicional veste negra. Para facilitar a identificação dos cátaros, a Inquisição empregava métodos sofisticados – e sórdidos – de interrogatório e investigação.
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    A última ação militar contra os cátaros foi o cerco a Montségur, em 1243. Naquela época, a Inquisição já havia provado sua eficácia para eliminar seletivamente os hereges. Depois das condenações nos tribunais inquisitórios, a Igreja usava o “fogo purificador”: de acordo com o discurso oficial, a morte na fogueira seria a única forma de salvar as almas dos cátaros.
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    Encurralados, os cátaros eram colocados diante da seguinte escolha: negar sua fé ou enfrentar a fogueira. De uma forma ou de outra, a religião ia sendo exterminada. Em 1321, foi executado o último sacerdote cátaro conhecido, Guillaume Bélibaste, que havia se refugiado no oeste da Espanha. Cerca de um século depois, já não se ouvia mais falar de seguidores do catarismo. Terminava assim a trajetória dos contestadores que, com humildade de caráter e simplicidade de métodos, haviam conquistado o respeito do povo – da mesma forma que os primeiros cristãos haviam feito, 12 séculos antes, na Palestina.

    Caçador de cátaros

    Simão de Montfort acabou morto por uma guarnição feminina
    Antes de ser convidado para comandar as tropas da Cruzada Albigense, Simão de Montfort, nascido por volta de 1160, já havia sujado suas mãos de sangue em nome da Igreja. Ele participara da fracassada Quarta Cruzada, entre 1202 e 1204. O movimento havia sido convocado para expulsar os muçulmanos da Terra Santa, mas acabou se desviando um bocado do objetivo. Um dos culpados foi o próprio Simão de Montfort, que no meio do caminho resolveu saquear com seus homens a cidade de Zara (hoje Zadar, na Croácia), contrariando as determinações do papa Inocêncio III para que nenhum cristão fosse atacado durante a campanha – a Quarta Cruzada, aliás, terminaria de modo ainda pior, com a pilhagem de Constantinopla, em 1204. Anos mais tarde, durante a Cruzada Albigense, Montfort reforçou sua reputação de líder inflexível e implacável. Glorificado como herói da fé católica por diversos cronistas, ele foi o responsável direto pela morte de milhares de pessoas – já que raramente dava ordens para poupar alguém. Em 1209, Montfort se tornou visconde de Béziers e Carcassonne, duas localidades que suas tropas haviam arrasado. Liderando um massacre após o outro, ele logo se transformou no senhor absoluto da região do Languedoc. Montfort lutou pela expansão de seus domínios até a morte, em 1218, durante um cerco à cidade de Toulouse. Segundo alguns relatos, ele foi atingido por uma pedra atirada por uma catapulta da guarnição feminina da resistência cátara – destino apropriado para alguém conhecido por ser “firme como uma rocha”.

    Heresias sortidas

    Na época dos cátaros, católicos também desafiaram a Igreja
    Percebendo que a Igreja estava se desviando de seus princípios originais, o papa Gregório V promoveu uma ampla mudança na instituição. A Reforma Gregoriana, iniciada em 1075, reforçava a obrigatoriedade do celibato no clero e atacava a simonia (a venda de falsas relíquias cristãs). Enquanto o papado tentava reestruturar o catolicismo, entretanto, a confusão teológica era generalizada. Além de grupos cristãos dissidentes – entre os quais os cátaros se destacaram –, a Igreja daquela época foi obrigada a enfrentar vozes dissonantes dentro de sua própria comunidade de seguidores e sacerdotes. Em 1110, o religioso Tanchelm de Antuérpia, originário da região de Flandres (hoje na Bélgica), levou alguns fiéis católicos a idolatrá-lo cegamente – a ponto de aceitarem beber a água que ele usava para tomar banho. Crítico dos rumos da Igreja, ele se proclamou messias e acabou preso na cidade alemã de Colônia. Ficou na cadeia entre 1113 e 1114 e, no ano seguinte, após ser libertado, foi morto por um padre católico. Na mesma época, Pedro de Bruis, nascido na Provença, quis reformar a Igreja na marra. Apesar de ser padre, ele chacoalhou o sul da França promovendo ataques a igrejas e queimando crucifixos – assim como os cátaros, ele detestava a opulência dos templos católicos e desprezava o significado místico da cruz. Acusado de heresia, foi executado na fogueira em 1126.

    Saiba mais

    Livros
    A Heresia dos Cátaros – Uma Revolução Medieval, Stephen O’Shea, ASA, 2003
    Editado em Portugal, descreve os mais dramáticos episódios relacionados aos cátaros.
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    Hereges de Deus – A Cruzada dos Cátaros e Albigenses, Aubrey Burl, Madras, 2003
    Um relato vívido e impressionante da história cátara. O assunto principal é a sangrenta Cruzada Albigense.
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    http://historia.abril.com.br/religiao/cataros-exterminio-puros-435805.shtml
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