Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

O cilindro de Paco Bandeira

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27 de Julho de 2017, 08:35

Por


H
á dias, soubemos que o cantor Paco Bandeira resolveu destruir 50 mil discos seus, literalmente cilindrando-os no chão de um armazém com uma máquina destruidora alheia ao dom musical. O músico tomou esta insólita atitude para protestar contra “os downloads, contra as rádios nacionais que passam pouca música portuguesa e contra as Finanças, que o teriam impedido de doar os seus discos aos países lusófonos porque lhe cobrariam impostos como se, na realidade, os estivesse a vender”.
O primeiro comentário que se me oferece fazer tem a ver com a necessidade, no mundo altamente mediatizado em que vivemos, de se ter de fazer ou dizer algo fora do “normal” para chamar a atenção para um qualquer assunto. Ou seja, se, neste caso, Paco Bandeira tivesse promovido uma tradicional conferência de imprensa para dizer de sua justiça, teria certamente tudo ficado no quase segredo dos deuses. Assim, com a música cilindrada já é outra coisa, algures entre o pitoresco, o exótico, o inesperado e o apelativo. É a velha norma pela qual se o cão morder o homem não é notícia, mas é-o, com um inusitado interesse e relevância, se for o homem a dar uma mordidela no cão.
Independentemente da razão ou não do protesto, Paco Bandeira encontrou uma hábil forma de transmitir a sua mensagem, com eficácia.
O segundo comentário relaciona-se com o conteúdo do protesto. Tendo a acompanhar parte significativa do que disse o músico alentejano. Lamentavelmente, o que vemos e ouvimos do panorama musical português nas rádios e televisões? Fundamentalmente música pimba, rafeira e apalermada, com enorme expressão nos canais televisivos. Nestes, qualquer intérprete ignoto tem a suprema oportunidade de minutos de glória musical, acompanhado por umas meninas que, seja qual for a música, se bamboleiam sempre do mesmo modo, entre coxas e seios.
Sei que hoje, mais do que os meios tradicionais de divulgação artística, a Net é o mais poderoso e universal meio de difusão. Mas, que diabo, isso implica uma completa secundarização da música portuguesa de qualidade (nela incluindo a melhor música popular e de expressão regional) nas televisões e na rádio?
Na rádio, há muito tempo que a regra dominante é a da música anglo-saxónica de pacotilha, onde o barulho é a essência e a gritaria a quintessência. Nos festivais que vão abundando, haver música portuguesa de qualidade é quase como encontrar água no deserto.
Na minha opinião, na última década, melhorámos um pouco na atenção que se dá ao (bom) fado, sobretudo depois de merecidamente ter sido considerado, pela UNESCO, património imaterial da humanidade. Mas, mesmo aí, há filhos e enteados. Nada melhor do que ter uma boa máquina de propaganda por detrás, para nos tentar impingir um ou uma fadista medíocre como se fosse um ersatz sério de “Amália”.
Não obstante, há pouco tempo, pudemos constatar, com júbilo, que a boa música pode ser vencedora aqui e lá fora, sem ceder ao facilitismo indigente e ao pseudo gosto do sónico “doping”. Foi o caso da canção vencedora de Salvador e Luisa Sobral.
“O nacional é que é bom” cedeu lugar ao mais modernista slogan “o que não é nacional é que é bom”. Verdade seja dita, que esta atitude não é apenas na música, antes irradia por quase tudo no nosso País.
Onde se poderão ouvir na rádio ou ver tocar e cantar na televisão Rodrigo Leão, Luísa Amaro, Maria Ana Bobone, Pedro Abrunhosa, Madredeus, Pedro Barroso e tantos outros músicos e autores de inegável qualidade? Haverá por aí outros disfarçáveis e anestesiantes cilindros?
P.S. A reboque deste tema, assinalo aqui a excelente programação musical que a Antena 2 nos continua a oferecer. Pela minha parte, obrigado.
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/27/o-cilindro-de-paco-bandeira/ 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer, um arquiteto comunista

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Oscar Niemeyer, um arquiteto comunista

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imagemPCB
Frank Svensson
Neste depoimento de Frank Svensson, também arquiteto e integrante do Comitê central do PCB, quando do aniversário de 100 anos de Oscar Niemeyer, conhecemos um pouco mais da trajetória deste ícone brasileiro.
Nasci em Belo Horizonte, em 1934. Dezesseis anos após tinha minha carteira de trabalho. De dia trabalhava como apontador de obra numa pequena empresa de construção civil. À noite cursava o científico, preparando-me para ingressar nalgum curso superior. Natural ser-me-ia escolher engenharia civil. Na minha família não havia ninguém com formação superior, e eu temia as disciplinas das “ciências exatas”. Como havia ouvido que cursar arquitetura era menos difícil, concorri em 1957 ao exame vestibular na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Minas Gerais. Fui reprovado em desenho artístico, o que me fez matricular-me numa Escola de Belas Artes. No ano seguinte fui admitido em arquitetura.
Antes eu havia acompanhado a construção dos edifícios do conjunto da Pampulha. Surpreendiam-me as formas curvas das obras de Niemeyer. Contrastavam com a retilineidade das obras da empresa em que eu trabalhava. Soube que ele, no início de sua carreira, trabalhara com Lúcio Costa. Sabia também que Bela Bartok fazia levantamentos de música popular húngara para depois reinterpretá-las em composições modernas. – Não seria o mesmo caso de Niemeyer?
Hoje percebo tratar-se de algo muito mais significativo. A geometria euclidiana surge do movimento das ferramentas: a linha reta do ato de serrar, o círculo do ato de tornear etc. Aproxima-se da matemática permitindo o cálculo das formas. Sou do tempo das máquinas de calcular. Permitiam-nos até três incógnitas, no máximo quatro. Que trabalheira... Com a ajuda do sábio Joaquim Cardoso, Niemeyer movia uma luta intensa para aproximar o conhecimento das formas à assimetria encontrada na natureza. É de se reconhecer o avanço que a geometria euclidiana teve para o domínio da natureza. Niemeyer, no entanto, procurava uma geometria mais avançada que a euclidiana, permitindo uma melhor integração entre a sensibilidade do arquiteto, no construído pelo homem, e a natureza. Com o surgimento da informática é que ocorreria um salto maior em relação a tal aproximação.
No fim de 1958 aceitei ser responsável por uma das secretarias do Centro Acadêmico e no ano seguinte ingressei no PCB. Sabíamos que Niemeyer vez por outra pernoitava em Belo Horizonte, a caminho de Brasília. Eu e mais três alunos (todos comunistas) decidimos procurá-lo no hotel em que se hospedava. Sugeriu-nos passar as próximas férias de fim de ano estagiando no escritório que dirigia em Brasília. Claro que aceitamos e passamos a nos preparar para isso. Uma vez em Brasília fomos encaminhados ao arquiteto Gladson da Rocha, que voltara do México e participava da equipe de Niemeyer. Pela manhã examinávamos os desenhos de alguma edificação no Plano Piloto. Almoçávamos no Palace Hotel e à tarde íamos ao canteiro de obras relacionar a obra com os desenhos vistos pela manhã. Disso resultaria um relatório para posterior consideração por Gladson da Rocha. Percorremos assim praticamente tudo o que estava sendo construído a partir de projetos feitos pela equipe.
Soubemos que o projeto do Teatro Nacional havia sido concebido em cinco dias. Que cada uma das “pétalas” que configuram a catedral tem uma fôrma de madeira perdida em seu interior. Que para a catedral havia sido feito um projeto anterior mais adequado à liturgia católica. Era o papado de João XXIII, propondo grandes mudanças na Igreja. Decidiu-se por um projeto ecumênico, permitindo distintos tipos de culto. Daí a forma atual. Para calcular a forma das fôrmas de concreto armado recorreu-se a um padre alemão, professor de geometria descritiva. Aprendemos muito!
Como militante de um partido com um enfoque materialista dialético histórico somos levados a sempre relacionar o específico com o geral, a parte com o todo, o lógico com o histórico, o regional com o nacional e o nacional com o internacional. Relacionar as obras específicas de um profissional como Oscar Niemeyer com categorias abrangentes como cultura brasileira, democracia, riqueza, liberdade, espírito de partido etc. Era natural que em face de seu engajamento político-partidário nos perguntássemos que relação isso poderia ter com sua produção arquitetônica.
A escola que eu cursara não me dera clareza quanto a isso. Meus estágios em Brasília limitaram-se à curiosidade quanto aos edifícios em si, bem como à cidade quase como uma maquete. Foi meu trabalho na SUDENE, em equipes interdisciplinares formadas para a solução de problemas concretos, que me forçaram a esclarecer o que seria específico da arquitetura. O que é que faria com que fosse arquitetura, não outra coisa? Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco conheci o Professor Evaldo Coutinho. Seus livros evidenciaram a importância da vivência da realidade, de como de expectadores e usuários sermos transformados em valor arquitetônico, em componentes espaciais. Isto era muito mais do que uma apreciação e um conhecimento positivista dos lugares da vida. Sem sabê-lo, Evaldo Coutinho fez-me ainda mais marxista, enquanto a SUDENE convenceu-me da existência de uma consciência coletiva que incorpora as motivações de relações sociais e de produção.
A partir de 1968, com o esvaziamento da SUDENE, fui convidado a trazer sua experiência para a Universidade de Brasília, o que resultou num processo de conscientização de alunos quanto à realidade da região centro-oeste. Tornei-me incômodo ao regime militar e fui enquadrado na lei de exceção 477, do ato AI5, proibindo-me de lecionar e ser funcionário público em todo o território nacional. Tive de deixar o país.
Em 1975 recebi convite para integrar a equipe de Oscar Niemeyer em Argel. Minha convivência pessoal com obras de Niemeyer limitou-se a um período de trabalho na Argélia e a conhecer in loco suas obras em Paris e Milão. Cheguei à Argélia vindo da França, onde obtivera trabalho como professor convidado das escolas de arquitetura em Estrasburgo e Nancy. Passando pela Itália procurei meu amigo Glauco Campelo, em Milão, e tive oportunidade de conhecer a construção da nova sede da empresa editorial Mondadori.

Oscar Niemeyer, segundo Raquel Varela e não só


Esta é uma opinião com que eu não concordo na íntegra, mas como o meu mural é uma tribuna de opiniões divergentes aqui deixo esta outra forma de ver Niemeyer.

"Raquel Varela
Niemeyer "foi um designer do betão". Haja coragem e sinceridade, porque a morte é sempre triste mas inventar heróis onde não existem não serve para nada, por isso deixo aqui as palavras do arquitecto Alberto Castro Nunes, um arquitecto que nunca se "vendeu ao betão" e que sem primitivismos infantis sempre respeitou a arquitectura popular, feita à dimensão do homem e não do capital ou, no caso de Neimeyer do nacional desenvolvimentismo, outra maneira de dizer capital.

"Pronto, agora vem a carpidela corporativa pelo Niemeyer, que foi "um grande arquitecto contemporâneo". Não foi, foi apenas um betonador notório que produziu uma "cidade" invivível e incorporou todas as distorções e flagelos que o capitalismo industrial infligiu sobre os nossos modos de habitar e construir. Foi mais um designer de construção industrial do jet set arquitectónico, que se evidenciou pelas circunstâncias históricas específicas e, como a maior parte da sua geração corporativa, se disfarçou de "comunista" ou de "esquerda" para desenhar o crescimento suburbano exponencial do capitalismo. O flagelo do betão, do "zoning" e dos subúrbios fica para as próximas gerações. RIP"

Gosto ·  ·  · há 3 horas · 


  • 6 pessoas gostam disto.
  • Mario Gomes A Raquel percebe tanto de Arquitectura como eu percebo de pesca submarina... a sensibilidade também me parece zero! Dizer que Niemeyer é um homem do betão é não compreender nada do que está a falar. Não vou perder tempo.
    há 3 horas · Editado · Gosto · 3
  • Manela Martins ele mesmo respondeu a tudo isto:

    - A vida é mais importante que a arquitetura", costumava dizer Oscar Niemeyer 

    "Eu olho para trás, não sou como os outros que dizem que fariam tudo igual, eu faria muita coisa diferente. A vida é difícil, a vida nos leva a coisas que às vezes a gente não quer. A vida é um sopro, a gente vem, conta uma história e todo o mundo esquece depois. (...) Cem anos não dá prazer. Eu ia passar os cem anos sem muita alegria. A vida passou, eu procurei ser correto, trabalhar, mas não estou contente, na verdade não traz nenhum prazer. Só se o sujeito pensar que é importante, e eu acho isso tão ridículo, se ele pensar que é importante ele está fora do mundo."
    há 3 horas · Gosto · 5
  • Maria Soares Não podia estar mais de acordo! Subscrevo Manuela Martins*
    há 3 horas · Gosto · 2
  • Mario Gomes Aquele comentário da raquel remete-me para aquilo que a cultura portuguesa tem de pior e foi diagnosticado por Fernando Pessoa. Quem tem ouvidos ouça... não vou dizer mais porque senão entraria no mesmo campo.
    há 3 horas · Gosto · 2
  • Mario Gomes Viva Oscar Niemeyer e a linha curva!!! E o betão que permite maiores vãos e maior plasticidade. Não tem nada a ver com construção em altura.
    há 3 horas · Gosto · 4
  • Daniela Fonseca O RIP final tb diz muito sobre as subserviências do autor do texto....
    há 3 horas · Gosto · 1
  • Júlio Fernandes Dos Santos Eis o exemplo de um bom serviço prestado à cultura e por consequência à esquerda, este debate. Quisera eu também ser capaz de dar o meu contributo, mas não tenho o saber necessário, contudo quero deixar uma nota de grande apreço por quem, na época em que o fez, teve a coragem de se afirmar comunista, só por isso merece o meu respeito.
    há 3 horas · Gosto · 5
  • Maria Amélia Martins ele disse que a arquitetura não era o mais importante, embora todos lhe reconhecessem o mérito ele disse que isso era só a profissão...o mais importante era ser comunista...eu ouvi-o nessa entrevista na Antena-1...era um comunista, um homem bom, preocupado com as injustiças do mundo, é isso que importa.
    há 3 horas · Gosto · 3
  • António Nöel Barbosa Como sempre, invariávelmente, as ditaduras perseguem sempre a cultura. Tal como Niemeyer, também em Portugal, há um ditador, o Rabaça Gaspar, que quando lhe falam em cultura, empunha logo a tesoura e corta.
  • Helena Soares ainda bem que há divergência, já a conhecia, no Brasil é bem conhecida, mas eu gosto muito e era só o que faltava um comunista não poder trabalhar para o capital, se era esse quem lhe pagava. O regime era capitalista, então o que fazia, não trabalhava?, não comia? Que obra se perdia...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

José Pacheco Pereira - ENCOSTADOS A UM CANTO


Do blogue Abrupto,de Pacheco Pereira 



Antes do "ajustamento", as pessoas "ajustavam-se" para ir para o Algarve e a grande transumância entupia as estradas de Norte para o Sul. Várias vezes escrevi sobre isso e habitualmente, no princípio de Agosto, previa-se o "estado do país" em Setembro, no regresso, e em Outubro com as primeiras chuvas. Já há vários anos que, no regresso ao trabalho, para quem tinha férias - sempre o sublinhei, uma minoria -, a coisa estava mais negra do que antes. 

O declive do país não é de agora e já de há muitos anos a esta parte se percebia que nada estava a melhorar e várias coisas estavam a piorar. Mas a dimensão ainda era apenas a de um lento declínio, um escorregar manso para os fundos da casa nacional. Agora é mesmo uma queda acentuada, já não para os fundos da casa, mas para o inferno sobre o qual ela assentava e que se abriu aos nossos pés. Daí saiu o Diabo e comeu-nos o futuro.

Não há futuro, chega dizer isto. Não há futuro e as pessoas sabem-no. Não há futuro para uma grande maioria, mas a queda não é para todos, as pessoas também o sabem demasiado bem. Antes, lá íamos cantando e rindo, empurrados pela silly season. Agora lá vamos chorando e com ranger de dentes. Faz toda a diferença. Eu sei, os meus severos leitores sabem-no, os portugueses também, o Governo sabe e até o habitante da Vila do Corvo o sabe. Não há futuro. Faz toda a diferença. 

Em Setembro, todos os actores do poder, da oposição e das diferentes forças políticas, económicas e sociais estarão encostados à parede num quarto cada vez mais pequeno. Encostados a um canto. Uns sabem, outros não. Uns vão saber a mal, outros vão tentar abrir um buraco na parede. Na verdade, já lá estão todos no canto, mas o mês dos banhos, da transumância e do cancro na pele, este ano acumulará mais tensões do que descansará. Este ano não haverá sequer silly season que pegue, por muito inquérito imbecil que os jornais façam. Vai haver quem faça tudo para a estação ser silly, e há gente com muita capacidade para a patetice e que a exerce como quem respira, mas os ânimos não estão para as brincadeiras de praia. Ah! E não se esqueçam que o vendedor de "línguas-da-sogra" tem que passar factura e podem ser multados se não a pedirem.

Já escrevi e repito que nesse canto da casa onde estamos, a raiva vai ser a resposta mais comum. A raiva é um sentimento complicado, que nem sempre transparece na violência pública, seja contra os familiares, os colegas, os polícias, a montra de um banco, ou um carro preto do Governo. George Santayana escreveu que "a depressão era uma raiva espalhada fina" e, numa das melhores descrições da raiva "espalhada grossa", Melville falava do capitão Ahab que descarregava sobre a baleia branca "a raiva e ódio sentido por toda a raça humana de Adão até aos nossos dias". E como se não chegasse tão monumental violência ainda diz que se "o peito [de Ahab] fosse um morteiro, faria explodir a granada do seu coração em brasa sobre ela", a baleia. Já temos baleia, temos o morteiro e temos o capitão Ahab. 

Não há segredo nenhum sobre a pretensa passividade e "aquiescência" dos "pacientes" e "pacíficos" portugueses face ao "ajustamento". E não há segredo nenhum porque não há qualquer dessas atitudes, nem paciência, nem passividade, e muito menos aquiescência. O modelo que vê a "impaciência" pelas batalhas campais nas ruas gregas, quando uma minoria de anarquistas, esquerdistas e outros partidários do cocktail Molotov se atira à polícia, esquece que o bloqueio político que resulta do voto e da abstenção dos gregos é muito mais importante para a "crise" do que os confrontos de rua. E muito mais democrático, porque aí pode-se falar em nome dos gregos com propriedade, mesmo dos que votaram na Nova Democracia.

É na pedrada na rua que se vê a raiva? Não, não é. Não olhem para a raiva de baixo, olham para a raiva de cima. É que não são só os de baixo que percebem que estão a ficar encostados a um canto, são também os de cima. Os de cima já perceberam que os melhores tempos já estão no passado, que o Governo já está mais estragado e hesitante do que o que eles desejavam, que já não está intacto e forte, mas que uma mistura de Relvas, mais o défice incontrolado, mais, espantem-se, a proximidade de eleições, está a dar second thoughts àqueles que queriam apenas como "bons alunos" e executores. O magma da "política", que os de cima tanto desprezam, começa a vir à superfície e será o "ruído" que não desejam. Ou, como diz o FMI de forma certeira, há "fadiga do ajustamento". E os de cima pensam que ainda está muita coisa para fazer, para agora já lhes começarem a dizer que se chegou ao limite. Começam a ter a sensação de que foi uma oportunidade única, ainda é uma oportunidade única, mas que está a acabar, começa a faltar o espaço. O canto começa a ficar apertado. Daí a raiva crescente. 

É quando Pedro Ferraz da Costa diz, com aquele ar perpetuamente zangado e enjoado com o mundo, que é preciso acabar com 100.000 ou 200.000 empregos na função pública, sem problema nenhum, porque o Estado vai continuar a funcionar na mesma. É que não é análise, é desejo. É quando se defende um mundo que funcione para as "empresas" - uma abstracção funcional porque o que eles querem dizer é outra coisa - sem ter que emperrar porque há leis, direito e direitos, instituições e eleições, interesses outros que não os das classes "certas". Quando esse discurso, bruto e sem ambiguidades, veio ao de cima com a decisão do Tribunal Constitucional, percebemos bem a raiva.

No meio disto tudo, Passos Coelho fornece outro produto, mais à sua dimensão de executante, mas que também transporta alguma desta raiva. É quando Passos Coelho diz que "não estamos a exigir de mais", como se fosse pouco o que se está a "exigir" e ainda não levaram em cima com a dose toda. É quando avança com mais uma comparação moral que mostra o imaginário onde estamos metidos; não podemos correr o risco de nos cruzar com os nossos credores "nos bons restaurantes e boas lojas". É mesmo isso que os portugueses andaram a fazer nos últimos anos, a comprar malas Vuitton e sapatos Jimmy Choo! 

Passos dizia que as pessoas "simples" percebiam isto, porque de facto para ele as coisas são assim simples. Então como é que nos devemos "cruzar com os nossos credores"? De alpergatas, vestidos de chita, trabalhando dez horas por um salário de miséria? É que não é preciso andar muito tempo para trás para ter sido assim. Ainda há quem se lembre. Deve ser por isso que é preciso "ajustar".

O papel destas ideias, elas sim "simples" no sentido bíblico, é que são aquilo que está metido dentro da cabeça do discurso do poder actual, mais por parte dos executantes do que dos mandantes. O teatro do poder actual é composto por poucas personagens a preto e branco: os credores, os devedores, os empreendedores, os "não competitivos", os que "vivem acima das suas posses" e os "ajustados", os "alavancados" e os "desalavancados", os "piegas" preguiçosos e os bons alunos que fazem o "trabalho de casa" e não querem ter direitos, os "pacientes" e as "baratas tontas". Não é um mundo muito complicado, é até assustadoramente simples, mas assusta saber que é este teatro de sombras que move o discurso do primeiro-ministro. Nele não há pessoas e quando as há estão do lado do mal, são "ruído", são não-económicas na sua essência.

Para alguns, falar dos de cima e dos de baixo, é marxismo. Coitados, sabem bem pouco o que é o marxismo, para sequer perceberem que Marx escreveu toda a sua obra para explicar que não era "científico" falar assim dos conflitos sociais. Não, não é marxismo, nem pcpismo, nem bloquismo, é apenas repetir a mais velha percepção de que os conflitos sociais de sempre se fazem entre quem ganha e quem perde, quem é mandado e quem manda, entre quem tem e quem não tem. Vem em Aristóteles e vem em Aristófanes, a sério e a gozar. 

Em alturas de mudança social profunda, neste caso associada à destruição da classe média e ao empobrecimento generalizado, quem não percebe isto, não percebe nada. Em Setembro, acordará do seu sono percebendo o canto a que está encostado. Ou em Agosto, ou em Outubro. Porque estas coisas, uma vez maduras, não escolhem nem dia nem hora.

(versão do Público de 29 de Julho de 2012.) 

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