Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 6 de abril de 2013

Os arquitectos às voltas com a fotografia

Viagem a Portugal

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Começou por ser uma encomenda do Governo de Salazar, mas viria a tornar-se num momento marcante na alteração do paradigma da arquitectura portuguesa a meio do século XX. Olhado agora à distância de meio século, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa mostra-se também como um sinal de renovação na história da fotografia portuguesa

Território comum é o título da exposição que reúne uma centena de fotografias do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, 1955-57, patente desde quarta-feira, dia 4 de Abril, na galeria da Fundação EDP, no Porto. (Rua de Ofélia Diogo Costa, 46). Trata-se de uma selecção, da responsabilidade de Sérgio Mah, feita a partir das dez mil fotografias realizadas por um colectivo de 18 fotógrafos e arquitectos na segunda metade dos anos 1950, e depois publicadas no livro que se tornaria mítico, “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”, editado em 1961.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

"O Portugal rural de Salazar transforma-se nas colónias num Portugal urbano"


  

Como construir nos trópicos em ditadura? Há uma espécie de projecto megalómano em África, de que a arquitectura e o urbanismo são entidades catalisadoras, quando as independências já tinham começado nas outras potências colonizadoras. “Como é que um país pobre, atrasado desenvolve, em paralelo, um esforço de instalação num território fora do seu perímetro?”, é uma das perguntas que Ana Vaz Milheiro explorou no seu novo livro.


  • Nos Trópicos sem Le Corbusier, novo livro de Ana Vaz Milheiro, é retratada a arquitectura colonial pública, que junta técnicas essenciais às condições meteorológicas e elementos que remetem para a metrópole, conferindo aos edifícios uma certa portugalidade nos territórios ultramarinos.
    Ana Vaz Milheiro reúne, neste livro, textos resultantes das suas investigações que começam no seu doutoramento, na Universidade de São Paulo, e que escreveu entre 2007 e 2011, para encontros internacionais ou conferências onde era oradora. “Muitos ficavam lá nas actas brasileiras e, às vezes, aqui não tinham circulação. Isto foi também um pouco para as pessoas poderem consultá-los”, disse crítica de arquitectura do PÚBLICO.
    “É uma grande contribuição”, afirmou Mónica Junqueira de Camargo, sua amiga e professora na Universidade de São Paulo, na apresentação do livro que teve lugar no colóquio internacional "Portugal – Brasil – África: Urbanismo e Arquitectura", que decorreu na Universidade Autónoma de Lisboa: “Ana faz-nos aproximar dessa realidade [colónias ultramarinas] através da articulação entre os textos e as imagens”. Walter Rossa, autor do prefácio do livro, destacou a importância das colectâneas: para os autores que conseguem ordenar e até complementar algumas das suas ideias e para os universitários que têm uma base de estudo e textos que às vezes estão perdidos.
    Como surge o interesse pela arquitectura colonial neste período específico, no Estado Novo?
    Há muitos trabalhos na área da arquitectura moderna, tem-se valorizado a produção de matriz portuguesa, principalmente em África. E a arquitectura de representação nacional, aquela que está nos equipamentos públicos, nos hospitais, nos liceus, nas câmaras municipais, nos palácios do governo - por ser conotada com o poder colonial e com o poder político, tem-se olhado menos para ela.
    Quando comecei a pensar estudar arquitectura africana, pareceu-me que era muito interessante começarmos por essa arquitectura de promoção pública. Porque a relação aqui é estabelecer uma afectividade entre o espaço que passa a ser também Portugal - deixa de ser colonial e passa a ser ultramarino, um Portugal fora da Europa - e Lisboa. Há uma necessidade de recordar que estamos em Portugal e a arquitectura sempre foi de regime, mesmo a arquitectura moderna, porque a arquitectura é sempre promovida por um regime político e, portanto, serve-o.
    O outro ponto era perceber, mas só no decorrer do trabalho é que o compreendi, qual é que era a escala efectiva desta produção em termos de concretização, ou seja: Portugal nos anos 50 é um país subdesenvolvido, com imensos problemas internamente, basta ver o inquérito à arquitectura portuguesa que os arquitectos fazem em 54 para perceber que as imagens são de extrema pobreza, de miséria económica, social. E, como é que um país pobre, atrasado desenvolve, em paralelo, um esforço de instalação num território fora do seu perímetro, dentro de um quadro político internacional que lhe é hostil?
    Portugal rural de Salazar é um Portugal que nas colónias se transforma num Portugal urbano. Os planos, as avenidas, os equipamentos: há uma espécie de projecto megalómano de que a arquitectura e o urbanismo são entidades catalisadoras. Isto também é uma experiência única, porque em 50 começam os processos de independência dos outros países e nós mantemos o nosso império colonial até 74. Nós temos uma experiência que não há nos outros países e nas outras potências colonizadoras, também isso é uma história completamente única e invulgar, uma vez mais idiossincrática como é a história portuguesa.
    É muito difícil encontrar qualidades num edifício que tem um peso, que evoca um poder político e pouco favorável. Portanto, a história tinha passado completamente ao lado desses processos. Com isso, Angola e Moçambique eram muito estudados porque a arquitectura moderna é dominante. Os outros três países africanos ficavam de fora porque depois não têm essa produção moderna, só têm esta outra, ou têm-na em maior número.
    Este trabalho permitiu perceber também que a evolução das culturas arquitectónicas na África que também fala português – se em Angola e Moçambique é de facto no sentido desse projecto moderno – em S. Tomé e Príncipe, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde vai ser no sentido de uma maior proximidade com a cultura metropolitana.
    Como se desenrolou o processo desta narrativa?
    A questão que me interessava era perceber como é que essa arquitectura surgia. Depois havia a felicidade de estes projectos estarem em Lisboa, porque estão no Arquivo Histórico Ultramarino, a maioria deles, outros no centro de documentação do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) e portanto eu podia ter um primeiro acesso aos desenhos e aos projectos. Comecei por aí, em 2008: a abrir caixas, a ver os desenhos e depois comecei a pesquisar bibliografia, a ver na net, se os edifícios que estavam naqueles desenhos tinham sido concretizados e se ainda estavam em uso.
    E depois é que começámos a estabelecer as autorias dos arquitectos. As pessoas diziam: “Palácio do governo de Bissau, quem fez?”, ninguém sabia. “Ah, é uma coisa do Gabinete de Urbanização Colonial”, mas quem efectivamente é que desenhou? O que nós chegámos à conclusão também é que este organismo que estava sediado em Lisboa e que fazia esta arquitectura de representação também tinha várias faces porque teve vários arquitectos e iam mudando, iam aplicando um pouco mais as suas ideias e não era uma produção tão homogénea como poderia parecer. Embora seja um sinal reconhecível, há uma familiaridade entre a produção que, depois com um olhar mais treinado, a gente já consegue, às vezes, reconhecer.
    Os elementos da arquitectura moderna surgem por influência da experiência brasileira?
    É inegável que o Brasil, ao fazer uma reconversão dos valores da arquitectura moderna de via corbusiana numa arquitectura adaptada aos trópicos, criou uma matriz que era muito fácil de reproduzir em ambientes de condições climatéricas idênticas. Mas a experiência não é só brasileira. Nós é que, como temos uma afectividade muito forte com o Brasil, tendemos a ler esses sinais brasileiros. Na verdade, quando se percorre um bocadinho mais a fundo, percebe-se que na cabeça destes arquitectos não é claro que seja brasileiro.
    Um arquitecto moderno nunca admite uma influência porque a arquitectura, para ele, é técnica, não é expressão plástica. Ao admitir uma influência, estaria a admitir a presença de uma artisticidade. Com excepção do Castro Rodrigues, no Lobito, é muito difícil encontrar um arquitecto que diga: “é brasileiro” ou é outra coisa qualquer. Temos que ter um certo cuidado. Por um lado, porque eles obviamente recebem as coisas muito mais difusas do que imaginamos. Cabe ao historiador tentar encontrar grandes linhas de enquadramento e, nesse sentido, a presença da forte cultura brasileira na cultura internacional, como potência que já prefiguravam ser e como potência do movimento e da arquitectura moderna que são, coloca os holofotes nela própria. Mas é muito mais difuso do que isso até porque, nos documentos da época, não é muito fácil encontrar, com algumas excepções, uma admissão desse brasileirismo. Agora, estão lá as palas, as grelhas, está lá o Lúcio Costa [pioneiro da arquitectura moderna no Brasil].
    Portugal estaria mais aberto a elementos da arquitectura moderna se não tivesse vivido o período do Estado Novo?
    Uma vez o Adriano Moreira, numa entrevista que lhe fiz, sintetizou isto muito bem. Não é que houvesse uma cartilha que dissesse “isto tem que ser assim” mas havia um certo sentido que um edifício de representação tinha que ter, uma certa solenidade. Não é nenhuma cartilha, mas é uma consciência. Quando eu falava com os arquitectos dizia: “Mas vocês os arquitectos eram tão modernos nos outros edifícios que faziam, tão modernos nas plantas, depois o que acontecia nos alçados?” Um deles disse-me: “Oh Ana, a fachada não interessa, o que interessa é que a planta funcione, que a ventilação cruzada se dê e que a fachada fique suficientemente protegida do sol e da chuva. É isto que é projectar para os trópicos. Agora, se ela tem lá mais uns elementos ou não, isso é secundário”.
    Eu hoje acredito que não [que a ditadura não limitou a arquitectura moderna]: havia arquitectos do regime que eram modernos e arquitectos anti-regime que eram conservadores. Penso que, eventualmente a partir dos anos 50, o regime era muito tolerante em relação às manifestações cá, em Portugal continental e menos lá, ao contrário do que se diz. Os edifícios que saíam daqui para lá eram menos historicistas do que os que eram feitos cá, nos organismos públicos. É comparar o Liceu D. Leonor com o antigo Liceu D. Guiomar de Lencastre, hoje Liceu Rainha Mingas, em Luanda. É ver estes dois edifícios - um produzido em 58, o outro em 56 - e perceber como o de cá é menos esquema mas é mais envidraçado, e não tem determinados elementos que o de lá vai ter.
    É muito difícil dizermos que Portugal poderia ser muito mais tolerante arquitectonicamente se não tivéssemos tido uma ditadura, o que nós podemos dizer é que para alguns arquitectos o moderno era um programa político, isso está inscrito no ADN da revista Arquitectura, a partir 47: “ser moderno é um discurso ideológico político por um Portugal mais progressista” e, portanto, um Portugal não ditatorial. O que não significa que não houvesse arquitectos mais simpatizantes do regime que não fossem igualmente modernos. Agora, se teríamos sido mais modernos se não houvesse ditadura, não sei, é muito difícil dizer o que é que a história poderia ser se tivéssemos outra coisa qualquer.
    As técnicas e materiais utilizados na arquitectura moderna, que eram adaptáveis ao clima dos trópicos, ainda são aplicadas hoje?
    As técnicas usadas nos edifícios oficiais, desenvolvidos pelos “homens do gabinete”, como eu lhes chamo, são técnicas correntes que ainda hoje se aplicam em toda a parte do mundo. Os outros edifícios eram mais experimentais, os edifícios dos arquitectos modernos, aqueles que são mais celebrados pela historiografia e mais difíceis de reproduzir. 
    O que é muito interessante notar, no caso africano, é que os edifícios modernos, como são mais experimentais são menos resistentes ao tempo. Uma das coisas que estes homens eram obrigados, nos gabinetes oficiais, era a trabalhar com materiais que tivessem uma certa resistência porque estes edifícios iam ter pouca manutenção. Tanto que hoje em dia, em Portugal e em qualquer sítio do mundo, é muito mais difícil recuperar um edifício moderno, do séc. XX, do que um edifício antigo construído no séc. XV. O edifício do séc. XV é pedra, tijolo, argamassa e pouco mais. O edifício moderno tem inclusivamente materiais industriais que já não existem disponíveis, porque já não são produzidos e é muito mais difícil mantê-los.
    Mas é necessário, quando se constrói nesses territórios, ter sempre em conta o clima...
    É evidente: o clima, a ventilação, a chuva, tudo isso eram princípios que eles aprendiam, a tal “arquitectura tropical”. Aliás, o Marcelo Caetano quando cria o Gabinete de Urbanização Colonial, em 1944, ele quer criar uma escola, um laboratório de arquitectura tropical, ele só não sabe exactamente o que será mas quer que haja um aprofundamento dessas técnicas arquitectónicas, para a construção ser mais eficaz.
    Por exemplo, eles não podiam usar o ar condicionado porque não lhes interessava: existia mas não lhes interessava porque era muito caro manter, os próprios edifícios tinham que ser autónomos em relação a ventilação. Essas eram técnicas com as quais eles trabalhavam permanentemente na execução desses edifícios, quer se fizesse moderno quer se fizesse menos moderno: a ventilação, o ensombramento das fachadas, o desaproximar o edifício do solo, etc.
    A nível arquitectónico, quais são as diferenças entre a “casa portuguesa” e a “casa portuguesa ultramarina”?
    O que se pretendia com essas casas desenhadas para os colonos (homens, mulheres, famílias), que vinham do meio rural português e que iam para um meio rural africano era dar referências que elas reconhecessem. Como Mário de Oliveira dizia: “não se podia desenraizar as pessoas totalmente de tudo”. O que os arquitectos nos anos 50 procuram é transformar aquilo que eram características que eles achavam que eram da arquitectura popular portuguesa - reconhecíveis por essas pessoas e comunidades - em características dos trópicos, que servissem as questões do clima: ventilação, ensombramento, etc. O alpendre ficava maior, as ventilações eram feitas mas o essencial da casa mantinha-se: uma casa portuguesa que eles chamavam 'casa portuguesa ultramarina'.
    Por exemplo, tudo o que é construído no Colonato da Cela [Angola], que é um empreendimento absolutamente incrível, para o Conene [também Angola] e para o Limpopo, em Moçambique, foram experiências de uma casa tradicional à portuguesa mas em que esses temas da portugalidade foram adaptados aos trópicos.
    É criticável, porque é que eles não trabalhavam com temas africanos? Porque as populações eram europeias. Porque quando estes mesmos arquitectos vão trabalhar para os africanos vão tentar incorporar elementos da arquitectura tradicional africana. Isso é que nós não sabíamos e este trabalho prova que isso é verdade.
    Como é feita essa adaptação à cultura africana?
    A casa é um elemento civilizador e, eles sabiam, não se pode passar de uma cobata [casa tradicional africana] para o apartamento, tem que haver uma transição. E quando eles vão trabalhar com estas populações africanas, procuram compreender: fazem levantamentos sobre as várias casas africanas, os materiais, a organização da família. Como os arquitectos modernos trabalham com os valores da localidade, estes arquitectos do Estado Novo também têm essa preocupação, porque sabiam que não havia outra maneira de fazer, até porque era impossível produzir habitação para toda a população africana.
    Eles tinham que, primeiro, mudar a planta, trabalhar com os sistemas construtivos que os africanos conheciam, para serem eles a construir em sistemas de auto-construção. Há alguns casos de empreendimentos para as populações africanas que são desenhados de raiz, mas depois acabam por não ser tantos quando se percebe que é impossível dar resposta a todas as necessidades.  
    Quais são essas características da casa tradicional africana que os arquitectos portugueses exploram?
    Há uma frase de Mário de Oliveira, num artigo escrito em 1965, que penso que elucida a questão:"O urbanista de hoje, para ser autêntico, deve partir do princípio profundamente humano de que uma cidade não são apenas as casas, ruas, avenidas, praças, etc., antes a comunidade que nela vive e convive, com os seus diversos grupos, suas instituições, seu modo de viver, suas tradições e seus costumes." 
    O mais importante era respeitar a organização social e familiar do habitante africano - melhorar a casa tradicional através de alterações funcionais da planta. As técnicas e materiais construtivos deveriam ser os conhecidos pelos povos africanos de modo a que estes pudessem construir - em sistema de auto-construção - as suas habitações. Respeitavam-se ainda os lugares dos assentamentos populares por serem considerados os melhores face ao clima, ventos, etc.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Colégio de Moimenta da Beira desafiou Salazar para imitar Niemeyer







Há 50 anos, as curvas de Niemeyer eram demasiado arrojadas para um país em ditadura, mas um grupo de estudantes conseguiu mantê-las de pé.



O arquitecto brasileiro Oscar Niemeyer, que morreu na quarta-feira a poucos dias de comemorar 105 anos, nunca esteve em Moimenta da Beira. Mas os arcos que desenhou para o Palácio da Alvorada, em Brasília, inspiraram o projecto de construção de um colégio naquela vila do distrito de Viseu e fizeram estalar a polémica.
Foi a 2 de Abril de 1962. Passava das 13h30 quando Pedro Abreu, então com 17 anos, e o irmão mais velho chegaram ao Externato Infante D. Henrique, onde frequentavam o quinto ano do liceu. Os pedreiros estavam já a demolir parte da fachada do colégio, sustentada em arcos que fazem lembrar redes estendidas nas varandas dos casarões coloniais.
A ordem de demolição tinha vindo dos serviços de urbanismo do regime, de Viseu, recorda Pedro Abreu: “Houve uma inspecção e acharam que o estilo do prédio era avançado de mais.” As semelhanças entre o edifício e o palácio que serve hoje de residência oficial da Presidente da República do Brasil, desenhado pelo arquitecto comunista e inaugurado em 1958, não agradaram às autoridades. A solução era substituir os pilares em arco por colunas rectangulares.
“O meu irmão, mais encorpado do que eu, mandou-os parar. Os pedreiros também estavam contrariados. Outros alunos começaram a chegar e pegou-se ali o rastilho”, conta Pedro Abreu, hoje com 67 anos. Aos alunos que se manifestavam à porta do colégio, foram-se juntando os habitantes da vila e até alguns professores apoiaram o protesto. “Instigaram-nos a protestar, mas não se punham no nosso lugar, era à sorrateira.”
Dali partiram para a igreja. “As pessoas que viviam à volta foram chegando mas achávamos que ainda éramos poucos. Fomos para a igreja tocar o sino a rebate”, diz Pedro Abreu. De tanto tocar, o sino até rachou. Foi assim que as populações vizinhas souberam do protesto e se juntaram à manifestação, pouco habitual numa região onde não há memória de grandes revoltas populares. No fim, os pedreiros pararam a obra e voltaram a pôr tudo como estava.
“Os arcos eram uma coisa nossa, diferente. Representavam progresso”, explica Pedro Abreu. O desenho do edifício foi pedido por um dos directores do colégio, Amadeu Baptista Ferro, a um emigrante de Moimenta da Beira no Brasil, que nem era arquitecto. “O director foi a Brasília, ficou impressionado com a arquitectura do Palácio da Alvorada e pediu a um amigo que fizesse o desenho”, explica o assessor da autarquia, Rui Bondoso. “Na altura, houve rumores de que os arquitectos do departamento de Viseu ficaram chateados por não lhes ter sido encomendado o projecto e fizeram queixa”, recorda Pedro Abreu.
Na mira da PIDE
“Até diziam, na rua: andam os comunistas em Moimenta!” Mas a revolta nada teve a ver com política, garante o ex-aluno, embora admita que entre os manifestantes havia militantes do PCP. O caso ganhou contornos nacionais e até a polícia do regime, a PIDE, foi de Lisboa a Moimenta da Beira para interrogar os “cabecilhas” do grupo. Pedro Abreu, que era menor, não foi ouvido. “O meu pai era presidente da Câmara e lá conseguiu que só interrogassem os mais velhos”, conta.

Ninguém foi detido. “A PIDE pensava que os comunistas tinham influenciado a miudagem, mas não. Toda a população estava contra aquela patifaria”, afirma. Até o arquitecto Oscar Niemeyer escreveu a um dos directores do colégio e pároco de Moimenta da Beira, o padre António Bento da Guia – que as autoridades terão ameaçado de prisão caso a fachada não fosse alterada. “Na carta, Niemeyer elogia a arquitectura do edifício e diz que está ao lado da luta dos estudantes”, descreve Rui Bondoso.
Os arcos nunca foram demolidos mas no Verão daquele ano, aproveitando a ausência dos alunos em férias, foram tapados por um muro de metro e meio. “Ficou monstruoso”, recorda Pedro Abreu. Depois do 25 de Abril de 1974, o edifício foi comprado pelo Estado e os arcos foram destapados. Desde então funcionaram ali várias escolas e actualmente o edifício acolhe a Escola do 1.º Ciclo Infante D. Henrique. Em Janeiro, esta será transferida para o novo centro escolar do concelho e o imóvel – um edifício com dois pisos, várias salas, ginásio e espaços administrativos – vai acolher o novo centro cívico de Moimenta da Beira.



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http://cmmoimenta.dev.wiremaze.com/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=27594&noticiaId=34517&pastaNoticiasReqId=27576


http://escolasmoimenta.pt/blog/semana-cultural/

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

‘A era da inocência’, por Roberto Pompeu de Toledo

veja


20/04/2012
 às 16:43 \ Feira Livre

‘A era da inocência’, por Roberto Pompeu de Toledo

PUBLICADO NA VEJA DESTA SEMANA
Brasília, em 1958, era da inocência (Foto: Marceu Gautherot / Dedoc)
Brasília, em 1958, era da inocência (Foto: Marceu Gautherot / Dedoc)

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Brasília chega aos 52 anos, no próximo sábado, 21, malfalada e cansada de guerra. Nem parece, mas já teve uma era da inocência. A poeta americana Elizabeth Bishop a visitou em 1958, dois anos antes da inauguração. Bishop morava no Rio de Janeiro, com sua amada Lota Macedo Soares, e viajou para Brasília numa pequena comitiva organizada pelo Itamaraty, cujo integrante mais ilustre era o escritor inglês Aldous Huxley. O pouco conhecido (e, ao que consta a este colunista, não traduzido) relato de viagem que a poeta escreveu em seguida lembra certos filmes que tentam reconstruir o mundo antes da criação, com os mares reclamando seus espaços, continentes em formação e dinossauros. Bishop flagra Brasília na véspera de si mesma. O equivalente aos dinossauros eram a “confusa e barulhenta cena” dos caminhões e tratores que, noite e dia, se empenhavam em fazer brotar do solo as futuras Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios.
A Brasília de Bishop é calor, suor e poeira – uma poeira vermelha, que se levanta em nuvens à passagem dos veículos e impregna as roupas e os tapetes do Brasília Palace Hotel, onde ela ficou hospedada. A poeta se surpreende com a secura e a desolação do local. Comparado com qualquer outro espaço habitável deste país “fantasticamente bonito”, escreve, o lugar parece “notavelmente pouco atrativo e pouco promissor”. Não há “nem montanhas, nem colinas, nem rios, nem árvores”, tampouco “o sentimento de grandeza, de segurança, de fertilidade, do pinturesco” ou qualquer outra das qualidades “que se imagina capazes de dar beleza e caráter a uma cidade”. Mundo em criação que era, Brasília não tinha ainda o seu lago. As únicas dádivas que a “Mãe Natureza” proporcionou ao lugar, conclui a poeta, são “o céu e o espaço”.
Havia apenas dois prédios prontos – o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada. As colunas do Palácio da Alvorada deslumbraram os visitantes. Huxley deslocou-se para examiná-las de vários ângulos. Outros membros da comitiva as tocaram e fotografaram à exaustão. Bishop as descreve com imagens de poeta: “Se alguém imagina uma fileira de enormes pipas brancas, postas de cabeça para baixo, e então agarradas por mãos gigantes e apertadas em todos os seus quatro lados, até que sejam elegantemente atenuados, pode ter uma ideia delas razoavelmente acurada”. Já o interior do palácio não lhes agradou. Bishop critica a decoração e a falta de conforto. Alguém lhes conta que o secretário de Estado Foster Dulles, em recente visita, quase caíra da escada sem corrimão que conduz ao andar superior. Huxley já experimentara os perigos da notória ojeriza de Oscar Niemeyer pelos corrimões. Horas antes, escorregara na escada do hotel, e comentará que “é uma vergonha abandonar tão útil invenção” quanto o corrimão, conhecida há milhares de anos.
A comitiva foi conhecer a “Cidade Livre”, a improvisada cidade de madeira onde verdadeiramente transcorria a ação – ali moravam as pessoas que trabalhavam na construção da cidade, e ali se estabeleceram, para servi-las, os mercados, os bares, as farmácias, as lojas. Os homens andavam de jeans, botas altas e chapéus de aba larga. O Brasil, onde, segundo observa Bishop, raras são as construções de madeira, surpreendia-se com o cenário de faroeste, mostrado nas fotos das revistas. Para a poeta, tratava-se da “velha e familiar cidade de fronteira da Metro-Goldwyn-Mayer”. A comitiva foi informada de que, ao ser criada, no ano anterior, a Cidade Livre tinha 400 habitantes; agora tinha 45 000. Possuía até cinema, e personagens improváveis. A comitiva conheceu uma delas – uma condessa polonesa, ninguém menos do que isso, jovem e bonita, refugiada de seu país e dona de um inglês impecável.
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A poeta americana Elizabeth Bishop registrou em palavras o que outros fotografaram: "nem montanhas, nem colinas, nem rios, nem árvores" (Foto: Joseph Breitenbach)
A condessa Tarnowska lhes serviu de cicerone e anfitriã na Cidade Livre. Ela era, justamente, a dona do cinema local. Disse que “amava” viver ali. E contou-lhes uma história que ocorrera em seu cinema, pouco tempo antes, quando estava em cartaz o filme E Deus Criou a Mulher, com Brigitte Bardot. A projeção caminhava normalmente, até que, na mais esperada cena, no momento mesmo em que a Bardot desfazia o primeiro botão da roupa, parava. As luzes então se acendiam e o projetista avisava: “Queiram as senhoras e senhoritas, por favor, deixar a sala”. As mulheres saíam e aglomeravam-se lá fora, na rua de terra, sem calçada. A projeção continuava só para os homens. Terminada a cena de nudez, parava de novo, e as senhoras e senhoritas eram avisadas de que estavam liberadas para voltar. Pudor era o que não faltava, na Brasília daquele tempo.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/a-era-da-inocencia-por-roberto-pompeu-de-toledo/

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Há um antes e um depois de Niemeyer"

O Palácio do Planalto é um das obras emblemáticas de Niemeyer UESLEI MARCELINO/REUTERS

As reacções em Portugal e no Brasil à morte do arquitecto Oscar Niemeyer.



A morte de Oscar Niemeyer, aos 104 anos, não deixou o mundo indiferente. Arquitectos e outras figuras da cultura e sociedade portuguesas e brasileiras expressaram a admiração por um dos nomes mais marcantes da arquitectura mundial.
Brasília é um milagre!
Fernanda Barbara, arquitecta e urbanista brasileira

"Oscar Niemeyer foi um dos maiores arquitectos do século XX. O trabalho que ele desenvolveu na arquitectura brasileira fala da cultura brasileira, de uma maneira ampla e que se reconhece por todo o país e por todo o mundo.
Niemeyer fez ver uma cultura brasileira desde os anos 40 por todo mundo. Em São Paulo, em 1951, Oscar faz dois projectos de grande importância: o edifício Copan, residencial com apartamentos para diversas faixas de renda no centro histórico de S. Paulo, e o Parque Ibirapuera.
Por outro lado, Brasília é um milagre!
Oscar Niemeyer projectou muito pelo mundo todo, grandes obras de qualidade e espaciais surpreendentes, mas não há como não distinguir o conjunto de Brasília na sua obra. Em Brasília, além da qualidade surpreendente dos projectos há uma postura cívica e profissional que merece a nossa atenção. Niemeyer projectou um conjunto enorme de edifícios em três anos, edifícios públicos e institucionais que são símbolo de um Brasil, num momento que foi de esperança de um Brasil democrático e mais justo.
Além de ser um arquitecto com posições políticas claras, durante a ditadura Niemeyer recebeu nos seus escritórios muitos arquitectos exilados amparando a profissão e fazendo ver ao mundo a barbaridade que aconteceu no nosso país, fortalecendo a nossa perspectiva de um país mais justo.
Talvez a questão mais importante da obra de Niemeyer seja sempre a surpresa. Além da implantação da qualidade formal dos edifícios é a surpresa que a gente sempre tem quando se entra num edifício do Niemeyer.
O que há de muito particular na obra do Oscar é que ele projectou com muita qualidade em muitos países do mundo, ele é muito elogiado, é a referência para grandes arquitectos de todo o mundo e, paralelamente a isso, ele é um arquitecto popularmente conhecido.
"Aposta nas formas curvas"
Nuno Teotónio Pereira, arquitecto português

“É uma figura emblemática, que teve uma enorme influência na Europa e também alguma em Portugal. Foi importante numa altura em que a arquitectura moderna estava em dificuldades e a ser posta em causa na Europa, acusada de não respeitar os valores nacionais, sobretudo nos países que então viviam sob regimes e ideologias totalitários, como a Alemanha, a Itália e também Portugal. A obra dele conheceu uma grande divulgação com o livro que foi publicada a pretexto duma grande exposição dedicada à arquitectura moderna brasileiro no MoMA, em Nova Iorque. Aí se mostrava que a arquitectura brasileira era muito diferente da que se praticava na Europa, que era recta, com superfícies lisas, planas; enquanto no Brasil, e especialmente o Niemeyer, apostava nas formas cur[vas]
"Do modernismo tropical às experiências space-age"
Pedro Gadanho, curador de arquitectura no Museum of Modern Art
"Niemeyer era um arquitecto do seu lugar. A sua obra única bebia a inspiração num só lugar: o Rio de Janeiro e as suas formas extraordinárias. Nas entrevistas ele dizia que as suas ideias vinham da vida que o rodeava, mas ninguém ligava muito a tais devaneios. Porém, a sua evolução de um modernismo tropical de formas voluptuosas para as experiências space-agedo Museu de Arte de Niterói fala precisamente de uma relação intensa com as transformações das experiências e percepções de uma metrópole única - quer do ponto de vista da relação da cidade com a paisagem, quer do ponto vista social e humano.

Nos Estados Unidos, Niemeyer é um herói do modernismo. Logo, e mesmo permanecendo fiel a ideias comunistas, é um herói americano. De resto, ainda Niemeyer era um 'jovem' de 50 anos - e Rockefeller criava museus no Rio de Janeiro e São Paulo - e já o MoMA dedicava uma exposição 'a arquitectura brasileira, em 1955. Existe um acompanhamento duradouro da obra de Niemeyer e não é portanto de admirar que, por entre as reacções mediáticas abrangentes, o NYT imediatamente o coloque na última linhagem de grandes mestres modernistas como Le Corbusier ou Mies van der Rohe."
"A explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo"
Nuno Portas, arquitecto e urbanista português
“Oscar Niemeyer foi uma revelação pioneira do modernismo sul-americano dos anos 30-40 e, ainda hoje, em minha opinião, as suas obras mais interessantes estão em Minas Gerais, e que influenciaram os arquitectos modernos portugueses do pós-guerra.

Deixou-nos depois a sua participação no nascimento de Brasília – os edifícios do Planalto e as primeiras quadras de habitação no Brasil –, sem a qual a nova capital, traçada por Lucio Costa, não ganharia o rápido prestígio mundial que hoje conhecemos.
As suas obras das últimas décadas não tiveram a mesma repercussão. Talvez porque a explosão de originalidade se alargou à Arquitectura-Mundo”.
 
"Omnipresente na arquitectura mundial"
José Mateus, arquitecto português
"O Niemeyer foi sempre uma figura omnipresente na arquitectura mundial, na arquitectura brasileira, cuja vida se confunde com a arquitectura, ou seja, a arquitectura não era uma profissão – era a forma de vida dele. Deixou obras extraordinariamente profundas, coerentes, que reflectiam um optimismo da arquitectura modernista brasileira da qual ele foi um dos grandes protagonistas.

O que tem de extraordinário o legado do Niemeyer é que ele foi um arquitecto modernista que sobreviveu até à contemporaneidade, e que nos trouxe um testemunho forte e inspirador da arquitectura brasileira, pela sua participação em seminários, nas universidades. A minha obra favorita é o Palácio da Alvorada.
É uma arquitectura própria de um visionário, toda aquela riqueza espacial e formal com sentido muito plástico, lúdico e fluido é muito própria de um momento da arquitectura brasileira de grande optimismo e que se tornou uma referência mundial.
A arquitectura brasileira hoje vive uma crise profundíssima, os grandes arquitectos não têm praticamente acesso às encomendas e haver arquitectos como o Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha que continuavam interventivos foi importantíssimo.
Era obsessivo e passava a sua vida pessoal e a dos seus colaboradores para uma posição completamente secundária. Um arquitecto que trabalhou com ele num projecto na Argélia ou na Tunísia contou-me que um dia foi preso, ligou para ele muito aflito porque queria sair da prisão e o Oscar só lhe fazia perguntas sobre como estava o projecto. Até que ele insistiu: ‘Ó arquitecto, mas eu estou preso! Como é que saio da prisão?’” Ou seja, estava-se nas tintas para a vida, o que é um bocado contraditório porque ele era um profundo humanista e activista. Mas, sendo um profundo humanista, em certas circunstâncias a vida passava para segundo plano."
"Há um antes e um depois do Niemeyer"
Manuel Aires Mateus, arquitecto português
"Associava o Oscar Niemeyer a uma ideia de liberdade. Há uma espécie de leveza na forma como ele tocou a arquitectura porque é completamente revolucionária a maneira como conseguiu captar o espírito de um tempo e de um povo, de uma nação, fazendo aquela arquitectura que parece flutuar, sem pertencer quase à gravidade. É um dos mais importantes arquitectos do século XX. Deixa um legado de uma enorme abertura sobre as possibilidades de fazer arquitectura. A mais maravilhosa das obras que visitei do Niemeyer é na Pampulha, em que uma pessoa percebe que se alargaram as fronteiras da possibilidade humana. É como redesenhar uma nova possibilidade para o mundo, e isso depois acompanha-o e é determinante, quando ele faz a grande obra de Brasília – ele funda uma cidade, mas levando ao limite o seu tempo e a sua cultura.

A vida dele é um legado fundamental para as gerações futuras por esse lado de liberdade que abriu – há uma antes do Niemeyer  e um depois do Niemeyer. Conseguiu transformar a cultura brasileira – a arquitectura dele é tão local, é tanto a tradução de uma verdade local, que a torna completamente global. Nunca mais se poderá olhar para o Brasil sem olhar para o Niemeyer."
"Ele engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro"
Nuno Grande, arquitecto e professor português
“O Oscar Niemeyer é um personagem histórico do século XX, um grande arquitecto. Está para o hemisfério Sul como o Le Corbusier está para o hemisfério Norte, sendo uma espécie de reinterpretação deste. Há uma piada que normalmente se conta sobre o Brasil: ‘O país tem menos de 200 anos, e 104 deles são do Niemeyer!’ Isto mostra a importância que ele tem para a nação. O modernismo do Niemeyer é uma reinterpretação do de Corbusier. Ele faz aquilo que artistas brasileiros modernistas de outras áreas fizeram com o chamado Manifesto Antropofágico [1928], utilizando a ideia do índio canibal, que come o seu opositor e depois o regurgita, ganhando-lhe a força. O que o Brasil fez com o modernismo europeu foi um pouco isso, foi engoli-lo e depois regurgitá-lo, mas à sua medida, sob uma forma tipicamente brasileira. O Niemeyer transporta isso para a arquitectura: engole o modernismo de Corbusier e regurgita-o como modernismo brasileiro. É isso que se vê, por exemplo, em Brasília, que foi construída para ser a capital, com o arquitecto e urbanista Lúcio Costa – o Niemeyer estava inicialmente no júri. Estes dois homens são fundadores de uma identidade nacional, que é um modernismo muito próprio, muito brasileiro, sul-americano. É interessante lembrar que o próprio Corbusier esteve no Brasil, em 1929 e 1932, a desenhar com Lúcio Costa o Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro. Esta é a primeira obra que marca o modernismo brasileiro, e que abre o caminho a toda a nova geração dos modernistas. O Brasil teve que inventar a sua identidade, depois de durante muito tempo ter vivido sob o domínio neocolonial. E o Niemeyer é a figura fundamental desse processo, na arquitectura”.
 

"Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona"
Manuel Graça Dias, arquitecto português
“Oscar Niemeyer é, ele próprio, o expoente da modernidade, é um homem que trabalhou durante todo o século sempre ao lado da arquitectura moderna. Tinha uma enorme capacidade de sintetizar os problemas, de os perceber, de compreender o sítio em que está a intervir e o programa que está em causa. Animado por uma enorme sensibilidade plástica, consubstancia essa resposta em formas sempre emocionantes, sempre bem enquadradas na disposição espacial que ele entende organizar.

Na quarta-feira, morreu um grande amigo meu, o Joaquim Benite, e no PÚBLICO referem uma coisa que ele disse acerca do teatro, mas que se aplica a todas as artes: ter perante as pessoas a generosidade de lhes dar qualquer coisa de diferente, qualquer coisa que fuja à banalidade e que de algum modo possa alegrar-nos a vida. Isso acontece com Niemeyer. Toda a sua obra nos alegra, toda a sua obra nos emociona e remete-nos para um mundo menos mesquinho e menos banal. Ao mesmo tempo, é um homem de uma personalidade fascinante. De uma enorme simplicidade, mas ao mesmo tempo muito profundo. Um homem preocupado com a modernidade, com a justiça social, que é sempre valorizada na sua arquitectura. É um homem que se emociona com a vida, com as pessoas, com as mulheres.
Toda a boa arquitectura é sempre mais qualquer coisa do que aquilo que é encomendado. Ultrapassa sempre a encomenda e dá ao mundo outras soluções. Niemeyer também cumpre esse lado. Muitas vezes, falamos de uma procura muito intencional. Quando lhe foi solicitado o Sambódromo no Rio de Janeiro, que era suposto serem umas bancadas para observar as escolas de samba passar, ele reinventou-o. Num dos lados, sob as bancadas, acolheu-se uma escola. [Ou seja] aproveitou-se esse ensejo para dotar aquele sítio de mais um equipamento que tivesse relevância. Há sempre em Niemeyer a vontade de que os seus objectos tenham utilidade social. O mundo não muda com a arquitectura, mas pode tornar o mundo mais alegre.
Por mais estranha, insólita e original que pareça, [a arquitectura de Niemeyer] nunca é feita à custa de coisas esquisitas que não servem para nada. Formas relativamente puras e relativamente correntes que são conjugadas de uma maneira brilhante e económica, no sentido de uma economia expressiva. Há uns filmes em que o vemos explicar alguns projectos e percebe-se aí a economia dos seus esquissos, em que ele consegue explicar imediatamente a principal opção do seu trabalho. Há uma enorme capacidade de sintetizar o problema. É também por essa razão que a sua arquitectura é tão emocionante. Com Niemeyer as coisas são sempre relativamente fáceis de relatar, o que não quer dizer que não tenham complexidade no seu interior. Não se esgotam. Descobrimos sempre surpresas.
"A genialidade de seus traços"
Marta Suplicy, ministra da Cultura do Brasil
“O Brasil acaba de perder um de seus grandes. A genialidade de seus traços, a generosidade de sua alma e a firmeza de suas convicções fazem de Oscar Niemeyer um exemplo para a humanidade. Meu coração chora ao se despedir de um gigante na arte, poesia e coragem. Um homem que viveu na plenitude cada minuto de sua vida com lado e posição, e busca da beleza, da harmonia e justiça”.

 
"O Brasil como ícone da arquitectura moderna"
Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitectura e Urbanismo do Rio de Janeiro
“A trajectória e o legado de Niemeyer projectaram internacionalmente o Brasil como ícone da arquitectura moderna, dado o seu pioneirismo na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do betão armado - o que, desde a década de 1940, lhe rendeu um justo reconhecimento em todo o mundo.
Embora estejam sob alguns parâmetros que são comuns à arquitetura moderna, o seu modo de projectar e a sua expressão têm uma dose muito importante de sua criatividade individual, o que faz com que seus traços sejam admirados, mas não reproduzidos”.

 
“Niemeyer foi um inventor brasileiro”
Caetano Veloso, compositor
“O varandão do Alvorada é uma das imagens que formaram minha mente. Niemeyer foi um inventor brasileiro. Um ‘garoto da praia’, como me disse Burle Marx. Suas curvas ensinaram algo muito nosso ao vasto mundo.”

 
“Um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte”
Chico Buarque, compositor
“Oscar Niemeyer teve uma vida muito bonita. Foi um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte.”

“Mudou a linguagem da arquitectura moderna”
Ferreira Gullar, poeta, Prémio Camões 2010
“Para os amigos, sua morte é uma perda de uma pessoa afectuosa, carinhosa. Já o Brasil perde uma de suas figuras mais significativas. E o mundo perde um grande artista, que mudou a linguagem da arquitectura moderna. O lema da arquitectura era que a forma segue a função, a sua preocupação fundamental tinha que ser a funcionalidade, a beleza estava em segundo plano. Oscar juntou as duas coisas, funcionalidade e beleza, dizendo que beleza também é função”.


Depoimentos recolhidos por Joana Gorjão Henriques, Isabel Salema, Mário Lopes e Sérgio C. Andrade, e de agências e jornais brasileiros