Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 5 de janeiro de 2013

Direcção-Geral da Saúde aconselha “dez decisões alimentares para 2013”



Água, sopa ou investir nas capacidades culinárias são algumas das sugestões. DGS diz que as "decisões simples e fáceis" são preferíveis a "grandes mudanças".


Comer sopa a todas as refeições principais é um dos conselhos ADRIANO MIRANDA

Em pleno arranque do novo ano, altura em que as resoluções se multiplicam, a Direcção-Geral da Saúde decidiu publicar um documento com “dez decisões alimentares para 2013”, justificando que neste campo “é preferível pensar em decisões simples e fáceis de realizar ao longo de 2013 do que em grandes mudanças. E, se possível, que sejam promessas saborosas, fáceis de executar e económicas”.
O primeiro conselho da Direcção-Geral da Saúde (DGS) passa por “fazer da água a principal bebida do dia, já que “permite hidratação correcta sem excesso calórico, ajuda a regular a temperatura corporal, permite óptimo desempenho físico e intelectual, contribui para a adequada regulação da pressão arterial e ainda uma pele sadia”.

Em segundo lugar, a grande amiga de todas as refeições ao longo do ano deve ser a “sopa de hortícolas, que em alguns casos se pode até transformar na refeição principal com a adição de leguminosas (feijão, grão, ervilhas), carne ou peixe”. Em terceiro lugar, a DGS sugere que se “inclua leite e lacticínios nas pequenas refeições ao longo do dia”. “Apenas um copo de leite possui cerca de 28% do cálcio necessário por dia para um adulto, 24 % da Vitamina D, 22% do fósforo...ou seja, o leite é um super alimento de baixo custo e facilmente disponível de manhã ou em qualquer hora do dia”, acrescenta a DGS.

A escolha do pão integra o quatro conselho e, segundo este organismo, pode ser utilizado nas pequenas refeições ou a acompanhar o almoço ou o jantar, mas deve ser “de preferência de mistura” para ser mais rico em fibras. “Ao contrário da maioria das bolachas, croissants e outros produtos de pastelaria, o pão possui valores reduzidos ou nulos de gordura e açúcar, o que deveria fazer dele o alimento central das pequenas refeições ao longo do dia”, justifica a DGS.

Investir nas capacidades culinárias é o quinto truque referido pela DGS para cozinhar refeições “nutricionalmente equilibradas” e que sejam também saborosas e rápidas. Em sexto lugar surgem as compras de proximidade que permitem optar por alimentos frescos e por ajudar a comunidade local. “Leve sacos de casa, ajude o meio ambiente e não utilize o carro. Faça, ainda, exercício moderado nestes percursos”, diz a DGS. A fruta – uma “óptima opção, prática e económica” – deve acompanhar as pausas no trabalho e é o sétimo conselho.

Em oitavo lugar surgem sugestões como experimentar novos sabores e actividades, plantando por exemplo ervas aromáticas em casa: “Além de poupar algum dinheiro, pode proporcionar momentos de descontracção e divertimento em família. O uso destas ervas permite, ainda, reduzir o sal que adiciona na confecção dos alimentos e manter um sabor agradável. Experimente colocar hortelã na sopa de legumes”.

A actividade física, como trinta minutos de caminhada diária, compõe a nona sugestão, sendo uma solução para a “redução da pressão arterial, do colesterol e bem-estar mental”. Por fim, em décimo lugar, a DGS apela a que “desconfie de soluções milagrosas para comer de forma equilibrada ou perder peso em pouco tempo e sem esforço”, defendendo que a alimentação saudável deve ser vista como um “investimento a médio prazo”.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fidel a intelectuais: É preciso começar já a salvar a humanidade

América Latina

16 de Fevereiro de 2011 - 11h15 O líder cubano Fidel Castro reapareceu nesta terça-feira (15), animado e bem disposto, em um encontro com intelectuais de vários países que participavam, em Havana, da Feira Internacional do Livro. No encontro, o ex-presidente da ilha advertiu a respeito dos riscos que a humanidade corre, diante de ameaças como uma eventual guerra nuclear e a crise alimentar provocada pela mudança climática.
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Em seu primeiro ato público deste ano, transmitido pela emissora de TV estatal, Fidel abordou assuntos como a alta dos preços dos alimentos, a mudança climática e as revoltas populares ocorridas no Egito e na Tunísia.

"Nossa espécie não aprendeu a sobreviver", afirmou durante o evento. Ele enfatizou que os intelectuais "podem ter um papel decisivo" na tomada da consciência mundial e pediu a eles que contribuam para "persuadir as criaturas mais autossuficientes e incapazes que já existiram: nós, os políticos" sobre perigos que ameaçam a sobrevivência da espécie..

"Não se trata de salvar a humanidade em termos de séculos ou milênios: é preciso começar a salvar a humanidade já", disse Fidel, agora com 84 anos, a escritores da Argentina, Venezuela, Peru, México, Espanha e Cuba.

O líder cubano ressaltou que as consequências da crise alimentar vão muito além de questões econômicas. Nesse sentido aludiu à influência da alta dos preços dos alimentos no desencadeamento das revoltas contra os governos do Oriente. Além disso, referiu-se ao aumento incessante da população mundial, o que acentua o problema.

Assim como na última de suas "reflexões", dedicada à revolução no Egito, Fidel definiu o ex-presidente Hosni Mubarak como "um grande estrategista" para esconder dinheiro, enquanto 80% dos egípcios vivem na pobreza.

Nesta quarta, Castro se encontra mais uma vez com os intelectuais e terá a transmissão da televisão estatal.

Leia abaixo a fala inicial de Fidel no encontro com intelectuais:

Texto Introdutório do Comandante em Chefe Fidel Castro, em debate com intelectuais, realizado na terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Soube que vários intelectuais de prestígio e amigos sinceros de Cuba visitou nossa capital para participar da XX Feira Internacional do Livro de Havana.


Esta feira é uma das modestas coisas boas que temos impulsionado. Os livros e as ideias que vocês elaboram e promovem têm sido fontes de alento e de esperança; graças a eles, conhecemos o que vale o enxerto de talento e bondade. Seus nomes se familiarizam e se repetem ao longo da vida, durante anos, que sempre nos parecem curtos.


Entre os fatores que ameaçam o mundo, estão as guerras. Os cientistas foram capazes de colocar nas mãos do homem colossais energias, que estão servindo, entre outras coisas, para criar um instrumento autodestrutivo e cruel como a arma nuclear.


Os intelectuais podem, talvez, prestar um grande serviço à humanidade. Não se trata de salvar a humanidade em termos de milênios, nem sequer em termos de séculos. O problema é que nossa espécie se encontra ante problemas novos, e não aprendeu sequer a sobreviver.

Se conseguirmos que os intelectuais compreendam o risco que estamos vivendo neste momento, em que a resposta não pode ser adiada, talvez eles consigam persuadir as criaturas mais autossuficientes e incapazes que já existiram: nós, os políticos.


Como?


Coube a mim, há quase 20 anos, a desagradável tarefa de advertir ao mundo, na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, que nossa espécie está em perigo de extinção.


Argumentei então, ainda que o perigo não fosse iminente como agora, e fui escutado com atenção, embora talvez seja melhor dizer que com benevolência.


Houve aplausos. Um homem tinha percebido isso. Os super poderosos se reuniram ali reunidos se deram conta que era verdade, mas um problema que eles, naturalmente, se ocupariam de resolver nos séculos que tinham pela frente.


A cara sorridente de Bush pai e a figura do chanceler alemão Helmut Kohl, marchando rapidamente por um amplo corredor, à frente do grupo após a última foto, propiciava a impressão de que nada poderia perturbar o feliz sossego do nosso mundo esplêndido.


Tão tonto como os demais mortais, fiquei com a ideia de que talvez tivesse exagerado. Passaram-se apenas 19 anos e vejo hoje as coisas perturbadoras que já estão acontecendo e não admitem demora nenhuma.


Mais vale parecer louco que sê-lo e não parecê-lo. Se pensarmos que já estamos a um passo do abismo, e nosso cálculo não fora exato, nenhum dano faríamos à humanidade. Quando nos aproximamos já aos 7 bilhões de habitantes, não é questão começar a filosofar sobre Malthus e as possibilidades de soja, do trigo e do milho geneticamente modificados.


Os norte-americanos, que nisso são os mais avançados, sabem bem qual é o limite de suas possibilidades.


É hora de prestar atenção aos ambientalistas e cientistas, como Lester Brown, a maior autoridade mundial nesta matéria e na produção de alimentos.


Eminentes pensadores veem claramente que o sistema capitalista desenvolvido marcha até um desastre inevitável. Ninguém teria sido capaz de antecipar as situações novas que são criadas ao longo do caminho, e nada é negado, pelo contrário, só se confirmam as crises que nos converteram em revolucionários. Agora não se trata da inevitabilidade da mudança na sociedade, mas do direito da espécie a uma vida diferente para a qual nós não deixamos de lutar.


Nem mesmo entre as religiões que postulam o Apocalipse, uma idéia em que muitos acreditam, ninguém, que eu saiba, sugeriu que seria neste milênio e, muito menos, neste século.


Pensei muito estes dias nos eventos que estão acontecendo e lhes peço que façam o mesmo, sem medo de estar pedindo um esforço inútil. Eu tenho o hábito de ler quantas análises de ecologistas e cientistas chegam às minhas mãos.


Ontem, quando eu refletia sobre o que aconteceu na Tunísia e no Egipto, me chamou a atenção um recente artigo de Paul Krugman, famoso escritor e economista sério, cujas análises sobre as medidas de Roosevelt, com a Grande Depressão e a guerra, refletiam um especial conhecimento da economia dos EUA e do papel desempenhado pelo autor do New Deal. Não é marxista nem socialista. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008. Vejam (aqui no Vermelho) o que escreveu sobre a crise alimentar a pessoa talvez mais autorizada a fazê-lo.


Passaram quase 19 anos desde a Cúpula do Rio de Janeiro e estamos diante do problema. Ali estávamos levantando esses problemas, sem imaginar que o fim da espécie pode acontecer dentro de um século ou de décadas, se antes não ocorrer uma guerra.


O aumento dos preços dos alimentos agravará imediatamente, sem qualquer dúvida, a situação política internacional. Se, como resultado disso tudo se agravam os problemas, eu me pergunto: devemos ignorá-los?


Gostaria de focar nosso debate neste tema.


É preciso começar já a salvar a humanidade.


Com agências.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Criança, TV e batata frita Sidnei Liberal

Colunas

Vermelho - 28 de Julho de 2010 - 0h10

Criança, TV e batata frita

Sidnei Liberal *

15% das nossas crianças já são consideradas obesas e 30% estão acima do peso normal para a idade. Em todo o mundo, pelo menos 42 milhões de crianças com menos de 5 anos estarão obesas ou acima do peso até o fim deste ano de 2010. Destas, quase 34 milhões vivem em paises em desenvolvimento, como o Brasil. São dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgados em matéria de Carolina Khodr, especial para o Diário de Pernambuco1de 17/07/2010.  Outro dado a ser avaliado: 50% da publicidade na TV são dirigidas às crianças. É aí onde a criança é estimulada ao uso do refrigerante, que contém cerca de 3 colheres de sopa de açúcar. Há outra colher para cada bola de sorvete. Cada biscoito recheado contém 60% do seu peso em açúcar.
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Cifras preocupantes de gordura saturada dão a cremosidade e o sabor aos biscoitos recheados, aos sorvetes, salsichas e pizzas. O sal de uma Coca-cola “zero”, de um salgadinho, pizza, salsicha, altera o equilíbrio hídrico do organismo da criança, com retenção de líquido e aumento do peso corpóreo e da pressão arterial. O aumento do consumo de refeições industrializadas e de alimentos com excessos de açúcar, sal e gordura é um risco para a saúde e assusta os especialistas. São os riscos que a publicidade desses tipos de produtos agora é obrigada a deixar claro ao consumidor. É a nova resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quem diz.
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Uma pesquisa do Ministério da Saúde mostra uma progressiva queda no consumo de alimentos saudáveis, substituídos por produtos industrializados e refeições prontas. São estes os novos vilões de uma alimentação inadequada, por excesso de açúcar, sal e gordura, que, consumidos com frequência, são responsáveis por sérios problemas de saúde. Informações que justificam as novas regras da Anvisa, que introduzem veiculações de alertas nos comerciais de televisão e rádio. Um texto como “o produto tal contém muito açúcar e, consumido em grande quantidade, aumenta o risco de obesidade e cárie dentária”, será corriqueiro em nossas guloseimas.
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Além disso, a Anvisa estabeleceu limites para os constituintes de cada classe de alimentos. Assim, num pacote de 100 gramas de biscoitos recheados, que contém cerca de 60gramas de açúcar, a doçura não pode mais passar de 15 gramas. Nos salgados, o limite de gordura saturada passa a ser de 5%. De sal (sódio), apenas 0,4%. Razões sobram ao governo para incidir numa desordem alimentar que, de acordo com a OMS, leva mais de 45% da população brasileira ao excesso de peso e cerca de 20% à obesidade. Excesso de peso e má alimentação desencadeiam problemas cardiovasculares, responsáveis principais pelos óbitos no País.
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Como explica a Anvisa, os brasileiros, especialmente os jovens, “são muito influenciados pelas propagandas. A iniciativa da Anvisa visa a proteger os consumidores da omissão de informações e da indução ao consumo exagerado”. E "os alertas nas propagandas vão possibilitar a reflexão do consumidor, para que ocorra uma mudança de comportamento, desestimulando os excessos. Essa medida reflete a capacidade e o dever do Estado de proteger a população".
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Informa Carolina Khodr que em sua última assembleia, realizada em Genebra, 2010, a OMS “recomendou que os países adotassem medidas para reduzir o impacto da propaganda de alimentos pouco nutritivos sobre as crianças, já que as escolhas delas influenciam em até 80% as compras feitas pela família”. As crianças, segundo fonte da Fundação Oswaldo Cruz, “são estimuladas por sons, cores e imagens, são tentadas pelas logomarcas e seduzidas pelos presentes oferecidos com os alimentos". Como conseqüência, altos riscos de alterações metabólicas, obesidade, hipertensão arterial.
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Há na matéria do bravo e eterno Diário de Pernambuco uma pequena menção à responsabilidade compartilhada da mídia, em especial a Televisão, por este risco à saúde dos nossos adultos e da nossa infância. A preocupação é procedente e não poderia estar ausente do debate nacional no atual cenário eleitoral. Pautar sua discussão, entretanto, não é fácil. É o que demonstra a irada reação dos donos do poder midiático a um programa prévio de uma das candidaturas a presidência, por conter indícios de discussão sobre o papel dos meios de comunicação no Brasil. À luta, pais!
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(1) http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/07/17/brasil6_0.asp
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domingo, 14 de junho de 2009

A "naturalidade" do mito da carne


por Rui Pedro Fonseca [*]
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. A segunda metade do século XX fica marcada por crescentes modificações na alimentação que tiveram lugar nos países ditos desenvolvidos e nos países em desenvolvimento. O desenvolvimento das populações e o aumento demográfico têm vindo a reforçar a demanda por alimento e, por conseguinte, têm conduzido a uma intensificação das actividades agrícolas e agropecuárias. Para além do crescimento populacional, da proliferação das novas tecnologias e do sistema económico liberalista vigente, as classes médias e classes baixas adquiriram um maior poder de compra, podendo assim investir em outras necessidades que não as necessidades básicas de subsistência. [1]
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As modificações das políticas económicas têm vindo a ter influências directas na qualidade nutritiva dos alimentos, tendo vindo a registar-se aumentos de alimentos pré-processados, aumentos de alimentos de origem animal e aumentos de alimentos com mais açúcar e gordura. Estas mudanças, acompanhadas pela redução da actividade física humana, têm originado significantes aumentos das taxas de doenças crónicas associadas à alimentação que incluem a obesidade, ataques cardíacos, diabetes, hipertensão e certos tipos de cancro. [2]
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Porque tem um peso fundamental na economia, o sector da agropecuária tem sido fortemente explorado. Nos Estados Unidos, um país seguido como modelo pelas suas políticas económicas e culturais, [3] a produção de carne aumentou significativamente entre 1950 e 2007, tendo vindo a estagnar o abate de animais em 9.5 mil milhões no ano de 2007 e 2008, o que se repercutiu nas práticas alimentares das populações.

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clicar na imagem para ler
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No entanto, não é unicamente a oferta da produção alimentar que determina os gostos e as escolhas gastronómicas dos consumidores. Na nossa sociedade faz parte do "senso comum" que a alimentação à base de carne de vaca, por exemplo, seja parte integrante da cadeia alimentar humana. Comer um bife de vaca é tão "natural" na nossa sociedade como comer um bife de cão é tão "natural" na China. Mas do ponto de vista dos ocidentais, esta ideia de comer animais domésticos, como o cão e o gato, com os quais (tradicionalmente) se criaram fortes laços afectivos, originam repulsa e, em muitos casos, a indignação, porque na nossa sociedade não se percepciona o cão como alimento, uma vez que é um animal convencionalmente doméstico. Por experiência empírica, ouve-se dizer, por parte de indivíduos que lidam com animais domésticos, que por vezes "só lhes falta falar" e que "têm sentimentos"; declarações que mostram o grau de relação que muitas pessoas têm com cães e gatos, o que pressupõe a existência de complexas afinidades. Já na China, cães e gatos são utilizados como alimento, o que sugere que muitos dos chineses não têm qualquer tipo de laços ou de afinidades com estes animais. Voltando às vacas, na Índia este é um animal sagrado que não está incluído nas práticas alimentares dos 1.100 milhões de habitantes. Enquanto espécies de indivíduos que habitam o planeta, há portanto uma verdadeira subordinação estrutural de todas as espécies de animais em relação à espécie humana, existindo nessa grande camada de milhares de espécies de animais umas mais subordinadas do que outras, umas mais exterminadas do que outras e algumas mais protegidas do que outras – variantes que se modificam consoante as regiões.
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A inclusão de carne na nossa alimentação é tão "natural" quanto a expectativa que se cria para que os homens sejam "naturalmente" masculinos e para que as mulheres sejam "naturalmente" femininas. Ou seja, a percepção que as sociedades têm em relação aos animais e sobre a sua inclusão, ou não inclusão, na alimentação não pode ser considerada meramente "natural", assim como não pode ser desassociada de um conjunto de convenções de códigos, crenças e práticas culturais.
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Só os humanos têm a capacidade de produzir e reproduzir valores culturais. A cultura «é o processo de produção de sentido que confere sentido não só à realidade ou natureza exterior, mas também ao sistema social de que ela faz parte e às identidades sociais e actividades diárias [como a alimentação] das pessoas pertencentes a esse sistema.» [5] As representações culturais produzem significados e enquanto discursos têm consequências porque regulam práticas sociais, condutas, estruturam identidades e definem a forma como se vêem e pensam as coisas. As representações culturais de animais só podem estar pré-dispostas sob o ponto de vista dos humanos, conferindo assim um papel determinante sobre as formas pelas quais os indivíduos humanos percepcionam os animais.
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A adaptação do comportamento do indivíduo em relação ao mercado alimentar equivale a uma adaptação do consumidor em relação ao produtor. O consumidor não se adapta em relação aos reais interesses (de ordem económica) do produtor, mas adapta-se a um conjunto de valores patenteados pelo sistema de representação cultural que estão ao serviço de quem tem a tutela da produção. O consumo de carne é, mais do que nunca, um consumo "naturalmente" cultural. E importa aos agentes produtores conservar a sua posição na estrutura económica, através da perpetuação do enraizamento destas convenções "naturais". Só através do incentivo ao consumo de animais de abate é que se podem consolidar e dogmatizar estes mecanismos "naturalmente" culturais. Daí o recurso à publicidade como um dos grandes motores das estruturas de produção. Para produzir capital económico é necessário que as estruturas de produção utilizem a estética como um instrumento ideológico a partir do qual se extraiam formas de percepção do produto, do sujeito e do mundo. A ideologia da indústria animal tem de ser sedutora e, portanto, a mística tem de ser bem composta para que durante o processo de significação de um anúncio de um produto de origem animal o sujeito se reconheça, ou seja, para que a partir de sistemas de sentido já existentes exista alguma forma de identificação entre o sujeito e o produto.
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Existem diversas formas de representar os animais da agropecuária, todas apresentam uma acção que se fecha com um happy end: os animais podem ser representados como estando sorridentes, como se insinuassem estar contentes por irem parar ao prato do consumidor; há ainda a tendência em representar o indivíduo humano consumidor como livre e consciente quando consome produtos de origem animal. Estas mensagens articulam tradicionalmente modos de relação entre géneros, amigos, família, classes sociais, situam o indivíduo em rituais sociais que legitimam o consumo de animais na alimentação. A construção de enredos que incidam sobre o consumo de animais é fundamental para instaurar uma identidade ao mercado, mas também para instaurar "identidade individual" e a auto-afirmação a um sujeito. A sedução de um anúncio vale-se pela utilização de mecanismos de associação do produto a estímulos de felicidade, ao status, a signos de prestígio (enraizados nos códigos da moda), com o fim de o sujeito criar prazer no reconhecimento em relação ao produto. Independentemente da forma como se representem os animais da agropecuária, a finalidade principal é associar a acção de consumo à acção de prazer, com o objectivo de viabilizar o consumo.
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Democratizou-se o consumo de animais mas, por outro lado, não se têm associado ao seu consumo todos os vestígios penosos que intermedeiam o processo que se inicia desde o seu nascimento até ao momento que se vêem no frigorífico do super-mercado as embalagens com alguns dos seus restos mortais. Por defeito, inerente à própria publicidade, há uma alienação do consumidor em relação à concepção destes produtos de origem animal, criados pela indústria agropecuária: não se dão a conhecer as motivações do produtor; não se dão a conhecer as consequências negativas do consumo de animais no organismo humano; não se dão a conhecer os reais processos de produção de animais (uso de ração, vacinação, adições químicas, etc.); não se fazem constar na publicidade quaisquer vestígios do sofrimento animal; não se quantificam nem se mencionam os impactos da indústria no meio ambiente.
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Os sistemas de representação cultural têm assim uma influência central nas práticas alimentares dos indivíduos humanos porque legitimam modos de socialização e posicionam o indivíduo de acordo com critérios e padrões. A cultura (dominante) torna-se então num exercício de «violência simbólica» [6] porque impõe significações como legítimas através do fundamento da sua própria força. É a universalização da ordem cultural (motivada pela economia) que a torna muito pouco mutável, fazendo com que pareça "natural", e assim comem-se determinados animais porque "faz parte da nossa cultura". Não tem sido a ética nem a sustentabilidade, mas sim a cultura que tem estipulado ao homem aquilo que na natureza é "comestível" e "não comestível".

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Referências
BAUDRILLARD, Jean; 1976; A Troca Simbólica e a Morte I ; Lisboa; Edições 70.
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude; 1974; La Reproduction (Elements pour une théorie du système d´enseignement); Les Editions de Minuit.
Callinicos, Alex; " Introdução ao Capital de Karl Marx"; Revista Espaço Académico, Nº 38, s.p.,(Julho de 2004 – Mensal) ISSN 1519.6186.
FISK, John, 1990; Introdução ao Estudo da Comunicação – Porto, Edições Asa.
HARVEY, David; 2000; Condição Pós-Moderna; 9ª Ed.; S. Paulo, Edições Loyola.
Muñoz, Blanca; Sociologia de la Cultura de Masas; Universidad Carlos III, Madrid. s.p.
Reduzir o Consumo de Carne – Uma reforma Urgente docs.google.com
Livestocks Long Shadow (environmental issues and options) - http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
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Notas
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1. cf. 34 Livestocks Long Shadow (environmental issues and options) http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
2. Idem
3. A fast-food, ou a cultura do hamburger, é uma marca da globalização cultural da American way of life que tem vindo a fazer parte dos padrões de vida para as novas classes médias em países desenvolvidos e em desenvolvimento espalhados pelo planeta.
4. Fonte: http://www.hsus.org/farm/resources/pubs/stats_slaughter_totals.html
5. Fiske, 1990: 162, 163
6. cf. Bourdieu, Passeron; 1974: 18

[*] Activista. Investigador nas áreas da sociologia da cultura e da arte.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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