Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 6 de abril de 2013

Os arquitectos às voltas com a fotografia

Viagem a Portugal

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Começou por ser uma encomenda do Governo de Salazar, mas viria a tornar-se num momento marcante na alteração do paradigma da arquitectura portuguesa a meio do século XX. Olhado agora à distância de meio século, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa mostra-se também como um sinal de renovação na história da fotografia portuguesa

Território comum é o título da exposição que reúne uma centena de fotografias do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, 1955-57, patente desde quarta-feira, dia 4 de Abril, na galeria da Fundação EDP, no Porto. (Rua de Ofélia Diogo Costa, 46). Trata-se de uma selecção, da responsabilidade de Sérgio Mah, feita a partir das dez mil fotografias realizadas por um colectivo de 18 fotógrafos e arquitectos na segunda metade dos anos 1950, e depois publicadas no livro que se tornaria mítico, “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”, editado em 1961.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Há um antes e um depois de Niemeyer"

O Palácio do Planalto é um das obras emblemáticas de Niemeyer UESLEI MARCELINO/REUTERS

As reacções em Portugal e no Brasil à morte do arquitecto Oscar Niemeyer.



A morte de Oscar Niemeyer, aos 104 anos, não deixou o mundo indiferente. Arquitectos e outras figuras da cultura e sociedade portuguesas e brasileiras expressaram a admiração por um dos nomes mais marcantes da arquitectura mundial.
Brasília é um milagre!
Fernanda Barbara, arquitecta e urbanista brasileira

"Oscar Niemeyer foi um dos maiores arquitectos do século XX. O trabalho que ele desenvolveu na arquitectura brasileira fala da cultura brasileira, de uma maneira ampla e que se reconhece por todo o país e por todo o mundo.
Niemeyer fez ver uma cultura brasileira desde os anos 40 por todo mundo. Em São Paulo, em 1951, Oscar faz dois projectos de grande importância: o edifício Copan, residencial com apartamentos para diversas faixas de renda no centro histórico de S. Paulo, e o Parque Ibirapuera.
Por outro lado, Brasília é um milagre!
Oscar Niemeyer projectou muito pelo mundo todo, grandes obras de qualidade e espaciais surpreendentes, mas não há como não distinguir o conjunto de Brasília na sua obra. Em Brasília, além da qualidade surpreendente dos projectos há uma postura cívica e profissional que merece a nossa atenção. Niemeyer projectou um conjunto enorme de edifícios em três anos, edifícios públicos e institucionais que são símbolo de um Brasil, num momento que foi de esperança de um Brasil democrático e mais justo.
Além de ser um arquitecto com posições políticas claras, durante a ditadura Niemeyer recebeu nos seus escritórios muitos arquitectos exilados amparando a profissão e fazendo ver ao mundo a barbaridade que aconteceu no nosso país, fortalecendo a nossa perspectiva de um país mais justo.
Talvez a questão mais importante da obra de Niemeyer seja sempre a surpresa. Além da implantação da qualidade formal dos edifícios é a surpresa que a gente sempre tem quando se entra num edifício do Niemeyer.
O que há de muito particular na obra do Oscar é que ele projectou com muita qualidade em muitos países do mundo, ele é muito elogiado, é a referência para grandes arquitectos de todo o mundo e, paralelamente a isso, ele é um arquitecto popularmente conhecido.
"Aposta nas formas curvas"
Nuno Teotónio Pereira, arquitecto português

“É uma figura emblemática, que teve uma enorme influência na Europa e também alguma em Portugal. Foi importante numa altura em que a arquitectura moderna estava em dificuldades e a ser posta em causa na Europa, acusada de não respeitar os valores nacionais, sobretudo nos países que então viviam sob regimes e ideologias totalitários, como a Alemanha, a Itália e também Portugal. A obra dele conheceu uma grande divulgação com o livro que foi publicada a pretexto duma grande exposição dedicada à arquitectura moderna brasileiro no MoMA, em Nova Iorque. Aí se mostrava que a arquitectura brasileira era muito diferente da que se praticava na Europa, que era recta, com superfícies lisas, planas; enquanto no Brasil, e especialmente o Niemeyer, apostava nas formas cur[vas]
"Do modernismo tropical às experiências space-age"
Pedro Gadanho, curador de arquitectura no Museum of Modern Art
"Niemeyer era um arquitecto do seu lugar. A sua obra única bebia a inspiração num só lugar: o Rio de Janeiro e as suas formas extraordinárias. Nas entrevistas ele dizia que as suas ideias vinham da vida que o rodeava, mas ninguém ligava muito a tais devaneios. Porém, a sua evolução de um modernismo tropical de formas voluptuosas para as experiências space-agedo Museu de Arte de Niterói fala precisamente de uma relação intensa com as transformações das experiências e percepções de uma metrópole única - quer do ponto de vista da relação da cidade com a paisagem, quer do ponto vista social e humano.

Nos Estados Unidos, Niemeyer é um herói do modernismo. Logo, e mesmo permanecendo fiel a ideias comunistas, é um herói americano. De resto, ainda Niemeyer era um 'jovem' de 50 anos - e Rockefeller criava museus no Rio de Janeiro e São Paulo - e já o MoMA dedicava uma exposição 'a arquitectura brasileira, em 1955. Existe um acompanhamento duradouro da obra de Niemeyer e não é portanto de admirar que, por entre as reacções mediáticas abrangentes, o NYT imediatamente o coloque na última linhagem de grandes mestres modernistas como Le Corbusier ou Mies van der Rohe."
"A explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo"
Nuno Portas, arquitecto e urbanista português
“Oscar Niemeyer foi uma revelação pioneira do modernismo sul-americano dos anos 30-40 e, ainda hoje, em minha opinião, as suas obras mais interessantes estão em Minas Gerais, e que influenciaram os arquitectos modernos portugueses do pós-guerra.

Deixou-nos depois a sua participação no nascimento de Brasília – os edifícios do Planalto e as primeiras quadras de habitação no Brasil –, sem a qual a nova capital, traçada por Lucio Costa, não ganharia o rápido prestígio mundial que hoje conhecemos.
As suas obras das últimas décadas não tiveram a mesma repercussão. Talvez porque a explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo”.
 
"Omnipresente na arquitectura mundial"
José Mateus, arquitecto português
"O Niemeyer foi sempre uma figura omnipresente na arquitectura mundial, na arquitectura brasileira, cuja vida se confunde com a arquitectura, ou seja, a arquitectura não era uma profissão – era a forma de vida dele. Deixou obras extraordinariamente profundas, coerentes, que reflectiam um optimismo da arquitectura modernista brasileira da qual ele foi um dos grandes protagonistas.

O que tem de extraordinário o legado do Niemeyer é que ele foi um arquitecto modernista que sobreviveu até à contemporaneidade, e que nos trouxe um testemunho forte e inspirador da arquitectura brasileira, pela sua participação em seminários, nas universidades. A minha obra favorita é o Palácio da Alvorada.
É uma arquitectura própria de um visionário, toda aquela riqueza espacial e formal com sentido muito plástico, lúdico e fluido é muito própria de um momento da arquitectura brasileira de grande optimismo e que se tornou uma referência mundial.
A arquitectura brasileira hoje vive uma crise profundíssima, os grandes arquitectos não têm praticamente acesso às encomendas e haver arquitectos como o Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha que continuavam interventivos foi importantíssimo.
Era obsessivo e passava a sua vida pessoal e a dos seus colaboradores para uma posição completamente secundária. Um arquitecto que trabalhou com ele num projecto na Argélia ou na Tunísia contou-me que um dia foi preso, ligou para ele muito aflito porque queria sair da prisão e o Oscar só lhe fazia perguntas sobre como estava o projecto. Até que ele insistiu: ‘Ó arquitecto, mas eu estou preso! Como é que saio da prisão?’” Ou seja, estava-se nas tintas para a vida, o que é um bocado contraditório porque ele era um profundo humanista e activista. Mas, sendo um profundo humanista, em certas circunstâncias a vida passava para segundo plano."
"Há um antes e um depois do Niemeyer"
Manuel Aires Mateus, arquitecto português
"Associava o Oscar Niemeyer a uma ideia de liberdade. Há uma espécie de leveza na forma como ele tocou a arquitectura porque é completamente revolucionária a maneira como conseguiu captar o espírito de um tempo e de um povo, de uma nação, fazendo aquela arquitectura que parece flutuar, sem pertencer quase à gravidade. É um dos mais importantes arquitectos do século XX. Deixa um legado de uma enorme abertura sobre as possibilidades de fazer arquitectura. A mais maravilhosa das obras que visitei do Niemeyer é na Pampulha, em que uma pessoa percebe que se alargaram as fronteiras da possibilidade humana. É como redesenhar uma nova possibilidade para o mundo, e isso depois acompanha-o e é determinante, quando ele faz a grande obra de Brasília – ele funda uma cidade, mas levando ao limite o seu tempo e a sua cultura.

A vida dele é um legado fundamental para as gerações futuras por esse lado de liberdade que abriu – há uma antes do Niemeyer  e um depois do Niemeyer. Conseguiu transformar a cultura brasileira – a arquitectura dele é tão local, é tanto a tradução de uma verdade local, que a torna completamente global. Nunca mais se poderá olhar para o Brasil sem olhar para o Niemeyer."
"Ele engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro"
Nuno Grande, arquitecto e professor português
“O Oscar Niemeyer é um personagem histórico do século XX, um grande arquitecto. Está para o hemisfério Sul como o Le Corbusier está para o hemisfério Norte, sendo uma espécie de reinterpretação deste. Há uma piada que normalmente se conta sobre o Brasil: ‘O país tem menos de 200 anos, e 104 deles são do Niemeyer!’ Isto mostra a importância que ele tem para a nação. O modernismo do Niemeyer é uma reinterpretação do de Corbusier. Ele faz aquilo que artistas brasileiros modernistas de outras áreas fizeram com o chamado Manifesto Antropofágico [1928], utilizando a ideia do índio canibal, que come o seu opositor e depois o regurgita, ganhando-lhe a força. O que o Brasil fez com o modernismo europeu foi um pouco isso, foi engoli-lo e depois regurgitá-lo, mas à sua medida, sob uma forma tipicamente brasileira. O Niemeyer transporta isso para a arquitectura: engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro. É isso que se vê, por exemplo, em Brasília, que foi construída para ser a capital, com o arquitecto e urbanista Lúcio Costa – o Niemeyer estava inicialmente no júri. Estes dois homens são fundadores de uma identidade nacional, que é um modernismo muito próprio, muito brasileiro, sul-americano. É interessante lembrar que o próprio Corbusier esteve no Brasil, em 1929 e 1932, a desenhar com Lúcio Costa o Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro. Esta é a primeira obra que marca o modernismo brasileiro, e que abre o caminho a toda a nova geração dos modernistas. O Brasil teve que inventar a sua identidade, depois de durante muito tempo ter vivido sob o domínio neocolonial. E o Niemeyer é a figura fundamental desse processo, na arquitectura”.
 

"Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona"
Manuel Graça Dias, arquitecto português
“Oscar Niemeyer é, ele próprio, o expoente da modernidade, é um homem que trabalhou durante todo o século sempre ao lado da arquitectura moderna. Tinha uma enorme capacidade de sintetizar os problemas, de os perceber, de compreender o sítio em que está a intervir e o programa que está em causa. Animado por uma enorme sensibilidade plástica, consubstancia essa resposta em formas sempre emocionantes, sempre bem enquadradas na disposição espacial que ele entende organizar.

Na quarta-feira, morreu um grande amigo meu, o Joaquim Benite, e no PÚBLICO referem uma coisa que ele disse acerca do teatro, mas que se aplica a todas as artes: ter perante as pessoas a generosidade de lhes dar qualquer coisa de diferente, qualquer coisa que fuja à banalidade e que de algum modo possa alegrar-nos a vida. Isso acontece com Niemeyer. Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona e remete-nos para um mundo menos mesquinho e menos banal. Ao mesmo tempo, é um homem de uma personalidade fascinante. De uma enorme simplicidade, mas ao mesmo tempo muito profundo. Um homem preocupado com a modernidade, com a justiça social, que é sempre valorizada na sua arquitectura. É um homem que se emociona com a vida, com as pessoas, com as mulheres.
Toda a boa arquitectura é sempre mais qualquer coisa do que aquilo que é encomendado. Ultrapassa sempre a encomenda e dá ao mundo outras soluções. Niemeyer também cumpre esse lado. Muitas vezes, falamos de uma procura muito intencional. Quando lhe foi solicitado o Sambódromo no Rio de Janeiro, que era suposto serem umas bancadas para observar as escolas de samba passar, ele reinventou-o. Num dos lados, sob as bancadas, acolheu-se uma escola. [Ou seja] aproveitou-se esse ensejo para dotar aquele sítio de mais um equipamento que tivesse relevância. Há sempre em Niemeyer a vontade de que os seus objectos tenham utilidade social. O mundo não muda com a arquitectura, mas pode tornar o mundo mais alegre.
Por mais estranha, insólita e original que pareça, [a arquitectura de Niemeyer] nunca é feita à custa de coisas esquisitas que não servem para nada. Formas relativamente puras e relativamente correntes que são conjugadas de uma maneira brilhante e económica, no sentido de uma economia expressiva. Há uns filmes em que o vemos explicar alguns projectos e percebe-se aí a economia dos seus esquissos, em que ele consegue explicar imediatamente a principal opção do seu trabalho. Há uma enorme capacidade de sintetizar o problema. É também por essa razão que a sua arquitectura é tão emocionante. Com Niemeyer as coisas são sempre relativamente fáceis de relatar, o que não quer dizer que não tenham complexidade no seu interior. Não se esgotam. Descobrimos sempre surpresas.
"A genialidade de seus traços"
Marta Suplicy, ministra da Cultura do Brasil
“O Brasil acaba de perder um de seus grandes. A genialidade de seus traços, a generosidade de sua alma e a firmeza de suas convicções fazem de Oscar Niemeyer um exemplo para a humanidade. Meu coração chora ao se despedir de um gigante na arte, poesia e coragem. Um homem que viveu na plenitude cada minuto de sua vida com lado e posição, e busca da beleza, da harmonia e justiça”.

 
"O Brasil como ícone da arquitectura moderna"
Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitectura e Urbanismo do Rio de Janeiro
“A trajectória e o legado de Niemeyer projectaram internacionalmente o Brasil como ícone da arquitectura moderna, dado o seu pioneirismo na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do betão armado - o que, desde a década de 1940, lhe rendeu um justo reconhecimento em todo o mundo.
Embora estejam sob alguns parâmetros que são comuns à arquitetura moderna, o seu modo de projectar e a sua expressão têm uma dose muito importante de sua criatividade individual, o que faz com que seus traços sejam admirados, mas não reproduzidos”.

 
“Niemeyer foi um inventor brasileiro”
Caetano Veloso, compositor
“O varandão do Alvorada é uma das imagens que formaram minha mente. Niemeyer foi um inventor brasileiro. Um ‘garoto da praia’, como me disse Burle Marx. Suas curvas ensinaram algo muito nosso ao vasto mundo.”

 
“Um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte”
Chico Buarque, compositor
“Oscar Niemeyer teve uma vida muito bonita. Foi um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte.”

“Mudou a linguagem da arquitectura moderna”
Ferreira Gullar, poeta, Prémio Camões 2010
“Para os amigos, sua morte é uma perda de uma pessoa afectuosa, carinhosa. Já o Brasil perde uma de suas figuras mais significativas. E o mundo perde um grande artista, que mudou a linguagem da arquitectura moderna. O lema da arquitectura era que a forma segue a função, a sua preocupação fundamental tinha que ser a funcionalidade, a beleza estava em segundo plano. Oscar juntou as duas coisas, funcionalidade e beleza, dizendo que beleza também é função”.


Depoimentos recolhidos por Joana Gorjão Henriques, Isabel Salema, Mário Lopes e Sérgio C. Andrade, e de agências e jornais brasileiros

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Werner Schroeter: o cineasta que amava a ópera (1945-2010)

1945-2010
Público - 14.04.2010 - Sérgio C. Andrade
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O realizador de Esta Noite partiu para a sua "viagem branca". Deixou uma obra imensa, excessiva e algo secreta, distribuída pelo cinema, o teatro e a ópera. Cruzou as linguagens entre o ecrã e o palco em vários países, incluindo Portugal, onde fez três filmes. Dele disse Rainer Werner Fassbinder: "Era o melhor de todos nós." 


Werner Schroeter, o cineasta alemão que integrou a geração do Cinema Novo, ao lado de figuras como Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e Werner Herzog, e que assinou uma obra extensa e marcada pelo imaginário operático, morreu na noite de segunda para terça-feira numa clínica de Kassel, com um cancro. Acabava de fazer 65 anos (nasceu no dia 7 de Abril de 1945). A notícia da sua morte foi comunicada à AFP por Sibylle Koch, uma das directoras do Schwules Museum em Berlim, que até 28 de Junho lhe consagra uma exposição de homenagem com o título Maria, Magdalena e todas as outras - estando aqui englobadas todas as mulheres com quem o realizador e encenador fez o mais importante da sua carreira, com especial destaque para Magdalena Montezuma, a actriz que lhe marcou a obra e também a vida.



O realizador rodou em Portugal O Rei das Rosas (1986), Duas (2002, com Isabelle Huppert, outra das suas actrizes de eleição, em dose dupla) e Esta Noite (2008), três filmes produzidos por Paulo Branco, que também o homenageou na 1.ª edição do Festival de Cinema do Estoril, em Novembro de 2008. O director artístico do festival, que foi amigo pessoal de Schroeter, manifestou ontem a sua tristeza ao receber a notícia da morte do cineasta. "Sabia-se que estava doente, mas ele tinha um tal poder de resistência e de amor à vida que eu pensava que a fase pior tinha sido ultrapassada", disse ao P2. O produtor revela dever a entrada no mundo do cinema ao fascínio que sobre ele exerceram os primeiros filmes de Schroeter que viu em Paris, na década de 1970. "Nessa altura, cheguei mesmo a fazer-lhe uma entrevista para uma revista, que nunca foi publicada." A relação de ambos cimentou-se, depois, com a rodagem de O Rei das Rosas, em Sintra, o último trabalho que Schroeter faria com a sua "diva" Magdalena Montezuma (1943-1984), que o acompanhava desde as primeiras experiências cinematográficas, ainda em 16mm, nos finais da década de 60.



Paulo Branco recorda a rodagem atribulada dessa obra, em parte por causa da doença que viria a vitimar a actriz (morreu menos de um mês depois de terminadas as filmagens). E vê, agora, o conjunto da obra de Schroeter como a de "um dos maiores artistas da segunda metade do século XX", que se destacou entre a geração do Novo Cinema Alemão. "Schroeter fez uma procura constante e sistemática da beleza, assumindo permanentemente o risco artístico dessa busca. O próprio Fassbinder dizia que ele era o melhor de todos eles", diz Paulo Branco.



Filmes exuberantes




Para o crítico e programador Augusto M. Seabra a obra do artista alemão também merece destaque: "Era um dos maiores cineastas vivos. Os seus filmes, exuberantes, são fortemente marcados pelo lado excessivo próprio da ópera, que ele também encenou, mas também pela voz humana, verdadeira matriz do seu cinema."



O "amor de Schroeter pela ópera" de que fala Seabra começou por manifestar-se logo nos seus primeiros filmes, nas curtas-metragens documentais que dedicou a Maria Callas, no final dos anos 60, entre Callas Walking Lucia e Maria Callas Portrait. Nas inúmeras óperas que Schroeter viria depois a encenar estão títulos como Salomé, de Richard Strauss (Teatro de Belas-Artes da Cidade do México, 1986), Lady Macbeth, de Chostakovich (Oper der Stadt de Frankfurt, 1993), Carmen, de Bizet (Staatstheater Darmstadt, 1999), ou Tosca, de Puccini (Ópera da Bastilha, Paris, 2007). No teatro, nas mais de meia centena de peças que dirigiu estão textos de Luigi Pirandello, August Strindberg, Yukio Mishima, Jean Racine, Jean Genet, Tennessee Williams e Heinrich von Kleist.




Já no cinema, Schroeter teve momentos altos de reconhecimento da sua obra com o Leão de Ouro Especial do Júri do Festival de Veneza (o prémio carreira, em 2008) e o Urso de Ouro no Festival de Berlim (1980) pelo filme Palermo ou Wolfburgo.




Lirismo operático



Jorge Silva Melo, que conheceu Schroeter pela mão do protagonista do seu filme Ninguém Duas Vezes (1985), o actor Michael König - "era um companheiro dele da juventude boémia de Munique" no final dos anos 60, explica -, vê no cinema de Schroeter "um lirismo operático excessivo e às vezes mesmo barroco e kitsch, muito difícil de imitar". E destaca a importância que teve, para o conjunto da sua obra - no cinema, a partir de Palermo ou Wolfburgo, sobre a vida de trabalhadores italianos na Alemanha-, o contacto com a Europa do Sul, primeiro, a Itália, depois também Portugal. "Para ele, a vida verdadeira está no Sul e no sol", acrescenta Silva Melo, que vê Schroeter como "o mais secreto, lírico e marginal" membro da geração do Novo Cinema alemão. "Ele tinha uma morbidez doce", diz o encenador e actor, admitindo conhecer mal a última parte da sua filmografia. "Gostava muito que a sua obra lhe sobrevivesse."



Vasco Pimentel, operador de som que trabalhou com Schroeter em vários momentos desde O Rei das Rosas, diz ter aprendido mais com ele do que com qualquer outro realizador. "Ele trabalhava sempre nos limites, a sua arte brotava directamente do coração e das veias para a câmara e para o ecrã", diz. E conta um episódio que documenta bem essa faceta obsessiva do alemão: na rodagem de O Rei das Rosas, em Sintra, a certa altura o "sangue" que a maquilhadora tinha para filmar uma cena não era suficiente; era já noite, e alguém da equipa se prontificou a ir procurar junto de uma casa uma galinha para a matar e conseguir o sangue necessário para o efeito, "mas, antes que ele chegasse, Werner pegou numa lâmina, cortou o próprio braço e utilizou o seu sangue para completar a cena".



A Medeia Filmes, distribuidora de Paulo Branco, vai homenagear Werner Schroeter com a exibição em Lisboa, no Cinema King, entre 15 e 21 de Abril, dos filmes por si produzidos e também Malina (1991, outra vez Huppert). O programa é o seguinte: O Rei das Rosas (dias 15 e 16), Malina (dias 17 e 18), Duas (dia 19) e Esta Noite (20 e 21). A seguir, e no âmbito de um ciclo sobre o Novo Cinema Alemão, os mesmos filmes serão exibidos no Porto, no Cine-Teatro do Campo Alegre, entre 22 de Abril e 9 de Maio.
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