Discurso de Lula da Silva (excerto)

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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Revelada composição de pílula com 2000 anos



Cientistas italianos reconstituíram, por assim dizer, a bula de um medicamento datado do século II antes da nossa era.
Em cima, a latinha e o seu conteúdo (à direita); em baixo, um comprimido visto de frente e de lado DR

Circa 140 a.C. Um médico viaja a bordo de um barco vindo da Grécia e com destino ao porto etrusco de Populónia, Toscana. Mas o navio afunda-se a 18 quilómetros da costa - e só será descoberto em 1974, perto da praia de Pozzino.
Entre os objectos recuperados no Relitto del Pozzino (nome dado aos destroços), várias caixinhas cilíndricas em latão, 136 frasquinhos de madeira, um pequeno pilão de pedra, um vaso de bronze "com uma forma peculiar, típica de uma ferramenta médica usada para fazer sangrias",escrevem Erika Ribechini, da Universidade de Pisa, Itália, e colegas, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Isto "sugere que um médico estaria a viajar no mar com o seu equipamento profissional", salientam.
Uma das latinhas revelou conter seis comprimidos redondos e cinzentos de quatro centímetros de diâmetro e um de espessura e levou os cientistas a realizarem análises químicas, mineralógicas e botânicas para determinar a composição do que parecia ser um medicamento com mais de 2000 anos. "Em arqueologia", escrevem, "é muito raro descobrir-se medicamentos antigos e conhecer-se a sua composição química." Mas, desta vez, foi possível reconstituir a bula deste medicamento "fóssil".
Composição: compostos de zinco, amido, cera de abelha, resina de pinheiro, gorduras de origem vegetal e animal, carvão, fibras de linho, pólen de oliveira e de trigo, entre outros. Substâncias activas (prováveis): os compostos de zinco e talvez o carvão.
Excipientes: azeite, resina de pinheiro (antioxidante e antibacteriano), cera de abelha, fibras de linho (reforçam os comprimidos).
Indicações: colírio contra problemas oculares. "A composição e a forma dos comprimidos de Pozzino parecem indicar que eram usados em oftalmologia", escrevem os cientistas, acrescentando que o nome latino collyrium (gotas para os olhos) vem de uma palavra grega que significa "pãezinhos redondos".

sábado, 22 de dezembro de 2012

E 136 anos depois, o mapa-múndi das espécies animais foi actualizado



ANA GERSCHENFELD 21/12/2012 - 15:16

O mapa utilizado até aqui para estudar a biodiversidade dos vertebrados à face da Terra datava de 1876. Desde ontem, há um novo mapa, que integra a árvore genética das espécies.


Uma equipa internacional de investigadores, entre os quais um especialista português de biodiversidade, combinou os dados evolutivos e geográficos - coligidos ao longo de 20 anos sobre 21.037 espécies de vertebrados - e produziu um mapa "moderno" da distribuição geográfica de todos os mamíferos não-marinhos, dos anfíbios e das aves actualmente conhecidos.

O novo mapa, apresentado ontem ao fim da tarde na edição online da revista Science, actualiza e "corrige" o mapa utilizado até aqui pelos especialistas como base para os estudos da biodiversidade animal no nosso planeta. Um mapa que data de... 1876 e cujo autor foi o naturalista britânico Alfred Russel Wallace, co-descobridor, independentemente de Charles Darwin, da teoria da selecção natural das espécies.

Os autores da actualização confirmaram agora, no novo mapa, que existem muitas semelhanças com o mapa do século XIX. Mas, graças à massa de informação genética hoje disponível, revelaram também diferenças que podem ser essenciais para a concepção de futuros programas de conservação das espécies.

"Wallace era um naturalista extraordinário", disse ao PÚBLICO Miguel Araújo, professor da cátedra de Biodiversidade Rui Nabeiro do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) na Universidade de Évora - e co-autor do trabalho. "Viajou pelo mundo inteiro e verificou que, em cada região, existiam espécies diferentes, de aspecto diferente."

Porém, Wallace apenas dispunha de informação sobre um número limitado de espécies, na maioria mamíferos, que tinha visto no terreno durante as suas viagens ou cuja existência conhecia através de amigos e colegas. Ora, essa situação é hoje radicalmente diferente: "Nos últimos anos, tem-se estado a reconstruir os mapas biogeográficos dos mamíferos, dos anfíbios e das aves", explica Miguel Araújo. "Toda esta informação [sobre a distribuição das espécies] é muito recente."

E por outro lado, Wallace também "não tinha a árvore da vida, embora ela já estivesse, de forma qualitativa, por trás da sua classificação", salienta o cientista. "Nós tivemos agora em conta as filogenias todas", incluindo uma nova árvore genética das aves, que a equipa publica online juntamente com o seu artigo.

Os reinos e a linha de Wallace
Com base nas suas observações, Wallace, considerado o "pai" da biogeografia, tinha dividido o mundo em seis grandes "reinos". O novo mapa vem acrescentar cinco novos reinos, que podem ainda ser subdivididos em 20 regiões mais pequenas. "Os reinos fornecem uma informação muito prática, muito clara, da origem evolutiva comum das espécies", diz ainda Miguel Araújo. Porém, conforme o tipo de aplicação, pode ser precisa a distribuição mais fina em regiões.

Novidades? "Wallace pensava que Madagáscar estava ligada à África", refere o cientista, "mas segundo nós é um reino perfeitamente independente". E mais: "A origem evolutiva de Madagáscar é mais próxima da Índia do que da África." O resultado bate certo com o que se sabe da tectónica das placas: Madagáscar separou-se da Índia e não de África.

Outra diferença em relação ao velho mapa é o facto de o Norte de África unir-se agora num único reino com a Península Arábica (num conjunto designado reino saro-arábico), quando até aqui estava incluído no reino paleárctico, que engloba a Eurásia. Também foi possível distinguir, a sul do paleárctico, um reino sino-japonês. E quanto à Nova Zelândia, passou a pertencer ao mesmo reino que a Austrália, o que não era o caso até aqui. Ao mesmo tempo, o reino australiano original ficou partido em dois: australiano e oceânico (este último incluindo a Nova Guiné e as ilhas do Pacífico).

"Madagáscar é um caso especial", explica ainda o cientista. "Se tivéssemos de atribuir medalhas, a de ouro iria para a Austrália, que é a região mais individualizada do planeta e a que tem a fauna mais diferente; a de prata iria para Madagáscar e a de bronze para a América Latina, que permaneceu muito isolada e longe dos grandes fluxos de migração."

As novas características biogeográficas agora reveladas deverão ter implicações importantes ao nível dos programas de conservação das espécies. "Se Madagáscar estivesse ligada à África, a sua prioridade em termos de conservação seria menor", exemplifica Miguel Araújo. Mas com uma fauna única no mundo, trata-se de algo "mais universal" e a sua prioridade no panorama da biodiversidade passa logo para outro patamar.

Uma outra questão que o novo mapa poderá agora vir resolver diz respeito àquilo que hoje é conhecido como "linha de Wallace" - um obstáculo à dispersão das espécies animais que, segundo teorizou aquele naturalista, marcaria uma separação entre as faunas do seu reino oriental (que inclui o subcontinente indiano e o Sudeste asiático) e o da Austrália. Wallace colocara essa fronteira natural no estreito de Macáçar, entre Bornéu e a ilha indonésia de Celebes. "Tem havido um grande debate sobre onde passa a linha", diz Miguel Araújo, acrescentando terem agora confirmado que está essencialmente muito perto da localização atribuída por Wallace.

Será que os especialistas de biodiversidade vão já passar a utilizar o novo mapa? Para Miguel Araújo, não há dúvidas de que, a partir de agora, "o mapa de Wallace está desactualizado". O novo mapa será, entretanto, colocado à disposição da comunidade internacional, em particular através do Google Earth.



sábado, 8 de dezembro de 2012

A diáspora dos ciganos começou há 1500 anos no Noroeste da Índia




As populações ciganas actualmente espalhadas por todo o continente europeu são muito diferentes entre si. Mas todas têm em comum uma única população ancestral, como prova agora o estudo do seu ADN.
Ciganos búlgaros são o grupo geneticamente mais próximo da população ancestral comum a todos os ciganos da Europa DIMITAR DILKOFF/ REUTERS

***

Os ciganos representam a maior minoria da Europa. São cerca de 11 milhões - mais do que a população de Portugal. Mas não possuem registos escritos da sua história nem tão-pouco das suas andanças pelo mundo. Isso levou um grupo de geneticistas de 15 países europeus - Portugal, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Hungria, Croácia, Eslováquia, Sérvia, Grécia, Roménia, Bulgária, Ucrânia, Lituânia e Estónia - a juntar esforços para tentar determinar, através de uma análise ao ADN das várias comunidades ciganas, a origem e o percurso geográfico da diáspora cigana.

Os seus resultados, publicados online esta quinta-feira na revista Current Biology, fornecem o mais pormenorizado "mapa" existente até agora dessa história demográfica - que se revela, escrevem, "rica e complexa".
Por um lado, os resultados vêm confirmar que, apesar das grandes diferenças culturais, religiosas e linguísticas que existem entre as diversas comunidades ciganas que hoje residem nos países europeus, os antepassados de todos os ciganos vieram do mesmo sítio. Por outro, permitem estimar a data em que os ciganos ancestrais saíram do seu "berço" genético, bem como a data em que teve início a sua expansão pela Europa fora.
A partir de amostras biológicas provenientes das comunidades ciganas de 13 países (todos os acima referidos menos a Holanda e a Bélgica), os cientistas realizaram uma análise global de 152 genomas. A seguir, compararam-nos com os genomas de diversas outras populações - nomeadamente de europeus não-ciganos -, para remontar até ao ponto geográfico de origem dos antepassados dos ciganos actuais e seguir-lhes depois o rasto ao longo do tempo.
"Juntámos as populações e fizemos uma análise muito mais intensiva, ao nível de todo o genoma, com um número de marcadores genéticos extremamente elevado", disse ao PÚBLICO Leonor Gusmão, do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup) - e co-autora portuguesa do estudo -, em conversa telefónica a partir do Brasil, onde está actualmente a trabalhar no Laboratório de Diagnósticos por DNA da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Os cientistas puderam assim concluir que tudo começou no Noroeste da Índia, há uns 1500 anos. E que, uma vez chegados à Europa via Balcãs (mais precisamente a Bulgária), os ciganos começaram, há cerca de 900 anos, a espalhar-se por todo o continente, até à Península Ibérica e ao País de Gales, misturando-se, ainda que de forma limitada, com as populações autóctones que iam encontrando.

Bolas brancas, bolas pretas
A Portugal, os primeiros ciganos terão chegado em 1462. "Estão há mais tempo em Portugal do que os portugueses no Brasil", faz notar Leonor Gusmão. No entanto - e apesar de serem "um grupo extremamente interessante" - têm sido esquecidos pelos geneticistas das populações. "A maior parte das pessoas não faz ideia de onde é que vieram os ciganos."

Uma das particularidades que o novo estudo genético revelou é que a diáspora cigana terá sido o resultado de migrações sucessivas de grupos muito pequenos, quase de grupos familiares. Isso fez com que as diversas populações se diferenciassem rapidamente umas das outras do ponto vista genético.
"Como eram poucos indivíduos", explica a cientista, "nunca representavam totalmente a população de onde tinham saído." E utiliza uma analogia para melhor descrever o fenómeno: é como tirar bolas ao acaso de um saco que contém 25 bolas brancas e 25 pretas. Se tirarmos um número substancial de bolas, digamos 20, é provável que mais ou menos metade das bolas escolhidas seja de uma cor e metade da outra. Mas se tirarmos apenas duas bolas, facilmente ficaremos com duas da mesma cor, o que não será representativo do conteúdo do saco.
Com os genes, acontece a mesma coisa. E foi o que se passou durante a diáspora cigana. "Isso é que é realmente interessante: o facto de tantas diferenças terem surgido entre as populações ciganas, a todos os níveis, em tão pouco tempo", diz Leonor Gusmão. O modo de vida nómada dos ciganos não é alheio a esta característica da sua diáspora.
O facto de a ancestralidade ser indiana foi uma surpresa? Não, responde. Os estudos linguísticos já apontavam para a Índia. "Já sabíamos isso, não fomos nós que o descobrimos." Contudo, a genética permitiu descartar algumas hipóteses quanto ao percurso exacto dos grupos ciganos entre a Índia e a Europa. "Uma das hipóteses", diz Leonor Gusmão, "era que os ciganos teriam chegado à Península Ibérica via Norte de África." Mas os cientistas não encontraram agora qualquer indício genético que permita sustentar essa hipótese. Pode ser que alguns grupos tenham por lá passado, mas, se isso aconteceu, "não deixaram descendentes"

Anónimo
O próprio nome "ciganos" tem um significado perjorativo. É um termo generalista usado para empacotar povos que têm origens semelhantes (tipo Portugal e espanha). Sinti e Roma são os nomes pelos quais dois dos grupos mais numerosos se chamam a si próprios. Há outros, cada um com as suas tradições, cultura e história próprias. E riquissimas. Infelizmente e apesar de já estarem na Europa há tanto tempo, continuam a ser ignorados, discriminados e postos de parte por todos os países, sem excepção. No holocausto os alemães assassinaram 500.000 deles. Os Judeus já foram reconhecidos por todos, deram-lhes até a Terra Prometida. Estes parecem não ter nenhum lugar para ficar.




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Idosos são vítimas de fraudes porque o seu "alarme cerebral" não dispara



Quando envelhecemos, deixamos de prestar atenção aos sinais manifestos da desonestidade alheia e tornamo-nos mais vulneráveis às vigarices de todo o tipo. Este fenómeno tem uma base biológica.
As pessoas mais velhas têm tendência para reparar mais nas coisas positivas do que nas negativas ADRIANO MIRANDA******
Shelley Taylor sabe, por experiência própria, que as pessoas mais idosas são extremamente propensas a serem alvo de fraudes: o pai e uma sua tia foram vítimas de vigarices financeiras. E como psicóloga que é, decidiu tentar desvendar as causas de tão desproporcionada vulnerabilidade.
Os resultados de dois estudos realizados pela sua equipa da Universidade da Califórnia ­- e publicados na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences - revelam que o cérebro dos adultos mais velhos não percebe tão bem os sinais suspeitos de desonestidade como o dos mais novos.
"O meu pai [na altura com cerca de 75 anos] foi ao banco acompanhado por uma pessoa que descreveu como sendo "um homem muito simpático", conta a cientista em comunicado. "Era um sem-abrigo e qualquer pessoa que olhasse para ele teria percebido logo que não devia dar 6000 dólares a esse homem." A tia, quanto a ela, comprou uns brincos de "diamante" pelo correio. "São de vidro. Uso-os sempre que dou uma conferência sobre este trabalho", comenta.


As consequências desta confiança excessiva em desconhecidos estão à vista: "Segundo um estudo recente", explica ainda Shelley Taylor, "estima-se que, nos EUA, em 2010, os adultos de mais de 60 anos perderam 2900 milhões de dólares devido à exploração financeira, que pode ir de esquemas para fazer arranjos em casa a complexas fraudes monetárias."
Num primeiro estudo, 199 adultos com 55 a 84 anos e 24 adultos mais novos (com 23 anos em média) avaliaram 300 fotos de rostos que tinham sido deliberadamente seleccionados para parecerem ou claramente dignos de confiança, ou neutros ou a merecer desconfiança. E constataram que, embora os dois grupos avaliassem de forma semelhante os rostos honestos e neutros, o mesmo já não se verificava com os rostos que denotavam manifesta falsidade. Enquanto os mais novos reagiam fortemente a esses sinais de alarme, os mais idosos não os conseguiam distinguir. "Os adultos mais velhos ignoravam expressões faciais [suspeitas], apesar de serem fáceis de detectar", diz Shelley Taylor.
Intuição deficiente
No segundo estudo, os cientistas quiseram ver o que se passava no cérebro dos participantes quando olhavam para as fotos, recorrendo, para isso, à técnica de ressonância magnética funcional. Desta vez, os participantes foram 44 - 23 adultos mais velhos (em média, com 66 anos) e 21 mais novos (em média, com 33 anos). E foi aí que descobriram a diferença, ao nível de uma estrutura chamada ínsula anterior. Esta região cerebral, que se activava fortemente nas pessoas mais novas mesmo quando elas estavam a avaliar uma face manifestamente cândida, quase não se activava nos mais velhos. A ínsula anterior está associada às reacções de repulsa e, portanto, influencia, em particular, a nossa capacidade de distinguir entre pessoas sinceras e pessoas que estão a tentar enganar-nos.

"Nos adultos mais novos, o próprio acto de avaliar se uma pessoa é digna de confiança activa a ínsula anterior. É como se estivessem a pensar que têm de ser prudentes no seu juízo", frisa Shelley Taylor. E isso, acrescenta, não tem nada que ver com o facto de os jovens serem melhores avaliadores da qualidade de um investimento - até porque as típicas vítimas de vigarices costumam ser homens com 55 anos e com experiência na área dos investimentos financeiros. Tem que ver, isso sim, com a maior capacidade dos jovens em detectar as dicas visuais relacionadas com as intenções alheias.
A ínsula anterior funciona como um "sensor" da nossa paisagem corporal interna, das nossas reacções viscerais, e o "mapa" que produz do nosso estado fisiológico a cada instante serve de base para gerar aquilo a que chamamos palpites ou intuições, explica, por seu lado, Elizabeth Castle, co-autora do trabalho. "Isto leva-nos a pensar que os palpites que alertam para o facto de alguém não ser de confiança se encontram atenuados nas pessoas mais velhas." O que não significa que a situação seja patológica: pelo contrário, é possível, escrevem os autores, que a tendência para reparar e lembrar-se mais facilmente das coisas positivas do que das negativas contribua para o bem-estar na velhice.
Shelley Taylor tem um conselho para as vítimas potenciais: "Não falem com quem vos tenta vender qualquer coisa, desliguem-lhe o telefone, respondam simplesmente: 'Não.'" Nem sempre é fraude, conclui, mas quando o cérebro não ajuda, mais vale evitar essas pessoas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cientistas portugueses mostram interior de uma antiga casa romana à luz de há 2000 anos

Cientistas portugueses mostram interior de uma antiga casa romana à luz de há 2000 anos

Utilizando uma tecnologia informática que capta a luz ambiente de uma forma semelhante ao sistema visual humano, foi possível ver, pela primeira vez, um interior romano com os olhos de outrora



Século I da nossa era. Os donos de uma sumptuosa vila romana da antiga cidade de Conímbriga recebem convidados e fazem as honras da casa. Com evidente orgulho, mostram os magníficos frescos e mosaicos que cobrem respectivamente as paredes e o chão de várias divisões. A fraca luz emitida pelas lâmpadas de azeite faz ressaltar os tons avermelhados das pinturas e dos motivos geométricos do chão. A visão é arrebatadora, mas ao mesmo tempo reconfortante, cálida... Lá fora, no jardim interior da moradia, o barulho da água a jorrar dos repuxos contribui para acentuar o prazer dos olhos e essa sensação de bem-estar.
A descrição poderá parecer ficcional, mas não é. Graças ao trabalho liderado por Alexandrino Gonçalves, do Departamento de Engenharia Informática do Instituto Politécnico de Leiria, e colegas – cujos resultados deverão ser publicados para o ano no Journal of Archaeological Science – foi possível, pela primeira vez, fazer uma simulação virtual em 3D de um interior doméstico romano que, do ponto de vista visual, corresponde com uma fidelidade sem precedentes ao que viam as pessoas que lá entrassem há 2000 anos.
Para reconstituir os edifícios da antiguidade com a ajuda de computadores não basta simular a sua decoração tal como ela era quando estavam em uso. De facto, existe hoje um crescente interesse dos arqueólogos pelas condições em que esses ambientes eram percebidos pelos seus habitantes – em particular devido aos métodos de iluminação –, porque isso pode ter um papel importante na interpretação dos achados arqueológicos.
“A forma como visualizamos os frescos e os mosaicos pode dar azo a diferentes interpretações”, disse ao PÚBLICO Alexandrino Gonçalves. E citou um outro exemplo – um projecto de Alan Chalmers, da Universidade de Warwick, Reino Unido, também co-autor do estudo agora publicado –, no qual foi comparado o aspecto visual de hieróglifos egípcios iluminados com lâmpadas onde ardia óleo de sésamo com uma iluminação com luz natural. Os resultados sugerem que os antigos egípcios viam tons de verde onde nós vemos hoje tons de azul. “Isso poderá ter implicações religiosas e permitir várias interpretações”, faz notar Alexandrino Gonçalves.   
Voltando a Conímbriga, os cientistas focaram-se na Sala das Caçadas (assim designada devido ao tema dos mosaicos do chão) da Casa dos Repuxos, uma mansão cuja construção data do início do século I da era cristã.
Como explicam no seu artigo, que já se encontra publicado online, a única forma de recriar esse ambiente foi através de cenários virtuais, uma vez que a residência romana em questão está hoje em ruínas, o que torna impossível mergulhá-la na sua iluminação original. Isto, explica Alexandrino Gonçalves, porque as casas romanas não tinham janelas – “tinham pavor que alguém lhes entrasse pela casa” – e portanto o seu interior era sempre apreendido com luz artificial.
Mas antes de passarem à fase da reprodução por computador da “luz antiga” da Sala das Caçadas, os cientistas tiveram de simular, com objectos reais, a iluminação da época luso-romana, de forma a medir as suas características físicas e poder transferir esses dados para o software de simulação.
Lâmpadas de azeite
Há dois milénios, as grandes casas romanas eram iluminadas com lâmpadas de azeite (“as tochas causavam muitos incêndios”, frisa Alexandrino Gonçalves). Estas lucernas eram pousadas no chão ou no topo de altos candelabros – e colocadas em “posições estratégicas” para realçar a decoração vertical e horizontal das salas.
Muitas dessas lâmpadas foram encontradas nas escavações de Conímbriga e a primeira etapa do estudo consistiu portanto em reconstituí-las fielmente partindo de várias réplicas, de barro como as originais, cedidas à equipa pelo Museu Monográfico de Conímbriga.
Depois veio a questão dos outros componentes: o azeite, os pavios. Ora, o azeite não era igual ao que consumimos hoje – não tinha aditivos – e os pavios eram de linho ou algodão. A tarefa não foi fácil, conta Alexandrino Gonçalves: felizmente, foi possível obter amostras de azeite produzido com métodos tradicionais, “à antiga, de uma maneira que hoje não seria autorizada pela ASAE por razões de higiene”. E mais: como os romanos adicionavam sal ao azeite, os cientistas também tiveram o cuidado de escolher uma fonte de sal puro, que veio neste caso das minas de sal da Figueira da Foz. (Este trabalho minucioso é descrito pelos cientistas no seuartigo, com todos os pormenores.)
As lâmpadas foram a seguir colocadas numa sala de dimensões idênticas à da Sala das Caçadas, às escuras e perfeitamente fechada para evitar que correntes de ar pudessem perturbar as chamas das lucernas. E, com a ajuda de um espectro-radiómetro, os cientistas mediram a reflexão da luz das lâmpadas nas superfícies da sala – não só com “luz antiga” (azeite “antigo” e sal), mas também com azeite “antigo” sem sal e com azeite “moderno”. Conclusão: embora o azeite mais próximo do utilizado pelos romanos produzisse uma luminosidade 50% menos intensa do que o azeite mais semelhante ao do comércio actual, a adição de sal mais do que compensava esta perda.
Assim, antes de mais, o estudo veio explicar o porquê de algo que até aqui os arqueólogos apenas sabiam através da literatura. Virgílio Correia, Director do Museu Monográfico de Conímbriga, que acompanhou de perto o estudo, explica-nos que, efectivamente, o célebre naturalista romano Plínio refere nos seus escritos “que a adição de sal ao azeite aumenta as suas propriedades químicas”. A análise espectro-radiométrica realizada por estes cientistas veio agora comprová-lo. “Comprovámos experimentalmente que, desta forma, o azeite durava mais tempo e emitia 60% mais luz”, diz por seu lado Alexandrino Gonçalves.
Imagens só vistas
A partir dos dados de luminosidade, os cientistas reconstituíram virtualmente o cenário da Sala das Caçadas gerando imagens ditas de alto alcance dinâmico (HDR ou high dynamic range). A sensibilidade desta tecnologia é de tal ordem que permite igualar a extrema sensibilidade do nosso sistema visual em condições de fraca iluminação. “É a primeira vez que se faz uma reconstituição virtual deste tipo com HDR”, diz-nos Alexandrino Gonçalves.
A última etapa do estudo levaria o investigador à Universidade de Warwick, ao laboratório de Alan Chalmers, um dos poucos locais no mundo que dispõe de ecrãs HDR, capazes de apresentar as imagens HDR em todo o seu esplendor. Ali, ao longo de várias semanas, os cientistas mostraram as imagens da Sala das Caçadas a umas dezenas de voluntários – em “luz antiga”, mas também em luz eléctrica – e pediram-lhes para responder a diversas perguntas acerca da sua percepção do cenário virtual que estavam a ver. Os tons de cor dos mosaicos, nomeadamente, revelaram ser percebidos de forma diferente em cada um destes dois modos de iluminação: vermelhos cálidos no primeiro; acastanhados no segundo. A luz antiga criava, segundo referiram quase unanimemente os voluntários, uma sensação reconfortante, cálida, relaxante que contrastava fortemente com a atmosfera fria e as cores sem relevo vistas à luz de lâmpadas eléctricas.
A equipa também realizou experiências em que, graças a um sistema detracking, seguiram o rasto do olhar dos participantes à medida que estes observavam as imagens. E aqui constataram que, ao passo que “com luz romana, o olhar se fixava mais nos frescos e nos mosaicos, com luz eléctrica a dispersão do olhar era maior”, frisa Alexandrino Gonçalves. “Isto vai no sentido do que se pensava”, acrescenta: “Os romanos gostavam de impressionar as visitas com os seus mosaicos e frescos e colocavam as lucernas nos sítios estratégicos para os tornarem mais espectaculares.”
Para além do interesse arqueológico de uma visualização historicamente fidedigna dos ambientes do passado, existe também “uma vertente de comunicação com o público”, diz-nos Virgílio Correia, “porque muitas vezes as reconstituições dos arqueólogos são dificilmente entendíveis pelo público em geral”.
Mas terá sido mesmo assim que os comensais de outrora viam o seu ambiente doméstico? “Nunca conheceremos exactamente o aspecto do passado”, concluem os cientistas no seu artigo. “No entanto, para conseguirmos uma interpretação mais fiel dos cenários que outrora foram habitados pelos nossos antepassados, temos de os ‘iluminar’, no meio das sombras, como eles o foram no seu tempo.”



Anónimo
Ler o "Elogio da Sombra", de Jun'ichiro Tanizaki. É disto que fala, mas aplicado à arquitectura japonesa.


Anónimo
Que me desculpem os artistas gráficos, mas nem lucernas nem candelabros emitem luz daquela cor ou intensidade, nem a sala tem aquela difusão. A difusão é uma propriedade dos materiais que levam com luz, e os materiais naquelas salas de Conímbriga, pelo que tenho visto, são pouco difusos. Ou seja, na realidade haveria mais penumbra do que se mostra. Mas foi uma boa ideia, é só regular alguns parâmetros.


Obrigado pelo seu comentário, mas o que refere não é correto. É um facto quem se deslocar hoje às ruínas tem a noção que as superfícies que ainda restam são difusas (pouco refletoras), no entanto muitos séculos passaram e as propriedades refletivas dos materiais se desvaneceram com o tempo, pois segundo os especialistas em arqueologia Romana, aquelas paredes e frescos tinham um elevado nível de especularidade (reflexão). Inclusive foi-me referido que os frescos eram revestidos de uma “cera” precisamente para realçar ainda mais a especularidade dos mesmos. Relativamente à questão da iluminação, sugiro-lhe que leia o artigo referido na notícia do «Público» onde é explicado todo o processo de simulação da luz Romana efetuado no modelo virtual. Mas, num breve resumo poderemos referir que......os valores das propriedades da luz (figura 2 no artigo) foram obtidos por um espectro-radiómetro, onde foram posteriormente inseridos um sistema de simulação físico de iluminação, nomeadamente o «Radiance», unanimemente considerado como um dos melhores motores de “render” existentes: “One study found Radiance to be the most generally useful software package for architectural lighting simulation.” (http://en.wikipedia.org/wiki/Radiance_(software)). Ou seja, dado o rigor científico que se pretendia, este longo trabalho não foi, de todo, “só regular alguns parâmetros.”. Nós não somos artistas gráficos, nem tão pouco arqueólogos, somos “apenas” técnicos que desenvolveram um trabalho de simulação virtual do nosso rico legado cultural. Cumprimentos Alexandrino Gonçalves


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Damásio - A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

Ípsilon



António Damásio

A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

22.09.2010 - Ana Gerschenfeld

Há dez anos, em "O Sentimento de Si", o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em "O Livro da Consciência", volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar. 
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"Fa franziu o sobrolho e olhou para a sua barriga, levou a mão direita à cabeça e disse: 'tenho uma imagem'. Abandonou a escarpa e apontou para o bosque e o mar: 'estou ao pé do mar e tenho uma imagem. É uma imagem de uma imagem. Estou - disse, levantando a cara e franzindo o sobrolho - a pensar."
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William Golding (mais conhecido como o autor do Senhor das Moscas) escreveu estas linhas em Os Herdeiros (The Inheritors, 1955), um romance onde imagina o encontro, há dezenas de milhares de anos, de duas espécies de seres humanos. Uma mais evoluída (nós?), os "cara de osso", imberbes, erguidos, magros, com rituais e ferramentas mais complexos; a outra mais primitiva (os Neandertais?), peluda, robusta e ágil a trepar às árvores.
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Uma das características mais salientes da estranha e maravilhosa narrativa de Golding é o número de vezes que recorre à palavra "imagem". Os Neandertais estão constantemente a "ter" imagens e a declarar que têm imagens (que portanto lhes pertencem) e a reflectir sobre essas imagens. Enquanto isso, as imagens, combinadas com o que vai acontecendo no mundo exterior e com a memória do passado, vão gerando emoções e sentimentos que geram outras imagens e orientam os seus actos, tanto exteriores como interiores. Estas personagens primitivas são seres perfeitamente conscientes do mundo e de si próprios, dotados de uma história pessoal e individual.
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Os hipotéticos neandertais têm contudo alguma dificuldade em manipular ideias complexas - talvez um sinal de que as suas capacidades de memória ainda não desabrocharam totalmente. A tribo mais evoluída, essa, tem muito mais jeito para todos esses exercícios mentais (algo que o autor talvez quisesse sugerir quando abandona o uso da palavra "imagem", mesmo no fim, mal o relato passa a ser do ponto de vista dos "cara de osso").
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Os humanos modernos tornaram-se mestres na produção de imagens mentais, na sua análise consciente e na análise, também consciente, dos sentimentos que elas provocam em nós. O nosso cérebro produ-las em contínuo e nem sequer quando dormimos conseguimos interromper o seu fluxo. Somos todos cineastas mentais natos.
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As imagens são "a principal moeda da nossa mente", explica António Damásio no seu novo livro, intitulado O Livro da Consciência. E a palavra não se esgota apenas nas imagens visuais, mas aplica-se aos padrões, aos "mapas" neuronais auditivos, viscerais, tácteis e por aí fora, que o cérebro constrói em permanência. Nem os sentimentos fogem à regra: são igualmente imagens. Mais ainda, o nosso cérebro que é "viciado" na criação de mapas, também mapeia o seu próprio funcionamento, gerando imagens totalmente abstractas. "Estou convencido", escreve Damásio, "que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de imagens."
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Esse filme super-multimédia que vemos na nossa cabeça começa na nossa infância - e de facto, através das relações sociais, da cultura e da aprendizagem, remonta até muito mais longe no passado, quando ainda não tínhamos nascido. Mais ainda, conseguimos antecipar o futuro e agir sobre ele em nosso benefício, individual e colectivo. E mais mais ainda, sentimos que o filme é nosso e só nosso (e de facto, somos o público exclusivo do espectáculo da nossa mente).
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Mas como é que lá chegámos? O que aconteceu no nosso cérebro que tornou a consciência possível?
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Cérebro, mente, consciência
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Como já aconteceu nos seus livros anteriores, as respostas que Damásio se propõe dar a estas perguntas só podem ser válidas se forem firmemente ancoradas na biologia. Afinal de contas, os neurónios que suportam a mente e a consciência são células vivas como as outras; afinal de contas o cérebro, com as suas várias subdivisões e as ligações nervosas entre elas que suportam a mente e a consciência, é a mente e a consciência. Afinal de contas, tudo o que se passa na nossa mente passa-se na nossa cabeça e no nosso corpo (where else?). "De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente" escreve Damásio.
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O Livro da Consciência é a mais recente incursão neste território do célebre neurologista português (radicado nos EUA desde 1975 e figura de primeiro plano não só da comunidade internacional das neurociências, mas também, desde o seu O Erro de Descartes, de 1995, junto do grande público). O título original em inglês do novo livro, Self Comes to Mind, talvez seja mais sugestivo do que o da versão portuguesa, editada pela Temas e Debates/ Círculo de Leitores, que vamos poder ler a partir de hoje (o original só será publicado nos EUA e na Europa em Novembro).
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Mas o que importa sublinhar é que o livro define um programa para a futura investigação nesta área. Damásio é o primeiro a admitir que ainda está longe de ter resolvido o mistério do que é a consciência humana (se é que alguma vez o poderá fazer), que está meramente a arranhar a superfície, que nem sequer tem uma teoria, mas apenas um "enquadramento" teórico da questão.
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Mas acha que, apesar de haver quem considere a tarefa impossível, ainda é muito cedo para os cientistas desistirem de explicar o que é a consciência em termos rigorosos e testáveis através da experimentação. Tanto mais quanto, nos últimos dez anos, os avanços das técnicas de imagens médicas têm permitido visualizar de forma cada vez mais sofisticada, ao vivo e em directo, o cérebro de pessoas (com e sem lesões neurológicas) a realizar diversas tarefas - para ver qual a região do cérebro que entra em acção a cada instante. Essas manchas de cor nas imagens poderão ser apenas um eco longínquo do filme na nossa cabeça, mas têm muito para nos contar.
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A quarta dimensão
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Toda essa massa de trabalho científico teve como consequência, para o pensador atento, metódico, profundo que é Damásio, uma mudança radical das premissas do empreendimento. O estudo do aparecimento da consciência humana, explica no livro, já não pode ser encarado da mesma maneira que há dez anos. Tornou-se preciso contar a história da consciência humana de outra maneira - e, por vezes, virada do avesso.
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Em primeiro lugar, acrescenta-lhe uma "quarta dimensão": a perspectiva da evolução das espécies. Para conseguir perceber como surge e como funciona a mente humana - e em particular a mente consciente - é preciso abandonar a ideia de que ela é única em todos os seus aspectos. É única nalguns, que não deixam de ser espectaculares (a cultura e as artes estão lá para o provar). Mas a mente nasceu nos organismos vivos muito antes de a espécie humana aparecer na Terra. A consciência não é o apanágio do cérebro humano.
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"A evolução brindou?nos com diferentes tipos de cérebro", lemos, "no que diz respeito à mente e à consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do Aplysia californica, [um] caracol marinho (...). Existe o tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos - comportamento, mente e consciência -, de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insectos."
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Há mesmo, segundo Damásio, uma série de animais que poderão, ao que tudo indica, possuir uma consciência rudimentar: "os lobos, os nossos primos os símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie especial chamada cão doméstico".
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O que lhe permitiu chegar a uma tal conclusão? "A organização dos seus cérebros e a sofisticação dos seus comportamentos sociais", responde-nos, numa troca de e-mail com o Ípsilon. E significa isso que esses animais são conscientes, tal como nós? Que sabem que existem? "Claro que a sua consciência não é tão abrangente como a nossa, mas penso que eles sentem as suas mentes e os seus comportamentos."
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Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?, perguntámos ainda. Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.
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Seja como for, uma consequência não trivial desta perspectiva evolutiva é que, desde os primórdios da vida na Terra, os cérebros, seja qual for sua sofisticação, sempre estiveram e permanecem dedicados em primeiro lugar à manutenção da integridade dos organismos que os contêm, humanos e não humanos. "A forma mais directa de explicar o motivo pelo qual a consciência prevaleceu na evolução é dizer que contribuiu de modo significativo para a sobrevivência das espécies com ela equipadas. A consciência chegou, viu e venceu", escreve Damásio no seu livro.
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Os andares da consciência
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Para o demonstrar, o cientista vai, por um lado, desmontar os diferentes sistemas e processos, de complexidade crescente, que culminam na consciência; e, por outro, especular de forma cientificamente informada sobre os locais no cérebro candidatos a ser o "lugar" onde cada um tem a sua sede principal (sem esquecer que o cérebro faz tudo de forma relativamente deslocalizada, o que também não significa que a totalidade do cérebro participe em todas as funções cerebrais; algumas estruturas são mais adequadas do que outras para o desempenho de uma dada função). A cada passo da construção (ou desconstrução), Damásio fornece uma profusão de provas baseadas na observação de doentes com problemas cerebrais muitas vezes trágicos - adultos com Alzheimer, epilepsia, coma, estado vegetativo, síndrome locked-in, crianças que nasceram sem córtex cerebral, a camada exterior do cérebro responsável por todas as funções cognitivas de alto nível a começar pela linguagem, lesões cerebrais maciças ou localizadas - e na de pessoas que não são doentes neurológicos. O seu conhecimento da anatomia do cérebro e a sua capacidade de interpretar sinteticamente os resultados da investigação (a própria e a dos outros), sempre em relação com essa anatomia, constitui um acto de autêntico virtuosismo. O que não significa que o seu livro seja de fácil leitura; antes pelo contrário. Seguir os meandros das explicações encadeadas de Damásio exige a concentração de um jogador de xadrez.
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A construção da consciência começa pela formação de um "proto-eu", seguido de um "eu nuclear" e coroado por um "eu autobiográfico". Estes três módulos foram sendo acrescentados um por cima do outro ao longo da evolução e nós humanos possuímos os três, simplesmente porque não podemos prescindir de nenhum deles.
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O proto-eu é uma semente, um germe primitivo do eu. A partir das imagens mentais que vêm do corpo, escreve Damásio, o proto-eu produz "sentimentos primordiais" (por exemplo, diversos níveis de dor e de prazer, o "sentir" de base), que são espontâneos e contínuos quando estamos acordados e que "garantem a experiência directa do nosso corpo vivo,
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sem palavras, sem adornos e sem qualquer outra ligação que não seja a própria existência". Ou seja, um primeiro sinal de que as nossas imagens mentais são nossas, ponto de partida indispensável da consciência.
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Cérebro arcaico
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A principal consequência disto, segundo Damásio, é que a existência da consciência humana é assegurada em parte por sistemas muito "arcaicos" do cérebro, tais como certas estruturas da parte superior do tronco cerebral (o tronco cerebral liga a espinal medula ao cérebro). Isto não fazia até agora parte dos "ingredientes" habituais da consciência. "São muito poucos os cientistas com trabalhos publicados a defender esta ideia", diz-nos Damásio. No livro, escreve: "O cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível do córtex cerebral, mas sim ao nível do tronco cerebral. Os sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens geradas pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o proto?eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu." E acrescenta: "estas ideias estão em conflito directo com os pontos de vista tradicionais sobre a consciência".
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Não é possível esgotar em poucas palavras a complexidade do pensamento de Damásio, mas podemos tentar alinhar os personagens e o enredo da peça da consciência. Além do proto-eu, existem mais dois participantes que completam o elenco da consciência: o eu nuclear (que se desenvolve "numa sequência de imagens que descrevem um objecto a interagir com o proto?eu e a modificá?lo") e o eu autobiográfico (que surge quando todas essas sequências de imagens de múltiplas origens, "cuja totalidade define uma biografia", geram por sua vez "impulsos de eu nuclear" e ligam o eu "ao passado bem como ao futuro antecipado"). O proto?eu, com os seus sentimentos primordiais, e o eu nuclear constituem um "eu material". O eu autobiográfico, que abrange todos os aspectos da pessoa social, constitui um "eu social" e um "eu espiritual".
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Mas para realizar o estado de consciência plena - aquele a que só os humanos temos acesso - ainda falta no palco da mente "um dono, um protagonista da existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção. Falta o narrador que não apenas sabe, mas que sabe que sabe, o "conhecedor" que permite atingir o mais alto patamar da consciência tal como a conhecemos hoje. São o eu nuclear e o eu autobiográfico que vão "dotar?nos a mente [desta] outra variedade de subjectividade", escreve Damásio. "A consciência humana normal corresponde a um processo mental onde operam todos estes níveis do eu".
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Dez anos depois
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Onde é que as etapas finais da construção da consciência se operam no cérebro? Onde é que se concretiza a subtil e complexa coordenação dos processos que permitem a sua emergência?  Devido à sua posição no cérebro e as ligações nervosas que estabelecem com outras regiões, o tálamo, situado entre o tronco e o córtex cerebrais, e uma área do córtex chamada PMC (córtex postero-medial) recolhem o voto favorável de Damásio. Mas isso não significa que exista uma separação de funções: o cérebro não funciona assim. Cada uma dessas três principais "grandes divisões anatómicas" contribui para algum aspecto da "tríade directora" da consciência, formada pelo estado de vigília, a mente e o eu.
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Perguntámos a Damásio o que, ao longo desta década, tinha tornado necessária esta sua nova viagem à consciência humana. "Muitas, muitas coisas", diz-nos por e-mail. E especifica que "embora tenha sempre reconhecido o valor das estruturas subcorticais, a perspectiva d'O sentimento de Si era predominantemente centrada no córtex. A d'O Livro da Consciência não é; o subcórtex e o córtex partilham os papéis - e o papel principal vai mesmo para o tronco cerebral."
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"Embora [no primeiro livro] também tivesse chamado a atenção para o córtex postero-medial, considerei-o como principalmente relacionado com o eu nuclear. Dez anos volvidos, com base em todos os resultados de neuroanatomia e neurofisiologia (...), vejo o seu papel como principalmente ligado ao eu autobiográfico. (...) Fiz ainda alterações teóricas a partir da reavaliação do comportamento das criaturas 'pequenas', das bactérias e por aí fora - e mais geralmente, daquilo que no seu conjunto descrevo como a quarta perspectiva.
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E qual a maior novidade no novo livro? "É o que digo sobre o tronco cerebral e sobre a fusão, literalmente, do corpo e do cérebro, que são duas caras da mesma moeda. Este é sem dúvida um dos pontos centrais do livro - e talvez o mais original e o mais sujeito a controvérsia."

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domingo, 9 de maio de 2010

Há um bocadinho de Neandertal dentro de nós

Artigo da revista "Science"

06.05.2010 - 19:00 Por Ana Gerschenfeld
O debate durou anos: o homem moderno (nós) e o Homem de Neandertal, hoje extinto, ter-se-iam cruzado e procriado juntos – ou não? Hoje a questão foi definitivamente arrumada pela genética, com a publicação na "Science" do primeiro rascunho do genoma dos Neandertais. A resposta? Sim! A criança do Lapedo teve de facto Neandertais entre os seus antepassados.
Svante Pääbo, investigador do Instituto Max Planck de Antropologia
 Evolutiva de Leipzig, na Alemanha  
Svante Pääbo, investigador do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, na Alemanha (Frank Vinken)


Há meses que nos diziam que a primeira sequenciação do genoma do Homem de Neandertal estava quase pronta. Já está. E proporcionou uma primeira grande surpresa aos próprios autores do trabalho (que, como muitos outros especialistas, não acreditavam nesta possibilidade), ao confirmar que os humanos modernos acasalaram e procriaram com Neandertais. Simplesmente, porque descobriram bocadinhos de sequências genéticas de Neandertal no nosso ADN.

A equipa internacional liderada por Svante Pääbo, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, na Alemanha, demorou quatro anos a ler os genes desse ser humano, extinto há cerca de 30 mil anos – uma proeza técnica que, segundo os autores, vai ao mesmo tempo permitir perceber o que é que nos distingue deles do ponto de vista evolutivo.

“Há seis ou sete anos, eu pensava que a sequenciação da totalidade de um genoma antigo era algo que não iria acontecer durante a minha vida”, disse ontem Pääbo no início de uma conferência de imprensa telefónica convocada pela revista Science. O grande problema, explicou, é que “mais de 90 por cento do ADN encontrado nos fósseis provinha de bactérias ou de fungos” – ou seja, pertencia aos microrganismos que tinham contaminado os ossos após a morte dos indivíduos em questão. Para mais, os fragmentos de ADN obtidos eram extremamente curtos e tinham sofrido alterações químicas. Isto sem esquecer que a sua mera manipulação corria o risco de introduzir uma contaminação adicional, com o próprio ADN dos cientistas – o que é absolutamente indesejável quando se trata justamente de determinar se há genes de Neandertal em nós ou genes nossos neles... Uma grande parte do trabalho e das técnicas desenvolvidas tinha portanto como objectivo garantir a autenticidade da proveniência do ADN em estudo.

Os cientistas extraíram o ADN principalmente de três fragmentos de osso fossilizado de três mulheres Neandertais, que tinham sido encontrados numa gruta na Croácia entre o fim da década de 1970 e o início da de 1980. Dois desses ossos foram datados com precisão e têm respectivamente 38 mil e 44 mil anos. A partir daí, conseguiu-se reconstituir, nesta primeira fase, cerca de 60 por cento da totalidade dos três mil milhões de pares de bases (ou “letras”) do ADN dos Neandertais.

Aconteceu no Médio Oriente
Os cientistas também sequenciaram cinco genomas de humanos actuais, de origem europeia, asiática e africana, para fins de comparação com o genoma fóssil – e compararam ainda esse genoma com o do chimpanzé. E descobriram que os Neandertais são, do ponto de vista genético, ligeiramente mais próximos dos humanos modernos fora de África do que dos africanos actuais. A explicação que dão para isto é que, pouco depois de terem saído de África à conquista do mundo, há uns 80 mil anos, provavelmente algures no Médio Oriente (antes de chegarem à Europa), os primeiros homens modernos cruzaram-se com os Neandertais e produziram descendência.

Isso não significa que não tenha havido, mais tarde, novos encontros e novos cruzamentos, nomeadamente na Europa. Mas o “fluxo genético” agora detectado – sempre dos Neandertais para os humanos actuais e não em sentido oposto – aponta para um contacto mais precoce, logo à saída de África. A ausência de provas não significa que não tenha havido contactos ulteriores, mas simplesmente que não foi possível detectar sinais genéticos desses contactos, argumentam os cientistas.

Seja como for, os seres humanos actuais, da Austrália à Europa, passando pela Ásia (mas não por África), herdaram, naquela altura, bocadinhos de sequências genéticas de Neandertal que continuam, ainda hoje, espalhadas pelo nosso ADN. Os cientistas estimam que entre um e quatro por cento do genoma dos humanos actuais provenha dos Neandertais. Num comunicado, referem mesmo que o genoma do célebre “caça-genes” norte-americano Craig Venter, recentemente publicado, contém segmentos que são mais próximos do genoma de Neandertal do que do genoma “de referência” humano, que inclui uma mistura de ADN de origem europeia e africana! “Um a quatro por cento do meu genoma é Neandertal”, salientou Pääbo na conferência de ontem. “Eles não se extinguiram totalmente, continuam a viver em nós.” Contudo, as sequências genéticas identificadas como provenientes dos Neandertais estão distribuídas ao acaso pela molécula de ADN e não correspondem a nenhum traço identificável que alguns de nós poderíamos ter em comum com eles.

Para Pääbo, “o mais fascinante” disto tudo é, porém, a possibilidade de utilizar este genoma fóssil para procurar provas da selecção “positiva” de traços genéticos, ou seja, de características genéticas que se fixaram ulteriormente nos humanos modernos porque apresentavam vantagens do ponto de vista evolutivo em termos de sobrevivência da espécie – e que nos tornam únicos e diferentes dos Neandertais. A equipa já identificou várias regiões do genoma onde isto poderá ter acontecido, que têm a ver com o desenvolvimento mental e cognitivo (há três genes que, quando mutados, estão implicados na trissomia 21, na esquizofrenia e no autismo), bem como regiões relacionadas com o metabolismo energético, com o desenvolvimento do crânio, da clavícula e da caixa torácica.

Pertencemos à mesma espécie?
Para Pääbo, esta pergunta não faz sentido. “É um debate estéril”, frisou. “Nunca me pronunciei sobre isto e prefiro deixar essas lutas a outros. O que interessa é que mostrámos que o cruzamento reprodutivo era biologicamente possível entre os Neandertais e nós. Eu diria que eram diferente dos humanos – mas não assim tão diferentes como isso.”

“Há mais de dez anos que as provas arqueológicas e paleontológicas de hibridação cultural e biológica entre Neandertais e homens modernos se vêm acumulando”, disse João Zilhão, arqueólogo português da Universidade de Bristol, em conversa telefónica com o PÚBLICO. Juntamente com o seu colega Erik Trinkaus, da Universidade de Washington, Zilhão descobriu em 1998, no Vale do Lapedo, perto de Leiria, o esqueleto mais completo até à data de uma criança da nossa espécie que viveu no Paleolítico Superior (há cerca de 25 mil anos). O fóssil, afirmam desde então estes cientistas, apresenta uma mistura de traços modernos e de Neandertal.

Só que muitos especialistas discordavam desta interpretação – o que, para Zilhão, deixa de ser possível a partir de hoje. “Andámos a dizer isso há dez anos e têm-nos atirado à cara com os dados genéticos”, disse-nos hoje o investigador. E mostrou-se satisfeito com os novos resultados: “Era a última objecção contra o nosso modelo e isso é óptimo. Há que virar a página, o problema está resolvido.”

Mas então somos ou não da mesma espécie? “A dicotomia homem moderno/Neandertal é falsa”, responde-nos Zilhão. “É uma classificação vitoriana, do século XIX.” O Neandertal foi o primeiro homem fóssil a ser descoberto, um ser a meio caminho entre os macacos e o homem, “e isso encaixava no paradigma da evolução [das espécies]”. Para Zilhão, esta concepção tem criado uma resistência cultural subconsciente. “Como é que um fulano tão feio pode ser igual a nós?”, ironiza. “Do ponto de vista biológico, o que é importante é que, em termos reprodutivos, o homem moderno e o homem de Neandertal funcionam como uma única comunidade. Podiam acasalar. Isso é que conta.”

É provável, entretanto, que o crescente número de pessoas que recorrem a empresas que analisam o seu genoma venham a saber em breve se são portadoras de sequências genéticas vindas dos Neandertais. Até porque o genoma fóssil já foi colocado pelos autores na Internet, numa base de dados genética de acesso livre. Interrogado pelo PÚBLICO a este propósito durante a conferência de imprensa de ontem, Pääbo riu-se: “Tenho a certeza de que algumas dessas empresas vão oferecer isso aos seus clientes.”
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ciência e tecnologia

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Época - 13/02/2009 - 23:06 - Atualizado em 13/02/2009 - 23:32
DNA do homem de Neandertal é 99,9% igual ao nosso
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O mapeamento do código genético dessa espécie pode nos ajudar a entender o que nos tornou humanos
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Peter Moon e Alexandre Mansur
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O homem de Neandertal viveu na Europa da Idade do Gelo por 150 mil anos. Eram nossos parentes mais próximos – até serem extintos, há 30 mil anos. Mas teriam eles desaparecido completamente? Ou sobrevivem, ainda que parcialmente, dentro de nós? No dia 12, comemorando o bicentenário de Charles Darwin, o geneticista sueco Svante Pääbo anunciou o sequenciamento parcial do DNA do Homo neanderthalensis, de amostras extraídas de seis indivíduos. “É a primeira vez que o genoma completo de um organismo extinto foi sequenciado”, afirmou Pääbo em Chicago, na reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Pääbo, de 53 anos, foi o pioneiro em isolar genes do Neandertal, em 1997. Ele, hoje, é diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha.
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O mapeamento do DNA do homem de Neandertal é um feito notável. A maior parte do material genético saiu de um fêmur de 38 mil anos, desenterrado em uma caverna na Croácia. Outros pedaços vieram de sítios arqueológicos na Rússia, Espanha e Alemanha. Cada fóssil tinha poucos fragmentos de DNA aproveitáveis. A equipe de Pääbo teve de sequenciar os genes de todos os fragmentos, para depois juntar o quebra-cabeça. Conseguiram decifrar 3 bilhões de letras, que correspondem a 63% do DNA.
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Os primeiros fósseis do homem de Neandertal foram achados na Alemanha, no Vale de Neander (Neanderthal, em alemão), em 1856. Por causa de sua testa grande e esqueleto atarracado, diferentes dos alemães do século XIX, os homens de Neandertal foram considerados “homens das cavernas”.
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Conhecer o DNA de um ser tão parecido conosco é fundamental para entender, afinal, o que nos torna humanos. Comparar a carga genética do Homo neanderthalensis com a do Homo sapiens permitirá retraçar passos recentes de nossa evolução, como o surgimento da fala e o desenvolvimento do cérebro. Já se sabe, por exemplo, que o homem de Neandertal tinha o mesmo gene FOXP2, que nos humanos está ligado à fala e à linguagem. Esse gene é diferente nos chimpanzés, que compartilham 98,5% de nosso DNA. “Não há razão para acreditar que o homem de Neandertal não podia falar”, diz Pääbo. “Mas existem muitos outros genes envolvidos na fala e na linguagem. Ainda há muito estudo a ser feito.” Com o DNA decifrado, dá para ressuscitar o homem de Neandertal? “Não. Seria tecnicamente impossível.” O geneticista continuará acumulando o DNA de 20 homens de Neandertal para preencher as lacunas que faltam e completar o genoma.
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Em 2001, descobriu-se que os homens de Neandertal eram ruivos. Desde então, especula-se se os cabelos ruivos, presentes em 2% da humanidade, teriam sido herdados deles. Pääbo calcula que as duas espécies têm entre 99,5% e 99,9% de genes idênticos. Trata-se da mesma diferença genética (de até 0,5%) que se observa entre os 6,7 bilhões de humanos. Será que os homens de Neandertal formavam outra espécie? Ou eram gente como a gente?
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Uma análise preliminar mostrou que uma parte muito limitada de seus genes faz parte do DNA humano, diz Pääbo. “É provável que o cruzamento entre as duas espécies fosse possível”, diz Chris Stringer, antropólogo do Museu de História Natural, de Londres. “Mas deve ter sido muito rara. Havia muitas diferenças físicas e culturais entre elas.”
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 As diferenças e as semelhanças
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Os novos estudos sugerem que a espécie, extinta há 30 mil anos, era assombrosamente parecida com a nossa