Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

«Pressão social impôs prazo à descolonização» - Rosa Coutinhp




«Pressão social impôs
prazo à descolonização»



Rosa Coutinho

Na noite decisiva de 24 para 25 de de Abril de 1974 o então capitão de fragata Rosa Coutinho cumpria o seu serviço de rotina na sede do Comiberland. Nessa madrugada, o movimento dos capitães desencadeava as acções militares que, horas depois, poriam fim ao mais longo regime fascista deste século na Europa. Na noite de 25 para 26 de Abril, reunia-se no quartel da Pontinha a Junta de Salvação Nacional, de que Rosa Coutinho fazia parte, nomeado pelos oficiais do MFA da Marinha. As contingências atribuladas do processo fizeram com que fosse um dos oficiais da Junta isentos de funções de chefia militar, situação não prevista no protocolo anexo ao Programa do MFA. Ele e o general Galvão de Melo foram então afogados, no vazio de Governo, pelos problemas de um País que expunha as suas chagas, os seus sonhos e anseios, e tinha finalmente quem o ouvisse. Nomeado mais tarde presidente da Junta Governativa de Angola, a Rosa Coutinho, promovido a almirante por força dos regulamentos militares aplicados às altas funções que a Revolução lhe atribuiu, coube o papel mais duro e controverso do processo de descolonização.

A breve entrevista que se segue, concedida, 25 anos depois, ao jornalista Armando Pereira da Silva, não trará novidades absolutas. Mas é uma reflexão serena que ajudará a compreender o episódio mais marcante da nossa história contemporânea.

A constituição da Junta de Salvação Nacional continua a ser um processo pouco claro, e aparentemente dos mais contraditórios, aos olhos da opinião pública. Que se passou?

Deve ter-se em conta que, para os militares, o respeito pelas hierarquias é um valor fundamental. E os capitães, que organizaram e concretizaram o golpe militar, estavam atentos à natureza da sua instituição. Não seria fácil fazer passar a ideia de um país governado por capitães. Por isso decidiram escolher sete oficiais generais de 4 estrelas para constituírem a Junta de Salvação Nacional. Todos com funções militares: um presidente da Junta e da República, um chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, dois vice-chefes, três chefes de Estado-Maior dos ramos. As regras estavam definidas num documento pouco conhecido, o Protocolo anexo ao Programa do MFA, julgo que só publicitado num livro do Dinis de Almeida.

Mas como foi feita essa escolha?

Havia dois nomes óbvios e inevitáveis: Costa Gomes e António de Spínola. Aceitaram, embora não se tivessem comprometido directamente no levantamento. Os outros seriam escolhidos nos próprios ramos pelos oficiais do MFA. O Exército nomeou Silvério Marques. Da Força Aérea, foram nomeados Diogo Neto, que nada tinha a ver com o Movimento: era um operacional sem formação política, que ainda pilotava aviões a jacto, um dado importante para a mentalidade militar; e Galvão de Melo, já na reserva, que havia tomado atitudes de rebeldia profissional contra o anterior regime. Na Marinha procuraram oficiais generais ou próximos dessa patente. Pinheiro de Azevedo aceitou logo. Eu fui o quarto convidado: era capitão de fragata, comandante de um navio. Nenhum dos membros da Junta teve papel activo no golpe. Só Spínola ganhara uma certa projecção mediática imediata: o capitão Salgueiro Maia não quis assumir a responsabilidade pessoal pela rendição de Marcelo Caetano e chamou-o ao quartel do Carmo para o efeito.

Anunciava-se uma gestão difícil...

Era um autêntico saco de gatos. Os oficiais da Junta, na sua maioria, foram promovidos para poderem exercer as funções. Nem se conheciam. Reuniram-se pela primeira vez na Pontinha, à noite. Menos o Diogo Neto que estava em Moçambique, não sabendo o que se passava. Alguns nem sequer conheciam o Programa do MFA, casos de Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Nessa mesma noite, por iniciativa do Costa Gomes, foi convidado Spínola para Presidente da República. Costa Gomes seria CEMGFA. Aceitaram. Primeira discussão, difícil, do Programa, que sofreu algumas alterações “suavizadoras”, sobretudo no capítulo da descolonização. Spínola até já tinha escolhido um novo director para a Pide/DGS que, entretanto foi decidido que após expurgada, continuaria em funções no Ultramar com a designação de Polícia de Informação Militar. As negociações arrastaram-se e atrasaram, o que não era conveniente, a proclamação pública da Junta. Mas a Comissão Coordenadora não abdicou do seu direito de manter ou não a confiança nos membros empossados. Essa reserva acabou por ter efeitos práticos no 28 de Setembro, quando foi retirada a confiança a três deles: Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Como Spínola renunciou, a Junta ficou então reduzida a três.

Em síntese: o Protocolo não foi cumprido, porque Diogo Neto e Pinheiro de Azevedo não quiseram ser vice-chefes do Estado Maior General das Forças Armadas, antes chefes dos respectivos ramos. Em consequência, eu próprio e Galvão de Melo ficámos sem funções militares definidas. Foi tudo feito sobre o joelho, com consequências graves sobre o funcionamento do sistema resultante da Revolução. A administração pública caiu em cima de dois membros da Junta até à formação do 1º Governo. Eram sobretudo problemas laborais. A Junta tomou decisões que por vezes contrariavam as orientações da Comissão Coordenadora. Uma delas: mandar Marcelo Caetano e Américo Tomaz para a Madeira, e depois para o Brasil, decisões estas combatidas pelas estruturas do MFA. A Junta inicial durou até ao 28 de Setembro. Reconstituída, o seu papel passou a ser essencialmente militar.

Fale-nos agora da intervenção dos militares de Abril na vida política, depois da Revolução. Havia uma noção clara do seu papel?

Os capitães derrubaram o regime anterior e, por isso, tiveram o apoio de uma imensa maioria do nosso povo. Elaboraram e aprovaram um Programa de regeneração da vida portuguesa, se quiser assente nos três DDD: democracia, descolonização, desenvolvimento. Criaram as estruturas de arranque do novo regime democrático, e definiram como seu papel essencial o da vigilância quanto ao cumprimento do Programa do MFA, ponto fulcral da Revolução. Papel esse que se revelou decisivo face às tentativas continuadas de o subverter, a partir do próprio Presidente Spínola. Foi este que quis esvaziar o MFA, diluindo-o precocemente no conjunto das FA, retirando-lhe a capacidade de intervenção nas questões mais relevantes, incluindo a descolonização. Era ele próprio que escolhia não só o Primeiro-Ministro, como os próprios ministros... Foi assim até ao 28 de Setembro. Não se tratava de devolver o poder aos civis, mas de eliminar o MFA e suas estruturas. Quis chamar a si a descolonização, mas o MFA não consentiu. Está aí a raiz da crise Palma Carlos: a solução, que se impunha com premência, do problema da Guiné e a transformação das eleições para a Constituinte num plebiscito nacional, subvertendo o Programa do MFA. Os mecanismos de precaução voltaram a funcionar: o Conselho de Estado alterou a Constituição, como era de sua competência, e Spínola teve de anunciar a independência da Guiné. E eu, que já estava em funções em Angola, não sabendo tudo o que se passava, até o felicitei pelo discurso pronunciado...

Descolonização. O almirante Rosa Coutinho acabou por ter um papel fulcral na concretização do processo, quanto mais não seja porque exercia funções da maior responsabilidade na “joia da coroa” entre as antigas colónias: Angola. A esta distância, como definiria o processo? Fez-se a descolonização necessária, a possível, como foi?

Situemo-nos na época: tanto o 25 de Abril como o apoio popular esmagador que lhe foi dado revelaram que a grande preocupação da população portuguesa era a esperança de que finalmente iam terminar as guerras coloniais. Ao fim de 13 anos de esforço continuado em três frentes, todos estavam fartos: militares e população. Não havia saída com os descendentes de Salazar no poder. As guerras até eram relativamente baratas, mas o esforço nacional foi tremendo. Cerca de um milhão de jovens portugueses passaram pela guerra, com números importantes de mortos, feridos e traumatizados psicológicos.

O sentimento da população reflectiu-se na maneira como foi feita a descolonização. Iniciada a democratização interna (com o fim da censura e da Pide), a descolonização era um imperativo de execução rápida. A permanência das Forças Armadas nas antigas colónias não podia ser prolongada. Nem os militares nem a população aceitavam a substituição dos soldados presentes. Não havia possibilidade de negociar em situação de força real. Na prática, o prazo estava fixado. Puxemos pela memória: em Portugal gritava-se: «nem mais um soldado para as colónias». E em finais de 1974, em Angola, gritava-se: «Portugal para o Natal». A operacionalidade caiu a pique, exceptuando as forças especiais. As restantes o que queriam era o regresso à família. A pressão em Portugal era idêntica. Daí que se tivessem de fazer negociações rapidamente com movimentos independentistas reconhecidos pela Organização dos Estados Africanos. O problema estendeu-se a todas as colónias, mesmo aquelas onde não havia luta armada.

E na prática, como foi?

A descolonização em si não foi exemplar nem perfeita. Foi a possível. Evitou-se um descalabro, que seria trágico para o País e para as Forças Armadas, como aconteceu à França na Argélia e no Vietnam. A descolonização pecou por ser tardia. Devia ter sido iniciada 10 anos antes, quando havia condições reais de protecção das pessoas e bens portugueses. Tal como foi, representou uma espécie de intervenção cirúrgica em desespero. Os que tiveram de a fazer fizeram o papel de cirurgiões de último recurso. Não podia ser exemplar. O prazo foi determinado pela impossibilidade de rendição das tropas.

A descolonização teve efeitos concretos no desenvolvimento do processo revolucionário de Abril?

Claro que sim. A forma como teve de ser executada deu motivo às sucessivas crises do MFA. As crises Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outras que não foram reveladas, todas têm como pano de fundo o problema da descolonização. “Maioria silenciosa”? Fantasias: a crise teve a ver com o problema colonial, começou com o 7 de Setembro em Moçambique. Curiosamente, a descolonização acabou por abalar o ímpeto da Revolução: o 25 de Novembro só foi possível porque a 11 de Novembro acabara o processo de descolonização com a independência de Angola.

Para terminar: 25 anos depois, que balanço faz do 25 de Abril?

Todos sabemos que muitos sonhos não se realizaram. Mas outros, positivos, já podem ser correctamente avaliados. Portugal, hoje, é um País completamente diferente. Verificou-se uma revolução de mentalidades, ainda em curso. Evitaram-se traumas maiores da descolonização e da guerra. Não sofremos nenhum Dien Bien Phu nem tivemos uma OAS. O País reintegrou- -se num espaço europeu a que sempre pertenceu. Conquistaram-se e solidificaram-se as liberdades fundamentais, integrámo-nos com segurança na vida em democracia. Um dos efeitos mais marcantes é o poder local democrático, só possível com o 25 de Abril. O movimento sindical teve finalmente condições para florescer. A explosão educacional, embora com defeitos, embora com problemas, com incompreensões, não tem paralelo na nossa história.

Não esqueçamos o impacte internacional do 25 de Abril: ele foi enorme, apesar de nem sempre reconhecido. A Espanha, aqui ao lado, foi obrigada a uma reconversão política rápida; o processo de libertação da África Austral (Zimbabué, Namíbia, África do Sul) foi acelerado pela Revolução Portuguesa. Tudo isto deve ser para nós um motivo de orgulho.

É evidente que as coordenadas políticas e sociais vividas no País se modificaram, e outros medos se instalaram na sociedade portuguesa. O maior inimigo da liberdade é o medo. E os medos, 25 anos depois, não são os mesmos dessa época. Já não há medo da Pide, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em compensação criaram-se outros também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conseguiu com o 25 de Abril.

«O Militante» Nº 238 - Janeiro / Fevereiro - 1999 
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

PCP - A morte do Almirante Rosa Coutinho

 
 

Nota do Secretariado do Comité Central do PCP


Com a morte do Almirante Rosa Coutinho desaparece uma das figuras mais relevantes da Revolução de Abril e os trabalhadores e o povo português perdem um aliado de todas as horas e um amigo de todos os momentos.
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Chamado a integrar a Junta de Salvação Nacional logo na noite de 25 para 26 de Abril de 1974 - cargo para que foi nomeado pelos oficiais da Marinha do Movimento das Forças Armadas - o Almirante Rosa Coutinho desde logo assumiu claramente o seu posicionamento no campo mais progressista e avançado do MFA.
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Nomeado posteriormente presidente da Junta Governativa de Angola, ele viria a desempenhar um papel fulcral em todo o importante e complexo processo de descolonização.
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Até final da sua vida, o Almirante Rosa Coutinho manteve uma postura de total fidelidade aos valores e aos ideais da Revolução de Abril.
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Observador atento da situação internacional, sempre manifestou a sua solidariedade com a luta dos trabalhadores e dos povos do mundo.
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Observador atento da realidade nacional, manteve uma postura de solidariedade constante com a luta dos trabalhadores portugueses e os seus objectivos - luta que acompanhava a par e passo, sempre tendo como referência orientadora a justiça social, a democracia e a liberdade conquistadas na sequência do 25 de Abril; luta na qual participava e que considerava caminho indispensável para alterar a situação entretanto criada.
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Luta que ele via assim: «Hoje já não há medo da PIDE, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em contrapartida criaram-se outros medos também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes medo continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conseguiu com o 25 de Abril»
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O PCP lamenta profundamente o seu falecimento e endereça aos familiares do Almirante Rosa Coutinho as suas mais sentidas condolências.
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Rosa Coutinho (1926 - 2010)




Rosa Coutinho ao lado de Vasco Gonçalves, também ele já falecido rui gaudêncio
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Rosa Coutinho teve uma carreira política breve mas que ainda hoje suscita polémica

Por Luís Miguel Queirós e Maria José Oliveira
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Integrou a Junta de Salvação Nacional e o Conselho da Revolução. Foi uma das figuras do 25 de Abril de 1974. Mas a sua acção política foi sobretudo marcante e controversa em Angola
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O 25 de Novembro

A identificação de Rosa Coutinho com o sector gonçalvista do MFA não o impediu de assumir um papel pacificador no 25 de Novembro. "A Marinha praticamente evitou a guerra civil", diz o contra-almirante Martins Guerreiro, que conta ter ido com Rosa Coutinho à base naval do Alfeite, na noite do dia 24, para "impedir que gente mais exaltada tomasse uma atitude menos responsável".

Na manhã de 25, dirigiram-se ambos a Belém para "manifestar todo o apoio ao Presidente da República [Costa Gomes]".

Também a historiadora Maria Inácia Rezola atribui a Rosa Coutinho e a Guerreiro o mérito de terem evitado a insurreição dos fuzileiros, que poderia ter tido consequências dramáticas.

Poucas figuras da política portuguesa do pós 25 de Abril suscitam ainda hoje tanta controvérsia como Rosa Coutinho. O "almirante vermelho", como lhe chamavam, morreu ontem, aos 84 anos, vítima de cancro, e as reacções ao seu falecimento mostram bem que os últimos 35 anos não bastaram para que se criasse consenso em torno do papel que desempenhou em Angola, onde foi alto-comissário nos meses que precederam a independência da ex-colónia.

Mal foi conhecida a notícia da sua morte - o funeral sai amanhã, às 15h00, da Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, no Terreiro do Paço, para o cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado -, os sites dos jornais e a blogosfgera foram invadidos por comentários que o acusam de ter pactuado com o MPLA na perseguição e expulsão dos portugueses de Angola ou de ter negociado com os cubanos a intervenção militar no território. "Calúnias", disse ontem ao PÚBLICO Vasco Lourenço. "Os militares de Abril mais caluniados foram aqueles que se envolveram nos processos de descolonização", afirma o tenente-coronel na reserva, que não subscreve a tese de que Rosa Coutinho tenha privilegiado o MPLA em detrimento da UNITA e da FNLA, os outros dois movimentos angolanos de libertação.

Mas a posição mais consensual entre os historiadores não parece ser esta. Maria Inácia Rezola, que entrevistou o almirante no decurso dos seus estudos sobre os militares no pós 25 de Abril, conta que o próprio Rosa Coutinho "não escondia que favorecera o MPLA". É o que pensa também o historiador Pedro Aires Oliveira, que vê em Rosa Coutinho "um homem identificado com as estruturas do MFA em Angola" e que soube "estar à altura das circunstâncias". Não duvida de que o almirante tenha apostado no MPLA, que "era o movimento mais ocidentalizado e com elites mais aportuguesadas", mas acha que o seu papel fundamental não foi tanto esse, mas o facto de ter conseguido consolidar, naquele movimento, a liderança de Agostinho Neto, num momento em que esta estava seriamente ameaçada por facções internas, como a "Revolta Activa" dos irmãos Pinto Andrade, ligada aos sectores intelectuais, ou a "Revolta do Leste", dirigida por Daniel Chipenda. "Mesmo a URSS", diz Pedro Oliveira, "estava muito hesitante entre apoiar Neto, o seu interlocutor histórico, ou Chipenda, que dera boas provas de capacidade de liderança". O objectivo do almirante, defende, foi "dar tempo ao MPLA para chegar aos acordos de Alvor com um só líder e um só interlocutor".

Torturado no cativeiro

Como figura pública, Rosa Coutinho praticamente não existia antes do 25 de Abril. É quando surge como um dos nomes da Junta de Salvação Nacional que o país fica a conhecê-lo. Nascido a 14 de Fevereiro de 1926, em Celorico da Beira, iniciou-se na vida militar aos 18 anos, ingressando na Marinha, tendo-se depois formado em engenharia hidrográfica. O seu primeiro contacto com Angola aconteceu ainda nos anos 40, tendo depois integrado, em 1959, a Missão Hidrográfica de Angola e de São Tomé e Príncipe, informa a investigadora Leonor Figueiredo, No início da guerra colonial, em 1961, foi preso pela FNLA e terá sido torturado durante o cativeiro. A sua libertação, alegadamente feita por agentes da PIDE, nunca foi devidamente esclarecida. Com o 25 de Abril, o prestígio que granjeara "juntos dos seus camaradas mais novos da Armada", diz Vasco Lourenço, resultou no convite para integrar a Junta de Salvação Nacional. Em Julho de 1974, no primeiro governo de Vasco Gonçalves, foi nomeado presidente da Junta Governativa de Angola. Raimundo Narciso, presidente do movimento Não Apaguem a Memória, refere que Rosa Coutinho "estava praticamente ao lado do MPLA, na ala militar dos "gonçalvistas"". "Não foi uma figura consensual", diz o socialista Almeida Santos, antigo ministro da Coordenação Interterritorial: "Defendeu sempre ideias muito próximas do PCP e foi em Angola que conquistou mais adversários".

Rosa Coutinho conseguiu acordar um cessar-fogo com o MPLA, a UNITA e o FNLA, indispensável para as conversações sobre a independência. Ontem, Isaías Samakuva, presidente da UNITA, lembrou-o como alguém de "triste memória para Angola", e Ngola Kabango, da FNLA, disse que o almirante "influenciou negativamente o processo de descolonização, a favor do MPLA".

O PCP foi ontem o único partido a reagir à notícia da morte de Rosa Coutinho, lamentando o desaparecimento de um "aliado" e de um "amigo", e enaltecendo a sua "postura de total fidelidade aos valores e aos ideais da Revolução de Abril". O "almirante vermelho" regressou a Portugal em Janeiro de 1975, na sequência da assinatura do Acordo de Alvor. Após o 11 de Março, foi convidado a integrar o Conselho da Revolução (CR). Apesar da sua actuação pacificadora no 25 de Novembro, foi afastado do CR e, pouco depois, passado à reserva. Como figura pública, eclipsou-se, mas terá desempenhado um relevante papel nas décadas seguintes como mediador de negócios entre Portugal e o regime de José Eduardo dos Santos. Numa coisa, os historiadores estão todos de acordo. Rosa Coutinho continua a ser uma figura muito pouco estudada
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Arquivo CM

Rosa Coutinho em 2004
Almirante tinha 84 anos

Rosa Coutinho vai ser cremado amanhã

O almirante António Alva Rosa Coutinho morreu esta quarta-feira, aos 84 anos, de doença prolongada. O corpo de uma das figuras mais destacadas e polémicas do pós-25 de Abril já se encontra em câmara ardente na Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, em Lisboa, de onde partirá às 15h00 de quinta-feira para o Cemitério dos Olivais, onde será cremado uma hora mais tarde.
  • 02 Junho 2010 - Correio da Manhã
Por:Paula Serra

Oficial da Armada, passou grande parte da sua carreira naval a bordo - e, a partir de um certo momento, no comando - de navios hidrográficos. Nos anos 60, uma missão de patrulhamento e pesquisa no rio Zaire valeu-lhe a captura por guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e alguns meses de privação da liberdade. 
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Aquando do 25 de Abril de 1974,  era capitão-de-fragata e foi um dos elementos da Armada designados para integrar a Junta de Salvação Nacional (JSN); data de então a sua promoção a vice-almirante. Nos primeiros meses da nova situação a sua actuação foi discreta; chegou a coordenar o Serviço de Extinção da PIDE-DGS e da Legião Portuguesa.
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 Em finais de Julho, após a demissão do último governador-geral de Angola, general Silvino Silvério Marques, Rosa Coutinho foi chamado a substituí-lo, na qualidade de presidente da Junta Governativa de Angola.
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.Confirmado membro da JSN após os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974, ganhando a qualidade de alto-comissário em Angola a partir de Outubro, Rosa Coutinho permaneceu no território até à assinatura dos Acordos de Alvor (Janeiro de 1975), entre o Estado Português e os três movimentos de libertação - FNLA, Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). A sua actuação em Angola é normalmente vista como favorável ao movimento que ainda hoje detém o poder no país africano.
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A sua actuação ao longo de 1975, num sentido próximo do Partido Comunista  (PCP), valeram-lhe o epíteto de "almirante vermelho". Nos primeiros meses do ano viu o seu nome ligado à preparação de "legislação revolucionária", num sentido de radicalização do processo político iniciado em Abril do ano anterior, o que se concretizou após os acontecimentos de 11 de Março. Após esta data ingressou no Conselho da Revolução (CR), então criado.
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Se a sua imagem 'esquerdista' não deixou de se acentuar, saliente-se que aquando da tentativa de golpe de 25 de Novembro do ano em causa cumpriu plenamente as instruções do Presidente da República e Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), general Francisco Costa Gomes, no sentido de desmobilizar forças navais da Margem Sul, inicialmente favoráveis aos golpistas.
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Afastado do CR no novo quadro pós-25 de Novembro, passado à reserva pouco depois, o almirante Rosa Coutinho não mais voltaria à ribalta político-militar.


REACÇÕES
'Almirante foi saneado injustamente da Armada'
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Recordando o almirante António Alva Rosa Coutinho, falecido esta quarta-feira, aos 84 anos, o coronel Sousa e Castro, que o substituiu após o 25 de Novembro de 1975, na presidência do Serviço de Apoio ao Conselho de Revolução - órgão que geria todo o apoio logístico e outros dossiers - diz que "o almirante foi saneado muito injustamente da Armada, depois do 25 de Novembro, pelo então Chefe de Estado-Maior da Armada, almirante Souto Cruz". Segundo Sousa Castro, "o próprio conselho de disciplina da Armada votou unanimamente pelo não afastamento de Rosa Coutinho", acrescento que "na altura, nem o Conselho da Revolução (extinto em 1982), nem o Presidente da República (Ramalho Eanes), que acumulava as funções de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), poderiam ter feito alguma coisa par aimpedir o afastamento". Tratava-se, diz o capitão de Abril, de "uma decisão do chefe do ramo".
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Sousa e Castro frisa que "tem sido muito injusta a ligação estabelecida entre o almirante Rosa Coutinho e sectores mais esquerdizantes e Partido Comunista, depois do 25 de Abril" e que "essa colagem se deve ao papel que ele teve em Angola e no processo dos Acordos de Alvor", que segundo este militar "está mal interpretado, devido a uma falsa percepção passada por antigos residentes nas colónias, particularmente, em Angola".
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"O almirante deixou o SACR integro, e até para meu espanto na altura, quando assumi funções não encontrei nada que fosse, segundo os padrões da época, ilegal", revela este capitão de Abril.
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Sousa e Castro recorda que António Rosa Coutinho mantinha inclusive "boas relações com o antigo embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, no período revolucionário, Frank Carlucci, com alguns empresários internacionais e até com jornalistas conotados com a direita, designadamente com Nuno Rocha director do jornal O Tempo" e que "não tinha qualquer ligação orgânica a nenhum partido". 
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O general Loureiro dos Santos, que foi secretário do Conselho da Revolução entre Abril e Agosto de 1975, afirma sobre António Rosa Coutinho "conheci-o muito pouco, mas o que constatei é que se tratava de um homem muito determinado, sabia o que queria, agia de acordo com as suas deliberações". Loureiro dos Santos adianta que "ele defendia com veemência as suas ideias".


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02-06-2010 17:21 - AngolaPress

Portugal
Morreu almirante Rosa Coutinho



  Lisboa, - O almirante Rosa Coutinho, um dos mais controversos militares do 25 de Abril, morreu, hoje, quarta-feira, aos 84 anos, vítima de cancro.

O corpo de Rosa Coutinho está em câmara ardente na Capela de São Roque, nas instalações da Marinha, realizando-se o funeral na quinta-feira, a partir das 15 horas.

Na reserva desde Novembro de 1975, Rosa Coutinho notabilizou-se no pós-25 de Abril de 1974, tendo ficado conhecido como o "almirante vermelho" pela sua proximidade ideológica com o PCP.

Após a revolução de 1974 integrou a Junta de Salvação Nacional e em Outubro de 1974 foi designado Alto Comissário em Angola até à assinatura do Acordo de Alvor  em janeiro de 1975.

No período pós-revolucionário, coordenou o Serviço de Extinção da PIDE-DGS e da Legião Portuguesa.

Na Marinha, Rosa Coutinho passou grande parte da sua carreira embarcado e capturado nos anos 1960 numa missão de patrulhamento e pesquisa no rio Zaire.

No 25 de Abril de 1974, era capitão-de-fragata e foi um dos elementos da Armada designados para integrar a Junta de Salvação Nacional
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Cremado no Cemitério dos Olivais
Miguel A. Lopes

Urna do almirante à saída da capela

Duzentos aplaudem urna de Rosa Coutinho

Cerca de 200 pessoas aplaudiram hoje a saída da urna com o corpo do almirante Rosa Coutinho da Capela de São Roque, nas instalações da Armada no Arsenal, para o Cemitério dos Olivais, em Lisboa.
  • 19h27 - Correio da Manhã
Por:Lusa
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Numa cerimónia discreta em que não foram feitos elogios fúnebres, não se realizou qualquer rito religioso, nem se prestaram honras militares, por pedido expresso do almirante, que morreu na quarta-feira vítima de cancro, explicaram à Lusa fontes militares e da família. 
O chefe do Estado-Maior da Armada, Melo Gomes, que na quarta-feira esteve presente na capela, fez-se hoje representar pelo almirante Oliveira Viegas.  
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O cortejo fúnebre seguiu para o Cemitério dos Olivais, onde o corpo do militar, que esteve envolvido na revolução do 25 de Abril de 1974, seria  cremado.   
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Hoje no pátio do Arsenal, entre cidadãos anónimos, amigos da família e do falecido militar, bem como antigos camaradas de armas, estavam presentes  o coronel Vasco Lourenço, um dos homens do 25 de Abril, e o ex-ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro.   
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Rosa Coutinho com Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho
Rosa Coutinho com Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho