Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 26 de março de 2012

Os sinais de Salazar em Santa Comba



Correio da ManhãHistórias

Já não há estátua e as propriedades do ditador estão ao abandono. Apenas um largo e uma avenida com o seu nome
25 Março 2012

Por:Manuel Catarino

 
O espólio de Salazar doado pelo sobrinho continua encaixotado

A bomba pôs fim à discussão. A Câmara Municipal de Santa Comba Dão queria recolher o que restava da estátua – mas uma parte da população, apoiada por saudosistas de fora da terra, pretendia restaurá-la. A estátua já não tinha cabeça – e ali estava Salazar, sentado no alto de um pedestal de granito, ridiculamente decapitado. Na madrugada de 12 de Fevereiro de 1978, um domingo, a vila acordou com o estrondo. Uma carga de dinamite reduziu Salazar a pedaços. Conversa acabada. O povo ficou sem estátua para restaurar – e a autarquia pôde finalmente livrar-se da polémica. O que sobrou da estátua, uma amálgama de cobre retorcido, repousa hoje na cave da Casa da Cultura.
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A memória do homem nascido na freguesia do Vimieiro e que governou o País com mão-de-ferro durante décadas divide o povo do concelho: uns querem perpetuá-lo saudosamente, outros nem por isso. Apenas parecem unidos no velho sonho que o município alimenta há anos para a construção de um centro museológico dedicado ao Estado Novo – o período da História de Portugal fundado em 1933 por Oliveira Salazar. Em Santa Comba Dão, os únicos sinais visíveis do ditador são o largo que ainda mantém o seu nome – e, no Vimieiro, a avenida Dr. Oliveira Salazar, a antiga estrada para Coimbra que passava à porta da casa onde nasceu e da outra que comprou já era presidente do Conselho.
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Até a iniciativa do presidente da Câmara, João Lourenço, de engarrafar um vinho da região com a marca ‘Memórias de Salazar’, é recebida com alguma cautela. Rui Félix, de 76, reformado da indústria dos mármores, desconfia da qualidade da pinga. "No concelho de Santa Comba, por causa da humidade excessiva, não há vinho capaz" – diz. E Salazar, muito provavelmente, merecia melhor. Rui Félix nem quer imaginar que se dê a uma zurrapa qualquer o nome do homem que "fez tanto" por este País.
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Mas o presidente da autarquia, João Lourenço – que mantém absoluto segredo sobre o produtor, "para evitar problemas" – garante que o vinho "não vai envergonhar ninguém". Sérgio Viegas, proprietário de um café no centro da cidade, não está nada preocupado com a qualidade do tinto. É o que menos lhe interessa: "Pior ou melhor, o vinho há-de beber-se. Isto dos produtos com a marca de Salazar é bom para o comércio. Muita gente se calhar passa a vir cá para comprar recordações."
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O HERDEIRO
O espírito saudosista dos da terra e dos de fora é tenazmente combatido por quem menos se espera – o sobrinho-neto do ditador, Rui Salazar de Lucena e Melo. Vive na moradia herdada dos pais, no enfiamento das casas com a quinta nas traseiras que foram propriedade do tio.
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Rui Salazar nem quer ouvir falar do vinho com o nome do chefe incontestado do Estado Novo. "O professor Salazar foi um estadista que marcou como nenhum outro um período bastante significativo da História de Portugal. Transformar o seu nome numa marca comercial, seja de vinho ou de outra coisa qualquer, cheira a saudosismo e isso é a pior maneira de perpetuar a sua memória", diz.
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O que Rui Salazar quer é um museu do Estado Novo – a menina dos seus olhos. Doou à Câmara boa parte do espólio do tio que lhe coube em herança, entre documentos e objectos pessoais, e ainda o seu quinhão (um terço) das casas e da quinta do tio no Vimieiro. Chegou a acordo com o município. Em troca da doação, Rui Salazar receberá mensalmente dois mil euros, a partir do momento em que o museu começar a funcionar. "Para mim só quero 500 euros. Com os outros 1500 constituo um fundo para financiar estudantes interessados em estudar o Estado Novo" – diz.
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O museu tarda. Encalhou na crise – mas, principalmente, nas dificuldades que a Câmara de Santa Comba Dão tem experimentado nas negociações com o irmão de Rui, herdeiro do resto da propriedade. António é proprietário dos outros dois terços. O acordo já esteve firmado – mas foi desfeito à última hora pelo herdeiro. Nada mais restará à autarquia que não seja a expropriação
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O MITO DA POBREZA
Salazar reclamava-se filho de pobres – mas os meios da família não eram assim tão acanhados em rendimentos como o mito fez crer.
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O pai, António Oliveira, que já dobrara os 50, e a mãe, Maria do Resgate, já com 44 anos, não esperavam ver aumentada a prole. Tiveram quatro filhas de enfiada – Marta, Elisa, Leopoldina e Laura, assim por esta ordem – em nove anos de casamento. Veio-lhes, por fim, um filho varão. A criança nasce pelas três da tarde de 28 de Abril de 1889, num chuvoso domingo de Primavera, na casa de família, no Vimieiro, a dois passos de Santa Comba Dão. O menino fica António, mais os apelidos Oliveira, como o pai, e Salazar, como o avô materno.
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Naqueles confins das Beiras mandam os Perestrelos, senhores de terras. A rica família fidalga contratara António Oliveira como feitor – cargo de rendimento certo e de alguma projecção social. O pai de Salazar passa então a ser respeitosamente tratado por António Feitor. Os mais influentes da sede do concelho davam-lhe a honra do aperto de mão.
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A intimidade tinha os seus limites. António Oliveira convidou para padrinhos do filho mais novo dois Perestrelos, António Xavier Perestrelo Corte-Real e Maria de Pinna Perestrelo, pai e filha – que aceitam o encargo, mas não põem os pés na igreja. O menino é baptizado a 16 de Maio, uma quinta-feira, pelo padre António Nunes de Sousa. Os ilustres padrinhos fazem-se representar por gente mais ao nível do feitor – o carpinteiro Francisco Alves da Silva e a mulher, Luísa da Piedade.
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A casa onde Salazar nasceu fica mesmo à beira da estrada, caminho dos almocreves com as bestas de carga. António Oliveira e Maria do Resgate, aí pelo nascimento da segunda filha, transformam parte da casa em hospedaria e taberna: ele continuou com feitor – enquanto a mulher toma conta do negócio com desenvoltura e austeridade. António Oliveira ainda conseguirá ganhar bom dinheiro como intermediário na venda de lotes de terreno, no Bairro Novo da Estação.
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TAL MÃE, TAL FILHO
O rosto de Maria do Resgate repete-se no filho. As quatro filhas puxam mais ao pai. Salazar tem as feições da mãe: os mesmos olhos miúdos e penetrantes, a mesma face cavada, os mesmos lábios finos. O rapaz cresce fracalhote e tímido. Brinca com as irmãs. A mãe é tudo para o menino – e o filho é tudo para ela.
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Aos sete anos começa a aprender, a ler e a contar – com lições particulares, em casa, todos os fins de tarde, pelo escriturário municipal José Duarte. Ao fim de três anos, Salazar, num dia de Verão de 1899, é aprovado em Viseu no exame da instrução primária. O negócio da hospedaria prosperava. Havia saúde e dinheiro. A família construiu outra casa, perto da antiga, mais espaçosa. António Oliveira, com invulgar olho para o comércio, publicava anúncios em jornais da região a chamar hóspedes e comensais. Sonhava ver o filho tomar-lhe o lugar de feitor dos Perestrelos e queria treiná-lo para os trabalhos do campo.
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Mas Maria do Resgate tinha outros planos para o rapaz, pretendia dar-lhe estudos, e correu a tomar os avisados conselhos do prior. O padre António também era de opinião que o menino, inteligente, podia ir longe nos saberes. Só via um inconveniente: achava-o demasiado delico-doce para aguentar as malvadezas dos rapazes do liceu de Viseu. A não ser, sugeriu o cura, que estudasse no seminário, lugar de ordem e disciplina. Maria do Resgate não quis ouvir mais. Estava decidido.
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No final do Verão de 1900, Salazar sai para sempre do aconchego do lar, no Vimieiro. Já completara os 11 anos. A mãe estraga-o com uma malinha de roupa no seminário de Viseu, no antigo convento dos Néris, casarão de dois andares, assombroso, gelado. A criança habituada aos desvelos maternos fica agora aos cuidados do austero padre José Frutuoso da Costa, que garantia a disciplina com mão-de-ferro.
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FÉRIAS NO VIMIEIRO
Salazar nunca deixou de ir ao Vimieiro. Nos tempos de estudante em Coimbra, depois como lente da Faculdade de Direito e já todo-poderoso presidente do Conselho, a partir de 1932, passava as férias no sítio onde nasceu.
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Ao que era dos pais foi acrescentando propriedade sua – à medida das posses. De uma vez com um empréstimo amigo. O padre Carneiro de Moura, abastado sacerdote de Coimbra que financiava a propaganda católica contra os desmandos da República, adiantou--lhe a fortuna de 150 contos de réis. Salazar, já chefe do Governo, comprou mais um bocado de terra aos Perestrelos para acrescentar à sua quinta – onde fazia vinho.
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Elsa Amaral, de 73 anos, reformada como enfermeira-chefe da Maternidade Bissaya Barreto, vive na casa onde nasceu – praticamente paredes meias com a quinta de Salazar. Lembra-se muito bem do presidente do Conselho. "Era um homem encantador. Gostava de crianças. Cumprimentava-me sempre com um beijinho" – recorda.
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Fernando Durães, hoje com 80 anos, só viu Salazar ao longe: "Subia a rua a caminho da escola e, quando ele lá estava, fugia para o outro lado com medo dos guardas fardados e dos homens à paisana que se dizia que eram agentes da polícia política."
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"VENDAVAL DE ALEGRIA"
Mas a vizinha Elsa nunca teve medo do "encantador" Salazar. Até acompanhou o namorico do chefe do Governo com Christine Garnier: "Passeavam os dois muito queridos e conversavam sentados à porta". Christine, literata e jornalista nascida na Bélgica e com vida em Paris, imaginou um livro que lhe traria fama e proveito: uma biografia íntima de Salazar. O chefe do Governo, no primeiro contacto em Lisboa, fica seduzido – tanto que a convida a visitá-lo na terra.
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Christine Garnier passa um curto período de férias no Vimieiro. Vivem um doce namoro. Ela fica hospedado no Hotel da Urgeiriça. Trabalha apaixonadamente no livro com Salazar – enquanto o marido se perde nas noites de Lisboa e de Cascais pela mão do banqueiro Ricardo Espírito Santo. Salazar, em carta ao embaixador Marcello Mathias, recordará estes tempos como um "vendaval de alegria" e "uma desordem perfumada".
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A enfermeira Elsa ainda hoje se lembra da toilette de Christine Garnier: "Ela alternava uma saia castanha com cornucópias em dourado com um vestido preto muito elegante". Um detalhe: "Ela andava sempre de saltos altos e, claro, Salazar dava-lhe o braço. Faziam um par muito bonito." Faz-lhe dó o estado de abandono em que se encontra a propriedade de Salazar: "Podemos não gostar do que ele fez ou deixou de fazer, mas foi um homem que marcou o País e ninguém pode apagá-lo da História."
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Tina Coimbra, comerciante, nunca viu Salazar por perto. Mas admira-lhe a obra: "Fez muito por este País. Merece-nos todo o respeito e admiração". E, a propósito do vinho com o seu nome, Tina só espera que a qualidade esteja à altura do homem que lhe dá o nome.
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DECAPITADA, DESTRUÍDA À BOMBA E ESCONDIDA
A estátua de Salazar em Santa Comba – inaugurada em 27 de Abril de 1965, com toda a pompa e circunstância na presença do Presidente da República, almirante Américo Tomás – foi decapitada nos tempos quentes que se seguiram à Revolução de 25 de Abril. Um grupo de admiradores financiou uma cabeça nova. Mas o pior aconteceu.
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A cabeça, mal tiradas as medidas, não encaixou no pescoço da estátua – e Salazar lá continuou decapitado no pedestal. A cabeça está agora guardada numa arrecadação da Câmara. É um embaraço. Ninguém sabe o que fazer com ela. Uma bomba acabou com o que restava da estátua. Hoje, no seu lugar, está um monumento de homenagem aos combatentes do concelho. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Alfredo de Matos Tributo ao meu amigo de sempre – Zeca Afonso



Avante! 
N.º 1995 
23.Fevereiro.2012


No 25.º aniversário da sua morte
Homenagem a Zeca Afonso


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(…) Fui um bom engenheiro 
um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida 
me ensinou a cantar esta cantiga
(Alegria da criação - José Afonso)






  • Alfredo de Matos 


Tributo ao meu amigo de sempre – Zeca Afonso
No 25.º aniversário da morte de José Afonso – o Zeca Afonso como lhe chamaram todos os amigos – o Avante! presta tributo ao compositor, poeta, cantor, militante insubmisso de causas justas, através do testemunho do seu amigo Alfredo Matos que tão bem o descreve como o que ele sempre foi: um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.
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Foi um momento particularmente emocionante quando o Zeca, perante insistência continuada, a que não resistiu, interpretou, naquele local, naquela Vila, naquele ano, àquela hora e para aquela imensa multidão, aquele libelo acusatório temível e sempre actual – «os Vampiros». Que noite inesquecível!
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Conhecemo-nos no início de 1967. Com frequência nos visitámos. Eu, na sua primeira casa, em Setúbal, o Zeca, na minha casa, no Barreiro e, aqui, conviveram, connosco, algumas vezes, dois grandes amigos comuns – o Carlos Paredes e o Adriano Correia de Oliveira. Momentos de conversa livre e amiga.
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Desenvolvemos uma amizade sólida, na base de imensas cumplicidades, à volta dos nossos ideais, principalmente. Esta relação levou a que o Zeca tenha aderido e participado, com grande entusiasmo, naquele memorável espectáculo, um autêntico concerto, talvez a maior e mais vibrante sessão de poesia e canto que encheu como um ovo o ginásio do Luso do Barreiro, no dia 11 de Novembro de 1967, um sábado, da iniciativa do Cineclube do Barreiro – cuja direcção, liderada por Álvaro Monteiro, viria, por esse motivo, a ser presa pela PIDE – e da Comissão Cultural do Luso. Este foi mais um dos momentos em que tomámos nas nossas mãos a procura da liberdade que o poder fascista nos negava.
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Adriano Correia de Oliveira não cantou porque, como explicou, estava na tropa. Odete Santos declamou poetas como António Gedeão e Manuel da Fonseca. Teresa Paula Brito interpretou Para Não Dizer Que Não Falei De Flores eespirituais negros. O virtuosismo de Carlos Paredes e Fernando Alvim em temas como Verdes Anos. Por fim, Zeca Afonso acompanhado à viola por Rui Pato. A apresentação, improvisada mas conseguida, esteve a cargo do barreirense Manuel Teixeira Gomes. Serviu de apoio à partitura com os textos do Zeca, o muito jovem, e meu filho, Vítor de Matos.
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Uma multidão, impensável, naqueles tempos e naquelas condições, repetia com insistência:
«Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros»«Vam-pi-ros».

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O Zeca não queria, resistiu até ao limite, mas era impossível não ceder ao pedido incessante da multidão. Todas as emoções transbordaram quando aquela Voz rompeu, como um grito, o momento de silêncio:

«No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada».

Ovação poderosa estalou na sala. E, em coro, todos, a uma voz, sublinham;

«Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada».

Estava a viver-se um impressionante e indescritível acontecimento, de grande impacto na região, que, num período de crescentes acções políticas oposicionistas, empolgou o começo da movimentação dos democratas para o intenso período eleitoral de 1969, em que, no Concelho do Barreiro, a CDE venceu, nas urnas, a União Nacional.
 *
 A 22 de Julho de 1970, Zeca dedicou-me «Por Trás Daquela Janela», Poema, por si criado e manuscrito, que posteriormente me entregou.
Estava eu, então, preso no Forte de Caxias. Foi em Maio daquele ano, no dia 3, que a PIDE assaltou, simultaneamente, no Distrito de Setúbal, de madrugada, oito casas, prendendo oito cidadãos: quatro, em Setúbal – Carlos Lopes, António Gonçalves, Fernando Carlos e Zacarias Fernandes. Um, na Moita – Staline Rodrigues. Um, em Alhos Vedros – Leonel Coelho. Dois, no Barreiro – Álvaro Monteiro e Alfredo de Matos.
Pelo Natal de 1972, este Poema, também com música do Zeca, de interpretação difícil como o próprio o referia, foi editado em disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira,que também incluiu a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961. Eis o que diz o manuscrito:

Ao Alfredo Matos

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Assina: José Afonso




Nas minhas cartas da prisão, à Eve, a minha companheira, dou-lhe conta das emoções ao ouvir aquela Voz, vinda de um gira-discos, que uma vez por semana, durante escassas horas, escutávamos intercalada com a voz de Paco Ibañez, de Jean Ferrat, de Léo Ferré, de Adriano Correia de Oliveira, de Beethoven… É a Voz. Aquela Voz. Nas cartas, eu ia escrevendo, frases espalhadas pelo texto que lá iam passando «… ondas eléctricas percorrem todo corpo, eriçando-lhe os pelos, tal pele de galinha, sensação que se vai repetindo, quando o nosso Zeca arranca o São Macaio… e, o Menino do Bairro Negro – Bairro, bairro negro onde não há pão não há sossego… e, Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar… e, Os Vampiros – No céu cinzento sob um astro mudo. Ao ecoar Maio Maduro Maio, o silêncio suspende a nossa respiração»





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No 1.º de Dezembro de 1970, no Forte de Caxias, escrevinhei um texto como se fosse um poema, dedicado ao Zeca, que dele nunca teve conhecimento, talvez porque o achei de valor muito reduzido, mesmo pobre, embora com algum simbolismo pelo lugar e condições em que foi criado. Ei-lo:

Um dia golpearam o pé da flor
Mas a criança agarrou a flor
Que voltou a dar pétalas garridas
Com um perfume ainda mais doce

E a flor se fez árvore

Depois negro vendaval
Arrancou seu forte tronco…
Mas vieram as crianças
As Mulheres e os homens
Que voltaram a plantar a árvore
Que voltou a dar flores e frutos
Para as crianças
As mulheres e os homens.

E a árvore se fez bosque…

Aqui chegou o poeta…
Não há melhor melodia
Que esta faca afiada
Que este golpe de martelo
Que um vagido de criança

Treme a terra bem no fundo de nós
Acordam os Poetas
Os soldados erguem as armas
Galgam as águas dos rios
Rasgam as aves o céu…

Ouvi a sua voz
É Portugal que canta
É Portugal que está no seu poema
E a alegria volta cheia de música
Trova. Balada. Canção
O Poeta canta a vida da gente
Pescador. Camponês. Resineiro. Soldado
Poeta. Operário. Ceifeira. Doutor

Tudo é vida no seu canto
Flor. Árvore. Fruto. Pedra
Tudo em ti é movimento

Rei que tu não foste sendo
Ao teu País dás o teu grito
Há uma nuvem de gente no teu canto

Na tua voz há festa
Tem raiva o teu cantar
Há amor e esperança nas tuas Palavras
É Portugal que está no teu Poema
É Portugal que está na tua voz.

Dedicado à minha irmã, Conceição – presa em 1965, depois em 1968, activista política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel – o Zeca escreveu um poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. A letra, que ataca explicitamente a PIDE em homenagem a uma combatente expressamente nomeada, nunca chegou a ser gravada. Ei-la:

À Conceição Matos
Na Rua António Maria
Da Primaz Instituição
Vive a Maior Confraria
Desta válida Nação

E muita matula brava
Ainda pensava
Que havia de vir
Um dia assim de repente
Para toda a gente
Voltar a sorrir

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Na Rua António Maria
Convenha a todos saber
A patriótica espia
Sabe bem onde morder

Vela pela vossa morada
No vão duma escada
Sem se anunciar
E oferece a quem bem destina
Um quarto de esquina
Com vistas pr`ó mar

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Tem quatro letras apenas
Mas outro nome lhe dão
Nesta Fortaleza antiga
Só não muda a guarnição
E muita matula ufana
Cuidado que a mana
Morrera de vez
Deu graças à Dª. Urraca
Ao som da ressaca
Que o pagode fez

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Aldeia da roupa branca
Suja de já não corar
O Zé Povo foi à França
Não se cansa de esperar

O capataz de fazenda
Pôs a quinta à venda
Para quem mais der

E os donos marcaram tentos
Com novos inventos
Doa a quem doer

Assina, Zeca Afonso

Sem que jamais cesse, a minha admiração pelo Zeca – é assim o trato, que eternamente se manterá, quando citado – assenta, ainda, na sua qualidade impar de criador de poesia e de músico, de compositor de génio, sempre irrepetível, de ser o seu próprio e maior intérprete e também pelo seu carácter íntegro, generoso, leal, solidário. Zeca, um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.


O Zeca em Setúbal

O Zeca Afonso foi um dos fundadores e animadores do Círculo Cultural de Setúbal, como é sabido. Mas um dos locais privilegiados da sua actuação, assim como de muitos outros cantores e fadistas amadores, era a catedral da «conspiração» comunista, a «Academia Sapec», a taberna do nosso camarada Jerónimo Bárbara – o Sapec –, aberta há 43 anos, e que hoje, desde o seu falecimento, é o Restaurante Egas, mantendo persistentemente todos os domingos uma noite de fado.
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Não é por acaso que o «Egas» é fiel depositário de uma reprodução do Avante! nº. 48, de Agosto de 1937, onde há um texto intitulado «O FADO E O FACISMO».
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Curiosamente, na noite de 15 de Fevereiro passado, dia em que o Avante! fez 81 anos, a neta do Sapec, Carolina, leu entre acordes «A morte saiu à rua», grito de José Afonso contra o assassinato de José Dias Coelho, a 19 de Dezembro de 1961  [1].


Enviado por  em 10/06/2010
José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961, morto pela PIDE) foi   um artista plástico dirigente do Partido Comunista Português, assassinado pela PIDE.



Uma das mais belas canções de Zeca Afonso em louvor de Catarina Eufémia, trabalhadora rural, de Baleizão, militante do PCP, assassinada pela Guarda Nacional Republicana quando em greve com um rancho de ceifeiras quando reivindicavam trabalho e aumentos salariais


O assassinato levou Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música: A morte saiu à rua. 




Poema de Luís de Camões musicado por José Afonso.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Urariano Mota: carnaval em três dias


21 DE FEVEREIRO DE 2012 - 11H47 


Página Inicial

No primeiro deles, era domingo de carnaval 1958 em Água Fria. Ali, em frente ao Cinema Império, no largo do bairro, passavam mulheres, meninos, homens, piratas, colombinas, vedetes, palhaços, toureiros, zorros, ursos, lança-perfumes, bisnagas, perfumes, promessas de corpos nus que não podíamos pegar. 

Por Urariano Mota





Havia um suor bom onde se colavam os confetes, umas peles abrasadas, uns sovacos mal raspados que eram em si mesmos fetiches do sexo feminino, esbarrando-se num fogo que desejava a tudo queimar, ardendo até a alma pobre da gente.

Era uma explosão de braços e pernas no frevo, uma multidão revolta, uma humanidade negra, mulata, branca, revoltada, que se anunciava, e não sabíamos: atenção, menino, atenção, infância: “nós passaremos”. 

Acaso sabíamos que nem sombra de sêmen e amor restaria no corpo imperioso, flamante daquela mulher endemoninhada? Que suas coxas não seriam eternas, sabíamos? Ah, mas pressentíamos, e sem ciência aprendida, somente com o saber da urgência do nosso sangue, com a percepção transmitida de gente a gente, que corria a multidão, que vem de gerações desde que o homem se fez na terra, gritávamos:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia....” 

Então vinham os acordes, letais. Que em letras de fogo deveriam estar gravados.


No segundo dia, é segunda-feira de carnaval em 2005. Eu me recupero de uma cirurgia, que se não foi ruim, fora ruim sem dúvida. Sentado espiono os blocos que passam na rua. O som dos metais, o chamamento à desordem é uma ordem lá fora. As fantasias e os mascarados passam como os navios e os trens passam, como o gozo proibido e negado passa. A música do frevo estoura em todo o ar e paisagem como uma perseguição. Assim sentado, sinto-me como o personagem de Hitchcock, o fotógrafo Jeff, de Janela Indiscreta.

A vida é irônica. No fim de 2004, eu havia dito à mulher e aos filhos, como todos os anos repito e reclamo: “O próximo carnaval eu não brinco. Chega! Quero distância desse barulho”, e a trincar os dentes acrescentara, como todos os anos: “eu não suporto mais tamanha agitação. Chega!”. Deus me ouviu. À sua maneira me ouviu: aqui estou, longe da folia, conforme o desejo inicial, mas sob estrita recomendação médica, incapaz absoluto de pular, de saltar, tão frágil quanto o homem de vidro, aquele em que se transformou O licenciado Vidraça, de Cervantes. “Este ano eu não brinco”, dissera, e os deuses me ouviram. Então ouço uma canção na rua, “neste carnaval, quá-quá-quá-quá, meu prazer é gargalhar”. 

Ouvia isso e o paradoxo vinha: agora que não podia sair, brincar, pular, beber, beber até cair, agora que estava na paz do recolhimento, agora que ganhava o privilégio de ser evitado pelos alegres foliões, justamente agora sentia uma falta extraordinária de carnaval. No momento em que podia ficar em casa a ler e a ouvir música suave, ah, como desejava “Olinda, quero cantar”, como me acendia o desejo de estar na multidão, com os metais a gritar o mais alto frevo, ah, como desejava receber cotoveladas e empurrões à altura do rim, da cicatriz no ventre! Ah, como e quanto desejava mergulhar de cabeça no álcool, na cachaça, no sol quente, no azul luminoso, mergulhar até virar éter, lança-perfume, porque forte era a consciência do quanto breve e estúpida era, é a nossa existência. 

Agora, hoje, no terceiro dia são vésperas do carnaval de 2012. A casa se enche de máscaras, coroas de pano de rei, coroa de latão de rainha. E mais licor de jenipapo, de caju e de laranja-cravo. Um filho chega do Rio, louco e ansioso por Olinda, a filha vai para um bloco de jovens na Cidade Alta. À minha revelia, a senhora esposa é toda preparação para os urgentes, alegres e felizes três próximos dias. Por mim, não, eu não brincava, sem dúvida. Por mim, eu me recolhia para altos estudos, leituras, silêncio e meditações. Mas como vou decepcioná-los? É coisa muito feia atrapalhar a felicidade dos outros. E depois, não sou mais, como antes, um convalescente sem câmera a imitar o fotógrafo de Janela Indiscreta. Chega. Por enquanto, a fantasia é outra.

*Urariano Mota é jornalista e escritor

Fonte: Direto da Redação

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

José Afonso ~ O poeta da música morreu há 25 anos




Correio da Manhã
Histórias

O poeta da música morreu há 25 anos

José Afonso calou-se a 23 de Fevereiro de 1987. Dele permanece a música, a poesia e as memórias daqueles que o conheceram.
Por:Isabel Faria e Rui Chaves


Do homem para quem um amigo era "maior que o pensamento" ficaram mais do que belas canções. "Confesso que o que me marcou foi o calor humano. Ele estava sempre rodeado de gente e a possibilidade de se crescer com debates contraditórios, que ele promovia, sobre temas que envolviam a nata da música e da literatura, arquitectos, operários e pastores, foi um privilégio", recorda Helena Afonso.
A segunda dos quatro filhos de Zeca ainda se emociona ao falar do legado que supera em muito as ausências forçadas de um pai que, no tempo do antigo regime, decidiu cantar à esquerda. "O essencial era a transmissão através de afectos, conhecer pessoas, afastar o medo... Havia quem passasse lá por casa em períodos difíceis, na clandestinidade, e deixasse umas notas", diz.
Vinte e cinco anos depois da morte, o cantor que se tornou o arauto da revolução de Abril ascendeu ao estatuto de lenda. A mensagem política superou o músico e o poeta. Mas essa faceta ficou nos mais próximos, que retêm na memória "a pessoa com enorme empenhamento humano, acentuada empatia pelos outros e sensível ao que se passava à sua volta".
O tio, "que tirava do frigorífico um caril de frango e comia sem aquecer, que passou uma fase vidrado na macrobiótica e recebia com imensa alegria na casa branca de Azeitão" influenciou o sobrinho João Afonso, o único da família que também seguiu a música.
Já doente com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), nos últimos anos, José Afonso lamentava "que o reduzissem a cantor de intervenção, panfletário", lembra Helena.
CAPA E BATINA
Quem apenas conheceu Zeca Afonso nos anos quentes do pós-revolução pouco sabe do purista, estudante de Histórico-filosóficas em Coimbra, que na década de 1950 vestia capa e batina e cantava o fado da cidade do Mondego.
Manuel Alegre conviveu com os dois. "Conheci-o através do meu cunhado, António de Portugal." Juntavam-se para cantar, jogar futebol na Académica e daí nasceu a cumplicidade. Grande leitor de poesia, Zeca era "a princípio renitente, não queria que a canção de Coimbra fosse ligada à luta política. Depois é que deu uma grande volta. Andou pelo Algarve, foi ao estrangeiro e mudou".
Alegre recorda com afecto que para José Afonso a partilha era um dado adquirido. "Uma vez pediu-me um sobretudo emprestado, pelo qual eu tinha grande estima, queixando-se do frio que iria sentir na viagem à Holanda... Quando voltou, o casaco parecia que tinha ido à Primeira Guerra Mundial. Ele era muito desprendido..."
O aspecto composto do cantor que num disco gravou o epíteto ‘Fados de Coimbra por Dr. José Afonso’ deu origem, anos mais tarde, ao sobretudo da revolta e do protesto. Foi a proximidade ao mundo rural da primeira mulher e a docência, de norte a sul de Portugal, onde ouviu os cantares do povo, que lhe empurrou pelos olhos o País real e o levou a ver ‘em cada rosto igualdade’.
Do professor que na década de 1960 entrava na escola das Areias, em Setúbal, de capote alentejano e boina basca, Ezequiel Fernandes, hoje com 55 anos, diz: "Sabia quem ele era, tinha uns irmãos mais velhos e dois ou três singles em casa com baladas e fados de Coimbra. Ele até ajudou a pagar um vidro que tínhamos partido a jogar à bola. Ensinava História fora da sala de aula."
Helena, a filha de 58 anos que foi também sua aluna em Moçambique e Setúbal, recorda um professor interessado na "existência das pessoas". Em 1968, proibido de leccionar, passou a dar explicações em casa. "Mais tarde, isso era incompatível com a vida de cantor, mas dizia que gostava de estar próximo dos alunos. Tinha uma profunda liberdade interior e um sentido genuíno do que é a democracia."
Inspirada pelos tempos em que militou ao lado de José Afonso no Centro Cultural de Setúbal, a agora educadora social reconhece que a música e a política são indissociáveis na vida do pai. "A sua personalidade não pode ser esquartejada em várias partes. Não sabia ler uma nota numa pauta, mas a música era o espelho do meu pai."

A CAMINHO DA REVOLUÇÃO
Foi quando ao grupo de Coimbra se juntaram cantores mais novos, como Adriano Correia de Oliveira, "que todos mudámos", recorda Manuel Alegre.
Era o início da guerra em África, dos tempos da revolta estudantil de 1962 e do lançamento de ‘A Balada de Outono’. "Ele é o grande pilar e obreiro da transformação da música ligeira portuguesa, pela toada musical, pelos poemas. Apanhou aquela toada africana e fez uma revolução na música", diz Alegre.
Pela mão de Arnaldo Trindade, portuense ligado à música e à poesia, o novo José Afonso chega aos ouvidos do público. "Foi uma reunião interessante porque tinha saído ‘Os Vampiros’, disco proibido e que nenhuma editora o queria gravar", conta o fundador do Orfeu.
"Andou por seca e meca e às tantas, aparece-me o Rui Pato, que fazia os acompanhamentos dos seus discos já desde Coimbra, com essa maravilhosa obra que é o ‘Cantar do Andarilho’. Disse logo que era impossível não o gravar, era a coisa mais bonita que já ouvira!"
Arnaldo lembra que gravar com "o Zeca era fácil porque ele era bom. E nessa altura, havia uma linguagem diferente, com subtendidos, que puxava a imaginação tanto do autor como de quem ouvia. Tanto que, no 25 de Abril, viu-se que em muitos casos, o ‘Rei ia nu’, pois como se podia dizer tudo às escancaras, muitos mostraram que não tinham valor".
Não era o caso de José Afonso. Arnaldo Trindade investia no artista e o retorno compensava. "O que lhe pagava dava para ele comprar quatro carros novos por ano. Mas tive a sorte de apanhar o ‘Grândola Vila Morena’ no disco ‘Cantigas de Maio’, que foi o mais caro da época, custou mil contos em 1970, gravado no Chateau de d’Hérouville, em Paris, onde iam os Rolling Stones, e com o José Mário Branco como produtor", conta.
‘Cantigas de Maio’ foi considerado "o melhor disco da música portuguesa e com o 25 de Abril, ‘Grândola’ tornou-se num sucesso mundial". Conotado com a música que serviu de segunda senha para a revolução, José Afonso assumiu maior militância a partir de 1974. Ao lado dos antigos camaradas da música, José Mário Branco, Sérgio Godinho e outros, fez da cantiga uma arma.
"Muitas vezes não era poupado. Na própria esquerda havia quem não o deixasse em paz, chegavam a anunciar espectáculos em três locais diferentes no próprio dia. E ele sentia-se debaixo de pressão quando lhe atribuíam uma responsabilidade superior à que queria", recorda Helena. Por outro lado, diz, "temos de ser justos, também gozava de um certo ar de graça, porque aquela vulnerabilidade tocava as pessoas. Havia amigos que se esmifravam para que ele tivesse um sítio para dormir sem ruído. Havia uma ternura das pessoas".
Arnaldo Trindade recorda acima de tudo "a pessoa extraordinária, diferente, com as distracções dos génios". Na estante, o editor ainda guarda "a primeira prenda" que o músico lhe deu – "o livro ‘Cem Anos de Solidão’ do Garcia Márquez, uma edição brasileira. Encantou-me. E o Zeca Afonso tornou-se num amigo pessoal. Tínhamos ideias diferentes, mas algo em comum. Andávamos à procura da utopia".

PELO ALGARVE
José Afonso tocou, antes e depois do 25 de Abril de 74, com Vitorino. O músico conta que quando estava a cumprir a tropa em Tavira, José Afonso era professor em Faro e actuava, aqui e ali, nas Casas do Povo e de Pescadores um pouco por todo o Algarve. Foi num concerto em Olhão, na Casa dos Pescadores, que travaram conhecimento.
José Afonso, que lia e compunha música e letra como poucos, confessou que não era capaz de afinar a viola. Vitorino ajudou-o e nasceu ali, no início dos anos 60, uma amizade.
Dessa relação e dos vários concertos, Vitorino lembra os Prémios de Imprensa de 29 de Janeiro de 1974, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (nove anos e dois dias antes, e no mesmo local, da última actuação, quando se encontrava doente). "Foi a primeira vez que se cantou ‘Grândola Vila Morena’ perante um tão grande público", recorda Vitorino, acrescentando, com indisfarçável gozo, que a sala estava "meio cheia de militares à civil e que os PIDE presentes estavam acagaçados".
A exemplo do seu irmão mais velho, Vitorino, também Janita Salomé conheceu José Afonso nos anos 60, em Quarteira, quando com o irmão fazia parte de um grupo de baile que colaborava com o então professor em Faro. Recorda o "carisma e trato fácil" – "parecia frágil, mas tinha uma enorme coragem até do ponto de vista físico", como de resto mostrou "durante a crise académica".
Júlio Pereira foi das pessoas que "mais conviveu com José Afonso nos últimos oito anos de vida". Deste tempo, recorda certo concerto na Galiza (Espanha), onde compareceram apenas sete pessoas. José Afonso não quis cancelá-lo – tocaram todo o reportório previsto e com direito a ‘encore’.
A morte saiu à rua num dia assim – a 23 de Fevereiro de 1987, José Afonso foi a enterrar em Setúbal. Diz quem lá esteve que "a cidade assistiu em peso ao maior funeral de que há ali memória". Jorge Moniz, músico e professor no Conservatório de Setúbal, recorda: "A cidade tinha parado. As lojas estavam quase todas fechadas." O músico, então com 13 anos, já participou na homenagem que todos os anos acontece naquele cemitério, no dia da morte. Segundo a Associação 8 de Janeiro de Alhos Vedros este ano e "por maioria de razão" vai sair à rua. Como sempre, desde há 25 anos.

DEPOIMENTOS 
“ZECA AFONSO NÃO GOSTAVA DE SER REDUZIDO A CANTOR PANFLETÁRIO" (Helena Afonso, 58 anos, filha e educadora social)
- O que do seu pai, Zeca Afonso, transparecia em família era mais o lado musical ou político?
- Era indissociável, completamente. A personalidade do meu pai não pode ser esquartejada em várias partes, é um todo e esse empenhamento político era também um empenhamento humano, uma acentuada empatia pelos outros. Ele era uma pessoa que sentia, que era sensível ao que se passava à volta, ao destino das pessoas, ao sofrimento alheio.

- Foram as injustiças da sociedade de então que o levaram a tomar este caminho?
- Completamente. Na ditadura salazarista e mais tarde na marcelista também havia uma sociedade extremamente castrada e vigiada, uma sociedade com profundas desiguldades sociais. Era uma ditadura que punha as pessoas na prisão e toda a obra dele passa isso. Mas não só. Ele tinha uma personalidade muito própria. Creio que o meu pai todo ele era música. Há uma parte da obra dele, as canções líricas, as últimas obras, que são pouco conhecidas. Houve alguma coisa natural que o identifica com as canções chamadas de intervenção e que são simbólicas para as pessoas, porque espelham a necessidade de justiça, descontentamento, etc. Mas ele também era poeta, e tem um mundo onírico, lírico, que é muito mais vasto e ultrapassa largamente o resto. Isso atravessa o período todo. Desde os anos 50, quando ele começa a cantar o fado, até aos últimos discos. Toda a sua obra tem uma componente lírica que é muitíssimo forte.

- Ele não gostava de ser apenas conhecido pelo lado político, panfletário?
- Claro, não gostava que o reduzissem a isso. Considerava que as pessoas também não o ouviam muitas vezes com atenção. Não gostava de ser reduzido a chavão nenhum. O seu empenhamento politico e a sua capacidade de intervenção também, faziam parte duma extrema humanidade. Era extremamente sensível à injustiça social, tinha a noção de que ele próprio era oriundo de uma classe mais privilegiada e sabia ouvir os outros, sabia a história das pessoas, sabia os seus destinos, sabia o que custava ser trabalhador de uma fábrica, ou ser crianças e estar no trabalho infantil, que era uma coisa muito habitual. Ele era extremamente sensível a isso. E escapou à categoria de intelectual de Lisboa, pois, esteve em muitas terras, observou o seu País, e integrou inclusivamente as canções, a nossa música popular. Passou pelos sítios, ouviu as mulheres a cantar e trouxe esse Portugal mas dando-lhe o seu cunho de homem criador da música. Era isso que ele era da cabeça aos pés, era algo que fluía naturalmente e nem o conseguia imaginar de outra maneira. Ele não era uma pessoa que se pudesse enquadrar numa definição única, fazia muitas vezes perante si próprio de advogado do diabo. Tinha muito humor, não gostava das janelinhas, das caixinhas e das classificações.  Era uma pessoa muito cumpridora, como homem ligado à criação, à poesia, à linguagem, e era também um homem muito culto. Claro que lhe repugnavam as classificações limitativas e tinha um espírito curioso e aberto. Era inquieto, gostava mais de incluir a diferença e a individualidade. Isso é uma coisa que marcava as pessoas.

- Dizem os amigos que ele era muito educado...
- Isso era uma característica inata, uma espécie de liberdade que ele tinha e também criada por muitas expectativas dos outros. Era uma personalidade que emanava energia natural, algum desprezo e modéstia. E essa mistura atraia as pessoas, que se sentiam à vontade, contagiadas. Era um céptico positivista, porque tinha um sentido de humor imenso e acreditava que a intervenção de cada um modificava qualquer coisa. Exigia muito a si próprio e também aos outros à sua volta. Às vezes não conseguia que uma pessoa não se deixasse envolver, não se deixasse tocar pelos acontecimentos, pelos sofrimentos das pessoas. Porque ele tanto se interessava pelo vizinho que estava na esquina, como pelo grupo de teatro que não tinha fundos, como pela ocupação de uma casa abandonada e que dava para fazer uma clínica. O meu pai era uma pessoa que tinha uma adesão em primeiro lugar humana. No fundo, em cada um há sempre duas pessoas a degladarem-se e, por muito que se fale das suas distrações dele, ele tinha uma extrema disciplina. Para as coisas em que ele achava que valia a pena tinha uma energia insuspeita.

- O percurso dele mudou com o 25 de Abril, quando se tornou mais militante?
- Sabe que eu tinha 20 anos no 25 de Abril e assisti a um movimento, uma explosão contagiante de alegria e de consciência de que estava tudo por fazer. A militância é o que se faz hoje a nível organizado numa sociedade democrática: são os direitos, os deveres, os apoios. No fundo, nada disso existia. E como nada existia estava tudo por fazer. Era quase impossível ficar-se alheio de repente à subita possibilidade, ao espaço e à criatividade que havia de criar isto tudo. Nós tinhamos um profundo atraso em relação ao resto da Europa.

- Viveu no estrangeiro. Isso marcou-a?
- Vivi em Moçambique e 27 anos na Alemanha. Dos 26 anos até 2007. O que me levou, foi também a vontade de ir. Fui criada em Moçambique e tinha uma grande desadaptação. Na altura em que me fui embora Portugal começava a enveredar por outro modelo e tinha necessidade de conhecer outros meios. Vivi numa casa, e isso tem a ver com o meu pai, que era extremamente aberta, estrangeiros que passavam, amigos de toda a parte, não havia categorias em relação às pessoas. Estávamos muito marcados por isso e para nós ir lá para fora era quase natural. Havia uma grande vontade, não esperava era ficar tanto tempo mas aconteceu.

- Ficou essa marca?
- A militância que as gerações mais novas vêem como política para nós era algo diferente. Vivíamos num Portugal extremamente atrofiado, analfabeto, de classes. O meu pai dizia que isto era um país de drs e gostava que o tratassem por Zeca. Não confundir com populismo. E  às vezes as pessoas oscilavam em relação a ele. Mesmo nas pessoas do regime, havia quem fosse hostil e agressivol e quem lhe tinha respeito e alguma afeição, porque havia no meu pai um lado vulnerável, uma certa solidão no meio das multidões que o rodeavam.

“CRIAVA GRANDES EXPECTATIVAS”
- Vocês sentiam-se próximos dele ou achavam que era sempre inalcançável?
- Ele tinha qualquer coisa muito peculiar, uma marca de fragilidade. Não sei o que lhe diga quanto a isso. Tinha a ver com a vida dele e talvez até com o universo de uma pessoa muito sensível, ligado à poesia e à música. Não há dúvida de que ele era também um grande criador e essas pessoas devem ter também uma vida própria. Ele era bastante vulnerável, até em relação ao sofrimento, ao seu papel interventor. Criava grandes expectativas, todos queriam estar com ele, queriam fazer parte e ele sentia-se obrigado a fazer disso.

- A vossa casa estava sempre cheia...
- Esteve sempre rodeado de facto de muita gente e muitas vezes não era poupado. Em relação ao regime naturalmente eram tempos duros e em relação à própria esquerda, havia as pessoas que não o deixavam em paz, espectáculos que eram anunciados em três sítios diferentes no mesmo dia. E ele sentia-se debaixo de pressão quando lhe atribuiam uma responsabilidade superior à que ele queria. Dizia ‘sou um cantor’ e tinha alguma frustação por não ser ouvido em relação à sua criação que era muito mais complexa do que a obra de intervenção. Por outro lado, também temos de ser justo, gozava de um certo ar de graça porque aquele ar de vulnerabilidade tocava as pessoas. Havia amigos que se esmifravam, para que ele tivesse um sítio para dormir sem ruído, era uma ternura muito grande das pessoas, que tinham uma certa necessidade de o proteger. Não destaco ninguém, porque foram muitos anos de muita gente anónima. A vida era feita numa cidade da província, com gente das fábricas, que iam ao café, misturava-se tudo. Era judoca, sempre fez desporto e nesses clubes do judo muito democráticos, as pessoas tinham uma relação própria à volta do desporto, discreta, não havia expectativa de espécie nenhuma. O Zeca era uma pessoa nunca confinada a um só grupo.

- Como professor, Zeca Afonso era exigente? Com toda esta vida de andarilho conseguiu ser um pai presente?
- Ele foi meu professor tanto em África como em Portugal. Há pouco tempo estive numa homenagem em Mangualde, com antigos alunos que me contaram que ele ia jogar futebol com eles, via os pontos no café e interessava-lhe sobretudo a vida dos alunos. Era muito preocupado com a existência das pessoas.   

- De alguma maneira ele teve pena de deixar o ensino?
- Foi proibido de trabalhar. No final de 1968 é-lhe retirada a licença para leccionar e passou a dar explicações em casa. Disse toda a vida que tinha saudades do ensino. Mais tarde, isso era incompatível com a vida de cantar, mas dizia que gostava de ser professor, era próximo dos alunos, acho que ele foi em muitos aspectos um homem à frente do seu tempo. Tinha uma profunda liberdade interior e um profundo sentido genuíno do que é uma democracia e chocava-se muitas vezes com o nosso espírito resignado.

- Houve de alguma resistência por parte da família à sua opção? Os seus avós aceitavam?
- O meu avô era juiz desembargador, invulgarmente culto e uma pessoa que dominava tudo, o francês, a literatura, com inteligência e grande generosidade. Tenho uma visão dos meus avós que só aparentemente era formal. Obviamente que se preocupavam, porque sentiam que era um filho mais desprotegido e naquele tempo era perigoso. Havia os conflitos naturais entre pai e filho, porque o meu pai não era obviamente um modelo daquilo que os pais entendiam ser uma vida organizada.

- Por ter vivido em Moçambique era de certa maneira mais livre?
- Fui para África com dois anos e voltei quase com 14. Senti uma grande diferença. O regime lá não sofria grandes perigos, a maior parte da populaçao branca era privilegiada... Havia coisa negativas do colonialismo mas também hava coisas positivas. Era um meio que gozava de certas liberdade mas que era paralelo a outro que só podia gerar movimentos de libertação em relação a nós. A própria geografia africana é uma coisa espantosa, a música...

- Isso também marcou a obra do seu pai?
- Completamente, aliás fez parte do seu crescimento político e musical. O meu pai gostou muito de estar em África, ao mesmo tempo que sofreu muito. Foi dificil, havia falta de dinheiro, havia o colonialismo, que o radicalizou. Era um grande tabu.

- Todas essas experiências marcaram a sua personalidade?
- Sou marcada no sentido em que tenho tudo muito presente. Era algo geracional e o meu pai era uma pessoa particular. Mesmo correndo o risco de dizerem que eu sou excessiva, porque sou filha, o meu pai era uma espécie de cometa que só de vez em quando passa cá. Era uma pessoa que conjugava uma série de aspectos que não costumam ser habituais, com uma criatividade, uma genialidade na música e uma modéstia como pessoa. Eram padrões bastante raros.

- E a família da sua mãe? Eram de origem diferente?
- A minha mãe era oriunda de uma família muito pobre, que corresponde a um Portugal ainda muito cinzento. Estamos a ver isso no tempo do General Humberto Delgado e do Cardeal Cerejeira. Era um país cinzento, repressivo e movimentos como o Partido Comunista iam parar à praia. Nessa geração em que ele era estudante era impossível fugirem àquilo. Mesmo em termos morais era uma sociedade de classes extremamente estruturada e dividida, portanto naquela altura um casamento deste tipo chocava a sociedade.

- Ele, no final da vida, estava de certo modo desencantado?
- Estava desencantado, porque empenhou toda uma vida. Não havia nada que frustasse mais o meu pai do que o negativo. E por vezes massacravam-no... ele sabia que a sua figura podia servir para alguma coisa ele de facto tinha uma enorme capacidade para juntar as pessoas. E quando não encontravam o eco, despejavam em cima dele e ficava exasperado porque sabia que, com uma outra atitude, tudo se movia.

- A sua mãe sofreu com isso?
- Fui para África muito cedo, não sei pormenores. Eles eram muito jovens, 18 anos, apaixonaram-se e após sete anos de vida em comum e dois filhos aquilo foi ao ar. Havia diferenças possivelmente até de expectativas. Creio é que se calhar o ambiente da minha mãe, que era de uma aldeia, Mortágua, levou o meu pai a ter contacto com outro mundo, com a profunda clivagem que havia entre estatutos sociais. Ele pode ter sido tocado porque tinha essa sensibilidade particular. Creio que isso é percepetivel na sua obra e, volto a insistir, que a música era o espelho do meu pai.

- Nenhum dos filhos seguiu música?
- Não. Só o meu primo, o João Afonso. Todos temos bom ouvido, mas naquela época não era como hoje, as possibilidades não eram muitas.

- Com esta toda inconstância, o que ganhou?
- Confesso que o que me ficou mais marcado foi o calor humano. Naquela altura havia um elemento imprescindível que era o elemento humano. A possibilidade de se crescer com debates contraditórios, opiniões diversas, que o meu pai praticava em pequena escala, com temas a nata da música, da literatura, arquitectos, operários até ao pastor da serra, crescer com isso foi um privilégio. Não houve tema que não se tenha debatido. E eu e o meu pai fundámos o Círculo Cultural de Setúbal, onde dávamos alfabetização a adultos, promovíamos debates com Teresa Horta, com Alexandre O’Neill, sobre feminismo, alimentação racional. Isto antes do 25 de Abil e com pides a assistir. A esse nível foi um privilégio. Misturava-se tudo, mas o elemento essencial  era a transmissão através de afcetos, conhecer pessoas, afstar o medo.. Havia pessoas que passaram lá por casa em periodos difíceis, na clandestinidade, e depois deixavam umas notas. Nós tinhamos isso.

“ERA FÁCIL GRAVAR COM O ZECA PORQUE ELE ERA BOM” (Arnaldo Trindade, editor da Orfeu)
A reunião com Zeca Afonso foi muito interessante, porque ele tinha saído do célebre disco ‘Os Vampiros’, proibido pela censura, e depois disso nenhuma editora o queria gravar. Nessa altura, o responsável perante a censura era o editor, não era nem o autor, nem o letrista, nem o cantor. Era pura e simplesmente o editor. E atribuindo ao editor o papel de bode travava-se tudo. Pois não há discos sem editor.
Portanto ninguém queria gravar o Zeca Afonso. Andou por seca e meca, ninguém o gravava, e às tantas aparece-me o Rui Pato, que fazia os acompanhamentos dos discos dele, já desde o fado de Coimbra e entrou nos discos de intervenção, com essa maravilhosa obra que é o ‘Cantar do Andarilho’. Ouvi e disse logo que era impossível não o gravar, era a coisa mais bonita que ouvira ultimamente. Era tão bonito que decidi gravar mesmo.
Sempre achei que quem não deve não teme, e como não era engajado politicamente, apesar de não gostar do regime, como 80% da população, decidi gravar.
 Tinha as minhas ideias, na infância e juventude passava as férias de Verão nos EUA, em casa de um tio, sabia o que era a democracia. E portanto, se ninguém gravava o Zeca Afonso, eu tomava essa responsabilidade. Gravei e criei talvez o melhor disco de música portuguesa.

O Zeca Afonso tornou-se um amigo pessoal, tinhamos algumas ideias contrárias, mas tinhamos algo em comum. Andávamos à procura da Utopia (risos). Comecei a conviver muito com ele e com a famíla. Ele era uma pessoa deliciosa e, para mim, um dos melhores músicos e poetas portugueses. Era um génio e uma pessoa muitissimo simples. Tornei-me amigo dele e a primeira prenda que ele me deu foi ‘Cem anos de Solidão’, do Garcia Marquez, uma edição brasileira, que não conhecia. Encantou-me.

ENCONTRO DA CULTURA
Nessa altura, a Orfeu era um ponto de encontro da cultura e sabia que para ter uma boa equipa tinha de pagar. Gravar com o Zeca era fácil porque ele era bom. Nesse disco não tive problemas com a censura. E,  posteriormente, tive a sorte de o José Niza estar connosco. Ele tinha relações boas com gente da censura e levava muitas letras que sabia que iam ser cortadas para deixar passar outras. Nessa altura, havia uma linguagem diferente, própria, com subtendidos. E isso puxava a imaginação tanto do autor como de quem ouvia. Criou-se uma cultura interessantissima. Tanto que no 25 de Abril quebrou-se essa barreira e viu-se que, em muitos casos, o ‘Rei ia nu’, muitos não tinham nada para dizer. Como se podia dizer tudo às escancaras, perdeu-se o interesse de procurar as palavras, o sentido, e houve uma queda enorme na qualidade.
Na Orfue o investimento era grande mas tive a sorte de apanhar ‘Grândola Vila Morena’ em ‘Cantigas de Maio’, o disco mais caro da época, que custou mil contos em 1970. Era um balúrdio na altura. E esse ‘Cantigas de Maio’ foi gravado no Chateau de d’Hérouville, em Paris, onde tinha sido gravado o último disco dos Rolling Stones. A qualidade era extraordinária e o José Mário Branco é que foi o produtor. ‘Cantigas de Maio’ foi considerado o melhor disco de sempre de música portuguesa e com o 25 de Abril, ‘Grândola’ tornou-se um sucesso mundial.

“UMA PESSOA DIFERENTE”
Zeca Afonso era músico e sobretudo poeta. Era uma pessoa extraordinária, que não sabia ler uma pauta e tinha as músicas todas correctas. E ele não sabia uma nota, tocava guitarra e mal. O Zeca era uma pessoa diferente, esquecia-se das letras,... tinha as distrações próprias dos génios.
Como pessoa era do melhor qua havia, gentílissima, muito sofisticado intelectualmente, não era aquele revolucionário ‘mata e esfola’. Comprava sempre discos de canto celo, Bach, Mozart... Não era nada popular.
Atenção, que o Zeca era um senhor e gostava de o ser. Mas tinha uma modéstia talvez preparada, sempre fiquei com essa impressão. Ele tinha recebido uma educação de primeira qualidade, o pai era juiz, esteve nas nossas ex-colónias, era uma pessoa muito interessante, entre dois mundos económicos, sociais. E essa passagem por África também o marcou, porque contactou muito com os autóctenes. E muito da sua música era baseada na música negra, brasileira e da áfrica portuguesa, Moçambique e Angola.
O Zeca Afonso era muito amigo do seu amigo. E a equipa que ele arranjou, os grandes artistas portugueses, ajudavam-se uns aos outros, o Fausto, o Sérgio Godinho, o Adriano. E por todos eles o Zeca era considerado o maior, o chefe, o líder, porque era o melhor e todos o reconheciam.
O Zeca Afonso tinha também um sentido de humor nada português, nunca o ouvi dizer uma asneira, nem daquelas que saiem durante o trabalho, e convivi muito com ele. E era nervoso, para gravar tinha sempre de trazer uma caixa de pastilhas.
Recordo que foi uma época muito interessante da música e nós, na Orfeu, mudámos a indústria, saimos do ‘rame rame’ do fado e folclore. O Zeca tinha a obrigação de gravar um LP por ano e recebia uma mensalidade, que dava para durante um ano comprar quatro automóveis, mais os direitos de autor, e houve depois vários contratos em que ele foi melhorado. Ele não viva mal, mas não podia trabalhar porque não deixavam. Foi expulso dos liceus e estes contratos possibilitaram-lhe ter uma vida... Foi assim para ele, para o Adriano Correia de Oliveira, para o José Calvário. Nós fomos uns mecenas.
“O ZECA AFONSO FEZ UMA REVOLUÇÃO NA MÚSICA” (Manuel Alegre, poeta e político)
Zeca Afonso era mais velho do que eu e conheci-o em Coimbra sobretudo pela sua ligação ao meu cunhado, António de Portugal. Muitas vezes juntavam-se em minha casa, para ensaiar, cantar e daí nasceu a nossa amizade,  convivência e até cumplicidade. José Afonso começou por cantar o fado de Coimbra, era um grande leitor de poesia e, ao princípio, era um bocado renitente, não queria que o fado ou a canção de Coimbra, como quisermos chamar, fosse ligado à luta política. Distinguia as duas coisas. Depois, é que deu uma grande volta. Saiu de Coimbra, andou pelo Algarve, fez também uma viagem ao estrangeiro, com o meu cunhado António Portugal, e levou até um sobretudo meu. Era um sobretudo pelo qual eu tinha grande estima e o Zeca Afonso, para quem a partilha era natural, pediu-mo, queixando-se do frio que ia sentir na viagem à Holanda. Devolveu-mo, mas o casaco parecia que tinha ido à primeira guerra mundial. Ele era muito desprendido...
Entre nós havia essa partilha. Ele ia muito a minha casa e mantivemos sempre essa convivência. Depois, mais tarde, apareceu também o Adriano Correia de Oliveira. E todos nós mudámos. Começámos a escrever novos poemas, trovas e ele faz ‘A Balada de Outono’, que difere das primeiras obras, com uma toada muito lírica. A revolução vem mais pela toada musical, ele liberta-se, vai ao tom trovadoresco e só depois é que vem a política.

“UM HOMEM LIVRE"
O Zeca Afonso nunca pertenceu a nenhum partido político, foi sempre um homem livre, independente. Era de esquerda, foi preso, censurado e depois é que se empenhou totalmente na luta política. Entretanto, também fui à guerra em Angola, voltei e foi nessa altura que se deu a grande volta, que apareceram as canções contestatárias. Em 1962 há a grande crise estudantil. E em 1963, lembro-me de termos apresentado a ‘A Trova do Vento que Passa’  numa cerimónia aos caloiros na faculdade de Medicina, em Lisboa. E viemos todos. Eu estava com residência fixa em Coimbra, para onde tnha sido enviado depois de ter sido preso. Mas viemos mesmo assim. Cantou o Adriano, cantou o Zeca e foi toda a gente a cantar para a rua. E é a partir daí que surge o seu grande momento. Ele é o grande pilar e grande obreiro da transformação da música ligeira portuguesa, pela toada musical, pelos poemas que fazia, que tinham alguma coisa a ver com magia, com canções medievais, histórias de bruxas...  Aquilo foi evoluindo, esteve em Moçambique, apanhou aquela toada africana e fez uma revolução na música portuguesa.
O Zeca Afonso era completamente desprendido. Não tinha sentido prático, não tinha ambição, nem apego pelos bens. Lembro-me, quando ele já estava doente, de eu e a minha mulher irmos levá-lo a casa e esta estava cheia de gente. Ele para se isolar ia para a casa-de-banho. E até o alertei: ‘tens de ter direito à tua casa’. Mas ele, pouco concentrado, não ligava. Era de uma grande generosidade, capaz de dar tudo se visse alguém com necessidade.

“UM AMIGO ESPECIAL”
Foi sempre um daqueles amigos especiais. Ele teria mais nove anos do que eu. Se calhar hoje não se notava. Mas o Zeca Afonso tinha aquilo a que eu chamo o dom da inocência, dos artistas. Havia algum toque de irresponsabilidade, que o impelia para a frente. E era um homem muitissimo inteligente, sabia perfeitamente o que fazia. Medo todos nós tinhamos. Mas isso, que se fazia então, não era prova de não ter medo. A coragem é ser capaz de ultrapassar o medo. E ele também era, tal como o Adriano, corajoso. Mais jovem e irreverente, naquela altura o Adriano foi mais atirado para a frente. Eram feitios diferentes, mas tiveram o mesmo papel, embora o Zeca Afonso seja um músico mais completo, sobretudo pela maneira como fez evoluir a música portuguesa, desde o fado de Coimbra. E hoje é uma lenda, uma figura mítica. Há um culto do Zeca Afonso que passou para os mais novos, pelo que ele cantou, por aquilo que ele fez e também por a sua maneira de ser, pelo seu desprendimento.
A maior lembrança, que ainda guardo, é sobretudo de o ouvir cantar. Lembro certa noite, na Associação Académica, em que ele e o Adriano trouxeram canções novas, ouvidas pela primeira vez e foi uma noite mágica. 
Ele era grande adepto da Académica e jogava bem. Era um bocado desconcentrado, mas passavamos-lhe a bola e gostava. E das últimas conversas que tivemos, quando estava já muito doente, foram sobre a Académica.

“ERA UMA GRANDE ALEGRIA ESTAR COM ELE” (João Afonso, sobrinho e músico)
O mais marcante sai do âmbito do músico, artista e do grande criador que o meu tio foi.  Nos últimos tempos, quando ia para Azeitão ter com ele e com a minha família, a dele, sentia que havia uma alegria mútua. Eu e os meus irmãos (somos quatro rapazes) eramos uma esponja em relação a tudo o que ele dizia. E às vezes era um bocado influenciado. Nessa altura era para mim uma grande alegria estar com ele. O que me marcou mais eram esses momentos.
O Zeca Afonso era uma pessoa culta, informada e humana. Era essencialmente um humanista, no verdadeiro sentido da palavra. Não era sectário, faccioso, era humanamente muito grande. Gostava muito de conversar e eu era um espectador sempre atento.

O Zeca Afonso era irmão da minha mãe, Mariazinha, e há outro irmão, João Afonso dos Santos, que escreveu sobre ele o livro ‘Um olhar fraterno’. A família era também muito consensual, havia conversas, nem sempre com unanimidade, e surgiam discórdias, mas os irmãos eram unidos . A nova geração era mais contestatária e gostava de provocar. O meu tio, por seu lado, sempre foi uma pessoa aberta, mesmo na fase mais ‘engajada’, no pós-25 de Abril.
Como só vim para Portugal em 1978 foi a partir de então que tive mais contacto com ele. O meu tio viveu em Moçambique e dessa época tenho vagas recordações. Nasci em 1965 e a minha mãe contava que ele partiu o pé a jogar judo e então ficava comigo ao colo para ela tratar das coisas. Mais tarde, e isso lembro-me muito bem, porque os meus pais me contaram e foram avivando a memória, ele estava em nossa casa e aparecerem dois homens cinzentões a perguntar por ele. Nós, na ingenuidade da crianças, dissemos e os pides levaram-o para o aeroporto. Foi muito dramático, o meu avô e a minha mãe ficaram muito abalados. Lembro-me muito bem desse dia.

INFLUÊNCIA MUSICAL
Musicalmente, a minha influência é fundamentalmente ‘Zeca Afonsina’ e até a minha linha africana vem do que ouvi em Moçambique e também dos temas dele, como ‘Lá no Xepangara’, de tal maneira que tive necessidade de me afastar e só recentemente voltei aos seus temas, com o ‘Redondo Vocábulo’, em que dou voz aos seus poemas e canções.
Naturalmente, tenho grande orgulho nessa herança. Sei que tenho um timbre que faz lembrar o meu tio e isso dá-me grande prazer mas obriga-me a exigir seguir o meu caminho. O meu tio é genial e eu sou o sobrinho. Gosto de fazer a minha música.
Zeca Afonso tinha necessidade de ter amigos à volta e era um bocado distraído. Era uma pessoa intelectualmente verdadeira, às vezes na lua porque perdia-se em relação às coisas reais.
Quem trabalhou com ele sabe que tinha grande riqueza melódica, ritmo no corpo e alguma pena de não saber escrever música.
No dia a dia não era esquisito. Teve uma fase macrobiótica, horrível, a comer algas. Era capaz de ir ao frigorifico e comer um caril de frango frio. Bebia um copo de vinho, mas pouco, não fumava, apesar de em algumas fotos aparecer de cigarro na mão. E gostava muito de bacalhau, no Natal.