Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 23 de janeiro de 2010

“Bastardos Inglórios”:Campo minado da diluição - Cloves Geraldo *


 

Colunas

Vermelho - 4 de Novembro de 2009 - 20h48

“Bastardos Inglórios”:Campo minado da diluição

Cloves Geraldo *

Recebida como grande obra, filme do estadunidense Quentin Tarantino reforça sua tendência às referências e citações e abre espaço para a diluição estética de obras de diretores que as produziram em momento histórico adverso ao atual.

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Houve um tempo em que assistir a filme de determinado diretor era mais do que estender um mapa sobre a mesa para saber “Onde está Wally”. Era desnecessário contar o número de citações ou se informar antecipadamente para entender a obra em sua totalidade. Já se sabia, de antemão, quais eram suas influências e isto era o bastante. O próprio autor procurava criar seu estilo, para que o espectador com ele se identificasse. Mas, a partir dos meados dos anos 70, com a emergência dos cineastas saídos das escolas de cinema, à exceção de Steven Spielberg, as citações, para não dizer cópia ou diluição, simplesmente se multiplicaram.
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Assistir a filme de Brian De Palma (“Dublê de Corpo”), Martin Scorcese (“A Época da Inocência”), George Lucas (“Guerra nas Estrelas”) e do próprio Spielberg (“Tubarão”) era viajar numa colagem de estéticas que dificultava a identificação do estilo desses diretores. Eles, no entanto, não se preocupavam com isto. Chamavam suas citações de homenagens. E tudo parecia novo até que o espectador se desse ao trabalho de checar cada uma delas e descobrisse que aquilo era colagem pura e simples.
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Mas se com eles já era difícil, com a emergência de Quentin Tarantino ficou ainda pior, principalmente neste caleidoscópico “Bastardos Inglórios”. Quem não for cinéfilo de carteirinha pode se perder na multiplicidade de citações, tal o uso que delas faz o italoestadunidense. E se a “Nouvelle Vague”, corrente francesa que revolucionou o cinema no final dos anos 50, teve como modelo o Filme B hollywoodiano, a trinca soviética (Eisenstein, Dovhenko e Vertov) e o francês Jean Renoir, muitos espectadores poderão dizer que ele e seus predecessores têm direito de fazer o mesmo. Notadamente Tarantino, por ter supostamente renovado a estética cinematográfica hollywoodiana nos anos 90. Depois de “Cães de Aluguel”, com inúmeras menções à música pop, referenciado em “Bande à part”, de Godard, ele explodiu mundialmente com “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, a partir de uma trama circular, com vários centros de ação. Uma câmera ágil e enquadramentos inusitados. Criativo, sem dúvida.
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Diretor aprendeu cinema vendo filme em locadora
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A linguagem, a cor, os personagens, vinham do universo dos livros de bolso, dos quadrinhos, das velhas histórias policiais de revistas como “X-9”. Um achado e tanto. Um diretor/roteirista, saído não das faculdades de cinema, mas de uma locadora de VHS, transfigurava a arte do cinema, a partir de sua fusão com a arte visual, impressa, nitidamente popular. A multiplicidade de filmes que assistiu lhe deu condições de ver uma variedade enorme de gêneros e procedências. Inclusive os das artes marciais, produzidos em Hong Kong, alguns deles vistos no Brasil apenas nos cinemas frequentados pelos segmentos de público C e D. O que lhe permitiu escrever e dirigir “Kill Bill I e II”, em que o centro da trama é a vingança, mas a ação se transcorre no universo do Kung Fu. Se em “Pulp Fiction – Tempo de Violência” a referência aos quadrinhos era menos explícita, nestes uma longa sequência, ultramatizada, expõe toda a arte do mangá (os quadrinhos japoneses). E se transforma numa bela contribuição ao desenho animado, ultrarealista.
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Sem dúvida, está mais contido em “Jackie Brown”, em que usa a musa dos filmes blaxploitation (filmes com atores negros, produzidos, escritos, dirigidos por negros e voltados para o público afrodescendente americano), Pam Grier, para homenageá-los. Porém, o universo é o mesmo – o do submundo; dos que trafegam pelos espaços sombrios, sem relação alguma com o grande mundo, ainda que, algumas vezes, estejam em amplos e modernos espaços. Até chegar a este, pomposo, “Bastardos Inglórios”, epopéia sobre o mal, corporificado pelo nazismo. Não qualquer mal, sim o absoluto, nascido das profundezas de “eus” em agonia, seja de poder, glória ou vingança. O poder em Hitler (Martin Wuttke), a glória no soldado alemão Fredrick Zoller (Daniel Brühl) e a vingança em Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent). E tendo, como pilar de ambos, o camaleão Hans Landa (Christoph Waltz), oficial da SS (polícia secreta alemã), e seus contrapontos: os soldados judeus-estadunidenses, liderados pelo tenente Aldo Reine (Brad Pitt), cuja tarefa é executar 100 alemães, levando como prêmio o escalpo deles.
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Citações deixam o conteúdo de lado

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Dito desta forma, sua trama pode ser das mais elogiáveis. O mal absoluto termina por encontrar sua contraparte: o grupo de soldados judeu-estadunidense e uma destemida francojudia, auxiliada por um francoafricano. Tão cruéis ou mais do que Landa. No entanto, a trama, como ocorre em seus filmes, se bifurca em vários centros – o trabalho do espião Landa, a caça aos soldados alemães pelo grupo liderado por Reine e a armação da vingança por Dreyfus. Só que, desta vez, ele resolveu tecer uma série de referências, citações, menções, verdadeira colcha de retalhos que terminou sendo mais citada que a trama e a estética de “Bastardos Inglórios”. Dividido em capítulos, a exemplo de “Anticristo”, ele se ocupa nas primeiras cenas de enquadramentos que lembram westerns: a abertura de “Os Brutos Também Amam”, narrada sob o ponto de vista do garoto (Brandon de Wilde), que observa o pistoleiro Shane (Alan Ladd), percorrer grande espaço até chegar ao local onde seu pai (Van Heflin) corta lenha.
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Em seu filme, ele repete este enquadramento quase cena a cena. Põe o fazendeiro francês Perrier LaPadite (Dennis Menochet) cortando lenha, em primeiro plano, tendo o carro de Landa chegando ao fundo. Reverte, deste modo, o suspense da chegada do mal, marcada por George Stevens, em sua obra, com tons que refletem o perigo que a aproximação do latifundiário representa. Porém os acordes, quase uma vinheta, de Dimitri Tionkim e Paul Francis Webster, na trilha sonora de “O Álamo”, “The Green Leaves of Summer”, dirigido por John Wayne, criam outra expectativa: a de que se trata de uma visita amigável, dado seu lirismo. Temos, assim, a apresentação do vilão, Hans Landa, com sua conversa ferina sobre leite, cachimbo, execráveis comparações de judeus com ratos e o letal bote em LaPadite. Tarantino desconstrói, desta forma, a expectativa para o que vem depois, quando inúmeras referências surgirão e o espectador deve se entregar ao filme e não a elas, citações, sob pena de não se ligar ao conteúdo da narrativa.
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Tarantino reverte fatos históricos

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Em “Bastardos Inglórios”, ele toma a liberdade de, com suas imagens barrocas, reverter fatos históricos, mergulhar no mundo do cinema e executar seus elaborados movimentos de câmera. No encontro de Landa com LaPadite, a câmera gira em torno deles, sem se deter em momento algum, quando o faz é para flagrar ameaças e relutâncias dos personagens. Depois, sequências à frente, faz um longo movimento obliquo (um travelling) do alto até o chão, passando pela fachada do cinema que exibe filmes alemães. Um salto interessante para religar a história de Shosonna Dreyfus, iniciada na sequência do encontro de Landa com LaPadite. Temos aqui outro vértice do filme: a vinculação de Hitler com o cinema, feita através de Joseph Goebbels (Sylvester Groth), seu ministro da Propaganda, para quem “a mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade”. É a ocasião para Tarantino exercitar seu lado cinéfilo, citar os diretores alemães, Leni Riefenstahl (“O Triunfo da Vontade”), apadrinhada de Hitler, e G.W.Pabst (“A Caixa de Pandora”), e o cômico francês da época do cinema mundo, Max Linder.
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Os entrechos, no bar e na sala de cinema, lhe servem também para elaborar sequências que remetem o espectador aos melodramas dos alemães contemporâneos Douglas Sirk (“Sublime Obsessão”) e, principalmente, Rainer Werner Fassbinder (“O Casamento de Maria Braun”). No bar, localizado no subsolo, se dá uma série de cenas, com uma dinâmica elogiável. Ação se desdobra em vertentes que destacam a espiã Bridget von Lammersmark (Diane Kruger). Enquanto numa mesa os soldados se embebedam, noutra, na que ela está com os oficiais, dentre eles, os apaches de Aldo Reine, se desenrola a trama principal. Estes dois centros de ação, na mesma sequência, criam tensões e antagonismos. Tensão pelo perigo que representa a chegada dos espiões nazistas, antagonismo, devido à rispidez com que os soldados, subalternos são tratados por seus superiores nazistas. Não seria forçado falar em luta de classe na caserna ou destacar o ódio mútuo entre eles, mostrando o quanto estavam desunidos.
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Trama centra-se, às vezes, no suspense

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Nesta mesma sequência, densa, cheia de desencontros, armadilhas, pistas falsas, Tarantino reforça seu poder narrativo, ao criar uma trama centrada no puro suspense. Teme-se pelo que pode acontecer ao grupo de Reine e à bela Lammersmark. Desestrutura, inclusive uma das afirmações dele próprio, de ter como referência “Os Doze Condenados”, de Robert Aldrich. Este, como se sabe, criava obras em estado bruto. Seus personagens eram, normalmente, seres com elevado conceito moral - o Tenente Joe Costa (Jack Palance), de “Morte Sem Glória”, ou seres marginalizados em busca de uma nova chance, iguais aos da obra antes citada. Sua narrativa, simples, mostrava-os lutando por um objetivo que os redimisse, mesmo que se valessem dos brutais métodos de combate. O grupo de Reine busca tão só execução, ou se quiser, vingança. Isto, porque, embora uma epopéia, “Bastardos Inglórios” é um filme sobre vingança.
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Não um acerto de contas gerado por simples ódio, porquanto está dirigida contra a máquina opressora do Estado Nazista, voltado para o extermínio de judeus e de seus opositores. Suas consequências podem desencadear, portanto, imprevistos resultados.
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Tarantino, no entanto, está mais interessado em usar as experiências de Sérgio Leone e seus roteiristas (Bernardo Bertolucci, Dario Argento, Sergio Donati, Mickey Knox) em “Era Uma Vez no Oeste” para abordar o tema da vingança, como propulsora da ação. Enquanto Leone usa Harmônica (Charles Bronson) como um dos elos da trama sobre a estrada de ferro como fator de desenvolvimento do Oeste estadunidense, ele o faz para descurando um fato histórico. Muitos diretores antes dele fizeram dela o centro da trama, a começar pelos que se dedicavam aos faroestes B. O mocinho sempre tinha de vingar a morte de um familiar ou de um amigo. Filmes classe A, como fez Anthony Mann, em “Um Certo Capitão Lockhart”, também nela se referenciavam. King Vidor, talvez percebendo seus limites, dada às transformações sociais ocorridas nos EUA, procurou invertê-la em “Estigma da Crueldade”, fazendo Jim Douglas (Gregory Peck) desistir de vingar a morte de sua mulher ao ver o assassino (Henry Silva) com a família.
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Leone tinha forte consciência política

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O próprio Leon em seus westerns posteriores, “Três Homens em Conflito” e “Quando Explode a Vingança” preferiu enveredar para abordagens mais condizentes com o momento histórico que o mundo vivia nos anos 60 e 70. Suas licenças dramáticas eram mais comedidas. Tinha consciência política e a transferia para seus filmes, através de entrechos e personagens. O oficial em conflito com seus deveres numa batalha durante a Guerra Civil Americana, no primeiro, e o camponês (Rod Steiger), que se envolve na Revolução Mexicana, no segundo, para se vingar dos que o humilhavam. Seus personagens, desta maneira, estão vinculados a fatos reais. Tarantino, em seu “Bastardos Inglórios”, vai noutra direção. Quer reverter a história, fazendo a pergunta: E se, numa determinada etapa da II Guerra Mundial, Hitler, ciente do poder da propaganda, decidisse comparecer à pré-estréia de um filme em Paris, França?

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Esse – e se – é por demais importante. Nele se concentra toda a epopéia tarantiniana. Ele toma a liberdade de mudar os fatos históricos e, por extensão, diluir suas próprias referências. Não que isto represente novidade na cinematografia hollywoodiana, que sempre executou com “eficiência” as manipulações históricas. O caso mais escancarado é o do General George Amstrong Custer, que de exterminador de índios se transformou em herói em “O Intrépido General Custer”, pelas mãos do diretor Michael Curtiz (“Casabranca”). Só 30 anos depois, Arthur Penn desmistificou-o em “O Pequeno Grande Homem”. Então, sua licença dramática não é novidade alguma. Hitler, em determinado momento, no filme, evidencia sua preocupação em homenagear o herói Zoller, assistindo à pré-estréia de sua cinebiografia. É quando ele, Tarantino, fecha os vértices, capítulos e entrechos de “Bastardos Inglórios”.
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Detalhes distraem os espectadores
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Em um filme de guerra, cujo suspense, aventura e drama, sempre o caracterizam; ele amplia as pistas e também as leituras. Uma cena cuja ação principal parece, a princípio, banal, se revela depois importante. O espectador passa a atentar para os detalhes, aqueles mínimos que colocam em certo instante tudo a perder. Serve, nas sequências finais, para evidenciar a perspicácia, o sadismo e o comportamento camaleônico de Landa. O charme de Lammersmark é insuficiente para evitar que sua artimanha seja descoberta. Ele, Landa, apaga o cigarro na perna dela, para o horror do espectador. Equivale, já que se está na área das citações, ao artifício usado por John Schlesinger, em “Maratona da Morte”, momento em Laurence Oliver enfia a broca na boca de Dustin Hoffman, para, supostamente, arrancar-lhe o dente - o horror por um ser humano levar o outro à dor absoluta para arrancar-lhe uma confissão ou simplesmente puni-lo provoca arrepios.
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Nesta fusão de vertentes, “Bastardos Inglórios” serve, além de espaço para a profusão de referências e citações, de campo para o exercício de montagem paralela: as cenas que ocorrem na cabine de projeção, corredores, camarotes e platéia do cinema. No centro as vertentes principais: a ação do grupo de Reine e da judia Shosanna e seu auxiliar Marcel (Jacky Ido). A câmera de Tarantino passeia energicamente pelos espaços, criando clima de puro suspense, num cenário caro a este tipo de ação: o teatro. E ali existem os da “realidade” com Hitler e parte de seu staff, e o da ficção – o filme que será exibido glorificando a matança de soldados das forças aliadas por um franco atirador alemão, Zoller. São incontáveis as obras que já o usaram como centro de suas ações. Hitchcock o fez algumas vezes, as mais célebres em “O Homem Que Sabia Demais” e “Cortina Rasgada”. Aqui, o sentido é outro: o de aglomerar no mesmo espaço inimigos e aliados para um acerto de contas.
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Mulheres são quase figurantes no filme
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São nestas sequências que alternam a ação que Tarantino se permite deter em suas personagens femininas. Elas chegam a ter algum instante de brilho, porque, ao contrário do vilão Hans Landa, são mostradas apenas em cenas que se integram à ação e dela não se destacam. Lammersmark menos que Shosonna. Venenosa, esta se veste de borbõ, sensualíssima, para o golpe fatal. E tem rara cena amorosa com Marcel, preparando-se para o desfecho. É a derradeira “leitura” tarantiniana. Diferente da espiã Lammersmark, ela encarna a vingança judaica contra o nazismo, materializado em Hitler, em pessoa, a poucos metros dela. O banho de sangue a seguir remete o espectador ao Sam Peckinpah de “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969). E a uma nova diluição, demonstrando que este tipo de utilização escorrega no contexto histórico. Na citada obra o desfecho tem o sentido da rebeldia, da revolução, do fim de uma era e o início de um tempo de transformações.
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Os velhos assaltantes de banco, em meio à revolução mexicana, percebem que lutaram sempre do lado errado. Decidem se redimir, enfrentando ao custo da própria vida, o exército mexicano, chefiado pelo General Mapache (Emílio Fernandez), que travava sua guerra particular contra outros generais em plena Revolução Mexicana. Talvez, quem sabe, Tarantino, quisesse equiparar os dois momentos. É difícil saber, mas os contextos são adversos. As sequências de “Meu Ódio Será Sua Herança” tiveram – ainda têm – um impacto tal que o espectador se vê em meio à revolução, a Guerra do Vietnã, a luta contra os generais no Brasil. Se ele, Tarantino, quis provocar na platéia judaica esta espécie de catarse, nada contra, só que o impacto é menor. Assim como a sequência da escadaria da estação ferroviária em “Os Intocáveis” (1987) cria menos tensão e esvazia a força política do carrinho com o bebê deslizando velozmente pela escadaria de Odessa, em “O Encouraçado Potemkin”(1925). Eisenstein tinha propósito político-ideológico ao fazê-lo; De Palma queria gerar tão só prazer estético.
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Citações sempre ficam longe do contexto real
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Este, aliás, é o problema dos cineastas que adoram referências, citações, “homenagens” – elas ficam sempre fora de contexto. Em “A Época da Inocência” (1993), Scorcese quis homenagear o conde e militante comunista Luchino Visconti. Sua referência era o genial “O Leopardo” (1963), que Visconti havia adaptado do romance de Giuseppe de Lampedusa. Faltou alma ao filme do ítaloamericano. Os ambientes novaiorquinos no início do século XX não nos remetem à nobreza, ao ambiente histórico, à cultura milenar italiana – os personagens de Scorcese, retirados do romance de Edith Warton, parecem – e são – novos ricos, burgueses enfastiados, frios, incapazes de circular pelos ambientes com desenvoltura, leveza, graça e, sobretudo, fineza. Embora a burguesia continue querendo ser nobre, falta-lhe a historicidade milenar, ainda que ambos representem a ostentação, a exploração e o saque da riqueza coletiva. Então, os filmes ficam superficiais, quase sem vida.
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É diferente das influências, elas enriquecem as obras. Permitem o burilamento do próprio estilo. Nem se percebe de onde vêm as de Win Wenders, até se defrontar com as obras de Yashurijo Ozu (“Dia de Outono”, “Viagem a Tóquio”). Ou se o espectador já o sabe, fica mais fácil. Em “No Decorrer do Tempo” dá para ver algumas citações de Ozu. Ali estão os planos fixos, com câmera baixa, os lençóis no varal, a paisagem imóvel, que se encaixam perfeitamente nos entrechos e na narrativa. O mesmo se dá com outro gênio: Akira Kurosawa. Não dá para esquecer os westerns de John Ford (“Paixão dos Fortes”) quando se vê “Os Sete Samurais”, no entanto, o diretor nipônico dota-o de uma encenação, coreografia, posições de câmera, que enriquecem sua obra e a diferenciam do mestre estadunidense. Igual tratamento deu Glauber Rocha no essencial “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, produzido em plena efervescência do faroeste italiano. Num filme que trata do misticismo, da luta pela terra, do cordel, do coronelismo, ele inclui desfecho primoroso com Antônio das Mortes (Maurício do Valle) executando jagunços na caatinga, remetendo ao western, à Ditadura Militar e à Guerra do Vietnã.
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Cinema do 3º Milênio Está sendo gestado
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Essa questão da influência é tão central que até mesmo um cineasta hollywoodiano por excelência, Budd Boetticher, fez um tratamento de cor, usando a roupa feminina como metáfora para o desejo, em “Sete Homens Maus”, faroeste, com Randolph Scott e Lee Marvin. A fonte: o já citado Ozu. Trata-se, assim, de uma referência. Só. Não uma profusão de citações que dilua a arte e a torne estéril, campo fértil para esvaziar a identificação de uma obra, por ela mesma. Fato que também não se dá com Jean-Luc Godard, a quem Tarantino é comparado. Há aqui também discrepâncias sem fim. A obra do francosuiço sempre teve o caráter desmisticador, revolucionário, vanguardista, em razão de suas posições político-ideológicas. Em certo momento, voltou-se para o cinema militante (“Masculino/Feminino”, “Tempo de Guerra”, “A Chinesa”), ao fundir metalinguagem, estética do cinema mudo, diálogos políticos, à luta contra o imperalismo. Foi sua fase maoísta, voltada para o cinema anti-hollywoodiano, dos superespetáculos.
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Depois se voltou para as pesquisas em super 8, a historicidade do cinema e nos últimos tempos às tecnologias digitais. Suas influências, centradas nos filmes noir dos anos 40 e 50, acabaram servindo à produção de filmes de baixo custo, até hoje usadas pelos cineastas asiáticos, africanos e americanos. É fruto, portanto, de uma época onde a estética servia ao conteúdo e não o contrário. De qualquer forma, a arte das citações, referências e homenagens é típica destes tempos globalizados, que estilhaçam as identidades. Quanto menos espaço para identificações houver, melhor. Cria com isto deslocamentos, desenraizamentos, esquizofrenia, típicos da burguesia cosmopolita que circula tão desembaraçada quanto seu capital pelas bolsas do planeta. E vende a idéia de que todos, inclusive o trabalhador comum, pode fazê-lo, mesmo diante das fronteiras que lhes são bloqueadas e as chances de integração sociais constantemente negadas.
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É urgente a criação de um novo cinema
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Não é à toa que o cinema hollywoodiano está em franca decadência, sem boas histórias criativas para contar. Só oferece ao público ávido por cultura essa repetição infindável de “citações”, que fica bem em programas de auditório da TV ou em brincadeiras para se saber “Onde Está Wally”. Ainda está se gestando o cinema que escapará a esta armadilha burguesa, de estar em vários centros – o que significa não estar em lugar algum. Bem diferente do incentivar o fluxo de mercadorias, a circulação da moeda e integrar os povos, permitindo o acesso à riqueza. Não a concentrando em alguns centros de poder do 1º Mundo. É urgente a criação de um cinema identificado com as camadas emergentes, populares, interessadas em produzir filmes que contem suas histórias, a partir mesmo das experiências já registradas. 

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As novas tecnologias digitais o permitem. O cotidiano é o grande gerador do olhar e da experiência. Afinal, a câmera afinal pode ser isenta, o que ela registra e como ela registra, não. Se o cinema pretende – e deve - superar a arte moderna burguesa, herdeira do romantismo, travestida de realismo ou naturalismo, é uma tarefa que cabe aos novos cineastas, roteiristas, principalmente. O resto continuará sendo cópia ou diluição.
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“Bastardos Inglórios” (“Inglourious Basterdes”). EUA/Alemanha. 2009. 153 minutos. Roteiro/Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Diane Kruger, Daniel Brühl, Sylvester Groth, Danis Menochet, Martin Wuttke, Jacky Ido.



* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

KILL - Once upon a time in America - Quentin Tarantino




Digestivo nº 172 >>> Battles Without Honor and Humanity
Se os anos 70 e a cultura pop não tivessem servido para nada, ainda assim, teriam produzido Quentin Tarantino e “Kill Bill” (que justificam tanto uma coisa quanto outra plenamente). Afinal, temos assistido, desde os anos 90, a um cansativo “revival” dos anos 70 – que só consegue ser caricato, superficial e desinteressante em suas imitações e modismos. A novidade no caso de Tarantino e de sua primeira realização cinematográfica desde “Jackie Brown” (1997) é que o diretor é um “erudito” nos assuntos que aborda, a saber: artes marciais chinesas (o kung fu dos filmes e seriados de TV); “filosofia” samurai japonesa (à maneira de Sonny Chiba, que participa da fita); e “ideologia” de faroeste italiano (base de seu roteiro e inspiração para a trilha sonora). Outro ponto que merece destaque é que Quentin Tarantino não se resume a uma homenagem nostálgica e estéril (como é comum): ele, na verdade, “cria” uma outra “realidade” a partir desses elementos – e por isso seu “cinema” (podemos chamá-lo assim) é tão original, rico e ainda influente. Como o próprio diz, no material de divulgação, se “Cães de Aluguel” (1992), “Pulp Fiction” (1994) e outros guardam fortes ligações com o tempo atual, “Kill Bill” transita num novo universo (único e exclusivo de Tarantino) – e, portanto (a conclusão é por nossa conta), trata-se de uma obra-prima. Pois o longa tem “vida”; é perfeitamente coerente em sua “forma”; encerra um “todo” e dá margem a inúmeras “interpretações” – como, aliás, toda grande obra. Há um “quê” de vibrante que sacode o espectador desde a primeira cena, e que gera um forte vínculo de cumplicidade (reconhecível a cada “parada”, a cada detalhe, a cada vinheta). Só um artista em pleno domínio de sua técnica consegue produzir esse efeito. Funciona como uma espécie de hipnotismo e o público é totalmente comandado (responde a comandos) do primeiro ao último “take”. (Mesmo quem for apenas para “observar”, vai se deixar contagiar.) É impressionante que, depois de 7 anos (5 contando o início das filmagens), Quentin Tarantino ainda esteja “em plena forma”: não tenha perdido a “mão” e tenha, pelo contrário, usado seu instrumento como nunca antes. “Kill Bill” é um banho de sétima arte – principalmente para quem achava que os grandes mestres tinham acabado.
>>> Kill Bill




Digestivo nº 199 >>> Once upon a time in America

Se a cultura americana não tivesse servido para nada, teria servido ainda para produzir Quentin Tarantino. (Eu acho que já disse isso a propósito de Kill Bill 1; se disse, volto a repetir a propósito de Kill Bill 2.) Tarantino, para dizer o óbvio, é o maior cineasta americano em atividade hoje; e, para ir além, talvez seja o mais genuíno, desde as últimas décadas do último século. Pois, ao emergir da cultura (considerada subcultura) pop, propõe a maior representação da alma americana no período. Se Altman, por exemplo, sofreu injunções do cinema europeu e os Irmãos Cohen, outro exemplo, tendem a estetizar, com pinta de alta cultura, o american way, Tarantino expõe as vísceras de sua sociedade, mas ao contrário do realismo apelativo que temos visto, o faz com requintes de grande arte – e de grande artista. Kill Bill é seu épico, seu testamento e sua homenagem ao cinema. Tudo isso provavelmente já foi dito, mas de outra maneira. E a consagração, finalmente, veio, com o encerramento da saga, recentemente, nos cinemas. É estranho que a “ficha” tenha demorado tanto a “cair”, para o público e para a crítica – já que ambos permaneceram praticamente cegos para a beleza e para o poder que emanava, igualmente, de Kill Bill 1. Precisaram de Kill Bill 2, tanto para entender quanto para incensar Tarantino – sem, no entanto, notar que são duas partes de um mesmo filme, editado por imposição do estúdio, e do mercado. Tanto os enquadramentos inusitados, quanto os diálogos incrivelmente bem escritos, quanto as reviravoltas no roteiro, quanto a trilha sonora imperdível, para dizer o mínimo, já estão todos em Kill Bill 1 – mas ninguém viu ou ouviu até Kill Bill 2. (Enfim: é melhor do que se não tivesse nunca visto ou ouvido; e deixado Tarantino a ver navios...) Se já sobrava muito pouca revolução, em matéria de sétima arte, depois de Pulp Fiction (1994), agora sobra menos ainda. Seguindo esse raciocínio, é quase natural que tenham crucificado Tarantino em Jackie Brown (1997) e que o crucifiquem, também, no próximo filme. Pois, o que poderá, no sentido “tarantinesco” do termo, superar Kill Bill? Muito pouca coisa. Faltaria fôlego, a Tarantino, seu casting e sua produção, para algo “maior” que Kill Bill. Talvez, para sermos conformistas, ele nem precise. Talvez Kill Bill nos entretenha pelos próximos 10 anos, como Pulp Fiction. E isso, para quem decretava a extinção dos grandes diretores, é um alento e uma sobrevida.
>>> Kill Bill 2


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios - Tarantino


Bastardos Inglórios

Nos primeiros anos da ocupação alemã na França, Shosanna Dreyfus testemunha a execução da sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa. Shosanna consegue escapar e foge para Paris, onde muda de nome e assume a identidade de uma dona de um pequeno cinema.
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Em outro lugar da Europa, o tenente Aldo Raine orgazina um grupo de soldados judeus americanos para colocar em prática uma vingança. Posteriormente conhecido pelos alemães como os "Os Bastardos", o grupo de Raine junta-se à atriz alemã e agente secreta Bridget Von Hammersmark em uma missão para eliminar os líderes do Terceiro Reich. E o destino junta todos no mesmo cinema, onde Shosanna tramou um plano de vingança próprio.


in SP - BR
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios - Tarantino

Cinema Com Rapadura
(Inglourious Basterds, 2009)

Data: 10 de Outubro de 2009

ir para ficha técnica »

Por: Amenar Neto
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No mundo cinematográfico e nas mídias que o competem, se costuma ouvir sobre a importância de clássicos, suas imensas qualidades, seu status de cult, e de como, jamais, serão superados. Talvez isso não passe de hipocrisia.

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É muito fácil falar de clássicos, ovacioná-los, dizer que “não se faz mais cinema como antigamente” e ganhar a qualificação de, no mínimo, pseudo-intelectual. Difícil é admitir que nos dias de hoje, em meio a tantas produções vagabundas, existam filmes que serão clássicos no futuro e que cabe a nós, cinéfilos, reconhecer o valor histórico que aquilo terá.
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Um bom diretor aprende com seus erros. Um melhor ainda aprende com seus acertos. Quentin Tarantino, talvez a figura mais importante para a revolução cinematográfica de década de 90, encaixa-se na segunda categoria. Ao menos sob minha ótica, a filmografia de Tarantino evolui a cada produção que ele faz, e assim melhorando gradualmente ou aprimorando a técnica. No caso de “Bastardos Inglórios”, ele conceitua-se no resultado de toda a bagagem cinematográfica do cineasta. E quando falo isso, não me refiro somente a sua curta filmografia, mas em todos os filmes que ele devorava na locadora onde trabalhava.
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Nesse filme temos um pouco de tudo. Um pouco de Sérgio Leone, um pouco de John Ford, um pouco de Stanley Kubrick e muito da personalidade excêntrica de Tarantino. E o mais bacana é que ele não encoberta isso hora alguma. Ele homenageia. E honra a memória de todos eles. É um filme pelo cinema e para o cinema. Para cinéfilos, em especial. Tem certos momentos e diálogos que só funcionam mesmo com aquelas pessoas que conseguem ser tão doentes pela Sétima Arte quanto ele. E por isso, considero essa a maior homenagem às películas desde “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Cinema Paradiso”.
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O filme é datado em 1941, onde a França sofre pela ocupação alemã, e em uma pacata fazenda de criação de vacas, o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) vai à procura de judeus. Nessa visita, a jovem Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), que fazia parte de uma família de judeus que se escondia nessa fazenda, consegue escapar, porém perdendo todos aqueles que amava. Mudando-se para a cidade, após quatro anos ela consegue ser a proprietária de um cinema, onde lá ela conhece o jovem soldado Fredrick Zoller (Daniel Brühl), que se apaixona por ela.
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Em outro paralelo, estão os chamados “Bastardos inglórios”, um grupo de rebeldes liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que anda causando o terror e caos nas pequenas tropas alemãs que se encontram espalhadas pela França. Essas duas histórias se unem quando a espiã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger) consegue que os bastardos entrem na estreia de um filme sobre a vida de Fredrick, que acontecerá no cinema de Soshana. Ainda que não se conheçam, o plano de ambos coincidem: matar todos os nazistas que ali estiverem presentes, incluindo, possivelmente, o próprio Adolf Hitler.
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A primeira coisa a se destaca é o roteiro do filme. Conversas sobre nada, que tornam o momento bastante crível, têm aos montes. Mas elas também dão espaço a diálogos carregados de humor negro e de grande tensão. Na verdade, Tarantino mostrou um amadurecimento consistente no segundo volume de "Kill Bill", onde ele mantinha traços, mas não era tão “pop” quanto nos outros filmes. Aqui ele segue essa linha. O filme é emocionalmente bem estruturado, com críticas afiadas e maturidade, mas volta e meia Tarantino faz questão de nos lembrar quem ele é, e que somente ele é capaz daquilo.
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O cineasta consegue enquadramentos belíssimos e os movimentos de câmera dialogam de acordo com o que a cena exige. Em alguns momentos, a comicidade está relacionada justamente a essa habilidade de captura de expressões ou sensações. O diretor consegue usar o tema da Segunda Guerra de uma maneira tão distinta que é impossível não achar aquilo tudo genial. Ele dá a versão dele da história e capta uma essência sarcástica do período da guerra, que se difere em partes dos verdadeiros acontecimentos, mas que conseguem ir longe com a famosa “licença poética”. Mesmo com uma ótica um tanto “distorcida”, “Bastardos Inglórios” ocupa, ao lado de “A Lista de Schindler”, o posto de um dos melhores filmes dobre a Segunda Guerra.
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Tarantino mostra grande amadurecimento estético e cria diversos momentos antológicos e plausíveis. Ele capta belamente o charme da época e ainda consegue ser eclético o suficiente para filmar os diversos “universos” que o filme abrange. Câmeras em movimentos circulares, planos abertos, closes sutis, easter eggs no plano de fundo e divisão de capítulos são algumas investidas. Tarantino pega o seu melhor e aprimora. O longa tem o timing correto, a edição precisa e consegue ter uma duração compatível com o conteúdo que pretende mostrar. A violência é ainda mais estilizada e aqui – ao contrário do que fez em “Kill Bill vol.1” -, Tarantino faz questão de ver cada centímetro dos escalpos das vítimas dos bastardos serem arrancados.
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A estética do filme tem um cuidado especial. Com uma fotografia bela, um figurino charmoso e locações meticulosamente escolhidas, a imersão no universo do filme é garantida. O aspecto sonoro novamente é bastante peculiar e é utilizado como um personagem da história. Ennio Morricone dá as caras por aqui também e obtém completo êxito em seu trabalho como compositor. Novamente homenageando, Tarantino põe canções utilizadas em “Kill Bill” e reafirma que ele é pai de uma das maiores obras do cinema moderno.
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O elenco merece ininterruptos aplausos. O elenco dá o máximo que pode oferecer. Brad Pitt, em atuação digna de, ao menos, uma indicação ao Oscar, constrói um personagem charlatão, com sotaque bastante carregado e com uma enorme carga cômica. Percebe-se que esse foi um trabalho muito descontraído e tudo foi uma grande brincadeira, mas com responsabilidade. Pitt brilha, como por exemplo, na cena em que ele desastrosamente tenta falar italiano; novamente uma piadinha só para amantes de cinema, suas expressões remetem diretamente ao personagem icônico Don Corleone, vivido por Marlon Brando.
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Christoph Waltz dá um show de atuação e consegue roubar todas as cenas para si. Indo de momentos descontraídos aos de extrema tensão, seu personagem constitui-se frio e sarcástico, e ao mesmo tempo cuspindo ideologias geniais; como a do diálogo que ele compara os judeus aos ratos de uma maneira bastante interessante ao modo nazista de pensar, é claro. Eli Roth mostra que talvez seja melhor ator que diretor. A dupla fatal composta por Mélanie Laurent e Diane Kruger absorve a alma do charme “mulher e cigarro” e apresenta uma beleza clássica, idealizada, e munida de ótimas atuações.
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E sobre seus diálogos para com os cinéfilos, Tarantino explicita bastante isso. Durante todo o filme ele referencia grandes clássicos como “O Garoto”, de Charlie Chaplin; ou “Doutor Fantástico”, de Stanley Kubrick. Ele fala sobre cinema, sobre atrizes, atores e críticos. Ele faz questão de filmar a sala de projeção, onde há a mágica caixa que emite luzes e o que há atrás da tela do cinema. Inclusive no clímax do filme, que por acaso se passa em uma sala de cinema, ele filma a projeção, em um determinado ponto, com a visível apologia ao limite que a tela do cinema tem. Ele mostra como os elementos ali ganham vida e de alguma forma interferem no mundo real.
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Contudo, “Bastardos Inglórios” ainda pode ser um filme para poucos. Não porque ele seja “complexo demais” ou de “linguagem inacessível”, mas sim porque ele é deveras “cinematográfico”. Ele mostra que cinema não se faz de conceitos, nomes ou épocas. Cinema não se “entende”, mas se “sente”. Se faz de personalidade, espontaneidade, genialidade, em uma construção contínua, de renovação de referências e da desconstrução do que é clássico, cult, pop, noir ou moderno, pois tudo isso pode estar em um filme só. O próprio Tarantino encerra o filme falando através do personagem de Brad Pitt, que “Esta provavelmente é sua maior obra prima”. Digo que estou bastante tentado a concordar com ele.
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in Cinema Com Rapadura
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Inglourious Basterds, três novos trailers do novo de Quentin Tarantino

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Realizador de clássicos modernos do cinema como Pulp Fiction e Reservoir Dogs (Cães Danados, título português) e de êxitos de culto como Jackie Brown, Kill Bill (partes 1 e 2), Death Proof (À Prova de Morte, título português), Quentin Tarantino traz-nos agora o seu primeiro filme de guerra – Inglourious Basterds. Veja os três novos trailers, recheados de cenas inéditas, neste artigo!

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Escrito e realizado por Tarantino, Inglourious Basterds tem ínicio em França, na Segunda Guerra Mundial, aquando da ocupação nazi. Shoshanna Dreyfus (Mélanie Laurent) assiste à execução da sua família, directamente pelas mãos do Coronel nazi Hans Landa (Christoph Waltz). Mesmo assim, Shoshanna consegue fugir para Paris e começar de novo, com uma identidade falsa, neste caso, enquanto dona de um cinema. Entretanto, na Europa, o Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) organiza um grupo de soldados judeus, orientado para atacar alvos localizados: os Bastardos. Juntamente com uma actriz alemã e agente infiltrada, de seu nome Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), eles planeiam derrubar o Terceiro Reich de Adolf Hitler (Martin Wuttke). Os destinos convergem todos para o cinema onde Shoshanna planeia a sua própria vingança.

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Michael Fassbender, Til Schweiger, Eli Roth, B.J. Novak, Samm Levine, Daniel Brül, Gedeon Burkhard, Julie Dreyfus, Cloris Leachman e Mike Myers completam o multi-cultural elenco de Inglourious Basterds.

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Samuel L. Jackson, habitual colaborador do conceituado realizador, narra alguns segmentos da longa-metragem.

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Inglourious Basterds estreia a 27 de Agosto em Portugal.

escrito por Fernando Manuel e Carlos Couceiro

editado por Carlos Couceiro

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Tarantino, o Vingador

http://www.filmofilia.com/wp-content/uploads/2008/10/inglourious-basterds-poster-official.jpg


Rua da Judiaria



Tarantino, o Vingador

Posted: 11 Aug 2009 10:05 PM PDT


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“Os filmes sobre o Holocausto mostram sempre os judeus enquanto vítimas”, diz ele, francamente exasperado pela falta de imaginação de Hollywood. “Já todos vimos essa história. Eu quero ver algo diferente. Vamos lá ver alemães que tremem de medo de judeus.”

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— Quintin Tarantino, sobre o seu novo filme, Inglourious Basterds. Jeffrey Goldberg fala com ele e escreve sobre o filme num artigo imperdível da Atlantic Monthly, aqui: Hollywood’s Jewish Avenger



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Trailer Oficial in
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http://www.youtube.com/watch?v=5sQhTVz5IjQ


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http://www.youtube.com/watch?v=dOMKloOEKcU

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Ícone do canal

trailers

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Release Date: Aug 21, 2009
Genre: Action/Adventure
Cast: Brad Pitt, Eli Roth, Samm Levine, B.J. Novak, Cloris Leachman, Rod Taylor, Daniel Bruhl, Til Schweiger, Michael Fassbender, Julie Dreyfus, Christian Berkel, Richard Sammel, August Diehl, Michael Bacall
Director: Quentin Tarantino
Writer: Quentin Tarantino
Studio: The Weinstein Company
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Plot:
Inglourious Basterds begins in German-occupied France, where Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) witnesses the execution of her family at the hand of Nazi Colonel Hans Landa (Christoph Waltz). Shosanna narrowly escapes and flees to Paris, where she forges a new identity as the owner and operator of a cinema. Elsewhere in Europe, Lieutenant Aldo Raine (Brad Pitt) organizes a group of Jewish soldiers to engage in targeted acts of retribution. Known to their enemy as "The Basterds," Raine's squad joins German actress and undercover agent Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) on a mission to take down the leaders of The Third Reich. Fates converge under a cinema marquee, where Shosanna is poised to carry out a revenge plan of her own... --© Weinstein Co. and Universal Pictures
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