Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sexta-feira, 27 de março de 2009

80.º aniversário do nascimento de Michel Giacometti



O corso que descobriu Portugal

Michel Giacometti nasceu em Ajaccio, Córsega, em Janeiro de 1929 e veio a falecer em Faro, em Novembro de 1990. Nesses 61 anos que durou a sua vida – tão breve para os seus amigos que profusamente criou, manteve e deixou em Portugal – mais de metade viveu-os no nosso País, numa permanente aventura de descoberta.

Não nos perguntamos o porquê dessa escolha de um francês – ele preferia apresentar-se como corso e insistia nisso, sugerindo-nos logo uma lição étnica e cultural que era facilmente assimilável, pois a sua pronúncia clássica de francófono não encobria o carácter mediterrânico que lhe transparecia no humor sarcástico e cortante, na afabilidade do trato, na imaginação pouco dada ao raciocínio abstracto, na modéstia que nunca alardeava os seus títulos académicos, mas que se rompia ao contar os episódios de uma recolha de canções, de uma viagem duríssima através da paisagem lusa que o encantava.

Se insistíssemos, saberíamos que se licenciara na Sorbonne, em Paris, que fizera um doutoramento na Suécia. Mas o traço que o distinguia logo nas primeiras abordagens, era o de um profundo apego ao trabalho e de uma facilidade afectuosa com que estabelecia relações com o povo. Avesso ao populismo, tratava naturalmente, de igual para igual, o povo mais pequeno, ao mesmo tempo que sabia impor, também naturalmente, o respeito pelo trabalho que desenvolvia. Num barracão desolado onde se reuniam as vozes para um coro, o silêncio estabelecia-se rapidamente entre todos, quando ele anunciava «Vamos gravar».

E as vozes desatavam-se então, e vibravam, e erguiam-se da terra e da história para que perdurassem e se registassem na memória e não se perdessem nas evoluções e revoluções da vida e do tempo.

Vozes dos princípios

Fiquemo-nos então pelo mistério dessa escolha. Portugal por quê? Pouco importa. Dê-se de barato que o itinerário que o trouxe, no trilho da mulher que conhecera em Paris e que voltara a Portugal, lhe fez deparar com um país siderado no tempo anacrónico do fascismo, onde perduravam nos campos antigas relações de produção, onde o atraso impunha ainda o uso de velhas alfaias, onde as vozes transportavam ainda canções e modas antigas. Profundo conhecedor da etnologia europeia e das ligações que unem os povos num tronco comum de antigos mitos, lendas e costumes, Giacometti terá encontrado nestas terras do ocidente europeu – a face da Europa, como lhe chamava Camões – um terreno virgem a desbravar.

Tratava-se de um terreno duro de conquistar. Com aldeias e povos isolados, sem meios de comunicação fácil, estradas arruinadas ou incipientes, trilhos pedregosos, lonjuras num país tão pequeno. Em finais dos anos 50, o jovem Michel encetou a viagem. Começando pelo princípio.

É assim que descobre Rio de Onor, aldeia do extremo Norte de Trás-os-Montes, onde perdura o comunismo primitivo, com tarefas colectivas indicadas e partilhadas por todos os vizinhos, com as suas punições decididas em plenário e registadas numa vara. A pé ou no dorso de um burro ou de uma mula que lhe transporta os instrumentos de trabalho, o precioso gravador profissional, pesadíssimo no seu estojo de couro, a bela e dispendiosa máquina fotográfica em que registou imagens desconhecidas nos centros urbanos do litoral – um espigueiro, trabalhos agrícolas, alfaias e, sobretudo, gente, velhos sobretudo, a pele sulcada pelas rugas impressas do tempo que passa acidamente, e jovens que se vão tornando mais raros na paisagem, que a emigração está aí a desertificar o País – a viagem demora-se.

É certo que o acompanha o valioso mapa que é o trabalho de um outro etnólogo, o português Leite de Vasconcelos, cuja obra, realizada muitas décadas antes, Giacometti conhece, e o ajuda na descoberta e na confirmação de lugares, usos, falares, tradições. Depois há a colaboração preciosa de Lopes-Graça, cuja pesquisa no campo da música tradicional portuguesa é vasta e se reflecte fortemente na própria obra do compositor.

Arquivos Sonoros Portugueses

Entre ambos estabelece-se cedo, para além do reconhecimento mútuo do valor do trabalho de cada um, uma amizade duradoura. Colaboram. Estabelecem planos. E fundam, logo no princípio dos anos 60, os Arquivos Sonoros Portugueses, que editam o registo das vozes do País.

Sem esse registo seriam hoje os portugueses muito mais pobres. Teriam perdido o que é fundamental para a compreensão da Pátria, para o enraizamento na identidade do povo que somos, da cultura que criamos ao transformar o mundo.

Os registos das vozes do povo, saídos do trabalho de Michel Giacometti e das suas viagens profundas ao País, são assim divulgadas e levam ao reconhecimento desse trabalho e do seu autor. Giacometti torna-se então numa referência da cultura portuguesa. Vozes encerradas nas tradições que esmorecem com a diluição de um mundo rural na complexidade e vastidão de um outro mundo – urbano e industrial – que já começou, libertam-se e invadem a urbanidade do quotidiano. Giacometti ensina Portugal aos portugueses e são muitos os jovens que aprendem a lição. Não é de excluir que o gosto e a escolha pelas disciplinas antropológicas – etnografia, etnomusicologia, etc. – tenham sido gerados no conhecimento de uma obra de pesquisa e de divulgação levada a cabo por um corso que descobriu Portugal e que fez questão de o dar a conhecer aos portugueses.

Um adufe vibra mansamente, acompanhando melodiosas cantigas da Beira-Baixa. Um grito de um homem, ao sol, guiando bois atrelados a uma velha charrua precede uma canção de trabalho. A claridade da bela aurora levanta-se da planície alentejana na música quase gregoriana de um coro. Michel Giacometti experimenta o microfone, regula os graves e os agudos, a atenção focada na qualidade do som apreciada nos auscultadores, levanta um braço. «Vamos gravar», diz.

O primeiro contacto

Estamos em Granja de Mourão. Ou ali perto, na Amareleja. A memória já não é o que era, e já lá vão quarenta e cinco anos. Era um domingo de festa, no Verão. A terra em volta ondulava sob o sol, tons de veludo ferroso, quase púrpura, laivos de camurça, amarelos escuros. No centro da povoação, como é costume nas terras raianas do Sul, houve tourada à vara larga, o bicho foi morto por um rapazola espanhol, trajado de luces. E esquartejado ali mesmo, pedaços de carne escura e sangrenta distribuídos pelo povo, embrulhados em jornal velho. Giacometti, a quem toda a gente chamava familiarmente Michéli, sentava-se numa roda. No meio, numa pequena fogueira de brasas, assava-se os pedaços de novilho, mastigava-se a carne e as fatias de pão, a festa esmorecia enquanto o crepúsculo se fazia anunciar numa lufada de ar fresco prenunciadora do Outono. O céu avermelhava para Ocidente. Ajudada pelo vinho, a conversa ruidava. De repente o tom baixou, as vozes calaram-se. «Vem aí o Regedor», murmurou um homem, manipulando os pedaços de carne extraídos das brasas.

Era assim, nesses tempo de fascismo. Os olhos e ouvidos da ditadura estavam em toda a parte e o Alentejo era especialmente vigiado, tal como as fábricas e as zonas urbanas mais pobres do litoral. Giacometti explicava que nas terras da planície era mais difícil estabelecer os primeiros contactos entre o povo, alguém de fora era visto como um pide, até «provar» o contrário nos modos, na conversa, sobretudo nas possíveis «apresentações» que funcionariam como «credenciais». Ainda assim, a sua qualidade de estrangeiro, de francês, facilitava-lhe o contacto. E as pessoas, abrindo-se ao afecto natural, lá iam contando as suas vidas, arriscando mais tarde as suas queixas e, depois, adiantando-se a mostrar de que lado estavam: «O regedor é da PIDE», avisavam.

Olhado com suspeita pelo regime, Giacometti era vigiado. Mas descobria, nas suas «expedições», de Norte a Sul, a aberta por onde o deixavam passar. Aqui servindo-se de um cura reaccionário mas de alguma cultura, cuja vaidade o impelia a mostrar a monografia de que era autor; ali usando a presunção saloia de um latifundiário que pretendia mostrar que também sabia falar francês e lhe abria o caminho para uma visita à herdade – uma vez foi dar com um estábulo em cujas paredes desvendou, sob a cal que a cobria, um fresco do século XVIII –; acolá dirigindo-se mesmo às «autoridades» que se desvaneciam perante um estrangeiro que pretendia gravar as «modas» da terra.

Nesse fim de tarde, ele contaria como demorara ali três dias a conquistar a confiança dos trabalhadores rurais. E que a gravação estava apalavrada para essa mesma noite. O dia de festa começou com um peculiar mata-bicho – tomate borrifado com sal grosso e, por cima, um «anis de terceira». Na garrafa, a marca «El Mono» dizia da proveniência espanhola da bebida forte e demasiado doce. De tarde, antes da tourada, houve missa, e o Michel lá foi entrando na pequena igreja, não tanto para salvar as aparências como por curiosidade. O templo estava vazio, à parte meia dúzia de velhas que seguiam o latinorum da missa. Cá fora, o povo juntava-se e comentava gracejando a homilia do padre. De repente, uma abada de chuva, aguaceiro de fim de Verão, rebentou fortíssima, e toda a gente entrou de roldão raspando com as botas as lajes da igreja. «O Alentejo é assim», comentou Giacometti, chamando a atenção para o facto de a religião não entrar facilmente na consciência do povo, que não casava, mas «fugia e juntava-se», que não ia à missa, que era coisa de lavradores e de velhas. O povo tinha outros rituais, como o dessa noite, em que as vozes de um coro, à palavra «Vamos gravar», começou a cantar:

Não sei se é por serem voltas do Entrudo
Acho o meu amor demudado em tudo
Demudado em tudo, demudado em nada
Não sei se é por serem voltas de entrudada…

Um caminho áspero

Ao escolher Portugal para lugar e âmbito do trabalho da sua vida, Michel Giacometti meteu-se em verdadeiros «trabalhos». Olhado suspeitosamente pelo fascismo – e a esta situação não era alheio o facto de colaborar estreitamente com um comunista, Fernando Lopes-Graça, que só a projecção internacional da sua obra impedia o regime de o encarcerar eternamente – o etnógrafo corso estava excluído de qualquer apoio financeiro oficial. Algumas vezes, o seu precioso e caríssimo gravador profissional foi posto «no prego» para que Giacometti pudesse subsistir ou arranjar provisoriamente fundos para continuar a trabalhar.

O 25 de Abril, a que ele aderiu profundamente e lhe fez renascer as esperanças no prosseguimento dos seus projectos, porém, não desmantelara o Estado fascista nem a sua burocracia. A somar a isto, o PS, que se abarbatou com as rédeas do poder – e já as detinha mesmo antes do golpe de 25 de Novembro em algumas áreas, nomeadamente da Cultura – não via com bons olhos as afinidades culturais e políticas de Giacometti com a prática e o projecto do PCP. A discriminação continuou…

Isto é, para além da perseverança no desbravar literal de caminho, à descoberta das raízes culturais de um povo, o etnógrafo teve de recorrer ao melhor dos seus esforços para não desistir dos seus sonhos e planos.

E não desistiu. Mas não deixamos de recordar a amargura e a apreensão com que, nos anos 70 já avançados, ele via o tempo correr e o Estado recusar-lhe a aquisição dos arquivos sonoros laboriosamente recolhidos – sujeitos à deterioração e consequente apagamento definitivo se as fitas gravadas não fossem recuperadas e conservadas com meios técnicos adequados. A sua preocupação era deixar ao Estado português – e não a um qualquer particular ou fundação privada – o resultado de um labor que dizia respeito no fundamental ao povo deste País que a vida e a sua escolha fizera praticamente seu.

A história da instalação do Museu do Trabalho, em Setúbal, é particularmente «rocambolesca» e Giacometti não chegou a ver a concretização deste sonho. Um livro da autoria de Jorge Freitas Branco e de Luísa Tiago Oliveira, assim como o testemunho de um camarada que de muito perto seguiu o projecto, documentam bem os escolhos atravessados no caminho áspero da concretização do Museu que hoje pode ser e é visitado por milhares de pessoas.

Francisco Lobo, o camarada que presidiu à Comissão Administrativa Democrática que substituiu a Câmara fascista de Setúbal a seguir ao 25 de Abril, também esclarece, num artigo de opinião publicado em 1995, no jornal O Setubalense, sobre as vicissitudes da instalação do Museu. Giacometti doara o espólio ao Município de Setúbal por verificar «a dedicação que a então administração autárquica atribuía à Cultura», escrevia na altura. E recordava o facto de que Giacometti lhe confiara que pensara primeiramente doar esse espólio ao Inatel – e que o não fizera «porque aquela instituição se afastara das suas obrigações para com os trabalhadores». Giacometti fora, aliás, afastado, por razões políticas e ideológicas, do Inatel, dominado desde cedo pelo PS. O espólio foi, enquanto se aguardava a cedência de um lugar definitivo, por parte da Misericórdia de Setúbal, exposto provisória mas dignamente em instalações próximas ao Convento de Jesus. Mas a Misericórdia recuou na cedência do espaço e, quando o PS tomou conta da Câmara, as peças foram retiradas e armazenadas sem condições numa arrecadação onde se mantiveram longo tempo, sem catalogação devida. A política de direita não se limita a destruir os direitos económicos e sociais dos trabalhadores. Também pretende apagar-lhes a memória…

Memória e gratidão

Um etnólogo trabalha sobre a memória de um povo e deixa-lhe a memória de si mesmo. Ao descobrir Portugal, Michel Giacometti desvendou para todos nós as memórias ainda retidas nas populações do País, memórias orais transmitidas de geração em geração através de contos e mitos; costumes e usos, imagens de trabalho e de festa, músicas e canções em que se inscrevem as penas e alegrias e esperanças populares.

Através do seu trabalho aprendemos então e aprendemos hoje de onde viemos, as palavras e formas que nos construíram. Desvendou para todos um país que ignorávamos e que muitos ignoram ainda. E, aprofundando o seu trabalho, relacionamo-nos com povos diferentes, que partilham connosco, em formas parecidas ou aparentemente afastadas, a mesma humanidade.
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Ao amigo que ele foi de tanta gente – para além da fraternidade que o caracterizava e que fez dele um intelectual revolucionário cujo ânimo era o de transformar o mundo que entretanto ia conservando para que o futuro não se desgarrasse do que aspiramos a ser – a gratidão que lhe devemos e exprimimos é a de conservar o seu trabalho como se da sua própria memória se tratasse. No correr da vida – já passaram quase vinte anos sobre a data da morte do Michel – todos desapareceremos, menos os que, como marcos valiosos de um tempo e de um trabalho, ganham um lugar como o dele. O lugar de um descobridor.


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in Avante 2009.03.26



Outros Títulos:
O camarada Michel
Datas para evocar o francês corso

«Leva a luta até ao voto»
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domingo, 7 de setembro de 2008

A Revolução Francesa de 1848





























A primeira afirmação revolucionária com propostas próprias, do proletariado


Há 160 anos, por quase toda essa Europa, teve lugar um diversificado processo revolucionário do qual sobressaiu a Revolução de 1848, em França. Embora, nesse ano, a Revolução de Paris não tivesse sido nem a primeira, nem a derradeira, ela foi, no entanto, a mais importante na medida em que, pela primeira vez, surge o proletariado como força revolucionária autónoma e com propostas próprias, no decurso da Revolução, a qual, como todas as revoluções, se inscreveu naquilo que Karl Marx considerou «as locomotivas da História».
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É, pois, um pouco dessa História que, aqui, passados 160 anos, se recorda em memória dos seus heróis e mártires – «cerca de 4000 mortos e 15 000 prisioneiros» –, na certeza de que, como referia Karl Marx, «Uma nova revolução só é possível na sequência de uma nova crise. É, porém, tão certa como esta».
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As causas foram muitas, tendo em consideração o contexto político, económico, social e cultural de cada império, Estado, nação e região.
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É preciso não esquecer que na altura não existiam, enquanto estados, aquilo que, a título de exemplo, hoje são a Alemanha e a Itália, uma e outra, sobretudo a Alemanha, polvilhada de reinos, principados, ducados, bispados e cidades livres. Na Itália, outra manta de retalhos, havia ainda essa reminiscência medieval que era o Estado da Igreja. O império Austro-Húngaro, que só desabou após a 1ª. Guerra Mundial, era um verdadeiro mosaico de nações e de povos que aspiravam à sua independência, o mesmo acontecendo aos territórios debaixo do domínio Otomano. Mais a Leste havia o poder reaccionário do czar da Rússia, com quem se ajustou contas em 1917.
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Havia, pois, aspirações nacionalistas a fervilhar, como havia um sentimento generalizado de pôr termo aos restos do feudalismo, a par da exigência de constituições, mesmo que a condição de eleitor estivesse restringida apenas a elites, às pessoas que provassem ter um certo rendimento, constituições essas que regulassem, pela Lei, mesmo que limitada, as relações sociais em detrimento da vontade autocrática do rei, do príncipe e da igreja, objectivos em grande parte almejados sem a consciência plena de que a liberdade dos povos passa pela liberdade da classe operária.
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Para além das aspirações nacionalistas e do protagonismo da burguesia criado pela revolução industrial, havia também um forte descontentamento derivado da crise agrícola de 1845/1847, com especial ênfase para a baixa de produção dos cereais e da batata (esta última fruto de uma praga) de que resultou, neste espaço temporal, pela fome, a morte de cerca de 700 000 irlandeses.
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Havia também, como há agora, uma crise monetária e bolsista, uma e outra em beneficio dos especuladores, não esquecendo a crise geral do comércio e da indústria na nação mais desenvolvida economicamente na altura – a Inglaterra – crise que, naturalmente, se reflectia nas relações comerciais com as nações limítrofes, a fazer lembrar o que se passa hoje com a crise do subprime nos EUA, com o aumento das taxas de juro, com o aumento do preço das matérias primas, designadamente do petróleo e dos cereais.
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Havia também, como há agora, um elevado nível de desemprego, o qual, só em França, atingia cerca de 750 000 desempregados, cuja dimensão não pode ser avaliada segundo os actuais parâmetros mas sim na base da população activa então existente naquele país.
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Havia também, como haverá agora, caso o código laboral do governo de José Sócrates seja concretizado, períodos de trabalho superiores a treze horas, com horários, no sector têxtil, que iam das 5 da manhã até às 20, ou mesmo 21 horas, com apenas um pequeno intervalo de meia hora para o pequeno almoço e de uma hora para a refeição, tudo isto ao serviço do aumento da taxa de mais-valia, ou seja, no aumento da relação entre o trabalho suplementar e o tempo de trabalho necessário para produzir os meios de subsistência do trabalhador e da sua família.
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Como se tudo isto não fosse o suficiente havia também, como há agora, uma escalada no aumento do preço dos artigos de primeira necessidade, designadamente no pão e nos produtos derivados dos cereais.
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É preciso ter em conta que a dieta alimentar, em meados do século XIX, era diferente da actual. O peso do pão na alimentação era muito superior àquilo que são os actuais hábitos alimentares. Como, na altura, o acesso à carne, ao peixe, ao leite e a outros produtos era inacessível aos trabalhadores e a uma parte significativa da população, esta era obrigada a ingerir enormes quantidades de pão para suprir, pela quantidade de cereal, a fraca qualidade da dieta alimentar, realidade que nós bem conhecemos durante o fascismo e que muitos portugueses continuam a conhecer, hoje em dia, dada a magreza dos salários e das pensões.
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Por outro lado, como agora, os salários eram baixos, pelo que as despesas com alimentação eram exorbitantes. Calcula-se que na altura, na Grã-Bretanha, uma família operária despendia cerca de 60% dos seus rendimentos na alimentação, 20% na habitação, 10% no vestuário e 10% em tudo o resto. Em França o peso na alimentação era ligeiramente menor, mas suficientemente elevado em função do peso que o pão tinha na alimentação, donde é fácil de concluir que o almoço, o jantar e demais refeições ocupavam, permanentemente, o quotidiano das pessoas, constituindo por esse facto um motivo de luta contra o poder instituído.
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Perante isto pergunta-se: o que é que faltava para haver uma revolução?
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Em França, a Revolução de 1848 teve dois tempos e um interlúdio: um prólogo progressista, muito influenciado pela burguesia, em Fevereiro, tendo como horizonte uma República com instituições sociais e uma fase mais revolucionária em Junho, onde, em confronto armado, o proletariado foi vencido. O interlúdio foi a eleição, em Abril, para a Assembleia Nacional Constituinte, cuja composição foi fortemente influenciada pelo voto conservador do campesinato e dos pequenos comerciantes, uns e outros influenciados por um caciquismo trifásico (nobreza, clero e burguesia), o que levou Marx a concluir que a República Francesa instituída em 1848 não foi a República de 25 de Fevereiro imposta pelos operários, mas sim a República burguesa saída das eleições.
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Os ensinamentos da Revolução foram muitos, um dos quais levou Marx a relevar a importância das relações entre o operariado industrial e o campesinato, concluindo que a revolução proletária desligada da luta dos camponeses «torna-se num canto fúnebre». Convergentemente, sobre o mesmo tema, Engels investigou as lutas na Alemanha, durante o século XVI, levadas a cabo pelos camponeses, recolhendo elementos para consolidar a necessidade da unidade na acção, entre o proletariado e o campesinato.
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Objectivos da Revolução
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Para se compreender a dinâmica da revolução e as suas próprias limitações e contradições é obrigatória a leitura de «As lutas de classes em França» de Karl Marx, que a propósito dos objectivos da revolução, escreve o seguinte:
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«Um operário, Marche, ditou o decreto no qual o recém-formado Governo provisório se comprometia a assegurar a existência dos operários por meio do trabalho e a proporcionar trabalho a todos os cidadãos, etc.. E quando, alguns dias mais tarde, o Governo se esqueceu das suas promessas e pareceu ter perdido de vista o proletariado, uma massa de 20 000 operários dirigiu-se ao Hôtel de Ville gritando: Organização do trabalho! Criação de um ministério especial do Trabalho! A contragosto e depois de longos debates, o Governo provisório nomeou uma comissão especial permanente encarregada de encontrar os meios para a melhoria das classes trabalhadoras».
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Tais reivindicações foram consignadas através de um decreto revolucionário assegurando o sufrágio universal e directo, o direito ao trabalho, o direito de associação e as oficinas nacionais, estas últimas na perspectiva de, por via do Estado, assegurar uma actividade laboral aos desempregados, tendo-se igualmente estabelecido o tempo de trabalho diário de dez horas para os operários de Paris, conquistas importantes mas limitadas, porque, para uma verdadeira e profunda revolução, faltava uma coisa importante: a apropriação dos meios de produção sem os quais não há nem poder nem libertação revolucionária.
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De facto, quando se fala em «direito ao trabalho», é preciso ter em conta que, em termos temporais, a Revolução de 1848 é contemporânea do Manifesto do Partido Comunista (embora a decisão da sua formulação tivesse acontecido em Novembro de 1847) e que a teoria marxista ensinou que, como escreveu Karl Marx, «...por detrás do direito ao trabalho está o poder sobre o capital, por detrás do poder sobre o capital a apropriação dos meios de produção, a sua submissão à classe operária associada, portanto, a abolição do trabalho assalariado, do capital e da sua relação recíproca».
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É importante reter estes conceitos porque a Revolução de 1848 em França não foi, insiste-se, uma revolução socialista, não alterou a titularidade da propriedade, não alterou o sistema, embora tenha alterado o regime, passando de uma monarquia para uma República, em cujo governo provisório havia, inicialmente, a participação minoritária de representantes da classe operária.
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A dimensão das transformações sociais, pelas razões atrás explicitadas, foi limitada na medida em que a Revolução de 1848 foi, na vertente progressista, integrada apenas por uma minoria revolucionária, num período histórico em que «... o estado de desenvolvimento económico no continente estava ainda longe de estar maduro para a supressão da produção capitalista». (1)
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Sobre o mesmo tema, Friedrich Engels deixou-nos, em vários escritos, sobretudo nos prefácios a edições e reedições do Manifesto do Partido Comunista, os seguintes testemunhos: (2)
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«Durante a revolução de 1848-49, não só os príncipes europeus como também os burgueses europeus viram na intervenção da Rússia (durante o o governo reaccionário do czar Nicolau I) a única salvação perante o proletariado que precisamente só então começava a despertar». Este texto, é de 1872.
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Em 1888, salienta que a insurreição parisiense de Junho de 1848 foi «a primeira grande batalha entre Proletariado e Burguesia», convicção reforçada quando o operariado europeu e dos EUA reclamavam, em forma de Lei, o dia normal de oito horas de trabalho, no 1.º de Maio de 1890, ao precisar melhor que, na Revolução de 1848, foi onde «...o proletariado avançou com reivindicações próprias».
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Mais tarde, em 1893, Engels torna mais precisa a importância da Revolução de 1848 ao expressar que: «Por toda a parte a revolução de então foi obra da classe operária; foi esta que levantou as barricadas e que pagou com a vida. Mas só os operários de Paris tinham a intenção bem determinada de, derrubando o governo, derrubarem o regime da burguesia
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É certo que a correlação de forças pendeu para as forças dominantes – aristocracia financeira, burguesia industrial e seus aliados – e que os frutos da revolução foram colhidos pela classe capitalista. No entanto, refere Engels que «...se a revolução de 1848 não foi uma revolução socialista, aplanou o caminho, preparou o solo para esta última...Assim as batalhas de 1848 não foram travadas em vão...».
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Os factos deram razão a Engels.
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Tenhamos presente a Comuna de Paris, em 1871.
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Tenhamos presente a Revolução de Outubro, na Rússia, em 1917.
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Tenhamos também presente a Revolução que se seguiu ao 25 de Abril, que não tendo como projecto uma revolução socialista, acabou por produzir uma das maiores transformações na titularidade da propriedade na perspectiva de se obter, por via das nacionalizações e da reforma agrária, a base material para uma sociedade socialista, objectivo, aliás, expresso na Constituição de 1976, cujo Artigo 1.º referia que «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes», o sublinhado é nosso.

A contra revolução

As conquistas da Revolução, mesmo que modestas, mesmo que não tocando na titularidade da propriedade, eram, pela afirmação do proletariado como entidade autónoma, um perigo para a burguesia, pelo que, parafraseando Karl Marx: «Era preciso, pois, acabar-se com os operários.»
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Como? Por todas as vias, de que se sobressaíram:
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Uma: opor uma parte do proletariado à outra parte do proletariado;
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Outra: montar uma provocação e, pela via das armas, impor «uma nova batalha para separar a república das concessões socialistas, para se conseguir que a república burguesa fosse oficialmente o regime dominante».
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Para tais objectivos, conforme se extrai da obra de Karl Marx «... o Governo provisório formou 24 batalhões de Guardas Móveis, cada um deles com mil homens, cujas idades iam dos 15 aos 20 anos. Na sua maioria pertenciam ao lumpen do proletariado... um centro de recrutamento de ladrões e criminosos de toda a espécie que vivem da escória da sociedade, gente sem ocupação definida...».
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A par deste investimento num corpo de mercenários, o governo provisório resolveu acabar com as oficinas nacionais cuja constituição esteve ligada ao direito ao trabalho, garantindo o emprego a cerca de 100 000 operários.
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A aristocracia financeira e a burguesia industrial, fortalecidas pelo acto eleitoral e pelo apoio do campesinato e da pequena burguesia, começaram por alterar a forma de pagamento do salário, depois impuseram a mudança de local de trabalho – antecedendo em 160 anos o propósito do governo de José Sócrates na mobilidade consignada no projecto de Código Laboral –, mudança essa que mais não era do que uma forma subtil de desterro, a que se somou, no dia 21 de Junho, um decreto que ordenava a expulsão de todos os operários solteiros das referidas oficinas, com um argumento similar ao que o partido de Paulo Portas usa contra os beneficiários do rendimento social de inserção, ou seja: a lógica do RSI, em Portugal no século XXI não pode ser, como em França no século XIX, a de um salário pago pelo Estado, porque o Estado não deve suportar o calão.
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Estava, assim, montado o esquema.
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Os operários, ou se resignavam, ou combatiam.
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Esse combate, tendo como limite temporal os meados do século XIX, foi considerado por Karl Marx «...o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias», (3) ao qual teceu, entre outras, as seguintes considerações:
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«Aos operários não restava escolha: ou morriam à fome ou iniciavam a luta. Responderam em 22 de Junho, com a imensa insurreição na qual se travou a primeira grande batalha (o sublinhado é nosso) entre ambas as classes em que se divide a sociedade moderna. Foi uma luta pela manutenção ou destruição da ordem burguesa....»
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«É conhecido como os operários dando provas de uma coragem e genialidade inauditas, sem chefes, sem um plano comum, sem meios e sem armas na sua maioria, mantiveram em respeito durante cinco dias o exército, a Guarda Móvel, a Guarda Nacional de Paris e a Guarda Nacional que fora enviada em massa da província. É conhecida a brutalidade inaudita com que a burguesia se desforrou do medo mortal que tinha passado e massacrou mais de 3000 prisioneiros».
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Acresce a esta mortandade (há historiadores que calculam em 4000 o número de mortos) cerca de 15 000 prisioneiros, parte dos quais foi desterrada para as colónias francesas onde, não morrendo das balas da reacção, acabou por morrer das doenças, da fome e dos trabalhos forçados a que foi submetida.
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Seguiu-se um período repressivo o que levou muita gente, erradamente, a pensar que a revolução havia chegado ao fim, a fazer lembrar os neoliberais com o seu delírio ideológico do «Fim da História».
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Sobre este delírio nada melhor do que parafrasear Karl Marx no seguimento da derrota da Revolução de 1848, ao escrever: «Só empapada no sangue dos insurrectos de Junho a tricolor se tornou bandeira da revolução europeia – bandeira vermelha>».
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«E nós gritamos: A revolução morreu! Viva a revolução!»
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Bibliografia:
- Obras escolhidas de Marx/Engels, Tomo I, Edições Avante, 1982
- Biografia de Karl Marx, Edições Avante, 1983
- História do Mundo, Tomos 8 e 9, Publicações Alfa, 1973
- História da Europa, Publicações Dom Quixote
- História Universal, Librairie Larousse. Edição de Publicações Dom Quixote, 1981
- Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1981
- Marx/Engels, Colecção Universidade Livre, Seara Nova, 1971


(1)Introdução à obra de Karl Marx, «As lutas de classes em França» para a edição de 1895, Edição Editorial Estampa
(2) Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Biblioteca do Marxismo-Leninismo, 2.ª edição, 1997.
(3) O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Obras escolhidas de Marx/Engels, Tomo I, Edições Avante, 1982