Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 27 de março de 2011

Zeca Afonso - Eu, o Povo


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De:  | Criado: 28 de Out de 2008
Eu, O Povo (letra de Barnabé João/ Música de José Afonso e Fausto) 
"Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel

O vento sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à produção
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na produção
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na produção

Eu, o Povo
Vou aprender a lutar ao lado da Natureza
Vou ser camarada de armas dos quatro elementos

A táctica colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza

Eu, o Povo Moçambicano
Vou conhecer as minhas grandes forças todas."

Vagalume.uol.com.br

Images: Galiza (GZ) e Portugal

sábado, 15 de janeiro de 2011

Malangatana : o pintor da identidade moçambicana

Ípsilon

Malangatana
Carlos Lopes
1936-2011

Malangatana : o pintor da identidade moçambicana

06.01.2011 - Sérgio C. Andrade


Era o nome mais reconhecido da arte africana lusófona. Autor de uma obra vasta e muito pessoal, Malangatana faz o cruzamento da cultura indígena com a cultura do colonizador, criando assim uma identidade cultural moçambicana. Tornou-se também numa espécie de senador do seu país. 
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Actualmente, podem ser vistas obras de Malangatana em duas exposições em Portugal. Uma com desenhos inéditos, intitulada "Novos Sonhos a Preto e Branco", na Casa da Cerca, em Almada, outra com obras da colecção de arte africana de Pancho Guedes no Mercado de Santa Clara, junto à Feira da Ladra, em Lisboa. Há murais em Maputo e na Beira (Moçambique), mas também em espaços públicos na África do Sul e na Suazilândia, na Suécia e na Colômbia. E a sua arte está representada em colecções de museus de Lisboa e de Luanda, Harare (Zimbabwe) e Nova Deli (Índia). Além de ter realizado exposições, individuais e colectivas, em grandes museus e galerias de todo o mundo.

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São algumas das marcas do reconhecimento internacional de Malangatana Valente Ngweny, o pintor moçambicano que morreu na madrugada de ontem, aos 74 anos, em Matosinhos, no Hospital de Pedro Hispano, onde tinha sido internado há alguns dias para tratamento de um cancro.
Pancho Guedes, arquitecto seu amigo e a quem Malangatana ficou a dever as condições para afirmar a sua vocação de artista na capital moçambicana no final da década de 50, foi dos primeiros a expressar o seu pesar pelo desaparecimento deste "artista único". "É uma notícia terrível. Eu sabia que estava doente, mas ele, que era um grande optimista, dizia sempre que estava tudo bem", disse ontem ao P2 Pancho Guedes, agora a viver entre Lisboa e Sintra, mas que realizou grande parte da sua obra em Moçambique nos anos 50 e 60.

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"Malangatana foi o primeiro artista [plástico] africano, negro, moderno no espaço da lusofonia", diz José António Fernandes Dias, director da plataforma cultural África.cont, comissário e especialista em arte africana. A pintura de Malangatana configura um certo arquétipo da arte do continente negro, com as cores quentes e uma presença ostensiva da figura humana a ocupar todo o espaço da tela.

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O crítico Rui Mário Gonçalves diz que a originalidade da pintura de Malangatana está na forma como ele casa a tradição da sua terra, com destaque para a figuração das lendas da etnia ronga, com o imaginário do expressionismo e do surrealismo bebidos na pintura europeia, e até na obra de Picasso, de quem era "um admirador fascinado". Nesse sentido, este crítico coloca a obra do artista moçambicano na mesma linha da do cubano Wilfredo Lam (1902-1982), que também bebeu a influência do autor de Guernica.

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Alda Costa, professora moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, lamenta o desaparecimento de Malangatana e recorda que ele acontece poucos dias após o do pintor Pais Shikani, falecido no último dia do ano passado naquela cidade, e também depois da morte, nos anos 90, do escultor Alberto Chissano. "É o fim de uma geração, de três artistas que trabalharam juntos nos anos 60", diz esta especialista em arte moçambicana, que, no entanto, ressalva ter sido Malangatana a conseguir o maior reconhecimento além-fronteiras. "É um artista sem escola, que fez o seu caminho de uma forma muito pessoal, mas dentro de um determinado contexto histórico", acrescenta.

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"Malangatana é muito importante, porque faz o cruzamento da cultura indígena com a cultura do colonizador. E consegue criar uma identidade cultural moçambicana", diz o crítico João Pinharanda. "É o mesmo que os escritores Craveirinha ou Mia Couto fazem com a língua portuguesa na sua obra, ou que Pancho Guedes faz com a arquitectura ocidental ao chegar a África", exemplifica.
Luísa Soares de Oliveira realça a importância que o pintor teve no processo de internacionalização da arte portuguesa nos anos 70, aproveitando "a frescura de estilo" que marcava as suas obras. "Reconhecia-se em Malangatana uma pintura que se afastava do folclorismo africano e que por isso se aproximava dos conceitos do modernismo", diz esta crítica, recordando que, a partir dos anos 80, a sua obra caiu num certo esquecimento, e lamentando que as suas obras não estejam hoje expostas nos principais museus portugueses, citando o Chiado e a Gulbenkian. "Estamos na hora certa para voltar a olhar para Malangatana com mais atenção", nota.

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1972, dupla exposição

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Rui Mário Gonçalves foi o responsável pela organização das duas primeiras exposições de Malangatana em Lisboa, em 1972 - na Sociedade Nacional de Belas-Artes e na Livraria Bucholz -, que viriam a torná-lo no "pintor moçambicano mais conhecido em Portugal", fazendo depois falar dele por todo o mundo, lembra o comissário. No início dessa década, Malangatana Valente Ngwenya (o apelido significa "crocodilo") contava já mais de duas dezenas de exposições, colectivas e individuais, realizadas na sua terra natal Matalana (distrito de Marracuene) e também em Lourenço Marques (actual Maputo), além de em cidades vizinhas na Nigéria e na África do Sul. Pancho Guedes recorda o papel que teve na revelação dos talentos do jovem que então "servia à mesa e era apanha-bolas de ténis" no Grémio, um clube da elite branca na capital da então colónia portuguesa. "À noite, ele estudava e frequentava o Núcleo de Arte, começou a pintar e rapidamente se tornou conhecido", recorda o arquitecto, que lhe cedeu um espaço na sua garagem para a montagem do seu atelier. "Malangatana fazia, no início, uma pintura muito própria e muito viva, sem nenhuma influência exterior, e com uma grande atenção pela África. Tinha uma imaginação excepcional", nota Pancho Guedes. Rui Mário Gonçalves confirma esta marca e realça a forma como o pintor miscigenava as suas influências: pintava mulheres africanas com cabelos compridos como se fossem europeias, conjugava as diversas crenças religiosas, as da sua terra com as do catolicismo e do protestantismo. 

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"Nos seus quadros, há sempre muitos olhos, sempre muito abertos para o mundo", nota o escultor José Rodrigues. Rui Mário Gonçalves sintetiza, dizendo que se trata de "uma pintura altamente comunicativa".

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E isto correspondia a outra faceta da personalidade de Malangatana: o seu humanismo e envolvimento com a causa, primeiro, da luta contra o colonialismo (chegou a ser preso pela polícia política PIDE por causa da sua ligação ao movimento de libertação Frelimo) e, depois, com a da independência e com o Governo de Samora Machel.

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"Antes da independência, Malangatana pintava o sofrimento, a escravatura, o trabalho forçado", diz José António Fernandes Dias, que considera a primeira década da sua obra como "a mais criativa". Após a independência, "o pintor envolveu-se na criação de uma identidade nacional moçambicana" e na apologia do nacionalismo, acrescenta o responsável da África.cont. E acabou até por aceitar, no período maoísta do Governo de Samora Machel, ser colocado "num campo de reeducação" na zona do Zambeze. A diferença e a importância da sua obra viriam, no entanto, a ser mais tarde reconhecidas pela Frelimo, que o fez deputado (entre 1990-4).
Malangatana torna-se, então, um "senador" da República de Moçambique e uma referência da cultura nacional. Em 1997 é nomeado Artista da Paz pela UNESCO - o secretário-geral da organização da altura, Federico Mayor, disse dele: "É muito mais do que um criador; é alguém que demonstra que há uma linguagem universal, a linguagem da arte, que nos permite comunicar uma mensagem de paz e a recusa da guerra." E vai sendo homenageado com doutoramentos honoris causa em universidades como a de Évora, no ano passado. 

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O Estado português, que o distinguiu com a medalha da Ordem do Infante D. Henrique, lamentou ontem o desaparecimento de Malangatana numa nota do Ministério da Cultura: "O carismático pintor moçambicano deixa um legado de intervenção e criação cultural de grande expressão no mundo lusófono e de reconhecimento internacional." E a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), através do seu secretário executivo, Domingos Simões Pereira, citado pela Lusa, lamentou "a perda para África e para o mundo" resultante da morte do pintor.
Antes da trasladação do corpo de Malangatana para Maputo, realiza-se hoje uma cerimónia fúnebre no Porto, e outra amanhã, nos Jerónimos, em Lisboa, ambas organizadas pelo Ministério da Cultura português e pela Embaixada de Moçambique em Lisboa. À hora do fecho desta edição, não havia mais informação disponível sobre o funeral do pintor.

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Malangatana - Um homem com três metros de altura

  • Manuel Augusto Araújo

Um artista único
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Foi um dia de prodígios. Malangatana, apanha bolas no Clube de Ténis de Lourenço Marques, pede a um dos praticantes desse desporto exclusivo dos colonos um par de sapatilhas velhas. Pediu-as a Augusto Cabral, biólogo e pintor, que o manda ir a sua casa, buscá-las. Malangatana vai e encontra Augusto Cabral a pintar. Fica fascinado. Ao pedido das sapatilhas junta o de tinta e pincéis. Quer pintar, não sabe o quê. Só sabe que quer sentir a sensualidade dos pincéis a afagarem uma superfície, a espalhar cores, definir formas, fazer aparecer coisas. Dão-lhe as sapatilhas velhas, pincéis, tintas, umas chapas de contraplacado.
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«Vou pintar o quê? O que está dentro da tua cabeça?»
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O que Malangatana tinha dentro cabeça era um mundo. Florestas de árvores. Florestas de pessoas. Florestas de medos. Florestas de sons. Florestas de mágicas. Florestas de coragens. Florestas fantásticas que naquele dia começaram a correr a ousadia de uma vida interminável.
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O miúdo que começara a trabalhar aos 13 anos como pastor, que se iniciara nas práticas das medicinas tradicionais, tinha um tio curandeiro, que viera do campo para a cidade para ser empregado doméstico e andava a apanhar bolas das partidas de ténis entre membros da elite colonial tem, de repente, nas suas mãos as ferramentas de fazer com que o seu tempo passado e o seu tempo presente fossem tempo futuro, como teria dito Álvaro de Campos.
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A sua vida cinde-se em duas. De dia é empregado de mesa e apanhador de bolas num clube da elite branca. Fechadas as horas de trabalho vai para a garagem do arquitecto Pancho Guedes, que lhe tinha cedido um espaço, e pinta, pinta as imagens fantásticas que lhe habitam a cabeça. Pancho Guedes apoia-o comprando, todos os meses, quadros a um preço então inflacionado, hoje irrisório. É também em casa de Pancho Guedes que tem um encontro que será decisivo na sua vida. Encontra-se com Eduardo Mondlane, na altura professor na universidade norte-americana de Siracusa e técnico da ONU, que se tinha deslocado a Moçambique a convite do Governo português, por interposta Missão Suíça, com o objectivo de o atrair para colaborar com a administração portuguesa. Mondlane faz-lhe «ver aspectos sobre os quais eu ainda não tinha pensado» (Malangatana, semanário Savana, 2010). Fala-lhe da relevância da cultura do povo moçambicano e da importância do seu trabalho de pintor nesse contexto. Da importância desse trabalho no futuro de Moçambique como país um dia independente. Até lá, na luta pela independência.
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É o ano de 1961. Mondlane recusa qualquer colaboração com a administração colonial e entra directamente na luta pela libertação de Moçambique, unificando os incipientes movimentos independentistas. É um dos fundadores e será o primeiro presidente da FRELIMO, que inicia a luta armada em 1964. Mondlane será assassinado em 1969, vítima de um atentado perpetrado pela PIDE. 
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Nesse mesmo ano, Malangatana Valente Ngwenya (Valente porque a potência colonial obrigava à inclusão de um nome português no registo dos autóctones) faz a sua primeira exposição nos salões da Associação dos Organismos Económicos. O êxito é notável. A recepção crítica e as vendas surpreendem confessadamente Augusto Cabral, quem lhe tinha dado os primeiros pincéis, as primeiras tintas.

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O mundo colonial virado do avesso

Malangatana tinha rebentado uma tempestade tropical. O empregado que servia à mesa onde só se sentavam brancos, tinha dado um enorme e sonoro arroto que estilhaçou todas as regras de etiqueta importadas de uma metrópole distante. O paternalismo colonialista dos brandos costumes inquietou-se com o sucesso do negro apanha bolas num clube reservado a brancos. Havia que o domesticar, integrando-o, se possível. Havia ainda um outro não menor incómodo. Um jovem pintor, sem qualquer formação académica, tinha a terceira classe e frequentara esporadicamente uns cursos no Núcleo de Arte, entrava como um ciclone nos meios artísticos afirmando as suas raízes africanas, a sua cultura africana, fora de todos os padrões ocidentalizados na altura dominados pelas correntes abstraccionistas, favorecidas ideologicamente contra os realismos. Era o mundo colonial e eurocêntrico virado do avesso.
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O sucesso em Moçambique ecoa por África dos países recém-independentes. Em 1962 a revista Black Orpheus, editada na Nigéria, país que tinha conquistado a independência dois anos antes, dedica-lhe um extenso artigo profusamente ilustrado. Malangatana tinha alcançado o sucesso a uma velocidade vertiginosa. Vertiginosa era também a circulação das suas obras por terras africanas.
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Perante a realidade incontornável da fulgurância da sua obra, foi convidado a participar na Bienal de S. Paulo, integrando a representação portuguesa. Recusa esse convite tal como ordena, como forma de protesto contra a prisão de Nelson Mandela, que os seus quadros sejam retirados de uma exposição de artistas moçambicanos que percorria a África do Sul. São sinais evidentes da sua africanidade, de orgulho na sua identidade moçambicana, de outra Moçambique que não a da sonsamente violenta província ultramarina. O crocodilo (Ngwenya) tinha devorado o valente. 
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Em 1964, ano em que a guerra de libertação se inicia no Norte de Moçambique, Malangatana, acusado de colaborar com a FRELIMO, é preso pela polícia política portuguesa. Durante dezoito meses conhece dureza do regime colonial. Não se deixar abater. É um embondeiro de raízes fundas.

Um cidadão do mundo

Sai da prisão, volta aos pincéis, às tintas. As suas florestas continuam a invadir e a fixar-se nos suportes por onde espalha o seu enorme talento. Em 1971, a Fundação Gulbenkian atribui-lhe uma bolsa para estudar gravura e cerâmica em Lisboa. No ano seguinte fará a sua primeira exposição individual na capital do esfarrapado império, na Sociedade Nacional de Belas-Artes e depois na Bucholz. Já era considerado um dos grandes artistas de uma África a viver a excitação da emergência de novos países, desenhando um novo mapa em que o seu país não figurava.
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Finalmente em 1974, Moçambique torna-se independente e Malangatana é, naturalmente, o grande artista nacional.
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A sua profunda inteligência, a sua estatura humana não se deixaram enredar por esse reconhecimento. Envolve-se directamente na política e continua a pintar, a desenhar, a gravar, a fazer escultura. Continua principalmente a reinventar a sua obra, agora também em grandes murais e outra obra pública, sempre com os pés bem mergulhados na sua terra africana. Continua a viver a vida, a cantar, a dançar, a comer e a beber com o grande prazer e alegria de um cidadão do mundo enquanto se desmultiplica em inúmeras iniciativas políticas, de dinamização das artes no seu país e de protecção das crianças. Foi deputado da FRELIMO, participou em acções de alfabetização e de mobilização ideológica. Foi um dos organizadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique e da actual Escola de Artes Visuais. Criou núcleos de artesãos das zonas verdes de Moçambique e deu nova vida ao Núcleo de Arte, uma associação de artistas plásticos. Em prol das crianças a sua actividade foi sempre intensa da Associação dos Amigos da Criança, de que foi director, à Associação do Centro Cultural de Matalana, a sua terra natal, que desenvolve vasta actividade social e cívica. No meio de tanta actividade nunca deixou de pintar, desenhar, gravar, esculpir.
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Malangatana foi um artista único e um homem com três metros de altura.
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Avante 2011.01.13
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Malangatana: morreu um «embondeiro» da cultura africana

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Autor: mozmais

Diálogos em Silêncio
Data: 05/01/11  Duração: 00:05:11 
Encontro Cultural com Moçambique, com Malangatana, através da Arte 
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jomarvaz | 16 de Dezembro de 2008
Pintor moçambicano. Nasceu em 1936.
A música é do baterista de jazz Elvin Jones.
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Malangatana (um pintor de Moçambique) 

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3zamar | 7 de Março de 2009 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
... desenhando em Azeitão (7-3-09)
Foi um privilégio. Malangatana é amigo de familiares nossos que residem em Moçambique. Esteve algum tempo em Portugal por causa de uma obra sua (escultura) e passou este dia connosco... caril de caranguejo em pano de fundo. É doce, é simples, exímio contador de histórias... com o som da sua voz ou com o som da sua arte. Espero voltar a revê-lo... (Viu o vídeo que fiz e permitiu-me a publicação). A música de fundo? Piano de uma amiga americana (conheci-a no SL) e voz minha... (Experiências musicais com o Atlântico de permeio. África, Europa e América entrelaçadas pelo digital).

 

Muitos comentam o desaparecimento do pintor moçambicano

Por: Redacção  |  5- 1- 2011  13: 28
Malangatana (foto: Lusa/Epa)

Da política às artes, foram muitas as manifestações de pesar pelo desaparecimento do pintor Malangatana.

Símbolo da cultura moçambicana, morreu esta madrugada.

«Fiquei muito chocado com essa notícia trágica», disse Joaquim Chissano.

«Não percebo como é que o Malangatana, que parecia uma pessoa saudável e viajava com uma capacidade enorme, morre assim de repente», confessa o arquitecto Pancho Guedes.

«Eu admirava-o muito», disse José de Guimarães.

«Entendia que as culturas eram mulatas. É um enorme vazio a sua morte, mas deixa um grande legado», refere Mia Couto.

«Um bom amigo, um grande pintor que trouxe as cores de África até nós e que com a sua maneira de ser, a sua convivência contribuiu também para aproximar culturalmente Portugal e Moçambique, as nossas culturas», recorda Manuel Alegre.

«É uma grande perda. Para o mundo. Malangatana conquistou essa dimensão. Ultrapassou as fronteiras de Moçambique e de África. Esta perda é irreparável», disse Domingos Simões Pereira, secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

«A obra tem uma identidade muito forte. Quando olhamos para uma obra do Malangatana, imediatamente dizemos que é Malangatana. Tem uma autoria fortíssima», sublinhou Isabel Carlos, directora do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.

«O que se pode falar de um embondeiro da cultura e um dos mais representativos de África? A cultura africana ficou órfã. Não sei o que vai ser de nós sem o Malangatana», disse o pintor moçambicano Naguib.

«Malangatana, se mal privei com sua presença, tal bastou que o sentisse o lídimo representante de uma cultura que continuará falando ao mundo com o seu timbre de voz inigualável», sublinhou o pintor Júlio Resende.

«É um lamento, todos nós ficamos mais pobres porque o Malangatana é um símbolo de várias coisas, não só da cultura moçambicana mas de um tempo lusófono, do que de bom e mau teve a ligação entre os dois países», afirmou Carlos Queiroz.
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http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/malangatana-reaccoes-embondeiro-africa-mocambique/1223548-4071.html
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Morreu o pintor Malangatana

Moçambicano estava internado em Matosinhos vítima de doença prolongada

Por: Redacção  |  5- 1- 2011  10: 13


Malangatana 
O pintor moçambicano Malangatana morreu aos 74 anos às 03h30 desta madrugada no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de doença prolongada, segundo comunicou a direcção do hospital à agência Lusa.

O pintor, de 74 anos, encontrava-se internado há vários dias naquele estabelecimento.

Deixe a sua homenagem e leia as reacções da política às artes a esta morte

Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 06 de Junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico). Começou a trabalhar como apanhador de bolas num clube de ténis aos 11 anos, tendo estudado até à terceira classe.

Durante o meio século que se dedicou à pintura, passou também por outras artes. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Interessou-se por experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer ao então movimento de libertação FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não se provar qualquer vínculo à resistência colonial.

Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da UNICEF e arquitecto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na «sua» Matalana.

E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia... Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em colecções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. 
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http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/malangatana-obito-pintor-mocambique/1223482-4071.html
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domingo, 12 de setembro de 2010

Mia Couto: Moçambique; A pobreza sai muito caro


Mídia

Vermelho - 11 de Setembro de 2010 - 16h19

O escritor moçambicano Mia Couto comenta neste artigo os recentes e violentos episódios de agitação de rua em Maputo, capital de Moçambique. Registre-se a certeira afirmação "Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião". Leia a seguir a íntegra do artigo, publicada no blog O Diário.Info.

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.

E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo atuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, exceto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.

A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este paradoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.

Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.

Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutoras e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direção política do país.

Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.

Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a "quem de direito".

Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam "uma resposta". Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expetativa.

Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.

As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.

Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os "não eventos" da nossa história recente. Um deles é a chamada "guerra civil". O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio.

Entre esquecimentos e distorções, o fenômeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.

Vivemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos "bandos armados" esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas.

Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os "maravilhosos" avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjetivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é "maravilhoso", que o nosso país é "belo".

Mas todos os povos do mundo são "maravilhosos", todos os países são "belos". A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.
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sexta-feira, 5 de março de 2010

Arte portuguesa anterior à independência exposta em Maputo

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Uma mostra de arte portuguesa anterior à independência, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte (MUSART) de Moçambique, entre o qual estão obras restauradas de Columbano, Frederico Ayres e Rui Filipe, está desde hoje em exposição na galeria do Centro Cultural Português/Instituto Camões (CCP/IC) de Maputo, segundo uma nota de imprensa.
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Arte portuguesa anterior à 
independência exposta em MaputoA mostra integra um conjunto de três exposições patentes na capital moçambicana no CCP/IC de Maputo, por ocasião da visita que o primeiro-ministro português, José Sócrates, iniciou hoje a Moçambique.
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Além da exposição de arte portuguesa, as galerias do CCP/IC acolhem a partir de hoje uma mostra de desenho e uma instalação da colecção de arte do Instituto Camões em Maputo, constituída por obras doadas por artistas plásticos moçambicanos e estrangeiros que expuseram na sua galeria nos últimos anos, e uma exposição de fotografia de António Leitão Marques, contando esta com a presença dos ministros da Cultura de Portugal e Moçambique, Armando Artur e Gabriela Canavilhas, respectivamente.
Arte portuguesa anterior à 
independência exposta em Maputo.
O Museu Nacional de Arte possui «uma colecção de arte portuguesa de obras de pintura, escultura, desenho e gravura de artistas portugueses, que foram ou não residentes em Moçambique, num total de 86 obras», acervo esse só uma vez parcialmente mostrado ao público, em Julho de 2002, na Galeria do CCP/IC, explica a nota de imprensa do Centro Cultural Português.
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«Antes da Independência, muitas destas obras estavam dispersas pelos diversos edifícios governamentais, em especial na Câmara Municipal de Lourenço Marques, encontrando-se, muitas delas, em mau estado de conservação, devido a factores de ordem climatérica e de algumas insuficiências do próprio edifício do MUSART, designadamente infiltrações de água», acrescenta a nota.
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Assim, a presente mostra pretende também «divulgar obras restauradas pelos técnicos moçambicanos Jonas Tembe e Afonso Malate, do Museu Nacional de Arte, que, com o apoio de especialistas portugueses do Instituto José Figueiredo – agora designado de Instituto Português de Conservação e Restauro – restauraram obras de Columbano, Rui Filipe e Frederico Ayres».
Arte portuguesa anterior à 
independência exposta em Maputo.
No mesmo espaço expositivo, encontra-se também a «mostra de desenho e uma instalação da colecção de arte do Instituto Camões em Maputo, constituída por obras doadas por artistas plásticos moçambicanos e estrangeiros que expuseram na Galeria desde Centro Cultural nos últimos anos».
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«É do contraste entre o presente e passado, aqui patente nas obras em exposição, da sua diversidade e diferenças, que emana a valorização do património artístico como uma indelével referência da identidade cultural» de Moçambique e de Portugal, referem os organizadores das exposições.
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A exposição de fotografia de António Leitão Marques, aberta também hoje ao público na ‘Galeria Poente’ do CCP/IC, com o título Moçambique, Labirinto da Saudade, pertence à Colecção Nacional de Fotografia, custodiada pelo Centro Português de Fotografia/Direcção Geral de Arquivos do Ministério da Cultura de Portugal.
Arte portuguesa anterior à 
independência exposta em Maputo.
Nascido em Moçambique em 1948, António Leitão Marques «pertence ao grupo de fotógrafos portugueses que, em meados dos anos 90, foram intitulados os novos viajantes, em sintonia com a sua redescoberta da antiga África colonial e reencontrado o fascínio do continente», afirma-se numa nota do CCP/IC.
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«Presença obrigatória em exposições colectivas contemporâneas, as imagens do portfolio Moçambique já integraram inúmeras mostras de especial relevância artística nacional e internacional: Livro de Viagens apresentado na Feira de Frankfurt de 1997, Cruzeiro do Sul nas Jornadas Fotográficas de Guardamar em 2000 e o Critério Visível do Centro Português de Fotografia em 2002, são exemplo disso».
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A série de 16 imagens, a preto e branco, representando retratos humanos e paisagísticos de Moçambique contemporâneo, «mostra a intrínseca ligação afectiva do autor com esta África».
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Imagens magnéticas, que nos dão um vislumbre de um Moçambique perdido no tempo e no nosso imaginário.
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Todas estas exposições em Maputo estarão patentes até 27 de Março.
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03/03/2010
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http://www.instituto-camoes.pt/mocambique/arte-portuguesa-anterior-a-independencia-exposta-em-maputo.html
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Conversa com Mia Couto


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Não contei aqui sobre um dos pontos mais altos da minha viagem: quando, em março, em Maputo, entrevistei o escritor Mia Couto — cuja obra costuma ser comparada, no Brasil, à do Guimarães Rosa.

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Por uma hora, conversei com ele, entre outros temas, sobre a relação da África com o mundo, o cinismo que houve na comemoração da eleição do Obama no continente africano, o falatório gerado pelo acordo ortográfico nos países lusófonos e como moçambicanos e angolanos lidam com a sua antiga metrópole, Portugal.

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Editar esse material provou-se quase impossível, já que, como notarão, em momento algum o Mia deixa de apresentar pontos de vista instigantes e originais sobre os assuntos propostos.

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O continente africano está vivendo o ciclo de crescimento econômico mais vigoroso desde o fim da era colonial. Entretanto, há casos notáveis de retrocesso, como o do Zimbábue, e vários outros países, como o Congo Democrático e o Sudão, vivem grande instabilidade política e social. No geral, a África está avançando?

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MIA - Sim, o problema é que não se sabe para onde, qual é a direção desse progresso – progresso entre aspas. A África tem 30, 40 anos de independência e, feito um balanço, não se sabe se houve um crescimento. No conjunto, provavelmente sim, não sou da tribo dos “afropessimistas”. Mas vive-se hoje em grande parte do continente africano pior do que se vivia no tempo colonial.

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A relação da África com o mundo não mudou e continua sendo uma relação colonial – nem sequer vale a pena chamá-la de neocolonial. A África não pode mais se entregar às mãos dessas elites que são predadoras e vorazes no consumo da riqueza, no que também não houve uma mudança. A África sempre teve uma relação em que elites minoritárias vendiam todos os recursos para o exterior. O que houve foi uma espécie de passagem de testemunho, uma mudança de turno, e só.

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Como contrapor essas elites num continente em que praticamente não há classe média?

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MIA - Imagino que surgirá uma pequena classe média a partir de conflitos internos. A África não é diferente do resto e sempre evoluiu por motores internos. São conflitos que estão surgindo hoje e são visíveis por exemplo aqui, em Moçambique, e na África do Sul, onde, além daquilo que são as forças históricas de contraposição política, estão surgindo outras. Há qualquer coisa nova no panorama em que a divisão não é mais aquela herdada do pós-independência, em que há os heróis libertadores de um lado, intocáveis, e do outro aqueles tidos como saudosistas do passado colonial.

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Os confrontos em Maputo no ano passado causados pelo aumento do preço dos transportes e que resultaram em quatro mortes mostram que o país tem uma bomba-relógio nas mãos?

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MIA – Sim. Para explicar o que houve, o governo recorre à teoria da conspiração: há uma mão organizou aquele movimento com intenções malévolas. Do ponto de vista da realidade social, isso corresponde a uma profunda insatisfação. As pessoas entraram em choque de incompatibilidade com esse sistema de funcionamento, de administração da sociedade.

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Como fazer com que o país mantenha o ritmo de crescimento e reduza as tensões sociais?

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MIA – Darei a pior resposta, porque, sendo escritor, tenho muito pouco a dizer sobre o assunto. Mas acho que o que mais falta faz é criar um pensamento produtivo. Perceber que esse discurso de culpabilização do outro, de invenção de inimigos, está gasto, sem perceber que é preciso encontrar caminhos novos, que é preciso encontrar uma outra maneira de construir a economia. Esse é o grande desafio.

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Com a crise econômica mundial, o discurso sobre a importância do Estado na economia ganhou força no mundo todo, e em Moçambique o presidente Armando Guebuza disse que é preciso evitar que Moçambique se globalize. Isso não é nocivo para um país que, aos poucos e com sucesso, vinha abrindo a sua economia?

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MIA – Acho que Moçambique não notou grande diferença porque nunca saiu desse discurso dirigista. Passou de um socialismo para um capitalismo de Estado, digamos assim, em que há uma enorme promiscuidade entre assuntos do Estado e negócios pessoais.

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Moçambique tem sido considerado um “caso de sucesso” por muitos organismos internacionais, por ter conseguido conciliar abertura política com desenvolvimento econômico. Esses elogios não fazem mal ao país?

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MIA – Fazem muito mal. Enquanto não houver razões endógenas para estarmos felizes conosco próprios e sermos confrontados com o modelo que nós próprios criamos, seremos os bons rapazes, mas da festa dos outros.

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Na reunião da União Africana (UA) em fevereiro, o ditador líbio Muammar Gaddafi foi mais uma vez o centro das atenções com a sua defesa da unificação política imediata do continente. Qual o mal que atitudes e lideranças como essas causam ao continente?

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MIA - Acho que isso tudo é uma obra de fachada. Nenhum país africano tem crença na UA a ponto de abrir mão da sua posição no mundo. A UA serve como um patamar para que a maior parte das elites dirigentes da África possa ter alguma posição de consenso, algum ponto de força, mas, de resto, ninguém acredita nela. É mais uma obra de teatro a que eu, como escritor, tiro o chapéu.

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E a complacência em relação ao ditador do Zimbábue, Robert Mugabe? Até onde vai a lealdade da classe política dos países vizinhos, Moçambique incluído?

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MIA – É preciso que novas gerações, como em Botsuana, surjam. Pessoas que não estejam ligadas a esse tipo de laços históricos, a compromissos pessoais que prejudicam todo o resto. Essa gente se conhece toda, são amigos, fazem parte de um clube. E mesmo que tenham divergências políticas, nunca vão o declarar publicamente. Há aqui uma espécie de sabedoria palaciana. Alguns terão vontade de criticar, porque acham que a posição do Mugabe é insustentável, mas há outros que o admiram, embora não tenham a coragem de dizer, como alguém que teve coragem de bater o pé contra os ricos, o Ocidente. E há um grande desconhecimento sobre a situação interna no Zimbábue. A ideia é que tudo isso que chega é terrível, mas não é verdade, foi fabricado pelo Ocidente.

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E Moçambique? Aqui ainda é forte o discurso de atribuir aos outros o atraso do país?

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MIA – Moçambique teve um percurso diverso. O discurso de demagogia está presente, mas não é predominante. Hoje já há uma apreciação de que é preciso buscar as responsabilidades dentro. Mas isso foi fruto de muita briga na sociedade civil, para que os dedos que estavam apontados para fora fossem apontados para dentro.

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Como é a relação de Moçambique com Portugal? Em Angola, a outra grande ex-colônia portuguesa na África, jornalistas portugueses foram impedidos de cobrir as últimas eleições, em 2008, acusados de participar de um complô contra o país…

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MIA – Isso tem a ver com questões que não são só políticas. Lembro-me de uma vez em que estive em Angola e, numa mesa de 20 angolanos, todos negros, perguntei como se dizia feiticeiro numa língua nacional angolana – queria saber as semelhanças com as palavras usadas nas línguas moçambicanas. Ficou um silêncio gelado. Nenhum deles sabia falar uma língua de Angola, exceto o português, que também é uma língua angolana. Aquele silêncio congelou-me e de repente começaram todos a explicar que não se sentiam verdadeiramente africanos. Era uma coisa quase, digamos assim, psicanalítica. Era preciso encontrar uma explicação de sua angolanidade. E isso tinha a ver com a necessidade de marcar Portugal por uma via ainda de briga, de afirmação.

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E em Moçambique, isso não ocorre?

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MIA - Não. A relação da língua que citei não é inócua. A língua é uma forma de estar no mundo, é uma relação consigo própria. Grande parte dos dirigentes angolanos não fala nenhuma língua bantu. Já os dirigentes moçambicanos sabem e têm uma relação diferente com isso, resolvida. Resolver essa relação com o português enquanto língua passa muito por resolver a relação com o português enquanto povo. Aqui, a questão não está completamente resolvida, claro, mas os portugueses são para nós como os franceses, os ingleses…

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Lembro-me de amigos brasileiros cá em Moçambique que foram ver um jogo entre Brasil e Portugal. Eles esperavam que os moçambicanos fossem torcer pelo Brasil, afinal Portugal foi o colonizador. Mas não, torceram para Portugal. Não acho que seja nem bom bem mau, mas há uma relação livre com isso.

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No Brasil, muito pouco se sabe sobre Moçambique. A recíproca vale?

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MIA - Não. Os moçambicanos têm aquele complexo de ilhéu, como se vivessem numa ilha, e portanto voltam-se ao mundo. O moçambicano médio, que tem escolarização baixa, sabe do Brasil o que os brasileiros não sabem sobre Moçambique, mesmo os brasileiros acima da média.

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Embora a relação do Brasil com os outros países lusófonos seja distante, com a exceção talvez de Portugal, o acordo ortográfico teve uma repercussão enorme no país. Como acompanhou a questão?

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MIA - Faz parte da nossa cultura, enquanto países lusófonos, enquanto família, celebrar as coisas dessa maneira: ou em carnaval, em grandes festas, ou em dramas existenciais, coisa que nem os francófonos, nem os anglófonos têm. Estamos sempre a indagar: será que existe a lusofonia? É uma coisa quase paradoxal: existimos na medida em que duvidamos da nossa própria existência e investimos nessa polêmica. O que vale é que, para além disso que é o lado oficial da lusofonia, há outras coisas que acontecem e que estamos a discutir aqui, como o como o fato de os moçambicanos se informarem sobre o Brasil, a ligação histórica entre os países…

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Acho que essa polêmica em relação ao acordo foi muito insuflada pela parte portuguesa – os países africanos nunca fizeram grandes questionamentos. Também acho que é preciso justificar tão intensamente a razão de ser desse acordo ortográfico que, logo à partida, já tenho dúvidas se algo que precisa ser tão justificado tem alguma razão de ser. O triste é que se deu tanta importância a essa discussão e outros debates essenciais e que têm a ver com a nossa ligação mais profunda ficaram à margem, e assim vão continuar.

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Depois de irem para Angola, as empresas brasileiras começam a chegar a Moçambique – a Vale e a Odebrecht recentemente anunciaram investimentos no país. Será que essas relações comerciais podem aproximar os dois países?

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MIA – Acho que sim. Essas companhias vêm para cá para fazer negócios, mas elas se apresentam como tal, não têm uma fachada de cooperação, de troca de amizade. São relações comerciais, empresariais, mas que por arrasto trazem outras coisas, como brasileiros trabalhando em Moçambique ou em Angola, moçambicanos trabalhando nessas companhias, e assim surgem coisas em paralelo.

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Acredito mais nesse tipo de relação do que em qualquer outra. O resto é sabotado por intenções políticas, é fabricado como uma bola de sabão.

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Qual a sua opinião sobre a crescente presença chinesa na África?

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MIA - Não vejo isso como um problema. Devia era haver chineses, indianos, brasileiros, vários povos cumprir a nossa vocação. Já que temos de ser colonizados por uns, seremos por todos.

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Mas não acha que a troca com a China, em particular, é nociva na medida em que não resulta em transferência de tecnologia?

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MIA – Isso, sim. Os chineses têm dessas atitudes. Na área ambiental, que é a minha, não existe nenhum cuidado nem pressuposto… é um paradigma que está ausente. Existe também uma dificuldade, que faz parte da história dos chineses – os chineses nunca tiveram esse tipo de relação com outros povos –, e com eles troca-se muito pouco. Há outra coisa perigosa, que é a posição mais pragmática em relação regimes políticos. Não lhes interessa o regime político que há em África. Mas, na verdade, a posição seletiva do Ocidente sobre quem são os bons e os maus é um critério muito falível. Achavam maus os dirigentes da Guiné Equatorial até se encontrar petróleo – de repente, já eram bons rapazes. Mas, de resto, os chineses têm uma cultura de trabalho que pode nos ser útil.

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Quando o Obama venceu a eleição nos EUA, você escreveu um artigo dizendo que ele jamais seria eleito num país africano (porque, entre outros motivos, ele não seria considerado um “africano autêntico”, por ser mulato e filho de imigrantes). Acha então que a vitória dele foi exageradamente comemorada no continente?

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MIA - O artigo que escrevi para um jornal em Moçambique não estava a falar do Obama em si, mas dos regimes africanos, e contra esse cinismo de celebração do Obama. O principal fator pelo que o Obama é celebrado – a questão racial – foi construída. De repente, o Obama aqui já era negro. Em Moçambique, e na maior parte dos países africanos, na rua, ele seria um mulato. Mas havia uma necessidade de construir um ídolo. Obviamente ele vai desencantar esse tipo de pessoa que investiu nele – como fez até o Mugabe, ao dizer que “finalmente um irmão chega ao poder”. Para essas pessoas, ele vai passar de herói a vilão num clique de dedos.

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A identidade de alguém é definida pela cor da pele, por relações de natureza genética, ou pela sua própria história individual? No caso do Obama, todos sabemos que ele é muito pouco ligado à África. Ele é filho de um africano que se desligou, de um imigrante americano. Isso foi esquecido, posto à margem para a celebração, o que também mostra que há um sentimento de falta de auto-estima, uma necessidade de ter projeção em pessoas, ídolos, que continua a ser muito forte na África.

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A África é provavelmente o lugar do mundo em que a telefonia celular mais transformou a sociedade — até porque, em muitos lugares do continente, ela chegou antes que a telefonia fixa. E em países como o Quênia e a Tanzânia, os celulares já são usados para fazer transferência de dinheiro, mesmo por camponeses. Você acompanha essa revolução tecnológica?

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MIA – Tenho uma relação muito difícil com o celular – fui o último da família a tê-lo, porque achava que perderia a minha privacidade e não queria depender de uma máquina. Mas percebo que, do ponto de vista social, é uma espécie de instrumento de democratização, que de fato mudou a vida de muita gente. É preciso pensar que num país onde as pessoas não se comunicam, onde tudo é distante, de repente tudo se tornou mais próximo. Há aqui uma porta, um canal de unificação, que coloca o rico e o pobre em pé de igualdade perante essa possibilidade de se comunicar. É fantástico.

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João Fellet (Jornalista) no site www.aloportugal.org
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