Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 21 de outubro de 2017

Cantigas de Amigo musicadas




São nalguns casos sonoridades diferentes, tentativas de reconstituir tempos em que a vida, embora também violenta, pareceria (es)correr mais lentamente



Natália Correia, Amália Rodrigues & Ary dos Santos - Cantigas d'amigos - Todos os poemas são extraídos da antologia "Cantares dos trovadores galego-portugueses", actualizada pela mão de Natália Correia (publicada em 1970) e ditos ou pela própria e por Ary dos Santos, ou cantados por Amália, com musica original de Fontes Rocha (excepto "Ermida de São Simeão", musica de Alain Oulman



Natália Correia - Cantigas de Amor e de Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses
- versão recriada por Natália Correia - 1974

- Osoir'Eanes - Cantiga de Amor
- Rui Fernandes - Cantiga de Amor
- Bernardo de Bonaval - Cantiga de Amor
- Pero da Ponte - Cantiga de Amor de Refrão
- Gil Perez Conde - Cantiga de Amor
- João Garcia de Guilhade - Cantiga de Amigo
- Pero Gonçalves de Porto Carreiro - Cantiga de Amigo
- Pero Meogo - Cantiga de Amigo
- Paio Gomes Charinho - Cantiga de Amigo
- Aires Nunes - Cantiga
- Nuno Fernandes Torneol - Cantiga de Amor de Refrão
- João Airas de Santiago - Cantiga de Amigo (Pastorela)
- D. Dinis - Cantiga de Amor de Refrão
- D. Dinis - Cantiga de Amor de Mestria
- D. Dinis - Cantiga de Amigo
- D. Dinis - Cantiga de Amigo
- D. Afonso Sanches - Cantiga de Amor
- Mendinho - Cantiga de Amigo

Edição Guida da Música, Disco Falado e Sassetti.

















Pedro Barroso - Cantigas d'Antiguidade - 1984



1973 - Luís Cília - "Cantiga de amigo" . poema de Ary dos Santos


"Lelia doura" de Pedro Eanes Solaz


Bailad' hoje,ai filha" de Airas Nunes 


Ai flores do verde pinho" de D.Dinis 


 "Ma madre velida" de D.Dinis




Levantou-s'a velida" de D.Dinis

José Mário Branco do EP - «Seis Cantigas de Amigo»*1967 
*Este é o primeiro disco de José Mário Branco, que como vem descrito na capa, tem Sérgio Godinho como 2º viola e pandeireta (primeira gravação em disco também para ele) e Raymond Guyot na flauta.


 "Ay eu coitada"  - D. Sancho I


"Ondas do mar de Vigo" - Cantiga de Martin Codax (Sec. XIII)




 "Vayamos irmana" -  Fernando Esquio (Séc. XIII) 


 "Ai flores do verde pino"  - D. Dinis  (1280-1325) 


"En Lixboa sobre lo mar"  - João Zorro (Séc. XIII) 


 "Mandad'ei comigo" -  Martin Codax (Sec. XIII) 


"Cantiga 100"  - Alfonso X El Sabio (Sec. XIII)  


"Cantiga 322" - Alfonso X El Sabio (Sec. XIII) 

"La Batalla" & Pedro Caldeira Cabral -  do disco "Cantigas D'Amigo" (1984)
Arranjo e direcção musical de Pedro Caldeira Cabral.

[...o grupo La Batalla foi criado em 1984, inserindo-se então no projecto de animação cultural e reutilização funcional do Museu do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha. O grupo têm-se dedicado desde o seu início exclusivamente à interpretação de música medieval de carácter secular, com especial destaque para o repertório dos trovadores e jograis galaico-portugueses...] 



Zedotelhado2009
Publicado a 01/03/2010
Zeca Afonso - Traz outro amigo também - Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu STAT 005) - 1970


domingo, 2 de dezembro de 2012

Joaquin Díaz - En el campo nacen flores




Carregado por  em 07/08/2009
Não existe nenhuma descrição disponível.


De mi Album de Recuerdos
EN EL CAMPO NACEN FLORES

En el campo nacen flores,
y en el mar nacen corales.
En mi corazón amores,
y en el tuyo falsedades.

En el campo, entre las flores,
te busqué y no te encontraba.
Cantaban los ruiseñores,
y creí que me llamabas.

Ya no quiero que me quieras,
ni me tengas cariño.
Sólo quiero que recuerdes
lo mucho que te he querido.


http://www.funjdiaz.net/letras.cfm?categoria=31

domingo, 29 de abril de 2012

José Ramos Tinhorão - 100 anos de Nelson Cavaquinho - 29 de outubro de 2011



Agora em outubro, serão lembrados os 100 anos de Nelson Cavaquinho, uma das maiores expressões da nossa música, “reconhecido oficialmente como gênio” - nas palavras de José Ramos Tinhorão.
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Para homenageá-lo, trazemos duas das mais significativas e inspiradas visões sobre o grande criador: um texto de Tinhorão e um documentário de Leon Hirzman. E também acrescentamos duas de suas mais conhecidas composições: “Juízo Final” e "A flor e o espinho".
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O texto do pesquisador e jornalista foi escrito para sua coluna no Caderno B do Jornal do Brasil (4/1/1974), quando do lançamento do disco de Nelson e o documentário “Nelson Cavaquinho” foi filmado em 1969 por Leon Hirzman (documentário apresentado em dezembro de 2010 no CeCAC, em nossa confraternização de final de ano e como registro e homenagem ao Dia Nacional do Samba - 2 de dezembro).
A boa palavra de Nélson Cavaquinho [*]
José Ramos Tinhorão
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Nos últimos anos, com a descoberta dos grandes criadores das camadas populares por parte da juventude de nível universitário, o compositor Nélson Cavaquinho passou a ser reconhecido oficialmente como gênio.
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Essa fama, porém, começava a perigar porque, apesar da legenda criada em torno da figura do curioso trovador de cabelos brancos faltava uma prova em disco. É essa prova que a Odeon vem oferecer agora com o seu LP Nélson Cavaquinho (smofb-8 809), e que constitui, mais do que um documento de genialidade, uma obra de amor. Pela primeira vez em seus quarenta anos de compositor, Nélson Cavaquinho é tratado com a compreensão e o respeito que o seu rústico talento merecia - e estava precisando. Sustentado pelos arranjos discretos dos maestros Gaia e José Briamonte, que em nenhum momento pretenderam ser mais brilhantes do que o compositor, sua voz rouca e seu estranho violão desafiador de todas as escolas podem enfim mostrar que quando o talento é grande, não há fórmulas ultrapassadas. A de Nelson é o velho samba lírico, construído sobre rasteiras e vigorosas experiências vitais, resultadas de toda uma existência aberta às sugestões da frustração e da incerteza, mas também da coragem e da poesia.
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Logo na primeira faixa do disco (samba Juízo Final em parceria com Élcio Soares), o compositor oferece uma prova disso quando canta - com um otimismo que situa simbolicamente o povo muito acima do medo e da falta de horizontes que assustam as estruturas - "O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente". Com um profundo sentido metafísico da necessidade de viver - pois que viver é, afinal, o ofício do homem - Nélson Cavaquinho mostra que nessa tarefa é sempre preciso fazer uma escolha, e mesmo quando ela deve ser feita entre o bem e o mal, enquanto houver esperança, ninguém se perderá: "Nunca é tarde prá quem sabe esperar/O que se espera há de se alcançar/Eu plantei o bem e vou colher o que mereço/A felicidade deve ter meu endereço". (O Bem e o Mal em parceria com Guilherme de Brito). E o impressionante em Nélson Cavaquinho é que todas essas coisas são ditas musicalmente com uma extraordinária coerência: se a sua melodia é quase sempre repassada de nostalgia, o ritmo em que se apoia é invariavelmente vigoroso, como se estivesse querendo demonstrar, também em sons, que acima das incertezas da alma, ainda uma vez, está a necessidade da vida.
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Essa bela lição aos pobres e angustiados compositores jovens modernos - quase todos mascarando com a busca desesperada de novidades formais, a angústia existencial da classe média - é fornecida por Nélson Cavaquinho com a áspera rouquidão de uma voz que, há quase cinquenta anos, conhece o gelo de todas as cervejas e de todos os chopes do Rio de Janeiro, bebidos entre transbordamentos de poesia e espuma, em quantas madrugadas a boemia inventou como pretexto para ouvi-lo cantar junto aos balcões dos botequins.
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Para captar esse espírito que tão bem reflete a verdadeira alma do povo das cidades - e é desde a contracapa do disco magnificamente documentado do diálogo entre Nélson Cavaquinho e o jornalista Sérgio Cabral - a Odeon pode contar com o entusiasmo (e o amor) de um produtor paulista de vocação carioca: J. Botezeli conhecido como Pelão. Além de fazer o compositor gravar uma das faixas tocando o instrumento que lhe deu o apelido (Nélson toca ao cavaquinho o seu choro Caminhando, ao lado do estupendo violão de Dino), Pelão apresenta pela primeira vez em disco Guilherme de Brito, o mais constante (e verdadeiro) parceiro de Nélson Cavaquinho, o que acrescenta aos méritos do LP o caráter de um oportuno ato de justiça.
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No mais, o que se tem a dizer, é que o long play da Odeon Nélson Cavaquinho, constituindo o mais importante lançamento no campo da música popular brasileira nos últimos tempos, ganhou muito em ser lançado neste entremeio de tempo em que um ano termina e outro desponta: ele vem mostrar, com a força poética e a rude e inventiva música dos sambas do maior compositor das camadas mais humildes do Rio de Janeiro, que o tempo passa, mas o gênio criativo continua.
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[*] Texto publicado originalmente no Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, sexta-feira, 4/1/1974, página 2; extraído do livro"Tinhorão, o legendário" (Anexo X - pgs 227 a 230), de Elizabeth Lorenzotti, Editora IMESP, São Paulo, 2010
***
Confira também:
- Documentário "Nelson Cavaquinho", Leon Hirzman - www.youtube.com/...

***
- Juízo Final - www.youtube.com/...
Composição: Élcio Soares / Nelson Cavaquinho
O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
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- A flor e o espinho (com seleção de fotos) - www.youtube.com/... e (cantam Nelson Cavaquinho e Elizeth Cardoso - 1973) -www.youtube.com/...
Composição: Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Alcides Caminha
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu so errei quando juntei minh'alma a sua
O sol não pode viver perto da lua
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu so errei quando juntei minh'alma a sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha magoa
A minha dor e os meus olhos rasos d'agua
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
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Biogragia de Nelson Cavaquinho - www.samba-choro.com.br/...
***
***
Esta páginatra-se em www.cecac.org.br

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Alfredo de Matos Tributo ao meu amigo de sempre – Zeca Afonso



Avante! 
N.º 1995 
23.Fevereiro.2012


No 25.º aniversário da sua morte
Homenagem a Zeca Afonso


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(…) Fui um bom engenheiro 
um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida 
me ensinou a cantar esta cantiga
(Alegria da criação - José Afonso)






  • Alfredo de Matos 


Tributo ao meu amigo de sempre – Zeca Afonso
No 25.º aniversário da morte de José Afonso – o Zeca Afonso como lhe chamaram todos os amigos – o Avante! presta tributo ao compositor, poeta, cantor, militante insubmisso de causas justas, através do testemunho do seu amigo Alfredo Matos que tão bem o descreve como o que ele sempre foi: um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.
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Foi um momento particularmente emocionante quando o Zeca, perante insistência continuada, a que não resistiu, interpretou, naquele local, naquela Vila, naquele ano, àquela hora e para aquela imensa multidão, aquele libelo acusatório temível e sempre actual – «os Vampiros». Que noite inesquecível!
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Conhecemo-nos no início de 1967. Com frequência nos visitámos. Eu, na sua primeira casa, em Setúbal, o Zeca, na minha casa, no Barreiro e, aqui, conviveram, connosco, algumas vezes, dois grandes amigos comuns – o Carlos Paredes e o Adriano Correia de Oliveira. Momentos de conversa livre e amiga.
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Desenvolvemos uma amizade sólida, na base de imensas cumplicidades, à volta dos nossos ideais, principalmente. Esta relação levou a que o Zeca tenha aderido e participado, com grande entusiasmo, naquele memorável espectáculo, um autêntico concerto, talvez a maior e mais vibrante sessão de poesia e canto que encheu como um ovo o ginásio do Luso do Barreiro, no dia 11 de Novembro de 1967, um sábado, da iniciativa do Cineclube do Barreiro – cuja direcção, liderada por Álvaro Monteiro, viria, por esse motivo, a ser presa pela PIDE – e da Comissão Cultural do Luso. Este foi mais um dos momentos em que tomámos nas nossas mãos a procura da liberdade que o poder fascista nos negava.
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Adriano Correia de Oliveira não cantou porque, como explicou, estava na tropa. Odete Santos declamou poetas como António Gedeão e Manuel da Fonseca. Teresa Paula Brito interpretou Para Não Dizer Que Não Falei De Flores eespirituais negros. O virtuosismo de Carlos Paredes e Fernando Alvim em temas como Verdes Anos. Por fim, Zeca Afonso acompanhado à viola por Rui Pato. A apresentação, improvisada mas conseguida, esteve a cargo do barreirense Manuel Teixeira Gomes. Serviu de apoio à partitura com os textos do Zeca, o muito jovem, e meu filho, Vítor de Matos.
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Uma multidão, impensável, naqueles tempos e naquelas condições, repetia com insistência:
«Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros»«Vam-pi-ros».

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O Zeca não queria, resistiu até ao limite, mas era impossível não ceder ao pedido incessante da multidão. Todas as emoções transbordaram quando aquela Voz rompeu, como um grito, o momento de silêncio:

«No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada».

Ovação poderosa estalou na sala. E, em coro, todos, a uma voz, sublinham;

«Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada».

Estava a viver-se um impressionante e indescritível acontecimento, de grande impacto na região, que, num período de crescentes acções políticas oposicionistas, empolgou o começo da movimentação dos democratas para o intenso período eleitoral de 1969, em que, no Concelho do Barreiro, a CDE venceu, nas urnas, a União Nacional.
 *
 A 22 de Julho de 1970, Zeca dedicou-me «Por Trás Daquela Janela», Poema, por si criado e manuscrito, que posteriormente me entregou.
Estava eu, então, preso no Forte de Caxias. Foi em Maio daquele ano, no dia 3, que a PIDE assaltou, simultaneamente, no Distrito de Setúbal, de madrugada, oito casas, prendendo oito cidadãos: quatro, em Setúbal – Carlos Lopes, António Gonçalves, Fernando Carlos e Zacarias Fernandes. Um, na Moita – Staline Rodrigues. Um, em Alhos Vedros – Leonel Coelho. Dois, no Barreiro – Álvaro Monteiro e Alfredo de Matos.
Pelo Natal de 1972, este Poema, também com música do Zeca, de interpretação difícil como o próprio o referia, foi editado em disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira,que também incluiu a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961. Eis o que diz o manuscrito:

Ao Alfredo Matos

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Assina: José Afonso




Nas minhas cartas da prisão, à Eve, a minha companheira, dou-lhe conta das emoções ao ouvir aquela Voz, vinda de um gira-discos, que uma vez por semana, durante escassas horas, escutávamos intercalada com a voz de Paco Ibañez, de Jean Ferrat, de Léo Ferré, de Adriano Correia de Oliveira, de Beethoven… É a Voz. Aquela Voz. Nas cartas, eu ia escrevendo, frases espalhadas pelo texto que lá iam passando «… ondas eléctricas percorrem todo corpo, eriçando-lhe os pelos, tal pele de galinha, sensação que se vai repetindo, quando o nosso Zeca arranca o São Macaio… e, o Menino do Bairro Negro – Bairro, bairro negro onde não há pão não há sossego… e, Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar… e, Os Vampiros – No céu cinzento sob um astro mudo. Ao ecoar Maio Maduro Maio, o silêncio suspende a nossa respiração»





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No 1.º de Dezembro de 1970, no Forte de Caxias, escrevinhei um texto como se fosse um poema, dedicado ao Zeca, que dele nunca teve conhecimento, talvez porque o achei de valor muito reduzido, mesmo pobre, embora com algum simbolismo pelo lugar e condições em que foi criado. Ei-lo:

Um dia golpearam o pé da flor
Mas a criança agarrou a flor
Que voltou a dar pétalas garridas
Com um perfume ainda mais doce

E a flor se fez árvore

Depois negro vendaval
Arrancou seu forte tronco…
Mas vieram as crianças
As Mulheres e os homens
Que voltaram a plantar a árvore
Que voltou a dar flores e frutos
Para as crianças
As mulheres e os homens.

E a árvore se fez bosque…

Aqui chegou o poeta…
Não há melhor melodia
Que esta faca afiada
Que este golpe de martelo
Que um vagido de criança

Treme a terra bem no fundo de nós
Acordam os Poetas
Os soldados erguem as armas
Galgam as águas dos rios
Rasgam as aves o céu…

Ouvi a sua voz
É Portugal que canta
É Portugal que está no seu poema
E a alegria volta cheia de música
Trova. Balada. Canção
O Poeta canta a vida da gente
Pescador. Camponês. Resineiro. Soldado
Poeta. Operário. Ceifeira. Doutor

Tudo é vida no seu canto
Flor. Árvore. Fruto. Pedra
Tudo em ti é movimento

Rei que tu não foste sendo
Ao teu País dás o teu grito
Há uma nuvem de gente no teu canto

Na tua voz há festa
Tem raiva o teu cantar
Há amor e esperança nas tuas Palavras
É Portugal que está no teu Poema
É Portugal que está na tua voz.

Dedicado à minha irmã, Conceição – presa em 1965, depois em 1968, activista política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel – o Zeca escreveu um poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. A letra, que ataca explicitamente a PIDE em homenagem a uma combatente expressamente nomeada, nunca chegou a ser gravada. Ei-la:

À Conceição Matos
Na Rua António Maria
Da Primaz Instituição
Vive a Maior Confraria
Desta válida Nação

E muita matula brava
Ainda pensava
Que havia de vir
Um dia assim de repente
Para toda a gente
Voltar a sorrir

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Na Rua António Maria
Convenha a todos saber
A patriótica espia
Sabe bem onde morder

Vela pela vossa morada
No vão duma escada
Sem se anunciar
E oferece a quem bem destina
Um quarto de esquina
Com vistas pr`ó mar

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Tem quatro letras apenas
Mas outro nome lhe dão
Nesta Fortaleza antiga
Só não muda a guarnição
E muita matula ufana
Cuidado que a mana
Morrera de vez
Deu graças à Dª. Urraca
Ao som da ressaca
Que o pagode fez

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Aldeia da roupa branca
Suja de já não corar
O Zé Povo foi à França
Não se cansa de esperar

O capataz de fazenda
Pôs a quinta à venda
Para quem mais der

E os donos marcaram tentos
Com novos inventos
Doa a quem doer

Assina, Zeca Afonso

Sem que jamais cesse, a minha admiração pelo Zeca – é assim o trato, que eternamente se manterá, quando citado – assenta, ainda, na sua qualidade impar de criador de poesia e de músico, de compositor de génio, sempre irrepetível, de ser o seu próprio e maior intérprete e também pelo seu carácter íntegro, generoso, leal, solidário. Zeca, um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.


O Zeca em Setúbal

O Zeca Afonso foi um dos fundadores e animadores do Círculo Cultural de Setúbal, como é sabido. Mas um dos locais privilegiados da sua actuação, assim como de muitos outros cantores e fadistas amadores, era a catedral da «conspiração» comunista, a «Academia Sapec», a taberna do nosso camarada Jerónimo Bárbara – o Sapec –, aberta há 43 anos, e que hoje, desde o seu falecimento, é o Restaurante Egas, mantendo persistentemente todos os domingos uma noite de fado.
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Não é por acaso que o «Egas» é fiel depositário de uma reprodução do Avante! nº. 48, de Agosto de 1937, onde há um texto intitulado «O FADO E O FACISMO».
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Curiosamente, na noite de 15 de Fevereiro passado, dia em que o Avante! fez 81 anos, a neta do Sapec, Carolina, leu entre acordes «A morte saiu à rua», grito de José Afonso contra o assassinato de José Dias Coelho, a 19 de Dezembro de 1961  [1].


Enviado por  em 10/06/2010
José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961, morto pela PIDE) foi   um artista plástico dirigente do Partido Comunista Português, assassinado pela PIDE.



Uma das mais belas canções de Zeca Afonso em louvor de Catarina Eufémia, trabalhadora rural, de Baleizão, militante do PCP, assassinada pela Guarda Nacional Republicana quando em greve com um rancho de ceifeiras quando reivindicavam trabalho e aumentos salariais


O assassinato levou Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música: A morte saiu à rua. 




Poema de Luís de Camões musicado por José Afonso.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Urariano Mota: carnaval em três dias


21 DE FEVEREIRO DE 2012 - 11H47 


Página Inicial

No primeiro deles, era domingo de carnaval 1958 em Água Fria. Ali, em frente ao Cinema Império, no largo do bairro, passavam mulheres, meninos, homens, piratas, colombinas, vedetes, palhaços, toureiros, zorros, ursos, lança-perfumes, bisnagas, perfumes, promessas de corpos nus que não podíamos pegar. 

Por Urariano Mota





Havia um suor bom onde se colavam os confetes, umas peles abrasadas, uns sovacos mal raspados que eram em si mesmos fetiches do sexo feminino, esbarrando-se num fogo que desejava a tudo queimar, ardendo até a alma pobre da gente.

Era uma explosão de braços e pernas no frevo, uma multidão revolta, uma humanidade negra, mulata, branca, revoltada, que se anunciava, e não sabíamos: atenção, menino, atenção, infância: “nós passaremos”. 

Acaso sabíamos que nem sombra de sêmen e amor restaria no corpo imperioso, flamante daquela mulher endemoninhada? Que suas coxas não seriam eternas, sabíamos? Ah, mas pressentíamos, e sem ciência aprendida, somente com o saber da urgência do nosso sangue, com a percepção transmitida de gente a gente, que corria a multidão, que vem de gerações desde que o homem se fez na terra, gritávamos:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia....” 

Então vinham os acordes, letais. Que em letras de fogo deveriam estar gravados.


No segundo dia, é segunda-feira de carnaval em 2005. Eu me recupero de uma cirurgia, que se não foi ruim, fora ruim sem dúvida. Sentado espiono os blocos que passam na rua. O som dos metais, o chamamento à desordem é uma ordem lá fora. As fantasias e os mascarados passam como os navios e os trens passam, como o gozo proibido e negado passa. A música do frevo estoura em todo o ar e paisagem como uma perseguição. Assim sentado, sinto-me como o personagem de Hitchcock, o fotógrafo Jeff, de Janela Indiscreta.

A vida é irônica. No fim de 2004, eu havia dito à mulher e aos filhos, como todos os anos repito e reclamo: “O próximo carnaval eu não brinco. Chega! Quero distância desse barulho”, e a trincar os dentes acrescentara, como todos os anos: “eu não suporto mais tamanha agitação. Chega!”. Deus me ouviu. À sua maneira me ouviu: aqui estou, longe da folia, conforme o desejo inicial, mas sob estrita recomendação médica, incapaz absoluto de pular, de saltar, tão frágil quanto o homem de vidro, aquele em que se transformou O licenciado Vidraça, de Cervantes. “Este ano eu não brinco”, dissera, e os deuses me ouviram. Então ouço uma canção na rua, “neste carnaval, quá-quá-quá-quá, meu prazer é gargalhar”. 

Ouvia isso e o paradoxo vinha: agora que não podia sair, brincar, pular, beber, beber até cair, agora que estava na paz do recolhimento, agora que ganhava o privilégio de ser evitado pelos alegres foliões, justamente agora sentia uma falta extraordinária de carnaval. No momento em que podia ficar em casa a ler e a ouvir música suave, ah, como desejava “Olinda, quero cantar”, como me acendia o desejo de estar na multidão, com os metais a gritar o mais alto frevo, ah, como desejava receber cotoveladas e empurrões à altura do rim, da cicatriz no ventre! Ah, como e quanto desejava mergulhar de cabeça no álcool, na cachaça, no sol quente, no azul luminoso, mergulhar até virar éter, lança-perfume, porque forte era a consciência do quanto breve e estúpida era, é a nossa existência. 

Agora, hoje, no terceiro dia são vésperas do carnaval de 2012. A casa se enche de máscaras, coroas de pano de rei, coroa de latão de rainha. E mais licor de jenipapo, de caju e de laranja-cravo. Um filho chega do Rio, louco e ansioso por Olinda, a filha vai para um bloco de jovens na Cidade Alta. À minha revelia, a senhora esposa é toda preparação para os urgentes, alegres e felizes três próximos dias. Por mim, não, eu não brincava, sem dúvida. Por mim, eu me recolhia para altos estudos, leituras, silêncio e meditações. Mas como vou decepcioná-los? É coisa muito feia atrapalhar a felicidade dos outros. E depois, não sou mais, como antes, um convalescente sem câmera a imitar o fotógrafo de Janela Indiscreta. Chega. Por enquanto, a fantasia é outra.

*Urariano Mota é jornalista e escritor

Fonte: Direto da Redação