Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noel: reconhecimento que independe da academia e da crítica

 

Cultura

Vermelho - 3 de Fevereiro de 2010 - 12h46

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Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

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Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.
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Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.
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Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, "Três apitos” etc.
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E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.
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A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.
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Brasil de Fato: Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?
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Luiz Carlos Leitão: Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”.
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A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam... Será que alguma coisa mudou neste século 21?
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O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.
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Brasil de Fato: Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?
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Luiz Carlos Leitão: Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel.
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Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente.
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Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.
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Brasil de Fato: Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?
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Luiz Carlos Leitão: A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.
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Brasil de Fato: Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?
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Luiz Carlos Leitão: O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.
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Brasil de Fato: Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?
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Luiz Carlos Leitão: Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova).
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Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula.
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Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.
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Brasil de Fato: De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?
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Luiz Carlos Leitão: Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.
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Brasil de Fato: Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?
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Luiz Carlos Leitão: Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.
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Brasil de Fato: A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?
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Luiz Carlos Leitão: Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país.
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Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada.
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Por isso, para melhor responder à questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.
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Brasil de Fato: Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?
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Luiz Carlos Leitão:  A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

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Brasil de Fato: Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?
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Luiz Carlos Leitão:
A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada.
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Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas).
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Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal.
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É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical.
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A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média.
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Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.
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Brasil de Fato: Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?
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Luiz Carlos Leitão:
Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante.
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Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime.
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Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade.
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Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.
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Brasil de Fato: No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?
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Luiz Carlos Leitão:
São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo.
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Brasil de Fato: Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?
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Luiz Carlos Leitão: 
Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas.
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Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”.
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Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência).
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Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.
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Brasil de Fato: Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?
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Luiz Carlos Leitão: 
 Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe.
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Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”).
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Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.
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Com Brasil de Fato
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cartoon de Fernandes
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Nara: o pássaro e o leão

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por Augusto Buonicore*
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>No último dia 7 de junho completaram-se vinte anos da morte da cantora Nara Leão. Ela foi uma das pessoas mais importantes na configuração do que conhecemos hoje como Música Popular Brasileira (MPB). Participou da criação da Bossa Nova, da “música de protesto”, do tropicalismo etc. Foi também uma artista engajada nas lutas do seu tempo pela liberdade e pelos direitos do povo. Era um bichinho estranho: meio pássaro e meio leão.

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Chico e Nara cantam Dueto

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Nara nasceu no Espírito Santo em 19 de janeiro de 1942, mas com apenas um ano de idade mudou-se para o Rio de Janeiro. Era filha de uma família relativamente avançada para época. “Não havia em nossa casa os valores tradicionais da classe média nem normas de conduta. Não comemorávamos natal, nem aniversários, nem réveillon”, afirmou ela. Menina extremamente tímida e insegura quanto a sua beleza e possíveis talentos.

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Aos 12 anos começou a aprender tocar violão com Patrício Teixeira. Cantor e instrumentista, companheiro de Pixinguinha, havia criado um novo método que, ironicamente, batizou “O Capadócio”. Esse era o nome ofensivo dado aos tocadores de violão no início do século 20. Patrício, como negro capadócio, havia sentido na carne o preconceito da sociedade carioca de sua época.

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Amiga e namorada de Roberto Menescal, e depois de Ronaldo Bôscoli, teve o seu apartamento em Copacabana transformado num dos pontos de encontro dos jovens músicos que criariam um novo estilo musical: a Bossa Nova. Lá se reuniam Carlos Lyra, João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Silvia Telles etc. Nara não era somente uma anfitriã amável – ou a musa daqueles rapazes talentosos – mas também uma das cabeças daquele movimento cultural que surgia.

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Em 1958 o grupo foi convidado para cantar no Clube Universitário Hebraico. Como a única figura de certa expressão era Silvia Telles, o funcionário colocou um cartaz “Silvia Telles e um grupo bossa nova”. Sem planejar, o movimento já tinha conseguido um nome. O poeta Manoel Bandeira se referiu a ele como “uma música intimista mais apropriada para apartamentos”. Era isso e um pouco mais.

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Nara subiu ao palco pela primeira vez em 13 de dezembro de 1959. Em pânico, cantou quase de costa para o público as músicas “Se é tarde, me perdoa” e “Fim de Noite”. Nascia, assim, uma estrela ainda que um pouco gauche.

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Nara se politiza

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A primeira experiência de Nara com uma grande gravadora – a Columbia - não foi das mais felizes. No teste cantou “Insensatez” de Vinícius e Tom. Acharam a música chata e longa demais. Sugeriram que cantasse boleros. Ela não gostou da proposta, pegou seu violão e foi embora.

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Estranhamente, a “musa da bossa nova” não estrearia em disco cantando o estilo que havia contribuído para criar. Naqueles anos o Brasil estava mudando e Nara também.

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Separada de Bôscoli, começou um namoro com o cineasta Cacá Diegues. Através dele se aproximou do pessoal do Cinema Novo e dos intelectuais que organizavam o Centro Popular de Cultura da UNE. Naquele ambiente efervescente ela foi se politizando e aderindo às idéias da esquerda e ao projeto cultural nacional-popular. Saíamos dos “anos JK” e entravamos na “era Jango”. A grande bandeira do momento eram as reformas de base.

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Além de Cacá, Carlos Lyra também influenciou Nara. Ele, ao lado de Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, propunham uma mudança de rumo na Bossa Nova.

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Uma das características desse grupo era a busca de uma aproximação maior com os compositores de extração popular, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, João do Valle etc. Buscava uma fusão entre a moderna música urbana – produzida pelas camadas médias – e a música de morro e do sertão.

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O movimento da Bossa Nova acabou rachando em duas partes: uma chamada de “alienada” e outra mais politizada. O conflito foi bastante acirrado. Nara entrou na briga ao lado da arte engajada contra a alienação bossanovista. Numa entrevista à revista “O Cruzeiro” afirmou: “A bossa nova, que se apresentava como um movimento renovador – e foi até determinado momento – tornou-se caduca e acadêmica”. Um pouco antes do golpe militar ela ainda afirmaria: “os letristas da bossa nova escreveram letras sem o menor sentido. Então fui procurar os compositores que dizem o que querem e encontrei o samba tradicional, que contém a verdadeira essência da música popular brasileira”.

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Foi dentro desse espírito que gravou o seu primeiro disco. Houve muita resistência quanto ao repertório sugerido pela garota. Dele constavam nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Ketti. Onde já se viu, mocinha de Copacabana cantando música de morro? Depois de muita luta convenceu os produtores que aquele era o caminho certo. Além dos compositores populares havia Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Gianfracesco Guarnieri, Baden Powell, Ruy Guerra. Muitos afirmam que esse disco iria cimentar o caminho daquilo que seria chamado de MPB.

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O disco se destacava pela forte presença da crítica social. Muitas das canções poderiam ser enquadradas na rubrica de “música de protesto”. Um estilo que vinha ganhando força em todo mundo, inclusive nos Estados Unidos. Destacava-se no LP as músicas “O morro (feio não é bonito)”, “Canção da terra”, “Berimbau”, “Maria Moita” e “Marcha da quarta-feira de cinzas”. Definitivamente, Nara era a nossa Joan Baez.

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Em 1963 ela aderiu ao Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI), uma versão artístico-intelectual do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Os seus membros pretendiam “participar da formação de uma frente única nacionalista e democrática com as demais forças populares arregimentadas na marcha por uma estruturação melhor da sociedade brasileira”.

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O golpe militar de março de 1964 iria obstaculizar as mudanças que já se anunciavam nas ruas. A música lançada alguns meses antes “Marcha de quarta-feira de cinzas” se tornou uma profecia realizada e uma conclamação à luta pela liberdade: “Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas foi o que restou / .../ E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade”. Foi o primeiro hino da resistência democrática no país.

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Provocada por um jornalista que perguntou se ela era “subversiva”, respondeu: “Se cantar músicas que falam dos dramas do povo, dos seus problemas e das suas tristezas, angústias e alegrias é ser subversiva, acho que não escapo dessa classificação primária. Prefiro, porém, ser chamada de apaixonada pela alma brasileira, de procurar as raízes da verdadeira música do Brasil”. Com esse objetivo, viajou por todo país. Pesquisou culturas populares regionais em busca de novos repertórios. Na Bahia conheceu Gil, Caetano, Maria Bethânia. Esse encontro teria conseqüências para a música brasileira alguns anos depois.

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Nara também esteve por trás da primeira resposta do mundo artístico ao golpe militar. Em novembro de 1964 lançou o LP “Opinião de Nara”. A música que dava título ao disco havia sido escrita por Zé Ketti e começava assim: “Pode me prender, pode me bater que eu não mudo de opinião”. Uma clara referência ao difícil momento no qual o Brasil estava vivendo. O disco seguia o mesmo esquema do disco anterior, articulando o moderno e estilos de raiz. Trazia músicas de Zé Ketti, João do Valle, Edu Lobo, Baden Powell, Sérgio Ricardo, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ruy Guerra. Sua marca era a crítica ao regime militar e às injustiças sociais.

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O LP chegou ao segundo lugar nas paradas de sucesso e empolgou alguns artistas que vinham do CPC, destruído pela ditadura, e procuravam outros caminhos. Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha) propôs transformar o disco num show. O elenco escolhido procurava traduzir a necessária aliança entre os operários favelados, representado por Zé Ketti, os camponeses nordestinos, representado por João do Valle, e as classes média urbanas, espelhada em Nara Leão. A frente popular sonhada pela esquerda nacional. O texto foi escrito por Vianinha, Armando Costa e Paulo Pontes. A direção ficou por conta de Augusto Boal. O show Opinião estreou em dezembro e obteve um estrondoso sucesso de público e crítica.

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A reação não tardou. Grupos de direita picharam a fachada do Teatro de Arena com slogans anticomunistas. Durante o show, Nara era obrigada a bater boca com provocadores infiltrados na platéia. O ritmo extenuante acabou sendo demais para ela. Tendo que se afastar, indicou para substituí-la uma menina que conhecera na Bahia de nome Maria Bethânia. A garota estrearia fazendo um grande sucesso, especialmente pela sua performance em “Carcará” de João do Valle.

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Nara voltaria ao palco no espetáculo “Liberdade, liberdade”, escrito por Flávio Rangel e Millôr Fernandes. Mais uma resposta dos artistas ao arbítrio que se implantara no país. O texto era uma coletânea de citações de inúmeras personalidades defendendo a liberdade em todos os campos de atuação humana. Como a ditadura poderia censurar as palavras de Cristo, Lincoln, Kennedy ou mesmo trecho da Declaração de Independência dos Estados Unidos? Simbolicamente, estreou no dia 21 de abril de 1965. Um novo sucesso de público e uma nova derrota da ditadura. A direita realizou novas provocações, ameaçando a integridade física e moral dos atores.

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As coisas ficaram ainda mais quentes quando Nara, numa entrevista ao “Diário de Notícias”, defendeu a saída dos militares do poder, pois eles “podiam entender de canhão ou de metralhadoras, mas nada pescavam de política”. Advogou o retorno de um governo civil que “nacionaliza-se as empresas e possibilita-se (...) a melhora do nível de vida do operariado e o desenvolvimento econômico do país”. Empolgada, foi ainda mais longe afirmando que “numa guerrilha moderna, o nosso exército não serviria para nada” e, concluiu, “quem está mandando é que deveria ser cassado”. O título provocativo da matéria era “Nara é de opinião: Esse Exército não vale nada”.


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A direita militar enfurecida pediu a cassação e prisão da cantora. Os intelectuais e artistas se organizaram para defendê-la e elaboraram um abaixo-assinado endereçado ao marechal-presidente Castelo Branco. Em sua defesa o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou um poema-manifesto: “Meu honrado marechal/ dirigente da nação,/ venho fazer-lhe um apelo: /não prenda Nara Leão (...)/ A menina disse coisas/ de causar estremeção?/ Pois a voz de uma garota/ abala a Revolução?/ / Será que ela tem na fala,/ mais do que charme, canhão?/ Ou pensam que, pelo nome,/ em vez de Nara, é leão? (...)/ Que disse a mocinha, enfim,/ De inspirado pelo Cão? (...)/ Deu seu palpite em política,/ favorável à eleição/ de um bom paisano – isso é crime,/ acaso, de alta traição?/ (...)/ Nara é pássaro, sabia?/ E nem adianta prisão/ para a voz que, pelos ares,/ espalha sua canção./ Meu ilustre marechal/ dirigente da nação,/ não deixe, nem de brinquedo,/ que prendam Nara Leão.”

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Nara e os festivais

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O auge do prestigio de Nara ainda estaria por vir. Em 1966 foi convidada para defender a música “A Banda” de Chico Buarque de Holanda no II Festival da Música Popular da TV Record. Curiosamente, sem planejar, ele concorreria com “Disparada” de Vandré e Téo de Barros. Um dos melhores exemplares da música engajada. A Banda venceu, mas por exigência de Chico, o prêmio foi dividido.

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A marchinha foi um fenômeno musical. Chico e Nara foram, subitamente, lançados ao estrelado. As solicitações de shows multiplicavam e eles não podiam mais sair nas ruas. Era um verdadeiro tormento para a introvertida Nara. A TV Record chegou a criar um programa especial: “Pra ver a banda passar”. A dupla de apresentadores foi chamada jocosamente de “desanimadores de auditório” por sua timidez e constrangimento diante das câmeras. Para alívio dos dois, o programa teve curta duração. Em 1967 interpretaria, ao lado de Sidney Miller, a bela canção “A estrada e o violeiro”.

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Defensora da música popular não assumiu posições nacionalistas estreitas. Ela e Chico, por exemplo, se recusaram a participar da passeata realizada em julho de 1967 contra a introdução das guitarras elétricas na música brasileira. Aquela era uma jogada de marketing muito perigosa. Nara teria dito “Isso mete medo. Parece uma passeata do Partido Integralista”. Não chegava a tanto. A maioria dos artistas se arrependeria daquela atitude.

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Dentro do seu espírito desbravador, Nara causaria mais uma polêmica. Rompendo com as barreiras existentes entre o pessoal da MPB tradicional e a nova onda tropicalista, chegou a participar do disco “Tropicália” cantando “Lindonéia” de Caetano e Gil. Isso causou indignação dos seus camaradas da música engajada e de raiz. Ela apoiou, mas não podia ser definida como uma tropicalista, pois jamais se rendeu aos seus arroubos mais radicais daquele movimento cultural.

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Quando do assassinato do estudante Edson Luís, em março de 1968, ela escreveu um longo texto de protesto intitulado “É preciso não cantar”: “Um estudante de 16 anos morreu porque queria instalações sanitárias e comida para melhor cumprir sua função de estudante. (...) Fizemos uma greve de teatro contra a censura. E voltamos a cantar. Mas é impossível cantar, sabendo que os estudantes estão sendo assassinados nas ruas (...) Por isso, é preciso não cantar. Participou, ao lado de outros artistas, da Passeata dos 100 mil.

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A decretação do AI-5, em dezembro de 1968, iria eliminar o pouco espaço que ainda havia para expressão político-cultural. Iniciava-se o período mais sombrio da ditadura. Prisões, torturas e exílio se multiplicavam. Em agosto de 1969, ela declarou ao Pasquim: “No Brasil, no momento, não há condições de trabalho, não há estímulo, não dá vontade de cantar. Acho que se não houver liberdade de criação, vai acabar tudo”. Chico Buarque, no exílio, disse a Cacá Diegues que “Nara era um dos nomes mais citados pelos militares durante vários interrogatórios a que era submetido”. As ameaças sobre o casal aumentaram e ele teve que seguir o triste caminho do exílio.

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Na Europa, saudosa do Brasil, ela fez as pazes com a Bossa Nova e, pela primeira vez, gravou um disco somente com músicas de seus ex-companheiros. Nascia assim o LP “Dez anos depois”. Esse seria um reencontro definitivo com suas origens musicais. Em 1971, voltou ao Brasil.

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No ano seguinte foi indicada para presidir o júri da etapa nacional do 7º Festival Internacional da Canção da rede Globo. Pressionada pelo regime, a direção da emissora destituiu todo o júri brasileiro e o substituiu pelo júri da fase internacional. Nara protestou e o psicanalista Roberto Freire tentou fazer um protesto em pleno festival, mas foi espancado e preso por agentes da repressão. Era o fim definitivo da “era dos festivais”.

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Como alternativa ao fechamento dos espaços para divulgação da cultura nacional e popular foi criado o Circuito Universitário. Os artistas passariam a se apresentar em universidades de todo o país. Nara, Chico, Toquinho, Vinícius, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, MPB-4, Sérgio Ricardo, Paulo César Pinheiro, Paulinho Tapajós entre outros entrariam nessa aventura cultural. As condições, muitas vezes, eram precárias, mas isso era amplamente compensado pelo calor das platéias estudantis. Se apresentar e assistir esses shows eram formas de participar da resistência democrática naqueles anos de chumbo.

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Uma tragédia se imporia na vida da artista. Em 1979 Nara desmaiou e foi levada ao hospital. Constatou-se que tinha um tumor no cérebro numa área de difícil acesso. A partir daí iniciou-se uma luta titânica da vida contra a morte. Uma luta desigual que ela conseguiu muitas vezes vencer.

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Apesar da doença, continuou sua atividade política a favor da democratização do país. Envolveu-se na campanha dos candidatos da oposição em 1982. Assinou manifesto contra as prisões e desaparecimentos de presos políticos na Argentina. Participou ativamente da Campanha das Diretas em 1984. Até o fim defendeu as causas mais sentidas do nosso povo.

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As perdas de memória eram mais constantes. Shows tiveram que ser interrompidos e cancelados. Ela lutava minuto a minuto contra a doença. Nos dez últimos anos de sua vida trabalhou incansavelmente e produziu quase uma dezena de discos. Nara morreu em 7 de junho de 1989. Mas, o seu canto de ave pequena e o seu rugido de leão continuam ecoando através das obras que nos legou.

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Nota

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As principais referências para esse artigo foram extraídas do livro Nara Leão: uma biografia de Sérgio Cabral, publicado pelas editoras Companhia Editora Nacional e Lazul.

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*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.


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in Vermelho - 10 DE JUNHO DE 2009 - 20h51
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Vídeo
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Buarque Consta nos astros, nos signos, nos búzios Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás Serás o meu amor, serás a minha paz Consta no...
Dueto
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Composição: Chico Buarque
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Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

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