Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

De modo a olharmos para a “questão social”, é importante clarificar a sua definição. Trata-se de uma expressão comummente utilizada pela historiografia, em grande medida devedora do discurso da época, que resume duas ideias fundamentais: por um lado, as condições de vida e de trabalho; e, por outro, a relação entre o poder e o mundo do trabalho. Os políticos e outros agentes reconheciam a “palpitante actualidade” destes problemas, mas a necessidade de intervenção escondia, como veremos, as profundas divergências em torno da hierarquização dos problemas a serem resolvidos – e qual a urgência da “questão social” – e a forma de o fazer, ou seja, de um modo progressivo, reformista ou radical e “revolucionário”. No período dito de propaganda, a ideia de República, multifacetada e não monolítica, teve a si associada a noção de “Nova Aurora” ou, na sua forma mais prosaica, o “bacalhau a pataco” (subsistências baratas). Arautos de uma possibilidade de regeneração da sociedade portuguesa, os republicanos entendiam-se como os únicos detentores de uma solução para a crise que o país atravessava. Os republicanos – ou parte deles, pelo menos – procuraram tecer ligações com o mundo do trabalho e os trabalhadores, entendidos como fundamentais na luta pela conquista do poder. Chamavam estes homens ao combate político e muitos deles abandonaram as suas organizações, esperançosos na aurora republicana. De entre a polifonia do movimento republicano e as diferentes situações e orientações do mundo do trabalho constituiu-se uma plataforma de entendimento e expectativas partilhadas: fosse a República um fi m ou um meio para alcançar uma sociedade mais justa, era possível um combate comum contra a monarquia constitucional. Os republicanos construíram um discurso socializante e reformista de proximidade e atenção à questão social. Estes e os trabalhadores partilharam uma visão do que poderia e deveria ser o futuro. Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais e, embora minoritários, a sua concentração geográfi ca, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração. Os trabalhadores, à semelhança de outros grupos e agentes políticos como os republicanos, procuravam fazer ouvir a sua voz, forçando a entrada no campo político exclusivista da monarquia constitucional. Existiam, é certo, diversos níveis de politização. De entre aqueles que começavam a pensar a sua situação e a lançar as bases para a organização das suas forças, encontramos um espectro político variado do anarquismo ao anarcosindicalismo e ao socialismo. O comunismo entrou no campo político e do movimento operário, depois da revolução russa de 1917, assomo de esperança para os trabalhadores e “pesadelo” para as classes mais conservadoras. Feita a República, com o 5 de Outubro de 1910, o mundo do trabalho tinha, portanto, expectativas elevadas em torno do que o novo regime poderia – e deveria – fazer para responder às suas reivindicações. Os trabalhadores lutavam pelo direito à organização (os agrupamentos federais e nacionais eram proibidos) e defendiam o direito à greve. Apesar do interdito legal, verifi caram-se vários movimentos grevistas no início do século XX (que não cessaram depois da implantação da República). Um dos principais temas das reivindicações era a questão da necessidade da melhoria das condições de vida e de trabalho, numa conjuntura de enormes difi culdades num mundo sem protecção social, excepto as redes de entreajuda dos próprios trabalhadores, com condições de trabalho duríssimas e vivendo, muitas vezes, em habitações miseráveis nas “ilhas” e nos “pátios” operários. Os governos republicanos manifestaram preocupação com a “questão social”, é certo, mas, na maioria dos casos, as medidas ficaram aquém das expectativas dos trabalhadores. A primeira decepção dos trabalhadores teve lugar em Dezembro de 1910, com o “decreto burla” que legalizava tanto a greve como o lock-out patronal. Apesar da promulgação de várias medidas de carácter social (por exemplo, o descanso semanal e a lei de assistência), os movimentos grevistas de 1911 e 1912, fruto de um crescendo combativo operário e do desenvolvimento do associativismo nos meios rurais, provocariam sérios embates entre o poder republicano e os trabalhadores. Foi o início de uma “guerra aberta”, com episódios de grande violência, entre os republicanos no poder e o movimento operário organizado, temperada apenas pelos breves momentos de união, quando estava em causa a defesa do regime, ou quando algumas medidas legislativas moderavam o conflito. O Partido Democrático, que mais tempo ocupou as cadeiras ministeriais durante a República, teve uma política de contenção e repressão do movimento operário – não é por acaso que Afonso Costa era conhecido pelo “racha-sindicalistas”. Um número signifi cativo de entre os republicanos não era “revolucionário” nem radical e entendia que a questão social deveria ser resolvida, mas de forma progressiva, pela via reformista. Se bem que entendessem a importância deste problema, consideravam que era mais importante consolidar o regime, que, de facto, tinha inimigos que contra ele conspiravam. Veja-se, por exemplo o caso das incursões monárquicas em 1911 e 1912, capitaneadas por Paiva Couceiro. Poderíamos fazer referência ainda aos problemas entre o poder republicano e a Igreja Católica na sequência de algumas medidas legislativas, a mais importante das quais a Lei de Separação de Abril de 1911. No governo, pretendiam de algum modo satisfazer as chamadas forças vivas, mostrando como podiam e sabiam fazer uma administração respeitável e sem demasiados “excessos”. A Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) veio agudizar as relações entre o poder republicano e os trabalhadores organizados. A crise económica, nomeadamente a alta de preços, penalizou grandemente todos aqueles que viviam de rendimentos fixos ou que não conseguiam que os seus salários aumentassem, trazendo consigo o descontentamento das populações e o aumento da confl itualidade social, fosse através de movimentos organizados, como as greves, muitas delas organizadas pela central dos sindicatos, a União Operária Nacional, fosse através de uma espécie de motins da fome. De entre estas movimentações espontâneas, vale a pena referir os assaltos a estabelecimentos comerciais, nomeadamente a “revolução da batata” de Maio de 1917. O caso da experiência sidonista é ilustrativo da divergência entre a prioridade dada à questão política em detrimento da social. Sidónio Pais subiu ao poder depois do golpe de 5 a 8 de Dezembro de 1917, contando com a “expectativa benévola” dos trabalhadores organizados, em rota de colisão com o poder afonsista, sobretudo depois do Verão de 1917, um dos mais duros no tocante aos conflitos entre grevistas e poder republicano. Este apoio inicial do mundo do trabalho seria desbaratado pelo poder sidonista, que defendia a necessidade de revolução política, não considerando tão urgente e necessária a resolução da questão económica e social. Depois da I Guerra Um momento excepcional nas relações entre o poder republicano e o mundo do trabalho foi a entrada de um ministro socialista (Augusto Dias da Silva) para o governo, a conjuntura de Maio de 1919 e o pacote legislativo com medidas de grande importância (dia de trabalho de 8 horas e seguros sociais). Compreende-se a promulgação destas medidas na conjuntura política coeva. Em primeiro lugar, vivia-se o pós-Primeira Guerra Mundial. Os sacrifícios pedidos e feitos pela população obrigavam a um renovado interesse pela situação económica e social de sociedades destruídas e exauridas. De igual modo, a revolução russa de 1917 e os subsequentes movimentos sociais forçavam a essa atenção, sob pena de estas sociedades terem entre mãos um descontentamento impossível de manter. A nível interno, a República que afastara o sidonismo, que vencera a intentona monárquica de Monsanto e a Monarquia do Norte, contara com a participação do republicanismo radical, popular e com os trabalhadores. Nos anos de 1919 a 1926 assistimos a uma recomposição do campo político, surgindo a lume projectos de esquerda e de direita, registando-se um renovado interesse na questão social. Mas, do lado contrário, reorganizavam-se as “forças vivas”, confrontando-se, assim, dois blocos sociais antagónicos. O movimento operário esteve particularmente activo nos anos de 1919 e 1920, mas muitos autores apontam a perda do “pão político” (preço regulamentado pelo Estado) em 1923 como um sinal de enfraquecimento do movimento operário. Fazendo um balanço final da relação entre o republicanismo, o poder republicano e o mundo do trabalho, podemos pensar em encontros e desencontros entre estas duas forças políticas, sociais e culturais. Existiu sempre no republicanismo uma corrente socializante e próxima das preocupações dos trabalhadores organizados; no entanto, no poder, na maioria dos casos, os governos reagiram com dureza às movimentações dos operários. Apesar disto, a ideia de República – diferente da prática política dos governos republicanos – sobreviveu, para alguns trabalhadores, como aspiração e como ideal e por ela se bateram em momentos críticos do regime. Os republicanos precisaram dos trabalhadores na luta contra a monarquia e não poderiam tê-los como inimigos depois da chegada ao poder; mas nem sempre as prioridades republicanas estavam em consonância com as dos trabalhadores. Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas confl itual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho; esta é, sem dúvida, uma das questões centrais para a leitura e compreensão deste período. Historiadora, investigadora do Instituto de História Contemporânea


Mundo do trabalho

República: à espera de uma nova aurora

01.09.2010 - 11:34
Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas conflitual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho. Por Maria Alice Samara


De modo a olharmos para a “questão social”, é importante clarificar a sua definição. Trata-se de uma expressão comummente utilizada pela historiografia, em grande medida devedora do discurso da época, que resume duas ideias fundamentais: por um lado, as condições de vida e de trabalho; e, por outro, a relação entre o poder e o mundo do trabalho. Os políticos e outros agentes reconheciam a “palpitante actualidade” destes problemas, mas a necessidade de intervenção escondia, como veremos, as profundas divergências em torno da hierarquização dos problemas a serem resolvidos – e qual a urgência da “questão social” – e a forma de o fazer, ou seja, de um modo progressivo, reformista ou radical e “revolucionário”.

No período dito de propaganda, a ideia de República, multifacetada e não monolítica, teve a si associada a noção de “Nova Aurora” ou, na sua forma mais prosaica, o “bacalhau a pataco” (subsistências baratas). Arautos de uma possibilidade de regeneração da sociedade portuguesa, os republicanos entendiam-se como os únicos detentores de uma solução para a crise que o país atravessava.

Os republicanos – ou parte deles, pelo menos – procuraram tecer ligações com o mundo do trabalho e os trabalhadores, entendidos como fundamentais na luta pela conquista do poder. Chamavam estes homens ao combate político e muitos deles abandonaram as suas organizações, esperançosos na aurora republicana. De entre a polifonia do movimento republicano e as diferentes situações e orientações do mundo do trabalho constituiu-se uma plataforma de entendimento e expectativas partilhadas: fosse a República um fi m ou um meio para alcançar uma sociedade mais justa, era possível um combate comum contra a monarquia constitucional. Os republicanos construíram um discurso socializante e reformista de proximidade e atenção à questão social. Estes e os trabalhadores partilharam uma visão do que poderia e deveria ser o futuro.

Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais e, embora minoritários, a sua concentração geográfi ca, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração. Os trabalhadores, à semelhança de outros grupos e agentes políticos como os republicanos, procuravam fazer ouvir a sua voz, forçando a entrada no campo político exclusivista da monarquia constitucional. Existiam, é certo, diversos níveis de politização. De entre aqueles que começavam a pensar a sua situação e a lançar as bases para a organização das suas forças, encontramos um espectro político variado do anarquismo ao anarcosindicalismo e ao socialismo. O comunismo entrou no campo político e do movimento operário, depois da revolução russa de 1917, assomo de esperança para os trabalhadores e “pesadelo” para as classes mais conservadoras.

Feita a República, com o 5 de Outubro de 1910, o mundo do trabalho tinha, portanto, expectativas elevadas em torno do que o novo regime poderia – e deveria – fazer para responder às suas reivindicações. Os trabalhadores lutavam pelo direito à organização (os agrupamentos federais e nacionais eram proibidos) e defendiam o direito à greve. Apesar do interdito legal, verifi caram-se vários movimentos grevistas no início do século XX (que não cessaram depois da implantação da República). Um dos principais temas das reivindicações era a questão da necessidade da melhoria das condições de vida e de trabalho, numa conjuntura de enormes difi culdades num mundo sem protecção social, excepto as redes de entreajuda dos próprios trabalhadores, com condições de trabalho duríssimas e vivendo, muitas vezes, em habitações miseráveis nas “ilhas” e nos “pátios” operários.

Os governos republicanos manifestaram preocupação com a “questão social”, é certo, mas, na maioria dos casos, as medidas ficaram aquém das expectativas dos trabalhadores. A primeira decepção dos trabalhadores teve lugar em Dezembro de 1910, com o “decreto burla” que legalizava tanto a greve como o lock-out patronal. Apesar da promulgação de várias medidas de carácter social (por exemplo, o descanso semanal e a lei de assistência), os movimentos grevistas de 1911 e 1912, fruto de um crescendo combativo operário e do desenvolvimento do associativismo nos meios rurais, provocariam sérios embates entre o poder republicano e os trabalhadores. Foi o início de uma “guerra aberta”, com episódios de grande violência, entre os republicanos no poder e o movimento operário organizado, temperada apenas pelos breves momentos de união, quando estava em causa a defesa do regime, ou quando algumas medidas legislativas moderavam o conflito. O Partido Democrático, que mais tempo ocupou as cadeiras ministeriais durante a República, teve uma política de contenção e repressão do movimento operário – não é por acaso que Afonso Costa era conhecido pelo “racha-sindicalistas”. Um número signifi cativo de entre os republicanos não era “revolucionário” nem radical e entendia que a questão social deveria ser resolvida, mas de forma progressiva, pela via reformista. Se bem que entendessem a importância deste problema, consideravam que era mais importante consolidar o regime, que, de facto, tinha inimigos que contra ele conspiravam. Veja-se, por exemplo o caso das incursões monárquicas em 1911 e 1912, capitaneadas por Paiva Couceiro.

Poderíamos fazer referência ainda aos problemas entre o poder republicano e a Igreja Católica na sequência de algumas medidas legislativas, a mais importante das quais a Lei de Separação de Abril de 1911. No governo, pretendiam de algum modo satisfazer as chamadas forças vivas, mostrando como podiam e sabiam fazer uma administração respeitável e sem demasiados “excessos”.

A Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) veio agudizar as relações entre o poder republicano e os trabalhadores organizados. A crise económica, nomeadamente a alta de preços, penalizou grandemente todos aqueles que viviam de rendimentos fixos ou que não conseguiam que os seus salários aumentassem, trazendo consigo o descontentamento das populações e o aumento da confl itualidade social, fosse através de movimentos organizados, como as greves, muitas delas organizadas pela central dos sindicatos, a União Operária Nacional, fosse através de uma espécie de motins da fome. De entre estas movimentações espontâneas, vale a pena referir os assaltos a estabelecimentos comerciais, nomeadamente a “revolução da batata” de Maio de 1917.

O caso da experiência sidonista é ilustrativo da divergência entre a prioridade dada à questão política em detrimento da social. Sidónio Pais subiu ao poder depois do golpe de 5 a 8 de Dezembro de 1917, contando com a “expectativa benévola” dos trabalhadores organizados, em rota de colisão com o poder afonsista, sobretudo depois do Verão de 1917, um dos mais duros no tocante aos conflitos entre grevistas e poder republicano. Este apoio inicial do mundo do trabalho seria desbaratado pelo poder sidonista, que defendia a necessidade de revolução política, não considerando tão urgente e necessária a resolução da questão económica e social.

Depois da I Guerra

Um momento excepcional nas relações entre o poder republicano e o mundo do trabalho foi a entrada de um ministro socialista (Augusto Dias da Silva) para o governo, a conjuntura de Maio de 1919 e o pacote legislativo com medidas de grande importância (dia de trabalho de 8 horas e seguros sociais). Compreende-se a promulgação destas medidas na conjuntura política coeva. Em primeiro lugar, vivia-se o pós-Primeira Guerra Mundial. Os sacrifícios pedidos e feitos pela população obrigavam a um renovado interesse pela situação económica e social de sociedades destruídas e exauridas. De igual modo, a revolução russa de 1917 e os subsequentes movimentos sociais forçavam a essa atenção, sob pena de estas sociedades terem entre mãos um descontentamento impossível de manter. A nível interno, a República que afastara o sidonismo, que vencera a intentona monárquica de Monsanto e a Monarquia do Norte, contara com a participação do republicanismo radical, popular e com os trabalhadores. Nos anos de 1919 a 1926 assistimos a uma recomposição do campo político, surgindo a lume projectos de esquerda e de direita, registando-se um renovado interesse na questão social. Mas, do lado contrário, reorganizavam-se as “forças vivas”, confrontando-se, assim, dois blocos sociais antagónicos. O movimento operário esteve particularmente activo nos anos de 1919 e 1920, mas muitos autores apontam a perda do “pão político” (preço regulamentado pelo Estado) em 1923 como um sinal de enfraquecimento do movimento operário.

Fazendo um balanço final da relação entre o republicanismo, o poder republicano e o mundo do trabalho, podemos pensar em encontros e desencontros entre estas duas forças políticas, sociais e culturais. Existiu sempre no republicanismo uma corrente socializante e próxima das preocupações dos trabalhadores organizados; no entanto, no poder, na maioria dos casos, os governos reagiram com dureza às movimentações dos operários. Apesar disto, a ideia de República – diferente da prática política dos governos republicanos – sobreviveu, para alguns trabalhadores, como aspiração e como ideal e por ela se bateram em momentos críticos do regime. Os republicanos precisaram dos trabalhadores na luta contra a monarquia e não poderiam tê-los como inimigos depois da chegada ao poder; mas nem sempre as prioridades republicanas estavam em consonância com as dos trabalhadores.

Para se entender a República é necessário levar em linha de conta a relação complexa, muitas vezes de convergência e outras tantas confl itual, entre o republicanismo e o mundo do trabalho; esta é, sem dúvida, uma das questões centrais para a leitura e compreensão deste período.

Historiadora, investigadora do Instituto de História Contemporânea
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um busto e um hino consensuais - e uma bandeira polémica


Actual bandeira portuguesa
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Columbano (mais à esq.) e a Comissão encarregada de aprovar a nova bandeira IMAGENS: HISTÓRIA DE PORTUGAL/COORDENAÇÃO JOÃO MEDINA/EDICLUBE
República 

. Uma jovem empregada de uma loja do Chiado serviu de modelo à república. Um hino contra os ingleses foi unanimemente escolhido. Só as cores da bandeira agitaram os ânimos. Mas os defensores da verde-rubra acabaram por vencer. Por Alexandra Prado Coelho

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Um rei tem um corpo. E isso ajuda muito.

"Quando os republicanos começaram a fazer a sua propaganda, a partir de finais do século XIX e sobretudo durante os primeiros dez anos do século XX, confrontaram-se com um problema: como representar a república?", explica o historiador Nuno Severiano Teixeira. "Na monarquia o rei tem um corpo físico e portanto é uma pessoa reconhecível e reconhecida pelos cidadãos. Mas a república é uma ideia abstracta."

Na altura a grande maioria da população era analfabeta - e fazer passar uma ideia abstracta não era coisa fácil. Foi preciso criar símbolos: uma imagem da república, uma nova bandeira nacional, um novo hino. Mas em 1910 os republicanos não começaram do zero. Estava "em mau estado" o busto da república que António Valdemar foi descobrir numa arrecadação da Academia Nacional de Belas-Artes, quando se tornou presidente da instituição. Valdemar pediu ao escultor João Duarte que o restaurasse e o rosto de Ilda Pulga, a jovem que na época trabalhava numa loja do Chiado e que inspirou Simões de Almeida Sobrinho a criar uma imagem da república, voltou a surgir tal como fora esculpido em 1908 (com o célebre barrete frígio, uma influência da Revolução Francesa, e que nada tem a ver com Portugal).

Ainda havia monarquia no país, mas já o avanço da república parecia imparável. As eleições tinham permitido aos republicanos conquistar a Câmara de Lisboa, e foi nessa altura que o primeiro busto da república foi encomendado a Simões de Almeida Sobrinho. "O Simões achou piada à cara da rapariga e convidou-a para ser modelo", conta Valdemar. "A mãe disse que autorizava mas com duas condições: que ela própria estivesse presente nas sessões e que a filha não se despisse."

Este primeiro busto começa a generalizar-se. É adoptado pela Maçonaria. "Nessa altura ainda não tinha havido concurso", sublinha o presidente da Academia. Mas no livro A Revolução Portuguesa, de Machado Santos (que ficaria conhecido como "o herói da Rotunda" pela forma como resistiu na Rotunda, quando muitos dirigentes republicanos desistiam, achando que a revolução tinha falhado), há uma imagem que mostra uma das cópias do busto a dominar uma sala da sede da Maçonaria.

"Foi preciso dar um corpo à república e a ideia, como aconteceu noutros países - o caso da república francesa é paradigmático -, foi dar-lhe a imagem de uma mulher", afirma Severiano Teixeira, que tem estudado a simbólica da república. "Mas, ao contrário dos franceses, que vão actualizando progressivamente o busto com figuras conhecidas da vida pública, da cultura, em Portugal o busto permanece o mesmo desde 1908." O facto de os franceses participarem, votando, na escolha da personalidade que vai representar a república, cria, acredita o historiador, "uma relação de maior proximidade do que um busto que foi escolhido no início do século, de uma pessoa que poucos sabem quem foi".

Mas na altura, em 1910, para formalizar a coisa, os dirigentes republicanos decidiram lançar um concurso. E, apesar da popularidade do busto que fizera ("nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, na câmara municipal, ele aparece em lugar de destaque", lembra Valdemar), Simões de Almeida Sobrinho fica apenas em segundo lugar. O vencedor é Francisco dos Santos. E surge assim o segundo busto da república portuguesa que acabaria por conviver com o primeiro (e mais popular) ao longo dos tempos.

Hino patriótico
Bastante mais simples foi a escolha do hino - não houve qualquer oposição à ideia de adoptar A Portuguesa. E assim Portugal ficou até hoje com um hino que começou por ser um desafio popular a Inglaterra. Conta Severiano Teixeira: "É um hino patriótico, que não surge no contexto republicano, mas sim no do Ultimato inglês." Recuamos aos anos finais da monarquia, quando a oposição britânica à ideia de Portugal unir os seus territórios em África (o célebre Mapa Cor-de-Rosa) faz desencadear um movimento popular contra os ingleses. "Alfredo Keil compõe a canção, vai a casa do [Henrique] Lopes de Mendonça e diz-lhe que já tem um hino feito, mas que precisa de uma letra. Toca-lhe os acordes da Portuguesa, e Lopes de Mendonça cria a letra." Os dois fizeram 12 mil exemplares da partitura e distribuíram-nos. Estávamos em 1890.

A partir daí a música ganha vida própria. "É tocada pela primeira vez num teatro, durante uma peça. No início é basicamente um hino patriótico e nacionalista, mas a pouco e pouco vai sendo apropriado pelos republicanos. A certa altura o Governo [empenhado em não agravar a questão com os ingleses] proíbe-o, e isso reforça a sua legitimidade nacional. Quando surge o 5 de Outubro, era quase natural que o hino fosse A Portuguesa."

Só o novo significado (de resistência à monarquia) que a música entretanto conquistara justifica que se continuasse a cantar "Às armas, às armas!/Pela Pátria lutar!", quando a questão com a Inglaterra já estava ultrapassada.

A discussão das cores

Verdadeiramente polémica foi a escolha da bandeira. Aí, sim, os ânimos exaltaram-se e as opiniões dividiram-se. Apareceram dezenas de projectos, de ideias, de sugestões. "Quando se dá a implantação da república, uma das questões imediatas é a da bandeira", refere Severiano Teixeira. "A opção era entre a azul e branca, que vinha da monarquia, mas sem a coroa, ou a transformação de uma bandeira que já era a dos republicanos em bandeira nacional." Tal como a imagem da república, também nos anos finais da monarquia as cores republicanas tinham começado a definir-se. "Havia um cromatismo que a pouco e pouco foi sendo assumido pelos republicanos, que era o verde e vermelho. Provém das bandeiras do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro, que eram diferentes mas ambas verdes e vermelhas." Fora já a bandeira verde-rubra que os republicanos vitoriosos empunharam no 5 de Outubro - era ela que Machado Santos tinha na Rotunda.

O uso das duas cores tinha antecedentes (embora não se possa atribuir a estes a sua origem). Explica ainda Severiano Teixeira, desta vez num texto sobre a simbólica da bandeira nacional: "Verde e vermelha (com a imagem da Nossa Senhora da Conceição ao centro) foi a bandeira da Ala dos Namorados na Batalha de Aljubarrota; verde e vermelha (fundo verde sobre o qual assentava a Cruz de Cristo vermelha) foi a bandeira dos Descobrimentos sob o reinado de D. Manuel I; e igualmente verde e vermelha (idêntica a esta última) foi a empunhada em várias revoltas contra o domínio filipino, que seria, ela mesma, a bandeira da Revolução do 1º de Dezembro de 1640."

Mas ali, no momento da queda da monarquia, o que o verde e vermelho representavam era, acima de tudo, a ruptura com o passado. "A ruptura está nas cores, a continuidade está nos símbolos, ligados à fundação da nacionalidade: D. Afonso Henriques e as cinco quinas, a esfera armilar, símbolos recuperados da tradição histórica nacional."

Mas muitos não se deixavam convencer. Um dos mais ardentes defensores do azul e branco foi o poeta Guerra Junqueiro - várias caricaturas mostram-no com a sua longa barba, agarrado à bandeira azul e branca e resistindo por vários meios ao "avanço" da verde-rubra. Junqueiro socorre-se da poesia: "O Campo azul e branco permanece indelével. É o firmamento o mar o luar, o sonho dos nossos olhos o êxtase eterno das nossas almas." O escritor e intelectual Sampaio Bruno avançou com argumentos mais pragmáticos: "É que a bandeira azul e branca (...) é a única que o preto de África reconhece como representativa da soberania de Portugal."

De nada lhes valeu. Logo a 15 de Outubro de 1910 o Governo cria uma comissão para decidir a bandeira: o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o romancista Abel Botelho, o jornalista João Chagas e os militares Ladislau Pereira e Afonso Palla. Não foi preciso esperar muito pela decisão. A 29 de Outubro, os membros da comissão propunham a bandeira verde e vermelha e justificavam a sua escolha num longo relatório que os jornais publicaram. O dia 1º de Dezembro foi declarado o dia da bandeira.

Recorda João Medina na sua História de Portugal, que Columbano, em entrevista a um jornal, "mostrou-se moderadamente céptico" quanto à escolha, que tentou defender dizendo que "o encarnado e o verde não se casam tão mal como se disse", que o importante era "encontrar o tecido que convém" e "não se aproveitarem as primeiras cambiantes dessas cores que apareçam". E sugeria os tons que considerava os certos - "o verde-carregado e o vermelho vivo".

Mas a festa do 1º de Dezembro estava à porta, era preciso ter a bandeira pronta, e, conta ainda Medina, na Cordoaria, onde foi feita, não havia os tons ideais. Columbano conformava-se, mas lamentava: "Só há o encarnado e o verde-esmeralda. É pena."

Jornalista

AmanhãAs eleições de 1911. Por João Bonifácio Serra

Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República
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Propostas de 1910 para a bandeira da República Portuguesa. (em inglês

Bandeira de Portugal - Wikipédia, a enciclopédia livre

A proposta de Trindade Coelho tem a vantagem de dar uma possível explicação para o ..... Propostas de 1910 para a bandeira da República Portuguesa. ...
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Efígie da República Portuguesa na moeda de 50 centavos, de 1912 a 1968

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Proclamação da República Portuguesa - 1910.10.05

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Proclamação da República Portuguesa


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A Proclamação da República Portuguesa foi o resultado da Revolução de 5 de Outubro de 1910 que naquela data pôs termo à monarquia em Portugal.
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Dia 5 de Outubro, a inesperada resolução
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À noite o moral encontrava-se baixo entre as tropas monárquicas estacionadas no Rossio, devido ao perigo constante de serem bombardeadas pelas forças navais e nem as baterias de Couceiro, aí colocadas estrategicamente, traziam conforto. No quartel general discutia-se a melhor posição para bombardear a Rotunda. Às três da manhã Paiva Couceiro partiu com a Bateria Móvel, escoltado por um esquadrão da Guarda Municipal, e instalou-se no Jardim de Castro Guimarães, no Tourel, aguardando a madrugada. Quando as forças da Rotunda começaram a disparar sobre o Rossio, revelando a sua posição, Paiva Couceiro abriu fogo provocando baixas e semeando a confusão entre os revoltosos. O bombardeamento prosseguiu com vantagem para os monárquicos, mas às oito da manhã Paiva Couceiro recebeu ordem para cessar fogo pois iria haver um armistício de uma hora.
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Entretanto no Rossio, depois de Paiva Couceiro ter saído com a Bateria, o moral das tropas monárquicas, que se julgavam desamparadas, piorou devido às ameaças de bombardeamento por parte das forças navais. Infantaria 5 e alguns elementos de Caçadores 5 garantiram que não se oporiam ao desembarque de marinheiros. Face a esta confraternização com o inimigo os comandantes destas formações dirigiram-se então ao quartel general onde foram surpreendidos pela notícia do armistício.
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O novo representante alemão, chegado na antevéspera, instalara-se no Avenida Palace, lugar de residência de muitos outros estrangeiros. A proximidade do edifício da zona dos combates não o poupou a estragos. Perante este perigo o diplomata tomou a resolução de intervir. Dirigiu-se ao quartel general e pediu ao general Gorjão Henriques um cessar fogo que lhe permitisse evacuar os cidadãos estrangeiros. Sem comunicar ao governo e talvez na esperança de ganhar tempo para a chegada dos reforços da província, o general acede.
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O diplomata alemão, acompanhado de um ordenança com a bandeira branca, dirige-se à Rotunda para acertar o armistício com os revoltosos. Mas eis que estes, vendo a bandeira branca, julgaram que a força opositora se rendia, pelo que saem entusiasticamente das fileiras e juntam-se ao povo, que sai das ruas laterais e se junta numa grande aglomeração gritando “vivas” à República. Na Rotunda Machado Santos a principio não aceita o armistício, mas perante os protestos do diplomata acede. De seguida e vendo o maciço apoio popular à revolta nas ruas, temerariamente dirige-se ao quartel general, acompanhado de muitos populares (aos quais se haveriam de juntar os oficiais que abandonaram as posições na Rotunda). A situação no Rossio, com a saída dos populares à rua era muito confusa, mas favorável aos republicanos dado o evidente apoio popular.
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Machado Santos confronta o general Gorjão Henriques com o facto consumado e convida-o a manter-se no comando da divisão mas este recusa. Machado Santos entrega assim o comando ao general António Carvalhal que sabia ser republicano. Pouco depois era proclamada a República por José Relvas, na varanda do edifício da Câmara Municipal de Lisboa, após o que foi nomeado um Governo Provisório, presidido por membros do partido Republicano, com o fito de governar a Nação até que fosse aprovada uma nova Lei Fundamental.
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Em Mafra, de manhã, o Rei procurava um modo de chegar ao Porto, acção muito difícil de levar a cabo por terra dada a quase inexistência de uma escolta e os inúmeros núcleos de revolucionários espalhados pelo país. Cerca do meio-dia era entregue ao presidente da câmara de Mafra a comunicação do novo governador civil, ordenando que se alvorasse a bandeira republicana. Pouco depois o comandante da escola Prática de Infantaria recebe também um telegrama do seu novo comandante informando-o da nova situação política. A posição da família Real tornava-se precária.
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A solução aparece quando chega a notícia de que o iate real “Amélia” fundeara ali perto na Ericeira. Às duas da manhã o iate havia recolhido da cidadela de Cascais o tio e herdeiro do Rei, D. Afonso, e sabendo o Rei em Mafra, havia rumado à Ericeira por ser o âncoradouro mais próximo. Tendo a confirmação da proclamação da República e o perigo próximo da sua prisão, D. Manuel II decide embarcar com vista a dirigir-se ao Porto. A família real e alguns acompanhantes dirigiram-se à Ericeira de onde, por meio de dois barcos de pesca e perante os olhares curiosos dos populares embarcaram no iate real. Uma vez a bordo o rei escreveu ao primeiro-ministro: “ Meu caro Teixeira de Sousa. – Forçado pelas circunstâncias vejo-me obrigado a embarcar no yatch real “Amélia”. Sou português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer! Viva Portugal! Dê a esta carta a publicidade que puder. Sempre mº afectuosamente – Manuel R. – yatch real “Amélia” – 5 de Outubro de 1910.”

Depois de garantir que a carta chegaria ao seu destino o rei fez saber que queria ir para o Porto. Reuniu-se um conselho com o soberano, os oficiais e parte da comitiva. O comandante João Agnelo Velez Caldeira Castelo Branco e o imediato João Jorge Moreira de Sá opuseram-se à opinião do soberano, alegando que se o Porto não os recebesse o navio difícilmente teria combustível para chegar a outro âncoradouro. Perante a insistência de D. Manuel II o imediato argumentou que levavam a bordo toda a família real pelo que era o seu primeiro dever salvar essas vidas. O porto de destino escolhido foi Gibraltar, de onde o rei ordenou que o navio, por ser propriedade do estado português, voltasse a Lisboa. D Manuel II no entanto viveria o resto dos seus dias no exílio.
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jostein2007

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Visualização livre da British Pathe

Implantação da República (Lisboa 1910) 2 [British Pathe]


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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Portal do Centenário da República

É hoje apresentado o portal da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, tendo por objectivo disponibilizar informação relacionada com o Programa do Centenário, visando ser um espaço dinâmico e interactivo.

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in Memória Virtual

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