Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc
Mostrar mensagens com a etiqueta Le Monde Diplomatique. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Le Monde Diplomatique. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de junho de 2011

A memória pública da ditadura e da repressão - Irene Pimentel

Sábado, 12 de Janeiro de 2008

A memória pública da ditadura e da repressão

O artigo "A memória pública da ditadura e da repressão", de Irene Pimentel, foi recentemente disponibilizado no site do Le Monde diplomatique - edição portuguesa, como homenagem por ter recebido o Prémio Pessoa. Este artigo fora originalmente publicado na edição de Fevereiro de 2007 daquele jornal, no dossiê «Os silêncios da História», co-organizado por Daniel Melo e o qual contou ainda com os contributos de José Manuel Sobral e Sérgio Godinho (tal como foi aqui noticiado oportunamente).
O livro A história da PIDE, de Irene Pimentel, será recenseado no Diplô em próxima edição.
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

DEPOIS DAS ELEIÇÕES EUROPEIAS


Emergência do poder pirata

por Philippe Rivière


O muito jovem Partido Pirata sueco fez uma entrada assinalável no Parlamento Europeu, tendo obtido 7,1% dos votos na eleição de 7 de Junho de 2009. Para Estrasburgo vai enviar dois deputados. O primeiro, Lars Christian Engstrom, um empreendedor na área da informática com 49 anos, ocupará um lugar de pleno direito. A segunda, Amelia Andersdotter, de 21 anos, estudante de economia na Universidade de Lund, terá apenas, nos termos das regras bizantinas destas eleições, um lugar de observadora [1].

.

É preciso levar a sério a emergência desta nova oferta política. Depois de apenas três anos de existência, o Piratpartiet reúne cerca de 50 000 aderentes e é a terceira força militante da política sueca, logo atrás dos Moderados [2]. (Os adversários do Partido Pirata sublinham que a adesão ali é gratuita.) Em 2009, houve uma adesão maciça dos jovens entre os 18 e os 30 anos – na grande maioria, homens – a um programa fundado na legalização da partilha de ficheiros. O principal detonador deste movimento foi o processo «The Pirate Bay», do nome de um sítio sueco na Internet que propunha um motor de busca especializado nos ficheiros torrents, que permitem descarregar e partilhar, entre utilizadores, filmes, música, programas informáticos, etc. [http://thepiratebay.org">3]].

.

Os animadores do sítio Internet, condenados a um ano de prisão e a uma multa de 30 milhões de coroas (2,8 milhões de euros), tinham no entanto argumentado que o seu motor não dava acesso aos filmes propriamente ditos – uma busca no Google proporcionava exactamente as mesmas informações. Na verdade, a diferença está na postura adoptada: num caso (Google), finge-se que se quer respeitar os direitos de autor, apesar de o extraordinário crescimento do sítio de vídeos YouTube, filial do Google, assentar, em grande medida, num catálogo «pirateado»; no outro caso (The Pirate Bay), ridicularizam-se as mensagens enviadas pelos escritórios de advogados dos produtores de Hollywood e abre-se o jogo, de estandarte negro ao vento.

.

A condenação do sítio The Pirate Bay e as tentativas de repressão da partilha de ficheiros atingem directamente o quotidiano de quase todos os jovens – 80% dos lares suecos estão ligados à Internet, tendo, com a Finlândia, a taxa mais elevada da Europa. Legal ou não, a partilha de ficheiros pear to pear [4] é praticada de forma tão maciça quanto noutras épocas o foram a cópia de cassetes áudio ou de disquetes. A «indústria cultural» tem muita dificuldade em fazer com que seja respeitado o seu ponto de vista, segundo o qual a cultura é um bem que se consome. E, até ao momento, os grandes partidos não apresentaram uma solução satisfatória para a questão dos direitos de autor face à partilha de ficheiros.

.

A crescente politização, em todo o mundo, das questões da propriedade intelectual e do digital traduzem uma falta de perspectivas perante a mutação do mundo industrial para o universo de redes. São raros os responsáveis governamentais que têm um mínimo de competências técnicas; na maioria dos casos, as elites têm um modem de atraso em relação à população [5]]. Em França, isso é bem testemunhado pelas sucessivas gaffes da ministra da Cultura, Christine Albanel.

.

No entanto, não se cria um partido cada vez que se quer defender um ponto de vista. É extremamente raro que um assunto específico dê, por si só, origem a uma oferta política. A ecologia política, que levanta questões que podem ser consideradas mais fundamentais do que as do Partido Pirata, e que pretende apresentar uma perspectiva política global, demorou várias dezenas de anos até sair das margens e conseguir ser eleita. As listas «pela Palestina» ou pela legalização da marijuana nunca ultrapassaram o patamar do testemunho, enquanto os movimentos de caçadores, por seu lado, se apresentam mais como um receptáculo para um voto de protesto do que com uma proposta política construída.

.

Artistas e espiões

.

Os partidos existentes têm todo o interesse em actualizar o seu «software político» e em rever os seus discursos sobre a revolução informacional. As hesitações e divisões dos partidos de esquerda sobre a propriedade intelectual vieram sublinhar a ignorância existente em relação a este assunto e que é verificável na grande maioria dos representantes políticos. Os relatórios que se vão sucedendo sobre a «sociedade digital» são de uma indigência intelectual impressionante e, na maioria dos casos, reduzem esta transformação profunda das relações sociais a simples «oportunidades de negócios» [6].

.

A discussão política foi contida pela questão do «apoio aos artistas», ainda que muitos artistas lamentem, em contracorrente, que ela tenha assumido a forma de uma guerra dos detentores de direitos contra o público. Em contrapartida, esta discussão desenvolveu-se na Internet, onde existem muitas propostas para revitalizar a cultura com o envolvimento de um público menos consumidor, mais «participante» [7].

.

Em França, os debates em torno da lei «Criação e Internet», ou lei HADOPI (ler «Cortar a Internet», http://pt.mondediplo.com/spip.php?article487, 6 de Maio de 2009), terão entretanto permitido que alguns deputados – nomeadamente Verdes e socialistas – restaurassem a imagem da política junto dos internautas. Se isso não tivesse acontecido, é muito possível que um Partido Pirata francês tivesse podido alimentar-se da oposição a essa lei, que instaurava o corte da ligação aos internautas que não tivessem tornado a sua ligação segura. Apesar de tudo, o dispositivo HADOPI foi chumbado, a 10 de Junho, pelo Conselho Constitucional francês, entre outros considerandos porque constituía um atentado à presunção de inocência e porque o acesso à rede é «uma componente da liberdade de expressão e de consumo». O Conselho Constitucional confirmou, assim, a análise do Parlamento Europeu, segundo a qual a Internet permite ao cidadão exercer as suas liberdades fundamentais [8].

.

Ultracapitalistas e cibercomunistas

.

A questão não mobiliza apenas a esquerda, seja ela trabalhista ou ecologista. Uma parte da direita combate, a partir de bases teóricas «liberais», a «big-brotherização» de um Estado que pretende instalar «espiões» nos computadores pessoais, bem como os constrangimentos jurídicos e comerciais de propriedade intelectual que conduzem a monopólios como aqueles de que gozam a Microsoft ou as empresas farmacêuticas.

.

O folclore libertariano, apesar de estar pouco representado na Europa, está também presente no discurso dos «piratas». Com efeito, o líder do Piratpartiet, Richard Falkinge, apresenta-se como um «ultra-kapitalist».

.

«Os conservadores não defendem o capitalismo puro», explica Falkinge numa entrevista à revista sueca Fokus. «Eles são uma espécie de cagarolas sociais-liberais. (…) Eu defino-me como ultracapitalista, e foi a partir desse posicionamento que me envolvi politicamente. (…) A batalha joga-se agora na questão dos direitos dos cidadãos, que é a questão fundamental. Mais importante do que o sistema de saúde, a educação, o nuclear, a defesa e essa merda toda que andamos a debater há quarenta anos.» O Partido Pirata, sublinha Richard Falkvinge, «defende até uma forma de comunismo digital, em que cada um contribui segundo as suas capacidades e o produto é distribuído segundo as necessidades» [9].

.

Por seu lado, a jovem deputada Amelia Andersdotter pretende entregar uma parte do seu salário europeu a organizações como a Amnistia Internacional, a ATTAC-Suécia, a Ordfront (uma editora alternativa muito importante na Suécia, e considerada «de esquerda») ou o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres (UNIFEM) [10].

.

É difícil perceber de que forma poderá este partido definir-se fora do campo das liberdades digitais. É certo que faz uma incursão no campo da saúde, ao publicar no seu sítio Internet uma posição sobre as patentes farmacêuticas na qual reivindica outros modelos de financiamento para a investigação de novos medicamentos úteis [11]. Mas, fora isso, o que há?

.

«O Partido Pirata não tem opinião definida sobre nada que não sejam as liberdades na Internet; quanto ao resto, votará com os outros partidos» [12]. Os responsáveis do Piratpartiet repetem que não terão qualquer dificuldade em aplicar esta regra, porque a clivagem direita-esquerda perdeu toda a pertinência. Como anuncia o seu sítio Internet [13], o que está em causa é tornar-se a pedra angular da maioria do Riksdag, o Parlamento sueco. Com 7% dos votos, esta estratégia oportunista pode permitir-lhe ter algum peso… se não o fizer explodir.

.

domingo 14 de Junho de 2009

Notas

[1] O Tratado de Lisboa atribui à Suécia 20 lugares, mas enquanto aguarda a sua eventual ratificação, Estocolmo dispõe apenas de 18 lugares. Os dois deputados «em falta» foram apesar disso designados na votação de 7 de Junho, tendo desde já um estatuto de observador.

[2] A história do partido, bem como do sítio The Pirate Bay, é descrita por Anders Rydell e Sam Subdberg em Piraterna, Ordfront, 2009, por enquanto apenas disponível em sueco.

[3] [4] «Peer to peer»: os ficheiros são trocados entre utilizadores, sem passar por um servidor central.

[5] Assinale-se a este propósito que Jeff Moss, fundador da DefCon, uma conferência de hackers, acaba de ser nomeado pela administração de Barack Obama para o Conselho Consultivo de Segurança Interna norte-americana. «L’administration Obama fait appel à un hacker réputé pour protéger les Etats-Unis», 20minutes.fr, 8 de Junho de 2009, [http://www.20minutes.fr/article/331....->http://www.20minutes.fr/article/331....

[6] Ler a este propósito o contributo de Bernard Stiegler em Pour en finir avec la mécroissance. Quelques réflexions d’Ars industrialis, Flammarion, 2009, [http://arsindustrialis.org/publications->http://arsindustrialis.org/publications" class="spip_out">http://thepiratebay.org.

[7] Ler Philippe Aigrain, Internet & Création, InLibroVeritas, 2008. Pode ser descarregado livre e gratuitamente no endereço http://paigrain.debatpublic.net/?pa....

[8] Texto aprovado por 88% dos deputados europeus no quadro do «Pacote Telecom». Cf. Guillaume Champeau, «Bruxelles se félicite de la sacralisation de l’amendement Bono», Numerama, http://www.numerama.com/magazine/13....

[9] Claes Lonegard, «Hjärnan bakom piraterna» (O cérebro dos Piratas), Fokus, Estocolmo, 5 de Junho de 2009, http://www.fokus.se/2009/06/hjarnan....

[10] «Amelia 2.0», Lundagard (jornal estudantil), Lund, Junho de 2009, http://www.lundagard.se/2009/06/01/....

[11] Ver «An Alternative to Pharmaceutical Patents», http://www.piratpartiet.se/an_alter....

[12] Vegard Andreas Larsen, «Svenske Piratpartiet ble i gar stemt inn i EU-parlamentet» (O Partido Pirata entrou ontem no Parlamento Europeu), Hardware.no, 8 de Junho de 2009, http://www.hardware.no/artikler/pir....

[13] http://www.piratpartiet.se/internat....

.

.

Le Monde Diplomatique

.

.

sábado, 5 de abril de 2008

Brasil - Festival É Tudo Mentira revela os documentários da periferia


Quase ausente em É tudo Verdade, audiovisual produzido nas periferias brasileiras reúne obras densas, criativas e inovadoras. Festival alternativo exibe, em São Paulo, parte destes filmes e vídeos, que já começam a ser recolhidos num acervo específico.

Por Eleilson Leite, no Le Monde Diplomatique Brasil



Termina neste domingo, 6 de abril, mais uma edição do Festival É tudo verdade, a mais importante mostra de documentários da América Latina. Criado em 1996 pelo crítico Amir Labaki, o evento chega a 2008 com a impressionante marca de 138 obras na programação, exibidas em 8 salas de São Paulo, além do Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Bauru e Caxias do Sul. Paralelamente, cineastas da periferia da Zona Norte de São Paulo realizam o Festival É tudo mentira. A iniciativa não é uma afronta ao grande festival. Os realizadores periféricos querem apenas brincar com o nome. Além disso, a mostra na quebrada começou em Primeiro de Abril...


A programação do evento paralelo traz obras como os curtas Lobisomem e o Coronel , além do lançamento de Kantuta, documentário de Renato Candido sobre a vida dos bolivianos no centro de São Paulo. O curta O menino, a favela e as tampas de panelas e o longa Entre nessa dança – hip hop no pedaço completam o modesto, porém consistente catálogo cinematográfico do beco. E tem uma vantagem. Nos locais de exibição, sempre rolam apresentações artísticas. Entre as atrações, os grupos de rap Cagebê, 4Vidas e D’Elite. Confira os detalhes na Agenda Cultural da Periferia.


Chequei a programação do É tudo verdade para ver o que de periferia rola no evento, além do fato de o Centro Cultural da Juventude (CCJ) da Cachoeirinha ser uma das salas de exibição da mostra. Decepcionei-me. De produção de cineastas periféricos, nada. Sobre a periferia, há dois filmes do Brasil e um de Moçambique. Do Brasil, o documentário Moro na Tiradentes, de Henri Arraes Geneverseau e Claudia Mesquita. A obra, que trata da história do Conjunto Habitacional da Cohab do bairro Cidade Tiradentes, na Zona Leste da Capital Paulista, é uma produção vinculada ao Centro de Estudos da Metrópole do Cebrap. O outro representante brasileiro é o filme de Luciana Burlamaqui, Entre a Luz e a Sombra. A fita aborda a formação da dupla de rap Dexter e Afro X, durante aulas de teatro no extinto Carandiru. A produção moçambicana chama-se Hóspedes da Noite e parece muito interessante. O filme de Licínio Azevedo conta a história de um hotel de luxo na cidade de Beira que, após anos de abandono, foi ocupado por sem-tetos e hoje, embora em ruínas, abriga 3.500 pessoas.


Parece-me que o festival É tudo verdade já teve um olhar mais atento à produção de cinema da periferia ou a filmes que têm o subúrbio como tema. Aí vai uma crítica tanto aos organizadores como aos cineastas das quebradas, que poderiam buscar se inscrever no evento, embora isso não seja garantia de inclusão no catálogo. Mas penso que teria lugar. Impressionei-me com tantos filmes biográficos. De Jimmy Carter a João Saldanha, passando por Waldik Soriano (filme da atriz Patrícia Pilar), Wilson Simonal, Paulo Gracindo e o dramaturgo Vaclav Ravel, ex- presidente da antiga República Tcheca. Até a Joy Division, cultuada banda de rock-pop dos anos 80, garantiu lugar na programação, com um documentário a seu respeito.


Chamou minha atenção também a inclusão do filme Lavra-dor, de Paulo Rufino. A obra é de 1968 e aborda o sindicalismo rural no estado de São Paulo pós-1964. A escolha se deve ao experimentalismo do trabalho, uma qualidade que o festival tem valorizado muito. Certamente trata-se de obra muito importante, mas parece coisa de aficcionado. Imagino que pouca gente tenha se interessado. Mais curioso ainda é a exibição do clássico Linha de Montagem de Renato Tapajós, documentário do início da década de 80 sobre as greves do ABC de 1978 a 1981. O filme é maravilhoso. Assisti umas cinco vezes em cursos de formação política, durante minha juventude. Mas não seria o caso de abrir espaço para uma produção mais recente, valorizando os talentosos cineastas da periferia?


Resolvi então dar uma de curador de uma mostra de mentirinha. Dei uma olhada em alguns documentários produzidos pela galera dos becos e favelas, em 2007 e 2008. Selecionei três títulos que me parecem representativos da criatividade artística e da sensibilidade social dos autores. São eles: É tudo nosso! O hip hop fazendo história, de Toni C; Panorama – arte na periferia, de Peu Pereira e David Vidal e Freestyle: um estilo de vida, vídeo-documentário de Pedro Gomes.


Além do fato de serem obras sobre a periferia, feitas por jovens cineastas suburbanos, os três filmes foram financiados por programas governamentais de fomento. O primeiro foi patrocinado pelo governo federal, por meio do programa Cultura Viva, que financia os Pontos de Cultura. A obra é uma produção do Ponto de Cultura Hip Hop a Lápis. O segundo teve o apoio da prefeitura de São Paulo por meio do VAI – Valorização de Iniciativa Culturais. E o terceiro teve financiamento do PAC – Programa de Ação Cultural — da secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que tem uma linha dirigida exclusivamente ao hip hop. São três pequenas revoluções financiadas por políticas públicas. Olha que círculo virtuoso. Ficaria completo se essas obras estivessem num grande festival como o É tudo verdade, por sinal patrocinado pela Petrobrás e Banco do Brasil — além de empresas privadas que o apóiam por meio de renúncia fiscal. Traduzindo em bom português: dinheiro público.


Mas falemos dos filmes e fiquemos na torcida para que apareçam em outras telonas dignas de sua exibição. O vídeo de Toni C exige fôlego para assistir. ”Atenção, nação hip hop, para o toque dos quatro elementos”, anuncia o locutor na abertura de um dos capítulos. São três horas de duração! Mas o documentário está dividido em cinco partes que depois se desdobram, uma forma bacana de fracionar a extensa obra. Dá para assistir em três etapas, pelo menos. Chega a ser inacreditável a quantidade de material que este rapaz recolheu e colocou no DVD. Tem uma parte que dá um panorama do hip hop no Brasil, estado por estado. Você clica no Amazonas, e estão lá os manos da floresta falando do rap com carimbó. Em Minas Gerais, tem o pessoal da Rádio Favela e assim vai.


No capítulo 5º Elemento de É tudo Nosso!, há excelentes falas de poetas e rappers. Mano Brown aparece várias vezes, sempre muito pertinente. Tem até um capítulo internacional, que aborda o hip hop na África, EUA, Paraguai, Cuba, Venezuela e Argentina. Como diz o texto de É Tudo Nosso, "o hip hop é a primeira contra-cultura globalizada da humanidade”. O filme traz ainda preciosidades como um depoimento de Nazi, ex-vocalista do Ira! revelando a desinformados como eu que foi ele o produtor do primeiro disco de rap do Brasil, a Coletânea Rap Cultura de Rua. Vale a pena assistir o DVD. E dá para ver tudo de uma vez. Cansei de assistir filme cabeça que durava mais de três horas em épocas passadas. Garanto que ver a É tudo Nosso! foi mais prazeroso do que muitos filmes daqueles tempos em que era cinéfilo.


Panorama – arte na periferia é uma pequena obra-prima. O filme tem uma fluência muito agradável, revelando um talento de edição raro para iniciantes. Os depoimentos muito bem editados intercalam-se harmonicamente com apresentações musicais, filmes, dança, teatro, saraus e outras manifestações culturais que agitam a periferia da Zona Sul de São Paulo. São inúmeros artistas e grupos que exibem sua arte e falam da importância da cultura para suas vidas e para a comunidade. É especialmente interessante a fala de Estevão. Ele é um profissional de limpeza que dá duro todos os dias no trabalho, mas que, ao voltar pra casa, sente-se ele próprio parte de sua obra artística. Sua residência é uma instalação. Juntando todo tipo de material, compôs uma casa que lembra muito as catedrais catalãs de Gaudí. Algo indescritível, que precisa ser visitado. O filme dá uma boa mostra, mas é preciso conferir. Outro ponto forte do DVD são os depoimentos sobre o sentido da arte e a condição de artista, recolhidos de quem faz a cultura de periferia. Dá um tratado de sociologia.


O documentário Freestyle: um estilo de vida, de Pedro Gomes, é digno dos mais importantes prêmios do cinema documental brasileiro. Labaki, presta atenção nesse filme! Como é uma produção de 2008, dá para entrar na próxima edição do É tudo verdade. Pedro é um jovem de apenas 23 anos, mas teve a maturidade de realizar um filme de gente grande. O Freestyle é a batalha de MCs. Trata-se de uma disputa muito semelhante ao repente. Dois rappers enfrentam-se, tendo cada um seqüências de 30 segundos pra improvisar seus versos. Decide qual é o melhor o público — que julga a qualidade da letra, a pegada do MC e seu carisma. O jogo tem regras que impedem ofensas à dignidade do oponente. A batalha é também conhecida como rinha e tem ganho muito prestígio, a ponto de haver um evento nacional realizado no Rio de Janeiro (e registrado no filme). Os depoimentos são de uma eloqüência e humor que só quem é mestre do improviso da fala consegue ter. É imperdível. Com essa obra, Pedro Gomes já deixou um legado às futuras gerações. Ele que é tão jovem, pode dormir o sono dos justos. Não bastasse seu livro de sugestivo nome Rabiscos sobre certezas em constantes metamorfose, agora ele nos presenteia com seu belíssimo filme.


Para encontrar esses e outros bons filmes de produção independente periférica, procure o Centro de Mídia Juvenil da ONG Ação Educativa. Mas espero que, nas próximas edições dos festivais Verdade e Mentira, essas obras saltem do catálogo para as telas, para deliciar um público ávido de novidade, criatividade e dignidade artística. É tudo nosso!

.
in VERMELHO -
5 DE ABRIL DE 2008 - 17h07
.
.