Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Há um antes e um depois de Niemeyer"

O Palácio do Planalto é um das obras emblemáticas de Niemeyer UESLEI MARCELINO/REUTERS

As reacções em Portugal e no Brasil à morte do arquitecto Oscar Niemeyer.



A morte de Oscar Niemeyer, aos 104 anos, não deixou o mundo indiferente. Arquitectos e outras figuras da cultura e sociedade portuguesas e brasileiras expressaram a admiração por um dos nomes mais marcantes da arquitectura mundial.
Brasília é um milagre!
Fernanda Barbara, arquitecta e urbanista brasileira

"Oscar Niemeyer foi um dos maiores arquitectos do século XX. O trabalho que ele desenvolveu na arquitectura brasileira fala da cultura brasileira, de uma maneira ampla e que se reconhece por todo o país e por todo o mundo.
Niemeyer fez ver uma cultura brasileira desde os anos 40 por todo mundo. Em São Paulo, em 1951, Oscar faz dois projectos de grande importância: o edifício Copan, residencial com apartamentos para diversas faixas de renda no centro histórico de S. Paulo, e o Parque Ibirapuera.
Por outro lado, Brasília é um milagre!
Oscar Niemeyer projectou muito pelo mundo todo, grandes obras de qualidade e espaciais surpreendentes, mas não há como não distinguir o conjunto de Brasília na sua obra. Em Brasília, além da qualidade surpreendente dos projectos há uma postura cívica e profissional que merece a nossa atenção. Niemeyer projectou um conjunto enorme de edifícios em três anos, edifícios públicos e institucionais que são símbolo de um Brasil, num momento que foi de esperança de um Brasil democrático e mais justo.
Além de ser um arquitecto com posições políticas claras, durante a ditadura Niemeyer recebeu nos seus escritórios muitos arquitectos exilados amparando a profissão e fazendo ver ao mundo a barbaridade que aconteceu no nosso país, fortalecendo a nossa perspectiva de um país mais justo.
Talvez a questão mais importante da obra de Niemeyer seja sempre a surpresa. Além da implantação da qualidade formal dos edifícios é a surpresa que a gente sempre tem quando se entra num edifício do Niemeyer.
O que há de muito particular na obra do Oscar é que ele projectou com muita qualidade em muitos países do mundo, ele é muito elogiado, é a referência para grandes arquitectos de todo o mundo e, paralelamente a isso, ele é um arquitecto popularmente conhecido.
"Aposta nas formas curvas"
Nuno Teotónio Pereira, arquitecto português

“É uma figura emblemática, que teve uma enorme influência na Europa e também alguma em Portugal. Foi importante numa altura em que a arquitectura moderna estava em dificuldades e a ser posta em causa na Europa, acusada de não respeitar os valores nacionais, sobretudo nos países que então viviam sob regimes e ideologias totalitários, como a Alemanha, a Itália e também Portugal. A obra dele conheceu uma grande divulgação com o livro que foi publicada a pretexto duma grande exposição dedicada à arquitectura moderna brasileiro no MoMA, em Nova Iorque. Aí se mostrava que a arquitectura brasileira era muito diferente da que se praticava na Europa, que era recta, com superfícies lisas, planas; enquanto no Brasil, e especialmente o Niemeyer, apostava nas formas cur[vas]
"Do modernismo tropical às experiências space-age"
Pedro Gadanho, curador de arquitectura no Museum of Modern Art
"Niemeyer era um arquitecto do seu lugar. A sua obra única bebia a inspiração num só lugar: o Rio de Janeiro e as suas formas extraordinárias. Nas entrevistas ele dizia que as suas ideias vinham da vida que o rodeava, mas ninguém ligava muito a tais devaneios. Porém, a sua evolução de um modernismo tropical de formas voluptuosas para as experiências space-agedo Museu de Arte de Niterói fala precisamente de uma relação intensa com as transformações das experiências e percepções de uma metrópole única - quer do ponto de vista da relação da cidade com a paisagem, quer do ponto vista social e humano.

Nos Estados Unidos, Niemeyer é um herói do modernismo. Logo, e mesmo permanecendo fiel a ideias comunistas, é um herói americano. De resto, ainda Niemeyer era um 'jovem' de 50 anos - e Rockefeller criava museus no Rio de Janeiro e São Paulo - e já o MoMA dedicava uma exposição 'a arquitectura brasileira, em 1955. Existe um acompanhamento duradouro da obra de Niemeyer e não é portanto de admirar que, por entre as reacções mediáticas abrangentes, o NYT imediatamente o coloque na última linhagem de grandes mestres modernistas como Le Corbusier ou Mies van der Rohe."
"A explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo"
Nuno Portas, arquitecto e urbanista português
“Oscar Niemeyer foi uma revelação pioneira do modernismo sul-americano dos anos 30-40 e, ainda hoje, em minha opinião, as suas obras mais interessantes estão em Minas Gerais, e que influenciaram os arquitectos modernos portugueses do pós-guerra.

Deixou-nos depois a sua participação no nascimento de Brasília – os edifícios do Planalto e as primeiras quadras de habitação no Brasil –, sem a qual a nova capital, traçada por Lucio Costa, não ganharia o rápido prestígio mundial que hoje conhecemos.
As suas obras das últimas décadas não tiveram a mesma repercussão. Talvez porque a explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo”.
 
"Omnipresente na arquitectura mundial"
José Mateus, arquitecto português
"O Niemeyer foi sempre uma figura omnipresente na arquitectura mundial, na arquitectura brasileira, cuja vida se confunde com a arquitectura, ou seja, a arquitectura não era uma profissão – era a forma de vida dele. Deixou obras extraordinariamente profundas, coerentes, que reflectiam um optimismo da arquitectura modernista brasileira da qual ele foi um dos grandes protagonistas.

O que tem de extraordinário o legado do Niemeyer é que ele foi um arquitecto modernista que sobreviveu até à contemporaneidade, e que nos trouxe um testemunho forte e inspirador da arquitectura brasileira, pela sua participação em seminários, nas universidades. A minha obra favorita é o Palácio da Alvorada.
É uma arquitectura própria de um visionário, toda aquela riqueza espacial e formal com sentido muito plástico, lúdico e fluido é muito própria de um momento da arquitectura brasileira de grande optimismo e que se tornou uma referência mundial.
A arquitectura brasileira hoje vive uma crise profundíssima, os grandes arquitectos não têm praticamente acesso às encomendas e haver arquitectos como o Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha que continuavam interventivos foi importantíssimo.
Era obsessivo e passava a sua vida pessoal e a dos seus colaboradores para uma posição completamente secundária. Um arquitecto que trabalhou com ele num projecto na Argélia ou na Tunísia contou-me que um dia foi preso, ligou para ele muito aflito porque queria sair da prisão e o Oscar só lhe fazia perguntas sobre como estava o projecto. Até que ele insistiu: ‘Ó arquitecto, mas eu estou preso! Como é que saio da prisão?’” Ou seja, estava-se nas tintas para a vida, o que é um bocado contraditório porque ele era um profundo humanista e activista. Mas, sendo um profundo humanista, em certas circunstâncias a vida passava para segundo plano."
"Há um antes e um depois do Niemeyer"
Manuel Aires Mateus, arquitecto português
"Associava o Oscar Niemeyer a uma ideia de liberdade. Há uma espécie de leveza na forma como ele tocou a arquitectura porque é completamente revolucionária a maneira como conseguiu captar o espírito de um tempo e de um povo, de uma nação, fazendo aquela arquitectura que parece flutuar, sem pertencer quase à gravidade. É um dos mais importantes arquitectos do século XX. Deixa um legado de uma enorme abertura sobre as possibilidades de fazer arquitectura. A mais maravilhosa das obras que visitei do Niemeyer é na Pampulha, em que uma pessoa percebe que se alargaram as fronteiras da possibilidade humana. É como redesenhar uma nova possibilidade para o mundo, e isso depois acompanha-o e é determinante, quando ele faz a grande obra de Brasília – ele funda uma cidade, mas levando ao limite o seu tempo e a sua cultura.

A vida dele é um legado fundamental para as gerações futuras por esse lado de liberdade que abriu – há uma antes do Niemeyer  e um depois do Niemeyer. Conseguiu transformar a cultura brasileira – a arquitectura dele é tão local, é tanto a tradução de uma verdade local, que a torna completamente global. Nunca mais se poderá olhar para o Brasil sem olhar para o Niemeyer."
"Ele engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro"
Nuno Grande, arquitecto e professor português
“O Oscar Niemeyer é um personagem histórico do século XX, um grande arquitecto. Está para o hemisfério Sul como o Le Corbusier está para o hemisfério Norte, sendo uma espécie de reinterpretação deste. Há uma piada que normalmente se conta sobre o Brasil: ‘O país tem menos de 200 anos, e 104 deles são do Niemeyer!’ Isto mostra a importância que ele tem para a nação. O modernismo do Niemeyer é uma reinterpretação do de Corbusier. Ele faz aquilo que artistas brasileiros modernistas de outras áreas fizeram com o chamado Manifesto Antropofágico [1928], utilizando a ideia do índio canibal, que come o seu opositor e depois o regurgita, ganhando-lhe a força. O que o Brasil fez com o modernismo europeu foi um pouco isso, foi engoli-lo e depois regurgitá-lo, mas à sua medida, sob uma forma tipicamente brasileira. O Niemeyer transporta isso para a arquitectura: engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro. É isso que se vê, por exemplo, em Brasília, que foi construída para ser a capital, com o arquitecto e urbanista Lúcio Costa – o Niemeyer estava inicialmente no júri. Estes dois homens são fundadores de uma identidade nacional, que é um modernismo muito próprio, muito brasileiro, sul-americano. É interessante lembrar que o próprio Corbusier esteve no Brasil, em 1929 e 1932, a desenhar com Lúcio Costa o Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro. Esta é a primeira obra que marca o modernismo brasileiro, e que abre o caminho a toda a nova geração dos modernistas. O Brasil teve que inventar a sua identidade, depois de durante muito tempo ter vivido sob o domínio neocolonial. E o Niemeyer é a figura fundamental desse processo, na arquitectura”.
 

"Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona"
Manuel Graça Dias, arquitecto português
“Oscar Niemeyer é, ele próprio, o expoente da modernidade, é um homem que trabalhou durante todo o século sempre ao lado da arquitectura moderna. Tinha uma enorme capacidade de sintetizar os problemas, de os perceber, de compreender o sítio em que está a intervir e o programa que está em causa. Animado por uma enorme sensibilidade plástica, consubstancia essa resposta em formas sempre emocionantes, sempre bem enquadradas na disposição espacial que ele entende organizar.

Na quarta-feira, morreu um grande amigo meu, o Joaquim Benite, e no PÚBLICO referem uma coisa que ele disse acerca do teatro, mas que se aplica a todas as artes: ter perante as pessoas a generosidade de lhes dar qualquer coisa de diferente, qualquer coisa que fuja à banalidade e que de algum modo possa alegrar-nos a vida. Isso acontece com Niemeyer. Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona e remete-nos para um mundo menos mesquinho e menos banal. Ao mesmo tempo, é um homem de uma personalidade fascinante. De uma enorme simplicidade, mas ao mesmo tempo muito profundo. Um homem preocupado com a modernidade, com a justiça social, que é sempre valorizada na sua arquitectura. É um homem que se emociona com a vida, com as pessoas, com as mulheres.
Toda a boa arquitectura é sempre mais qualquer coisa do que aquilo que é encomendado. Ultrapassa sempre a encomenda e dá ao mundo outras soluções. Niemeyer também cumpre esse lado. Muitas vezes, falamos de uma procura muito intencional. Quando lhe foi solicitado o Sambódromo no Rio de Janeiro, que era suposto serem umas bancadas para observar as escolas de samba passar, ele reinventou-o. Num dos lados, sob as bancadas, acolheu-se uma escola. [Ou seja] aproveitou-se esse ensejo para dotar aquele sítio de mais um equipamento que tivesse relevância. Há sempre em Niemeyer a vontade de que os seus objectos tenham utilidade social. O mundo não muda com a arquitectura, mas pode tornar o mundo mais alegre.
Por mais estranha, insólita e original que pareça, [a arquitectura de Niemeyer] nunca é feita à custa de coisas esquisitas que não servem para nada. Formas relativamente puras e relativamente correntes que são conjugadas de uma maneira brilhante e económica, no sentido de uma economia expressiva. Há uns filmes em que o vemos explicar alguns projectos e percebe-se aí a economia dos seus esquissos, em que ele consegue explicar imediatamente a principal opção do seu trabalho. Há uma enorme capacidade de sintetizar o problema. É também por essa razão que a sua arquitectura é tão emocionante. Com Niemeyer as coisas são sempre relativamente fáceis de relatar, o que não quer dizer que não tenham complexidade no seu interior. Não se esgotam. Descobrimos sempre surpresas.
"A genialidade de seus traços"
Marta Suplicy, ministra da Cultura do Brasil
“O Brasil acaba de perder um de seus grandes. A genialidade de seus traços, a generosidade de sua alma e a firmeza de suas convicções fazem de Oscar Niemeyer um exemplo para a humanidade. Meu coração chora ao se despedir de um gigante na arte, poesia e coragem. Um homem que viveu na plenitude cada minuto de sua vida com lado e posição, e busca da beleza, da harmonia e justiça”.

 
"O Brasil como ícone da arquitectura moderna"
Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitectura e Urbanismo do Rio de Janeiro
“A trajectória e o legado de Niemeyer projectaram internacionalmente o Brasil como ícone da arquitectura moderna, dado o seu pioneirismo na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do betão armado - o que, desde a década de 1940, lhe rendeu um justo reconhecimento em todo o mundo.
Embora estejam sob alguns parâmetros que são comuns à arquitetura moderna, o seu modo de projectar e a sua expressão têm uma dose muito importante de sua criatividade individual, o que faz com que seus traços sejam admirados, mas não reproduzidos”.

 
“Niemeyer foi um inventor brasileiro”
Caetano Veloso, compositor
“O varandão do Alvorada é uma das imagens que formaram minha mente. Niemeyer foi um inventor brasileiro. Um ‘garoto da praia’, como me disse Burle Marx. Suas curvas ensinaram algo muito nosso ao vasto mundo.”

 
“Um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte”
Chico Buarque, compositor
“Oscar Niemeyer teve uma vida muito bonita. Foi um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte.”

“Mudou a linguagem da arquitectura moderna”
Ferreira Gullar, poeta, Prémio Camões 2010
“Para os amigos, sua morte é uma perda de uma pessoa afectuosa, carinhosa. Já o Brasil perde uma de suas figuras mais significativas. E o mundo perde um grande artista, que mudou a linguagem da arquitectura moderna. O lema da arquitectura era que a forma segue a função, a sua preocupação fundamental tinha que ser a funcionalidade, a beleza estava em segundo plano. Oscar juntou as duas coisas, funcionalidade e beleza, dizendo que beleza também é função”.


Depoimentos recolhidos por Joana Gorjão Henriques, Isabel Salema, Mário Lopes e Sérgio C. Andrade, e de agências e jornais brasileiros

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Joaquim Benite (1943-2012)



Joaquim Benite (1943-2012)

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O século e O diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.

Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.

Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 a sua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada - num edifício da autoria de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira -, que se tornou num dos principais teatros do País.

Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.

Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago (2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte (2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008); Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).

Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

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Boletim # 212 *
05-12-2012 *  
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Morreu o encenador Joaquim Benite, "um vencedor"


Benite foi o rosto de um dos mais importantes projectos de teatro em Portugal. Criou, na margem sul do Tejo, um festival de teatro que se tornou referência mundial. "Por muito amargurado, ofendido, preocupado com a mísera sorte de todos nós, conseguiu."

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, morreu na madrugada desta quarta-feira, aos 69 anos, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia, anunciou a companhia em comunicado. O corpo do encenador vai estar, a partir das 18h, em câmara ardente na Capela de Santa Joana Princesa, em Lisboa. O funeral sairá na quinta-feira, às 14h45, para o cemitério do Alto de São João. "O país perde um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do teatro português no período que antecedeu e se seguiu à revolução de 1974", diz a companhia.
Benite foi o rosto de um dos mais importantes projectos de teatro em Portugal. O Festival de Teatro de Almada, que começou em 1984 no Beco dos Tanoeiros, e se tornou, ao longo das suas 29 edições, um dos mais relevantes festivais de teatro do mundo. Foi, ao lado dos Encontros Acarte, da Gulbenkian, o lugar por onde passaram as mais importantes companhias e os mais significativos nomes da cena mundial.
O encontro em Almada, todos os anos de 4 a 18 de Julho, é considerado como um momento alto da programação teatral, não apenas em Portugal mas também um ponto de encontro para especialistas e público vindos de vários países. Foi por Almada que passaram companhias vindas da América do Sul e de África, quando ainda não existiam circuitos de programação instituídos. Foi também neste festival que se começaram a ver os primeiros nomes vindos da Europa do Leste, quando ainda não estavam abertas as fronteiras.
"A morte de Joaquim Benite é uma perda irreparável para a cultura portuguesa", escreveu Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), num depoimento que fez chegar ao PÚBLICO esta manhã. "O seu trabalho como homem de teatro – fundador de uma das mais importantes companhias de teatro nacionais e de um dos mais importantes festivais de teatro europeus – marcou impressivamente a vida cultural do nosso país", acrescenta Jerónimo de Sousa. Para concluir: "Para nós, comunistas, a morte de Joaquim Benite significa, ainda, a perda de um camarada e de um amigo, de um militante comunista que, durante décadas, integrou o colectivo partidário do PCP."


Também o Presidente da República manifestou "profundo pesar" pela morte de Joaquim Benite, referindo-se em mensagem que "com o seu desaparecimento, a cultura portuguesa perde não só um brilhante homem de teatro, mas também um dos nomes que mais contribuiram para a sua internacionalização e divulgação".
Nascido em Lisboa em 1943, filho de um empresário do teatro, Joaquim Benite foi actor, quando tinha 17 anos, antes de perceber que “não tinha jeito nenhum”, disse, citado pela Lusa. Depois foi jornalista e crítico de teatro, com passagem pelas redacções de vários diários. Começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos, no jornal República. Fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O Século e O Diário, tendo no último sido director do suplemento cultural. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa. 


"Veio da crítica como alguns de nós (ele, o Luís Miguel Cintra, eu) que, nos anos do marcelismo, não queríamos nada o teatro que andava a ser repetido até à mais incomensurável chatice", resume o actor e encenador Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos. Que recorda: "Pobrezitos, lá vínhamos a altas horas do [café-restaurante] Monte Carlo, ao Saldanha, já de máquina em riste, atacávamos o que podíamos, tremendos, injustos até, apaixonados de certeza."
Abandonou a crítica – porque “não tinha muito sentido escrever sobre o teatro dos outros. Se uma pessoa gosta, é fazê-lo”, defendeu numa entrevista ao jornal i, em Julho deste ano, e citada pela Lusa. Fundou em 1971 o Grupo de Campolide: estreou-se na encenação com a peça O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer, de Agustin Cuzzani. 
Foi nesta altura que o actor e encenador João Mota, actualmente director do Teatro Nacional D. Maria II, o conheceu. Benite "era um antifascista, claro". "Depois de 1974, o objectivo dele era criar onde fosse possível estar mais perto do público, não necessariamente em Lisboa." Por isso foi para Almada, em 1978, depois de ter estado com o Grupo de Campolide, já profissionalizado, no Teatro da Trindade. E desse desejo de proximidade com o público nasceu, já em Almada, o festival.
A invenção de um público
Achou que “era bom ir para a periferia” por “uma razão estética e uma cívica”. Tal como começou a fazer teatro com a utópica esperança de ver os trabalhadores da Lisnave a subirem a Avenida 25 de Abril, de marmitas vazias, para se virem alimentar ao Teatro de Almada, explicou ao Ípsilon em 2010. Cedo perceberia, porém, que essa defesa de um teatro capaz de mobilizar as massas era pouco condizente com as condições em que as pessoas viviam. 

João Mota recorda que o festival "começou por ser entre nós, companhias portuguesas", antes de se tornar na "marca forte" que é hoje. E refere que Benite tinha "essa grande paixão e essa grande prática e disciplina de abrir, de passar por cima de pequenas coisas para ir mais longe": "É mais fácil destruir, cair nessa coisa de dizer mal, do que construir. Ele tinha essa capacidade, que fará muita falta neste momento de grave crise. Espero que o Teatro de Almada sobreviva." Quando morre "um mentor, um mestre, é difícil": "Espero que os meus colegas de Almada e a Teresa Gafeira consigam, que não vão abaixo, pelo contrário."


Em Almada, Benite estreou-se com Aventuras de Till Eulenspiegel, de Charles de Coster e Virgílio Martinho. A designação de Companhia de Teatro de Almada (CTA) viria mais tarde. Em 1988, inaugurou, com a peça de García Lorca Dona Rosinha, a Solteira, o Teatro Municipal de Almada (desde 2005 instalado no Teatro Azul, edifício da autoria dos arquitectos Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias). "O edifício do novo Teatro de Almada é uma espécie de conclusão lógica de um trabalho de invenção de público que vinha a desenvolver há uma série de anos. Um trabalho para que o teatro existisse, um gosto pelo teatro", diz o arquitecto Manuel Graça Dias, que se lembra de Benite como "um óptimo cliente". "O novo teatro foi apenas uma casa maior."
Ao longo de 40 anos de carreira, encenou textos de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Pushkin, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, O’Neill, Bernard, Neruda, Sinisterra, Duras, Marivaux, Feydeau, Skármeta, Peter Shaffer e Nick Dear, mas também Almeida Garrett, Gil Vicente e Raul Brandão, entre muitos outros. Fez também uma incursão na encenação de ópera, em 2008, com La Clemenza di Tito, de Mozart,  para o Teatro Nacional de São Carlos, e é autor de diversos textos para teatro, bem como de conferências e ensaios, tendo estado à frente de vários cursos de teatro e tendo dirigido, até ao fim, a revista de teatro Cadernos e a colecção de Textos d’Almada. 
Foi "um vencedor", diz Silva Melo. "Em Campolide, no Trindade, depois em Almada (velha e agora nova), conseguiu falar ininterruptamente com uma comunidade que o ouvia, seguia, ripostava, admirava, temia, resmungava e voltava a amar."
Silva Melo fala numa "obra-prima, os espectadores de Almada, as pessoas mais calorosas (e numerosas) do teatro, por cá". E recorda: "A partir da histórica passagem do Miguel (Lobo Antunes) pelo Centro Cultural de Belém, Lisboa passou a ser Almada em Julho – permitindo assim conhecermos ora o Berliner ora os Stan, o Piccolo, Veronese ou o Young Vic."

Um milagre de trabalho
"Rezingão, intempestivo, rabugento, teimoso como todos os directores de teatro", Joaquim Benite "conseguiu": "Rápido e terno, ferozmente terno, claro. Por muito amargurado, ofendido, preocupado com a mísera sorte de todos nós, conseguiu. O Teatro Municipal de Almada, a sua excelente equipa (são meus amigos, vi-os crescer, cortar cabelo, engordar, encarecar), os seus maravilhosos espectadores, esse milagre de trabalho, ninguém os vencerá."

Pela qualidade e quantidade de espectáculos de companhias nacionais e estrangeiras que todos os anos nele se apresentam, o Festival de Almada tornou-se no maior acontecimento teatral realizado em Portugal.  Ao Ípsilon, em 2010, Joaquim Benite recordou  uma frase de Silva Melo que dizia que "o festival é o sítio mais civilizado de Portugal". Benite orgulhava-se de ter criado "um lugar onde se encontram diferentes linhas estéticas mas que discutem, com maturidade, sobre as suas diferenças, sem se agredirem, e de forma flexível, num nível que não é o da confrontação sectária". 
Encontravam-se lá, também, diferentes gerações do teatro português. "O Festival de Almada tem uma importância inigualável", diz Jorge Andrade, da companhia Mala Voadora. "Tem mostrado e apoiado o melhor do teatro português, dando-lhe visibilidade internacional, pondo lado a lado companhias consagradas e companhias emergentes."
No actual ambiente de crise, diz Jorge Andrade, o festival "é, mais do que nunca, um exemplo de tudo o que de bom o teatro pode construir". 
Benite considerava que o público "cria pressões" e dizia que ao longo dos anos foi trabalhando para um público que se foi formando no festival, tal como ele se foi formando ao mesmo tempo. "Muitas vezes penso que o meu gosto evoluiu como evoluiu o próprio festival", disse ao Ípsilon. "Todas as pressões que existem encaro-as da mesma forma e tiro delas o melhor partido. Não acho que o festival deva criar situações de desconforto para o espectador, mas deve trabalhar para alargar a discussão." Afirmava que se programasse só o que gostava, "o festival seria mais pequeno". 
Várias encenações suas foram premiadas e ele próprio foi distinguido com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do Concelho de Almada e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, além de ter sido condecorado pelo Governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e pelo rei de Espanha com a comenda da Ordem de Mérito Civil. Há dois anos havia sido condecorado com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República.
Quando lhe perguntaram se achava que ficaria na história, respondeu: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam, as outras vêm porque lhes dá prazer.” Com Tiago Bartolomeu Costa e Isabel Salema

***
Partido Comunista Português

Nota do Secretariado do Comité Central do PCP

Sobre o falecimento de Joaquim Benite

O Secretariado do Comité Central do PCP expressa o seu profundo pesar pela morte de Joaquim Benite, figura maior da vida cultural portuguesa e militante comunista.
O desaparecimento deste destacado homem de teatro constituiu uma perda irreparável para a Cultura portuguesa: Portugal perde um dos seus mais prestigiados encenadores e uma figura relevante do movimento de renovação do teatro ocorrido no período que antecedeu e que se sucedeu ao 25 de Abril.
Na memória dos portugueses permanecerá, indelével, o notável percurso cultural e artístico de Joaquim Benite, desde que, em 1970, fundou o Grupo de Campolide e, em 1978, passou a dirigir a Companhia de Teatro de Almada, até aos seus últimos trabalhos, numa sequência de produções traduzida na encenação de mais de uma centena de peças dos mais importantes dramaturgos nacionais e internacionais. O nome de Joaquim Benite ficará ligado, àquele que é hoje, indiscutivelmente, um dos mais importantes festivais de Teatro da Europa: o Festival de teatro de Almada.
Para os comunistas portugueses, a morte de Joaquim Benite significa a perda de um camarada muito querido, de um comunista que, nos seus mais de trinta anos de militância, com o seu trabalho artístico e com a sua intervenção partidária, deu um valioso contributo para o reforço do PCP e para a luta por uma democracia avançada – política, social, económica e cultural – rumo ao socialismo e ao comunismo.