Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

No Governo de União Sagrada a paz só chegou no fim

PUBLICO.PT
  13 de Setembro de 2010 - 00h28
 
República
No Governo de União Sagrada a paz só chegou no fim
Maria José Oliveira
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A participação na I Guerra Mundial assim o exigia: os republicanos deviam pôr cobro às suas desavenças e unir-se em coligação governamental. Mas a União Sagrada limitou-se a uma aliança bipartidária. E quando iniciou funções já tinha morte anunciada. Por Maria José Oliveira
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Vai ser a ruína do país, pensou João Chagas face às mais recentes notícias da política nacional. A constituição de um governo de União Sagrada, composto por membros dos partidos Evolucionista e Democrático e criado para mobilizar o país (civil e político) em torno do esforço de guerra, representava "um holocausto".

Longe de Lisboa, Chagas, embaixador da Legação Portuguesa em Paris, prenunciou o pior para esta aliança entre democráticos e evolucionistas, promovida por Bernardino Machado, Presidente da República, poucos dias depois de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal, em Março de 1916. E o pior aconteceu, tal como o diplomata previra. O evolucionista António José de Almeida e o democrático Afonso Costa, os líderes partidários que mais se bateram pela intervenção portuguesa na I Guerra Mundial, entendiam que a União Sagrada poderia realizar, em simultâneo, um conjunto de objectivos - mitigar as querelas na família republicana, convencer o Exército da importância da participação na guerra, legitimar o regime no exterior e ainda suprir algumas das carências alimentares básicas da população -, mas ao fim de um ano nada disto se cumpriu.

O país teve o que mereceu, terá julgado Chagas - que, com a sua pena indomável, mal soube da tomada de posse do Governo de União Sagrada (inspirado na experiência francesa), não poupou farpas ao novo chefe do Governo, António José de Almeida, um homem "nulo e iletrado" a quem tinham incumbido os destinos da nação. "Penso comigo", escreveu no seu diário, "que no fim de contas é talvez com estes homens e não com outros que o país se entende e que só destes precisa, não lhe fazendo portanto falta outros melhores". O novo executivo não traduzia uma "reconciliação" entre Almeida e Costa - "é um holocausto", qualificou, sem rodeios, desdenhando ainda da desfaçatez dos argumentos invocados. "Afirmam ambos que deste modo sacrificam o altar da pátria. Não é isso. Na realidade, o Afonso Costa estava impaciente por fazer cessar os antagonismos que provocou e que o inquietavam. O Almeida estava impaciente por sair da jaula em que se meteu de uma oposição sem saída."

As negociações indiciaram logo que algo iria correr mal. Após a declaração de guerra da Alemanha, feita na sequência da captura dos navios alemães ancorados em portos nacionais (a pedido da velha aliada nacional, a Grã-Bretanha), Bernardino Machado iniciou diligências para formar uma aliança governamental, tendo, para tal, o apoio expresso do Parlamento. Mas o debate entre intervencionistas e anti-intervencionistas, que originara clivagens e dissensões no país político, estava ainda na ordem do dia, e a União Sagrada de todos os representantes do espectro político revelou-se um falhanço.

O Partido Unionista, liderado por Brito Camacho, e o Partido Socialista, de Costa Júnior, foram varridos para a plateia (não participavam do poder, mas apoiavam o executivo e eram "responsáveis pelos destinos da pátria", declarava o chefe unionista) - e o mesmo aconteceu com os católicos e os monárquicos.

Depois de uma primeira recusa para assumir a presidência do Governo - inicialmente declinou o convite de Bernardino Machado devido à gota, que o atormentou até ao fim da vida -, António José de Almeida acabou por aceitar a proposta do chefe de Estado, embora a sua debilitada saúde tenha exigido 15 dias no Alentejo para retemperar forças apenas um dia depois de tomar posse.

A 16 de Março, nomeado presidente do ministério e ministro das Colónias, entrou no Parlamento, apoiado na sua bengala, para apresentar o executivo e comunicar ao país a prioridade da coligação governamental: "Concentrar todas as nossas energias na defesa da pátria, praticando para isso os maiores sacrifícios, solidários sempre com a nossa fiel e poderosa aliada, a Inglaterra, com a qual contamos, como ela conta connosco."

Todos os sacrifícios seriam poucos face ao "perigo" que ameaçava a pátria, alertava Almeida, que definiu desde logo a mais importante missão do Governo: preparar um exército e enviá-lo para a frente ocidental da guerra.

Censura contra alarmes

Não só a União Sagrada pecava pela ausência das restantes forças políticas, como a própria coligação sofria de uma distribuição pouco equitativa de pastas ministeriais. Os democráticos de Afonso Costa, responsável pelas Finanças, ficaram com a maioria dos ministérios, arrebatando os mais relevantes no contexto de guerra - no Ministério da Guerra manteve-se Norton de Matos, e Augusto Soares ficou com os Negócios Estrangeiros.

Depois de Almeida ter comunicado ao país a principal missão da União Sagrada, o Governo não perdeu tempo e avançou rapidamente com os treinos de instrução para as frentes de combate, realizados em Tancos, onde se deu o "milagre" de uma preparação célere. Num esforço para mobilizar a população em torno do esforço de guerra, o Governo ainda aprovou a atribuição de um subsídio diário às famílias dos combatentes - algo que não surtiu grande efeito, pois o país, pobre, rural e analfabeto, nunca compreendeu os argumentos dos "guerristas", sobretudo quando começaram a escassear os produtos alimentares básicos.

Agora que Portugal era oficialmente um dos países beligerantes, outras acções se impunham, nomeadamente a censura à imprensa e à correspondência. De acordo com a lei, que entrou em vigor logo no final de Março, não eram permitidas quaisquer informações susceptíveis de "alarmar o espírito público" ou de "causar prejuízo ao Estado" (e aqui incluía-se dados sobre a preparação e execução da defesa militar). A norma previa ainda a suspensão (por tempo indeterminado em casos de maior "gravidade") das publicações periódicas que reincidissem na violação da lei. Ora, num momento em que os opositores da participação na guerra ainda tentavam apelar à sensatez do Governo, a censura revelava-se a melhor mordaça para calar os anti-intervencionistas.

No entanto, a iniciativa de contrariar o ambiente de consensos fictícios partiu do próprio primeiro-ministro: decretou uma amnistia por crimes políticos, deserções e violações das leis de imprensa e da Lei de Separação e isso fez emergir ódios antigos na aliança governativa. Tanto que teve de ameaçar com a demissão da chefia do Governo para impor o perdão.

Os democráticos, irados com o acto de benevolência aos inimigos internos, acabaram, pouco depois, por devolver aos evolucionistas a "traição": em Maio, chumbaram a proposta de revisão constitucional dos unionistas e evolucionistas, que pretendiam atribuir ao Presidente da República o poder de dissolver o Parlamento.

Mas o debate inflamado dentro e fora do Governo (que prenunciava já um breve tempo de vida à União Sagrada) teve um dos seus pontos altos em Outubro, quando foi conhecido o destino dos navios alemães capturados em Março. Afonso Costa anunciara que as embarcações ficariam ao serviço da economia nacional, prevendo-se que alguns seriam fretados à Grã-Bretanha. Na verdade, alguns destes navios chegaram a transportar para fora do país cortiça, vinho e conservas (os produtos que sustentavam a balança das exportações), regressando aos portos nacionais carregados de carvão britânico, milho e açúcar.

Porém, a realidade, descoberta em Outubro, estava longe daquela que fora proclamada por Costa - a maioria dos navios tinha sido fretada, a baixo custo, a uma firma britânica, a pedido da Grã-Bretanha. Assim, quem lucrava de facto com a apreensão dos barcos eram os ingleses, que, para tal, tinham o consentimento de um governo que privilegiava a estreita colaboração com os aliados em detrimento da economia nacional, então em declínio. Face à verdade choveram críticas sobre o executivo, com os unionistas de Brito Camacho a lançarem acusações de corrupção que alvejavam sobretudo Afonso Costa.

A segunda União Sagrada

Apesar da ressurreição dos partidos da oposição, a União Sagrada prosseguiu, não sem custos políticos, a sua missão, que esteve prestes a concretizar-se durante o Verão, quando as forças militares aliadas aceitaram a partida do Corpo Expedicionário Português (CEP) para a frente ocidental. Contudo, a chamada dos combatentes portugueses para a guerra não foi imediata e as conversações com o Exército britânico - que tinha muitas reservas sobre o envio de homens mal preparados para França - arrastaram-se até aos meses de Inverno.

Em Dezembro, o Governo sofreu duros golpes externos e internos. Nos primeiros dias do mês o país entendeu, pela primeira vez, o que significava a participação na I Guerra Mundial: a 3, o Funchal foi bombardeado por submarinos alemães que atingiriam vários edifícios públicos. E, dez dias depois, Machado Santos, aclamado como o "herói da Rotunda", juntou todas as forças militares que se opunham à entrada na guerra e tentou um golpe de Estado. A revolta falhou, Machado Santos foi preso e o Governo declarou o estado de sítio. Tentando prevenir motins futuros, ordenou a prisão de militares acusados de insubordinação e protelou os julgamentos para o fim da guerra.

O descalabro da União Sagrada assumia pois contornos mais graves do que aqueles que João Chagas profetizara. Mas quando o primeiro contingente do CEP partiu para a Flandres, no final de Janeiro de 1917, o executivo julgou que, a partir de então, poderia governar com sossego e debelar a tensão política. Puro engano. Em Abril, a coligação entrou novamente em ruptura, desta vez por causa do Conselho Económico Nacional, organismo criado para defender e promover o desenvolvimento dos territórios portugueses, sob a dependência directa do primeiro-ministro.

Com Afonso Costa fora do país (deslocara-se a França e Espanha para uma viagem diplomática), o debate e a votação parlamentar deram o golpe fatal na União Sagrada: em discussão estava a atribuição de mais poder ao novo órgão estatal, mas a bancada dos democráticos rejeitou liminarmente a proposta evolucionista e o projecto de lei foi chumbado pela maioria dos deputados. A crise latente chegara ao fim. Nessa mesma noite, Almeida apresentou a sua demissão a Bernardino Machado.

Na imprensa e nos corredores do Parlamento lançavam-se os nomes dos putativos sucessores de António José de Almeida: à cabeça surgia, claro está, Afonso Costa; mas os boatos incluíam também Norton de Matos e Correia Barreto (ex-presidente da Câmara de Lisboa e candidato a Belém em 1915). No entanto, Bernardino Machado aguardava a chegada de Costa, prevista para o final da tarde do dia 23, na estação do Rossio.

Enquanto o líder democrático estava em Madrid, hospedado na Legação Portuguesa, alguma imprensa republicana não desperdiçou a oportunidade para lhe lançar críticas mordazes. O jornal A Capital, anti-Costa, chamava-lhe "Messias" e questionava: "Já repararam que a existência política da República se tem resumido sempre em estar à espera do sr. Afonso Costa?" E continuava: "Esperamos que ele parta, esperamos que ele chegue, esperamos que ele se restabeleça, esperamos que ele queira ser governo, esperamos que ele não queira ser governo, esperamos que ele apareça, esperamos que ele resolva, esperamos que ele fale."

Quando ele chegou, na tarde de 23 de Abril, reuniu-se de imediato com a sua bancada parlamentar e à noite foi recebido pelo Presidente da República. No dia seguinte, toda a imprensa noticiava que Afonso Costa aceitara formar um novo governo de União Sagrada, não contando, porém, com António José de Almeida. Este, após uma reunião do seu partido, decidira apoiar o novo Governo, embora "fora da União Sagrada".

A União Sagrada era, portanto, uma mera expressão que se mantinha, pois Costa escolheu apenas ministros democráticos. E a morte anunciada do novo executivo foi mais notória quando começaram a surgir as primeiras notícias das baixas no CEP (para não falar da inadequada preparação dos combatentes portugueses, mal fardados e famintos) - o país continuava a não compreender a participação na guerra, até porque a promessa da primeira União Sagrada de elucidar a população (a iniciativa chegou a ser baptizada de "semana patriótica") nunca foi cumprida.

Ao descrédito do Governo, em litígio com os sindicatos e a Igreja, juntaram-se os motins provocados pela fome, que grassava em todo o país, e as greves nos meses de Verão, que fizeram parar a construção civil, os serviços postais, os telégrafos e a distribuição da água. Como se isto não bastasse, as aparições da Virgem em Fátima, em Maio, engrossaram as fileiras dos contestatários do Governo e também do regime.

Não é difícil imaginar que perante este cenário, ao qual não faltavam lutas internas no Partido Democrático, o segundo Governo de União Sagrada tivesse os dias contados. Só restava aguardar a estocada final. Aconteceu a 5 de Dezembro, quando Sidónio Pais, líder do golpe de Estado, expurgou quaisquer resquícios da União Sagrada e desterrou os seus líderes políticos.

Chegara o momento de paz dos governos de União Sagrada.


Bibliografia

História Contemporânea de Portugal, dir. João Medina, Lisboa, Multilar, 1990

Afonso Costa, Filipe Ribeiro de Meneses, Lisboa, Texto Editora, 2010

História da Primeira República Portuguesa, coord. Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, Lisboa, Tinta da China, 2009

União Sagrada e Sidonismo. Portugal em guerra (1916/18), Filipe Ribeiro de Meneses, Lisboa, Edições Cosmos, 2000

A Capital, Março de 1916 e Abril de 1917

Diário de Notícias, Março de 1916 e Abril de 1917

Diário do Governo, 28 de Março de 1916



Jornalista



Amanhã
A República contra Fátima?
Por António Marujo


Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República

Fim
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sousa Lopes - um pintor nas trincheiras

  
Pormenores d" MIGUEL MANSO
República

Um pintor nas trincheiras

Sousa Lopes foi o único pintor a acompanhar o Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial. Foi ele quem pediu ao ministro da Guerra que o deixasse ir para a frente francesa e, lá chegado, foi a custo que se instalou nas trincheiras. A Rendição é a sua obra maior. Por Carlos Silveira

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Em Agosto de 1917, num país agitado pela mobilização da guerra, o pintor Adriano Sousa Lopes é nomeado pelo governo da República oficial-artista do Corpo Expedicionário Português (CEP), na frente ocidental da Grande Guerra. Desde Fevereiro que sucessivos contingentes de soldados portugueses chegavam ao Norte de França, para defender uma área situada na planície do rio Lys, sector militar que não excedia os 18 quilómetros na primeira linha, e que se integrava autonomamente na frente do Primeiro Exército Britânico.

Numa operação inédita, mais de 55 mil portugueses serão mobilizados até ao final da guerra, em Novembro de 1918. Antes de partir para França, o artista anuncia publicamente as suas intenções ao jornal O Século: "Em primeiro lugar, é uma obra de propaganda do nosso esforço militar. Eu passaria a colaborar em várias revistas estrangeiras, que ilustraria com assuntos da vida do nosso Exército em campanha", explica ao repórter do jornal. "É justo que de todo o sacrifício que o país faz, comparticipando na guerra, algum benefício colha."

Era uma oportunidade única para Adriano Sousa Lopes (1879-1944), pintor até esse ano de 1917 desconhecido do público português. Uma situação que, aliás, se repete nos nossos dias: a última exposição da sua obra, na Fundação Gulbenkian, foi há 30 anos. Só recentemente voltou a ser falado, quando em Março de 2007 protagonizou uma das vendas mais altas de uma pintura portuguesa em leilão. Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), amigo pintor a quem sucedeu como director do Museu Nacional de Arte Contemporânea, via-o como "um moderno respeitador do passado", e tinha razão. Pintor de sólida formação académica, e elegendo os impressionistas franceses como mestres, Sousa Lopes trilhou um percurso independente na arte portuguesa da primeira metade do século XX.

Exposição de sucesso


Nascido em Vidigal, no concelho de Leiria, o pintor vivia em Paris desde 1903, para onde fora estudar como pensionista do Estado no estrangeiro, e, desde Agosto de 1914, assiste à mobilização geral que a guerra provoca na sociedade francesa. Chega a voluntariar-se como enfermeiro nos hospitais militares da cidade, onde realiza apontamentos que grava a água-forte.

Mas o ano de 1917 é um momento-chave na carreira: a sua primeira exposição individual é um sucesso de crítica e de público, patente desde Janeiro na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. O Presidente da República Bernardino Machado visita a exposição e adquire vários trabalhos. O jornal O Século chega a noticiar o roubo de um quadro durante a exposição, uma das inúmeras vistas pintadas em Veneza.

Nos meses em que permanece na capital, a sua actividade em prol da participação na guerra é imparável: nas salas da exposição organiza um serão de arte em benefício das famílias dos soldados, onde o próprio canta árias de Beethoven, e realiza com o jornal O Século um sorteio de um retrato da sua autoria, desenhado a carvão.

Aproveitando esta visibilidade, Sousa Lopes empenha-se tenazmente em conseguir ir para a frente de batalha. A proposta é formalizada numa carta que escreve em Abril ao ministro da Guerra, major Norton de Matos, conservada no Arquivo Histórico Militar: "Ouso solicitar de V. Ex.ª a honra de me conceder um posto honorífico nas fileiras do Corpo Expedicionário Português, confiando-me o encargo de documentar artisticamente a participação de Portugal na Guerra europeia, podendo esta ser metodicamente feita e orientada por V. Ex.ª", escreve ao ministro. E mais à frente precisa o seu pedido: "A fim de realizar este plano em cuja execução porei o maior fervor patriótico, rogo a V.ª Ex.ª que me seja abonado um soldo correspondente ao posto de capitão em campanha (...)."

O pintor dá como exemplo a seguir a França, que contratara os seus artistas de guerra, e cita nomes como Charles Fouqueray (1869-1956) ou Lucien Jonas (1880-1947), que nesses anos enchiam as páginas das revistas de grande circulação, como a famosa L"Illustration. De facto, nas missões artísticas que organizava por períodos de poucas semanas, a República Francesa irá trazer ao campo de batalha mais de uma centena de artistas, obrigados a entregar pelo menos uma obra ao Estado. O Reino Unido, através do Imperial War Museum de Londres, nomeará cerca de 16 official war artists, e mesmo o Governo dos EUA, país que entra no conflito em 1917, nomeia no ano seguinte oito artistas para documentarem em França a acção da sua força expedicionária. Portugal salva-se pela iniciativa inédita deste pintor.

À espera na retaguarda

Na carta, Sousa Lopes estabelece ainda uma série de objectivos a cumprir, perfeitamente adequados aos serviços de propaganda do Ministério da Guerra. O pintor comprometia-se a organizar um álbum com retratos de militares e de episódios do Exército em campanha, e a realizar uma série de pinturas inspiradas nos feitos mais gloriosos do CEP, tendo o Estado no futuro direito de opção na compra. E, após a sua nomeação, parte rapidamente para França, onde chega em finais de Setembro.

A realidade da frente portuguesa era muito diferente do que imaginara. O quartel-general em Saint-Venant estava informado da sua chegada, mas não lhe dava as mínimas condições para desenvolver o seu plano. Sem salvo-conduto, nem viatura à disposição, o capitão artista tem sérias dificuldades em se deslocar pelo sector, onde havia restrições de circulação.

Nos primeiros meses, consegue reunir alguns apontamentos paisagísticos e da instrução militar nas escolas da retaguarda. Mas era preciso ir para a frente, ver aqueles soldados em acção no terreno. No quartel-general, os oficiais superiores só o vêem como um oficial de serviços extraordinários. Não poucas vezes, é confundido com o capelão militar.

André Brun (1881-1926), conhecido escritor humorista, encontrou nesses dias o pintor numa aldeia da retaguarda, e registou a sua impressão: "Vivia meio esquecido e semiabandonado. Quando tanto inútil tinha um automóvel para passear a felpa dos sobretudos ingleses, Sousa Lopes tinha que esperar que um dia uma viatura menos carregada o pudesse transportar", escreve no seu admirável relato A Malta das Trincheiras (1919). "Quando o vi em Dezembro do ano passado, não excedera ainda a linha das escolas e o seu álbum de apontamentos apenas continha esboços sem maior interesse para ele nem para a sua obra."

Desiludido, o pintor chega a pensar em desistir da missão, como confessou mais tarde numa entrevista ao jornal OSéculo: "Todos os planos que, aqui de longe, eu tinha imaginado pôr em prática, quando lá cheguei vi que os não podia realizar, e apoderou-se de mim um grande desânimo, a ponto de chegar a pensar em desistir, e voltar para Portugal sem nada ter feito."

Em Janeiro de 1918, o artista decide arriscar-se directamente nos sectores da frente, pedindo hospedagem por uns dias aos comandantes que defendem as trincheiras da primeira linha. A decisão surte efeito imediato.

A Rendição, uma obra-chave

Em Ferme du Bois, situada no flanco direito do sector português, convive duas semanas com o batalhão do major André Brun, onde compõe uma das suas melhores águas-fortes, Infantaria 23 na Ferme du Bois. Nela vemos os soldados enfileirando-se para receberem a sua refeição diária num pátio em ruínas de uma herdade abandonada, utilizada como abrigo precário do subsector. Será destruída a 9 de Abril desse ano, durante a célebre Batalha de La Lys travada na frente portuguesa.

De seguida, passa uma temporada na área esquerda do sector, em Fauquissart, defendido pelo capitão Américo Olavo (1881-1927) e o seu batalhão de Infantaria 2. Durante 16 dias, acompanha o comandante madeirense nas visitas de inspecção às trincheiras, e faz inúmeros apontamentos frente ao motivo, prática de um pintor que admirava os impressionistas: a neve que cobria a paisagem desolada do sector; soldados de costas alinhados no parapeito da trincheira, espreitando o inimigo; ruínas das herdades isoladas na planície lamacenta que separava as linhas inimigas, tudo servia para preencher os seus álbuns, de que hoje restam poucos desenhos em colecções públicas.

De repente, uma cena inesperada surge-lhe diante dos olhos: entre a neve, vê um grupo de soldados a sair de uma trincheira, cobertos com pelicos alentejanos. O impacto no pintor é imediato. "Veja o meu amigo, como isto é interessante, o que este pequenino canto dá!!!", diz o pintor para Olavo, que registou o entusiasmo no seu livro Na Grande Guerra (1919). "Soldados vindos das linhas, cobertos com peles que os protegem do frio, enlameados, as caras mal rapadas, um ar de esmagadora fadiga... Esta saída da trincheira, o primeiro cotovelo que lhe descortinamos ao fundo e estes homens que saem, quase definem as linhas e a sua vida."

É o seu grande quadro, A Rendição, que o pintor acabava de descrever, no exacto momento em que a ideia se formava frente àquele grupo de soldados. Na versão final, é uma composição com mais de 12 metros de comprimento, terminada em 1923, hoje visível no Museu Militar de Lisboa. É uma obra- chave, que faz a síntese da experiência do pintor em França, confrontado com a dura realidade que o CEP vivia no sector português.

Não há aqui nenhum feito glorioso que inicialmente planeara registar, mas apenas o quotidiano trágico destes soldados camponeses, que caminham exaustos e curvados sob o peso das mochilas e dos mantimentos. O pintor insufla grandiosidade às figuras, pintadas maiores que o natural e apresentadas como num friso clássico, modelo que o pintor inglês John Singer Sargent (1856-1925) também irá utilizar, nesse mesmo ano, na sua famosa obra Gaseados, hoje no Imperial War Museum.

À cabeça deste penoso cortejo, o artista retrata Américo Olavo, numa homenagem ao camarada que o acolhera nas trincheiras do seu sector. Plasticamente, há um notável equilíbrio entre os tons terras das figuras e os empastamentos brancos, sugerindo um imenso sudário de neve que cobre a planície e a estrada lamacenta. O quartel-general não gosta da composição, como Brun fez questão de registar no seu livro: "(...) os altos galões lhe tinham aconselhado a que pusesse de parte, pois o movimento da malta, voltando à tona da vida, não era feito em formatura regulamentar!" Mas o nosso pintor não iria ceder: tinha finalmente encontrado um tema poderoso, que simbolizava na perfeição o sacrifício humano da guerra de trincheiras.

Projecto comemorativo


Após o Armistício, Sousa Lopes é agraciado com o grau de cavaleiro de Santiago de Espada, juntamente com o fotógrafo oficial do CEP, Arnaldo Garcez (1885-1964). Em 1919, começa a abrir uma série de gravuras a água-forte sobre a experiência de guerra, apresentando algumas no Salão de Paris desse ano.

Nas décadas de 1920 e 30, pinta uma série de seis telas, que hoje acompanham A Rendição nas salas do museu. Nelas, o projecto comemorativo e retórico é mais evidente do que nas gravuras, encenando a resistência lusa durante a batalha de 9 de Abril, tragédia que é uma peça central na narrativa portuguesa da guerra.

Nessa manhã, a 2.ª Divisão do CEP é esmagada na primeira linha por uma ofensiva em larga escala do Exército alemão, oito divisões com 136 mil homens atacam o sector, após uma preparação maciça de artilharia. Metade dos 16 mil oficiais e praças portugueses são mortos ou feitos prisioneiros.

Numa das pinturas, Marcha para a Primeira Linha, vê-se um pelotão de soldados de Infantaria 15 que marcham energicamente, e em formatura regulamentar, em direcção ao reduto de Lacouture, onde alguns portugueses iriam resistir ao avanço inimigo até ao final da manhã de dia 10. Atravessam uma aldeia atingida pela artilharia alemã, com edifícios ardendo, e cujos civis estão a ser evacuados para a retaguarda, sob um céu amarelado tingido pelas labaredas e pelo gás.

Com a Destruição de um Obus, tem-se uma rara imagem desse combate desigual: no fragor da batalha, e brandindo uma picareta nas duas mãos, o soldado José Alves, artilheiro da 5.ª Bateria de Le Touret, tenta destruir num acto de desespero a sua peça de artilharia, para que não caia nas mãos dos soldados inimigos, que rapidamente tomam conta da trincheira e o atingem mortalmente à baioneta.

Todas estas pinturas e águas-fortes formam um conjunto sem igual na arte portuguesa de novecentos, que no seu tempo suscitou grande admiração. António Ferro, vendo a exposição de 1927, escreveu que, na sombra da trincheira, o pintor descobrira "a lama e as estrelas", considerando-o decididamente um dos maiores pintores da guerra. Mais recentemente, José-Augusto França deu-lhes o destaque merecido, como "as melhores (ou as únicas) pinturas de batalha da pintura portuguesa".

Historiador (carloswebmail@gmail.com)

AmanhãO Governo de União Sagrada: A paz só chegou no fim. Por Maria José Oliveira

Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República


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Marcha para a primeira linha (frente), por Sousa Lopes; Pormenor do quadro no Museu Militar de  Portugal


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Adriano Sousa Lopes, “Destruição de um óbus”, (1925) 
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Funeral do Soldado Desconhecido.jpg
Sousa Lopes, Funeral do Soldado Desconhecido
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Sousa Lopes "Pastor na Serra da Estrela"
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Iv 
Adriano de Sousa Lopes (1879-1944)
St. Tropez
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Imagem
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Castelo de Vide
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Uma guerra com sotaque português


A I Guerra Mundial foi a primeira batalha da República portuguesa. Catarina Mendonça Ferreira esteve nas trincheiras da exposição que explica o assunto.

Macas para transportar feridos, fardas, periscópios, marmitas, metralhadoras, medalhas, cartas e trincheiras. Entrar na exposição “I Guerra Mundial: Portugal nas Trincheiras” é quase como entrar num cenário de um filme de guerra.

Só que estes adereços não são fictícios. E a prová-lo está o sangue que ainda se vê numa maca, os diários escritos à mão por soldados com nomes portugueses, e os canhões que testemunham um dos momentos mais negros que a República portuguesa teve de enfrentar. No ano em que se comemora o primeiro centenário da República, esta exposição inédita, organizada pelo Museu da Presidência da República nos Museus da Politécnica, evoca o primeiro grande acontecimento internacional em que participou o regime instaurado em 1910.

“Cada uma das peças que aqui está conta uma história”, começa por explicar Elsa Alípio, comissária da exposição. E no antigo picadeiro do colégio dos Nobres estão cerca de 200 peças provenientes do Exército, de vários arquivos, de museus militares, da Liga de Combatentes e de muitos particulares, que reconstituem o quotidiano dos soldados que participaram na I Grande Guerra Mundial. Objectos que traçam o seu percurso desde a declaração de guerra a Portugal, em Março de 1916, até à assinatura do Tratado de Versalhes, em 1919.

Toda a exposição é marcada pelo retrato da guerra feito pelo fotógrafo Arnaldo Garcez e as gravuras de Sousa Lopes. Estes foram dois homens que acompanharam as tropas com o objectivo de registar o quotidiano dos soldados. Curioso é que as gravuras de Sousa Lopes, da altura, quase parecem os diários gráficos que se fazem hoje em dia e que estão tanto na moda. De resto, não se pode falar de uma guerra sem referir o armamento, e por isso um dos núcleos é dedicado a ele. A peça que se destaca é um canhão Schneider-Canet de 75 milímetros, peça de artilharia pesada utilizada pelo Corpo Expedicionário Português, e que é um bom exemplo do que foi a I Guerra Mundial ao nível bélico. Outros objectos que impressionam são, por exemplo, um capacete de ferro trespassado por uma bala, uma máscara de gás para cavalos ou a metralhadora Louise, a que os portugueses chamavam “luisinha”.

Uma das peças mais marcantes da exposição é um diário de um soldado oriundo de uma aldeia da Beira Alta que conta a sua experiência na primeira pessoa. “Este diário é extraordinário porque a maioria dos soldados nem sequer sabia escrever e este tem a particularidade de ter sido escrito metade em verso e metade em prosa, com muitos toques de humor”, conta Elsa Alípio. Os registos de outros nomes mais conhecidos, como Jaime Cortesão, que foi médico nesta guerra, Hernâni Cidade ou o soldado André Brun também estão em exposição.

A imersão crescente no cenário desta guerra faz-se por corredores que reconstituem uma trincheira. Antes de se passar à memória mais dolorosa da guerra – a batalha de La Lys, em que morreram muitos soldados – passa-se pelo núcleo dedicado aos cuidados de saúde. Aqui conservam-se intactas várias caixas de material cirúrgico – algumas, até, bastante macabras – , pensos rápidos, anestésicos e muitos registos de médicos, enfermeiras e doentes que viveram a primeira Grande Guerra do século XX.

A exposição “Portugal nas Trincheiras – a I Guerra da República” está nos Museus da Politécnica (R. da Escola Politécnica, 60) até 23 de Abril. Horários: terça a quinta e domingos das 10.00 às 18.00, sexta e sábado das 10.00 às 24.00. Marcação de visitas guiadas pelo tel: 21 361 4660.

terça-feira, 2 de Março de 2010
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http://timeout.sapo.pt/news.asp?id_news=5107
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terça-feira, 29 de junho de 2010

Le Petit Journal - 'Who Fired The First Shot?'

from ‘the War Illustrated, 25th August, 1917
Chapters from the Inner History of the War
'Who Fired The First Shot?'
by Lovat Fraser
Starting Hostilities
a border barricade

I consider that the first shot in the Great War was fired by an unknown German at 8.50 on the morning of Sunday, August 2nd, 1914, at a point about eight miles east of the fortress of Belfort, and about one and a half miles east of the church which stands in the French frontier village of Petit Croix.
This unknown German was standing about one hundred and fifty yards inside German territory, at the edge of a little wood called "Le Breuleux," near the railway line which runs from Belfort to Mulhouse. I select him because, after much research, I can find no authentic evidence of an earlier shot.

from 'le Miroir' - a view of the border posts at Petit Croix

Some people contend that the first shot was fired on that fateful Sunday morning of June 28th, when the Archduke Francis Ferdinand and his wife were murdered at Sarajevo, in Bosnia. Again, it may be argued that the hostilities between Austria- Hungary and Serbia constituted the true beginning of the Great War ; but I maintain that the Great War really began when the five Great Powers — Germany, Russia, Austria-Hungary, France, and Great Britain — took up arms. For the benefit of those who think differently, however, I will note the initial acts of war between Austria- Hungary and Serbia.
The first hostile act was committed on July 27th by Austria-Hungary, who seized the Serbian steamers Dcligrad and Morava on the Danube near Orsova. The Serbs knew what was coming, for diplomatic relations had been abruptly broken off on July 25th. At 1.30 on the morning of July 28th Serbian engineers blew up the bridge over the River Save between Belgrade and Semlin. The Austrians were ready, and opened artillery and rifle fire on the Serbs, while their Danube monitors also fired. These are the first authenticated shots in the Austro-Serbian war.

Austrian Danube monitors attacking Belgrade in July 1914

Black Saturday
All this time there had been no declaration of war, but at noon on July 28th Austria- Hungary declared war on Serbia. Nothing further is recorded until midnight on July 29th, when the Austrians bombarded Belgrade.
The first hostile act committed by Germany against France occurred on Friday, July 31st, at the German frontier station of Amanvillers, near Metz. The authorities at Amanvillers detained, in spite of protests, Locomotive No. 0113, belonging to the Eastern Railway Company of France. On the same day Germany detained at Hamburg, Cuxhaven, and elsewhere British merchant ships belonging to the Great Central Company and others, thereby committing her first hostile act against Great Britain.
On Saturday, August 1st, which was a day of terrible suspense and gloom for all Europe, obscure things happened on the borders of the wild lake and forest region in East Prussia known as Masuria. The Germans alleged that during the day Russians had crossed their frontier at Echwidlen, south-cast of Biala. A stray telegram came to England saying that a German patrol had ridden into Poland from Gross Prostken, a frontier station, and that a Russian patrol had fired some shots. The truth was never known, for at 7.10 p.m. on that black Saturday Germany declared war on Russia.
Sunday, August 2nd, 1914, was really the first day of the Great War. Early on the Sunday morning, at an hour which I have always understood was 6 o'clock, German troops in motor-cars entered the Grand Duchy of Luxemburg, a perpetually neutral State under the Treaty of London of 1867. They crossed the River Moselle at two points, over the bridges of Remich and Wasserbillig. Soon afterwards German armoured trains packed with troops entered by Wasserbillig. No shots appear to have been fired in Luxemburg.
First Authenticated Shot
Less than three hours afterwards there was fired what I conclude to have been the first authenticated shot of the war. On July 30th General Joffre had with- drawn all French troops to a distance of ten kilometres from the frontier, in order to leave to the Germans the responsibility for any hostilities. The order was not cancelled until 5.30 p.m. on that memorable Sunday. During the Sunday morning German cavalry patrols entered French territory at eleven points, possibly more, along the frontier before Beltort, and penetrated to various villages. They also entered France at Cirey-sur- Vezouze cast of Luneville, and at points north and south of Longwy, but I cannot trace the exact hour of the latter incursions.
On the other hand, the exact hour of each of these occurrences in the frontier region east of Belfort is set down in accessible records. The affair near Petit Croix, which I have selected as the first, was not, however, an invasion. It was an exchange of shots across the frontier. Three armed French Customs officers were on duty on the railway, about one hundred yards inside their own frontier. They saw on German territory an armed party of about twenty-five Germans, some of them two hundred and fifty yards away, others four hundred yards away. The Germans suddenly began shooting at them, and fired about fifteen shots in all. The three Frenchmen withdrew without replying, and turned out the other seven members of the Customs staff. All then moved forward towards the frontier, when the Germans fired another fifteen shots. The first man to fire a shot on the French side was Captain Dentz, who was in command of the Customs station of Petit Croix The French fired nineteen shots in all and the Germans then withdrew.

left : from a French weekly newspaper 'le Petit Journal'
right : from a German children's book

Earliest Casualties
Not a soul seems to have been hit on either side and in this trivial and unimpressive manner the Great War began.
An hour or so later, so far as I can fix the time, there was a much more serious encounter at or near Jonchcrey, not far from Delle, and more than ten kilometres from the German frontier. A French post consisting of Corporal Peugeot and four men saw to their surprise a German cavalry patrol, consisting of Lieutenant Mayor and six men of the 5th Mounted Jaegers, riding towards them. Peugeot challenged, and Mayor responded by firing three shots at him with his revolver, mortally wounding him. The other Frenchmen fired in turn at Mayer, killing him instantly. Mayor and Peugeot appear to have been the first men killed on either side in the Great War.
At 9 o'clock on the Sunday evening the German light cruiser Augsburg fired twenty shots at the Russian port of Libau, in the Baltic, and claimed to have done some damage. These were probably the first shots fired in the naval war.
On the main eastern front the first authenticated invasions of both Germany and Russia occurred on Monday, August 3rd. At 6 p.m. the Russians attacked the town of Johannisburg, in East Prussia, a few miles across the frontier.. At some unrecorded hour the same day the Germans crossed from Silesia and Posen and look the Polish towns of Tschenstochow, Berdzin, and Kalisch,
Extraordinary confusion still exists about the exact hour and day on which the Germans began their great crime of the invasion of Belgium. Personally I have now little doubt about the hour and place. The Germans formally invaded Belgium at about 9 a.m. at Gemmenich, four miles from the great German city of Aix-la-Chapellc. A patrol of twenty-five hussars trotted up to the frontier line at 8.45. Three Belgian gendarmes were the sole witnesses of this tremendous and solemn event which shook the world. One, named Bechet, rode off on his bicycle to a telephone post as soon as he saw the cavalry approaching. The other two, whose names were Thill and Henrion, barred the road. The officer leading the hussars dismounted and read a high-flown proclamation addressed to the Belgian people. The gendarmes retired, and the invasion began.
Invasion of Belgium
But did this event occur on Monday, August 3rd, or Tuesday, August 4th ? The twelve hours' ultimatum sent by Germany to Belgium expired at 7 a.m. on Monday August 3rd. Germany formally declared war on France at 6.45 p.m. on the Monday evening. The French Yellow Book and various histories give the date of the actual invasion of Belgium as August 3rd, but I think there can be no doubt it was on August 4th.
It is now clear in short, that Germany invaded Belgium in 1914 on the same day, at the same hour, and I believe at the very self-same minute, as she entered France in 1870. Germany invaded France at Weissenburg at 9 a.m. on August 4th, 1870, the first shot on that day having been fired "soon after 8 o'clock'." No trustworthy evidence tells when and where the first shots were fired in Belgium.
The first shot fired by Great Britain in. the war presumably stands to the credit of the light cruiser Amphion or the destroyer Lance, of the 3rd Destroyer Flotilla. It was fired during the morning of August 5th at the German mine-layer Koenigin Louise, which was sunk. The first attack by German submarines was made on August 9th against the 1st Light Cruiser Squadron, and on that occasion H.M.S. Birmingham sank U15.
The first recorded, collision between British and German troops occurred on August 22nd near Villers St. Ghislain, a few miles east of Mons. Captain Hornby with a squadron of the 4th Dragoon Guards charged a column of Uhlans, routed them, and captured several prisoners. There were other patrol encounters on that day. Next morning at dawn the Germans fired the first shell of the Battle of Mons.

corporal Peugeot, the first French soldier killed in the war
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Le Petit Journal - Les Instantanés de la Guerre

'Le Petit Journal'
Colorful Front-Pages and Allegories Galore
two typical coverpages - left a patriotic allegory and right a portrait

'Le Petit Journal' was a long existing illustrated magazine supplement that appeared in a somewhat old-fashioned 19th century format. The back and front covers were printed in bold and eye-catching color, usually with prints or etchings of news-worthy events of the more sensationalist kind or patriotic allegories. The price was amazingly cheap and the print-run ran into more than a million copies for every issue. The inside pages consisted of text and at times pages of photographs or large-sized war maps. .
Some of the following scans are from various issues published in 1919 and as can be seen, throughout the year almost every cover was dedicated to matters pertaining to the Great War. During the war years themselves, a large number of coverpages were devoted to depicting various well-known and lesser-known commanding officers and heros of the Allied armies. In the later years of the war, instead of producing colored illustrations, use was made of hand-colored photographs, often decorated with flowery motifs or set out in more modernist appearing collages.
two typical pages of war photos
two examples of backpage illustrations
left : Russian women volunteers
right : a young regimental mascot with the Russian volunteers in France

sábado, 8 de agosto de 2009

Hiroshima e Nagasaki: pensemos nas feridas...


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A Guerra estava no fim. A 30 de abril de 1945, em meio à tomada de Berlim pelas tropas soviéticas, Adolf Hitler cometia suicídio e novo governo era formado, pedindo o fim das hostilidades. A 2 de maio, a capital alemã era ocupada. Cinco dias depois, a Alemanha rendia-se incondicionalmente, em Reims. Os conflitos restantes aconteciam no Pacífico. E foi no Japão, mais precisamente em Hiroshima e Nagasaki, que a humanidade conheceu a mais terrível criação de sua própria tecnologia. A 6 de agosto de 1945, era lançada a primeira bomba atômica em alvo humano.

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Na manhã daquele dia, há sessenta anos, Hiroshima despertava quando, às 8h45m, os japoneses ouviram o alarme indicando a aproximação de um avião inimigo. Dele foi lançada a primeira bomba atômica, batizada de "Little Boy".

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Instantaneamente, os prédios desapareceram juntamente com a vegetação, transformando Hiroshima num campo morto e deserto. Num raio de 2 quilômetros tudo ficou destruído. Uma onda de calor intenso emitia raios térmicos, como a radiação ultravioleta. Os sobreviventes vagavam sem saber o que havia atingido a cidade. Quem estava a um quilômetro do hipocentro da explosão morreu na hora. Alguns tiveram seus corpos desintegrados. Isto aumentou o desespero de tantos e tantas que nunca vieram a confirmar a morte de seus familiares nem tiveram o consolo de poder dar-lhes sepultura digna.

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Quem sobreviveu, foi obrigado a conviver com males terríveis. O calor intenso levou a roupa e a pele de quase todas as vítimas. Vidros e metais derreteram como lavas. Uma chuva preta, oleosa e pesada, caiu ao longo do dia. Continha grande quantidade de poeira radioativa, contaminando áreas mais distantes do hipocentro. Peixes morreram em lagoas e rios, e pessoas que beberam a água contaminada sofreram sérios problemas durante vários meses. O cenário da morte era assustador e desolador.

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Hoje, sessenta anos depois, restam-nos os horrores e as consequências de uma arma nuclear com potência eqüivalente a 20 mil toneladas de dinamite. Ainda hoje, o número de vítimas dessa primeira insânia nuclear continua sendo contabilizado, já ultrapassando 250 mil mortos.

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Nas décadas que se seguiram aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o poderio nuclear das grandes potências cresceu, os arsenais sofisticaram-se e o mundo não cessou de ver-se às portas de uma hecatombe atômica insuflada pela guerra fria. Enquanto os hippies pediam paz e o escândalo de Watergate derrubava o presidente Nixon, armas atômicas continuavam sendo produzidas.

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Veio a bomba de Napalm e os horrores de outra guerra absurda. A União Soviética caiu e o acidente de Chernobyl pôs o mundo diante do pior acidente nuclear civil da história. Em 2001, dois aviões derrubaram as torres gêmeas em Nova York e mudaram os rumos da história, desencadeando uma guerra que vê e busca inimigos nos quatro cantos do planeta. Enquanto isso, a sombra do sinistro cogumelo que naquela manhã de 6 de agosto desenhou-se nos céus de Hiroshima continua convidando insistentemente a humanidade a pensar.

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Vinicius de Moraes, em sua poesia musicada por Gerardo Rocha, “Rosa de Hiroshima”, alerta esta humanidade de memória curta, que somos todos, para não esquecer e parar de pensar. Pensar nas crianças mudas, telepáticas. Pensar nas meninas cegas, inexatas. Pensar nas mulheres, rotas alteradas. Pensar nas feridas como rosas cálidas. E pede para não esquecer a rosa, a rosa. A rosa de Hiroshima, a rosa hereditária. A rosa radioativa, estúpida inválida. A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica. Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.

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Essa rosa, que escureceu há sessenta anos os céus de Hiroshima e se transmutou em chuva escura que envolveu aquela cidade em tenebrosa e preta mortalha, continua pairando como ameaça real e assustadora sobre os céus de todo e qualquer lugar onde há vida ainda hoje. Se a visão tétrica da rosa sem cor, sem perfume, sem nada, não é capaz de continuar impressionando nossa memória, que ao menos as feridas o sejam. Pensemos nas feridas e nos feridos. Pensemos na chaga que a bomba abriu e ainda sangra das veias abertas e hemorragiadas da humanidade. Pensemos. Amanhã pode ser tarde.

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 Maria Clara Lucchetti Bingemer

Teóloga, professora e decana do Centro de teologia e ciências humanas da PUC-Rio.

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11 de Agosto de 2005

Depuis
Porto Alegre (Brésil)
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in Voltaire.net
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domingo, 13 de abril de 2008

Batalha de La Lys (90 anos)



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d.r. Após viagem de barco até Brest, os portugueses avançavam alimentados a pão e conserva de sardinhaApós viagem de barco até Brest, os portugueses avançavam alimentados a pão e conserva de sardinha


















* João Vaz
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La Lys: A realidade vista 90 anos depois

Exagero na tragédia

A evocação da batalha de La Lys, cujo 90.º aniversário se comemora amanhã e depois em França, surge quase sempre ligada a milhares de mortos. Lê-se isso em muitos artigos sobre a participação portuguesa na Primeira Grande Guerra, 1914-18, na imprensa e na internet, e até em reputadas Histórias de Portugal. A realidade é, contudo, diferente. O desastre militar, às vezes comparado à tragédia de Alcácer Quibir, acabou de facto com a capacidade operacional do Corpo Expedicionário Português (CEP), mas as baixas – 398 mortos, dos quais 29 oficiais – são muito inferiores ao habitual: morreram ‘327 oficiais e 7098 praças’.

O exagero tem uma das origens num livro escrito por um dos comandantes do CEP, Gomes da Costa, promovido a general nos campos da Flandres e mais tarde chefe do golpe militar do 28 de Maio de 1926, que impôs uma ditadura, mantida pelo Estado Novo até ao 25 de Abril de 1974. Para além dos seus interesses de carreira militar, a presença portuguesa nos campos de batalha na Europa suscitou os maiores exageros nas baixas. Por um lado devido à luta política interna, depois do levantamento militar que levou Sidónio Pais ao poder em Dezembro de 1917, quase ao mesmo tempo que partia para França o último contingente militar português, com por soldados do Infantaria n.º 17, de Elvas. Mas sobretudo porque depois de três batalhões nacionais acompanharem a ofensiva vitoriosa e participado com a bandeira portuguesa nos desfiles da consagração em Paris e Bruxelas, era importante apresentar muitas baixas, para obter maiores indemnizações a nível financeiro e de armamento na Conferência de Paz.

'Ao contrário de hoje, na altura considerava-se que um maior número de mortos significava uma campanha mais heróica', observa a mestre em História, Isabel Marques, que acaba de publicar um desenvolvimento da sua tese com o título ‘Das Trincheiras, com Saudade'.

HERÓI MILHAIS PASSOU A SER O 'MILHÕES'

Do 9 de Abril de 1918, em La Lys ficou a memória de muitas histórias. Nos anos 30, início do Estado Novo, teve grande popularidade um sobrevivente da trágica batalha, o soldado Aníbal Augusto Milhais, trasmontano de Murça, a quem se atribuiu o feito de sozinho, numa trincheira, com uma metralhadora Lotz, desbaratar uma coluna de alemães que se deslocava de mota, e outras forças de forma a retardar o seu avanço e permitir o estabelecimento das linhas aliadas 30 km. Foi condecorado com a Torre Espada e até mudou de nome depois do seu chefe militar lhe dizer: 'Tu és Milhais, mas vales Milhões'. Da ficção é o ‘capitão Afonso’ do romance ‘A Filha do Capitão’, de José Rodrigues dos Santos. 'Na hora do ataque às 04h00 estava numa trincheira de la Lys a bebericar uma chávena de chá. Com o susto da tempestade de metralha explosiva quase o ia entornando', escreve o autor.

DAS REVOLTAS AOS DESFILES DA VITÓRIA

As forças portuguesas ficaram destroçadas pelo ataque alemão na madrugada de 9 de Abril de 1918 em La Lys. Cansados e desmoralizados, perante a ofensiva de quatro divisões alemãs, os nacionais opuseram frágil resistência. Segundo Isabel Marques Pestana, convidada oficial para falar amanhã, na Universidade de Lille, sobre a participação portuguesa na Guerra 14-18, o desastre deve-se a uma situação calamitosa. A partir de Dezembro de 1917 não se enviaram mais tropas para França nem se renderam as que lá estavam. Isso ficou patente em 18 revoltas. Ainda assim, a partir de Setembro de 1918 foi possível reconstituir três batalhões que participaram na ofensiva vitoriosa final e desfilaram com a bandeira portuguesa nas paradas do triunfo em Bruxelas e Paris.

SARGENTO FERREIRO VIRA ARTISTA

Um encontro fortuito, na frente da Flandres, com um médico de Aveiro que já o conhecia como o ‘Almeida de Coimbra’, ferreiro com talento, facilitou ao sargento Lourenço Chaves de Almeida, da Coluna de Transportes de Feridos n.º 1, o cultivo da sua arte em França. Começou por arranjar uma lança para o estandarte de um regimento e aproveitava as cápsulas das granadas e de outros projécteis para artesanato muito elogiado. Também reparou uma bengala ao general Tamagnini, comandante-chefe das forças portuguesas, dando-lhe uma grande alegria pela estima em que ele tinha o utensílio oferecido por Mouzinho de Albuquerque.

Da batalha de La Lys recorda a confusão e que os ingleses lhe ficaram com um guarda-jóias feito na forja que improvisara em La Fosse. Estas e outras peripécias da presença portuguesa na guerra são contadas no livro ‘Memórias de um Ferreiro’ que Lourenço de Almeida escreveu antes de falecer em 1952, com 76 anos, e a vontade de um neto, Afonso Almeida, conseguiu que fosse publicado há menos de um mês com o apoio da Liga dos Combatentes.

MINISTRO NA COMEMORAÇÃO

Severiano Teixeira, ministro da Defesa Nacional, participa amanhã e depois em França nos actos dos 90 anos de La Lys.

HOMENAGEM NO CEMITÉRIO

O cemitério militar português de Riche-bourg é um dos locais da cerimónia que se alargam a La Couture e La Peylouse-St. Venant.

398 MORTOS

É o número mais exacto das perdas sofridas em La Lys.

29 OFICIAIS

Estão os mortos do 9 de Abril, alguns por suicídio.

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in Correio da Manhã - 10 Abril 2008 - 00.30h
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Comentários no CM on line
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10 Abril 2008 - 08.18h | Américo Silva
A não esquecer: Afonso Costa autocondecorou-se com a Torre e Espada, e Norton de Matos, um dos responsáveis pelo desastre,reaparceu depois, limpo e escarolado, contra Salazar.
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NOTA de VN
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Então e nos comentários não se fala do General de Caserna Gomes da Costa, herói da I Grande Guerra, chefe das tropas revoltosas que ajudaram a derrubar a I República e a implantar o fascismo e que logo no início foi afastado e desterrado? Bem, lá continua com a sua estátua em Braga. Essa não foi apeada como em Vila Franca de Xira não foi mudado o nome doutro «herói», Marechal Carmona, Presidente da «República» vitalício após o afastamento de Gomes da Costa. E depois ainda há quem diga que a II República, iniciada em 25 de Abril de 1974, não é «democrática» !
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Já desisti de comentar no CM on line porque normalmente os meus «escritos» não passam no «crivo»
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