Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc
Mostrar mensagens com a etiqueta Trabalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Trabalho. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cartoon - Exposição "Os Direitos dos Trabalhadores a Traço de Humor"



SEGUNDA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2010


Exploração e Direitos dos Trabalhadores





Inaugura a 18 de Março pelas 18 horas a Exposição "Os Direitos dos Trabalhadores a Traço de Humor" em Lisboa.

Patente de 18 de Março a 9 de Abril.
De 2ª a 6ª feira das 10 às 18 horas.
Av. da iberdade 170, Lisboa

Mais aqui. ---> Humorgrafe

humorgrafe

UM BLOG DE INFORMAÇÃO SOBRE HUMOR E CARICATURA. CARTOON'S NEWS



Monday, March 15, 2010

Inaugura a 18 de Março Exposição "Os Direitos dos Trabalhadores a Traço de Humor" em Lisboa








Artistas com Obras seleccionadas para a Exposição

Ahmad Hajibabaei /Irão)
Alejandro Barba Lobato (Espanha)
Aleksei Kivokourtsev (Russia)
Allan Mcdonald (Honduras)
Alvaro Santos (Portugal)
Andrea Bersani (Itália)
Antonio Lopes (Portugal)
Arsalan Ahmadi Nejad (Irão)
Arsen Gevorgyan. (Armenia).
Askin Ayrancioglu (Turquia)
Athanassios Efthimiadis (Grécia)
Azuka Nwokocha (Nigéria)
Bayramoglu (Turquia)
Behrooz Firoozi (Irão)
Birkle, Sergey (Kazakstan)
Bruno Taveira (Portugal)
Cakmak, Huseyin (Chipre)
Carlos Amorim (Brasil)
Carlos Laranjeira (Portugal)
Carlos Rico (Portugal)
Cesar Castillo Barrera (Cuba)
Cesar Evora (Portugal)
Ciavola, Renato (Itália)
Cival Einstein (Brasil)
Clayton Rabelo (Brasil)
Constantin Pavel (Roménia)
Daniel Eduardo Varela (Argentina)
Darko Drljevic (Montenegro)
Dubovsky, Alexander (Ucrânia)
Elcio Prado (Brasil)
Emil Strniša (Croácia)
Emre Yilmaz (Turquia)
Erdogan Basol (Turquia)
Eric Ricardo da Silva (Brasil)
Erico Junqueira Ayres (Brazil)
Ermengol (Argentina)
Fakhredin Dost Mohamad (Irão)
Favelis, Martin (Espanha)
Fernando Pica (Colombia)
Firuz Kutal (Noruega)
Fredy Martinez Hernández Villamil (Cuba)
Goopal Sarkar (India)
Grigoris Georgiou (Grecia)
Jordan Pop-Iliev (Macedonia)
Julian PENA-PAI (Roménia)
Hamed Mortazavi Alavi (Irão)
Hicabi Demirci (Turquia)
John G. Xagoraris (Grécia)
Karry - Julio Carrión Cueva (Peru)
Kotrha, Lubomir (Eslováquia)
Kap - Jaume Capdevila (Espanha)
Kasra Abasabadi (Irão)
Kemal Ozyurt (Turquia)
Larichev Mikhail. (Russia)
Leandro Barea (Espanha)
Lex Franco (Brasil)
Luis Ligarribay (Argentina)
Mahmood Nazari (Irão)
Malatesh M. Garadimani (India)
Martirena (Cuba)
Milenko Kosanovic (Serbia)
Markhaban Mursyid (Indonésia)
Makhmud Eshonkulov (Uzbekistão)
Mileta Miloradopvic (Serbia)
Miroslav Bozhkov (Bulgária)
Mohsen_Zarifian (Irão)
Morhaf Youssef (Syria)
Mostafas Hosseinnia (Irão)
Neivaldo Nhatugueja (Moçambique)
Neltair Abreu – Santiago (Brasil)
Nico Saraintaris (Espanha)
Nuno Pardal (Portugal)
Oleg Goutsol (Russia)
Omar Perez (Argentina)
Onofre Varella (Portugal)
Payami Mehrdad (Irão)
Raquel Orzuj" (Uruguay)
René Bouschet (França)
Reza Bagheri Sharaf (Irão)
Romeu Cruz (Portugal)
Santiagu – António F. Santos (Portugal)
Satso - Tsogtbayar Samandari (Mongólia)
Sergei Tunin (Russia)
Sergii Fedko (Ucrânia)
Sex – Maria José Mosquera (Espanha)
Shahin Kalantary (Irão)
Shirin Gholipoor (Irão)
Sohrab Kheiri (Irão)
Tawan Chuntra (Tailandia)
Toader, Alin-Cantemir (Roménia)
Toso Borkovic-Toshow (Servia)
Valentin Georgiev (Bulgaria)
Valery Momot (Ucrania)
Vasiliy Alexandrov (Russia)
Wesam Khalil (Egipto)
Xin Xin Vip (China)
Yathi Siddakatte (Índia)
Yonko Bonov (Bulgaria)
Yuriy Galiakbarov (Ucrania)
Yves Giroud (Suíça)
Zé Manel (Portugal)
Zhao Yunsheng Hi (China)
Zhigadlo Andrej (Rússia)
Zlatkovsky, Mikhail. M. (Russia)
Zé Oliveira (Portugal)

International Cartoon Exhibition on workers' rights Convite para a Inauguração International Cartoon Exhibition "Exploitation and workers' rights, a critical look through a humoristic line!" Opens on March 18th, 2010 at 18.00 h in Lisbon, Portugal. Click on images for details. ... 
Exploração e Direitos dos Trabalhadores Inaugura a 18 de Março pelas 18 horas a Exposição "Os Direitos dos Trabalhadores a Traço de Humor" em Lisboa. Patente de 18 de Março a 9 de Abril. De 2ª a 6ª feira das 10 às 18 horas. Av. da iberdade 170, Lisboa. Mais aqui. ... 

domingo, 1 de maio de 2011

1º de Maio - Dia Internacional do Trabalhador


.

De: | Criado: 8 de Nov de 2010
não existe nenhuma descrição disponível
.
.
De: | Criado: 25 de Abr de 2007
O Soneto do Trabalho, sobre um poema do mesmo nome de José Carlos Ary dos Santos, é uma das canções que nos legou Abril para a luta de todos os dias.
.
De: | Criado: 11 de Mar de 2010
Canção revolucionária, curiosamente apresentada numa revista do Parque Mayer. Escrita por Ary dos Santos e Fernando Tordo, foi criada nesse espectáculo por Simone de Oliveira, com o enquadramento cénico que se vê na capa do disco, cuja canção título é Mulher-Presente!.





.

De: | Criado: 2 de Jan de 2010
Hino da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses Central Sindical Unitária
CGTP InterSindical
.
Baseado na música da canção O Guerrilheiro (popular nas revoltas da Patuleia e da Maria da Fonte), este é, a par d'A Internacional, o hino da CGTP-IN - a central sindical de classe
.

.
.
De: | Criado: 17 de Fev de 2009
O Guerilheiro - Luís Cília
Canção do século XIX. Apareceu em 1852, por ocasião das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte e tornou-se bastante popular. Autores anónimos. A gravação aqui disponibilizada data de 1982 do disco "Cancioneiro". Contudo a gravação orifginal data de 1974 em disco homónimo. A música desta canção foi adoptada como música do hino da intersindical CGTP-IN. 
I
Ei-lo erguido no topo da serra,
Recostado no seu arcabuz:
De pequeno criado na guerra,
Não conhece, não vê outra luz.
Viu a terra da Pátria agredida,
Ergueu alto seu alto pensar:
- Pula o sangue, referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Eia, sus, oh! meus bons camaradas,
Desse sono por fim despertai;
Além tendes vossas espadas,
Eia, sus, bem depressa afiai.
Vai a terra da Pátria vencida,
Quem da luta se pode escusar?
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Que me siga quem tem a vaidade
De ouvir balas sem nunca tremer,
Que me siga quem quer liberdade,
Quem não teme na luta morrer.
A estranhos a Pátria vendida
Pede braços que a vão libertar.
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Já povoam os ecos da serra
Os sons rudes do altivo clarim;
E d'envolta com os gritos da guerra
Vão em roda cantando-lhe assim:
"Eia, avante, que a Pátria agredida
Quer seus filhos na luta encontrar.
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Era noite, mas noite calada.
Sem estrelas no céu a luzir;
Fôra noite dos santos fadada
Para a terra da Pátria remir.
"Se esta luta por nós for vencida
Pode a terra da Pátria folgar"
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Adeus serra, calada gigante,
Erma filha do meu Portugal;
Adeus terra que inspiras distante,
Este canto sentido e leal!
"A estranhos a Pátria vendida
Pede braços que a vão libertar".
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar. II

Não faltava ninguém no combate
Não faltava na luta ninguém
Só depois - já depois do embate
Rareava nas filas alguém.
Foi acção por acção decidida;
Vinde os mortos no campo contar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Era dia: nas armas luzentes
Vinha em chapa batendo-lhe o sol;
Mas nem todos dos lá combatentes,
Viram brilho do imenso farol.
Pela terra de sangue tingida
Mais de um bravo se via rojar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Vencedoras as quinas ficaram
Vencedoras ainda uma vez,
Mas de pranto depois as regaram
Quem lhes dera valor português.
Lá ficara uma espada esquecida
Sem que o dono a pudesse zelar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Desabando do topo da serra,
Lá deixara o fiel arcabuz:
De pequeno criado na guerra,
Viu na guerra extinguir-se-lhe a luz.
Vira a terra da Pátria agredida
Ergueu alto o seu alto pensar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Para saber mais sobre Luis Cília consulte o site www.luiscilia.com
.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Parva que eu sou - Deolinda


.

1JFER | 13/02/2011 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 1 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Versão Oficial
.
SilennusFelipe | 21/02/2011 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Hino da Geração à Rasca!

http://www.deolinda.com.pt/
http://www.facebook.com/event.php?eid...

"Parva que sou" - Deolinda
Música e letra: Pedro da Silva Martins

Sou da geração sem-remuneração
e nem me incomoda esta condição...
Que parva que eu sou...

Porque isto está mau e vai continuar
já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou....

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração casinha-dos-pais
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou...

Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou...

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração vou-queixar-me-pra-quê?
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou...

Sou da geração eu-já-não-posso-mais-Que-esta-situação-d­­ura-há-tempo-de-mais!
e parva eu não sou!!!

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...
.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

De modo a olharmos para a “questão social”, é importante clarificar a sua definição. Trata-se de uma expressão comummente utilizada pela historiografia, em grande medida devedora do discurso da época, que resume duas ideias fundamentais: por um lado, as condições de vida e de trabalho; e, por outro, a relação entre o poder e o mundo do trabalho. Os políticos e outros agentes reconheciam a “palpitante actualidade” destes problemas, mas a necessidade de intervenção escondia, como veremos, as profundas divergências em torno da hierarquização dos problemas a serem resolvidos – e qual a urgência da “questão social” – e a forma de o fazer, ou seja, de um modo progressivo, reformista ou radical e “revolucionário”. No período dito de propaganda, a ideia de República, multifacetada e não monolítica, teve a si associada a noção de “Nova Aurora” ou, na sua forma mais prosaica, o “bacalhau a pataco” (subsistências baratas). Arautos de uma possibilidade de regeneração da sociedade portuguesa, os republicanos entendiam-se como os únicos detentores de uma solução para a crise que o país atravessava. Os republicanos – ou parte deles, pelo menos – procuraram tecer ligações com o mundo do trabalho e os trabalhadores, entendidos como fundamentais na luta pela conquista do poder. Chamavam estes homens ao combate político e muitos deles abandonaram as suas organizações, esperançosos na aurora republicana. De entre a polifonia do movimento republicano e as diferentes situações e orientações do mundo do trabalho constituiu-se uma plataforma de entendimento e expectativas partilhadas: fosse a República um fi m ou um meio para alcançar uma sociedade mais justa, era possível um combate comum contra a monarquia constitucional. Os republicanos construíram um discurso socializante e reformista de proximidade e atenção à questão social. Estes e os trabalhadores partilharam uma visão do que poderia e deveria ser o futuro. Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais e, embora minoritários, a sua concentração geográfi ca, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração. Os trabalhadores, à semelhança de outros grupos e agentes políticos como os republicanos, procuravam fazer ouvir a sua voz, forçando a entrada no campo político exclusivista da monarquia constitucional. Existiam, é certo, diversos níveis de politização. De entre aqueles que começavam a pensar a sua situação e a lançar as bases para a organização das suas forças, encontramos um espectro político variado do anarquismo ao anarcosindicalismo e ao socialismo. O comunismo entrou no campo político e do movimento operário, depois da revolução russa de 1917, assomo de esperança para os trabalhadores e “pesadelo” para as classes mais conservadoras. Feita a República, com o 5 de Outubro de 1910, o mundo do trabalho tinha, portanto, expectativas elevadas em torno do que o novo regime poderia – e deveria – fazer para responder às suas reivindicações. Os trabalhadores lutavam pelo direito à organização (os agrupamentos federais e nacionais eram proibidos) e defendiam o direito à greve. Apesar do interdito legal, verifi caram-se vários movimentos grevistas no início do século XX (que não cessaram depois da implantação da República). Um dos principais temas das reivindicações era a questão da necessidade da melhoria das condições de vida e de trabalho, numa conjuntura de enormes difi culdades num mundo sem protecção social, excepto as redes de entreajuda dos próprios trabalhadores, com condições de trabalho duríssimas e vivendo, muitas vezes, em habitações miseráveis nas “ilhas” e nos “pátios” operários. Os governos republicanos manifestaram preocupação com a “questão social”, é certo, mas, na maioria dos casos, as medidas ficaram aquém das expectativas dos trabalhadores. A primeira decepção dos trabalhadores teve lugar em Dezembro de 1910, com o “decreto burla” que legalizava tanto a greve como o lock-out patronal. Apesar da promulgação de várias medidas de carácter social (por exemplo, o descanso semanal e a lei de assistência), os movimentos grevistas de 1911 e 1912, fruto de um crescendo combativo operário e do desenvolvimento do associativismo nos meios rurais, provocariam sérios embates entre o poder republicano e os trabalhadores. Foi o início de uma “guerra aberta”, com episódios de grande violência, entre os republicanos no poder e o movimento operário organizado, temperada apenas pelos breves momentos de união, quando estava em causa a defesa do regime, ou quando algumas medidas legislativas moderavam o conflito. O Partido Democrático, que mais tempo ocupou as cadeiras ministeriais durante a República, teve uma política de contenção e repressão do movimento operário – não é por acaso que Afonso Costa era conhecido pelo “racha-sindicalistas”. Um número signifi cativo de entre os republicanos não era “revolucionário” nem radical e entendia que a questão social deveria ser resolvida, mas de forma progressiva, pela via reformista. Se bem que entendessem a importância deste problema, consideravam que era mais importante consolidar o regime, que, de facto, tinha inimigos que contra ele conspiravam. Veja-se, por exemplo o caso das incursões monárquicas em 1911 e 1912, capitaneadas por Paiva Couceiro. Poderíamos fazer referência ainda aos problemas entre o poder republicano e a Igreja Católica na sequência de algumas medidas legislativas, a mais importante das quais a Lei de Separação de Abril de 1911. No governo, pretendiam de algum modo satisfazer as chamadas forças vivas, mostrando como podiam e sabiam fazer uma administração respeitável e sem demasiados “excessos”. A Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) veio agudizar as relações entre o poder republicano e os trabalhadores organizados. A crise económica, nomeadamente a alta de preços, penalizou grandemente todos aqueles que viviam de rendimentos fixos ou que não conseguiam que os seus salários aumentassem, trazendo consigo o descontentamento das populações e o aumento da confl itualidade social, fosse através de movimentos organizados, como as greves, muitas delas organizadas pela central dos sindicatos, a União Operária Nacional, fosse através de uma espécie de motins da fome. De entre estas movimentações espontâneas, vale a pena referir os assaltos a estabelecimentos comerciais, nomeadamente a “revolução da batata” de Maio de 1917. O caso da experiência sidonista é ilustrativo da divergência entre a prioridade dada à questão política em detrimento da social. Sidónio Pais subiu ao poder depois do golpe de 5 a 8 de Dezembro de 1917, contando com a “expectativa benévola” dos trabalhadores organizados, em rota de colisão com o poder afonsista, sobretudo depois do Verão de 1917, um dos mais duros no tocante aos conflitos entre grevistas e poder republicano. Este apoio inicial do mundo do trabalho seria desbaratado pelo poder sidonista, que defendia a necessidade de revolução política, não considerando tão urgente e necessária a resolução da questão económica e social. Depois da I Guerra Um momento excepcional nas relações entre o poder republicano e o mundo do trabalho foi a entrada de um ministro socialista (Augusto Dias da Silva) para o governo, a conjuntura de Maio de 1919 e o pacote legislativo com medidas de grande importância (dia de trabalho de 8 horas e seguros sociais). Compreende-se a promulgação destas medidas na conjuntura política coeva. Em primeiro lugar, vivia-se o pós-Primeira Guerra Mundial. Os sacrifícios pedidos e feitos pela população obrigavam a um renovado interesse pela situação económica e social de sociedades destruídas e exauridas. De igual modo, a revolução russa de 1917 e os subsequentes movimentos sociais forçavam a essa atenção, sob pena de estas sociedades terem entre mãos um descontentamento impossível de manter. A nível interno, a República que afastara o sidonismo, que vencera a intentona monárquica de Monsanto e a Monarquia do Norte, contara com a participação do republicanismo radical, popular e com os trabalhadores. Nos anos de 1919 a 1926 assistimos a uma recomposição do campo político, surgindo a lume projectos de esquerda e de direita, registando-se um renovado interesse na questão social. Mas, do lado contrário, reorganizavam-se as “forças vivas”, confrontando-se, assim, dois blocos sociais antagónicos. O movimento operário esteve particularmente activo nos anos de 1919 e 1920, mas muitos autores apontam a perda do “pão político” (preço regulamentado pelo Estado) em 1923 como um sinal de enfraquecimento do movimento operário. Fazendo um balanço final da relação entre o republicanismo, o poder republicano e o mundo do trabalho, podemos pensar em encontros e desencontros entre estas duas forças políticas, sociais e culturais. Existiu sempre no republicanismo uma corrente socializante e próxima das preocupações dos trabalhadores organizados; no entanto, no poder, na maioria dos casos, os governos reagiram com dureza às movimentações dos operários. Apesar disto, a ideia de República – diferente da prática política dos governos republicanos – sobreviveu, para alguns trabalhadores, como aspiração e como ideal e por ela se bateram em momentos críticos do regime. Os republicanos precisaram dos trabalhadores na luta contra a monarquia e não poderiam tê-los como inimigos depois da chegada ao poder; mas nem sempre as prioridades republicanas estavam em consonância com as dos trabalhadores. Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas confl itual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho; esta é, sem dúvida, uma das questões centrais para a leitura e compreensão deste período. Historiadora, investigadora do Instituto de História Contemporânea


Mundo do trabalho

República: à espera de uma nova aurora

01.09.2010 - 11:34
Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas conflitual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho. Por Maria Alice Samara


De modo a olharmos para a “questão social”, é importante clarificar a sua definição. Trata-se de uma expressão comummente utilizada pela historiografia, em grande medida devedora do discurso da época, que resume duas ideias fundamentais: por um lado, as condições de vida e de trabalho; e, por outro, a relação entre o poder e o mundo do trabalho. Os políticos e outros agentes reconheciam a “palpitante actualidade” destes problemas, mas a necessidade de intervenção escondia, como veremos, as profundas divergências em torno da hierarquização dos problemas a serem resolvidos – e qual a urgência da “questão social” – e a forma de o fazer, ou seja, de um modo progressivo, reformista ou radical e “revolucionário”.

No período dito de propaganda, a ideia de República, multifacetada e não monolítica, teve a si associada a noção de “Nova Aurora” ou, na sua forma mais prosaica, o “bacalhau a pataco” (subsistências baratas). Arautos de uma possibilidade de regeneração da sociedade portuguesa, os republicanos entendiam-se como os únicos detentores de uma solução para a crise que o país atravessava.

Os republicanos – ou parte deles, pelo menos – procuraram tecer ligações com o mundo do trabalho e os trabalhadores, entendidos como fundamentais na luta pela conquista do poder. Chamavam estes homens ao combate político e muitos deles abandonaram as suas organizações, esperançosos na aurora republicana. De entre a polifonia do movimento republicano e as diferentes situações e orientações do mundo do trabalho constituiu-se uma plataforma de entendimento e expectativas partilhadas: fosse a República um fi m ou um meio para alcançar uma sociedade mais justa, era possível um combate comum contra a monarquia constitucional. Os republicanos construíram um discurso socializante e reformista de proximidade e atenção à questão social. Estes e os trabalhadores partilharam uma visão do que poderia e deveria ser o futuro.

Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais e, embora minoritários, a sua concentração geográfi ca, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração. Os trabalhadores, à semelhança de outros grupos e agentes políticos como os republicanos, procuravam fazer ouvir a sua voz, forçando a entrada no campo político exclusivista da monarquia constitucional. Existiam, é certo, diversos níveis de politização. De entre aqueles que começavam a pensar a sua situação e a lançar as bases para a organização das suas forças, encontramos um espectro político variado do anarquismo ao anarcosindicalismo e ao socialismo. O comunismo entrou no campo político e do movimento operário, depois da revolução russa de 1917, assomo de esperança para os trabalhadores e “pesadelo” para as classes mais conservadoras.

Feita a República, com o 5 de Outubro de 1910, o mundo do trabalho tinha, portanto, expectativas elevadas em torno do que o novo regime poderia – e deveria – fazer para responder às suas reivindicações. Os trabalhadores lutavam pelo direito à organização (os agrupamentos federais e nacionais eram proibidos) e defendiam o direito à greve. Apesar do interdito legal, verifi caram-se vários movimentos grevistas no início do século XX (que não cessaram depois da implantação da República). Um dos principais temas das reivindicações era a questão da necessidade da melhoria das condições de vida e de trabalho, numa conjuntura de enormes difi culdades num mundo sem protecção social, excepto as redes de entreajuda dos próprios trabalhadores, com condições de trabalho duríssimas e vivendo, muitas vezes, em habitações miseráveis nas “ilhas” e nos “pátios” operários.

Os governos republicanos manifestaram preocupação com a “questão social”, é certo, mas, na maioria dos casos, as medidas ficaram aquém das expectativas dos trabalhadores. A primeira decepção dos trabalhadores teve lugar em Dezembro de 1910, com o “decreto burla” que legalizava tanto a greve como o lock-out patronal. Apesar da promulgação de várias medidas de carácter social (por exemplo, o descanso semanal e a lei de assistência), os movimentos grevistas de 1911 e 1912, fruto de um crescendo combativo operário e do desenvolvimento do associativismo nos meios rurais, provocariam sérios embates entre o poder republicano e os trabalhadores. Foi o início de uma “guerra aberta”, com episódios de grande violência, entre os republicanos no poder e o movimento operário organizado, temperada apenas pelos breves momentos de união, quando estava em causa a defesa do regime, ou quando algumas medidas legislativas moderavam o conflito. O Partido Democrático, que mais tempo ocupou as cadeiras ministeriais durante a República, teve uma política de contenção e repressão do movimento operário – não é por acaso que Afonso Costa era conhecido pelo “racha-sindicalistas”. Um número signifi cativo de entre os republicanos não era “revolucionário” nem radical e entendia que a questão social deveria ser resolvida, mas de forma progressiva, pela via reformista. Se bem que entendessem a importância deste problema, consideravam que era mais importante consolidar o regime, que, de facto, tinha inimigos que contra ele conspiravam. Veja-se, por exemplo o caso das incursões monárquicas em 1911 e 1912, capitaneadas por Paiva Couceiro.

Poderíamos fazer referência ainda aos problemas entre o poder republicano e a Igreja Católica na sequência de algumas medidas legislativas, a mais importante das quais a Lei de Separação de Abril de 1911. No governo, pretendiam de algum modo satisfazer as chamadas forças vivas, mostrando como podiam e sabiam fazer uma administração respeitável e sem demasiados “excessos”.

A Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) veio agudizar as relações entre o poder republicano e os trabalhadores organizados. A crise económica, nomeadamente a alta de preços, penalizou grandemente todos aqueles que viviam de rendimentos fixos ou que não conseguiam que os seus salários aumentassem, trazendo consigo o descontentamento das populações e o aumento da confl itualidade social, fosse através de movimentos organizados, como as greves, muitas delas organizadas pela central dos sindicatos, a União Operária Nacional, fosse através de uma espécie de motins da fome. De entre estas movimentações espontâneas, vale a pena referir os assaltos a estabelecimentos comerciais, nomeadamente a “revolução da batata” de Maio de 1917.

O caso da experiência sidonista é ilustrativo da divergência entre a prioridade dada à questão política em detrimento da social. Sidónio Pais subiu ao poder depois do golpe de 5 a 8 de Dezembro de 1917, contando com a “expectativa benévola” dos trabalhadores organizados, em rota de colisão com o poder afonsista, sobretudo depois do Verão de 1917, um dos mais duros no tocante aos conflitos entre grevistas e poder republicano. Este apoio inicial do mundo do trabalho seria desbaratado pelo poder sidonista, que defendia a necessidade de revolução política, não considerando tão urgente e necessária a resolução da questão económica e social.

Depois da I Guerra

Um momento excepcional nas relações entre o poder republicano e o mundo do trabalho foi a entrada de um ministro socialista (Augusto Dias da Silva) para o governo, a conjuntura de Maio de 1919 e o pacote legislativo com medidas de grande importância (dia de trabalho de 8 horas e seguros sociais). Compreende-se a promulgação destas medidas na conjuntura política coeva. Em primeiro lugar, vivia-se o pós-Primeira Guerra Mundial. Os sacrifícios pedidos e feitos pela população obrigavam a um renovado interesse pela situação económica e social de sociedades destruídas e exauridas. De igual modo, a revolução russa de 1917 e os subsequentes movimentos sociais forçavam a essa atenção, sob pena de estas sociedades terem entre mãos um descontentamento impossível de manter. A nível interno, a República que afastara o sidonismo, que vencera a intentona monárquica de Monsanto e a Monarquia do Norte, contara com a participação do republicanismo radical, popular e com os trabalhadores. Nos anos de 1919 a 1926 assistimos a uma recomposição do campo político, surgindo a lume projectos de esquerda e de direita, registando-se um renovado interesse na questão social. Mas, do lado contrário, reorganizavam-se as “forças vivas”, confrontando-se, assim, dois blocos sociais antagónicos. O movimento operário esteve particularmente activo nos anos de 1919 e 1920, mas muitos autores apontam a perda do “pão político” (preço regulamentado pelo Estado) em 1923 como um sinal de enfraquecimento do movimento operário.

Fazendo um balanço final da relação entre o republicanismo, o poder republicano e o mundo do trabalho, podemos pensar em encontros e desencontros entre estas duas forças políticas, sociais e culturais. Existiu sempre no republicanismo uma corrente socializante e próxima das preocupações dos trabalhadores organizados; no entanto, no poder, na maioria dos casos, os governos reagiram com dureza às movimentações dos operários. Apesar disto, a ideia de República – diferente da prática política dos governos republicanos – sobreviveu, para alguns trabalhadores, como aspiração e como ideal e por ela se bateram em momentos críticos do regime. Os republicanos precisaram dos trabalhadores na luta contra a monarquia e não poderiam tê-los como inimigos depois da chegada ao poder; mas nem sempre as prioridades republicanas estavam em consonância com as dos trabalhadores.

Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas confl itual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho; esta é, sem dúvida, uma das questões centrais para a leitura e compreensão deste período.

Historiadora, investigadora do Instituto de História Contemporânea
.
.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Especialista em catástrofes avalia situação de mineiros presos em mina do Chile

Meio Ambiente | 24.08.2010 DW World

 

Para Wolf Dombrowsky, da Escola Superior Steinbeis, em Berlim, as tragédias naturais estão ligadas aos erros do homem ao lidar com a natureza. Experiências anteriores deveriam ser lembradas, diz ele.

 
No Chile, 33 funcionários de uma mineradora estão retidos a 700 metros de profundidade em uma jazida em Copiapó, no Deserto de Atacama, no norte do país. Os mineiros procuraram abrigo em refúgio, depois que a mina desabou, no último 5 de agosto, deixando-os soterrados e sem contato com o ambiente externo. O alemão Wolf Dombrowsky, especialista em catástrofes naturais, analisa a situação dos mineiros presos, agora já localizados por equipes de resgate.
.
Deutsche Welle: Qual é o objeto de estudo em uma catástrofe?
Wolf Dombrowsky: Pesquiso como as pessoas se comportam antes, durante e depois de uma catástrofe. Meu interesse é saber como as pessoas vivem uma tragédia, como a superam, mas também o que aprendem com ela. E, se não aprendem a lição, qual seria o motivo.
.
E o que você mesmo aprendeu?
Presidente do Chile, Sebastian Piñera, comemora mensagem dos mineiros: 'Estamos bem' 
.
Aprendi que não há catástrofes naturais, mas que o homem comete graves erros ao lidar com a natureza; que o planejamento, geralmente, não é adequado; que as pessoas não levam a sério as experiências anteriores e que nós não estamos preparados o suficiente para enfrentar uma tragédia pessoal.
.
Você vê alguma semelhança entre acidentes como este dos mineiros soterrados no Chile e outros ocorridos na Alemanha no passado?
O maior problema para soterrados em uma mina é que as vítimas precisam satisfazer suas necessidades vitais. Primeiro: elas têm líquido suficiente para beber? Segundo: o contato. As vítimas sabem que estão sendo procuradas? Os familiares ainda têm esperança de encontrá-los com vida? Todos os envolvidos sabem que está sendo feito tudo o que é possível para resgatar as vítimas? 
.
Terceiro: como sobreviver soterrado? O grande problema para uma pessoa nessa situação é que ela perde a noção de tempo. Para isso, são necessárias estratégias que dêem uma estrutura e permitam ordenar a vida limitada ao isolamento e à escuridão. Quem não consegue pensar, perde o controle da situação, o que neste caso pode ser fatal.
Especialista fala de estratégias de sobrevivência em situações de risco como a dos mineiros 
.
As minas dispõem de espaços previstos para casos de desabamento?
Sim. Os refúgios de proteção geralmente estão abastecidos com alimentos e materiais destinados a emergências, além de meios de comunicação. O que me surpreende, no caso da mina chilena, é que parece que o refúgio não tinha telefone de emergência. Contudo, a sobrevivência depende, além disso, do estado físico e psicológico das vítimas, como também do nível de instrução das mesmas.
.
Estima-se que o resgate dos mineiros chilenos deverá durar de três a quatro meses. Como é possível estruturar a vida na escuridão de uma cova durante tanto tempo sem morrer antes de ser resgatado?
Para preencher o tempo, os soterrados podem, por exemplo, contar até certo número e então fazer um exercício físico. O importante é que eles estejam cientes de que o que estão fazendo é para mantê-los com vida. No caso atual do Chile, é provável que as vítimas sobrevivam, mesmo que demore quatro meses.
.
Como você pode ter essa certeza?
O simples fato de ter conseguido se comunicar é uma motivação para sobreviver. Até porque deve haver psicólogos do lado de fora que estão ajudando as vítimas a lidar com a situação dentro da mina.
.
O que é pior quando se está preso?
O pior é quando não se sabe se está sendo procurado ou se ainda há possibilidade de resgate. As vítimas perdem gradualmente o controle psíquico da situação. Na Alemanha, houve a experiência dos mineiros de Lengede, em outubro de 1963. Dos 129 que estavam na mina no momento de uma explosão, 29 morreram e 11 ficaram soterrados. Estes 11 presos conseguiram sobreviver porque sabiam que ainda estavam sendo buscados.
.
O que acontece quando o grupo não entra em um acordo sobre as estratégias a seguir?
Tudo o que reduz a tensão social aumenta as chances de sobrevivência. Desunião e falta de clareza podem agravar a situação. Geralmente as vítimas deixam de lado problemas pessoais em prol do objetivo comum: sair dali com vida.
.
No monitor, imagem dos mineiros soterrados 
.
Há avanços no estudo de estratégias de sobrevivência?
Definitivamente. Há muitas experiências estudadas em acidentes marítimos, aéreos, cativeiro ou caso de seqüestro, em que as vítimas inventam todo tipo de atividade para sobreviver. Desde calendários, jogos de perguntas e respostas ou solução de problemas matemáticos, até criação de histórias. 
.
Há ainda quem inventa fantasias gastronômicas e até sexuais. Muitas vítimas se propõem a fazer tudo que é bom, caso saiam vivas da situação. São formas positivas de levantar o ânimo de viver.
.
Que mensagem você enviaria a estas pessoas presas na mina como estratégia para sobreviver?
Eu lhes proporia realizar o seguinte exercício: assumir o papel de se sentir parte de um experimento e descrever tudo o que vivem, sistematizando ações e sensações: como podem (ou não) dormir, o que sonham, como funciona o corpo, quais são e como realizar as tarefas fisiológicas. 
.
Com isso, pode-se traçar uma história e imaginar que se está em uma cápsula, que viaja pelo tempo e na qual os tripulantes têm que solucionar todos os problemas possíveis para sobreviver. Um exercício como este deixa lições valiosas para futuros acidentes. A verdade é que eu gostaria de estar agora no Chile para usar minha experiência e ajudar, para que todos os presos sobrevivam.
.
Autor: José Ospina-Valencia (rbc)
Revisão: Soraia Vilela
.
.

domingo, 18 de julho de 2010

"Diálogo" na sequência da ocupação de uma empresa após a revolução de Abril de 1974.


.
.

realso | 25 de Julho de 2006
"Diálogo" na sequência da ocupação de uma empresa após a revolução de Abril de 1974.
.
.
Era isto que devia ser feito quando fecham empresas e os trabalhadores ficam na rua.Mas enfim estamos com um governo sem rumo.Beijos amigo. 
.
Odete - 18/Jul 21:26
.
.

domingo, 2 de maio de 2010

Recortes & Leituras - Maio sempre actual

Recortes & Leituras
Maio sempre actual

Em diferentes momentos, o PCP destacou a importância da celebração do 1.º de Maio. Em condições muito distintas, o traço comum tem sido a intensa ligação das origens aos objectivos da luta dos trabalhadores na actualidade. Aqui deixamos apenas alguns exemplos, separados por décadas e unidos na intervenção presente.

Nem com a morte

(...) «As grandes manifestações do 1.º de Maio sempre mobilizaram a actividade do nosso Partido e as concentrações que se conseguiram na luta contra o regime fascista, tanto nas grandes cidades como noutras localidades do País, demonstraram a consciencialização das classes trabalhadoras, que nunca se vergaram perante a repressão.»
(...) «Todas as manifestações do 1.º de Maio no nosso país se deveram, única e exclusivamente, à mobilização feita pela vanguarda revolucionária das classes trabalhadoras. Eram as pinturas nas paredes, as distribuições de panfletos pelas ruas e transportes públicos, toda uma campanha de agitação a preparar a grande jornada de luta das massas trabalhadoras.
Mas também aqui o trabalho não se fazia sem sacrifícios. Muitos camaradas nossos foram presos durante as campanhas de agitação. Outros foram mortos quando participavam nas manifestações contra o regime fascista, o qual não hesitava perante todos os meios para tentar calar a voz dos trabalhadores. Foi o que sucedeu durante as grandiosas manifestações do 1.º de Maio de 1962» (...).
«Em Aljustrel, quando se realizava um grande comício para comemorar o 1.º de Maio, as forças repressivas intervieram e prenderam dois operários que falavam aos seus camaradas e, como se desencadeasse um movimento de protesto, por parte dos trabalhadores, que se recusaram a admitir as prisões, as forças repressivas dispararam sobre os trabalhadores, matando os mineiros António Adângio e Francisco Madeira e ferindo mais quatro trabalhadores, entre os quais uma mulher. Nesse mesmo dia, em Lisboa, que se encontrava coalhada de manifestantes, desde o princípio da tarde, os assassinos da PIDE não hesitaram em matar cobardemente o operário Estêvão Giro.» (...)

«Nem com a morte o fascismo impediu a luta do 1.º de Maio» era o título de uma peça publicada no Avante! de 1 de Maio de 1975, em duas páginas dedicadas a tratar «O 1.º de Maio na luta do povo e do PCP durante os anos da ditadura fascista»


República sem melhorias

(...) «Em 1910 é proclamada a República.
As acções grevistas multiplicaram-se e muitas delas terminam com significativas vitórias. O governo republicano fixa novas leis que consagram a redução do horário de trabalho. As comemorações do 1.º de Maio vão-se transformando fundamentalmente em jornadas de protesto e de luta.
Na verdade, com a instauração da República, o movimento operário no nosso país não passou a contar com menores dificuldades para as suas reivindicações. Em 1911, é desencadeada uma forte repressão contra os operários de Setúbal; em 1912, é declarado o estado de sítio em Lisboa, é encerrada a Casa Sindical e são presos centenas de trabalhadores; em 1913, é proibido o cortejo comemorativo do 1.º de Maio.
Nos anos seguintes, esta situação de confronto mantém-se e chega mesmo a agudizar-se no período da I Grande Guerra.» (...)

Excerto do artigo «O Centenário do 1.º de Maio», publicado n' O Militante, em Abril de 1986


Ofensiva desvirtuadora

«Desde o momento em que o congresso fundador da II Internacional proclamou o 1.º de Maio como Dia Internacional do Trabalhador que se desencadeou a ofensiva do grande capital contra essa jornada de luta. Através da proibição na lei da organização e da acção dos trabalhadores, da repressão policial e militar, da provocação e do divisionismo. E, igualmente, através da ofensiva ideológica, procurando diluir e desvirtuar os objectivos de combate que são parte integrante do 1.º de Maio.
A celebração do 1º de Maio antes de esse dia ser conquistado como dia feriado em muitos países (em Portugal essa consagração tardou 85 anos) teve sempre o significado de uma paralisação geral do trabalho. É um dia de convergência das lutas dos trabalhadores, e é nessa luta que reside a sua força e o seu significado fundamental. Por isso o patronato, com a ajuda do sindicalismo conciliador, procurou diluir esse aspecto essencial desta jornada, tornando-a - onde não podia reprimi-la - em jornada “de descanso” e de “recreação” e, como foi tentado em diversas ocasiões, remetida para o domingo seguinte, para a separar da paralisação do trabalho.
Outro elemento de desvirtuação consiste na tentativa de “despolitizar” as lutas e as reivindicações dos trabalhadores e, portanto, o 1.º de Maio. No “Manifesto”, Marx e Engels sublinham o essencial: toda a luta de classes é uma luta política. Se os trabalhadores que se deixassem embalar pelas tentativas de “despolitização” da sua luta estariam a aceitar entrar desarmados num combate em que o adversário trava uma luta política de vida ou de morte: a da vida ou da morte de um sistema que tem no seu cerne a exploração implacável do trabalho. O Portugal de Abril que tem uma das suas mais sólidas raízes no 1.º de Maio revolucionário de 1974, tem aí o testemunho inesquecível de que o 1.º de Maio é sempre, necessariamente, luta e acção política.
Outro elemento de desvirtuação consiste na sobrevalorização dos aspectos comemorativos e festivos do 1º de Maio e na diluição das suas reivindicações fundamentais, que são as do trabalho, num conjunto de reivindicações “transversais” e desprovidas de sentido de classe.»

Excerto de «A ofensiva ideológica contra o 1.º de Maio», um dos capítulos que constituem o dossier publicado esta semana no sítio do PCP na Internet


Dia da consolidação

(...) «O 1.º de Maio de 1974 é um 1.º de Maio de características muito particulares na luta pela consolidação do regime democrático em Portugal.
É preciso não esquecer que o Spínola tentava abafar tudo aquilo que fosse movimento popular, que ele se esforçava por impedir que as massas populares viessem para a rua, que participassem com os militares, nesses primeiros dias, na consolidação do 25 de Abril, e havia muitas coisas que indicavam que o Spínola não estava nada interessado em abrir para uma grande manifestação no 1.º de Maio.»
(...) «Nesses dias foi feita uma grande discussão na Cooperativa Esteiros, aqui na Rua Braancamp, era o quartel-general do movimento operário nessa altura - do Partido, do MDP, da Intersindical, toda a gente reunia ali na Esteiros. E posso dizer que foi uma luta difícil, porque havia tendências, no próprio movimento sindical, de fazer do 1.º de Maio uma acção estritamente operária e sindical. E teve de travar-se uma batalha, que foi uma batalha até ao último minuto, para que vencesse a outra tendência, na qual nós, os comunistas, estávamos interessados, de fazer do 1.º de Maio uma grande jornada política, com a participação dos partidos políticos.» (...)

Afirmações de António Dias Lourenço, director do órgão central do PCP e membro da Comissão Política do Partido, na mesa-redonda «A experiência vivida na primeira linha do combate», publicada no Avante! de 30 de Abril de 1986, e em que também participaram Álvaro Rana, Carlos Fraião, Vítor Ranita e Vítor de Sá
.
Nº 1900 - Avante
29.Abril.2010
.
.

Primórdios do 1º de Maio em Portugal

Primórdios de Maio em Portugal

A luta pela redução do dia de trabalho, em Portugal, tem os primeiros registos no ano de 1849. À força de greves, os operários metalúrgicos alcançaram então o limite de 12 horas, nos dias grandes, e de dez horas, nos dias mais pequenos.
Mas apenas a partir de 1870 se começa a desenvolver o movimento operário autónomo, liberto da tutela burguesa que marcou o associonismo. A 19 de Outubro desse ano, o Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas aprova novos Estatutos, tendo por base os princípios da Internacional (AIT), e um ano depois, durante uma sessão, é removido o retrato de António Rodrigues Sampaio, que fora benemérito do Centro mas, como ministro, ameaçava encerrá-lo. Victor de Sá, intervindo na sessão solene que assinalou o 10.º aniversário da CGTP-IN, em 1980, situou em Janeiro de 1872, com a Fraternidade Operária, a criação de um novo tipo de associação de classe, com objectivos reivindicativos e adoptando a greve como forma de luta. Estas sociedades de resistência contavam 1350 associados, daí a dois meses, quando foi enviada para Londres a mensagem de adesão da Região Portuguesa à AIT. Ao fim de um ano, estavam dez mil operários organizados em Lisboa e oito mil no Porto. O historiador (e primeiro deputado do PCP pelo distrito de Braga) dá nota de um movimento grevista, pela abolição dos serões em fundições e serralharias, e refere mesmo um surto grevista com auge em 1872 (mais de 50 greves em 18 meses).
A Fraternidade Operária edita O Pensamento Social, jornal que, nos seus números 46 a 50, entre 2 de Março e 5 de Abril de 1873, publica em português, pela primeira vez, o Manifesto do Partido Comunista (a partir da edição espanhola, de José Mesa). Há diversos contactos com a Internacional. Em Outubro de 1873 surge a Associação de Trabalhadores da Região Portuguesa.
Seguindo a orientação do 5.º Congresso da Internacional, em Haia, quanto à constituição de partidos operários distintos dos partidos políticos burgueses, foi formado em Portugal um partido socialista, em Janeiro de 1875. Só depois foram constituídos partidos da classe operária na Alemanha (em Maio), na Dinamarca (1878), Espanha (1879), França e Inglaterra (1882), Bélgica (1885), Noruega e Suécia (1889) e Itália (1892).
Na formação da II Internacional (congressos de Paris, em 1889, de onde sai o apelo para o 1.º de Maio) estão dois representantes da ATRP: Manuel Luís de Figueiredo e Viterbo de Campos.
No 1.º de Maio de 1890, em Portugal, há registo de manifestações em Lisboa (com 18 mil pessoas reunidas no Cemitério dos Prazeres), no Porto (duas mil pessoas na Praça D. Pedro), em Coimbra, Silves, Tomar, Leiria, Santiago do Cacém, Arronches.
«Mas no nosso País as acções do dia do trabalhador limitavam-se inicialmente a alguns piqueniques de confraternização, com discursos pelo meio, e a algumas romagens aos cemitérios em homenagem aos operários e activistas caídos na luta», veio a referir Américo Nunes, n' O Militante, em 2006. Num artigo a propósito dos 120 anos das lutas nos EUA e da violenta repressão que culminou na execução dos dirigentes operários em Chicago, o dirigente sindical comunista recordou que, «com as alterações qualitativas assumidas pelo sindicalismo português no fim da Monarquia, transformando-se num sindicalismo combativo e reivindicativo, consolidado e ampliado durante a I República, o 1.º de Maio adquiriu também características de acção de massas e de dia de luta».
..
.
.
Nº 1900 - Avante
29.Abril.2010
.
.

sábado, 1 de maio de 2010

THE INTERNATIONALE (in Russian)


.
.
zzahier 18 de Janeiro de 2008 — The Internationale
words by Eugène Pottier (1871)
music by Pierre Degeyter (1888)

The Internationale, originally a French song, is now a well known song. It was the official anthem of the Soviet Union in the years 1918 through late 1943 (sung in Russian, of course). It is also the anthem of Communist parties and many socialist movements worldwide.

.
1/Mai 22:15
yolanda diz:

.
.

sexta-feira, 19 de março de 2010

PCP - Exposição Internacional de Cartoon

Quinta, 18 Março 2010
john-xagoraris_grecia.jpgAbre hoje ao público a Exposição Internacional de Cartoon intitulada «Exploração e direitos dos trabalhadores, olhar crítico a traço de humor». Esta iniciativa, promovida pelo PCP e pela Humorgrafe conta com a participação de mais de uma centena de artistas, de 38 países, que através do humor e do cartoon expressam as suas visões sobre a exploração e os direitos dos trabalhadores. Osvaldo Sousa, da Humorgafe, em declarações à «Comunic», faz a antevisão da exposição que estará patente entre 18 de Março e 9 de Abril no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa.

Osvaldo Sousa, da Humorgafe
cartoon017.jpg
cartoon019.jpg
cartoon015.jpg
cartoon014.jpg
cartoon013.jpg
 
cartoon011.jpg
cartoon009.jpg
cartoon008.jpg
cartoon068.jpg
cartoon067.jpg
  .
.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Michel Giacometti:


TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE» E A CDU «UM PROJECTO DE FUTURO, UMA PRESENÇA DE LUTA POR UMA VIDA MELHOR»

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
Michel Giacometti: 8 de Janeiro de 1929-24 de Novembro de 1990
.
      
Michel Giacometti:
8 de Janeiro de 1929 (Ajaccio, Córsega) - 24 de Novembro de 1990 (Hospital Distrital de Faro)         
.
.
Vídeos
Michel Giacometti, nascido na Córsega, licenciado em Letras de Etnografia, lança a âncora em Portugal em 1959. Por cá relaciona-se com o maestro Fernando Lopes Graça, que lhe transmite preciosas informações sobre o património musicólogo português e encoraja-o a realizar as suas primeiras projecções, ao norte do País.
.
Michel Giacometti descobriu Peroguarda através de António Reis, cineasta e poeta portuense.
.
Para Ler:
 
Jornal «Avante!»:

.
Museu do Trabalho Michel Giacometti:

.
O Museu do Trabalho Michel Giacometti, fundado em 1987, reúne um importante espólio, a colecção etnográfica Michel Giacometti e peças relacionadas com os ofícios tradicionais, actividade marítima, construção naval, mundo rural e indústria conserveira.
.
O museu está instalado numa antiga fábrica de conservas, a Perienes, cujo edifício foi adquirido, em 1991, pela Câmara Municipal.  
.
Quatro anos mais tarde, após várias obras de remodelação, no dia 18 de Maio de 1995, data da inauguração, o Município atribuiu-lhe o nome de Museu do Trabalho Michel Giacometti.  
.
Este espaço, que tem por finalidade o estudo, a preservação e divulgação de técnicas e conhecimentos relacionados com o mundo do trabalho, engloba uma galeria de exposições temporárias e áreas polivalentes para animação.  
.
No dia 11 de Maio de 2002 foi inaugurada a exposição permanente "Mercearia Liberdade – Um Património a Salvaguardar", reconstituição de um estabelecimento de Lisboa, cujo espólio foi doado pelos proprietários à Câmara Municipal de Setúbal.
.
Fontes: Publicação Câmara Municipal de Setúbal, 2000; Guia de Museus Costa Azul, 1996
                                                                       
adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge
                                                                                                                                         

.
publicado por António Vilarigues às 18:09
.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Reflexões sobre o mecanismo de exploração - A ofensiva de classe em curso e a luta dos trabalhadores

REFLEXÕES SOBRE O MECANISMO DE EXPLORAÇÃO - Pedro Carvalho - CeCAC
Artigo de Pedro Carvalho sobre a intensificação da exploração da força de trabalho em Portugal que, partindo de um ponto de vista marxista, aponta questões gerais sobre o mecanismo de exploração capitalista.
.
Demonstra que o modo de produção capitalista tem como fundamento a exploração da força de trabalho, a produção de mais-valia, e a tendência à intensificação da exploração. É a férrea lei do valor, a valorização do capital, a sua reprodução ampliada. E, na perspectiva do capitalismo, a principal característica das ‘saídas da crise’ é o aprofundamento da intensificação da exploração, o aumento da taxa de mais-valia, do grau de exploração.
.
Demonstra, também, que a forma como a crise do capitalismo, do sistema imperialista, se apresenta em cada conjuntura é também expressão da luta de classes que permeia todo o processo de produção capitalista, da correlação de forças entre proletariado e burguesia, entre explorados/oprimidos e exploradores/opressores.
.
Somente a luta de classes, a resistência e força do proletariado e demais classes oprimidas, impõe limites à exploração capitalista, enfrenta a força e ofensiva da burguesia.
* * *
Reflexões sobre o mecanismo de exploração - A ofensiva de classe em curso e a luta dos trabalhadores
.
Pedro Carvalho[*]
.
A discussão no final de 2009 em torno do aumento do salário mínimo nacional e agora em torno do congelamento dos salários da função pública é demonstrativa da pressão ideológica que irá ser exercida sobre os trabalhadores, para que estes mais uma vez suportem os custos do atual episódio de crise econômica, com a contenção salarial e novas exigências no domínio do aumento do tempo de trabalho e de redução dos direitos laborais.
.
Numa tentativa de aumentar ou de pelo menos manter as taxas de lucro, a resposta do patronato será semelhante à de outros episódios de crise que têm varrido o sistema capitalista mundial, desde o retorno visível da crise no início dos anos 70. Resposta em uníssono, traduzida numa ofensiva de classe mundial, suportada ideologicamente pelas principais organizações internacionais do capitalismo (FMI, BM, OMC e OCDE), utilizando como armas estratégicas um desemprego crescente e sistêmico, uma ameaça permanente de deslocalização (ancorada na libertina circulação de capitais) e uma precariedade galopante, transversal a todo o mundo do trabalho.
.
Armas estratégicas que visam incutir o medo e o receio nos trabalhadores e que muitos comentadores encartados utilizam, por via da comunicação social, para formar as teses dominantes que tornam o emprego num privilégio e transformam o direito ao trabalho, num mero direito à sua procura a todo custo por parte do trabalhador. Responsabilizando-o pela sua empregabilidade e pela sua inaptidão na venda da força de trabalho. Esta é a tese reinante, na atual crise o importante é manter o emprego, mesmo qualquer emprego e para isso é necessário mais e novas cedências dos trabalhadores ao nível salarial, do horário de trabalho e das condições de trabalho. O que é necessário é sermos competitivos e mais produtivos! E claro, «vá de retro» os sindicatos e a organização dos trabalhadores, em prol de uma crescente individualização e igualização da relação contratual entre trabalhador e patrão.
.
Mas o patrão, o capital, seja ele proprietário, gestor ou ambos, só se preocupa com uma única coisa - a obtenção de lucro, a maximização do seu lucro individual. Claro, que em concorrência com outros patrões por mais quotas de mercado e, por isso, mais lucros. Não por qualquer defeito moral, de ser mau ou bom, mas porque é essa a natureza das coisas, do sistema. Porque é esse o seu papel nas relações sociais de produção capitalistas, uma relação de exploração, uma relação de apropriação privada das condições de produção, ou seja, uma relação de apropriação do valor produzido pelos trabalhadores. Uma relação desigual, em que o trabalhador individualmente é sempre a parte mais fraca, pois carece de trabalhar para (sobre)viver, tendo sido expropriado dos meios para produzir, ele mesmo, os bens para sua subsistência.
.
Na lógica da maximização dos lucros, o patrão quer vender mais com menores custos, aumentar a produção e reduzir os custos unitários de produção, ou seja, é seu objetivo, aumentar a produtividade do trabalho por todos os meios possíveis e reduzir o preço (o salário!) da mão-de-obra por todos os meios possíveis (as vezes até ilegais).
.
Esta relação só pode ser conflitual. Pois não existe compromisso entre explorador e explorado. Os patamares atingidos pelos trabalhadores decorrem sempre da luta, do seu grau de organização coletiva e da correlação de forças, entre capital e trabalho, num determinado momento.
.
Todos os direitos dos trabalhadores e dos povos, nunca foram dados, foram sempre conquistados. São um imenso patrimônio de (e da) luta. A história assim o demonstra. O retorno visível da crise nos anos 70 mostrou também o verdadeiro rosto do capital, para alguns mais desatentos.
.
A história também demonstra que uma cedência em direitos arduamente conquistados, sedimenta outra cedência, confirmando rapidamente retrocessos. Esta tem sido a história desde os anos 70, sobretudo nos últimos vinte anos marcados pela cartilha neoliberal do Consenso de Washington.
.
A abdicação da luta ou a cedência dos trabalhadores nos seus direitos, em nome de uma hipotética condição para manter o emprego, é uma ilusão. A história assim o demonstra. Apesar de todas as cedências, as múltiplas flexibilidades tão bem expressas na dita «flexigurança», com a desvalorização dos salários, o aumento do tempo e do ritmo do trabalho, a crescente precariedade dos vínculos laborais (que de facto torna os trabalhadores descartáveis), para já não falar do ataque às funções sociais do Estado, com a desvalorização da compensação salarial que os sistemas nacionais de pensões corporizam, a crescente desproteção na situação de desemprego e o aumento da idade (efetiva) de reforma, a verdade, é que o número de desempregados tem vindo a crescer de forma sistemática e sistêmica.
.
Por isso, mesmo tendo em conta as dificuldades conhecidas e o grau da ofensiva de classe em curso, estas não podem deixar de ter como resposta a luta dos trabalhadores, a reivindicação por melhores salários (e pensões) e pela redução do horário de trabalho. Este não é só um imperativo no combate às desigualdades na repartição e na redistribuição do rendimento, no combate à pobreza e na garantia de melhores condições de vida dos trabalhadores, é também a melhor forma de defender o direito ao trabalho, digno e com direitos.
.
É uma condição essencial para o desenvolvimento econômico e social, por via do aumento do poder de compra das massas e da satisfação das suas necessidades, fomentando a procura interna e consequentemente a atividade econômica, gerando novos empregos e contribuindo de forma efetiva para a sustentação da segurança social. Mas também é uma condição para afirmação e fruição de direitos políticos, sociais e culturais.
.
Valorizar o trabalho, para criar as condições objetivas para a transformação da sociedade, colocando como objetivo das relações sociais de produção, da atividade econômica, não o lucro, mas a satisfação das necessidades humanas.
.
COMPREENDER A EXPLORAÇÃO - O TRABALHO NÃO PAGO E A APROPRIAÇÃO PRIVADA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO
.
A relação contratual de trabalho, entre o trabalhador e patrão, acaba por camuflar a relação de exploração subjacente e a origem do lucro do patrão. Foi Karl Marx que pela primeira vez deu uma explicação coerente para a origem do lucro (já lá vão dois séculos!).
.
Só o trabalho cria valor, cria coisas úteis. O contrato de trabalho estabelece o número de horas que o patrão têm à sua disposição o trabalhador em troca de um salário (de subsistência), que permite ao trabalhador (sobre)viver, comprar as coisas úteis necessárias para que no outro dia continue a trabalhar. Mas o que patrão está a comprar de fato é toda a capacidade de trabalho física e cognitiva do trabalhador, a sua força de trabalho que como qualquer outra mercadoria, irá consumi-la o mais que puder no tempo em que o trabalhador está à sua disposição no processo produtivo. O valor produzido pelo trabalhador é superior ao do seu salário de subsistência, ao que seria necessário para comprar as coisas úteis para continuar a trabalhar no outro dia. Este valor excedente produzido pelo trabalhador corresponde assim a trabalho que efetivamente não foi pago. Este valor excedente, esta mais-valia, é assim apropriado pelo patrão que controla os meios de produção e irá ser realizado no momento da venda das mercadorias.
.
Esta é a verdadeira origem do lucro, a apropriação privada das condições de produção, ou seja, do valor criado pelo trabalho. Como diz outra máxima popular, «ninguém enriquece a trabalhar». Esta é a relação de exploração, a extração deste valor excedente do trabalhador que alimenta o lucro patronal e, como o objetivo do processo produtivo é acumular lucros, o patrão irá maximizar os seus lucros quando mais conseguir aumentar o trabalho não-pago do trabalhador. Como? Aumentado a jornada de trabalho diária, reduzindo o salário de forma direta ou por via da desvalorização dos salários em outros setores com relação direta na formação do salário de subsistência e aumentando a produtividade/intensidade do trabalho hora.
.
Como sempre, vender mais com o menor custo. Mais produtos por hora trabalhada a menor custo. Para maximizar os lucros a questão central é da redução dos custos unitários do trabalho.
.
Olhando para as estatísticas poderá ser dito que os salários nominais tem crescido cumulativamente, não só em Portugal mas a nível mundial. Apesar da tendência para o seu ritmo de crescimento ter vindo a desacelerar de década para década. Mas a questão central para a maximização dos lucros passa por garantir que o crescimento dos salários seja inferior ao crescimento da produtividade do trabalho. Sempre que assim é, existem transferências dos ganhos de produtividade do trabalho para o patronato.
.
A redução dos custos unitários do trabalho, logo de produção, por parte de um patrão, cria uma vantagem competitiva na concorrência com outros patrões, pois pode vender ao mesmo preço com maiores lucros, ou mais barato, «mantendo» os lucros. A concorrência é assim o motor do sistema, que incontornavelmente pressiona no sentido da redução dos custos unitários de trabalho. Os patrões que consigam ser mais competitivos, que consigam aumentar a sua quota de mercado, estão assim a transferir para si os lucros de outros patrões, ou melhor, do valor excedente (mais-valias) extraídos das forças de trabalho que comandam.
.
É de sublinhar também neste contexto, que na mesma medida em que os salários se têm vindo a desvalorizar, o crédito tem crescido junto das massas trabalhadoras. Esta ilusória compensação do poder de compra das massas, sendo essencial para o sistema enfrentar a(s) crise(s), constitui em si mesmo uma nova forma de exploração. O trabalhador hipoteca os seus futuros salários (de subsistência) e em desvalorização, pagando juros aos «patrões» financeiros (capital financeiro), para suprir a necessidade de coisas úteis para (sobre)viver no presente. O salário é assim, cumulativamente desvalorizado e aumenta de forma efetiva o trabalho não-pago. De realçar que todo este capital financeiro se baseia na massa global acumulada de mais-valias extraída (e a extrair!) da força de trabalho pelo patronato, a nível local e mundial.
.
O CONSENSO DE WASHINGTON - A CARTILHA PATRONAL A SERVIÇO DA EXPLORAÇÃO
.
Tudo isto poderá parecer abstrato, mas se analisarmos as orientações transmitidas pelas principais organizações internacionais e que tem moldado as políticas econômicas e monetárias ao nível mundial, vemos como estas tem tido como principal objetivo garantir as condições para uma maior intensificação da exploração de trabalho. Vejamos o famigerado Consenso de Washington (traduzido a nível europeu no Pacto de Estabilidade ou na Estratégia de Lisboa) que assenta em quatro princípios: estabilidade dos preços, consolidação orçamental, desregulamentação dos mercados e comércio livre.
.
Quando se fala na estabilidade dos preços, que se tornou o principal objetivo da política monetária executada pelos Bancos Centrais, como o Banco Central Europeu, o objetivo não declarado de forma direta é o da moderação salarial (o preço do trabalho, que incorpora o preço de todos os bens). A moderação salarial passa pela contenção salarial, nomeadamente por via da redução dos salários reais, com vista a garantir que o crescimento dos salários seja inferior ao da produtividade do trabalho, garantido assim a transferência dos ganhos de produtividade do trabalho para o patronato. A consolidação orçamental também contribui para este objetivo, por via da compressão dos salários da função pública, contribuindo assim para um menor denominador comum no crescimento dos salários.
.
A desregulamentação do mercado de trabalho visa um duplo objetivo (como está patente, por exemplo, no nosso código de trabalho): dar liberdade ao patrão para usar o trabalhador de forma a potenciar um aumento da intensidade de trabalho hora (aumento do tempo de trabalho, adaptabilidade do tempo de trabalho ao ritmo e uso das máquinas, aumento dos ritmos de trabalho, etc.) e tornar mais simples «descartar» o trabalhador, ou melhor, pô-lo em stock, não só para suprir necessidades futuras, como por via do desemprego e da precariedade dos vínculos laborais (cada vez mais a prazos curtos e de formas atípicas), criar as condições necessárias para manter a moderação do crescimento dos salários (à boa maneira da lei da oferta e da procura, se oferta é superior à procura a tendência é para os preços baixarem).
.
Por último, o comércio livre, ou melhor, a liberalização do comércio internacional promovida pela OMC, a que se junta a libertina circulação de capitais. A concorrência internacional tem provocado uma redução dos preços de vendas em diversas coisas úteis, mas também em bens de produção (máquinas, ferramentas, etc.). A libertina circulação de capitais permite a deslocalização de capital para locais onde o custo de trabalho é mais barato, onde os salários são mais baixos. O capital põe assim em concorrência os trabalhadores dos vários países, potenciando o stock de mão-de-obra e por essa via aumentado a pressão para a moderação dos salários a nível internacional. Mas a desvalorização dos salários também ocorre por via do barateamento de coisas úteis que formam os salários de subsistência de outros, noutros locais, noutros sectores de atividade.
.
Todos os princípios concorrem para o mesmo objetivo - reduzir os custos unitários do trabalho, maximizar a apropriação do valor excedente (mais-valia) produzido pelos trabalhadores, maximizar lucros. É tão simplesmente isto que se quer quando se fala da sacrossanta competitividade ou da impenetrável globalização...
.
Se a luta do patrão é pela obtenção de lucro pela maximização do trabalho não-pago, a luta do trabalhador é exatamente a oposta, reduzir o tempo de trabalho não-pago, por via do aumento do salário (o que contribui também para a compensação salarial total, que contém as contribuições para a segurança social, que formam o «salário» na reforma) e/ou pela redução do horário de trabalho (com vista a garantir o direito ao lazer).
.
E o resultado da luta dependerá, como sempre do grau de organização e unidade dos trabalhadores. O patronato sabe-o. Tão verdadeira como a máxima popular «dividir para reinar» é a certeza que «o povo unido jamais será vencido». Como alguém escreveu há mais de 160 anos: «Proletários de todos os países UNÍ-VOS». Esta é a condição sine qua non...
.
Nota: Este artigo teve como base uma intervenção do autor no debate «salários vs crise», organizado pela União dos Sindicatos do Porto, no dia 18 de Dezembro de 2009.
.
Porto, 26 de Janeiro de 2010
[*] Pedro Carvalho, economista, é colaborador de odiario.info [voltar]
.
Reproduzido de www.odiario.info
Esta página encontra-se em www.cecac.org.br
07/fevereiro/2010
.