Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guerra da Coreia: A primeira derrota militar estadunidense


Mundo

Vermelho - 4 de Agosto de 2010 - 15h55

Há 60 anos eclodiu a guerra da Coreia. Este episódio, definitivamente, marcou o século 20. Foi primeiro conflito armado entre os dois campos nos quais se dividia o mundo: o socialista e o imperialista. Os Estados Unidos e seus aliados se utilizaram dos métodos mais bárbaros, como bombardeios massivos de alvos civis e utilização de armas bacteriológicas.

Por Augusto Buonicore *

Sul-coreanos escarnecem de vítima nortista Sul-coreanos escarnecem de vítima nortista
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Também foi ali que a principal potência capitalista sofreu sua primeira derrota numa guerra. Foi vencida pelo aguerrido exército popular norte-coreano, comandado por Kim Il-sung e pelos voluntários chineses.

Em outubro de 1949 foi proclamada a República Popular da China. O povo chinês, dirigido por Mao Tse-Tung, havia imposto uma grande derrota aos planos hegemonistas do imperialismo na Ásia. Alguns meses depois, o presidente Mao era recebido, com todas as honras, por Stalin na União Soviética. Os governos daqueles dois grandes países – agora dirigidos por forças socialistas – assinaram importantes acordos de cooperações econômico e militar. Formou-se, assim, um vasto campo democrático-popular que abarcava o leste da Europa e parte significativa do território asiático.

O avanço socialista e a guerra fria

Um pouco antes, outro acontecimento havia tirado o sono do governo dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais. A URSS explodiu seu primeiro artefato nuclear e quebrou, assim, o monopólio atômico estadunidense.

Desde então, a histeria anticomunista propagou-se nos principais países capitalistas. O ex primeiro ministro inglês Winston Churchill, num discurso feito nos Estados Unidos, declarou que uma “cortina de ferro” havia descido sobre a Europa oriental. Este era o sinal para o inicio do que se chamaria guerra fria.

Até a vitória da revolução chinesa, as próprias autoridades militares estadunidenses afirmavam que a península coreana estava fora do seu perímetro de segurança. Ou seja, sua localização geográfica não ameaçava diretamente os interesses daquela potência imperialista.

No entanto, nos círculos mais conservadores dos Estados Unidos, fortalecia a opinião de que todo planeta deveria ser considerado seu perímetro de segurança. Não era se deveria ceder um milímetro ao avanço das forças simpáticas ao socialismo. Haveria agora dois mundos antagônicos: o mundo comunista e o “mundo livre”. Deste último, comandado pelos EUA, fazia parte os regimes fascistas da Espanha e Portugal – e, também, as ditaduras latino-americanas.

A guerra quente na Coreia

A península da Coreia havia sido ocupada por mais de 40 anos pelo imperialismo japonês, que tentou transformá-la numa colônia, destruindo sua cultura e identidade nacional. Uma dura luta de resistência foi travada pelos comunistas, liderados pelo jovem Kim Il-sung. Durante a Segunda Guerra Mundial, eles conseguiram um aliado imprevisto: os Estados Unidos. Este último, atacado pelo Japão, entrou na guerra e concentrou suas ações militares na Ásia.

Nos primeiros anos da guerra, os soviéticos travavam lutas titânicas contra os poderosos exércitos de Hitler na frente européia. Depois de derrotá-los, passou a dar um maior apoio à libertação da China e da Coreia, contribuindo decididamente na expulsão dos invasores japoneses. Mas, o território coreano – como aconteceu com a Alemanha – acabou sendo dividido em duas zonas de ocupação militar, demarcadas pelo paralelo 38. O sul ficou sob supervisão dos Estados Unidos e o norte da URSS. O objetivo a médio prazo era unificar as duas partes numa única nação.

Porém, em agosto de 1948, desrespeitando o ritmo das negociações, os Estados Unidos promoveram a eleição de um governo títere no sul, fundando a República da Coreia. O novo presidente era Synghmam Rhee, um ardoroso anticomunista, que pensava unificar a península sob sua batuta, integrando-a ao campo imperialista. Como resposta, em setembro, foi constituída a República Popular da Coreia, presidida por Kim Il-sung.

Após a proclamação das duas repúblicas coreanas, os exércitos dos Estados Unidos e da URSS saíram da região. Acabava, assim, a tutela internacional. Contudo, as tensões entre os dois países – que não se reconheciam – aumentaram cada dia mais. As lideranças norte-coreanas denunciavam a ocorrência de constantes atos de provocação armada na sua fronteira. Esta foi a justificativa para que elas empreendessem uma grande ofensiva militar contra o governo de Synghmam Rhee, visando a unificação do país.

O Exército Popular da Coreia do Norte, em poucos dias, conquistou a capital sulista, Seul. A guerra parecia estar chegando ao fim, com uma vitória magistral das forças populares e socialistas. Este, com toda certeza, teria sido o resultado da guerra se a contenda tivesse ficado apenas nas mãos do povo coreano.

Invasão estrangeira e genocídio na Coreia

Os Estados Unidos, aproveitando-se da ausência da URSS, aprovou no Conselho de Segurança da ONU uma condenação à Coreia do Norte. Eles conseguiram também que a entidade formasse uma força especial de combate para “defender” a Coreia do Sul, ameaçada pelos comunistas. Os motivos para ausência dos soviéticos, que tinham direito a veto no Conselho de Segurança, são ainda desconhecidos.

Depois da fatídica decisão, que desmoralizou a ONU como instrumento da paz, soldados de 15 países foram mobilizados para combater na Coreia, embora o grosso das forças que lutaria naquele conflito viesse mesmo dos EUA. Por isso, o comando das operações militares coube ao general Douglas MacArthur, o mesmo que comandara os aliados na luta contra os japoneses no Pacífico.

Depois das várias derrotas desmoralizantes, que quase jogou seu exército de volta para o mar, encurralado numa estreita faixa de terra no sul da península, os EUA foram obrigados a mobilizar um aparato bélico ainda mais poderoso – o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Seus aviões iniciaram os bombardeios criminosos por trás das linhas inimigas.

Começava nesse momento uma das páginas mais tenebrosas da história do século 20. Milhares de aviões despejavam diariamente toneladas de bombas sobre cidades e aldeias indefesas da Coreia do Norte. Todos os centros urbanos foram arrasados. Na capital não ficou nenhum edifício de pé. Pela primeira vez, foram usadas armas químicas e bacteriológicas em grande escala contra população civil. Os exércitos dos Estados Unidos e da ONU podiam, sem dificuldades, serem comparados aos de Hitler. Este era um claro sinal que tempos sombrios estavam chegando.

A entrada em cena dos aviões de caça soviéticos ajudou melhorar a situação, mas não pode quebrar a grande superioridade aérea dos Estados Unidos. A URSS era muito cautelosa para não ser acusada de estar envolvida no conflito ao lado dos norte-coreanos, contra uma decisão da ONU. Contudo, não há dúvida que sua ajuda foi decisiva, quer preparando os quadros militares norte-coreanos quer fornecendo os armamentos necessários. Vários pilotos e assessores soviéticos chegaram mesmo a participar dos combates.

O lado estadunidense não respeitou os acordos de Genebra. Os oficiais da Coreia do Sul mandavam degolar os soldados inimigos aprisionados. As fotos dessas cabeças decepadas, que correram o mundo, causaram embaraços para as forças da ONU. Também chocaram o mundo as imagens de mulheres e crianças carbonizadas sob os destroços das aldeias.

Cabe destacar o papel da URSS e do Movimento Comunista Internacional no desencadeamento de uma grande campanha – uma das maiores já vista na história – contra a agressão imperialista à Coreia, pela interdição das armas bacteriológicas e atômicas.

As tropas dos Estados Unidos e da ONU, desrespeitando o que fora lhes delegado, avançaram para além do paralelo 38, conquistando Pyongyang, capital nortista. Ficava claro que o plano era esmagar o Exército Popular, unificar a Coreia sob a batuta de Synghmam Rhee e transformá-la num protetorado americano na Ásia. O imperialismo teria assim uma importante “ponta de lança” contra a China.

A cartada chinesa

Os exércitos inimigos chegaram, perigosamente, muito próximos da fronteira chinesa, pondo em risco sua soberania e suas conquistas revolucionárias. Diante de tal ameaça, Mao Tse-Tung resolveu reagir, incentivando a formação de um Exército de Voluntários para combater ao lado do Exército Popular da Coreia do Norte, liderado por Kim Il-sung.

A partir de novembro de 1950 mais de um milhão de combatentes chineses atravessaram o rio Yalu e foram reforçar a luta de libertação do povo coreano. A ação, que pegou de surpresa os Estados Unidos, inverteu a sorte da guerra.

As tropas norte-coreanas e os voluntários chineses ultrapassaram o paralelo 38 e ocuparam novamente a capital da Coreia do Sul. O duro inverno – mais de 20 graus abaixo de zero – molestava as tropas invasoras. O quadro era bastante desolador para os Estados Unidos.

As derrotas sucessivas fizeram com que o general MacArthur apresentasse a proposta de bombardear o território chinês, expandindo a área de conflito, ameaçando transformá-lo numa guerra mundial. Diante da perspectiva real de vitória dos comunistas, o general chegou propor a utilização de armas atômicas contra a Coreia do Norte e a China.

Vários países aliados, como o Reino Unido, se alarmaram com tal possibilidade. Grandes manifestações foram realizadas em todas as partes do mundo pela paz na Coreia e contra utilização das armas atômicas. Por fim, o próprio presidente Truman não endossou as propostas temerárias do aventureiro MacArthur e o destituiu do comando das operações.

Profundamente desgastado pelos resultados da guerra, Truman desistiu de concorrer para um novo mandato presidencial e, em novembro de 1952, o candidato democrata foi derrotado pelo general republicano Dwight Eisenhower. Quase ao mesmo tempo em que os Estados Unidos “trocavam sua guarda”, em março de 1953, morria o líder soviético Joseph Stalin. Os novos dirigentes de Moscou se empenharam em dar um fim definitivo ao conflito.

A paz: uma derrota do imperialismo estadunidense

Apesar de todos os esforços realizados – que incluíram a re-conquista de Seul –, os exércitos estadunidenses não conseguiram ir muito além do paralelo 38. A guerra entrou numa espécie de “ponto morto”. Nenhum dos dois lados parecia ter condições de vencê-la. Iniciou-se, então, um longo e tortuoso processo de negociação de paz, que levaria vários anos. Durante todo período que durou as negociações, os EUA continuaram com sua política genocida contra a população norte-coreana. O armistício de Panmujon foi assinado em 27 de julho de 1953. Era o fim da Guerra da Coreia.

Segundo cálculos feitos pela própria ONU mais de 3 milhões de coreanos perderam suas vidas neste conflito. Toda infra-estrutura da Coreia do Norte foi destruída pelos sucessivos bombardeios. Agora a grande tarefa que se apresentava ao povo norte-coreano era a de reconstruir o país, a partir de suas próprias forças, e preparar-se ainda mais contra futuras agressões externas. Este era o preço que teriam que pagar pela manutenção de sua independência.

Os Estados Unidos perderam, entre mortos e feridos, 150 mil soldados. Eles só haviam tido tamanho número de baixas nas duas guerras mundiais e na Guerra Civil nos tempos de Lincoln. Outra consequência negativa para o país foi o fortalecimento do complexo industrial-militar que passaria ser o maior incentivador – e beneficiário – da política intervencionista estadunidense.

Sem dúvida, podemos dizer que a Guerra da Coreia representou a primeira grande derrota militar dos Estados Unidos, que até então eram considerados imbatíveis numa guerra. Foram derrotados pelo exército de um pequeno país asiático e pelos voluntários chineses. Encerrava-se, assim, o segundo grande capítulo da luta pela emancipação da Ásia, o primeiro foi a Revolução Chinesa. Outras páginas heróicas ainda seriam escritas no Vietnã, no Camboja e no Laos.

Augusto Buonicore é historiador e secretário-geral da Fundação Maurício Grabóis. 
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sábado, 23 de janeiro de 2010

Carlos Marighella: Quando é preciso não ter medo. - Augusto Buonicore *


Resultados de imagens para Carlos Marighella

 

 

Colunas

Vermelho - 3 de Novembro de 2009 - 23h06

Carlos Marighella: Quando é preciso não ter medo.

Augusto Buonicore *

 “Ei Brasil-africano!
Minha avó era negra haussá,
ela veio da África,
num navio negreiro.
Meu pai veio da Itália,
operário imigrante.
O Brasil é mestiço,
mistura de índio, de negro, de branco”

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(De Canto para Atabaque - Carlos Marighella)

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Carlos Marighella nasceu em 5 de novembro de 1911 na cidade de Salvador, Bahia. Seu pai era imigrante italiano, sua mãe uma bela negra, filha de escravos. Nas sua veias corria o sangue haussá, aqueles escravos islamizados que colocaram a Bahia em pé de guerra com suas inúmeras rebeliões no início do século XIX.
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Seguindo o espírito contestador de seus antepassados, em 1932, Carlos ingressou na juventude comunista. O Brasil estava agitado naqueles dias. A Revolução de 1930 mal completara dois anos e o descontentamento com os caminhos que ela estava tomando se espalhava por vários setores sociais. No mesmo ano em que aderiu ao comunismo foi preso e espancado pela polícia do interventor Juracy Magalhães. Seu crime: participar de uma manifestação estudantil que pedia a constitucionalização do país.
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Antes de terminar o curso de engenharia civil, atendendo ao pedido da direção do Partido Comunista do Brasil (PCB), mudou-se para São Paulo. Partiu sem contestação ou arrependimento. Muitos anos depois diria: “Um sentimento profundo de revolta ante a injustiça social não me permitia prosseguir em busca de um diploma (...) num país onde as crianças são obrigadas a trabalhar para comer”.
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Marighella chegou a capital paulista numa má hora. Estava em andamento uma grande caçada aos dirigentes comunistas e, por isso, logo caiu nas garras da temida Polícia Especial, comandada por Felinto Miller. Torturado por 23 dias, nada revelou sobre o Partido. Saiu da prisão em julho de 1937, durante um breve período de liberalização do regime. Contudo, quatro meses depois, foi decretado o Estado Novo. O Brasil mergulhava numa ditadura sem máscaras.
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Em maio de 1939, Marighella foi preso pela terceira vez. As torturas foram ainda piores que das vezes anterior. Bravamente continuou a não dar informação alguma aos seus algozes. Ficou aprisionado cerca de seis anos. Enquanto estava no cárcere, um grupo de abnegados camaradas procurava reorganizar o Partido Comunista. À frente desse trabalho encontravam-se Maurício Grabóis, Diógenes Arruda, João Amazonas, Pedro Pomar e Amarilio Vasconcelos.
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Esse esforço culminou na realização da Conferência da Mantiqueira em agosto de 1943. Entre os eleitos para o novo Comitê Central estavam os nomes de dois prisioneiros, dois símbolos da resistência democrática e popular: Carlos Marighella e Luís Carlos Prestes.
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No início de 1945 foi decretada a anistia. Vivia-se uma nova época. O Partido Comunista do Brasil, agora na legalidade, prestigiado pela sua ação decisiva na luta contra o fascismo, crescia num ritmo acelerado, se transformando numa importante força política nacional. Seus comícios reuniam dezenas de milhares de pessoas e Prestes era um mito entre os trabalhadores.
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Na eleição para a Assembléia Nacional Constituinte, Marighella se candidatou pela Bahia e foi eleito. A bancada comunista era composta por 14 deputados federais e um senador. O combativo baiano esteve, ao lado de seus camaradas, na linha de frente dos grandes debates nacionais. Destaque especial merece sua corajosa defesa da separação da Igreja e do Estado e do divórcio. Enquanto ainda era deputado, se enamoraria pela jovem Clara Charf que trabalhava na assessoria da bancada comunista. Ela seria sua companheira por toda vida. 
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A partir de 1947 a conjuntura internacional começou mudar. A grande aliança entre URSS e as potências capitalistas ocidentais, forjada durante a guerra contra o eixo nazi-fascista, desfazia-se e transformava-se num conflito aberto. Era o início da Guerra Fria. A bandeira do anticomunismo voltou a ser levantada com redobrada energia pelas classes dominantes de todo mundo. No Brasil as coisas não foram diferentes.
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Sintonizado com os novos interesses do imperialismo, o presidente Dutra reiniciou a dura repressão ao PC do Brasil. As manifestações públicas foram proibidas e dispersadas com violência. Os sindicatos sofreram intervenção. Jornais comunistas começaram a ser empastelados pela polícia. Preparava-se febrilmente o terreno para a cassação do registro do Partido Comunista e de seus parlamentares. O que acabou acontecendo alguns meses depois.
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Marighella, novamente, foi obrigado a mergulhar na clandestinidade e passou dirigir o Partido no estado de São Paulo. Nesse período os comunistas paulistas, enraizados dentro das fábricas paulistas, dirigiram importantes manifestações operárias, como a greve geral de 1953 – uma das maiores da história brasileira até então.
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Desde 1950 o PC do Brasil vinha defendendo a constituição de uma Frente Democrática de Libertação Nacional e a luta armada para derrubar o regime vigente – uma linha política marcada pelo sectarismo e o esquerdismo. A deposição e o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, levaram-no a mudar de posição e defender uma aliança prioritária com os trabalhistas. A vitória de JK trouxe dias mais tranqüilos para os dirigentes comunistas, que tiveram os pedidos de prisão preventiva anulados e puderam, finalmente, sair da clandestinidade. A democracia brasileira parecia começar desabrochar.
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Contudo, a paz interna foi abalada por notícias vindas de muito longe. Em fevereiro de 1956, numa sessão secreta do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Krushov leu seu famoso relatório no qual denunciava os crimes de Stalin. O que era para ser secreto, rapidamente, se espalhou pelo mundo, através das agências noticiosas estadunidenses. A primeira reação dos comunistas foi negar as informações dadas pela imprensa burguesa.
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O delegado brasileiro presente àquele congresso, e que poderia elucidar as dúvidas surgidas, demorou em voltar para o país. Mas, quando chegou, confirmou grande parte do que havia sido divulgado. Abriu-se uma profunda crise no interior do Partido Comunista. Numa das reuniões do Comitê Central, convocadas para discutir o documento soviético, Carlos Marighella não conteve as lágrimas e chorou compulsivamente. Foram dias de agonia para ele. Piores do que aqueles vividos na prisão. Afinal, Stalin era o seu grande ídolo. Aquele que, em meio a enormes dificuldades, havia comandado a construção do socialismo na URSS e derrotado as potências nazi-fascistas. Agora ele era apresentado como um monstro pelo seu próprio partido.
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Na verdade, por trás das denúncias ao “culto à personalidade” de Stalin estava a tentativa de mudar a linha política do PCUS e do movimento comunista internacional. Desde aquele congresso os soviéticos passaram defender a coexistência pacífica com o imperialismo estadunidense e a possibilidade de transição pacífica para um novo regime social, rumo ao socialismo, na maior parte dos países do mundo.
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Num primeiro momento, Marighella aliou-se à Prestes para implantar a nova política que acabou se consubstanciando na “Declaração de Março” de 1958. Com esse documento o PCB incorporou as teses do PCUS, passando defender a transição pacífica, a tendência irreversível da democracia e o caráter democrático das forças armadas no país. Essa linha, com pequenos ajustes, foi ratificada no 5º Congresso, realizado em 1960. Os principais opositores, que mais tarde reorganizariam o PCdoB, foram excluídos ou mantidos na condição de suplentes no Comitê Central.
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No mês de agosto de 1961 o presidente Jango renunciou abrindo uma grave crise política. Os ministros militares se recusaram dar posse ao vice-presidente João Goulart, que se encontrava em viagem oficial à China. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola, com apoio do comandante do 3º Exército, resolveu resistir ao golpe e garantir à posse do sucessor legal. Formaram-se batalhões populares e o país chegou à beira de uma guerra civil.
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A saída encontrada foi aceitar a posse de Jango, mas sob um regime parlamentarista. Marighella ficou descontente com a forma encontrada para solucionar a crise. Mais alguns dias, afirmava ele, os golpistas teriam que se render sem a necessidade de concessões. O preocupou o fato do partido de sido pego completamente de surpresa e não ter conseguido elaborar uma resposta à altura, a exceção do Rio Grande do Sul.
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Numa conferência partidária, realizada em 1962, iriam se revelar as diferenças de opinião existentes no interior do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Marighella, por exemplo, não aceitava a via pacífica como único meio de derrotar o imperialismo e o latifúndio. Acreditava que havia possibilidade de um golpe militar e que era preciso estar preparado para resistir a ele. Não era possível depositar todas as esperanças no esquema militar de Jango nem sobre um possível papel progressista a ser desempenhado pela burguesia brasileira numa eventual crise. Ele, então, passou a compor uma espécie de ala esquerda do Partido. Contudo, a cisão ainda não estava colocada no horizonte e continuou, publicamente, defendendo as posições oficiais da direção do Partido.
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No entanto, o golpe militar de 1º de abril de 1964 precipitou a crise interna do PCB. Ele, novamente, havia pegado a direção comunista desprevenida. Muitas de suas teses mostraram-se equivocadas. Marighella foi o primeiro a exigir uma mudança de rumos. O imobilismo o incomodava profundamente. O conflito entre os comunistas brasileiros se agravou. 
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No dia 9 de maio de 1964, num sábado, os órgãos de repressão tentaram prendê-lo. Ele refugiou-se num cinema, mas foi descoberto. Policiais cercaram e invadiram o prédio. Diante da resistência inusitada imposta pelo antigo líder comunista, eles atiraram. Uma bala atingiu-lhe o peito. Mesmo assim, não se entregou. Entrou num corpo a corpo renhido com os agentes da repressão. Precisou que uma coronhada na cabeça o pusesse a pique. Tudo foi documentado por um fotógrafo do “Correio da Manhã”. O ato de Marighella tornou-se um dos símbolos da resistência ativa à ditadura militar.

Alguns meses depois descreveria essa experiência e colocaria suas opiniões sobre a tática a ser adotada contra a ditadura no livro “Como resisti à prisão”. Ali escreveu: “Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação criada com o golpe de 1º de abril ou se conformam com ela. O conformismo é a morte”. Continuou: “A grande falha deste caminho (trilhado pelo PCB) era a crença na capacidade de direção da burguesia, a dependência da liderança proletária à política efetuada pelo governo de então”. O autor, pela primeira vez, advogava a necessidade de se utilizar da violência revolucionária contra os generais no poder: “A ditadura surgiu da violência empregada pelos golpistas contra a nação, e não pode esperar menos que a violência por parte do povo para enfrentar os crimes cometidos pelo governo e os militares (...)”.
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No ano seguinte, radicalizou mais suas posições, e publicou “A crise brasileira”. O proletariado, afirmou, “não tem outro recurso senão adotar uma estratégia revolucionária (...) Trata-se da revolução, da preparação da insurgência armada popular”. E, concluiu, “o trabalho mais importante, aquele que tem caráter prioritário é a ação no campo, o deslocamento das lutas para o interior do país”.
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Apesar de suas divergências públicas, em 1966, ele foi eleito secretário do Partido no estado de São Paulo. Logo depois se desligou da Comissão Executiva Nacional do PCB. “Solicitando demissão da atual Executiva, declarou, desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto às massas e jamais ficar à espera das regras do jogo político, burocrático e convencional que impera na liderança”. Na tradição comunista esse era um ato de insubordinação.
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A luta agora passou a ser pela direção central do Partido que, acreditava-se, teria como palco o VI Congresso. Na Conferência regional Marighella conseguiu 33 votos dos 36 delegados presentes. A linha política oficial também foi derrotada no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Diante da possibilidade de perder o controle partidário, a direção interveio nesses estados e iniciou o afastamento dos militantes descontentes, acusados de divisionismo.
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Marighella foi o único membro do PCB que participou da 1ª Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada em Cuba. Nesse conclave buscou-se, contra a vontade dos soviéticos, articular uma espécie de Internacional revolucionária latino-americana. Um dos seus lemas era “Criar um, dois, três Vietnãs!”. Procurando novos caminhos, ele empolgou-se com as teses pouco ortodoxas ali aprovadas. Antes de ser expulso, apresenta sua carta de afastamento do Comitê Central. Escreveu: “não tenho que pedir licença para praticar atos revolucionários”. Permaneceu vários meses da ilha e foi firmando suas convicções sobre os caminhos da revolução brasileira. Redigiu “Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil”, dedicado a Che Guevara. Agora a guerrilha era reconhecida como “o caminho fundamental, e mesmo único, para expulsar o imperialismo e destruir as oligarquias”.
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Voltando ao país, fundou o Agrupamento Comunista de São Paulo e, depois, através de uma articulação envolvendo militantes de vários estados, criou a Ação Libertadora Nacional (ALN). Uma das características dessa nova organização era subestimação – ou mesmo negação – do papel do Partido de Vanguarda (comunista) no processo revolucionário. O seu lema era “a ação faz a vanguarda”. Uma posição, influenciada por Regis Debray, que não se enquadrava na tradição marxista e leninista. Esse foi um dos aspectos mais polêmicos de seu pensamento.
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Apesar de advogar a importância do trabalho no campo, a ALN acabou ficando presa às atividades guerrilheiras nas grandes cidades. Entre os seus primeiros atos estavam os assaltos a casas bancárias e outros estabelecimentos, visando levantar fundos para montagem da guerrilha. No começo, a ditadura não imaginava que essas ações estavam sendo praticadas por organizações da esquerda armada. O segredo apenas foi descoberto em novembro de 1968 quando da prisão de um militante. Desde então, Marighella tornou-se o inimigo público número 1.
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Ele, no entanto, foi pego de surpresa quando, em setembro de 1969, um comando do MR-8 e da própria ALN capturou o embaixador norte-americano e o soltou em troca da libertação de vários presos políticos. Queixou-se por não ter sido informado com antecedência de uma operação tão decisiva. Os autores do seqüestro responderam usando uma tese do próprio Marighella: “ninguém precisa pedir autorização para realizar um ato revolucionário”.
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O experiente combatente tinha consciência que a ditadura, humilhada pelo seqüestro, partiria para o contra-ataque. Ele estava certo. Naqueles dias começou uma verdadeira operação de cerco e aniquilamento. Poucos dias depois a quase totalidade dos que haviam participado daquela ação arrojada estava presa ou morta. O Grupo Tático Armado da ALN foi praticamente desbaratado pela repressão que se seguiu.
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Faltava pegar Carlos Marighella. Essa passou a ser uma verdadeira obsessão dos órgãos de segurança. Através de informações extraídas de militantes barbaramente torturados, a polícia localizou-o e montou uma emboscada. No dia 4 de novembro – menos de dois meses da captura do embaixador americano – o Marighella foi executado em plena Alameda Casa Branca na cidade de São Paulo.
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O medo dos policiais era tanto que mesmo a vítima estando sozinha e desarmada, eles se embaralharam e acabaram matando e ferindo seus próprios comparsas. Um delegado levou um tiro na perna e uma investigadora morreu baleada na cabeça. Envergonhados, os bandidos do regime disseram que foram atacados por seguranças do líder da ALN. A farsa logo foi desmascarada.
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Talvez o poema Rondó da Liberdade, escrito pelo próprio Marighella, descreva com precisão o espírito libertário daquele que nunca se curvou diante às intempéries. Nas câmaras de tortura do Estado Novo, resistindo sozinho e baleado num cinema carioca ou diante de seus algozes numa alameda escura de São Paulo, ele parece sempre querer nos dizer: “É preciso não ter medo,/ é preciso ter a coragem de dizer./ Há os que têm vocação para escravo,/ mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão./ Não ficar de joelhos,/ que não é racional renunciar a ser livre./ Mesmo os escravos por vocação/ devem ser obrigados a ser livres,/quando as algemas forem quebradas”. As algemas da ditadura militar já foram quebradas. Outras ainda estão aí para serem partidas e o serão pelas mãos, sem medo, de outros milhares de marighellas.
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Uma nota: Quando uma amiga perguntou: quem é você Marighella? Ele respondeu faceiro: “sou apenas um mulato baiano”.
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Bibliografia

Betto, Frei – Batismo de Sangue, Ed. Casa Amarela, 2000
José, Emiliano – Marighella: o inimigo público número um da ditadura militar, Ed. Sol e Chuva, 1997
Marighella, Carlos – Por que resisti à prisão, Ed. Brasiliense/Edufba, 1994
---------------------- - Escritos de Marighella, Ed. Livramento, 1979
---------------------- - Poemas – Rondó da Liberdade, Ed. Brasiliense, 1994
Nóvoa, Jorge (org.) – Carlos Marighella: o homem por trás do mito, Ed. Unesp, 1999
Sacchetta, V. & Camargos, M – A imagem e o gesto: fotobiografia de Carlos Marighella, Ed. Fundação Perseu Abramo, 1999.
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Filmografia
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Marighella: Retrato falado do guerrilheiro – documentário de Silvio Tendler
Hercules 56 – documentário de Silvio Da-Rin.
Batismo de Sangue – filme dirigido por Helvécio Ratton.
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* Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Parabéns

    04/11/2009 21h09 Que aula!Marighella vive!
    bruno bechara
    jundiai - SP
  • MARIGHELLA! MARIGHELLA, SEMPRE MARIGHELLA!!!

    04/11/2009 19h46 Carlos Marighella, exemplo do espírito de luta e insubordinação contra os conchavos políticos, trazia no sangue a coragem e rebeldia dos imigrantes-anarquistas italianos contra as injustiças e crimes das classes dominantes capitalistas. Foi um inigualável líder da resistência à ditadura fascista oriunda do golpe militar de 1964. Por sua brava atuação durante toda sua vida, Marighella ocupa um lugar de destaque no pedestal reservado aos heróis da luta revolucionária pela emancipação da classe trabalhadora, do povo e da nação.
    Giovanni G. Vieira
    Rio de Janeiro - RJ
  • MARGHELLA! MARIGHELLA, SEMPRE MARIGHELLA!!!

    04/11/2009 19h42 Carlos Marighella, exemplo do espírito de luta e insubordinação contra os conchavos políticos, trazia no sangue a coragem e rebeldia dos imigrantes-anarquistas italianos contra as injustiças e crimes das classes dominantes capitalistas. Foi um inigualável líder da resistência à ditadura fascista oriunda do golpe militar de 1964. Por sua brava atuação durante toda sua vida, Marighella ocupa um lugar de destaque no pedestal reservado aos heróis da luta revolucionária pela emancipação da classe trabalhadora, do povo e da nação.
    Giovanni G. Vieira
    Rio de Janeiro - RJ
  • Salve Marighella

    04/11/2009 13h47 Parabéns pela iniciativa, Augusto! Marighella trazia também a verve oratória e poética baiana. No Colégio Central da Bahia,em Salvador, a mais tradicional escola pública, por onde passaram Castro Alves, Rui Barbosa, Marighella respondeu em versos a uma prova de física. De tão bonito e reverenciado, foi emoldurado e afixado no Salão Nobre. Permanece por décadas como um dos grandes marcos simbólicos da escola. Nem a ditadura ousou baixar o poster. Militante secundarista, tinha no poster o único motivo para entrar na sala nobre! Sempre reverenciei o grande baiano!
    Marco Antônio Lima
    Brasilia - DF
  • um herói

    04/11/2009 8h57 era um fim de tarde,na televisão um jogo transmitido ao vivo ,santos x corinthians para meu desespero de santista perdia-mos por 4x0 , derrepente um locutor ao fundo anuncia a morte do mais temido inimigo do regime militar, na inocencia dos meus treze anos ficou um nó garganta naquele 04 de novembro de 1969,hoje uma certeza o sonho de marighella,e muitos outros que tombaram não foi em vão,augusto é fundamental não perdermos nossá memória historica parabens pela materia
    jose carlos tisiu
    são paulo sp - SP
  • Viva Mariguella!

    04/11/2009 0h41
    Marighella é um herói de todos nós.
    Julio Vellozo
    São Paulo - SP
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A verdade sobre o pacto Hitler-Stalin - Augusto Buonicore *


Colunas

Vermelho - 3 de Setembro de 2009 - 0h15

A verdade sobre o pacto Hitler-Stalin

Augusto Buonicore *

Durante a passagem dos 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, a grande imprensa buscou reconstruir a história do seu ponto de vista. A principal vítima do revisionismo liberal-burguês – e não poderia ser diferente – foi a União Soviética.

Hitler e Chamberlain durante a Conferência de Munique (1939) Imagem: Hitler e Chamberlain durante a Conferência de Munique (1939)
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Ela, juntamente com a Alemanha hitlerista, foi responsabilizada pela deflagração daquele conflito. A tragédia teria começado com a assinatura do pacto de não-agressão entre os dois países, ocorrido no fatídico dia 23 de agosto de 1939.
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Há várias décadas Ivan Maiski, ex-embaixador soviético em Londres, alertava contra tal calúnia. Escreveu ele: “A falsificação aqui é dupla. Primeiro, são inteiramente adulterados os acontecimentos da Primavera e do Verão de 1939. Segundo, eles são tomados isoladamente, sem ligação com o passado, no qual têm sua origem, ficando, assim, incompreensíveis”. Qual seria, então, o passado - ou os antecedentes - do pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS?
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A ascensão de Hitler e a Frente Popular
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Após a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933, a Internacional Comunista começou a romper com as concepções esquerdistas e sectárias que predominavam no seu interior. Até aquele momento, por exemplo, ela considerava a social-democracia européia como o braço esquerdo do fascismo. Após a derrota na Alemanha, os comunistas passaram a defender a constituição de frentes únicas envolvendo a esquerda e setores democráticos contra o nazifascismo. Nascia, assim, a política das frentes populares.
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A nova conjuntura internacional favorável ao fascismo acarretou também uma mudança na política externa soviética e levou-a a se aproximar das democracias burguesas, especialmente da Inglaterra e França. Uma aproximação nem sempre fácil devido ao anticomunismo arraigado nas classes dominantes daqueles países. Mas, o medo da ascensão alemã conduziu alguns elementos mais esclarecidos da burguesia à por de lado a ojeriza que sentiam pelo poder soviético.
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Em 1934, a pedido de vários países, a URSS ingressou na Liga das Nações. A Alemanha e o Japão haviam abandonado para implementar suas políticas guerreiras. Como disse Maiski: “Isso colocava à disposição da URSS a tribuna internacional mais importante da época para fazer sua defesa da paz e combater o perigo de uma segunda guerra mundial”. Esse foi um período de breve degelo nas relações entre as democracias burguesas ocidentais e a URSS.
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Anthony Eden, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, chegou a visitar Moscou, sendo o primeiro estadista ocidental a fazê-lo. O exemplo foi seguido pelo Ministro da França, Pierre Laval. Em maio de 1935 firmou-se um pacto de assistência mútua entre URSS e França. Depois se assinou outro com a Tchecoslováquia. Parecia que o país dos sovietes estava saindo do seu perigoso isolamento.
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Contudo, as forças políticas conservadoras passaram a minar essa relação. Na Inglaterra o processo de esfriamento se aprofundou com a ascensão de Neville Chamberlain ao cargo de Primeiro-Ministro, ocorrido em maio de 1937. Desta data até 1939, quando eclodiu a guerra, predominou a chamada política de “apaziguamento” – ou seja, a política de concessões graduais às potências nazi-fascistas com a ilusão que essas concessões as acalmariam.
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A Alemanha hitlerista vinha desrespeitando o Tratado de Versalhes e se rearmando. O primeiro ato aberto de provocação foi a ocupação militar da Renânia, que pelo tratado deveria se manter desmilitarizada. A URSS exigiu medidas drásticas dos membros da Liga das Nações. Mas, as potências ocidentais se contentaram com simples protestos diplomáticos. Nem mesmo uma ameaça de sanção foi aprovada contra o governo de Hitler. Isso soou quase como uma autorização para que continuasse a militarização e expansão do Estado alemão.
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A Espanha, Áustria e Tchecoslováquia sacrificadas
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Em julho de 1936, o general Franco organizou um levante reacionário contra a jovem República Espanhola. A Itália e a Alemanha, dirigidas por fascistas, se apressaram em apoiar os golpistas. Enviaram-lhe homens e modernos armamentos. Começava assim uma sangrenta guerra civil. Era um sinal sombrio do que ainda estava por vir.
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O governo legítimo espanhol reclamou a solidariedade das democracias ocidentais. A resposta inglesa, francesa e estadunidense foi aprovar a vergonhosa política de “não-intervenção”. Apenas a URSS saiu em socorro da República Espanhola. A esquerda mundial, encabeçada pelos comunistas, organizou as Brigadas Internacionais para combater as tropas fascistas na Espanha. Essa é uma das páginas mais belas do internacionalismo proletário no século 20.
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Enquanto dezenas de milhares soldados italianos ainda combatiam ao lado de Franco para derrubar o governo constitucional, a Inglaterra assinou um tratado de amizade com Mussolini. Este acordo, além de cuspir sobre a farisaica política de não-intervenção, ainda acabava por reconhecer a ocupação na Etiópia realizada alguns anos antes sob protesto inócuo da Liga das Nações.
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No mesmo ano, 1938, Hitler anexou a Áustria ao 3º Reich. Novamente as potências ocidentais responderam à agressão militar nazista com simples protestos protocolares. O governo soviético lançou uma declaração conclamando a cooperação internacional contra a ofensiva nazista: “A presente situação faz avivar em todos os Estados pacíficos, e em particular nas grandes potências, o problema de sua responsabilidade pelo destino dos povos da Europa, e não só da Europa. O governo soviético está consciente da parte da responsabilidade que lhe corresponde e posso declarar que está disposto, como antes, a participar de ações coletivas que tenha por finalidade deter o desenvolvimento da agressão e eliminar o crescente perigo de uma nova guerra mundial”. A resposta da França, da Inglaterra e dos EUA foi o silêncio. Um silêncio eloqüente.
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Com as mãos livres, Hitler se tornou ainda mais ambicioso. Dois meses depois da anexação austríaca, tropas alemãs se concentraram nas fronteiras da Tchecoslováquia. O Füher agora exigia todos os territórios habitados por descendentes de alemães, os sudetos. Nessas regiões, grupos nazistas provocavam desordens e confrontos com a polícia visando criar pretexto para uma invasão.
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Dessa vez as coisas pareciam se complicar para Hitler, afinal a França tinha um pacto de assistência mútua com a Tchecoslováquia e a Inglaterra com a França. A URSS – conforme estabelecia o pacto assinado anos antes – se comprometia a apoiar militarmente à Tchecoslováquia caso a França também fizesse o mesmo. Mas, o Ocidente não estava disposto a ir à guerra por um pedaço sem importância da Europa.
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Um editorial do Times, porta-voz do conservadorismo inglês, daria o tom da capitulação ocidental diante de Hitler. Ele sugeria que para resolver a crise internacional e evitar a guerra os Tchecos deveriam abrir mão de alguns de seus territórios. Era preciso apaziguar os nazistas dando a eles o que queriam e os direcionando para o leste, rumo a URSS. Assim pensava a maioria dos liberais ocidentais.
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Em 15 de setembro de 1938, Chamberlain encontrou-se com Hitler. Ouviu as reivindicações descabidas do ditador e as aceitou. Passou então a pressionar os tchecos, que, sem alternativas, foram obrigados a ceder. Alguns dias mais tarde, Hitler disse aos ingleses estupefatos que as concessões feitas eram agora insuficientes. A Alemanha queria mais territórios. O governo inglês novamente capitulou, mas, dessa vez, não encontrou a mesma receptividade dos tchecos. Hitler então ameaçou com a guerra imediata.
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Poucos dias depois – entre 29 e 30 de setembro – os governos da Alemanha, Itália, Inglaterra e França se reuniram numa conferência em Munique e firmaram um tratado. Através dele a Tchecoslováquia deveria ceder a região dos sudetos, com todos os bens neles existentes. Ao saber dos resultados, exclamou Edouard Benes, presidente da Tchecoslováquia: “fomos abandonados”. A multidão chorava e protestava pelas ruas de Praga. Mas, segundo Chamberlain, a paz estava salva.
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Seis meses depois do Acordo de Munique e da anexação dos sudetos, Hitler ocupou todo o território da Tchecoslováquia e o dilacerou. A Eslováquia foi declarada “independente” e outra região foi entregue a Hungria, governada pelo fascista Horthy. Novamente o que se viu foi a covardia dos governos britânico e inglês. Em ato contínuo Hitler exigiu a cidade polonesa de Dantzig, atual Gdansk.
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A proposta soviética contra o eixo nazi-fascista
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O governo soviético, diante da ameaça de ocupação da Polônia e Romênia, propôs uma conferência emergencial entre os representantes da Inglaterra, França, URSS, Romênia, Turquia e Polônia para debater e estabelecer mecanismos de resistência ao avanço nazista. Contudo, Chamberlain se apressou em dizer que se opunha a formação de blocos militares de países contra outros blocos militares. Portanto, nada de frente-única contra Alemanha e Itália. A Polônia, governada por reacionários, por sua vez, recusava-se a assinar qualquer acordo com a URSS. Nem mesmo uma declaração conjunta desses países conseguiu ser aprovada. Hitler pressentiu a fraqueza e vacilações de seus adversários.
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Diante das ameaças reais que pairavam sobre a Grécia, Polônia e Romênia, a proposta inglesa e francesa foi oferecer garantias unilaterais a esses países. Essa foi a forma encontrada para fugir de qualquer compromisso militar explicito com a URSS. Ironicamente os três países a serem protegidos unilateralmente não tinham fronteiras com a Inglaterra e França. Dois deles, Polônia e Romênia, tinham divisas territoriais com a Rússia. Sendo assim, todo e qualquer apoio militar efetivo, necessariamente, deveria passar por um acordo com o próprio Stalin.
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A URSS não aceitou essas garantias unilaterais e, em março de 1939, propôs um pacto de assistência mútua entre todos os países ameaçados pelas potências nazi-fascistas. Um ataque a qualquer um, inclusive à Rússia, seria considerado uma agressão a todos e respondido como tal. Essa era a única maneira de barrar o avanço da Alemanha, da Itália e do Japão. Estabelecia a proposta soviética:
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“1. A França, a Inglaterra e a URSS prestar-se-ão, mutuamente, ajuda imediata e eficaz, se qualquer uma delas achar-se envolvida em operações militares com uma potência européia no seguinte casos:
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a) agressão dessa potência a qualquer um dos signatários do pacto;

b) agressão dessa potência à Bélgica, Grécia, Turquia, Romênia, Polônia, Letônia, Estônia e Finlândia, países que os signatários se comprometem a defender ante a agressão; e
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c) ajuda de um dos signatários do pacto a qualquer Estado europeu (mesmo os não garantidos) que solicite essa ajuda para luta contra a violação de sua neutralidade.
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2. No caso de se iniciarem operações militares conjuntas, em virtude da aplicação do pacto, os três países signatários se comprometem a firmar o armistício ou a paz de comum acordo
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Diante de uma proposta tão clara, só restou aos governos ocidentais tergiversar e tentar protelar qualquer acordo, esperando que Hitler, finalmente, se decidisse continuar sua marchar para o Leste até a URSS. O anticomunismo atávico não os permitia ver que, naquele momento, a principal contradição era entre o imperialismo anglo-francês e o alemão e não entre este e a URSS. A política externa francesa e inglesa cavava a própria cova.
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A situação européia exigia atitudes rápidas e enérgicas, como propunha a URSS. Isso era tudo o que não queria Chamberlein. Um exemplo da má vontade inglesa foi a decisão da enviar sua delegação para negociar um tratado com os russo a bordo de um navio comum. Alegou-se que as bagagens não caberiam num avião. “Gastaram cinco dias na travessia, em um momento histórico em que eram extremamente importantes as horas e, inclusive, os minutos”, afirmou Maiski. Pior: a delegação enviada, composta por membros do segundo escalão do governo, não tinha autorização para assinar nenhum acordo político ou militar com os soviéticos. A missão inglesa foi uma grande farsa, visando protelar as negociações.
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Em 10 de março de 1939 Stalin pronunciou um duro discurso no plenário do 18º Congresso do PCUS: “Os aliados ocidentais empurram os alemães para o leste, fazendo-lhes ver que os bolcheviques são presas fáceis (...). Não deixaremos o nosso país ser arrastado nesse gênero de conflito por incendiários cujo hábito consiste em fazer com que outros tirem da brasa as castanhas que eles próprios irão comer (...). A política não-intervencionista significa a convivência e o encorajamento à agressão (...). As potências democráticas abandonaram a Áustria, apesar da obrigação de defender-lhe a independência. Deixaram ao desamparo os sudetos e atiraram a Tchecoslováquia à feras (...) e continuam a incentivar os alemães a prosseguir em seus avanços cada vez mais para o Leste, como se quisessem dizer: ‘comecem vocês uma guerra contra os bolcheviques e tudo estará bem”.
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A guerra batia as portas da Europa e a situação começou a ficar complicada para o governo da URSS. Ele sentia que estava sendo enrolado. Foi aí que surgiu da parte alemã a proposta concreta de um pacto de não-agressão. Não se tratava de um pacto militar de ajuda mútua, como os soviéticos haviam proposto aos ingleses e franceses.
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O acordo foi assinado em 23 de agosto de 1939. Ele dava um tempo maior a URSS para que ela se preparasse econômica e militarmente tendo em vista o conflito que, mais cedo ou mais tarde, iria atingi-la. Stalin não tinha nenhuma ilusão quanto à longevidade dos acordos com Hitler, mas, prudentemente, queria garanti-lo por um maior tempo possível.
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No dia primeiro de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia e teve início a 2ª Grande Guerra Mundial. O velho político conservador inglês, Winston Churchill escreveu: “Não há dúvida (...) de que a Grã-Bretanha e a França deveriam ter aceitado a proposta russa (...). A aliança da Inglaterra, França e Rússia, em 1939, teria despertado o mais profundo alarma no coração da Alemanha (...). Hitler não ousaria atirar-se numa guerra em duas frentes (...) Se, por exemplo, Mister Chamberlain, tivesse dito, ao receber a proposta russa: ‘sim, unamo-nos os três e torçamos o pescoço de Hitler” (...) a história poderia ter tido um curso diferente”.
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Os erros de Stalin e da Internacional Comunista
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Duas grandes críticas ainda são feitas ao acordo. A primeira delas é quanto à cláusula secreta que previa a divisão da Polônia. Poucos dias depois da invasão alemã à parte ocidental daquele país, em 17 de setembro, o Exército Vermelho ocupou o lado oriental. Do ponto de vista geopolítico - e estritamente militar – o ato russo tinha sua razão de ser.
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As regiões ocupadas foram a Ucrânia e a Bielo-Rússia ocidentais, que haviam sido arrebatadas da jovem Rússia soviética e entregues à Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, a ocupação desses territórios manteria as tropas da Alemanha nazistas numa distância dezenas de quilômetros da fronteira soviética de 1939, melhorando as possibilidades de defesa militar do país num futuro conflito.
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Outra crítica, esta coberta de razão, é que o “pacto de não-agressão” conduziu o movimento comunista internacional a arrefecer a luta antifascista entre 1939 e 1941. O imperialismo inglês e francês passou a ser considerado o único responsável pelo conflito europeu e mundial. Isso confundiu, desnorteou e isolou os comunistas em muitos países, facilitando a ação de seus inimigos. Na França, por exemplo, o PCF foi colocado na ilegalidade e taxado de traidor da nação.
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O que era justo do ponto de vista da defesa do Estado e mesmo do socialismo soviético passou a ser algo incorreto e perigoso quando aplicado nos demais países do mundo. As políticas adotadas pelos partidos comunistas acabaram se subordinando, unilateralmente, aos interesses do Estado Soviético, que eram evitar qualquer movimento que desse pretexto para Hitler começar uma nova ofensiva para o Leste. Não seria a primeira nem a última vez que ocorreria essa subordinação. Os resultados foram sempre negativos para luta democrática, nacional e socialista dos trabalhadores.
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Bibliografia

Maiski, I – Quem ajudou Hitler, Editora Socialista, São Paulo, 1984

Silveira, Joel e Moraes Neto, Geneton – Hitler/Stalin: o pacto maldito, Ed. Record, RJ, 1989.

Revunenkov, V. G. - História dos tempos atuais, Centro do Livro Brasileiro, Lisboa/Porto, s/d

 
* Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp
* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Quais são os "erros de Stalin"?

    03/09/2009 23h27 O artigo é magistral. Um material de grande importância para a compreensão de fato tão relevante para a história humana no século XX. Faço aqui apenas uma observação, relacionada ao último subtítulo do artigo, "Os erros de Stalin e da Internacional Comunista": O subtítulo acima trata de duas "grandes críticas feitas ao acordo", e a seguir as detalha. A primeira se refere à Divisão da Polônia, e conclui por dizer que "do ponto de vista geopolítico - e estritamente militar - o ato russo tinha sua razão de ser". A segunda, "esta coberta de razão", diz que "o pacto... conduziu o movimento comunista internacional a arrefecer da luta antifascista entre 1939 e 1941.." Ora, se a primeira "grande crítica" teve a sua razão de ser, e a segunda se deveu a uma compreensão equivocada do movimento comunista internacional naquele príodo histórico, onde estão os "erros de Stalin" proclamados no subtítulo do artigo?
    Lipa Xavier
    Montes Claros - MG
  • A verdade sobre o pacto...

    03/09/2009 21h50 Há uma confusão em sua análise, no final do artigo. Stalin sempre foi citado como o Ditador, mas a parte anterior do artigo, mostra perfeitamente bem que ele falava em nome do governo da URSS. Então, por que essa confusão no final. As razões do pacto, completamente distorcidas pela midia dos paises capitalistas, provocou a confusão entre os partidos comunistas. Não foi problema de subordinação, pois, isto sempre existiu, pois, todo mundo sabe, que a URSS liderava o movimento comunista. Na verdade, nem os partidos comunistas, da época, entenderam o pacto provocado por Stalin!
    Carlos de Morais
    São Paulo - SP
  • Colocando os pingos nos iiss.

    03/09/2009 19h19 O artigo do Augusto acaba por colacar os pingos nos iiss, pois e tamanha a confusão entre os ditos "intelectuais" sobre o tema. O artigo, sem a pressuncão da verdade, aborda com lealdade um fato historico decisivo para a humanidade e que precisa ser compreendido sem rancor e paixão, pois só assim sera possivel a construcção de uma verdadeira Historia, colocando em seus devidos lugares cada um de seu agentes, sob pena de se cometer injusticas irreparaveis.
    egmar jose de oliveira
    sao paulo - SP
  • A Rússia nunca foi santa...

    03/09/2009 14h39 Excelente artigo, mostra, por um lado, que a Rússia nunca foi santa, apesar de haver integrado a chamada Santa Aliança, liderada pela Inglaterra e demais países monarquistas,aos quais exercia sua política hegemônica, contra a França de Napoleão Bonaparte.Gostaria que o nobre professor discorresse acerca da tese hoje meio olvidada, de que a Rússia soviética entrou tarde na modernidade, e por isso teve de dar um salto qualitativo entre a revolução burguesa da gironda e o jacobinismo dos soviets.
    Vianna
    Assis - PR
  • Japão contra URSS

    03/09/2009 10h00
    O artigo é excelente. Mas deixa de lado a questão Japão, grande potência militar em 1939 e voltada para a Guerra -- Coréia, China e URSS --, sendo necessário um contingente de 1 milhão de soldados para defender o extremo leste soviético, mesmo no decorrer da Segunda Guerra. Como fazer uma guerra contra a Alemanha e o Japão, em duas frentes deslocadas de um continente? Somente se os soviéticos fossem loucos e imbecis. Por fim repito, o artigo é excelente, e o que falo aqui é mero acréscimo que o autor pode desenvolver depois.
    Vicente Cariry da Costa
    São Paulo - SP
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Nara: o pássaro e o leão

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por Augusto Buonicore*
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>No último dia 7 de junho completaram-se vinte anos da morte da cantora Nara Leão. Ela foi uma das pessoas mais importantes na configuração do que conhecemos hoje como Música Popular Brasileira (MPB). Participou da criação da Bossa Nova, da “música de protesto”, do tropicalismo etc. Foi também uma artista engajada nas lutas do seu tempo pela liberdade e pelos direitos do povo. Era um bichinho estranho: meio pássaro e meio leão.

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Chico e Nara cantam Dueto

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Nara nasceu no Espírito Santo em 19 de janeiro de 1942, mas com apenas um ano de idade mudou-se para o Rio de Janeiro. Era filha de uma família relativamente avançada para época. “Não havia em nossa casa os valores tradicionais da classe média nem normas de conduta. Não comemorávamos natal, nem aniversários, nem réveillon”, afirmou ela. Menina extremamente tímida e insegura quanto a sua beleza e possíveis talentos.

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Aos 12 anos começou a aprender tocar violão com Patrício Teixeira. Cantor e instrumentista, companheiro de Pixinguinha, havia criado um novo método que, ironicamente, batizou “O Capadócio”. Esse era o nome ofensivo dado aos tocadores de violão no início do século 20. Patrício, como negro capadócio, havia sentido na carne o preconceito da sociedade carioca de sua época.

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Amiga e namorada de Roberto Menescal, e depois de Ronaldo Bôscoli, teve o seu apartamento em Copacabana transformado num dos pontos de encontro dos jovens músicos que criariam um novo estilo musical: a Bossa Nova. Lá se reuniam Carlos Lyra, João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Silvia Telles etc. Nara não era somente uma anfitriã amável – ou a musa daqueles rapazes talentosos – mas também uma das cabeças daquele movimento cultural que surgia.

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Em 1958 o grupo foi convidado para cantar no Clube Universitário Hebraico. Como a única figura de certa expressão era Silvia Telles, o funcionário colocou um cartaz “Silvia Telles e um grupo bossa nova”. Sem planejar, o movimento já tinha conseguido um nome. O poeta Manoel Bandeira se referiu a ele como “uma música intimista mais apropriada para apartamentos”. Era isso e um pouco mais.

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Nara subiu ao palco pela primeira vez em 13 de dezembro de 1959. Em pânico, cantou quase de costa para o público as músicas “Se é tarde, me perdoa” e “Fim de Noite”. Nascia, assim, uma estrela ainda que um pouco gauche.

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Nara se politiza

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A primeira experiência de Nara com uma grande gravadora – a Columbia - não foi das mais felizes. No teste cantou “Insensatez” de Vinícius e Tom. Acharam a música chata e longa demais. Sugeriram que cantasse boleros. Ela não gostou da proposta, pegou seu violão e foi embora.

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Estranhamente, a “musa da bossa nova” não estrearia em disco cantando o estilo que havia contribuído para criar. Naqueles anos o Brasil estava mudando e Nara também.

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Separada de Bôscoli, começou um namoro com o cineasta Cacá Diegues. Através dele se aproximou do pessoal do Cinema Novo e dos intelectuais que organizavam o Centro Popular de Cultura da UNE. Naquele ambiente efervescente ela foi se politizando e aderindo às idéias da esquerda e ao projeto cultural nacional-popular. Saíamos dos “anos JK” e entravamos na “era Jango”. A grande bandeira do momento eram as reformas de base.

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Além de Cacá, Carlos Lyra também influenciou Nara. Ele, ao lado de Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, propunham uma mudança de rumo na Bossa Nova.

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Uma das características desse grupo era a busca de uma aproximação maior com os compositores de extração popular, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, João do Valle etc. Buscava uma fusão entre a moderna música urbana – produzida pelas camadas médias – e a música de morro e do sertão.

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O movimento da Bossa Nova acabou rachando em duas partes: uma chamada de “alienada” e outra mais politizada. O conflito foi bastante acirrado. Nara entrou na briga ao lado da arte engajada contra a alienação bossanovista. Numa entrevista à revista “O Cruzeiro” afirmou: “A bossa nova, que se apresentava como um movimento renovador – e foi até determinado momento – tornou-se caduca e acadêmica”. Um pouco antes do golpe militar ela ainda afirmaria: “os letristas da bossa nova escreveram letras sem o menor sentido. Então fui procurar os compositores que dizem o que querem e encontrei o samba tradicional, que contém a verdadeira essência da música popular brasileira”.

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Foi dentro desse espírito que gravou o seu primeiro disco. Houve muita resistência quanto ao repertório sugerido pela garota. Dele constavam nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Ketti. Onde já se viu, mocinha de Copacabana cantando música de morro? Depois de muita luta convenceu os produtores que aquele era o caminho certo. Além dos compositores populares havia Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Gianfracesco Guarnieri, Baden Powell, Ruy Guerra. Muitos afirmam que esse disco iria cimentar o caminho daquilo que seria chamado de MPB.

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O disco se destacava pela forte presença da crítica social. Muitas das canções poderiam ser enquadradas na rubrica de “música de protesto”. Um estilo que vinha ganhando força em todo mundo, inclusive nos Estados Unidos. Destacava-se no LP as músicas “O morro (feio não é bonito)”, “Canção da terra”, “Berimbau”, “Maria Moita” e “Marcha da quarta-feira de cinzas”. Definitivamente, Nara era a nossa Joan Baez.

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Em 1963 ela aderiu ao Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI), uma versão artístico-intelectual do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Os seus membros pretendiam “participar da formação de uma frente única nacionalista e democrática com as demais forças populares arregimentadas na marcha por uma estruturação melhor da sociedade brasileira”.

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O golpe militar de março de 1964 iria obstaculizar as mudanças que já se anunciavam nas ruas. A música lançada alguns meses antes “Marcha de quarta-feira de cinzas” se tornou uma profecia realizada e uma conclamação à luta pela liberdade: “Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas foi o que restou / .../ E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade”. Foi o primeiro hino da resistência democrática no país.

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Provocada por um jornalista que perguntou se ela era “subversiva”, respondeu: “Se cantar músicas que falam dos dramas do povo, dos seus problemas e das suas tristezas, angústias e alegrias é ser subversiva, acho que não escapo dessa classificação primária. Prefiro, porém, ser chamada de apaixonada pela alma brasileira, de procurar as raízes da verdadeira música do Brasil”. Com esse objetivo, viajou por todo país. Pesquisou culturas populares regionais em busca de novos repertórios. Na Bahia conheceu Gil, Caetano, Maria Bethânia. Esse encontro teria conseqüências para a música brasileira alguns anos depois.

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Nara também esteve por trás da primeira resposta do mundo artístico ao golpe militar. Em novembro de 1964 lançou o LP “Opinião de Nara”. A música que dava título ao disco havia sido escrita por Zé Ketti e começava assim: “Pode me prender, pode me bater que eu não mudo de opinião”. Uma clara referência ao difícil momento no qual o Brasil estava vivendo. O disco seguia o mesmo esquema do disco anterior, articulando o moderno e estilos de raiz. Trazia músicas de Zé Ketti, João do Valle, Edu Lobo, Baden Powell, Sérgio Ricardo, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ruy Guerra. Sua marca era a crítica ao regime militar e às injustiças sociais.

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O LP chegou ao segundo lugar nas paradas de sucesso e empolgou alguns artistas que vinham do CPC, destruído pela ditadura, e procuravam outros caminhos. Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha) propôs transformar o disco num show. O elenco escolhido procurava traduzir a necessária aliança entre os operários favelados, representado por Zé Ketti, os camponeses nordestinos, representado por João do Valle, e as classes média urbanas, espelhada em Nara Leão. A frente popular sonhada pela esquerda nacional. O texto foi escrito por Vianinha, Armando Costa e Paulo Pontes. A direção ficou por conta de Augusto Boal. O show Opinião estreou em dezembro e obteve um estrondoso sucesso de público e crítica.

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A reação não tardou. Grupos de direita picharam a fachada do Teatro de Arena com slogans anticomunistas. Durante o show, Nara era obrigada a bater boca com provocadores infiltrados na platéia. O ritmo extenuante acabou sendo demais para ela. Tendo que se afastar, indicou para substituí-la uma menina que conhecera na Bahia de nome Maria Bethânia. A garota estrearia fazendo um grande sucesso, especialmente pela sua performance em “Carcará” de João do Valle.

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Nara voltaria ao palco no espetáculo “Liberdade, liberdade”, escrito por Flávio Rangel e Millôr Fernandes. Mais uma resposta dos artistas ao arbítrio que se implantara no país. O texto era uma coletânea de citações de inúmeras personalidades defendendo a liberdade em todos os campos de atuação humana. Como a ditadura poderia censurar as palavras de Cristo, Lincoln, Kennedy ou mesmo trecho da Declaração de Independência dos Estados Unidos? Simbolicamente, estreou no dia 21 de abril de 1965. Um novo sucesso de público e uma nova derrota da ditadura. A direita realizou novas provocações, ameaçando a integridade física e moral dos atores.

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As coisas ficaram ainda mais quentes quando Nara, numa entrevista ao “Diário de Notícias”, defendeu a saída dos militares do poder, pois eles “podiam entender de canhão ou de metralhadoras, mas nada pescavam de política”. Advogou o retorno de um governo civil que “nacionaliza-se as empresas e possibilita-se (...) a melhora do nível de vida do operariado e o desenvolvimento econômico do país”. Empolgada, foi ainda mais longe afirmando que “numa guerrilha moderna, o nosso exército não serviria para nada” e, concluiu, “quem está mandando é que deveria ser cassado”. O título provocativo da matéria era “Nara é de opinião: Esse Exército não vale nada”.


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A direita militar enfurecida pediu a cassação e prisão da cantora. Os intelectuais e artistas se organizaram para defendê-la e elaboraram um abaixo-assinado endereçado ao marechal-presidente Castelo Branco. Em sua defesa o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou um poema-manifesto: “Meu honrado marechal/ dirigente da nação,/ venho fazer-lhe um apelo: /não prenda Nara Leão (...)/ A menina disse coisas/ de causar estremeção?/ Pois a voz de uma garota/ abala a Revolução?/ / Será que ela tem na fala,/ mais do que charme, canhão?/ Ou pensam que, pelo nome,/ em vez de Nara, é leão? (...)/ Que disse a mocinha, enfim,/ De inspirado pelo Cão? (...)/ Deu seu palpite em política,/ favorável à eleição/ de um bom paisano – isso é crime,/ acaso, de alta traição?/ (...)/ Nara é pássaro, sabia?/ E nem adianta prisão/ para a voz que, pelos ares,/ espalha sua canção./ Meu ilustre marechal/ dirigente da nação,/ não deixe, nem de brinquedo,/ que prendam Nara Leão.”

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Nara e os festivais

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O auge do prestigio de Nara ainda estaria por vir. Em 1966 foi convidada para defender a música “A Banda” de Chico Buarque de Holanda no II Festival da Música Popular da TV Record. Curiosamente, sem planejar, ele concorreria com “Disparada” de Vandré e Téo de Barros. Um dos melhores exemplares da música engajada. A Banda venceu, mas por exigência de Chico, o prêmio foi dividido.

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A marchinha foi um fenômeno musical. Chico e Nara foram, subitamente, lançados ao estrelado. As solicitações de shows multiplicavam e eles não podiam mais sair nas ruas. Era um verdadeiro tormento para a introvertida Nara. A TV Record chegou a criar um programa especial: “Pra ver a banda passar”. A dupla de apresentadores foi chamada jocosamente de “desanimadores de auditório” por sua timidez e constrangimento diante das câmeras. Para alívio dos dois, o programa teve curta duração. Em 1967 interpretaria, ao lado de Sidney Miller, a bela canção “A estrada e o violeiro”.

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Defensora da música popular não assumiu posições nacionalistas estreitas. Ela e Chico, por exemplo, se recusaram a participar da passeata realizada em julho de 1967 contra a introdução das guitarras elétricas na música brasileira. Aquela era uma jogada de marketing muito perigosa. Nara teria dito “Isso mete medo. Parece uma passeata do Partido Integralista”. Não chegava a tanto. A maioria dos artistas se arrependeria daquela atitude.

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Dentro do seu espírito desbravador, Nara causaria mais uma polêmica. Rompendo com as barreiras existentes entre o pessoal da MPB tradicional e a nova onda tropicalista, chegou a participar do disco “Tropicália” cantando “Lindonéia” de Caetano e Gil. Isso causou indignação dos seus camaradas da música engajada e de raiz. Ela apoiou, mas não podia ser definida como uma tropicalista, pois jamais se rendeu aos seus arroubos mais radicais daquele movimento cultural.

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Quando do assassinato do estudante Edson Luís, em março de 1968, ela escreveu um longo texto de protesto intitulado “É preciso não cantar”: “Um estudante de 16 anos morreu porque queria instalações sanitárias e comida para melhor cumprir sua função de estudante. (...) Fizemos uma greve de teatro contra a censura. E voltamos a cantar. Mas é impossível cantar, sabendo que os estudantes estão sendo assassinados nas ruas (...) Por isso, é preciso não cantar. Participou, ao lado de outros artistas, da Passeata dos 100 mil.

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A decretação do AI-5, em dezembro de 1968, iria eliminar o pouco espaço que ainda havia para expressão político-cultural. Iniciava-se o período mais sombrio da ditadura. Prisões, torturas e exílio se multiplicavam. Em agosto de 1969, ela declarou ao Pasquim: “No Brasil, no momento, não há condições de trabalho, não há estímulo, não dá vontade de cantar. Acho que se não houver liberdade de criação, vai acabar tudo”. Chico Buarque, no exílio, disse a Cacá Diegues que “Nara era um dos nomes mais citados pelos militares durante vários interrogatórios a que era submetido”. As ameaças sobre o casal aumentaram e ele teve que seguir o triste caminho do exílio.

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Na Europa, saudosa do Brasil, ela fez as pazes com a Bossa Nova e, pela primeira vez, gravou um disco somente com músicas de seus ex-companheiros. Nascia assim o LP “Dez anos depois”. Esse seria um reencontro definitivo com suas origens musicais. Em 1971, voltou ao Brasil.

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No ano seguinte foi indicada para presidir o júri da etapa nacional do 7º Festival Internacional da Canção da rede Globo. Pressionada pelo regime, a direção da emissora destituiu todo o júri brasileiro e o substituiu pelo júri da fase internacional. Nara protestou e o psicanalista Roberto Freire tentou fazer um protesto em pleno festival, mas foi espancado e preso por agentes da repressão. Era o fim definitivo da “era dos festivais”.

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Como alternativa ao fechamento dos espaços para divulgação da cultura nacional e popular foi criado o Circuito Universitário. Os artistas passariam a se apresentar em universidades de todo o país. Nara, Chico, Toquinho, Vinícius, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, MPB-4, Sérgio Ricardo, Paulo César Pinheiro, Paulinho Tapajós entre outros entrariam nessa aventura cultural. As condições, muitas vezes, eram precárias, mas isso era amplamente compensado pelo calor das platéias estudantis. Se apresentar e assistir esses shows eram formas de participar da resistência democrática naqueles anos de chumbo.

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Uma tragédia se imporia na vida da artista. Em 1979 Nara desmaiou e foi levada ao hospital. Constatou-se que tinha um tumor no cérebro numa área de difícil acesso. A partir daí iniciou-se uma luta titânica da vida contra a morte. Uma luta desigual que ela conseguiu muitas vezes vencer.

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Apesar da doença, continuou sua atividade política a favor da democratização do país. Envolveu-se na campanha dos candidatos da oposição em 1982. Assinou manifesto contra as prisões e desaparecimentos de presos políticos na Argentina. Participou ativamente da Campanha das Diretas em 1984. Até o fim defendeu as causas mais sentidas do nosso povo.

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As perdas de memória eram mais constantes. Shows tiveram que ser interrompidos e cancelados. Ela lutava minuto a minuto contra a doença. Nos dez últimos anos de sua vida trabalhou incansavelmente e produziu quase uma dezena de discos. Nara morreu em 7 de junho de 1989. Mas, o seu canto de ave pequena e o seu rugido de leão continuam ecoando através das obras que nos legou.

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Nota

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As principais referências para esse artigo foram extraídas do livro Nara Leão: uma biografia de Sérgio Cabral, publicado pelas editoras Companhia Editora Nacional e Lazul.

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*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.


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in Vermelho - 10 DE JUNHO DE 2009 - 20h51
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Vídeo
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Buarque Consta nos astros, nos signos, nos búzios Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás Serás o meu amor, serás a minha paz Consta no...
Dueto
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Composição: Chico Buarque
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Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

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