Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 25 de março de 2013

Zillah Branco: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

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5 de Março de 2013 - 13h37

Zillah: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

 

A definição do território pátrio estabelece as fronteiras com outros territórios vizinhos, as milhas marítimas que cada um tem para seu abastecimento e defesa, os rios, o solo e o subsolo.

Por Zillah Branco*


A gente que aí habita, com a sua cultura, idioma e história, o povo, tem o poder e a responsabilidade de proteger o território, desenvolver as potencialidades existentes para assegurar a melhor condição de vida coletiva, zelar pelas riquezas naturais existentes para que o patrimônio nacional seja aplicado para o bem comum e conservado para as gerações futuras. As nações europeias que alcançaram durante a Idade Média maior poder em relação ao mundo ainda desconhecido, afirmaram-se como centro do conhecimento científico, filosófico e artístico e impuseram, através do domínio dos mares e da capacidade de organização de instituições que consolidaram Estados e relações políticas internacionais, o seu modelo de pensamento às nações mais pobres conquistando o estatuto de "poder cultural ocidental".

Subordinado ao modelo dos mais ricos (ou mais fortes), o mundo colonizado esmagou o orgulho nacional que defendia os seus patrimônios – naturais, culturais e históricos – que constituem a riqueza, material e imaterial, que alicerça o desenvolvimento da sua economia e do seu povo.

Hoje, em investigações arqueológicas, desvendam-se conhecimentos científicos, conceitos filosóficos e sociológicos, noções de arte, enfim, traços de uma inteligência criativa avançada que se interpenetrava de sentimentos humanísticos que ainda faltam no conhecimento atual divulgado pelo mundo ocidental.

Constata-se o tempo perdido no desenvolvimento da precária "civilização" que traduziu a sua capacidade e brilho intelectual em uma elite fortemente armada e de poder autoritário que manipula os seus dependentes.

Séculos de predação e rapina do patrimônio cultural e natural de povos que foram sendo exterminados bárbaramente no "Terceiro Mundo" – que o colonialismo e o neo-colonialismo criaram no planeta com o resíduo da sua exploração da riqueza resultante das suas "descobertas" nunca reconhecidas como "encontros entre povos" – que com o impulso propiciado pelo socialismo revolucionário deu, no século 20, decididos passos no sentido da libertação ainda que subjugados pelo sistema capitalista dominante que segue o seu curso com ideal imperialista.

Novas formas de espoliação foram criadas na Europa, agora por empresas multinacionais que acobertam as nações ponta-de-lança do imperialismo que atuam dentro das instituições administrativas das sociedades dependentes (como antes fizeram no Terceiro Mundo por meio de empresas concessionárias de serviços públicos) assenhoreando-se das riquezas do subsolo como os minérios raros e, agora, a água, e passam a vender como se fosse seu, o patrimônio que pertence ao povo.

Diferentes estratégias expansionistas deram origem à criação e povoamento europeu das nações no Terceiro Mundo onde velhas culturas indígenas foram esmagadas e povos primitivos foram escravizados com o objetivo de ser implantado um modelo "civilizado" com as características do europeu.

Paralelamente, a exploração das riquezas naturais do novo mundo enriqueceu o sistema comercial europeu que passou a constituir a base do poder econômico e político que mantinha a aristocracia reinante no continente europeu.

A Inglaterra capitaneou a Revolução Industrial esvaziando o seu território de um campesinato pobre que emigrou, com facções religiosas conflitantes com o poder instituído, para o norte da América onde sobreviveram e povoaram os Estados Unidos e o Canadá na companhia de franceses e holandeses que seguiram o mesmo caminho.

Naturalmente estas condições históricas de colonização, pelo empenho de nações europeias mais ricas que aplicavam a cultura no desenvolvimento de uma nova sociedade que se organizava no caminho da industrialização com as bases do capitalismo nascente, deram origem a colónias que permaneceram como instrumentos de poder aliadas às suas metrópoles.

No final do século 19, depois de processos de independência em que Inglaterra e França competiram hora como colonialistas, hora como libertadores do novo mundo, os Estados Unidos seguido pelo Canadá, deram início à sutil penetração nas nações latino-americanas levando tecnologia e ideias modernas de desenvolvimento econômico diferentes dos conceitos libertários herdados tanto da Revolução Francesa como da Revolução Americana que já tinham desaparecido no curso da Guerra de Secessão que dividiu o povo norte-americano entre os racistas escravocratas e os que idealizavam o socialismo utópico.

Abria-se para os países capitalistas, independentes e agora aliados, a fase do "imperialismo" que substituiu o mercantilismo e a dominação colonial por fórmulas modernas de neo-capitalismo acompanhadas de ação destruidora das culturas tradicionais e perseguição sem tréguas a qualquer expressão individual ou coletiva de doutrinas libertárias ou do socialismo científico.

Todo o Terceiro Mundo, inclusive no Oriente, foi invadido pelo vírus imperial que ficou colado às sementes da cultura e do desenvolvimento equilibrado com as origens tradicionais e as características de cada povo, com características de humildade submissa, o reverso da medalha dos preconceito de superioridade racial e civilizacional usado como instrumento de domínio.

A Revolução Socialista realizada na Rússia e que expandiu o seu exemplo por mais 15 nações da Ásia Central e da Europa do norte, tendo por base teórica o conhecimento gerado na Alemanha e França, com participação de intelectuais e instituições de muitas outras nações europeias e mesmo dos Estados Unidos, dividiu a humanidade como um todo entre explorados e exploradores, sem divisões raciais e com a consciência dos iguais direitos humanos.

A Segunda Guerra Mundial contra a expansão do domínio fascista na Europa foi vencida pela união da humanidade contra um perigo global, apesar das diferenças ideológicas históricas. A reconstrução das nações europeias também foi fruto da mesma solidariedade humanista e recebeu a ajuda (que abriu caminho para desenvolver os seus interesses de domínio) do núcleo imperial do sistema que deu grande impulso à imagem da Europa como "poder cultural" ao qual se manteve aliado até conseguir minar o sistema socialista no Continente.

Como assinala a exposição feita sobre a história da União Europeia, apresentada em final de 2012 em Bruxelas, a construção deste caminho teve início com a formação do Clube de Bilderberg formado na sequência da Segunda Guerra com políticos e militares europeus e norte-americanos que também definiram o Estado de Israel a ser implantado sobre o mundo árabe.

Este fato, que é publicitado amplamente na Europa, impede que se avalie a penetração subtil do imperialismo na sua habitual forma de dominação dos países fragilizados da própria Europa.

A aliança de uma elite política e econômica na Europa, a qual é integrada pela realeza que encabeça vários governos republicanos, com o núcleo imperial que comanda os Estados Unidos mantendo a nação como primeira potência militar e econômica no planeta, traçou em conjunto o caminho para o combate às ideias libertárias e socialistas que germinaram em toda Europa e formaram movimentos sindicais sólidos capazes de defender o direito dos trabalhadores e os direitos sociais de toda a população que são o objetivo de luta da esquerda que resistiu às invasões fascistas e às pressões ditatoriais permanentemente.

O imperialismo, fase superior do capitalismo, que sempre apareceu como uma "estratégia" da primeira potência - amplia a sua imagem mostrando que também é europeu no mundo global.

Permanece a humanidade, que se divide em exploradores e explorados, diante da ameaça de uma guerra que parece unir os dois lados adversários na paz, em defesa da dignidade humana e o direito elementar de viver.

Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho

domingo, 25 de novembro de 2012

Ana Vaz Milheiro - Viagem à arquitectura portuguesa da Guiné-Bissau





Viagem à arquitectura portuguesa da Guiné-Bissau

Guiné-Bissau, 2011 é um livro sobre uma viagem que Ana Vaz Milheiro, crítica do PÚBLICO, fez ao país africano à procura da arquitectura do Estado Novo. A autora escreveu uma versão para o jornal
O “largo” da Sé, desenhada por João Simões ainda em 1945 AVM




Na perspectiva do arquitecto, a viagem nunca é um tema inocente. No caso de Bissau e da Guiné, a viagem pode significar o encontro com uma arquitectura muito particular: uma arquitectura mal-amada e proscrita dos manuais que abordam o extraordinário surto da arquitectura de perfil moderno nos actuais países africanos que falam português.
Fui à Guiné-Bissau à procura da arquitectura do Estado Novo. A viagem decorreu entre 3 e 10 de Outubro de 2011 e acompanharam-me Eduardo Costa Dias, sociólogo e visita constante na Guiné desde a independência, e Paulo Tormenta Pinto, arquitecto e estreante no país, como eu. Até ao desembarque, a imagem que tinha da Guiné-Bissau baseava-se nas pesquisas iniciadas três anos antes. Faltava o confronto com a cidade “real”. Na madrugada de 3 de Outubro, alojámo-nos na pensão Creola. A viagem levou-nos ainda a Safim, Empada, Nhabijões, Bafatá, Gabu, Sonaco, Contuboel, Bula, Canchungo, Cacheu e Mansoa.
A arquitectura que procurava foi produzida durante o regime do Estado Novo por arquitectos sediados em Lisboa e que trabalham para o Ministério das Colónias (depois de 1951, Ministério do Ultramar) como funcionários públicos. Nomes que raramente se citam e que correspondem a visões mais conservadoras, como João Aguiar, Lucínio Cruz, Eurico Pinto Lopes ou Mário de Oliveira, até aos “quase modernos”, casos de João Simões, Fernando Schiappa de Campos, Luís Possolo, António Seabra, António Sousa Mendes, Emília Caria, António Moreira Veloso, Alfredo Silva e Castro.
Todos trabalharam para a Guiné. Mas é esta arquitectura, para lá de algumas estruturas fortificadas mais antigas (casos do fortim e Cacheu ou do forte de Amura, em Bissau), do edificado de sabor oitocentista (presente em Bafatá, por exemplo, ou na antiga capital Bolama), e dos equipamentos promovidos pela Primeira República, a expressão dominante.
Percorrer Bissau, capital desde 1941, é visitar uma cidade jardim africana que mantém intacta a escala doméstica, ou melhor, uma City Garden nos Trópicos. Sucessivos bairros residenciais foram dando à cidade o perfil que hoje ostenta, desde o primeiro bairro de inspiração deco, composto por um conjunto de casas cúbicas para funcionários públicos erguidas antes de 1945, com terraços visitáveis, passando pelas casas construídas pelo arquitecto Paulo Cunha em 1946 (hoje figura quase omitida pela historiografia de arquitectura, mas personagem central na realização do famoso Congresso de 1948), terminando no bairro com casas de dois pisos para os funcionários dos Correios. A cidade é portanto um laboratório de habitação de promoção pública construída entre o final da Segunda Guerra e a década de 1960.
Menos visíveis, porque em zonas periféricas e portanto sujeitas a maiores transformações, são as experiências no domínio da casa para as populações africanas realizadas pelos arquitectos que trabalham a partir de Lisboa e que se iniciam no final dos anos de 1950. Levantamentos sobre a casa guineense, nas suas diversas configurações étnicas, são conhecidos desde 1948. Orlando Ribeiro, em missão geográfica pelo território, em 1947, também se interessou pelo assunto.
Mas os arquitectos propõem, na sequência dos seus próprios estudos, novos bairros e casas (melhoradas em termos de organização funcional, mas realizadas em sistema de auto-construção). A casa é então, e segundo defendem, um “meio civilizador” e portanto central. Facilmente reconhecível é o bairro de Santa Luzia, uma das primeiras experiências em alojamento para africanos impulsionadas pelo Estado Novo e, mais tarde, o bairro da Ajuda, erguido na década de 60. Este último destina-se aos desalojados do incêndio que, no início de 1965, destrói parte dos assentamentos informais que circundam a capital da Guiné. Em 1968, estão já terminadas 140 casas, ocupando um rectângulo de 300 por 700 metros. É traçado pelos serviços das Obras Públicas guineenses. Os fundos são angariados localmente e os trabalhos contam com o apoio das forças militares que, em plena guerra colonial, procuram cativar as populações.
Uma avenida de 1919
Mas se a arquitectura doméstica representa um capitulo extraordinário da fase final da colonização portuguesa, Bissau constitui um exemplo paradigmático do que é a estratégia urbanizadora que o Estado Novo empreende a partir do fim da Segunda Guerra. Em todas as cidades africanas, dependendo naturalmente da sua escala e hierarquia no sistema colonial, é implementado um conjunto de equipamentos que complementam as estruturas habitacionais.

Os equipamentos cobrem todos os programas que definem um lugar urbano: hospitalar e assistencial, educativo, desportivo e recreativo, religioso e de representação do poder político. Em Bissau, o plano da cidade implementado em 1919, ainda durante e Primeira República, da autoria do engenheiro de minas José Guedes Quinhones, deixa como legado urbano a estrutura viária e a indicação da localização dos principais equipamentos (já um “zonamento” na visão dos urbanistas). O plano de Quinhones lê bem o território, desenhando um eixo viário que liga a zona baixa do porto a um ligeiro promontório, onde se situa a actual praça dos Heróis Nacionais. Ao longo desta avenida — hoje com o nome de Amílcar Cabral — implantam-se os principais edifícios: tribunal, sé catedral (monumento cristão numa sociedade predominantemente muçulmana e animista), sede dos Correios (com mercado nas traseiras, destruído por um incêndio em 2006), e a União Desportiva Internacional de Bissau, culminando na velha praça do Império, de implantação circular. Em torno desta praça, erguem-se quatro edifícios expressivos das diferentes fases do Estado Novo: as ruínas do Palácio do Governo (que em breve os chineses transformarão), de expressão monumental e historicista; a sede moderna do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, criado em 1956 por Cabral, Aristides Pereira e Luís Cabral), desenhada por Jorge Chaves no final dos anos de 1940; o museu, seu contemporâneo, projectado pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização Colonial; e a sede da TAP, já dos anos dos 1970, do arquitecto José Pinto da Cunha, então fixado em Luanda.
Alguns edifícios guardam memórias extaordinárias. O Palácio do Governo, por exemplo, ocupa exactamente o lugar que Guedes Quinhones terá imaginado no plano de 1919. Preside à antiga Praça do Império. Insere-se numa arquitectura de representação política que começa a ser aperfeiçoada na segunda metade da década de 40 e que se estende do “Portugal europeu” ao “Portugal africano e asiático”. As suas fachadas conhecem muitas versões. Os responsáveis pelo edifício actual, delineado em 1945, são João António Aguiar e José Manuel Galhardo Zilhão. É bombardeado na guerra de 7 de Junho de 1998. Contemporânea é a actual Sé, urdida por João Simões ainda em 1945, em plena génese do Gabinete de Urbanização Colonial. É um edifício que se aproxima da primeira abordagem que os arquitectos do Estado Novo tentam em África: a elaboração de um estilo original para os Trópicos, sem abdicar dos temas da arquitectura tradicional portuguesa. Preferem, por afinidade climatérica, o sul.
Pequenas Bissaus
Sair de Bissau é perceber como a cidade foi replicada em outras vilas e aglomerados guineenses. A operação intensifica-se com as comemorações do 5º centenário que, em 1946, em pleno governo de Sarmento Rodrigues, celebram a presença portuguesa nesta região africana. Cacheu, Mansoa, Gabú, Canchungo, São Domingos, Farim, Fulacunda, Bolama, Bubaque, Catió e Bafatá estão entre as povoações melhoradas. O engenheiro Eduardo José de Pereira da Silva assina, enquanto chefe da Repartição Central dos Serviços Geográficos e Cartográficos da Guiné, este conjunto de planos urbanos, depois publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa.

Nestes aglomerados, traçados ortogonais tornam as estruturas urbanas mais complexas, admitindo-se igualmente pequenas praças arborizadas, apetrechadas com equipamentos de lazer e parques infantis. A intervenção pode concentrar-se numa nova avenida, como acontece em Bafatá, cidade natal de Amílcar Cabral, ligando a zona baixa da cidade preexistente às áreas de expansão; configurar uma ampliação, como em Mansoa, onde se alarga a quadrícula existente e a nova avenida funciona como um novo centro de tipo boulevard (que alberga a central eléctrica, a escola, o posto sanitário, duas caixas de água e duas residências administrativas); ou corresponder a uma nova fundação, alterando-se a toponímia local para outra de inspiração metropolitana (Gabú passa a Nova Lamego; Canchungo passa a Teixeira Pinto, por exemplo).
Em Gabú, a quadrícula da cidade presta-se a uma maior disseminação dos equipamentos principais. Já em Canchungo, a avenida centraliza o investimento: residência oficial, administração e posto de correios formalizam a “praça” de representação; escola, depósito de água, casas de funcionários, igreja, estruturas de saúde, distribuem-se ao longo do eixo.
A Guiné assiste assim à disseminação de um padrão “desenvolvimentista” assente num modelo urbano. Em Cacheu, núcleo fundado cerca de 1588, que entra em decadência durante o século XIX, é aberta a actual Avenida do 4º Centenário (celebrado pós-independência em 1988), lateral ao núcleo histórico e ao forte. A nova avenida termina num largo, sobre o rio Cacheu, que nos anos de 1960 recebe um padrão das comemorações henriquinas (implantado também em outras antigas províncias portuguesas ultramarinas). A escala da avenida distancia-se quer das preexistências quer das novas construções. Casas de funcionários, igreja ou sede do governo mantêm uma aparência modesta. O facto aumenta ainda mais o caracter expectante que a cidade comunica. Deste modo, a estrutura urbana permanece como um elemento à espera de ser ocupado. A exemplo das restantes cidades guineenses, esta avenida monumental compõe, na verdade, o cenário ideal às visitas de estado dos representantes do regime, como a viagem presidencial que Craveiro Lopes cumpre em 1955. Durante a década de sessenta, o conflito armado determina a escala alcançada pelos equipamentos nas regiões mais directamente ligadas ao esforço militar. Consolidam-se as instalações hospitalares, aquartelamento ou clubes militares. Mas a actual estrutura das cidades desenha-se antes e a principal avenida que as organiza monta os tais cenários adequados às festividades que comemoram o poder colonial. Mas também é são desenhos de chão que urbanizam o futuro.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Richard F. Burton e UM BREVE COMENTÁRIO DO FILME MONTANHAS DA LUA

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Enviado por  em 06/12/2009
In the 1850s the biggest challenge for explorers was to find the source of the Nile. Captain Speke was determined to be the man to make the discovery. But in doing so he betrayed his mentor and ended up paying the ultimate price.


Enviado por  em 21/01/2011
Nenhuma descrição disponível.


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Enviado por  em 31/07/2008
Views of the Nile River, november 2007

Music: Peeter Vähi - "Dance of the Moon Goddess" (Performed by Heiki Mätlik)

 

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Enviado por  em 27/04/2010
Aventuras | Siglo XIX / En 1850, el Capitán Richard Francis Burton y el teniente John Hanning Speke emprenden juntos la aventura que los llevará hasta la fuente del Nilo. Una expedición en nombre del Imperio Británico de la Reina Victoria, en cuyo camino son presa de enfermedades, asaltos y frustraciones sin que ello les impida ir en busca de su objetivo... Reparto: Patrick Bergin, Iain Glen, Fiona Shaw, Richard E. Grant, Peter Vaughan, Delroy Lindo, John Savident, Adrian Rawlins, Leslie Phillips, Anna Massey, Bernard Hill, Roshan Seth, James Villiers.

Cinema, História e Educação

Por Mariana Andrade da Costa
O filme As Montanhas da Lua trata do processo de expansão das potências européias no continente africano no século XIX. Os personagens principais são os capitães Britânicos Richard Francis Burton e John Hanning Speek, exploradores e geógrafos que aparecem como homens destemidos, corajosos, de espírito desbravador que realizam um a longa e acidentada jornada pelo continente africano em busca da nascente do rio Nilo.
Conforme vão procurando a nascente do Nilo, vão adentrando na parte ainda não explorada por europeus, contribuindo para o processo de roedura do continente. É importante observar que nesse processo, vão encontrando povos diferentes.
No decorrer do filme, o mundo africano é apresentado como atrasado, primitivo, exótico, inferior, seus líderes aparecem exageradamente cruéis e violentos. Em contraposição, o mundo europeu é apresentado como o certo, o superior. A sociedade européia aparece a partir do ponto de vista da elite, da aristocracia, sendo os europeus mostrados como os “destemidos”, os “justos”. Há uma cena muito interessante, que mostra essa imagem do europeu corajoso, onde David Livingstone (um famoso explorador do continente africano) num encontro com Burton, expõe uma série de cicatrizes que adquiriu em suas expedições em África.
A ciência no século XIX ajudou a justificar o imperialismo. Através do “discurso competente”, os europeus que “possuíam” o conhecimento científico usaram o continente africano como uma espécie de laboratório, contribuindo inclusive, para o surgimento das ciências sociais, como a antropologia.
As expedições do filme foram financiadas pela “Sociedade Geográfica Real”, que tinham interesse em expor os relatos, as descobertas, contribuindo para a legitimação do imperialismo.
Enfim, em As Montanhas da Lua, podemos perceber a grande importância da ciência e das expedições de exploração do século XIX para o processo de roedura do continente africano que culminou na legitimação do imperialismo europeu

FICHA TÉCNICA
Direção: Bob Rafelson
ELENCO
Patrick Bergin – Richard Francis Burton   Iain Glen – John Hanning Speke  Richard E. Grant – Larry Oliphant  Bernard Hill – Dr. David Livingstone



sábado, 24 de dezembro de 2011

PCP no Seminário Internacional sobre a história do MPLA


Partido Comunista Português


A convite do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), o PCP, representado por Domingos Abrantes, membro do Comité Central, participou no Seminário Internacional subordinado ao tema «MPLA, cinquenta e cinco anos por Angola e pelos angolanos», realizado em Luanda entre os dias 6 e 8 de Dezembro.
Analisando o papel do MPLA, Domingos Abrantes salientou na sua intervenção que foi pela justeza das respostas que foi capaz de dar às diferentes fases do seu percurso - luta clandestina, luta armada e contra a agressão racista e imperialista, e pela identificação com os interesses dos povos de Angola considerada como nação una -, que o MPLA se elevou à condição de vanguarda e legítimo representante do povo angolano na sua luta de libertação nacional.
Pondo em relevo os profundos laços de solidariedade e cooperação que se estabeleceram entre o MPLA e o PCP, Domingos Abrantes recordou que esses laços se forjaram nas lutas comuns de ambos os partidos contra o fascismo e o colonialismo português, lutas que ainda que travadas de forma autónoma pelos povos angolano e português, convergiram no objectivo comum que era a derrota do fascismo e do colonialismo, condição para a libertação de ambos os povos.
Na intervenção realizada no Seminário, foi ainda denunciando o carácter erróneo de certas teses que minimizam a luta do PCP contra o colonialismo e a sua activa solidariedade para com os povos das colónias portuguesas e os seus legítimos representantes, tendo sido demonstrado que o PCP, praticamente desde a sua fundação, sempre se manifestou contra o colonialismo português e desenvolveu acções concretas, sem paralelo com outras forças políticas, de solidariedade para com a luta dos povos das colónias portuguesas, antes e depois da independência do domínio colonial. As primeiras manifestações de solidariedade remontam a 1921 e 1922, respectivamente para com a luta dos povos de São Tomé e de Angola, vítimas de brutais actos repressivos.
No longo historial de activa solidariedade do PCP para com os movimentos de libertação e em particular para com o MPLA, foi destacado como um marco particular dessa solidariedade o papel na organização da fuga do camarada Agostinho Neto, iniciativa que permitiu sacá-lo das garras do fascismo em Portugal e retomar o seu lugar na condução da luta de libertação de Angola.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Avatar, o imperialismo e o pauperismo no século XXI

Essa matéria foi publicada na Edição 443 do Jornal Inverta, em 09/02/2010

Falava o milionário Cecil Rhodes, em 1895, que, para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil, os políticos imperialistas deveriam apoderar-se de novos territórios para enviar o excedente da população. “O império, sempre tenho dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar a guerra civil, deveis tornar-vos imperialistas.” Como sabemos, de 1850 até a Primeira Guerra Mundial, mais de 40 milhões de pessoas foram “exportadas” da Europa, o que equivaleu mais de ¼ da força de trabalho, excedente humano. Hoje, esta solução parece não ser mais possível. 
“A expansão é tudo. Se eu pudesse, anexaria os planetas.”
(Cecil Rhodes, 1895)

Falava o milionário Cecil Rhodes, em 1895, que, para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil, os políticos imperialistas deveriam apoderar-se de novos territórios para enviar o excedente da população. “O império, sempre tenho dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar a guerra civil, deveis tornar-vos imperialistas.” Como sabemos, de 1850 até a Primeira Guerra Mundial, mais de 40 milhões de pessoas foram “exportadas” da Europa, o que equivaleu mais de ¼ da força de trabalho, excedente humano. Hoje, esta solução parece não ser mais possível.
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Quem assistiu ao filme Avatar percebeu como os EUA são cientes das suas ações imperialistas no mundo.  Seria “Pandora” a região amazônica? Seria o México? Oaxaca? Chiapas? Na realidade, estamos, neste século, diante de novos desafios e de velhos dilemas. Ao velho dilema pauperismo a sociologia atual chama de “exclusão social”. Antes, na década de 1970, intelectuais brasileiros entendiam que a “exclusão social” constituía, de fato, um grande exército de reserva de força de trabalho. Este exército disponível era funcional e vital para o processo de acumulação de capital. F. de Oliveira (1976) e L. Kowarick (1975), por exemplo, compreendiam a “marginalidade social” como uma forma peculiar de inserção da população na sociedade, na divisão social do trabalho. O “subdesenvolvimento”, ou seja, o pauperismo, era entendido como um problema histórico singular que estava diretamente relacionado com a submissão dos países periféricos à acumulação imperialista do capital mundial e para tal havia as alianças de classes. No Brasil, por exemplo, as lutas reformistas e desenvolvimentistas foram derrotadas em 1964. Muito mudou com a democracia?
O imperialismo - o processo de acumulação de capital por meio da expropriação da força de trabalho e destruição da terra - avança no século XXI de uma forma avassaladora (Arrighi, G. 2008). Os 57% dos trabalhadores da América Latina, os 40% da Ásia e os 60% da África que estão no chamado “mercado informal” não podem ser chamados de exército de reserva; uma vez “excluídos” já não são reservas de nada, não há um sistema econômico capaz de absorver essa grandeza de desempregados (Davis, M. 2006). Esses seres humanos excedentes são “inúteis para o mundo” capitalista, são “inempregáveis”; a política de Renda Mínima de Inserção Social, na França, não é capaz de resolver o desemprego estrutural (Castel, Robert, 1998). E, ainda mais, a generalização do progresso capitalista dos países centrais é impossível, a natureza não suportaria, seria destruída várias vezes.
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 O Observatório Urbano das Nações Unidas (ONU) alerta que, em 2020, infelizmente, a pobreza no mundo atingirá aproximadamente 45% do total dos habitantes das cidades. Os “Planos de Ajustes Estrutural”, a acumulação financeira e a automação dos processos produtivos têm, de fato, jogado a maioria da força de trabalho mundial no desemprego, o que aumenta os seres humanos que vivem estagnados no “inferno da indigência”. Como dizia K. Marx (1980), o pauperismo constitui o asilo dos inválidos e o peso morto do exército industrial de reserva, as mesmas causas que aumentam a força expansiva do capital e a riqueza ampliam a força de trabalho excedente, esta é a “Lei Geral e Absoluta” da incessante acumulação capitalista. Portanto, como superar, no século XXI, o pauperismo mundial sem destruir o planeta terra? Será suficiente a gestão da pobreza via política compensatória “sócio-neoliberal”? O que esta política tem compensado - além do estômago - na miséria brasileira? As várias bolsas - bolsa-família, renda mínima de 40 reais etc.- (de FHC ao Lula), a “ideologia do empreendedorismo social” e da “economia solidária” responderão, de fato, ao desemprego estrutural? Segundo a Organização Internacional do Trabalho a última crise aberta (estrutural) do capitalismo mundial adicionará 50 milhões de seres humanos aos 190 milhões de desempregados existentes. É possível construir no mundo capitalista a cidadania e realizar a fraternidade, igualdade e liberdade? O que fazer para superar o pauperismo e alcançar o progresso social da Suécia, Noruega, Dinamarca? Ficar tomando “Garapa” [nome de um documentário] e esperando a política compensatória é muito triste! “Seu Dotô uma esmola pra o home que é são. Mata de vergonha ou vicia o cidadão” – Lula Rei do Baião, Luiz Gonzaga.
   
Felipe Luiz Gomes e Silva
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http://inverta.org/jornal/edicao-impressa/443/cultura/avatar-o-imperialismo-e-o-pauperismo-no-seculo-xxi
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sábado, 30 de janeiro de 2010

DW World - França exerceu papel decisivo na formação da história do Haiti

Mundo | 29.01.2010

França exerceu papel decisivo na formação da história do Haiti

 

Em 1994, tropas norte-americanas derrubaram a ditadura militar no Haiti. Antes disso, contudo, o Haiti havia sido por mais de 100 anos colônia francesa: um período decisivo para a história do país.

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Anteriormente conhecido como "a pérola das Antilhas", o Haiti era, há 200 anos, a mais rica entre as colônias francesas. No passado, a ilha era o maior exportador de cana-de-açúcar do mundo, embora os lucros com o comércio fossem parar sempre nas mãos da metrópole.
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No período colonial, aproximadamente 80 mil escravos africanos trabalharam arduamente nas plantações de cana-de-açúcar e café, sob péssimas condições de trabalho. Muitos deles morriam precocemente. Para manter estável o número de trabalhadores ativos, a França importava mais de 50 mil escravos por ano para o Haiti.
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Ecos da Revolução Francesa
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Essa situação, contudo, mudou após a Revolução Francesa. Nos ouvidos dos escravos, ecoava a mensagem de "liberdade, igualdade e fraternidade", o que fez com que estes também se rebelassem. Após várias insurreições, o Haiti se tornou independente no ano de 1804. Isso fez com que a França estabelecesse um embargo econômico contra o país.
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Em 1825, o governo francês exigiu 150 milhões de francos do Haiti como indenização para o fato de que a França não lucrava mais com as riquezas naturais da ex-colônia. Em contrapartida, Paris se propunha a suspender o embargo econômico antes imposto.
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Embora a soma desse ressarcimento pago pelo Haiti à França tenha em algum momento sido reduzida para 90 milhões de francos, o país precisou de nada menos que 122 anos para quitar suas dívidas.
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Dívidas enormes
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Segundo vários especialistas, esse é exatamente o dinheiro que faltou para a construção de um Estado que funcionasse e para o fortalecimento de uma estrutura econômica sólida. No ano de 2004, o Haiti pediu ao governo francês uma devolução de 16 bilhões de euros, uma reivindicação contestada e considerada por Paris como "desproporcional".
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Somente após o terremoto que assolou o país é que a França parece ter se sensibilizado de alguma forma para os problemas do Haiti. Desde então, a ministra francesa das Finanças, Christine Lagarde, defende uma moratória de todas as dívidas do país. O governo francês anunciou um perdão de 4 milhões do total de 54 milhões de euros de dívidas do Haiti, soma repassada ao governo em Porto Príncipe nos últimos anos.
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Autora: Natalie Glanville-Wallis (sv)
Revisão: Carlos Albuquerque
 
 
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domingo, 24 de janeiro de 2010

“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

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por Admin última modificação 2010-01-21 12:11 

Segundo o historiador Mário Maestri, séculos de intervenção colonialista e imperialista sobre o país caribenho geraram a miséria que hoje potencializa os efeitos do terremoto do dia 12

21/01/2010

Igor Ojeda
da Redação

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Se existe uma análise com a qual todos os meios de comunicação do mundo concordam em relação ao tremor de terra ocorrido no dia 12 no Haiti é a que diz que se o país fosse menos pobre, os efeitos do desastre seriam menores. As causas dessa pobreza, no entanto, muito raramente são explicadas. De acordo com o historiador Mário Maestri, professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), do Rio Grande do Sul, o subdesenvolvimento haitiano tem suas raízes na extrema dependência em que a nação do Caribe foi permanentemente mantida pelas potências coloniais e imperialistas.
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Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Maestri analisa as causas estruturais da pobreza e do êxodo rural no Haiti – que, ao gerar moradias precárias nas cidades, também contribuiu para o agravamento das consequências do terremoto –, a responsabilidade da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, o envio de militares pelos EUA e os riscos do processo de reconstrução do país. “A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos”.
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Brasil de Fato – A grande mídia, nacional e internacional, vem insistindo que a extrema pobreza do Haiti fez agravar as consequências do terremoto. No entanto, a mesma imprensa não diz quais são as causas dessa pobreza. Por que o Haiti é o país de menor IDH do hemisfério ocidental?
Mário Maestri – A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade, em 1804. Isso após derrotar expedições militares francesas, inglesas e espanholas. Ao se transformar no segundo Estado americano a obter a independência, após os EUA, e o primeiro a abolir a escravidão, o Haiti passou a ser temido, pois poderia servir como exemplo para os cativos americanos. Foi objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986].
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Algumas análises indicam que a grande quantidade de haitianos vivendo em Porto Príncipe, em casas amontoadas nas favelas, foi um dos fatores que determinaram um alto número de vítimas do terremoto. Por que se chegou a essa situação de forte migração do campo para a cidade?
O regime histórico da propriedade da terra no Haiti foi a plantagem escravista. Com a revolução de 1804, houve importante divisão de latifúndios em lotes unifamiliares, que retomaram as tradições camponesas negro-africanas, ensejando independência alimentar. Isto não produzia excedentes mercantilizáveis. As intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade. A expropriação da terra e a reversão para produtos comerciais ensejou enorme migração urbana, nascida também da depredação do meio ambiente, com o desmatamento selvagem para a produção de carvão vegetal, com o aumento do seu uso como combustível doméstico, imposto pelo imperialismo. As enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti. As forças brasileiras e da ONU têm reprimido duramente as manifestações pelo aumento do ínfimo salário mínimo.
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Seis anos após o golpe contra Jean-Bertrand Aristide e a chegada da Minustah, a situação não melhorou. Por quê?
A intervenção militar franco-estadunidense orquestrada pelo governo Bush afastou o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide, em 29 de fevereiro de 2004. Ainda que ele tivesse rompido com suas antigas raízes populares e de esquerda, seu governo lutava por autonomia relativa e despertava a mobilização social. O que era inaceitável, em uma região próxima de Cuba e fundamental aos EUA. Devido ao envolvimento no Iraque, Bush 2º convocou o presidente Lula da Silva para capitanear a ocupação militar (e pagar seus custos, é claro), participando da organização de governo títere pró-imperialista. Essa ocupação deveria reorganizar a ilha segundo os interesses políticos do grande capital, sobretudo franco-estadunidense. O governo Lula da Silva aceitou o convite envenenado para fortalecer seu objetivo de ingressar, inferiorizado, sem direito, como membro do Conselho de Segurança Permanente da ONU. Foi também uma concessão à alta oficialidade das Forças Armadas brasileiras, com interesses econômicos, políticos, ideológicos na operação. Nos últimos seis anos, as tropas brasileiras comandaram a repressão, praticamente sem qualquer oposição por parte da imensa maioria dos partidos, sindicatos, organizações etc. ditos populares e de esquerda do Brasil. Deve-se destacar o silêncio do movimento negro organizado, atrelado ao governismo. A prova dos nove dessa intervenção se deu durante e sobretudo após essa terrível catástrofe, com a total ausência de Estado e de instituições haitianas autônomas, que jamais se pretendeu criar. Apenas o presidente [René] Préval funciona como testa de ferro do despudorado intervencionismo internacional em nome da solidariedade que acaba de se concluir com a ocupação militar dos EUA no país, que ignorou olimpicamente a ONU e o seu preposto brasileiro, que já não sabe mais onde se meter. Hillary [Clinton, secretária de Estado dos EUA] acaba de propor que o parlamento e o presidente dêem carta branca aos Estados Unidos nas operações!
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Fala-se em "desconcentrar" a capital, oseja, incentivar a volta da população para seus povoados de origem, de onde saíram devido à falta de oportunidades. O senhor acha isso uma boa ideia no momento? O que isso pode trazer como consequência a médio e longo prazo?
A operação humanitária tem se dado no contexto de enorme desprezo imperialista, prenhe de racismo implícito. Realidade que se registra na proposta de enviar parte da população urbana ao campo sem qualquer consulta à mesma! Deve-se destacar o claro corte polpotiano da proposta e que parte dessa população não tem mais raízes agrárias. Não podemos esquecer, também, que o campo não apresenta condições para incorporar os que aceitem a solução – acesso à terra, recursos contra a erosão, combate à falta de água, financiamento, ajuda durante os primeiros tempos, preços mínimos para a produção etc. Após a terrível passagem do furacão Jeanne [em 2008], a única contribuição real da chamada comunidade internacional foi a reorganização da política para reprimir os seguidores de Aristide.
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Qual sua avaliação sobre a atuação que a comunidade internacional vem tendo em relação ao terremoto no Haiti, como por exemplo o anúncio da liberação de centenas de milhões de dólares?
O que vemos, até agora, passada uma semana do desastre, é uma desassistência indiscutivelmente responsável por dezenas de milhares de mortos. Dizer que não era possível chegar aos necessitados por razões logísticas é piada. Se fosse insurreição popular desarmada, em dois dias haveria um soldado imperialista em cada esquina! No frigir dos ovos, muito se falou e pouco se fez. Até porque o objetivo era esse. Para além dos bem intencionados, há uma enorme indústria internacional, ligada ao imperialismo, formada por milhares de pequenas, médias e grandes ONGs especializadas na assistência às catástrofes que necessitam e se locupletam com tais sucessos, para financiar seus enormes aparatos administrativos que mitigam o desemprego do Primeiro Mundo. Boa parte dos fundos postos à disposição do Haiti pelos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial são empréstimos que deverão ser pagos sempre com o sangue e suor da população.
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Ao mesmo tempo, o Haiti possui uma dívida externa de mais de 1 bilhão de dólares. Não é contraditório?
Não, não é contraditório. É necessário, para manter a dependência. Veremos que no final de tudo, essa dívida será ainda maior! Temos que lembrar que a catástrofe haitiana mantinha-se nos últimos anos, com parte da população do país comendo literalmente bolos de terra, sem que nada fosse realmente feito, a não ser controlar militarmente o país e reprimir a organização e a mobilização popular. Víamos sempre belos soldados, belos tanques, belos fuzis, funcionários bem falantes e uma enorme miséria popular.
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Há algumas críticas (inclusive de Brasil e França) em relação a um suposto controle excessivo dos EUA sobre a ajuda humanitária. Os trabalhos de resgate estão sendo organizados pelo Pentágono e pela USAID. Inclusive, alguns denunciam que, no aeroporto de Porto Príncipe, controlado pelos EUA, os estadunidenses estariam priorizando o pouso de aviões de seu país, alguns deles vindo com militares. Além disso, Obama prometeu enviar 10 mil marines ao Haiti, o que causou preocupação sobre uma eventual ocupação militar. O que o senhor pensa sobre tudo isso?
Aristide, deposto em 1991 pelo governo estadunidense republicano [de George Bush pai], voltou ao governo, em 1994, devido à intervenção patrocinada pelos democratas, de novo no governo [Bill Clinton]. A intervenção no Haiti, em 2004 foi novamente ação republicana de um país sob a presidência de Bush 2º, que contou com a oposição dos democratas, sobretudo da burguesia e da intelectualidade negra desse partido. Atualmente, no governo dos EUA se encontra um democrata negro. Se associamos isso à tradição imperialista, compreenderemos o enorme ativismo estadunidense com viés militarista. Cuba manda médicos. Os EUA, porta-aviões e marines de fuzis! Não é certo ainda o que os democratas e Obama pretendem para o Haiti. Talvez sequer eles saibam precisamente o que fazer com o sofrido país, devido ao caráter inesperado da crise. Há, porém, elementos claros. A ocupação militar do país, com tropas infinitamente maiores às da ONU, deixam claro que, nessa região, é o imperialismo estadunidense que manda. Um movimento que se associa ao retorno dos EUA à América Central e do Sul, expresso no golpe de Estado em Honduras, nas bases militares na Colômbia etc. O governo Obama teme igualmente uma imigração maciça clandestina de haitianos para os EUA. Vai ficar muito feio prender em campos de concentração uma população negra! É melhor no próprio país dela, mesmo morrendo de fome! Hoje, na região, o grande problema é a Venezuela. Certamente teremos novas bases militares dos EUA no Haiti, região estratégica, e muito barata!
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Já se começa a ouvir algumas vozes falando em reconstrução do Haiti. Quais os riscos que trazem as reconstruções depois de tragédias naturais e o que o senhor acha que pode ocorrer no Haiti?
A grande imprensa do Brasil, com destaque para a Globo, retoma a proposta internacional de tratar o Haiti como Estado falido. Ou seja, nação incapaz de se organizar e reger por si só, tendo que ser monitorada, para seu bem. Como está ocorrendo agora! Uma volta aos tempos dos protetorados. A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos. Nuvens terríveis cobrem os horizontes do povo haitiano. Os trabalhadores e todos os homens e mulheres de bem do país devem se mobilizar contra isso. A primeira exigência deve ser a imediata saída das tropas de ocupação brasileiras do Haiti, substituídas por médicos, enfermeiros, engenheiros, agrônomos. Temos que ajudar a plantar a vida, não a morte, nesse país glorioso. Se o Nelson Jobim quiser voltar fantasiado ao país sofrido, que seja de médico!

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