Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 13 de março de 2011

Memórias da guilhotina - Ezio Flavio Bazzo

blog da Revista Espaço Acadêmico

ISSN 1519-6186, mensal, ANO X

Memórias da guilhotina

Posted: 12/03/2011 by Revista Espaço Acadêmico in colaborador(a)
por EZIO FLAVIO BAZZO*
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“Visão, é a arte de ver as coisas invisíveis”. Jonathan Swift
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Segundo as anotações dos velhos marceneiros da história, as duas vigas verticais dessa máquina vingativa mediam 4,50 metros, e a separação entre uma e outra era de 37 centímetros. A lâmina pesava 7 quilos, era fixada por três esferas, (pesando 1 quilo cada uma) e presa num cabeçalho que por sua vez pesava 30 quilos, constituindo assim, um conjunto de 40 quilos, que percorria uma queda de 2,25 metros antes de cortar o pescoço do condenado. A viga esquerda da máquina pesava 69 quilos, a da direita, por conter o mecanismo de liberação da queda da lâmina, 73 quilos, totalizando, com a máquina já montada uns 580 quilos. Quem já presenciou um ritual desses confessa que ele não era apenas uma deslealdade macabra, mas uma verdadeira convulsão e um alarido de horror. Poderia ser diferente? Não. Pois, como lembrava Alexandre Vialette, a morte, geralmente, não tem amigos sinceros.
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Por mais que você se espante, a guilhotina faz parte da história recente da França, de Paris e do Estado Judicial implantado em praticamente todo o planeta. Aqui neste país da igualdade, fraternidade e liberdade, até bem pouco tempo (1981) essas «máquinas» eram montadas aqui e acolá, transportadas para o interior do país, para as colônias, para o fundo sombrio e ameaçador das prefeituras, para o meio das praças em alvoroço, enfim, para qualquer lugar onde houvesse cabeças dignas de serem decapitadas.
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Quem visitou este território antes de setembro de 1981, correu o risco de passar por ela, de ver seu pescoço colocado nesse umbral estatal criminoso. E o que é mais atordoante ainda neste assunto, é que quem se der ao luxo de pesquisar, de rastrear os abismos por onde a «justiça» trafegou nos últimos séculos, descobrirá que em quase todos os horrores da tortura e das execuções havia também vestígios de perversão e de gozo sexual mórbido. Que na maioria dos massacres coletivos e das execuções individuais havia, associada, uma tormenta libidinosa, a irrupção de uma tara e de uma sexualidade gêmea do crime. Sim, um condenado em seu desespero e em sua agonia era, de alguma maneira, também o objeto do desejo do torturador e do verdugo. E não só o verdugo desfrutava dessa luxúria secreta e desse êxtase, também as massas curiosas e sedentas que lotavam as praças gozavam com a execução e com aquele corpo decapitado, sangrento e morto. Historicamente, parece que o sangue e toda a agonia que acompanha o fim de nossos iguais sempre foi experimentada como ícone erótico-afrodisíaco e como signo religioso. Não é por acaso que a religião mais popular do planeta tem como logotipo, há dois mil anos, um homem pregado numa cruz. Uma espécie de fogueira fálica e de ilusão sanguinária que reduz as pretendidas “revoluções”, as pretendidas “justiças” e a própria condenação a meros pretextos. Pretextos para, de uma forma ou de outra, gozar. Em outras palavras, identifica-se sob os pretextos da «justiça» e sob os clamores da turba, aquilo que escrevia V.Hugo: “as unhas do verdugo!”, a ereção neurótica das massas, a malícia de um Estado opressor, substituto disfarçado das monarquias e sem legitimidade que continua fazendo do populacho e dos mais indefesos, pólvora para cartuchos, desforra, adubo para vinhas, espantalhos para dispersar pelo campo nas noites em que se precisa afugentar os demônios…
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Ao refletir sobre a guilhotina, qualquer um tem a estranha sensação de estar se transmutando numa hiena. (…) Acredito que seria um espetáculo imenso se fosse possível ressuscitar suas vítimas, devolver-lhes o sangue e exibi-las ao lado do Arco do Triunfo sob o som da Marseillaise e tendo ao fundo, enfileiradas, as velhas guilhotinas que o governo francês mantém escondidas do público. Por mim, se não fosse um mísero estudante do Institut des Hautes Etudes de L’Amerique Latine, as exibiria como prova do mau caratismo humano com suas lâminas manchadas de sangue e de merda, com seus carrascos vestidos a rigor, os cestos cheios de crânios decepados, os olhos agressivos de Robespierre, os místicos de Saint-Just, os meigos de Marie Antoinette e os sinceros de Ravachol. Sim, os de Ravachol com a íris intacta, a barba crescida, a testa sem rugas. Depois levaria a todos para jantar lá no Marais, colocaria Edit Piaf na radiola e encheria seus estômagos de qualquer tipo de comida, sem deixá-los opinar e sem me importar com seus regimes alimentares, porque comida, como sabemos, é matéria prima do esterco. (…)
 
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Mas não se deve esquecer que o projeto do Dr. Guillotin teve também razões “humanistas” – me previne um professor da Paris IV. Dizem que ele só propôs a fabricação da máquina que, aliás, herdou seu nome, para “diminuir o sofrimento” dos executados. Antes da guilhotina mecânica, todos sabem, os condenados eram submetidos, a longos suplícios e a difíceis processos de morte. O sabre nem sempre era usado com precisão e as cabeças acabavam sendo destroçadas, amassadas, praticamente arrancadas antes que a vítima morresse. A guilhotina, neste sentido, como escreve Bessette, e eu o reconheço, foi a típica filha des Lumières. Ela marcou, além de uma inovação no oficio de matar, a aurora dos tempos industriais, a invenção técnica própria para controlar as cabeças em série, tornando cegos os homens: a cabeça de um lado e o resto do corpo de outro. Máquina de aparência eminentemente democrática – ela opera um nivelamento pelo alto –, já que não pode se mostrar egalitaire, se mostrará em todo caso, egalisatrice.
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Paris, por mais que se negue e por menos que pareça, é uma cidade paradoxo! Uma espada com duas pontas! Uma tribo empoeirada e com penas de pombas que flutuam de um extremo a outro de suas pontes, de seus cafés, de seus “chambres de bonne”! Uma espécie de Portugal que deu economicamente certo! Algo que fascina e que intriga! Uma cidade que por um lado, exibe e se orgulha de seus esgotos (onde seus dejetos são tratados antes de serem lançados no Sena) e que por outro, gosta de colocar todo o mundo de joelhos diante da fineza de seus costumes alimentares. Uma cidade que pela manhã mostra os estandartes de sua democracia, e que pela tarde envia os imigrantes ilegais para a velha, famosa e temida Conciergerie, endereço que já foi a ante-sala para a guilhotina. Quem vai em romaria ao primeiro normalmente vai à segunda e vice versa. E aqueles que, além disso, tiverem a vontade mórbida de fazer uma excursão ou um tour pelos cemitérios do município e pelos sanitários de Goutte D’or, sairão da França quase com uma especialização em escatologia.
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Consegui uma cópia do mapa geográfico das execuções, (Place de Grèves, Place da Révolution, etc., etc.), mas não o tomo como referência porque é oficial, e porque grande parte das guilhotinas e das execuções que verdadeiramente me interessam foram invisíveis e sempre estiveram instaladas e funcionando no patíbulo cerebral dos homens, já que esse monstro erigido sobre duas vigas é apenas a materialização de um monstro mais antigo e mais devastador, de um monstro que de séculos em séculos se introduz numa forma nova de martírio e de sadismo, contra os seres.
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Apesar dos ditos socialistas gostarem de lembrar que a guilhotina só foi abolida no governo de Mitterrand, é bom lembrar-lhes que nesta data, já havia sido construída a cadeira elétrica e que, por conseguinte, o velho frade poderia estar apenas se livrando de uma peça obsoleta e dando lugar amplo à modernidade. Sim, vemos que na América a modernidade judicial não se inibe e superando a máquina mecânica lança no mercado a máquina elétrica. Por outro lado, quando Mitterrand aposentou a máquina que, durante 200 anos aterrorizou o mundo, os nazis já haviam demonstrado que o gás e as Câmaras de gás também eram eficientes. Todos esses atos (seja de extinção ou de inovação), podemos ver claramente, além de demagógicos, foram sempre inventos tiranos e covardes. Parafraseando e mesmo plagiando a Camus, é pertinente lembrar que os chamados legisladores, os assassinos legítimos, nunca gostaram de pensar e muito menos de admitir que a Lei é mais simples que a natureza, que quanto mais ela procura atuar nas regiões sombrias e cegas do Ser, mais ela corre o risco de ver aumentar sua impotência na redução da complexidade daquilo que ela quer ordenar. Por outro lado, e o que é mais mórbido, o Estado Judicial é a única entidade que informa a vítima com antecedência e em detalhes, do dia, da hora e da forma de sua sentença.
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“Qual criminoso já reduziu sua vítima a uma condição de tão grande desespero e de tamanha impotência?”
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Injeções venosas, choques, o azeite fervente, o pelourinho, o ferro em brasa, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos. A cicuta, a fogueira das paixões inquisitórias. O afogamento, o cianureto, a espada dos orientais na nuca dos traficantes, dos adversários e das mulheres adúlteras.
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A máquina da reprodução parece se mover sob o mesmo impulso que move a máquina da destruição. As mães engendram os corpos que o Estado ou a Lei fará em pedaços. Homens matam homens, a indústria da morte é como um escorpião ou como um vampiro que mantém em seu guarda-roupa mil disfarces e mil artimanhas, tudo porque os homens são mentirosos, geneticamente corruptos, arrivistas, exploradores, místicos, contadores de vantagens, uns dementes encurralados…
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Em seu trabalho intitulado a História do Parlamento, Voltaire descreve algumas execuções de seu tempo, evidenciando como era canalizado e administrado o ódio sobre um determinado condenado e como se processava o ritual coletivo de sadismo. O espetáculo era, no mínimo, infame! O prisioneiro era amarrado pelos braços e pernas com grossas cordas que o ligavam a quatro cavalos irrequietos. Em seguida, o verdugo lhe queimava as mãos e o peito com azeite fervente, lhe arrancava a pele, os olhos, os dedos e por fim lhe enfiava um cabo de vassoura ou uma espada no cu. A turba estremecia ao mesmo tempo em que sentia um calafrio de êxtase.
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O corpo do pobre desgraçado resistia às vezes, até por mais de uma hora. Os gritos de dor excitavam ainda mais tanto os cavalos como a platéia que havia dedicado o dia para assistir a tortura e o assassinato público. Tudo parecia durar bem mais tempo, mas o torturador tinha pressa e facilitava o trabalho dos cavalos dando um corte sutil de espada nos músculos do condenado: órgãos e sangue para todos os lados! Os membros do executado eram arrastados pela praça em festa, as tripas se abriam e a pasta fecal sujava a camisa dos mais curiosos. A justiça e seus lacaios, todos funcionários públicos, se sentia realizada, lavava as mãos, dava baixa de mais um nome nos cadernos contábeis e acreditava haver feito apenas o seu dever.
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(Eu não sou mais que um instrumento é a justiça que mata). 
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O populacho assistia a barbárie como se estivesse na Sorbone assistindo uma aula inaugural ou como se estivesse no Cine Ritz assistindo a uma suruba no palco. (E é assim que se aprende a ter medo e tesão ao mesmo tempo). A repressão dança no fundo patético de sua córnea, e ele se surpreende, mais tarde, fazendo de tudo para ser um cidadão ambíguo, politicamente correto e perverso, já que acredita piamente que a honra aparente e a desonra secreta não conduz ninguém a guilhotina. Só que o pânico privado interfere no desempenho público. Só que as cabeças guilhotinadas não o deixam dormir, só que o medo se converte em ansiedade, em fobia que não se cura com a simples certeza de que o condenado será sempre o [outro].
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Longos dias debruçado preguiçosamente sobre as toaletes e sobre as guilhotinas, mas de maneira nenhuma, como já disse, fazendo desses temas o assunto único de meus devaneios, nem o objeto de uma pesquisa acadêmica, onde o pesquisador precisa esgotar as fontes, colocar ordem, lógica, método, estilo e conclusão, além de trilhar um caminho domado por hipóteses e reprimido pela ciência, só porque precisa demonstrar uma idéia, defender uma tese, ser maior que sua obsessão e que sua cobiça. Só porque precisa seduzir um editor, ser recomendado por alguém, tornar-se substituto em alguma cátedra. Aqui não! Aqui tudo foi regido pela frouxidão de um pensamento anti metódico que não quer ter compromisso com absolutamente nada. Tudo foi engendrado no caminho entre a velha Casa do Brasil e as bibliotecas e sob o signo de uma liberdade inventiva e de um certo cinismo consciente, onde me permiti até a ver toaletes onde existia apenas um cofre, uma bússola ou uma caneca de gasolina, e vice-versa. Onde me permiti ver guilhotinas sob qualquer forma arquitetônica que aparecesse no meu caminho, fosse ela medieval, moderna ou futurista… Dois livros caídos na calçada da Gare de Lyon, por exemplo, me parecem duas comportas guardadas por cães sonolentos. Duas pilastras vindas de Côte D’Ivoir me dão a impressão de ser uma caixa para proteger lentes de contacto ou mesmo um antigo diploma de pergaminho, porém, se vistas de lado, se subo num degrau das escadas para olhá-las do alto, então posso ver com clareza uma panela sem cabo, um tecido azul com manchas de sol ou uma mala usada e esquecida. A transmutação é tão interessante e variada, que se tivesse mais tempo e se buscasse outras posições, tenho certeza que poderia passar horas e horas vendo miragens e frivolidades como se tivesse ingerido um ácido ou queimado um pouco do tabaco marroquino. E é nesse “estado” que sigo sob a tirania imaginativa, meio ébrio, meio lúcido, como se estivesse num dos “fumódromos” da Belle Époque das drogas, cercado de princesas, de perfumes, de cachimbos e de prazeres. Gosto imensamente de rastrear os passos de uma determinada idéia, porque sei que logo a situação se inverte e é essa idéia que passa a colocar-se obsessiva, propositada e “magicamente” em meu caminho…
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Paris! Uma das importantes redescobertas que se faz morando aqui, é que os grandes escritores, poetas, pintores, etc., que deram fama e notoriedade a esta cidade, viveram e escreveram suas melhores obras mergulhados na droga: vinho, ópio, éter, haschich, morfina, etc. Entre eles: Guillaume Apollinaire; Antonin Artaud; Charles Baudelaire; Jules Boissière; Paul Bonnetain; Jules Claretie; Jean Cocteau; Emile Cottinet; Charles Cros; René Dalize; Léon Daudet; René Daumal; Robert Desnos; Pierre Drieu La Rochelle; Edouard Dubus; Claude Farrère; Théophile Gautier; Alfred Jarry; Edmond Jaloux; Pierre Loti; Maurice Magre; Guy de Maupassant; Gérard de Nerval; Adolphe Rette; Marcel Schwob, e para que citar mais?
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A cabeça do rei aparece sangrando e separada do corpo em diversas gravuras, o espetáculo é brutal, sanguinolento, cartesiano… Ícone máximo da anti-monarquia.
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A Biblioteca Nacional guarda e cuida, minuciosamente, de todos os trabalhos sobre esse “período das lâminas”, enquanto as edições modernas, os editores-abutres, voltam a explorar tudo de novo. Aqui se pode sentir que tanto a cultura como a vida são plágios repetitivos e descarados, uma reedição bastarda e absolutamente enjoativa…
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Mas, além disso, uma coisa é certa: La machine, fille des Lumières, que havia, segundo Foucault, introduzido na França uma nova ética da morte legal, não está mais lá na praça da Revolução, nem nos fundos da casa da família Sanson. Agora retornou para o espírito de porco, podre e anêmico dos homens, do Estado republicano e da política universal em cujos bastidores se continua matando a coices e a socos, sempre para o bem-estar dos gerentes das Grandes Corporações, dos «laranjas» daquelas republiquetas que se orgulham publicamente de serem representantes da violência “legítima” e claro, das matronas dessa época melancólica e de prevaricações vergonhosas.
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Voilá! Dizem os franceses. 
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De minha parte, enquanto me delicio diante da prateleira de História Medieval e desacredito cada vez mais da humanidade, vou pensando: pronto, eis aqui a prova de minha recaída, mais um pouco de meu stronzo, de minha vingança e de minhas imposturas.
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Paris, biblioteca Georges Pompidou.

* EZIO FLAVIO BAZZO é Doutor em Psicologia Clínica e escritor. Autor de Vagabundo na China, Dymphne a santa protetora dos loucos; Ecce Bestia, entre outros. Publicado na REA, nº 50, julho de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/050/50cbazzo.htm
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Governo e a Igreja Instituição católica: a dissimulação - Joaquim Paceco de Lima

blog da Revista Espaço Acadêmico


por JOAQUIM PACHECO DE LIMA*
Há uma inflexão entre o Governo Dilma e a Igreja-Instituição católica. Em entrevista a Folha de São Paulo, 19.01.2011, o Arcebispo de Brasília, aponta que para o diálogo é preciso que a presidenta explicite suas convicções religiosas. A postura de Dom João de Aviz, [conheço-o desde os idos de 1980 na diocese de Apucarana-PR, nos estudos filosóficos e teológicos] e continua com a mesma visão de homem, mundo e sociedade, neotomista, referenciado na teologia fenomenológica europocêntrica. A sua referência política – poder – é a da terceira via, a democracia cristã. Tal corrente política restou o fracasso nas experiências postas (Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Grécia, etc.). O ex-coordenador de pastoral apucaranaense não é um dogmático, mas tem a missão de estabelecer o diálogo Estado-Igreja sem provocar conflito explícito.  Defensor da ‘desigualdade’ como ordem natural da sociedade, a prédica nega, por isso, incumbe-lhe o papel de distender conflito ideológico com o pensamento marxista (PT, PC do B e a plêiade de correntes) dissimulando neutralidade, mas também delimitando campo para evitar que os seus próceres aliem-se a corrente oponente, inimiga. O apoio do parlamentar Gabriel Chalita (PSDBS-SP), por razões particulares da política, a campanha da presidenta Dilma acendeu o farol. Noutro campo, quer demarcar e esconder a aproximação com a social-democracia (PSDB). Faz jogo de movimento (gramsciano) com setores do petismo no governo (o ‘igrejeiros’ da antiga corrente Articulação).
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A aproximação política da Igreja Universal com o Governo Dilma é notória – por meio da TV Record no embate ideológico. A TV do pastor Edir Macedo, inimiga da TV Globo e da Folha abre espaço para de defesa dos atores e idéias governamentais, contrapondo os seus inimigos no campo da mídia. Por outro lado, setores da Pastoral Social da Igreja Católica e os movimentos sociais aproximados (CPT-CIMI, Movimentos de Barragens, mulheres, setores do MST, Direitos Humanos e outros) fomentam rusgas no campo pragmático do realismo político x princípios matriciais partidários, socialismo – utopia.
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O arcebispado de Brasília, desde a ditadura e na redemocratização, assumiu postura de defesa da ordem e do pensamento conservador. Considerando a complexidade econômica, cultural e política da sociedade brasiliense, ou dos candangos a identidade da Igreja como ‘capelã dos militares’ não respondia mais a demanda pela nova identidade simbólica religiosa. Para encurtar o diapasão Igreja-mundo, Igreja-sociedade e mediar as relações com o poder-central a Santa Sé escolhe a dedo um de seus colaboradores para tal tarefa.
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A tentativa de aplicação dos princípios e valores cristãos (solidariedade, partilha, equidade, igualdade, etc.) na vida política nacional e internacional como mimetização do liberalismo, que tem como matriz a propriedade privada e o mercado, escondem uma manipulação grosseira dos elementos religiosos para fins econômicos e interesses políticos das classes dominantes. Na ideologia as idéias não podem explicitar contradições.
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O sistema capitalista e globalizado pode aparecer envolto de um ‘aroma religioso’ e sua capacidade de produzir e reproduzir mais-valia, classes sociais, também produz e reproduz seu próprio universo simbólico, sua espiritualidade, e sua religião. Capaz as contradições e dissimulações é papel da hermenêutica, da ciência, da filosofia e da teologia.
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Na gênese do Capital está a morte, no Deus de Jesus de Nazaré está a Vida em abundância. Conciliar, mimetizar tal antagonismo somente com dissimulação.
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* JOAQUIM PACHECO DE LIMA é professor de filosofia e sociologia. Colaborador da CPT – junto ao Regional da CNBB-Sul II de 1984-1994.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Burakumin - discriminação no Japão

início > autor > Burakumin

Burakumin

por Eva Paulino Bueno*
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Outro dia, jantando com duas colegas de meu departamento num restaurante perto da minha universidade em Osaka, eu perguntei se elas sabiam alguma coisa sobre os Burakumin. As duas me olharam, literalmente lívidas. “Onde você ouviu falar dessa gente?” Elas me perguntaram. Na conversa que se seguiu, eu aprendi um pouquinho mais sobre os Burakumin, e confirmei o que estudiosos japoneses e internacionais dizem sobre a atitude da maioria dos japoneses em relação aos Burakumin.
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Minhas colegas, digo logo de vez, são ótimas pessoas, e ótimas professoras; as duas têm ampla experiência em países do exterior, e falam outras línguas além do japonês e do inglês. Em outras palavras, elas são pessoas educadas e viajadas. Mas, quando o assunto é Burakumin, a reação das duas, que não conseguiam nem sequer pronunciar a palavra em um tom normal de voz, é igual à da maioria dos japoneses.
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Mas o que quer dizer Burakumin? Simplesmente, os Burakumin são os párias do Japão. Não párias no sentido de “parasitas.” Os Burakumin são párias no sentido de que eles são considerados ‘impuros,” “inferiores,” e não devem misturar-se à sociedade “normal.” Eu me lembro ter estudado que, na India de muitos anos atrás, uma classe semelhante existia — os “intocáveis,” chamados Dalits – e consistia das pessoas cuja classe não tinha lugar nos corpo da divindade, e portanto estavam “fora.” Os Burakumin do Japão são os exilados dentro de seu próprio país.
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Mas quem são estas pessoas Burakumin? Têm alguma doença? Alguma marca física? Não. Os Burakumin — também chamados Eta – são étnica e culturalmente japoneses como todos os outros (pesquisadores calculam que há por volta de três milhões de Burakumin no Japão, mas este número é vago, porque muitos escondem sua origem). A única coisa que os marca é a discriminação, que ocorre diariamente, de várias formas, desde um escritório em que o empregado é demitido quando o chefe descobre que ele é Burakumin, ou o candidato ao emprego não é aceito, pela mesma razão, ou uma mensagem de email insultando a pessoa Burakumin, ou grafiti nas paredes das casas. Até pátio de escola não escapa, porque crianças se juntam para fazer troça com a criança Burakumin, fazendo sinais com quatro dedos, imitando animais andando no chão. Como foi que tudo isso começou? Como é possível que um país como o Japão, que a gente acha tão civilizado, tão avançado, ainda mantenha uma tradição bárbara como essa? Há versões diferentes sobre como tudo começou, e há já muitos livros, assim como artigos científicos sobre o assunto. [1] Eu vou dar aqui um breve relato.
Em um artigo chamado “An Inquiry Concerning the Origin, Development, and Present Situation of the Eta in Relation to the History of Social Classes in Japan” — “Uma pesquisa sobre a origem, o desenvolvimento e a situação presente dos Eta em relação à história das classes sociais no Japão” — Shigeaki Ninomiya diz que há três teorias principais sobre a origem dos Burakumin. Uma é que eles são descendentes dos aborígines, dos povos primitivos do Japão, que foram dominados pelos que vieram posteriormente do continente. Outra teoria diz que os Burakumin são descendentes de imigrantes filipinos e coreanos. Finalmente, a última teoria é a que se chama a teoria “etori,” que vamos discutir com mais detalhe. (Ver Ninomiya em Transactions of the Asiatic Society of Japan 10, páginas 47 a 154).
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Os japoneses, como todos os seres humanos, têm que comer. E, se nem só de pão vive o homem, nem só de peixe vive o homem tão pouco, e alguns gostam de comer carne. Sempre gostaram. Aqui no Japão, assim como aí no Brasil, alguém tinha que matar, limpar, preparar os animais para consumo. Os Burakumin assumiram esta tarefa, há muitos séculos atrás. Com o tempo, estas pessoas passaram a ser encarregadas também de trabalhar com os corpos das pessoas mortas, e com a preparação deles para os ritos funerários. Nesta fase, de acordo com alguns estudiosos, os Burakumin tinham uma função de importância dentro do sistema dos templos shintoístas especialmente porque só eles podiam preparar os cadáveres. No meio do século XVIII, Atsutane Hirata (1776-1842), o reformador do Shintoísmo, escreveu que os Burakumin eram inerentemente impuros e interiores, que deveriam ser separados do resto da sociedade, e que deveriam ser impedidos de entrar nos templos. Tal foi feito.
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Com a entrada do Budismo no Japão no século VI  D.C., a noção da poluição associada à morte já presente no Shintoísmo, mais a proibição do consumo de certos animais, provocou ainda mais a separação dos Burakumin. Eles passaram a ser mantidos em bairros ou vilas — Buraku (que significa “vila” em japonês) — e vistos como seres sujos e potencialmente poluidores. Em Kyoto, no ano de 1715, e em Tokyo, no ano de 1719, foram feitas pesquisas sobre as populações de Burakumin, consultando-se os registros de família. Desta pesquisa resultou uma lista das pessoas que pertenciam a esta classe.
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Para se compreender a importância destes registros de família até hoje no Japão, basta lembrar dois fatores. O primeiro, tem a ver com o famoso e infame ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, que buscou guarida no Japão depois de causar perdas, danos e mortes no seu país de nascimento. Como o nome dele consta do registro da família Fujimori, e este registro está guardado em algum templo no Japão, Alberto Fujimori pôde fazer uso do fato de que, pra todos os efeitos, ele é “japonês,” e pode ficar no país por tempo indefinido, pelo resto da vida, ao que tudo indica.
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O segundo fator é que ainda é usada a tal lista dos Burakumin no Japão. A lista feita no século XVII foi atualizada por detetives particulares, e, mais uma vez, foram consultados os registros de família. Mais de duzentas companhias japonesas compraram esta lista para poderem identificar os Burakumin e excluí-los dos empregos. Segundo algumas fontes, também famílias compram esta lista ou contratam estes detetives para pesquisar a origem dos namorados das filhas e das namoradas dos filhos.[2]
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Então, uma prática tão antiga como esta de separar uma classe de pessoas e fazê-la assumir a posição mais inferior na escala social ainda permanece no Japão do século XXI. É preciso esclarecer que uma medida oficial foi tomada: o governo japonês declarou, em 1871, no Edito de Emancipação Meiji (Ordem número 61), que abolia os o status oficial dos Burakumin e os re-nomeava shin heimin (novas pessoas comuns). Mas esta medida não foi acompanhada por nenhuma ajuda financeira ou educacional, e não  houve nenhuma mudança na maneira que as religiões shinto-budistas encaravam os membros do grupo de “novas pessoas comuns.” Isto significou que os Burakumin continuaram sofrendo discriminação, não podendo participar livremente de atividades religiosas, ocupando os níveis mais pobres da sociedade. A maioria não freqüentava escolas, e portanto não aprendia a ler nem escrever, e isso perpetuava sua situação de subalternidade.
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No começo do século XX, o movimento para a libertação dos Burakumin começou, influenciado por movimentos semelhantes na Coréia e na Rússia. Mas, com o início da segunda guerra mundial, os membros das comunidades Burakumin voltaram à estaca zero, e passaram a sofrer talvez ainda mais discriminação que antes, porque haviam ousado expressar-se.  Depois da guerra, com o Japão destroçado, outra vez sofreram os Burakumin, que além da miséria que todos sofriam, tinham ainda que enfrentar a discriminação facilitada pela infame lista que os impedia de conseguir melhores empregos. Muitos deles tentaram e conseguiram sair da comunidade, e até hoje tentam esconder sua origem.
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Frisando o que já deve estar claro: não há nenhuma razão física, emocional, racial, mental, ou cultural para a discriminação contra os Burakumin. O que os destaca é o fato de que seus antepassados eram forçados a lidar com animais e preparar cadáveres, e eles tinham que além de tudo pagar impostos mais altos que todos os demais japoneses. Ainda hoje, os Burakumin estão geralmente empregados em empresas de processamento de carne, e são das pessoas mais pobres do Japão. E, também ainda hoje, muitas crianças Burakumin são molestadas por colegas na escola, e chamadas de nomes relacionados a animais.
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É importante realçar, entretanto, que alguns dos artistas mais importantes da história do Japão foram — e são — Burakumin. Entre eles, houve vários artistas e criadores do teatro noh, assim como de kabuki, e de kyogen. Entre os escritores, sempre se menciona Mishima (autor de, entre outros, O templo do pavilhão dourado, traduzido ao inglês como The Temple of the Golden Pavillion), e atualmente Kenji Nakagami, que faz questão que se saiba que ele é Burakumin. Mas Nakagami é uma exceção. A maioria dos Burakumin não podem se dar ao luxo de exibirem a marca da discriminação, pela simples razão que, se fizerem isso, perdem emprego, e a possibilidade de se casarem com pessoas de for a do grupo.
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Voltando à história do meu jantar com minhas colegas da faculdade: depois de passado o primeiro choque causado pelo meu interesse pelo assunto, elas tentaram me convencer (enquanto falavam bem baixinho e olhavam pra ver se das mesas vizinhas ninguém estava nos escutando) que, mesmo na nossa universidade, há professores “desta classe.” Quem são eles? eu perguntei. Elas não puderam responder. Como vocês sabem que eles são Burakumin, se eles são iguais a todos os demais japoneses? Elas também não souberam responder. Talvez, numa cultura que abomina todo o que é diferente, esta existência às vezes fantásmica dos Burakumin funciona como uma forma de controle social. A classe seria, então, como o abismo do qual todos, mesmos os que vêm dela, fogem horrorizados, mas ao qual todos retornam, como que hipnotizados, afinal, ninguém pode ter certeza absoluta, mesmo com a famosa lista. Quando eu saí do restaurante com as colegas, eu fiquei imaginando se uma delas é Burakumin. Talvez elas estivessem pensando o mesmo uma da outra. Quem sabe até de mim? Embora eu seja claramente “gaijin” — estrangeira — nunca se sabe…
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Este pensamento me fez lembrar do brilhante filme “Blade Runner”, em que há, além dos seres humanos, uma classe de gente “sintética,” os “replicants”, que foram criados para trabalhar em lugares perigosos na galáxia, e agora estão querendo voltar à Terra. Eles têm sentimentos, memórias, e o mesmo corpo físico que todos os humanos: é quase impossível saber com certeza quem eles são. Na última cena do filme, um dos detetives representado por Edward James Olmos se volta para o personagem representado por Harrison Ford. Este último se apaixonou por uma mulher lindíssima, e descobriu que ela é uma replicant. Os replicants morrem logo. Os replicants estão sendo eliminados, por ordem do governo. Harrison Ford sabe disso. Ela pode morrer a qualquer momento. E ele está arriscando tudo pra ficar com ela, mesmo que seja contra a lei. O companheiro detetive entende. Olves se volta para Harrison Ford e diz, referindo-se à mulher, “É uma pena que ela não vai durar.” E remata, “Mas, afinal, quem vai?” Transpondo este momento para a situação dos Burakumin do Japão, podemos dizer sobre qualquer pessoa aqui, “É uma pena que ela seja Burakumin.” Mas, afinal de contas, no fundo, no fundo, quem não é?

* Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women’s University, em Nishinomiya, no Japão à época da publicação deste texto, ou seja, em outubro de 2002, REA nº 17; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000). Atualmente, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. 
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[1] Como este assunto é pouco conhecido no Brasil, aproveito a oportunidade para sugerir alguns títulos aos que se interessam e querem saber mais. Recomendo especialmente George DeVos e Hiroshi Wagatsumo, Japan’s Invisible Race: Caste in Culture and Personality (Berkeley: University of California Press, 1966), Michael Weiner, ed., Japan’s Minorities; The Illusion of Homogeneity (London/New York: Routledge, 1997), Jean-François Sabouret, L’Autre Japon, les burakumin (Paris: La Descouverte/Maspers, 1983), Suehiro Kitaguchi, An Introduction to the Buraku Issue; Questions and Answers ( Richmond, Surrey; Curzon, 1999), e The Reality of Buraku Discrimination in Japan (Osaka; Buraku Liberation Research Institute Publications, 1994).
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[2] Além dos Burakumin, as famílias também não admitem que os filhos e filhas se casem com coreanos ou chineses—cujas famílias muitas vezes estão no Japão há muitas gerações, mas ainda não têm a cidadania japonesa, diga-se de passagem. O mero nascer no Japão não faz ninguém japonês, daí a importância dos registros de família (como o sabem os descendentes de japoneses que puderam reclamar a sua “cidadania” porque os nomes de suas famílias constam aqui no Japão).
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Japan: Street View and the Burakumin
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Identidade, intolerância e as diferenças no espaço escolar: questões para debate - Eliana de Oliveira

blog da Revista Espaço Acadêmico



Identidade, intolerância e as diferenças no espaço escolar: questões para debate

Outubro 17, 2009
oliveirapor Eliana de Oliveira*
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Numa abordagem antropológica, a identidade é uma construção que se faz com atributos culturais, isto é, ela se caracteriza pelo conjunto de elementos culturais adquiridos pelo indivíduo através da herança cultural. A identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se evidencia  em termos da consciência da diferença e do contraste do outro.
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Ao longo de nossa história, na qual a colonização se fez presente, a escravidão e o autoritarismo contribuíram para o sentimento de inferioridade do negro brasileiro. A ideologia da degenerescência do mestiço, o ideal de branqueamento e o mito da democracia racial foram os mecanismos de dominação ideológica mais poderosos já produzidos no mundo, que permanecem ainda no imaginário social, o que dificulta a ascensão social do negro, pois este é visto como indolente e incapaz intelectualmente.
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A política de branqueamento que caracterizou o racismo no Brasil foi gerada por ideologias e pelos estereótipos de inferioridade e/ou superioridade raciais. A ideologia do branqueamento teve como objetivo propagar que não existem diferenças raciais no país e que todos aqui vivem de forma harmoniosa, sem conflitos (mito da democracia racial). Além desses aspectos, projeta uma nação branca que, através do processo de miscigenação, irá erradicar o negro da nação brasileira, supondo-se, assim, que a opressão racial acabaria com a raça negra pelo processo de branqueamento. Essa tese é apresentada pelo Brasil ao mundo.
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Gilberto Freire foi um dos pioneiros desse “mito da democracia racial” apregoando que existe, no Brasil, a igualdade de oportunidades para brancos, negros e mestiços. A disseminação desse mito permitiu esconder as desigualdades raciais, que eram constatadas nas práticas discriminatórias de acesso ao emprego, nas dificuldades de mobilidade social da população negra, que ocupou e ocupa até hoje os piores lugares na estrutura social, que freqüenta as piores escolas e que recebe remuneração inferior à do branco pelo mesmo trabalho e tendo a mesma qualificação profissional. A falta de conflitos étnicos não caracteriza ausência de discriminação, muito pelo contrário, o silêncio favorece o “status quo” que, por sua vez, beneficia a classe dominante.
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O movimento negro vem denunciando com freqüência o tratamento discriminatório recebido pelos negros, lutando não só para eliminar as políticas de inferiorização com respeito às diferenças raciais, mas também pela igualdade de oportunidade, que é a ética da diversidade.
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O nosso cotidiano escolar está impregnado do mito da democracia racial – um dos aspectos da cultura da classe dominante que a escola transmite –, pois representa as classes privilegiadas e não a totalidade da população, embora haja contradições no interior da escola que possibilitam problematizar essa cultura hegemônica, não desprezando as diversidades culturais trazidas pelos alunos. Assim, apesar de a escola inculcar o saber dominante, essa educação problematizadora poderia tornar mais evidente a cultura popular.
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A proposta de uma educação voltada para a diversidade coloca a todos nós, educadores, o grande desafio de estar atentos às diferenças econômicas, sociais e raciais e de buscar o domínio de um saber crítico que permita interpretá-las.
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Nessa proposta educacional será preciso rever o saber escolar e também investir na formação do educador, possibilitando-lhe uma formação teórica  diferenciada da eurocêntrica. O currículo monocultural até hoje divulgado deverá ser revisado e a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras culturas. E a escola terá o dever de dialogar com tais culturas e reconhecer o pluralismo cultural brasileiro.
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Talvez pensar o multiculturalismo fosse um dos caminhos para combater os preconceitos e discriminações ligados à raça, ao gênero, às deficiências, à idade e à cultura, constituindo assim uma nova ideologia para uma sociedade como a nossa que é composta por diversas etnias, nas quais as marcas identitárias, como cor da pele, modos de falar, diversidade religiosa, fazem a diferença em nossa sociedade. E essas marcas são definidoras de mobilidade e posição social na nossa sociedade.
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Nós, como educadores, temos a obrigação não só de conhecer os mecanismos  da dominação cultural, econômica, social e política, ampliando os nossos conhecimentos antropológicos, mas também de perceber as diferenças étnico-culturais sobre essa realidade cruel e desumana.
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Olhar a especificidade da diferença é instigá-la e vê-la no plano da coletividade. Pensar numa escola pública de qualidade é pensar na perspectiva de uma educação inclusiva. É questionar o cotidiano escolar, compreender e respeitar o jeito de ser negro, estudar a história do negro e assumir que a nossa sociedade é racista. Construir um currículo multicultural é respeitar as diferenças raciais, culturais, étnicas, de gêneros e outros. Pensar num currículo multicultural é opor-se ao etnocentrismo e preservar valores básicos de nossa sociedade.
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Se a educação está centrada na dominação cultural da elite branca, o multiculturalismo – por ser uma estratégia de orientação educacional para os problemas das diferenças culturais na instituição escolar – reconhece a alteridade e o direito à diferença dos grupos minoritários, como negros, índios, homossexuais, mulheres, deficientes físicos e outros, que se sentem excluídos do processo social. Portanto, deve ser uma teoria a ser propagada.
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Segundo o Prof. Kabengele Munanga, a identidade é para os indivíduos a fonte de sentidos e de experiência. Toda identidade exige reconhecimento, caso contrário ela poderá sofrer prejuízos se for vista de modo limitado ou depreciativo.
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A realidade que enfrentamos hoje é perversa. Olhamos crianças miseráveis perambulando pelas ruas das grandes cidades, vemos pela TV e jornais o sofrimento de crianças afegãs, meninas sendo prostituídas no Brasil e na Ásia e em outros países, massacres que transformam a segurança dos poderosos em insegurança para todos nós. Ninguém exige respostas para tantas desgraças, mas de todos nós exigem um comprometimento pessoal por uma humanidade mais justa e solidária. Curiosamente sempre estamos procurando um culpado por todos esses problemas. Além disso, podemos observar no nosso cotidiano flagrantes e atitudes preconceituosas nos atos, gestos e falas. E, como não poderia ser diferente, acontece o mesmo no ambiente escolar.
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Nessa proposta multicultural, a escola poderá elaborar um currículo que permita problematizar a realidade. Mesmo não sendo o único espaço de integração social, a escola poderá possibilitar a consciência da necessidade dessa integração, desde que todos tenham a oportunidade de acesso a ela e possibilidade de nela permanecer.
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A educação escolar ainda é um espaço privilegiado para crianças, jovens e adultos das camadas populares terem acesso ao conhecimento científico e artístico do saber sistematizado e elaborado, do qual a população pobre  e negra  é excluída por viver num meio social desfavorecido.
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A escola é o espaço onde se encontra a maior diversidade cultural e também é o local mais discriminador. Tanto é assim que existem escolas para ricos e pobres, de boa e má qualidade, respectivamente. Por isso trabalhar as diferenças é um desafio para o professor, por ele ser o mediador do conhecimento, ou melhor, um facilitador do processo ensino- aprendizagem. A escola em que ele foi formado e na qual trabalha é reprodutora do conhecimento da classe dominante, classe esta, que dita as regras e determina o que deve ser transmitido aos alunos. Mas, se o professor for detentor de um saber crítico, poderá questionar esses valores e saberá extrair desse conhecimento o que ele tem de valor universal.
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Na maioria dos casos, os professores nem se dão conta de que o país é pluriétnico e que a escola é o lugar ideal para discutir as diferentes culturas, e suas contribuições na formação do nosso povo. Eles também ignoram que muitas vezes as dificuldades do aluno advêm do processo que está relacionado à sua cultura, tão desrespeitada ou até ignorada pelos professores.
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A nossa escola é baseada numa visão eurocêntrica, contrariando o pluralismo étnico-cultural e racial da sociedade brasileira. E os educadores e responsáveis pela formação de milhares de jovens na sua grande maioria são vítimas dessa educação preconceituosa, na qual foram formados e socializados. Esses educadores não receberam uma formação adequada para lidar com as questões da diversidade e com os preconceitos na sala de aula e no espaço escolar.
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A pequena quantidade de alunos negros nas escolas é resultado, na realidade, da desigualdade praticada pela instituição escolar e pelo próprio processo de seu desenvolvimento educacional. Também a prática seletiva da escola silencia sobre as diferenças raciais e sociais, provocando a exclusão do aluno de origem negra pobre, dos portadores de necessidades especiais e de outros.
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Trabalhar igualmente essas diferenças não é uma tarefa fácil para o professor, porque para lidar com elas é necessário compreender como a diversidade se manifesta e em que contexto. Portanto, pensar uma educação escolar que integre as questões étnico-raciais significa progredir na discussão a respeito das desigualdades sociais, das diferenças raciais e outros níveis e no direito de ser diferente, ampliando, assim, as propostas curriculares do país, buscando uma educação mais democrática.
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Embora saibamos que seja impossível uma escola igual para todos, acreditamos que seja possível a construção de uma escola que reconheça que os alunos são diferentes, que possuem uma cultura diversa e que repense o currículo, a partir da realidade existente dentro de uma lógica de igualdade e de direitos sociais. Assim, podemos deduzir que a exclusão escolar não está relacionada somente com o fator econômico, ou seja, por ser um aluno de origem pobre, mas também pela sua origem étnico-racial.
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Bibliografia:
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GIROUX, Henry A. Cruzando as fronteiras do discurso educacional: novas políticas em educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999
GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira & SILVA, Petronilha B. Gonçalves e. O jogo das diferenças: Multiculturalismos e seus contextos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998
MUNANGA, Kabengele. O preconceito racial no sistema educativo brasileiro e seu impacto no processo de aprendizagem do “alunado negro”. IN: Utopia e democracia na Escola Cidadã. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal de RGS, 2000.
PIERUCCI, Antônio Flavio. Vivendo o preconceito em sala de aula IN: Diferenças e preconceitos na escola alternativas teóricas e praticas. São Paulo: Summnus, 1998
__________. Ciladas da diferença. Tempo Social, 1990.
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* Psicopedagoga; Doutora em Antropologia Social da FFLCH – USP e Pesquisadora do NEINB (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro da USP). Atualmente é professora e coordenadenadora do curso de Pedagógica da FMC, membro da Comissão Própria de Avaliação-CPA da Faculdade Metropolitana de Caieiras-FMC, professora do curso de Pós-Graduação da Escola Superior da Procuradoria Geral do Estado-ESPGE. Publicado na REA, nº 07, dezembro de 2001, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/007/07oliveira.htm
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Internet: Falso deus - Gislene Bosnich


 Falso deus « blog da Revista Espaço Acadêmico

Falso deus

Outubro 24, 2009
gislenebosnichpor Gislene Bosnich*
Quando algo começa a mostrar-se necessário e valioso os homens logo deixam de enxergar o necessário como realização de sua capacidade e emancipam o objeto que criaram dando-lhe vida própria. Este é o novo caso de estranhamento que vem ocorrendo com a internet.
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A internet não é um ente mirabolante que nos faz o favor de apresentar uma série de dados ou de realizar pesquisas sobre assuntos pitorescos. A internet é produto de homens, de pessoas de carne e osso que colocam o produto de seu trabalho a disposição de outros homens. A internet é um instrumento também produto do trabalho de outros, mas não é por si só uma maravilha superior ao criador. A internet é o acesso, mas não é nada sem a atualização da produção humana.
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Isto precisa ser compreendido e é bom lembrar que recente pesquisa apurou que a maior parte dos sites brasileiros não dispõe de atualização. E sem atualização – feita por gente de verdade – e não por nenhum programa autônomo, não há informação e sem informação a internet é como uma notícia perdida, descartável, preste a tornar-se pronta para o embrulho. Quero dizer que internet é trabalho humano e não um amontoado de programas mirabolantes que nada dizem e que, em princípio, podem até encantar, mas morrem nas areias das praias daqueles sem intenção, manipulados sempre por quem sabe plantar uma aparente verdade que encobre interesses particularistas.
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Inovações de propósitos
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Também não é verdade que a Internet substitua uma pesquisa verdadeira ou a ida a um Museu em qualquer parte do mundo como o governo, com suas campanhas televisivas, quer nos fazer acreditar. O mundo virtual não substitui o real. A internet é uma ferramenta para quem trabalha contra o tempo, pois, quem trabalha a seu favor e dispõe de dinheiro para suas empreitadas apenas a utilizará como um guia e nisto de fato reside seu valor, pois, não é verdade que encontramos tudo que desejamos na internet.
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Um livro raríssimo continua tendo de ser comprado e sequer pode ser ‘baixado’, através de algum programa. Portanto, a internet não é uma grande biblioteca. É um grande roteiro de evidências para se descobrir um livro numa biblioteca real ou então encomendá-lo virtualmente. Uma grande fonte de dados, mas não necessariamente o acesso completo a eles. Sem contar as home pages que cobram pelo acesso. Aliás, sem contar que temos de pagar pelo provedor, porque afinal de contas não demorou muito para suspenderem os provedores gratuitos ou estes provaram-se praticamente inviáveis, empelindo-nos ao provedor pago. Imagine se tivéssemos de pagar, além da energia (quando há), uma taxa extra para assistirmos aos programas televisivos. Sem contar também os cartéis que envolvem as conexões rápidas que não necessitam da discagem telefônica. Há muitos percalços para que a internet fique mais semelhante ao que se imagina que ela seja.
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E a internet tem muitos empecilhos que precisam ser eliminados por nós para que o veículo preste-se mais àquilo que motivou seu nascimento. Talvez a rede de fato não seja a mina de ouro do capitalismo. Os investimentos têm sido tão altos quanto às falências em brevíssimo tempo. É preciso inovar o propósito, pois, caso contrário, o aparente emissário da pós-modernidade irá cair na pasmaceira oficial de outros mecanismos de informação.
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Utiliza-se a internet para atingir a pessoas reais em suas atividades reais de transformação do mundo. Ainda atingimos poucos, pois, num país de analfabetos a internet é jóia rara, como uma ‘pepita’ em Serra Pelada.
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Sem endeusamento
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Parece contraditória fazer esta crítica à internet quando me utilizo dela para transmitir a mesma crítica, mas isto é apenas aparência, já que na maior parte do tempo temos de lutar no interior do campo inimigo e transformá-lo, deixando de reproduzir sua lógica; alterando sua gênese; este movimento que pretende imprimir à virtualidade poder supremo sobre a realidade.
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Um mundo mais rápido, à la just in time, tem lá suas exigências de veículos mais rápidos, mas parece que nenhum tornou-se erroneamente tão independente da atividade humana quanto a grande teia. Precisamos utilizar seus fios e não nos emaranharmos nele. Assim como outro veículo, se mal utilizada só traz a manipulação. Vejamos o que acontece com a grande mídia. Um retalho mal costurado da oficiliadade, na maior parte dos dias.
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Penso que este seja um dos erros dos sites noticiosos e da maior parte dos blogs; ausentarem-se da realidade do mundo e tornar mundial sua realidade umbilical que, raras vezes, escapa da mediocridade de uma vida afirmativa, despolitizada ou da oficialidade do “anunciante”, muitas vezes a própria grande mídia que encontra megafone para repercutir sua manipulação. O fato é que deve existir uma intenção na comunicação, qualquer que seja e para o que seja. E há poucos umbigos interessantes para virarem notícia. E estamos fartos de “reality shows”, com seus objetivos rasteiros na busca do “sucesso”. É certo que a impotência produzida por anos de repressão faz com que no momento em que a liberdade de expressão pareça facilitada haja uma explosão de comunicações que nada dizem.
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Justiça seja feita. Há blogs que parecem pichações e outros que se assemelham a grafites, ou seja, que transmitem algo, que de fato pretendem ser veículos de comunicação. Mas escrever não tem sentido se for uma atividade de ermitão. Ninguém escreve para si mesmo. (A não ser em momentos muito especiais). Escreve para atingir o outro. Para despertar no outro alguma atitude, ainda que num primeiro momento seja reflexiva. Cabem as perguntas: se os milhares de blogs levam ao “limite” o ato de se “linkar” mutuamente, porque não aprimorar essas mensagens para algo que realmente seja transformador em nosso cotidiano real? Será que a abundância não disfarça métodos semelhantes aos utilizados pela mídia de massa, que repetem conceitos e interesses à exaustão, deslocados da nossa realidade?
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A internet pode ser reivindicada, mas não endeusada e muito menos “seqüestrada” da atividade humana e do momento histórico em que ela nasceu. Se a necessidade de imprimir velocidade a todas as relações de produção do capitalismo criou a grande rede podemos transformá-la para destruir formas que nos oprimem e não para que ela seja o espírito do grande irmão, ou “Big Blogger”, se preferirem. Além disso, não me agrada saber que os e-mail’s podem ser vasculhados e meus arquivos bisbilhotados por uma dita inteligência governamental – brasileira ou não.
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Engajamento e projetos amplos
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Se houver uma conspiração contra o poder mundial ela não será pela internet. Pelo menos não por esta internet que conhecemos hoje, onde o principal propulsor é tornar os fortes ainda mais fortes e os fracos ainda mais alijados de qualquer “revolução”. Será que é possível humanizar aquilo que é fruto do capitalismo, principalmente, de sua fase absolutamente desumanizadora?
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Não temos conseguido isto com as demais mídias. E se lá não podemos adentrar porque não detemos os meios de produção, aqui na Web há uma certa facilidade sob este prisma. Mas não podemos agir individualmente, como se houvesse uma segunda Torre de Babel (já nos basta a mitologia católica que criou a primeira). Devemos nos engajar em projetos mais amplos que, no mínimo, pretendam democratizar e garimpar novos colaboradores militantes em causas realmente valiosas.
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Talvez esteja aí o grande dilema da internet: quais são as causas que podemos compartilhar? Muitos interesses dispersos e muitos mais distintos. É preciso compartilhar mais do acordo e do desacordo. É necessário outra pauta, outros “posts” que possam enaltecer atividades dignas e não só a miséria produzida. É preciso parar de apenas enviar o artigo por e-mail aos amigos. Temos de abraçar os amigos! É preciso criar o tempo que nos tiraram numa pressa que não poderia existir mais. (Pois, então, para que servem as máquinas que criamos?) É preciso participar, criticar e escrever mais sobre um dilema bem mais amplo: o mundo que desejamos construir e que tentamos fazê-lo num cotidiano mais severo e possibilitador que há para além de monitores e teclados.
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* Jornalista independente e socióloga. Publicado na REA, nº 10, março de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/010/10gislene.htm
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