Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 24 de abril de 2011

Murais Mexicanos: a arte para o povo

Gláucia Rodrigues Castelani
glaucia@klepsidra.net
3º ano - História/USP
muralismo.rtf - 33KB
Introdução
O objetivo deste texto é apresentar o movimento muralista mexicano, ocorrido logo após a Revolução Mexicana de 1910, até hoje considerada a primeira grande mobilização social na América Latina no século XX. Pretende-se aqui entender como se deu o surgimento de tal movimento e quais eram os ideais e as propostas de seus artistas, que se propunham a pintar para o povo. Mas não era apenas isso: para Rivera, Orozco e Siqueiros, os três grandes pintores da Revolução, o mural possibilitou uma arte pública e coletiva, que rompia com o individualismo da pintura de cavalete. 
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"Os muralistas mexicanos produziram a mais importante arte revolucionária, se sentido popular, ocorrida neste século, e a influência deles em toda a América Latina tem sido contínua e de longo alcance." (ADES: 1997, 151)
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Mural de Diego Rivera: Terra Virgem

Durante a década de 1930 tais idéias também podiam ser percebidas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Entretanto, depois desse período raramente encontramos as idéias dos muralistas como parte do discurso artístico. Pode-se considerar que, nesse ponto, a grande dificuldade está em encontrar uma forma que possibilite a apresentação do mural, porque mesmo já se tendo produzido murais portáteis, estes "não conseguem transmitir a sensação que dão quando vistos em seus ambientes". (ADES: 1997, 151) 


No período pós-revolucionário, nas décadas de 1920 e 1930, os muralistas como Diego Rivera, José Clemente Orozco e Davi Alfaro Siqueiros, financiados pelo governo e dentro das diretrizes culturais pensadas pelo ministro José Vasconcelos, aliaram seu talento artístico à causa da Revolução. Sua produção cultural transmitia uma interpretação da história mexicana marcada pela denúncia dos ricos e poderosos, com fortes imagens de índios oprimidos e explorados pelo violento colonizador apoiado na Igreja Católica. Mas a Revolução também colocou em marcha uma política cultural que criou museus nacionais, instituições de pesquisa e de investigações arqueológicas que passaram a enfatizar o passado indígena do país.
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Mural de Diego Rivera:
A Grande cidade de Tenochtitlán

Os muralistas acreditavam que só mesmo o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante tantos séculos de opressão estrangeira e de espoliação por parte das oligarquias nacionais culturalmente voltadas para a metrópole espanhola. Portando, produzir obras em locais públicos para que todos a pudessem ver era uma forma de impedir que estas não acabassem em propriedade de algum abastado colecionador. 



Mural de Rufino Tamayo, Palácio de Belas Artes Cidade 
do México
Assim, em todo o México foram pintados murais nos lugares mais variados, como palácios e encantadoras igrejas coloniais, pátios de prédios ministeriais, escolas, museus e câmaras legislativas. Em lugares, enfim, que vão desde escuras e mal projetadas escadas até imponentes fachadas de modernos edifícios. Mas, para nos aprofundarmos na análise dos murais, analisemos rapidamente o processo social que lhes deu origem.
Antecedentes: A Revolução Mexicana




Pancho Villa e Emiliano Zapata
Em 1910, a população campesina se encontrava ainda numa situação de servidão ou, quando assalariada, trabalhava em troca de salários irrisórios. O mesmo acontecia com os operários da cidade: pagamento ínfimo, nenhum direito, excesso de obrigações.
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É nesse quadro de opressão que se inicia uma rebelião liderada por Francisco Madero. Desde o princípio houve um crescente apoio popular, que acabou transformando esse movimento na Revolução Mexicana. Madero conseguiu o valioso apoio de lideres das massas camponesas e indígenas que se tornariam os maiores revolucionários, consagrados como heróis da história do México: Emiliano Zapata e Francisco Doroteo Arango, mais conhecido como Pancho Villa
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Esta Revolução derrubou do poder o ditador Porfirio Díaz – que em seu governo de 35 anos levou a nação a algum desenvolvimento econômico, mas a manteve sob um regime ditatorial e corrupto, explorando os camponeses, já miseráveis, e concedendo privilégios à classe dirigente.Entretanto, com a abertura do processo revolucionário e atentas à reação conservadora, as massas começaram a pressionar para que houvesse uma radicalização do movimento e que as conquistas sociais fossem privilegiadas. 
Porfirio Díaz

Emiliano Zapata
A Revolução estava obtendo sucesso em seus preceitos, ampliando a participação popular no poder, mas em 1913 o general Adolfo de la Huerta derrubou Francisco Madero, que acabou fuzilado. Porém, Pancho Villa, na região no norte, e Zapata na sul, continuaram combatendo com sucesso as forças governamentais agora chefiadas por Huerta. Em agosto de 1914, o general Álvaro Obregón saiu do norte, onde lutava ao lado de Pancho Villa, e comandando parte de seu exército (que não havia perdido nenhuma batalha), entrou na Cidade do México e venceu Huerta.
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Nesse momento, a Revolução nacionalizou as riquezas minerais, e em 1917 o presidente Venustiano Carranza convocou um Congresso Constituinte, que reformou a Constituição de 1857, dando-lhe um conteúdo progressista, nitidamente anticlerical e antiditatorial, cujos itens fundamentais eram a reforma agrária, a melhoria do padrão de vida da classe operária e a absoluta separação de poderes entre Igreja e Estado. Em 1920, foi a vez do general revolucionário Álvaro Obregón iniciar o seu governo, com o apoio dos sindicatos para a reforma agrária preconizada pela Revolução. 
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Pancho Villa
Em 1924, assumiu o governo o também general Plutarco Elías Calles, que iniciou uma violenta perseguição religiosa: ele proibiu o culto em todo país e a educação religiosa nas escolas. Em 1929, Calles fundou o Partido Revolucionário Institucional (PRI), concentrando as forças participantes do movimento de 1910 e contribuindo para a normatização da vida política nacional.
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Apesar da presença de governos ligados à Revolução, a forte oposição conservadora mantinha o país num clima de permanentes conflitos internos, o que fazia com que a plataforma constitucional permanecesse inaplicada até 1934, quando Lázaro Cárdenas assumiu a presidência.

O novo líder iniciou a realização de algumas das principais metas da Revolução: começou a reforma agrária, nacionalizou as empresas petrolíferas e procurou obter o difícil controle da política interna, enfrentado ao mesmo tempo os conservadores, os militaristas e os revolucionários mais radicais. A partir de Cárdenas, os presidentes mexicanos passaram a ser eleitos segundo as normas constitucionais que estabeleciam um mandato de seis anos e proibiam a reeleição. Dessa forma obteve certa estabilidade política para o país.

Lázaro Cárdenas

O Inicio do Movimento Muralista

Com a Revolução Mexicana de 1910, os ventos revolucionários penetraram por toda a sociedade – pondo principalmente em destaque a participação dos camponeses. No período pós-revolucionário (décadas de 1920 e 1930), temos um importante momento da história cultural mexicana, pois nessa época os muralistas constituíam o grupo mais atuante e criativo que formava a vanguarda cultural revolucionária do México, com forte sentido do valor social de sua arte. 



Mural de Deigo Rivera:
A Civilização Tarasque
Com "a posse do primeiro líder revolucionário, Álvaro Obregón, no cargo de presidente, em 1920, iniciou um período de otimismo e esperança durante o qual nasceria o movimento muralista." (ADES: 1997, 151) Para muitos mexicanos, a Revolução lhes revelou o México e deu aos pintores olhos para enxergar essa nova realidade. Dessa forma, os pintores muralistas inundavam as paredes com torrentes de imagens reproduzidas das mais variadas formas: realista, alegórica, satírica, sempre refletindo suas aspirações e conflitos, sua história e múltiplas culturas.
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Muitos foram os motivos para o predomínio das artes visuais e a primazia cultural do muralismo. Podemos considerar que o primeiro está relacionado ao compromisso que tinha o filósofo revolucionário José Vasconcelos – nomeado por Obregón como presidente da Universidade e Ministro da Educação – com o chamado programa do mural.
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O que havia de extraordinário nesse projeto, se comparado a outros lançados sob as mesmas condições revolucionárias? A diferença estava na ausência de qualquer imposição concernente ao estilo e à temática. Os murais mexicanos possuíam estilo indefinido, pois, para Vasconcelos, o importante era deixar os artistas livres para escolher os seus temas. De acordo com Ades, o plano visionário de Vasconcelos estava fundamentado numa teoria social que se inspirava ao mesmo tempo em conceitos pictográficos e no positivismo do filósofo Augusto Comte. Sustentava Vasconcelos que a evolução de uma sociedade se dá através de três estágios, sendo o mais avançado o da estética, no qual o México revolucionário não tardaria a entrar.
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Vasconcelos estava "convicto de que os mexicanos eram mais sensíveis às artes visuais que a música; ele foi o primeiro a permitir que se entregassem as paredes da recém-construída Escuela Nacional Preparatória (ENP) a um turbulento grupo de jovens artistas que buscava nas escolas de arte e nos ateliês, ou no caso de Rivera e Siqueiros, artistas já maduros, na Europa, atraindo-os de volta para o México." (ADES: 1997, 152) 


O segundo motivo se deve ao fato de que, no México, a idéia de projetos para murais é parte de uma tradição que vinha de longa data. "Dr, Atl (Geraldo Murillo), durante o breve tempo que passou como diretor da Escola de Belas-Artes em 1914, escreveu: ‘Os arquitetos, pintores e escultores, em vez de trabalhar visando a uma exposição ou um diploma, deveriam construir prédios e decorá-los’." (ADES: 1997, 152) Mesmo assim, muitos pintores não tinham consciência dos murais mexicanos, pois já em épocas pré-colombianas os muros das cidades eram cobertos de pinturas. Entretanto, Rivera só percebeu isso quando foi com Vasconcelos, em 1921, a Yucatán e em Chichén-Itzá e conheceu o templo dos Jaguares. No entanto, qualquer "tradição" existia apenas em teoria. Os estudos que os jovens pintores tinham feito não os preparava para a pintura mural, e eles teriam de aprendê-la com a prática.
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O terceiro motivo está relacionado ao "problema do índio", reavivado mais uma vez pela Revolução e sob o qual existia a questão do México ser ou não duas nações. A discussão sobre o problema também envolveu considerações sobre o papel da arte. 
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.Palácio de Belas Artes Cidade do México

Afinal, nesse período buscava-se também explicar que a arte não era uma intrusa no cotidiano dos mexicanos: "pontos divergentes com relação à estética contribuem substancialmente para que seja radical a separação de classes sociais no México. O índio preserva e produz uma arte pré-colombiana. A classe média preserva e produz uma arte européia temperada pelo pré-colombiano ou pelo índio. A dita classe aristocrática alega ser a sua arte puramente européia.
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Deixando de lado a última com seu purismo duvidoso (…) investiguemos as outras duas. Elas já são separadas uma da outra por diferenças étnicas e econômicas. O trabalho do tempo e a melhoria econômica da classe nativa contribuirá para a fusão étnica da população, mas a fusão cultural mostrará importante fator (…) Quando as classes nativas e média compartilharem um só critério no que diz respeito a arte, estaremos culturalmente redimidos, e a arte nacional, uma das bases mais sólidas da consciência nacional, se tornará um fato." (ADES: 1997, 153)


Mural de Diego Rivera:
A Água na evolução das espécies
(1951, Parque Chapultepec, Cidade do México)
Tais idéias, ao colocar em evidência as artes visuais, acabaram ajudando a assentar as bases culturais e políticas sobre as quais o muralismo se estabeleceu e se promoveu como arte nacional. No entanto, não necessariamente elas coincidem com a concepção que os próprios muralistas tinham de seu papel, nem com a mensagem social que a arte deles transmitia. Segundo Ades, mais que a fusão cultural mencionada acima, os muralistas, pelo menos em princípio, exigiam a erradicação da arte burguesa (a pintura de cavalete), e apontavam a tradição indígena com o modelo do ideal socialista de uma arte aberta, para o povo: "uma arte que fosse aguerrida, educativa e para todos".
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A Arte de "Los Tres Grandes"

O movimento muralista concentrava-se cada vez mais nos mãos de "Los Tres Grandes": Rivera, Orozco e Siqueiros. Entretanto, "nos heróicos anos compreendidos entre 1922 e 1924, os jovens que Vasconcelos encarregou de ajudar na decoração das paredes da ENP – Fernando Leal, Ramón Alva de la Canal, Fermín Revueltas, Jean Charlot, Emílio García Cahero – deram importantes passos para sua consolidação." (ADES: 1997, 155 e 156)
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Outro artista que não poderíamos deixar de mencionar é Francisco Goitia, merecedor do título de pioneiro: afinal, ele é "o primeiro artista a pintar para o povo". Como Siqueiros, Dr. Atl e Orozco, ele participou ativamente da Revolução. Ao lado de Pancho Villa, pôde inclusive produzir in loco "pinturas e desenhos vigorosos e realistas da guerra civil". Mesmo tendo ficado longe do alcance de Vasconcelos e deixado de completar os mais simples afrescos que se propôs a fazer, os estudos de Goitia acerca das conseqüências da guerra e da gente pobre, sobretudo mostrando mulheres índias chorando os seus mortos, não deixam dúvida de que constituem uma forte base para a nova pintura que se desenvolvia. 
  


Diego RiveraRivera vivera muitos anos no velho continente, e lá estudara com variados mestres e estilos diferentes. Mas aprendera também como os gregos, italianos, holandeses, espanhóis e outros criaram uma arte nacional de ressonância universal. Logo quis fazer o mesmo no México, contribuindo para que seu país tivesse uma fisionomia artística própria, exprimindo o vigor de sua natureza física e humana em uma pintura que não só descrevesse o povo mexicano , mas que também dialogasse com ele. Isso deveria redefinir o seu estilo.
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Diego Rivera iniciou em 1923 os murais do Ministério da Educação em meio a uma grande publicidade. Vasconcelos desejava ver uma decoração com motivos de mulheres vestindo trajes típicos de cada um dos estados mexicanos, mas não foi isso que aconteceu. 
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Num dos pátios do Ministério, onde deveriam ser pintados simbólicas e decorativas figuras, Rivera pintou o cotidiano da vida dos trabalhadores mexicanos, retratando desde a índia tecelã, o oleiro e o lavrador, até as oficinas de fundição, usinas de açúcar e minas. Por cima das portas, ele pintou poemas astecas e símbolos da revolução.
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Como se nota, Diego tinha prazer em fazer pinturas que contrastassem o mundo moderno industrial, com uma forte crítica social relacionada à exploração dos trabalhadores. Característico também é o contraste entre o México industrial e o México rural em sua obra; este último é celebrado por Rivera mais como vital e pitoresco do que como atrasado e indigente. 


Rivera era o único de "los tres grandes" que ainda continuava a procurar fórmulas que solucionassem a questão de uma "arte para o povo"; em termos realmente indígenas, não através da pura e simples reprodução de imagens do passado pré-colombiano, mas tentando entender e usar criativamente as estruturas e as iconografias pré-colombianas. Ao longo de sua vida, criou mais de 2 mil quadros, 5 mil desenhos e cerca de 4 mil metros quadrados de pintura mural. Foi um pintor revolucionário que queria levar a arte ao grande público, nas ruas e edifícios, manejando uma linguagem precisa e direta com um estilo realista, pleno de conteúdo social. Embora possa parecer que Diego tenha nos afrescos o estilo do realismo socialista, saiba-se que ele sempre foi um rebelde contra quaisquer dogmas, e que em seus trabalhos podemos ver também algo de cubismo, surrealismo, e etc.Entretanto, Diego Rivera tinha um ideal: queria que a arte fosse de todos.

Mural de Diego Rivera: Indústria de Detroit
(The Detroit Institute of Arts, Detroit, EUA)



Auto-retrato do Pintor mexicano
Davi Alfaro Siqueiros
Davi Alfaro SiqueirosSiqueiros sempre foi um polemista muito lúcido, e desde a época em que se encontrava em Barcelona já havia feito inúmeras críticas contra o que ele considerava "insosso e arcaico estilo da arte nacionalista pitoresca". Dentre os muralistas, Siqueiros era o que tinha maior comprometimento com o mundo moderno, tanto no que diz respeito à temática quanto às técnicas. Para ele a palavra de ordem era: "uma nova direção para uma nova geração de pintores americanos". Ele queria uma arte inovadora, que fosse dinâmica e construtiva. A sua linguagem artística tinha raízes na estética modernista do cubismo e do futurismo.
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Para Siqueiros, com a reavaliação feita pelos cubistas da chamada arte "primitiva", ocorreria a confirmação de uma nova atitude para com a cultura nativa do México: "precisamos absorver a força construtiva de suas obras nas quais existe evidente conhecimento dos elementos da natureza"; entretanto, ele queria que se evitassem as lamentáveis reconstruções arqueológicas (indianismo, primitivismo, americanismo) que, apesar de estarem na moda, conduziriam os mexicanos para efêmeras estilizações.
Siqueiros dava grande ênfase às grandes massas primárias: cubos, cones, cilindros, esferas, pirâmides, que para o artista deveriam ser as vigas de toda arquitetura plástica. Dizia: "deixem-nos impor o espírito construtivo sobre o puramente decorativo, a base essencial de uma obra de arte é a estrutura da forma, magnífica e geométrica". Tais idéias contribuiriam para a realização de alguns dos mais brilhantes e descomprometidos murais, em que a estrutura geométrica da forma "escapa de suas amarras cubistas para fundir-se esplendidamente com a verdadeira arquitetura".
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Mural de Davi Alfaro Siqueiros: A Nova Democracia

De todas as obras dos muralistas, a de Siqueiros é de longe a mais difícil de ser reproduzida com certo sucesso. Isso se deve ao estilo, à técnica e aos espaços escolhidos para situá-los. Os lugares eram selecionados por ele, modificados ou construídos de modo a permitir que toda a área da parede ficasse completamente envolvida pelo clima pictórico da criação. Ele se utilizava de tintas industriais e pistola de jato, mas também se valeu da técnica da fotografia quando usou um projetor para distender as imagens sobre a parede.
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Diferentemente de Orozco e Rivera, Siqueiros raramente pintou temas ligados à história mexicana, estando muito mais absorvido pela luta de classes no México de sua época.


Mural de Davi Alfaro Siqueiros no Hospital De la Raza:
Pela completa segurança de todos os mexicanos


  


Pintor mexicano
José Clemente Orozco
José Clemente Orozco"Orozco divergia profundamente de Rivera com relação à atitude que um e outro tinham para com a arte nacionalista, o indianismo, as interpretações da história mexicana e até para com a própria Revolução e seus murais, por evitar as mensagens históricas e políticas que, em Rivera, aparecem bem definidas. Os primeiros afrescos, entretanto, no andar térreo da ENP, eram universalistas e alegóricos." (ADES: 1997, 157) Destes, poucos chegaram até nós e muitos foram bastante danificados por adversários, alunos da ENP, mas seriam repintados por Orozco em 1926. No entanto, não há ambigüidade nas sátiras grotescas e cheias de força que estão no andar do meio de ENP. No último andar, há uma seqüência já não tão exaltada que aborda os invisíveis efeitos dos anos de violência sobre as famílias.
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Orozco considerava que os outros pintores, em seu nacionalismo, confundiam pintura com arte folclórica.
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Ele dizia: "a pintura em sua mais alta expressão e a pintura como arte menor folclórica diferem essencialmente nisto: a primeira possui imutáveis tradições universais de que ninguém pode separar-se (…) a Segunda, tem apenas tradições locais". Orozco também se negava a pintar propaganda: " uma pintura não deveria ser um comentário, mas a coisa em si, não uma reflexão, mas uma compreensão, não uma interpretação, mas uma coisa a ser interpretada".
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A sua pintura estava estruturada de acordo com uma dialética entre o poder e os perigos dos tradicionais ícones e mitos políticos da Revolução, na qual, certa vez ele também, com entusiasmo, tinha depositado fé.
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Mural de José Clemente Orozco:
A Idade de Ouro Pré-Colombiana
A Crise do Muralismo

O apogeu da primeira fase do muralismo é marcado pelo ciclo de afrescos pintados por Orozco no pátio principal da ENP e pelos murais de Rivera no andar térreo do Ministério da Educação. Entretanto, quando o mandato do general Obregón na presidência estava perto de terminar, surgiram novamente problemas políticos. Por parte dos alunos mais conservadores da ENP havia uma hostilidade contra os murais, e isso os levou a uma ação mais direta, em que os estragos regulares e acidentais, contra os quais os pintores sempre haviam lutado, se tornaram sérios. As obras que mais sofreram a ação desses alunos foram as de Orozco.
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Em 1924, com a renúncia de Vasconcelos ao cargo de ministro, os artistas perderam sua proteção e, a partir de então as encomendas foram suprimidas. Dessa forma se encerrava a primeira fase do muralismo, afastando do movimento a maior parte dos pintores. Diversos artistas foram para Guadalajara, como Siqueiros, que foi ajudar Armando de la Cueva num trabalho encomendado pelo governador Zuno. Guadalajara continuava patrocinando os muralistas e mais tarde seria o lugar onde as grandes obras de Orozco seriam reunidas.
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No entanto, Rivera, que estava na metade de seus trabalhos no Ministério da Educação, "conseguiu conquistar o novo ministro e, por uns tempos, praticamente, teve para si o campo da Cidade do México." (ADES: 1997, 165). Em 1927, ele terminou os murais do último andar do Ministério e logo depois viajou para Moscou. Depois dessa sua viagem, passaria a se utilizar de uma iconografia revolucionária russa: a estrela vermelha, a foice e o martelo e, aos poucos foi dando uma maior ênfase à unidade revolucionária – o trabalhador, o soldado e o camponês – e a clássica oposição entre ricos e pobres.
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"Talvez nada tenha de surpreendente o fato de que essas imagens do México, que combinam a crítica social com a fé no progresso, e ao mesmo tempo enaltecem o índio mexicano, houvessem contado com a simpatia dos governantes que iriam suceder-se. Poder-se-ia argumentar que esses murais, por encerrarem as promessas de Revolução, teriam inevitavelmente de ficar para sempre na consciência do povo, por mais lenta e difícil que fosse a ação para levá-las a cabo. Octavio Paz analisou a situação com brutal clareza: ‘Essas obras que se dizem revolucionárias e que, nos casos de Rivera e Siqueiros, expressam um simples marxismo maniqueísta, eram encomendadas, patrocinadas e pagas por um governo que jamais foi marxista e havia deixado de ser revolucionário (…) essa pintura ajudou a dar-lhe uma feição que gradativamente se foi tornando revolucionária’." (ADES: 1997, 165). Já a obra de Orozco é mais difícil de ser assimilada. Forçado a interromper os trabalhos na Escuela Nacional Preparatória em 1924, ele retornou aos trabalhos apenas em 1926, para pintar uma série de afrescos no andar térreo. Os dois primeiros andares reproduzem a sociedade sem direção e rachada por divergências, onde os pobres são incapazes de unir-se contra seu opressores.


Óleo sobre tela de Diego Rivera:
Dias das Flores (Los Angeles
County Museum of Arts)
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A ênfase posta numa arte de caráter histórico voltada para o povo sempre esteve presente – e isso nada tem de surpreendente – na obras dos muralistas. Por outro lado, todos eles deixaram pinturas de cavalete que, por diversas vezes, repetem os temas e assuntos tratados nos murais. Entretanto, a inconstância de patrocínio freqüentemente os levava a aceitar encomendas particulares para murais e retratos.
Portanto, pode-se perceber que o movimento muralista mexicano tinha como um dos seus principais objetivos transmitir as idéias nacionalistas às pessoas mais humildes. Dessa forma, inúmeros murais relatam a história do povo do México, mas não apenas sua história, como também: seus problemas sociais e sua vida cotidiana. Esta arte possibilitava (e ainda possibilita) também, um canal aberto para críticas, tanto políticas quanto sociais. Sendo assim, a arte dos muralistas, buscava uma maior aproximação com o povo, pois tinha neste seu principal alvo.
Bibliografia

ADES, Dawn. Arte na América Latina: A Era Moderna 1820-1980, São Paulo, Cosac & Naify Edições, 1997.
CAMÌN, Héctor Aguilar. MEYER, Lorenzo. À Sombra da Revolução Mexicana – História Mexicana Contemporânea 1910-1989, São Paulo, Edusp, 2000.
PRADO, Maria Ligia. A Formação das Nações Latino-Americanas, 17.ª edição, São Paulo, Atual Editora, 1999.
PRADO, Maria Ligia. América Latina no século XIX: Tramas, Telas e Textos, São Paulo, Edusp/ Edusc, 1999.
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http://www.klepsidra.net/klepsidra6/muralismo.html



Muralismo Mexicano
O muralismo mexicano, considerado o Renascimento da arte mexicana, foi um movimento artístico singular e de extrema importância para a arte mundial do século XX.
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O traço fundamental deste movimento é a intervenção social e política através da arte, levando-a ao povo e, através dela, transmitindo uma mensagem de optimismo e solidariedade em relação à sociedade e à humanidade. A temática central é o povo mexicano, a sua vida, a sua história e os seus valores, a melhor forma de fazer passar a mensagem ao povo de um modo simples e compreensível. Isto foi realizado através de uma técnica monumental, a pintura mural, que tornava a arte acessível às massas e que foi levada a cabo com grande talento pelos grandes pintores mexicanos OrozcoRivera e Siqueiros, entre outros.
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O muralismo mexicano está intimamente relacionado com a revolução mexicana de 1910 e os ideais comunistas que lhe estavam subjacentes, aliás foi José Vasconcelos, Ministro da Educação Pública do período pós-revolucionário, o principal impulsionador deste movimento, ao pôr à disposição dos pintores as paredes dos edifícios públicos do México.
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O muralismo mexicano foi um dos últimos movimentos estéticos em que se verificou a integração das três artes, a pintura, a escultura e a arquitectura. Este facto diz muito da sua importância e monumentalidade.
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Toda a mensagem transmitida pelas obras muralistas está impregnada de ideais comunistas, abordados de uma forma mais idealista e utópica, em Rivera, mais crítica e pessimista, em Orozco ou mais convicta e interventiva, em Siqueiros.
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Em termos formais a influência do realismo socialista no muralismo mexicano foi ultrapassada pela riqueza da experiência estética dos seus protagonistas, que com grande talento sintetizaram várias influências, dando origem a um movimento estético único.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ciudad Juaréz - uma cidade violenta


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ElUniversalTV | 25 de fevereiro de 2009
Una historia que se repite a diario de 7 de la tarde a 10 de la noche en las calles de la ciudad más violenta de México
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México-Estados Unidos: A linha da morte

Adital - Quarta-Feira, 04 de agosto de 2010
20.11.08 - AMÉRICA LATINA

 
 

Justicia y Paz / Sicsal *
Adital -
Como Basura del Mundo 9 A cifra dos mortos na tentativa de cruzar a malha que separa o México dos Estados Unidos, de 1994 até 2008 superou 5 mil pessoas. A última década do século XX reforçou o fechamento da fronteira e mudou a rota migratória das cidades fronteiriças para o deserto do Arizona. Cada vez é mais férrea a vigilância que a polícia migratória estadunidense impõe para impedir a entrada de latinos em seu país. No entanto, a vigilância extrema, a cada dia, pressionados pelo desemprego, pela fome, pela violência faz com que se lancem na aventura de buscar uma vida melhor. Os dados oficiais informam que a presença de cerca de 40 milhões de imigrantes nos EUA, a grande maioria sem documentos.
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As histórias são terríveis. Dezenas de mulheres mães solteiras que deixaram seus filhos e tentam buscar trabalho nos Estados Unidos, são abusadas sexualmente na viagem e acabam destruídas emocionalmente. Até 3 mil homens, mulheres, crianças de diversos países da América Central, penduram-se no trem para chegar até a fronteira, com o risco de cair e morrer, como já aconteceu em várias ocasiões, devido ao cansaço. Há pais de família do México ou de qualquer país que, empurrados pela necessidade, partem sozinhos para correr os riscos do cruzamento da fronteira. Quando conseguem, vão trabalhar na construção civil, nas colheitas ou em empresas de carnes que não encontram mão de obra nacional que queira fazer esse serviço. Arrecadam dinheiro mensalmente para enviar a sua família, depois podem aventurar-se a recolher suas companheiras em uma viagem de volta por terra que pode durar até 45 dias caminhando, deixando seus filhos com os avós e após um ou dois anos, quando conseguiram alguma estabilidade voltam para pegar seus filhos.
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.Um exemplo, um desses pais, voltou de Austin Minnesota, longe da fronteira, até Chiapas para recolher a seus filhos de 5 e 9 anos; chegou a Reinosa, México, esperou 3 dias até que se juntasse um grupo de 25 pessoas para cruzar a fronteira. Pagou 1.200 dólares aos ‘coiotes’ por cada criança; caminharam até McAllen, nos EUA e dali empreenderam uma viagem de 45 dias até Houston, Texas. Entregou seus filhos a ‘coiotes’ desconhecidos, que seguiram viagem com outras crianças. Dos 25 adultos que viajavam por terra, 20 foram presos pela migração, e somente 5 conseguiram chegar ao encontro de seus filhos pequenos, em Houston.
Trabalhar é possível para o migrante, desde que consiga documentos legais; não importa que não sejam os seus. O tráfico de documentos é um grande negócio conhecido pelas grandes empresas que os empregam e por autoridades das cidades receptoras dos Estados Unidos. Compram no mercado clandestino os três documentos indispensáveis para ser admitidos: um número no sistema de seguridade social; a certidão de nascimento e o carnê de cidadania; todos podem custar ao redor de 2.000 dólares a cada migrante que pretende trabalhar. Depois vão às transnacionais, como as processadoras de carne de porco QPP y HORMEL, em Austin, Minnesota, que lhes paga um pouco mais de 12 dólares por hora, salário muito maior do que o recebido no México ou em qualquer cidade latino-americana, por desempenhar esse ou outro ofício similar.
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O problema é sustentar-se nos Estados Unidos. As fiscalizações nas casas são freqüentes. Caso possuam um carro, o utilizam para ir somente de casa para o trabalho; por não terem a carteira de habilitação não podem ir a outros lugares. Vários têm sido presos ao trocar um pneu à margem das estradas.
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Em todo caso, abrigam a longínqua esperança de que o novo presidente Barack Obama, mude alguma coisa a seu favor; apesar do silêncio sobre o tema dos migrantes, na campanha, foi eloqüente, em um país em crise econômica, que abre as portas ao dinheiro e aos trabalhadores que vendem barato sua mão de obra ao setor produtivo estadunidense nessa esquizofrenia do mercado.
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As que não cruzam
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Ciudad Juárez, México, que se tornou famosa devido à industria montadora, chegou a ter 400, como pelos crimes de que têm sido vítimas meninas, adolescentes e mulheres jovens. Muitas famílias são devolvidas a esta cidade após uma tentativa frustrada de entrar aos Estados Unidos, por um tempo permanecem para sobreviver e arriscar sua vida. Uma delas partilhou, no encontro do Sicsal México-Estados Unidos, que teve que se prostituir porque não havia trabalho nas montadoras, que estavam se transferindo para a China e "quando entramos no quarto, não sabemos se saímos vivas ou mortas, porque a brutalidade é grande", em uma cidade onde, em 2008, os meios de comunicação informam ao redor de mil assassinatos.
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Os crimes contra as mulheres, conhecidos como feminicídios, são brutais e ferem a consci~encia da humanidade, sua história é longa nessa cidade fronteiriça, como testemunha uma valente mulher da Fundação de Vítimas de Feminicídios de Ciudad Juarez: Tudo começou com o sequestro de "Lilia Alejandra, de 17 anos, no dia 14 de fevereiro de 2001. Começamos a difundir seu desaparecimento nos meios e foi encontrada 8 dias depois com marcas de violência, seu corpo foi jogado diante da montadora onde trabalhava. Depois dela, centenas foram seqüestradas e aparecem com marcas de violações múltiplas, torturas. Temos sérios indícios da cumplicidade da polícia que joga as crianças nos pastos; também dos grandes empresários implicados no narcotráfico. São os que mandam; Ciudad Juarez está atingida pelo narcotráfico e quem não se submete pode perder a vida; os assassinatos de mulheres já são famosos na cidade, temos 20 prêmios internacionais por opor-nos, por denunciar e buscar justiça. Se não conseguimos que seja feita justiça, que pelo menos os habitantes de Ciudad Juarez conheçam a verdade".
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As hipóteses sobre a causa desses crimes são diversas, como declara "Casa Tabor": "tráfico de pessoas ou de órgãos, sacrifícios satânicos de gangues ou de grupos de narcos, negócios de filmes sádicos ou cometidos por um dos sexual preditors conhecidos; porém, apenas "controlados", em El Paso.
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Graças à coragem e à tenacidade das mães e acompanhantes, em novembro de 2007, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos admitiu os casos dos anos de 2002 e se espera uma futura resolução contra o Estado mexicano por sua responsabilidade diante desses crimes que não param. Em 2008 foram seqüestradas, ultrajadas e assassinadas 84 mulheres.
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Vingança estrutural
Bush aprovou a construção de um muro para a fronteira, cada milha (1.6 quilômetros) desse muro custará 7 milhões de dólares e aprovou a contratação de uma empresa particular para administrar as prisões para onde são enviados os migrantes, produzindo mudanças significativas no tratamento dos sem documentos capturados, como analisou a Ir. Katerin, do Texas, religiosa da Misericórdia que trabalha acompanhando as prisioneiras nos centros de detenção para migrantes. Há 5 anos, nessas prisões havia 6 mil camas; hoje, há 30 mil, com uma projeção para 60 mil camas nos próximos três anos.
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A mudança radica no fato de que as autoridades migratórias processavam os migrantes e os deportavam. Agora, os mantêm mais tempo presos porque as corporações contratistas que estão construindo os centros e os administram recebem 90 ou 95 dólares diários por cada migrante recluído. Esses mercenários da migração recebem pessoas detidas, somente porque cruzaram a fronteira sem documentos; agora estão criminalizando a passagem da fronteira, estão dando tratamento de terroristas aos sem documentos. Após o dia 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos construiu a entidade "Home Land Segurity" (segurança nacional), da qual depende a estrutura migratória e carcerária. "As mulheres me dizem: não sei porque estão me tratando como criminosa; me sinto como uma barata, que podem fazer qualquer coisa comigo", testemunho de Katerin. Anualmente, chega a 450 pessoas, os migrantes mortos ao cruzar a fronteira através do Estado do Texaas.
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Resistentes acompanhadas
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Boa parte da verdade que as vítimas gritam as vítimas dos crimes de mulheres e da injustiça social estrutural que se expressa nas migrações, está apoiada pelo acompanhamento de um punhado significativo de mulheres e homens do México e dos Estados Unidos, que resistem á política migratória de seu país que gera exclusão e morte.
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Em Ciudad Juarez, México, Emilia, Peter e Betty, há 13 anos formaram a comunidade Casa Tabor. Em sua casa, em um bairro popular da cidade fronteiriça acolhem e recolhem. É um lugar de passagem de peregrinas/os, a maioria estadunidenses que querem conhecer a realidade de morte das/os migrantes assassinados, desaparecidos ou mortos por inanição. As paredes de seu oratório estão cheias com os nomes dos/as que morreram na tentativa de franquear o abismo fronteiriço. Depois, somente a alguns centímetros se conectam com a onda das mulheres e homens que entregaram suas vidas em resistência ou nos acompanhamentos: Monsenhor Romero, Gerardi, Gerardo Valencia, Jesuítas de El Salvador, Rutilio Grande, 141 assassinados de Curvaradó e Jiguamiandó, 85 de Cacarica, 200 de Dabeida, na Colômbia, tantos e tantas que em toda América Latina têm sido testemunhas de esperança e de dores, vítimas da injustiça em sua busca pela Justiça. A Memória e as articulações, podemos situar atrevidamente, marcam a missão desses velhos herdeiros da t eologia da libertação, do mais autêntico dos sonhos libertários que fizeram missão na Guatemala, El Salvador e Nicarágua. Ali ficam, em outro destino, o das migrações.
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Em Austin, Minnesota, duas irmãs Franciscanas de Lourdes, Ruth, entre elas, resistem à injusta legalidade das cidadanias para alargar o tempo de estadia dos "molhados" que sobreviveram ao cruzamento do Rio Bravo ou Grande e de centenas que se aventuraram pelo deserto até chagar ao que consideram sua redenção. Dão aulas de inglês, servem de tradutoras nos hospitais, avisam quando a migração vai fazer suas rondas de fiscalização, ajudam a tramitar permissões para os trabalhadores das fábricas para evitar que seja demitidos caso faltem um dia, buscam vagas nas escolas de crianças, são centro de circulação de abrigo para redistribui-lo entre os migrantes. Com elas, o apoio das Franciscanas de Lourdes, de sua presidenta, Tierney Truman, aberta, visionária, solidária que facilita as condições e abre espaços para que possam continuar com seu trabalho, enquanto ela mesma apóia defensoras de direitos humanos que fogem da morte e a prisioneiros de todo tipo, em uma das prisões de Rochester, Minnesota.
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Em Antony, Novo México, Katerin acompanha desde os centros de detenção do regime, os latinos que cometeram o delito de desafiar a exclusão, pretendendo incluir-se forçosamente em um país que os repele como às baratas. Ela mostra com sua solidariedade que a dignidade e a humanidade não é dada para quem fala inglês, tem olhos claros ou nasceu nos Estados Unidos e tem a pele branca.
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Desde Washington, Scott Wrigth, de Épica e o Sicsal estendem pontes à solidariedade que não perdeu a força apesar dos bombardeios que presenciou em plena guerra em El Salvador. O punhado de mulheres e homens do povo dos Estados Unidos que, impulsionados por sua fé, puseram sua vida a serviço da solidariedade na tentativa de libertação desse povo, o mesmo que, 15 anos depois, arrisca sua vida na denúncia da injustiça presente no êxodo dos migrantes e no anúncio de processos de transformação das estruturas sociais que conduzam a minimizar os processos de exclusão.

Elas e eles, junto a outros, tornaram possível encontros como a Missa do dia 1o de novembro, que partilhou altar no território mexicano (Ciudad Juárez) e território dos Estados Unidos (El Paso, Texas) para pedir que o muro que Deus não fez nessa parte do planeta, fosse derrubada e que impossibilitou que o abraço da paz, ao qual os bispos celebrantes convidaram, pudesse ser dado entre os dois povos presentes. Nesse dia, em meio a cantos, orações, bênçãos e homilias bilíngües, 25 mexicanos saltaram a estrutura metálica para os Estados Unidos, 5 deles foram presos nesse momento pela "migra", e se desconhece a sorte dos demais.
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Novembro de 2008

* Justicia y Paz - Colombia - Secretaría Ejecutiva del Servicio Internacional Cristiano

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Juárez: Entre a vida a morte



02.08.2010 - 14:24 Por Alexandra Lucas Coelho, em Ciudad Juárez
Cabeças cortadas. Cadáveres atirados para o deserto. Gente raptada, violada, baleada, todos os dias. Esta é a história de como se destrói uma sociedade de fronteira. Primeiro, é o bordel dos EUA. Depois, fica escrava do comércio livre. E então o narcotráfico entra a matar, porque se tornou fácil e o dinheiro é muito. A cidade mais violenta do mundo é Juárez, fronteira do México com os EUA.
Em 2008, o Exército foi chamado, mas, após centenas de queixas de abusos, os militares foram retirados 
Em 2008, o Exército foi chamado, mas, após centenas de queixas de abusos, os militares foram retirados (Julián Cardona)


1.A morgue é um lugar limpo

O homem está deitado numa mesa de alumínio. Tem parte da cara desfeita e sangue na roupa. Vê-se a barriga, grande, peluda. Não há história, não há nome. O funcionário da morgue calça luvas de silicone, cobre o corpo com um oleado, e escreve a amarelo-fluorescente na zona da barriga: "Cadáver desconhecido - 30/Junho/2010."

Isto foi um homem.

"Já fizemos 14 autópsias, e agora entraram mais sete", diz a directora da morgue, Alma Rosa Padilla, vestido rodado às bolinhas, sapatos pontiagudos de verniz. Alguns dos autopsiados eram mortos de ontem, mas hoje ainda não acabou. São apenas 19h25 e, como veremos, há gente por matar.

Ao fundo do corredor, dois funcionários tiram de uma carrinha os corpos recém-chegados, envoltos em oleado. Põem cada volume numa mesa de rodinhas e puxam-na até à Sala de Autópsias. Pelo caminho, não há sangue. A nova morgue é um lugar limpo, com mosaicos onde os saltos da doutora Alma Rosa fazem tic-tic. Antes da autópsia, os mortos só se destapam para o registo fotográfico. "Depois, o sistema dá-lhes um número com as características: tatuagens, cicatrizes, amputações, cirurgias."

E fora do sistema, na contagem dos homicídios deste ano, o cadáver da cara desfeita será um número na casa dos 1400.

No tempo em que menos de uma pessoa por dia era morta em Juárez, os repórteres tinham umas horas para reconstituir a história. Isso foi há séculos, em 2007. Agora, os mortos fazem fila para entrar nas notícias, tal como na morgue.

Em 2007, foram mortas 316 pessoas em Juárez.

Depois, em 2008, foram mortas 1623 pessoas.

Depois, em 2009, foram mortas 2754 pessoas.

Ou seja, entre 2007 e 2009, o número de pessoas mortas aumentou quase 900 por cento.

E, em 2010, a tendência é para subir.

Não contando com sequestros, extorsões, violações e torturas, são estes números que fazem de Juárez a cidade mais violenta do mundo, a grande distância de San Salvador, Cidade do Cabo ou Medellín.

Segundo o Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y la Justicia Penal en México - observatório que coteja as estatísticas internacionais -, em 2009, a taxa de homicídio em Juárez foi de 191 por cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Em segundo lugar, vem San Pedro Sula, nas Honduras, com 119 (Bagdad, com 20, nem aparece no ranking).

Mas Molly Molloy, uma bibliotecária da Universidade do Novo México que há anos reúne os dados de Juárez (http://groups.google.com/group/frontera-list), tem contas ainda mais negras. Como centenas de milhares de pessoas deixaram a cidade por causa da violência, a última estimativa de população desceu para 1,1 milhões. A partir desse número, "é possível dizer que a taxa de homicídio é agora de 249", diz Molly por email. "E se projectarmos um total de homicídios mais alto para 2010, poderá chegar a 265."

Mais um pequeno esforço dos "sicários", e a inflação de mortos rondará mil por cento.

Quem são os "sicários"? Os que matam a mando. Cada cartel tem o seu exército. Supostamente o que aconteceu nesta cidade foi que em 2008 o cartel que sempre dominou aqui - Cartel de Juárez - passou a ser desafiado in loco pelo Cartel de Sinaloa. Daí o número de mortos ter disparado.

Esta é a versão oficial, repetida pela justiça, pela polícia e pelos políticos: dois cartéis em guerra, e as autoridades a porem ordem.

Depois há a versão não-oficial, de toda a gente (que as autoridades entrevistadas pela Pública também não contestam): o narcotráfico está dentro das autoridades.

E entretanto, o que qualquer pessoa em Juárez parece saber é que a qualquer momento pode ser morta.

Balanço dos quatro dias que a Pública passou na cidade:

A 29 de Junho foram mortas cinco pessoas, incluindo um polícia.

A 30 de Junho foram mortas 17 pessoas, incluindo adolescentes que reparavam telemóveis, carpinteiros no trabalho e a subprocuradora. A cabeça de um dos mortos foi deixada à porta de um político local.A 1 de Julho foram mortas sete pessoas, incluindo uma menor, todas na rua ou em locais públicos.

A 2 de Julho foram mortas cinco pessoas, incluindo um homem desmembrado e pendurado numa árvore.

Muito trabalho para a morgue, onde a ciência forense, portanto, avança. "Temos quatro refrigeradores com capacidade para 40 corpos bem acomodados", descreve a doutora Alma Rosa. "Fazemos três turnos diários, incluindo fins-de-semana. Já chegámos a 30 autópsias por dia."

E, como veremos adiante, esta morgue está na vanguarda mundial quanto a re-hidratação de cadáveres mumificados. Estamos no deserto, e o deserto tem esse efeito sobre os cadáveres.

Mas voa-se para Juárez como se fosse uma cidade normal.

2. "Check in" no deserto

Cidade do México. Sala de espera do voo AM258. Um expresso custa dois euros, há joalharias e lojas Lacoste. Mexicanos vêem o correio nos blackberrys ou atendem com aquela gentileza protocolar: "Sim, sou eu, para o servir." E a duas horas e meia de voo, a morte sai à rua.

Em 2007, o grupo do Financial Times escolheu Juárez como "Cidade norte-americana do futuro". Ainda hoje alguém deve estar a pensar como se enganou tanto. Se tivesse lido, por exemplo, Juárez: The Laboratory of Our Future, de Charles Bowden, estaria a par de um futuro, sim, mas negro. Bowden, que passa longas temporadas em Juárez e escreve com a exactidão de um poeta, vê a cidade como cobaia do capitalismo global, a antecâmara de um mundo de desempregados e quase-escravos.

Agora, publicou Murder City - Ciudad Juárez and the Global Economy New Killing Fields, narrativa devastada. E podemos embarcar a ler, por exemplo, a história da rapariga a quem ele chama Miss Sinaloa, que acabou entre Los Locos, aqueles que perderam a razão nas ruas de Juárez, anjos vindos do Sul do México, soprados pelo american dream, violados em série ou castanhos da heroína.

Avança uma hospedeira: "Passageiros do voo AM258 para Ciudad Juárez, embarque na porta 64."

Mulheres sozinhas com madeixas louras, mãe, pai e filho com um blusão luxuriante, filhos cheios de jogos electrónicos e mãe com unhas de gel e saco Hugo Boss. Mas isto não quer dizer nada, a não ser dinheiro novo.

Deserto, deserto, deserto. Depois fábricas. Aterramos sob um céu de cinema, grandes nuvens brancas a rebolarem num fundo azul. À saída, pick ups da Polícia Federal, armas apontadas. Há 4500 federais assim, a patrulhar a cidade.

Em 2006, quando o actual Presidente Felipe Calderón ganhou as eleições depois de uma controversa contagem, parte do país viu-o como usurpador. A primeira decisão de Calderón foi declarar guerra ao narcotráfico, e a convicção geral é de que o fez para se legitimar. Vinte e cinco mil mortos depois, a sua popularidade não está propriamente melhor.

Guerra, aqui, não é em sentido figurado. As Forças Armadas foram enviadas com tanques para as frentes do narco. E até hoje, o viajante poderá ver blindados e check points por todo o México.

Em Juárez, onde o Exército chegou em 2008, a Comissão de Direitos Humanos recebeu centenas de queixas de abusos, e o Presidente acabou por retirar os militares do centro. Nova estratégia, desde 9 de Abril deste ano: o Exército à volta e os federais dentro.

"Mas muitos polícias são ex-soldados", faz notar Julián.

Julián Cardona, 49 anos de idade e quase 49 anos de Juárez. Para a Agência Reuters escreve, para os outros fotografa. São dele as fotografias dos livros de Bowden, percorrendo as histórias da fronteira - esta que agora vemos da sua pick up, uma cerca à beira da estrada, com as carrinhas da Border Patrol do lado de lá.

O lado de lá é El Paso, Texas.

"Não consegues vê-lo porque está quase seco", diz Julián, "mas entre nós e eles está o Rio Bravo." Para os americanos, Rio Grande.Um minuto de História sobre a fronteira. No século XVI, depois de vencer os aztecas, a conquista espanhola seguiu para norte. Ao sítio onde se passava este rio chamou El Paso. Aí fundou, em meados do século XVII, uma missão, e nas duas margens cresceram as casas de El Paso e El Paso del Norte. Décadas depois, o México tornou-se independente, mas perdeu para os EUA boa parte do território. Então a fronteira ficou a ser o rio, e El Paso del Norte mudou de nome para Ciudad Juárez.

Estamos a chegar ao centro.

Vias rápidas entre postes altos com anúncios, porque toda a cidade é horizontal, feita para andar de carro e avistar as coisas ao longe. Não há passeios, há bermas, com acessos a parques de estacionamento, bombas de gasolina, "drive ins". Não há passadeiras, há pontes aéreas, com campanha eleitoral e anúncios como "Em Juárez os sorrisos vencem fronteiras. Hoje sorri". Vermelho Coca-Cola. Dourado McDonald"s. Verde Starbucks. E, para não esquecermos onde estamos, um painel contra o céu: "Pena de morte para assassinos e sequestradores."

Ao fundo, o recorte das montanhas. Bairros de cimento interminavelmente iguais. Baldios com lixo e um aquaparque abandonado. Água nas esquinas porque choveu, e drenagem, nada. Aqueles autocarros de escola americana, comprados em segunda-mão para o transporte público. Um pequeno graffito: "Resiste."

Sempre que aparece uma fábrica é uma maquiladora (ou maquila, para abreviar): fábricas, sobretudo americanas, mas também europeias ou japonesas onde, por custos muito baixos, operários mexicanos montam peças que vêm de fora.

"Antes, a cidade vivia do turismo negro", diz Julián. "Bares, prostitutas, artesanato. Depois, nos anos 60, aceitou um novo modelo, com as maquilas. Salários de 50 pesos por dia [três euros]. Claro que décadas de salários tão baixos geraram uma decomposição."

Ele mesmo experimentou a maquila, há 30 anos. Foi supervisor e saiu depressa: "Não ia passar a vida a foder a minha gente."

3. Uma bala no bolso

Em qualquer sítio no México, se olharmos em volta, algo pertence a Carlos Slim, o homem mais rico do mundo. Por exemplo, a rede de telemóveis. Por exemplo, este Sanborns na avenida principal de Juárez. É uma cadeia nacional, espécie de restaurante-e-fnac, mas com ar condicionado no máximo e chiles dentro da sopa. E, como em qualquer sítio no México, dão-nos música tão alta que não se ouviria um tiro.

"Já não se aguenta o argumento de que isto é como qualquer cidade violenta. Porque não há nenhuma cidade mais violenta que esta. Mas as pessoas têm medo de falar, porque têm medo de que as matem." Julián fala a olhar nos olhos. E de quando em quando olha a porta, as janelas, em volta.

Ao fim de umas horas, o visitante começa a aperceber-se de que é assim que as pessoas de Juárez falam. E parecem ter sempre gotas na testa, ou por cima do lábio.

Julián propõe beber café no Starbucks, não só porque o café é melhor, mas porque "ontem houve uma execução no estacionamento".

Um dos lavadores de carros, Jorge, 19 anos, cabeça rapada, brinco, não viu nada. "Não estava cá, mas encontrei uma bala de 9 mm." Qualquer miúdo em Juárez sabe distinguir balas.

O único lavador que viu algo é um tipo de meia-idade e boné, que não quer dizer nem o nome próprio: "E se os federais vierem falar comigo, não vi nada." E o que viu, afinal? "Vieram executar um. Era uma carrinha com dois homens, eram umas sete da tarde. Estavam cá fora à espera, e ele estava lá dentro às compras. Quando olhei, já estava no chão. Saíram logo, e a polícia apareceu um minuto depois." Se a polícia aparece "um minuto depois", as pessoas tendem a suspeitar que já estava lá, e não fez nada. Ou seja, que foi cúmplice.

"As pessoas já estão tão acostumadas que foi como se nada se tivesse passado", remata o homem, que veio do Sul há muito. "Trabalhei seis anos nos campos da Califórnia sem papéis, até me deportarem. Então, há 15 anos, vim para Juárez, quando era outra Juárez." A limpar carros faz "uns 200 pesos por dia [12 euros]". Quatro vezes mais do que um operário.À saída e em cada curva somos seguidos pelos cartazes da campanha, cheios de dentes falsos. O que levará, por exemplo, este Hector Murguía a candidatar-se à presidência da câmara de Juárez? É que amanhã vai aparecer à sua porta uma cabeça acabada de cortar. São coisas que acontecem em Juárez.

"Murguía é uma espécie de Berlusconi local, parece que vai ganhar", resume Julián. "Dizem que está vinculado ao narco."

De toda a gente com poder, ou aspirante, se diz isso, aqui. Por exemplo, sobre o presidente Calderón e o seu Partido de Acção Nacional (PAN, direita liberal) diz-se que apoiam o Cartel de Sinaloa contra o Cartel de Juárez, e daí a explosão de violência: o actual regime estaria a ajudar um cartel a vencer outro.

O que leva as pessoas a ligar o actual regime ao Cartel de Sinaloa? Antes de mais, o facto de o líder desse cartel, "El Chapo" Guzmán, ter escapado há anos de uma prisão de alta segurança. Sim, os guardas foram subornados, mas as pessoas acham que o regime sabia. El Chapo vale mil milhões. Está na lista da Forbes.

Julián tem uma perspectiva mais radical: "Calderón é uma figura decorativa. Não creio que eles apoiem um cartel. Eu creio que eles são o cartel. O narco é um tipo de economia."

Quatro faixas de carros numa direcção. As distâncias são enormes. De repente, terras de ninguém. Saímos da cidade? "Não, a cidade é isto", diz Julián. "Cresceu de forma desordenada, de acordo com os interesses de quatro ou cinco famílias, sem parques, sem infantários, sem escolas secundárias."

Há cem anos, Pancho Villa chegou com um punhado de homens e 500 balas. Os habitantes de El Paso alugaram sótãos para o espectáculo da revolução mexicana, do outro lado do rio. E os livros de História dizem que a revolução triunfou. Este ano é mesmo de celebrações nacionais, embora em Juárez, assim de repente, não se dê por isso.

Por exemplo, Pancho Villa: uma estátua no meio do trânsito, num separador, e sem placa. "Os drogadictos arrancam-nas todas", explica Julián.

4. O centro dos desaparecidos

Há um lugar onde Juárez quase parece uma cidade, e esse lugar é o centro. As ruas estreitam. Bicicletas, bancas de refrescos, lojas com letreiros dos anos 50. Um velho cinema, uma igreja com torres, uma praça com árvores e pessoas sentadas.

Mas, de perto, nada é o que parece.

Porque as pessoas estão sentadas num banco com tinta descascada e cantos partidos; o cinema está abandonado e do outro lado da rua há um outro cinema abandonado; as mulheres estão de minissaia, chinelos de salto e boca franzida num desdém; a comida é de plástico, de garrafa, de pacote, e isso vê-se nos corpos e pelo chão; um mendigo olha o grandioso céu do deserto, como se neste momento não estivesse a ser baleado mais um homem; e no subterrâneo onde deixamos o carro para que não seja roubado há uma placa a dizer: "Rezemos por Juárez."

Pendurada na grade da igreja, uma adolescente domina a praça, vestida de azul-celeste, coroa de princesa, covinhas. "Por favor, ajude-nos a encontrá-la e a rezar para que nada de grave lhe aconteça", diz a primeira frase do cartaz. Depois o nome, em letras gigantes: Yanira Frayre Jaquez. As características, a roupa, o lugar onde foi vista a última vez, os telefones de contacto. Não há idade, mas ninguém lhe daria mais de 15, e deve ter desaparecido há pouco porque o cartaz está novo.

Se olharmos em volta, veremos outras adolescentes mais desbotadas, com as características igualmente escancaradas na parede ou em postes. E por cada uma, outras que ninguém verá porque a família teve medo de fazer queixa. Quando não há queixa nem corpo, será como se nada tivesse acontecido. Há-de sobrar a placa no jardim que diz: "A uma mulher não se toca nem com uma pétala de rosa."Então, este é o centro de Juárez, uma boca que nos engole. De repente, podemos nunca ter existido. E cheira a hambúrgueres Wendy"s, e a marijuana.

"Aqui, por toda a parte se vende droga", diz Julián, subindo as escadas da igreja. No adro, uma estátua do frade fundador que parece viva, e lá dentro homens que parecem atordoados, sentados ao lado de sacos. Música a bombar de um carro, e é como se ninguém a ouvisse. Mas nem só os pobres entram na igreja. "Os narcos são católicos."

Julián volta costas para identificar os cinemas da sua infância, o Reforma, o Plaza, o Éden. Depois, continuamos para poente, até ao largo do Palácio Municipal, onde estão duas carrinhas com federais em agitação. A guarda do palácio explica que "balearam um polícia perto da ponte", ou seja na fronteira.

Ao lado há uma mini-livraria, a única que veremos em Juárez. O Que os Mortos Sabem e A Bíblia do Diabo estão em destaque, mas somos os únicos clientes.

Ruas com velhas lojas de bonecos coloridos, a Dulceria El Alamo com um leão e um cavalo para montar cá fora, bancas com chiles de todos os tamanhos e copos de cajeta, um doce de leite condensado. Mas sobretudo o comércio barato que tomou o lugar de quem morreu ou desistiu: lojas chinesas, quadros com A Morte vestida de dólares, esculturas da Virgem de Guadalupe com o seu manto de sol, crucifixos com flores e laços para funerais, revistas com raparigas de tanga, pernas-e-rabo de plástico com calças a seis euros.

"Não tires fotografias", avisa Julián. "Toda esta rua é de venda intensa." Passadores e picaderos.

E de caminho, mais postes com desaparecidas. Atrás, uma loja de chapéus. Ao lado, a reparação de calçado El Relampago.

Roberto, o sapateiro, 65 anos, está lá dentro, com cabedais no colo. "Mudou muito, o centro, há menos trabalho. Muitas lojas fecharam porque as pessoas têm medo. Antes era tranquilo, podia andar-se às onze da noite, e agora já nem de dia." Porquê? "Andam aí os rapazes a pedir dinheiro para nos deixarem trabalhar." Quais rapazes? "Os "aztecas"."

Em Ciudad Juárez há mais de 800 gangues, mas o Barrio Azteca é o mais poderoso. Trabalha para o Cartel de Juárez e tem os seus subcontratados. Crianças de sete anos recebem à semana como "falcões", para vigiar. Os liceus estão cheios de adolescentes que não querem a pobreza da maquila. Querem sucesso, e sucesso é o narco, com os seus gangues tatuados.

"Eu não pago aos "aztecas"", diz o sapateiro Roberto. Até agora não pagou. E um dia destes vai-se embora.

Mais adiante fica a Rua Noite Triste. E de volta pela igreja chegamos à esquina da Avenida Juárez, que vai até à fronteira.

"Era a avenida dos turistas", lembra Julián. "Os gringos vinham aqui comprar o seu sombrero grandote. Várias fábricas de whisky vieram produzir para cá." Do lado de lá era a Lei Seca, e antes, durante e depois todo o tipo de sede desaguava em Juárez: álcool, jogo, droga, sexo. Criaram-se mitos: aqui se inventou a Marguerita e se divorciaram Marilyn e Miller. Juárez era o consolo dos soldados americanos do Forte Bliss e do puritanismo de El Paso. El Paso mantinha-se limpa e Juárez sujava as mãos.

Hoje, El Paso - ou seja, aqueles arranha-céus ali - é a segunda cidade mais segura dos EUA. A violência do narco no México não prejudica os EUA, pelo contrário, dá-lhe capital e mão-de-obra. Os juarenses que podem têm casa em El Paso e filhos em escolas de El Paso. São cinco minutos, uma ponte a pé sobre o rio, até estarmos frente ao recorte espelhado da baixa texana.

"Ordem", diz Julián, braço a apontar para os EUA. "Caos", o outro braço na direcção do México.Juárez flutua no horizonte, como a cidade dos condenados. Ao lado, a montanha ocre onde alguém escreveu em letras gigantes: "A Bíblia é a verdade: lê-a."

O vento sopra, o sol põe-se. Regressamos pela paralela à Juárez que é a Mariscal. Era uma espécie de "quarto escuro": "Aqui estavam os bares de malamuerte, prostíbulos, striptease, topless." Agora há quarteirões com uma só fachada de pé a dizer "Bar La Princesita" e um cipreste. Portas de ferro corridas até ao chão e a foto de uma stripper num poste. Ruínas com lixo, entulho e uma mulher de alças e calções a desaparecer atrás de um barraco que diz "Salão de Baile O Morro, quartas-feiras de tanga, sexy". Está descalça, e as plantas dos pés parecem sola castanha.

5. Vida operária

O primeiro encontro com Irma Guadalupe é breve. "Roubaram-me o telemóvel na missa e ainda quero apanhar a loja aberta", diz ela, oferecendo água fresca. É directora da Casa Amiga, um centro pioneiro para as mulheres de Juárez. Há mulheres que escaparam de morrer e só falam com ela. Não pode ficar incontactável.

Muito antes de as mortes explodirem, Juárez foi notícia pela morte de dezenas de mulheres que todos os anos apareciam violadas e torturadas, muitas no deserto. Roberto Bolaño ficou tão obcecado que lhes dedicou 350 páginas do seu 2666, e houve filmes, livros e canções sobre os "feminicídios".

Brutais, inquietantes e não-investigadas, as mortes destas mulheres representam uma percentagem relativamente pequena do total de homicídios. Já chegaram a 16 por cento, em 2009 ficaram pelos seis. O que não significa que as mulheres não sejam dos alvos mais vulneráveis. Além das mortes, há sequestros, violações e violência doméstica.

A história de Eva tem tudo isso. Ela só não morreu.

E quando Irma lhe telefona a perguntar se recebe a Pública para falar da sua vida na maquila, Eva aceita.

Bairro Los Alcaldes, terra batida, casas pobres, cimento à vista. E todas têm grades, cercas de ferro e cães a ladrar, porque os gangues de Juárez não roubam aos ricos para dar aos pobres, mais ao contrário.

O cão de Eva chama-se Jason. "O anterior chamava-se Killer, mas roubaram-mo", diz ela, abraçando-o como se fosse um gatinho e não um pitt bull. Aos 42 anos, é uma mulher obesa e risonha, vestida com uma T-shirt cor de laranja. Quando deixa de sorrir, parece exausta.

Estamos num pátio inacabado, com tijolos no chão e roupa a secar. "Tínhamos outra casa com mais quartos, mas por causa da violência viemos para aqui todos juntos, os meus filhos e a minha companheira." No caso dela, a violência é uma história de infância, mas disso não falará. "Irma não vos contou? É melhor ser ela. Prefiro não falar disso à frente da minha família."

Então entramos no único quarto que é a casa. Em frente, a mesa. À esquerda, frigorífico, lava-loiças portátil, uma frigideira ao lume. À direita, uma estante com a televisão, um filho sentado numa cama a olhar para o ecrã, a companheira deitada noutra cama a olhar para o ecrã, a cama do outro filho vazia, dois cães e um elefante de peluche ao pé da janela.

O tecto é de madeira e há frestas. O que acontece quando chove? "Pois, entra água", sorri Eva. A porta está aberta, mas é como se o ar tivesse parado acima dos 40 graus.

Sentamo-nos à mesa.

A maquila onde ela trabalha é a Cisco Systems, sede na Califórnia. Eva nunca viu os patrões e eles nunca a viram a ela. "Só conheço os supervisores, que são mexicanos." Cinco mil trabalhadores em cada turno, três turnos por dia. "Eu monto o que está dentro das televisões Sony. Pagam-me 600 pesos por semana [36 euros]." Esse trabalho implica soldar, o que a expõe a envenenamento por chumbo. Que acontece quando fica doente? "Dão-me um dia. Férias, temos 23 dias, mas roubam-nos sempre alguns, não sei como."

A fábrica assegura o transporte dos operários, como acontece em geral na maquila, porque cada minuto conta. E dá-lhes duas refeições por dia. "Mas às vezes a comida está feia, e não a comemos para não ficar mal do estômago", diz Eva, delicadamente. Alimentação, transporte, atendimento médico, bairros de má construção a preços baixos, "um modelo muito sofisticado em que tudo se vende como um benefício", resumirá à Pública o antropólogo Carlos González Herrera, director do mais importante centro de investigadores em Juárez. "A exploração terrível da maquila castrou as pessoas como cidadãs e divorciou-as dos serviços públicos."

Eva acha que a vantagem da maquila sobre outros trabalhos, como limpar um centro comercial, é "ter os fins-de-semana livres", e sente-se com sorte por ter um contrato quando a recente crise nos EUA levou tantas maquilas a despedirem.

Seja como for, se quisesse direitos, não ia longe. "As maquilas não permitem sindicatos. O mundo da maquila é diferente dos outros trabalhos."

E está cheio de droga. "Vende-se tudo lá dentro, sobretudo cocaína e pastilhas. Os guardas estão de acordo, sabem quem é. Um globo [de heroína] que dá para várias vezes custa 100 pesos [seis euros]. Um papel de cocaína são 60 pesos [3,6 euros]. A maioria dos trabalhadores e dos guardas estão viciados. De outra forma, como é que os guardas aguentariam dois turnos? Dentro e fora da maquila, por toda a parte, há droga, e é isso que causa a violência. Em Juárez tenho medo de ir às lojas, medo de ir para o trabalho. Entramos com medo, saímos com medo, mas temos de ir trabalhar. Há três meses mataram uma pessoa ali na esquina e aqui atrás mataram um rapaz."

Quem matou? Ela sorri. "Pois, tapam a cara, matam e vão-se." Nunca ninguém sabe.

Houve um tempo em que Eva se sentiu "livre": a mãe dela trabalhava numa padaria do Novo México e tinha papéis. Isso durou dez anos, e foi há muito tempo. De vez em quando Eva pensa nisso, nos Estados Unidos. "Mas agora estou a tomar remédios, e tenho a terapia com Irma." Além disso, a mãe morreu e ela herdou uma casa, vendeu-a e comprou esta. Aqui não paga renda.

À saída, o pitt bullJason encosta-se e recebe festas. Rua deserta, só grades. "Está muito feio", remata. "Põem-te uma pistola na cabeça..."

6. Os pecados de Eva

"Dentro da maquila há droga, prostituição, armas", diz Julián ao volante da sua pick up. "Tudo isto é o free trade. Temos de ter o free trade porque "é bom para os nossos povos"."

Oficialmente, chama-se NAFTA, acordo norte-americano de livre comércio assinado em 1994. As maquilas já tinham muitos incentivos, e a partir daí mais. E quem eram tradicionalmente os operários da maquila? Mulheres como Eva.

Por isso muitas mulheres, as mais desamparadas do México, vieram sozinhas para Juárez, sem rede, sem raízes. E para outras, já nascidas na cidade, o inferno foi a família. Decomposição: a palavra omnipresente em Juárez. Maus salários, lei do mais forte, ausência do Estado, álcool, droga.

"Os homens em Juárez são impotentes socialmente. Não podem aceder a uma carreira, e ainda por cima bebem ou drogam-se, mas mantêm o vigor sexual", diz Julián. Usam-no como poder.

Casa Amiga. Irma já tem um telemóvel novo. Oferece água fresca e conta a outra história de Eva. "Em 2008, quando ela estava à espera do transporte da maquila às 5h30 da manhã, chegou uma carrinha, saíram dois rapazes e obrigaram-na a subir. Vendaram-na, disseram que a iam matar, e durante três horas violaram-na os três, com um sempre a conduzir. Ela acha que teriam entre 20 e 25 anos e nunca os vira. No fim, deixaram-na nua na rua, e ela pediu ajuda a uma senhora que deu parte à polícia. Confirmaram a violação num primeiro exame, mas depois ela não quis repetir. Começou a ter ataques de pânico, gritava, saía a correr, achava que as portas lhe iam cair em cima, que os carros a iam atropelar. Até há pouco tempo não conseguia ter relações sexuais."Uma espécie de colapso com origens antigas.

"Durante 15 anos, Eva foi violada pelo pai, que também violava uma outra irmã. Era pastor evangélico, reconhecido socialmente. Ela nunca o denunciou. A irmã é uma heroinómana, conheço-a há muito, andava no meu bairro." E a mãe? "Falava sozinha, escutava vozes. Agora o pai tem quase 80 anos e está no estado de Durango, com os sobrinhos, que estão ligados ao narco. Foi ele quem matou o pai do primeiro filho de Eva. Dizia-lhe que se ela não fosse dele não seria de ninguém. Esteve dez anos preso por esse homicídio, e depois deixou a religião."

Quando o outro filho de Eva nasceu, ela já não queria ver homens. "Ficou com aversão. Mas, por ter um filho único, decidiu dar-lhe um irmão. Então propôs a um companheiro da maquila, que já tinha 15 filhos, e numa só relação ficou grávida. Depois nunca mais teve homens. Foi alcoólica, mas nunca tomou drogas. Crê em Deus, é muito crente. Pedia a Deus: "Manda-me alguém." E chegou-lhe esta Ana, que já tinha dormido com várias mulheres. É de uma aldeia de Veracruz que acredita em bruxaria. A mãe diz que ela sempre teve comportamento de homem, e que foi por feitiço. O pai e os irmãos têm problemas com álcool." Quando Eva e Ana se juntaram, as irmãs de Eva deixaram de lhe falar. "A irmã drogada queria matar Ana. Mas os filhos aceitaram-na totalmente. Eva acha que é um pecado muito grande, mas que paga por ele."

O primeiro mundo está cheio de pessoas que têm aborrecimentos. E este mundo está cheio de pessoas que estão vivas não se sabe como, e ainda acham que têm de pagar.

Foi para algumas delas - mulheres em risco - que Esther Chávez Cano fundou a Casa Amiga nos anos 90. As pessoas de Juárez não acreditam nas autoridades, mas acreditam em gente como Esther Chávez Cano. Depois da sua morte (por cancro), a psicóloga Irma levou a Casa em frente. Tem 33 anos, um filho de dez, e recebe ameaças.

Vai buscar as chaves para mostrar o abrigo onde ficam mulheres perseguidas, por vezes com os filhos. Tem de ser secreto, porque os abrigos são atacados por gangues. Para além disso, parceiros de mulheres maltratadas aparecem na Casa Amiga à procura delas. Irma diz sempre que não sabe onde estão. "Um disse-me: "A sua vida vai tornar-se num inferno, investiguei tudo sobre si, já sei que vive no centro." Nesse dia, eu nem queria sair do escritório."

Saiu e no dia seguinte, claro, voltou a entrar.

7. O cavalo apanhou Jesus

Outro alvo dos narcos têm sido os centros para toxicodependentes, um fenómeno recente em Juárez, como vai explicar José Rojas, num gabinete cheio de esculturas de Dom Quixote. É um herói bastante adequado à situação, Quixote. O doutor Rojas, de facto, combate a realidade. E a realidade é cada vez maior.

Por exemplo, este Centro de Integração Juvenil não tinha grade e seguranças, agora tem.

"Estamos no corredor central do tráfico para os EUA. E ao fim de anos de alto tráfico, Juárez tornou-se também numa cidade de alto consumo, a primeira no México: marijuana, depois cocaína, heroína, anfetaminas e inalantes como gasolina e cola. Recebíamos 20 pedidos de ajuda por mês, passámos para 50, 60. O tráfico entrou por toda a cidade, e pela maquila."Ponto de viragem, 11 de Setembro. "Quando derrubaram as Torres, a fronteira foi fechada, ficou mais droga na cidade e havia que utilizá-la. Então começaram a utilizar jovens para passar droga aos poucos, e pagavam-lhes com droga. Hoje, qualquer miúdo com 30 pesos [dois euros] tem acesso a uma substância."

Perfil do consumo: a maioria tem entre 25 e 60, por cada dez homens há quatro mulheres.

"E a tendência é para aumentar o consumo feminino. Quanto a álcool, já é superior ao dos homens. E nas drogas de uso médico, também." Porquê? É neste ponto que Rojas, também ele, fala na "decomposição social" da maquila, que atraiu muitas mulheres sem que se fizessem, por exemplo, creches. "Os filhos ficaram ao cuidado da TV, ou da avó, ou do pai irresponsável. Há muitas mulheres sozinhas e famílias desintegradas."

Só à volta deste centro, numa parte pobre de Juárez, funcionam "mais de 150 picaderos". Os pacientes são "pressionados" sempre que cá vêm. E o doutor Rojas, tranquilo?

"Tenho o medo normal. Cerca de 90 por cento dos meus pacientes têm antecedentes criminais, e quando se vêem bem atendidos, sem estigmatização, mudam. Isso faz com que nos protejam, nos alertem para os perigos."

Mas há ataques de milícias. Há um ano houve um massacre de 17 pessoas num centro. Não são golpes individuais. "Estamos a investigar porquê. Há a versão de que esses ataques aconteceram porque havia gente lá que ainda tinha contas a ajustar."

Esta é a versão oficial para a morte em Juárez: os que morrem são do narco - o que permite às autoridades continuar a resumir tudo a uma guerra contra os narcos, e muita gente em Juárez continuar a pensar que nada lhe vai acontecer.

E entretanto morrem adolescentes, sapateiros e gente que ia a passar. E a cidade continua com mau planeamento, maus salários, sem parques, sem creches, sem secundárias. E os pobres continuam a sonhar com os EUA porque o seu país não aposta neles. E os ricos continuam a enriquecer, porque a droga continua a passar para os EUA.

O que o doutor Rojas pode fazer de melhor é continuar o seu trabalho, confiando em quem trata. Como pagam eles? "Muitos estão isentos, e muitos pagam quando já estão a trabalhar." Este centro faz parte de uma rede com apoios vários. "A nível nacional há um milhão de curados." E em Juárez? "A taxa de recuperação é mais baixa. No país é 53 por cento, em Juárez 26."

Na manhã seguinte, neste mesmo centro, conversamos com um deles. Um ou uma? Quando Jesus Hernandez abre a porta, não é claro: tem cara de homem sugado pela heroína e peito de mulher que deixou de pôr silicone. Um transexual na ressaca.

Aos 50 anos, sobram-lhe dois dentes em baixo e uma perna boa. A outra ficou torta num atropelamento. História breve: chegou a Juárez aos seis anos, fala da mãe e de oito irmãos, a mãe limpava casas, Jesus também limpou casas, fez a primária e pronto. "Não houve dinheiro para mais, comecei a trabalhar muito menino." Aos 17 estava num bar strip da Mariscal. "Vinham muitos turistas, americanos de cor, japoneses, alemães, chineses, as ruas estavam cheias de clubes. Pagavam-me para beber com os clientes e para dançar. Dormia de dia." E a heroína, o "cavalo"? "Só comecei há dez anos. Antes tomava pastilhas para cima e para baixo, umas 20 por dia." Chegou a gastar 500 pesos por dia [30 euros] em heroína. E a polícia? "A polícia sabe e pede dinheiro aos picaderos." Cada picadero tem os seus polícias. Agora gasta 40 euros por dia com os remédios. "Voltei a limpar casas." Apesar da perna três-vezes-operada.

E até ele, uma rapariga da Mariscal, não reconhece aquilo em que Juárez se tornou. "Quando vou pela rua à noite, tenho medo. A um conhecido, bateram-lhe, amarraram-no e mataram-no. A outro, La Rubi, mataram-no na Mariscal."Neste mesmo bairro, há um centro de atendimento psiquiátrico em que tudo é pobre, o tamanho das divisões, os acabamentos, o calor que faz e o gabinete do director, Victor Acosta, figura "hemingwayana". Formou-se na UNAM, a grande universidade da Cidade do México. E há 35 anos que segue o que vai pelas cabeças de Juárez.

"Os casos não mudaram muito. O que há é uma paranóia generalizada: "Estão a vigiar-me. Quem são aqueles ali estacionados? Aquele carro já me seguiu dois quarteirões." Só a presença da polícia ou dos soldados já nos põe em alerta. Não estamos em estado de sítio mas temos uma guerra declarada. Os rapazes já não podem andar seguros, os papás não estão tranquilos, as festas fazem-se em casa porque eles matam-te num bar."

E que dizem as pessoas sobre quem morre? "Que andam metidos no narco. Mas a quantos tocou que não deviam nada? E as extorsões, os sequestros, as ameaças? Acha que as autoridades vão fazer caso se telefonarem a dizer que me vão matar? É uma sociedade que quer estar bem, mas o medo impede que se organize. O medo cria medo. Pode ser até uma táctica, não sei de quem. Para criar medo de sair, de protestar."

8. Repórteres na fronteira

"Estamos a viver uma violência tão extrema que está em todos os lugares, na rua, na escola, no supermercado, e essa cartografia das execuções mostra como toda a cidade está infectada, e o facto de não se poder combater diz como as autoridades estão infectadas", resume o antropólogo Carlos Herrera. "É justa a percepção de que o narco infiltrou a polícia, o Exército, a política, mas o mais grave é que como sociedade estamos profundamente infiltrados."

Pouca gente fará ideia tão clara disso como os repórteres locais. Juárez desenvolveu uma especialidade de reportagem: execuções. Jornais, rádios, sites e televisões locais têm repórteres que só fazem isso, e por turnos.

Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, o "México é o país ocidental mais mortífero para os media e um dos mais perigosos do mundo". Desde 2000, foram mortos 67 jornalistas, e só este ano já morreram dez. "Os jornalistas no México vivem agora em constante medo de serem raptados, torturados e mortos. A violência é encorajada pelo facto de que aqueles que matam quase nunca são punidos." Se é assim no país em geral, mais ainda em Juárez.

Sigamos um veterano do vespertino PM.

Está sentado ao volante, a receber informações por telemóvel, chama-se Ernesto. A seu lado, um jovem de rabo-de-cavalo, com uma máquina fotográfica. Carro modesto e com muito andamento. Uma rapariga foi algemada pelos federais. Eles arrancam à procura da casa. A história vai dar em nada, depois de muitas ruas e telefonemas. O ar está eléctrico.

"Ontem prenderam o líder dos "aztecas"", diz Ernesto. E há dois dias os federais chatearam um repórter que fotografou aquele polícia baleado. "Disseram que o iam matar." Então Ernesto telefona-lhe, a perguntar se não quer vir ter connosco à loja de conveniência Del Rio.

"É um ritual", explica Julián Cadona. "Quando andas a cobrir as execuções, a meio do dia paras aqui, comes qualquer coisa."

Ao fundo da loja há comida feita e mesas de plástico. Os repórteres sentam-se a comer burritos e frango.

"A gente da cidade habituou-se a ligar, quando acontece algo", diz Ernesto. "Outra fonte boa são as funerárias." E a polícia? "Também, mas os federais são de fora da cidade, não temos relação com eles." Não acompanham patrulhas, como fazem os jornalistas estrangeiros que vêm a Juárez. Por quem se sentem protegidos? Ernesto sorri, aponta para o céu. "Estamos sozinhos, metidos numa guerra e somos os mais próximos. Recebemos avisos. Já me avisaram de arma na mão. Há dias em que me sinto aterrorizado. A um companheiro que fazia o turno da madrugada, puseram-lhe uma arma na cabeça para que ele não publicasse as fotos de um "sicário"." E o que é que ele fez? "Não publicou. Mas normalmente publicamos."Numa cidade assim, o jornalismo torna-se colectivo. "Agora chegamos todos juntos ao local de uma execução. Somos uns 20 a 25 repórteres sempre em contacto. Já não há exclusivos." E o narco joga com os media. "Aproveitam o horário das notícias. Utilizam-nas para comunicar baixas ao inimigo."

Chega o repórter Ricardo, do El Diário. "Não fiz denúncia dos federais. Estava um deles morto no chão e sentiam-se impotentes. Posso compreender." E a relação com eles, em geral? "É tensa." Mas pior é o medo, em geral. "Porque não sabemos quem são os maus, realmente. Não sei quem vai estar por trás daquela pessoa, se um malandro ou um narco. E a forma de matar é cada vez mais sanguinária. Partem os corpos, cortam-nos, exibem-nos, fazem-lhes desenhos, metem-se com as famílias."

Impunidade, outra palavra para Juárez.

9.Os agentes da lei

"Ainda agora detivemos El Camello, um dos principais líderes dos "aztecas"", diz o cordial porta-voz da Polícia Federal, José Salinas Frías, sentado na sede de Juárez. "Mas se neste momento houver três homicídios, as pessoas dirão: "De que serve, se as execuções continuam?" Posso dizer que, desde 9 Abril, detivemos três grupos de sequestradores, com mais de 30 detidos e 20 sequestrados libertados."

O problema é que entretanto centenas de pessoas foram mortas e milhares de homicídios para trás continuam sem responsáveis. E parte dessa impunidade é atribuída à ligação entre o narco e a polícia.

"É uma questão de dinheiro, há muitos interesses, e procuram comprar autoridades locais, municipais", reconhece este porta-voz. "E é por isso que atacam a Polícia Federal, encontraram resistência em nós." Está a dizer que não há federais envolvidos? "Há federais que definitivamente se esquecem de que vêm servir e se servem a eles. Até agora temos 19 federais julgados e presos por se desviarem das suas responsabilidades. Temos de dar esse exemplo."

Os polícias locais ganham mal, e é assim que o narco os apanha. A regra dos federais é rodarem de três em três meses e terem salários mais altos: "Somando tudo, 18 mil pesos [um pouco acima de mil euros], mais refeições e estadia todas pagas." Muito acima da média no México.

Ao contrário do Exército, que misteriosamente parece imune, os federais têm sido de facto alvejados. E no começo de Julho, quando já estivermos noutra parte do México, serão atacados com um carro-bomba. Vários observadores alertam para o que parece uma nova etapa da violência: narcoterrorismo. Mas os políticos rejeitam a ideia.

Outro alvo frequente: a Procuradoria. Há quase seis anos que a mais alta autoridade judicial do Estado, a procuradora Patrícia Gonzalez, aqui está baseada. "Houve um grande abandono de todos os governos nesta parte da fronteira", começa por dizer. É uma mulher acima dos 50, coquete e nervosa. Quando perguntamos quantos anos tem, sorri: "Muitos." Chega de casaquinho e mala de folhos, perfeitamente maquilhada. Não traz guarda-costas. E na sala, durante a entrevista, fica só o assessor de imprensa.

"Claro que há impunidade. Cometeram-se milhares de homicídios. Mas neste momento temos já 1500 casos em Juárez esclarecidos nos últimos dois anos." Houve um reforço de 50 por cento de investigadores, anuncia."Sim, o narcotráfico está dentro de grande parte do sistema social. Houve uma penetração muito forte de décadas. E obviamente há infiltração nas polícias, nos organismos que têm a ver com segurança. E na sociedade. Há uma grande dissimulação social quanto ao narco." Mas a mudança de sistema de justiça, crê a senhora González, vai combater isto. É o seu grande orgulho, a passagem para um sistema acusatório neste estado: cabe à acusação provar a culpabilidade, deixa de haver espaço para extrair confissões.

Entretanto, vários funcionários seus foram mortos. Não tem medo? "Nenhum, sou uma profissional." E volta à revolução que levou a cabo, com os modernos laboratórios forenses.

10. Os mortos vivos

Então daí a meia hora, estamos noutra ponta da cidade, na sala onde se guardam as balas apanhadas desde 2008, na sala onde se comparam disparos, na sala da supermáquina doada pelos EUA que faz um mapa genético de cada bala. Daí seguimos para a morgue, onde a doutora Alma Rosa tomará conta de nós. E, finalmente, o orgulho do orgulho do novo sistema judicial de Juárez, Alejandro Hernández Cardenas, 53 anos.

É um pequeno homem moreno, de bata branca, óculos, gravata e bigode, saído dum filme de Woody Allen dos anos 70. Um homem - vê-se - que vive para a ciência. Filho da cidade, odontologista, mestre forense.

Os seus domínios começam ao lado das autópsias. Na porta está escrito: "Área de Re-hidratação de Tecidos." Entramos e ele abre as luzes. Tudo reluz de limpeza. Prateleiras com uma espécie de tupperwares de vários tamanhos. "Estes são para dedos, estes para mãos, estes para cabeças e estes para braços", explica. "Comecei com dedos, para recuperar a impressão digital, e depois continuei."

Recua para apontar o recipiente de acrílico ao centro, grande como um caixão. "Julgamos que este é o primeiro laboratório no mundo para a re-hidratação de tecidos, e já podemos reconstruir um corpo completo." Morto há quanto? "O mais antigo que trabalhei tinha morrido há dez anos. Mas creio que vai funcionar em cadáveres de há 200 ou 300 anos."

Em suma, o que o doutor Cardenas inventou foi uma solução química para mergulhar tecidos mumificados. Ficam quase como quem acaba de morrer.

E aquele duche verde na parede? "As soluções são agressivas, e se me salpicar tenho de tomar um duche logo."

Agora vamos ver imagens. Todas as experiências, desde os primeiros dedos, foram filmadas, e a Procuradoria produziu um vídeo. "Nos cadáveres deixados no deserto, a pele fica a parecer cartão, não se conseguem ver as características da cara, a pele muda de cor", explica o doutor Cardenas enquanto põe o filme no computador.

"Você será testemunha de um mundo mágico...", anunciam as letras no ecrã. "De algo muito especial.... Um feito surpreendente..."

O surrealista Breton disse que o México era o país mais surrealista do mundo, e nem sequer foi a Juárez. Em Juárez pensamos nisso, e em Tarantino, mas um Tarantino que nunca existirá. Quando a arte tocar nesta realidade, a realidade já estará longe.

"Vê estes dedos?", pergunta o doutor Cardenas. "Comecei com eles há sete anos, os resultados são bons, mas não ideais." Vê-se um dedo encarquilhado e a seguir um pouco rejuvenescido. "Depois, os antropólogos do laboratório encontraram uma orelha numa exumação, e a orelha é uma parte muito característica, não há duas iguais." Vê-se a orelha re-hidratada, mais carnuda, com vestígios de brincos. "Depois, os antropólogos encontraram esta pele que estava há dois anos no deserto." Vê-se o que parece pergaminho. "Os ossos estavam dispersos e a pele ali ficou, talvez os animais a tenham arrancado. Re-hidratámo-la." Vê-se o que parece pele de porco com cortes. "Está a ver? A pele demonstra como a morte foi violenta. E que ela tinha sardas nas costas. E aqui o umbigo. E, como se fez uma identificação mais rápida, conseguiu deter-se o indivíduo. Fomos ver quem andava à procura de desaparecidas." Correu bem. Muita gente nem faz queixa.

"Então, depois de re-hidratar tudo isto, eu queria re-hidratar um corpo inteiro. Está a ver esta mulher?" Primeiro, vê-se uma autêntica múmia do Egipto. Depois, uma mexicana com lábios de contorno tatuado e sobrancelhas depiladas. "Era uma mulher que se cuidava." E ainda mostra órgãos re-hidratados: "Vê aqui o fígado? Se a pessoa morreu de cirrose, percebe-se ao re-hidratar. Isto é um pulmão, isto o baço, isto é sangue." Ver o que resta de um desaparecido é terrível, mas acaba com a dúvida. "A senhora procuradora disse-me para fazer o processo de patente." O doutor Cardenas acredita que a sua fórmula ajudará a dor de Juárez. Talvez mesmo a História. "Em Guanajuato há umas múmias, interessar-me-ia trabalhar lá. E do Egipto, bastava que me emprestassem um dedo do pé."

Isto é a realidade em Juárez, e de certa forma a sua própria ficção, para conseguir aguentar um dia após outro.

Regressamos com noite escura à Procuradoria, onde Julián deixou o carro. Passa das 21h. Pelas 22h30, um grupo de "sicários" intercepta o carro da subprocuradora Sandra Ivonne Salas. Mais de cem balas são disparadas. Morrem ela e um guarda-costas. São os 16.º e 17.º cadáveres do dia. a

Esta reportagem é o início de uma travessia pelo México, de norte a sul. Continua diariamente no P2. 
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