Discurso de Lula da Silva (excerto)

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domingo, 2 de maio de 2010

Lisboa Modernista e Moderna, 1930-40 a 2000 (José M. Fernandes)

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LISBOA MODERNISTA:1930 - 1940
Com a afirmação do Estado Novo, regime autoritário iniciado em 1926 e institucionalizado desde 1930, inicia-se uma nova fase da cidade, com forte investimento das infra-estruturas modernas,
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nos equipamentos e no planeamento e urbanização estruturada da urbe. Só então Lisboa entra  decisivamente no Século XX. Na década de 1930 (e parte da de 40) pode falar-se de uma "Lisboa do Estado Novo", assente na chamada "Política de Obras Públicas" levada a cabo pelo ministro e presidente da câmara Duarte Pacheco – com os primeiros Planos de Conjunto, os Novos Bairros
e uma arquitectura Modernista e Art Deco, inovadora e internacionalista. 
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LISBOA DO PORTUGUÊS SUAVE:1940 - 1950
Com o desenrolar da II Guerra Mundial, e o tempo seguinte da "Guerra Fria", o Regime político de Salazar resiste e persiste, mas em termos culturais e urbano-arquitectónicos vai progressivamente enquistar-se e fechar-se em métodos de planeamento e formas arquitectónicas do passado, tradicionalistas, retrógradas. 
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Lisboa exprime, mais do que qualquer cidade portuguesa, esta imagem de fechamento e "tristeza de fado" – e serve então, contraditoriamente "provinciana e imperial", de exemplo para muitas outras, de Norte a Sul, dos Açores e Madeira a Luanda e Macau. 
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Afirma-se uma "Lisboa Oficial", das fachadas neo-clássicas e neo-barrocas – servida por toda a panóplia da arquitectura neo-tradicionalista e reaccionária, desde os telhados em coruchéu, a imitar, nostálgicos, as igrejinhas da província rural, até à esfera armilar nos torreões, símbolo do Império quase perdido. 
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Mas em paralelo, e sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1950, a par de um certo "espírito de desanuviamento" mundial, vai crescer a possibilidade de uma "Lisboa "inovadora",apoiada pela Câmara mais esclarecida, servida por um urbanismo e arquitectura de transição, entre o tradicional e o moderno, criando novos bairros e espaços de lazer em parques e jardins.
José Manuel Fernandes



domingo, 18 de abril de 2010

O Cardeal e o Estado Novo: um casamento difícil


Público - 15.04.2010 - José Manuel Fernandes

Quando Irene Pimentel começou a estudar a vida do Cardeal Cerejeira tinha dele uma ideia pré-concebida: uma alma gémea de Salazar e a outra face de uma moeda em que Estado Novo e Igreja Católica formavam um todo. Mas descobriu um homem mais complexo, mais dividido. E que teve uma relação muitas vezes tensa com o seu amigo de Coimbra.
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No 12º aniversário do 28 de Maio, em 1938, Carneiro Pacheco, o ministro da Educação Nacional de Salazar, organizou em Lisboa um desfile da recém-criada Mocidade Portuguesa. Como mandavam as regras, enviou um convite ao Cardeal Patriarca de então, Manuel Gonçalves Cerejeira. Dificilmente a carta que recebeu na volta do correio podia ser mais violenta.
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O chefe da Igreja de Lisboa, e figura maior da Igreja portuguesa, não só lhe comunicou que não estaria presente, como o verberou por ter convidado para a cerimónia uma delegação da Juventude Hitleriana. Isso, escreveu Cerejeira, era "não só ofensivo e perigoso para a consciência católica portuguesa, mas também pouco digno da altivez nacional, sabido o inferior conceito que os alemães têm de nós, filhos (segundo eles) duma raça inferior e negróide".
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Em 1938, numa altura em que o regime vivia uma fase dourada e, aqui ao lado, em Espanha, os alemães ainda combatiam ao lado das tropas de Franco contra a República, poucos portugueses teriam condições e coragem para escrever uma carta daquelas, e nenhum outro o poderia fazer sem correr o risco de ser preso. Mas Cerejeira era uma excepção. Não era apenas o "príncipe da Igreja portuguesa", era também o velho companheiro de Salazar, o amigo que conhecera em Coimbra no já longínquo ano de 1911, ambos atraídos pela militância católica.
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Primeiro como estudantes, depois como professores, ambos vivendo, a partir de 1914, no Convento dos Grilos, Salazar e Cerejeira eram mais do que amigos e cúmplices: um no Estado, outro da Igreja, haviam conseguido tornar-se nas suas figuras dominantes. O que estava a acontecer em 1938, nove anos depois de Cerejeira se ter tornado Cardeal Patriarca e seis após Salazar se ter tornado, por fim, presidente do Conselho de Ministros, entre aqueles dois homens que tudo parecia unir?
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"O choque entre Cerejeira e Carneiro Pacheco a propósito da criação da Mocidade Portuguesa correspondeu à maior crise que o Cardeal teve com o Estado Novo", considera Irene Flunser Pimentel, autora da biografia "Cardeal Cerejeira - O Príncipe da Igreja". Nada lhe agradava nesse projecto, pois "via no movimento algo de muito parecido com o nazismo" e combateu ferozmente a ideia de, para a constituir, se dissolver o escutismo católico. Mas o que o incomodou mesmo foi essa vinda a Portugal de elementos da Juventude Hitleriana. Na época a Mocidade Portuguesa era dirigida por Nobre Guedes, um germanófilo que depois ocuparia o lugar de embaixador em Berlim, pois Marcello Caetano, anglófilo, só lhe sucederia em 1940. E, sobre o regime nazi, Cerejeira nunca teve dúvidas: tratava-se de um totalitarismo pagão quase ao nível do totalitarismo comunista. De resto, nesse mesmo ano de 1938 faria um discurso ao clero do Patriarcado onde condenou o totalitarismo por querer absorver "toda a actividade do indivíduo" e se referiu, em particular, ao nazismo, acusando-o de reclamar para si próprio a condição de divino e de pretender substituir a "concepção cristã pela 'Weltanschauung racista'".
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"A forma como define o totalitarismo é uma forma moderna", diz-nos Irene Pimentel. "Tão moderna que cheguei a pensar referir no livro as suas semelhanças com os escritos de Hanna Arendt dos anos 50. Só que aquilo foi feito em 1938".
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A difícil Concordata de 1940
Mas se a crise de 1938 - que coincide também com momentos difíceis na negociação da Concordata entre o Estado português e o Vaticano, que só seria aprovada em 1940 - terá sido uma das mais agudas na relação entre Cerejeira e o Estado Novo, não foi a única e revela um Cardeal bem diferente do que a historiadora imaginara antes de iniciar a sua investigação.
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"Eu tinha uma imagem mais simplista, a preto e branco, pensava que a Igreja tinha servido o regime e que o regime se tinha servido dela, ponto", conta-nos. "Pensava que Salazar era unha e carne com Cerejeira desde Coimbra, desde o tempo em tinham vivido no Convento dos Grilos, e não imaginava que tivessem tido divergências".
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Mas tiveram. Não só por serem diferentes - a Cerejeira nem enquanto novo se conhece inclinação para um namorico, a Salazar conhecem-se algumas relações com mulheres, se bem que menos vivazes do que hoje se quer fazer crer; Cerejeira viajou pelo mundo e gostava de andar de avião (foi o primeiro Cardeal a utilizar esse meio de transporte para ir a Roma participar num conclave para eleger o Papa), Salazar só se deslocou a Espanha e uma só viagem de avião levou-o a não querer repetir a experiência -, mas por prosseguirem agendas diferentes.
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"Cerejeira defendia, antes do mais, a sua Igreja, e defendia o regime na medida em que considerava que o Estado Novo a defenderia melhor, sobretudo depois do que se passara no período republicano", explica a autora. "Um bom exemplo disso foram as dificuldades na negociação da Concordata."
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Na verdade, apesar da ideia feita de que a Concordata de 1940 representou uma rendição do Estado português perante a Santa Sé, Salazar esteve longe de ser generoso. Tanto na substância dos princípios como na prática dos benefícios. A Concordata acertou o contencioso relativo aos bens da Igreja que tinham sido expropriados pelo Liberalismo e pela República, mas o presidente do Conselho que construíra o seu mito em torno do rigor nas contas públicas ficou muito aquém do que lhe pediam. Da mesma forma a Concordata não colocava o Estado a pagar os salários aos membros do clero, como sucedia - e ainda sucede - noutros estados europeus, ficando o Clero, como notaria o influente filósofo católico Jacques Maritain, condenado a "uma gloriosa pobreza". Por fim, Salazar não cedeu à exigência da Igreja de que fosse possível realizar casamentos religiosos sem efeitos civis, mas admitiu a indissolubilidade dos matrimónios católicos.
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"Também houve muita discussão sobre o divórcio, nomeadamente sobre este ser possível nos casamentos não religiosos, mas ainda hoje não conhecemos todos os documentos para fazer uma avaliação final", acrescenta a historiadora.
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Mesmo assim, devido à convergência de interesses entre Lisboa e o Vaticano no que toca à acção missionária nas colónias portuguesas, foi assinado ao mesmo tempo um Acordo Missionário que serviu bem os interesses das partes.
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O essencial, nota Irene Pimentel, é que tanto Salazar como Cerejeira acreditavam "na separação Igreja-Estado", que o último considerava mesmo a "trave-mestra" da civilização europeia. De resto, esta ideia da separação era recorrente em Cerejeira, que desde novo proferia conferências e escrevera ensaios sobre o tema. O que nem é estranho, se considerarmos que, para os católicos que enfrentaram o jacobinismo republicano, a Lei da Separação de Afonso Costa representava não uma real separação, mas uma espécie de nacionalização da Igreja, cujas organizações locais eram apropriadas pelos militantes republicanos. A investigação mais recente tem mostrado que a forma escolhida pela Igreja para resistir a Afonso Costa se traduziu, na prática, pela real separação entre as órbitas temporais e espirituais, uma vez que se a Igreja deixou de beneficiar de quaisquer privilégios, também recusou a tutela estatal.
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As desconfianças de Salazar
Irene Pimentel situa o momento de viragem nas relações entre Cerejeira e Salazar em 1932, depois de este ter chegado a presidente do Conselho após muitos anos a trabalhar, como ministro das Finanças, à ordem de sucessivos chefes de Governo oriundos do republicanismo conservador. No momento da consagração de Salazar o velho amigo de Coimbra quis lembrar que ele "era o enviado de Deus" e que chegara onde chegara "graças ao apoio da Igreja Católica". O professor de Santa Comba reagiu de forma seca, afirmando que estava onde estava "por nomeação do Presidente da República".
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"O que em 1932 Salazar diz a Cerejeira é que quem manda no Estado é ele, e quem manda na Igreja é o Cardeal, mas que a partir desse momento os seus caminhos se separavam", sublinha Pimentel. "É certo que a principal fonte pela qual conhecemos este momento de tensão é [a biografia de Salazar escrita por] Franco Nogueira, mas trata-se de uma fonte credível. Para além de que este relato é coerente com o que se passou depois entre a Igreja e o regime".
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Na verdade Salazar - que Irene Pimentel suspeita ter-se afastado do catolicismo no final da vida, tal como terá sucedido com Marcello Caetano - nunca subordina a sua agenda política aos desejos de Cerejeira. Talvez o exemplo mais eloquente da falta de colaboração do Estado Novo num projecto que o Cardeal Patriarca alimentava desde sempre tenha sido a demora na criação da Universidade Católica. O bispo de Lisboa formulou esse desejo ainda nos anos 20, nunca deixou de se bater pela concretização desse sonho desde que ascendeu a Cardeal, mas só o veria concretizado no ocaso da vida, no final dos anos 60.
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Para o prelado a criação da Universidade foi sempre peça central na sua visão sobre uma desejada recristianização da sociedade portuguesa, que nunca dissociou da existência de uma elite católica culta e influente. A construção do Seminário dos Olivais, em que se empenhou a fundo, era outra das pedras sobre as quais queria reerguer uma Igreja de novo poderosa.
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Ora, Salazar sempre desconfiou do projecto universitário de Cerejeira, e este sempre teve de explicar que não pretendia entrar em concorrência com a Universidade pública. Mais: o arranque das faculdades que não se dedicavam à Teologia e à Filosofia - como a de Economia - só acabaria por ocorrer depois de entregar a D. António Ribeiro o seu lugar como Cardeal Patriarca.
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"Para Cerejeira a abertura dos primeiros núcleos da Universidade terá mesmo constituído uma das poucas coisas boas do seu final de mandato", concretiza Irene Pimentel. "Abriu em 1968, um dos anos em que mais desgostos teve ao sentir que tudo corria mal à sua volta na Igreja portuguesa, sobretudo ao sentir que já não tinha mão na sua evolução".
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Face à Pide e aos católicos progressistas
Manuel Cerejeira, apesar do seu brilho como Académico e até da modernidade de muitas das suas opiniões e tomadas de posição - a ele se deve a consagração dos artistas modernistas como edificadores de Igrejas, patronato que muitos problemas lhe criou aquando da construção, ainda na década de 30, da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa -, era um homem do seu tempo. E isto quer dizer que era um católico fortemente marcado pelas experiências traumáticas da I República e da emergência do comunismo na Rússia. Por isso era não só anticomunista como tinha com a Maçonaria uma relação obsessiva. Curiosamente ao contrário do que sucedeu com Salazar, de quem quase não se encontram frases contra a Maçonaria.
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Irene Pimentel considera que isso talvez se deva ao facto de, "enquanto Cerejeira era de uma linha anti-maçónica, católica, integrista, Salazar, como político, teve de lidar com vários amigos influentes, como Bissaya Barreto, que eram maçons e que ele queria que entrassem, como entraram, para a União Nacional".
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Em contrapartida, tal não significou que o Cardeal apoiasse incondicionalmente a política de repressão do regime. É certo que enquanto a Pide perseguia os comunistas, Cerejeira quase compreendia, mas foram numerosas as situações em que pediu explicações ou intercedeu pela sorte de presos políticos. Em 1958, depois de ter sido alertado para um caso de "suicídio" na sede da polícia política - a mulher do embaixador do Brasil viu um preso a cair de uma janela - pediu explicações ao director da Pide e, depois, em carta ao ministro do Interior Trigo de Negreiros, escreveu que só esperava que não se fizessem coisas que fossem contra os "princípios cristãos".
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Isso é, no entanto, muito pouco para conseguir controlar uma Igreja que, a partir dos anos 50, vê nascer nas organizações que o próprio Cardeal apadrinhara um catolicismo progressista que esta condenava. Isso sucederá nas juventudes católicas - onde é notável o progressivo afastamento de João Benard da Costa, alguém em quem muito apostara -, no "seu" Seminário dos Olivais, onde acaba por substituir o director mas onde não deixa de ter longas discussões com figuras como Luis Moita, à altura ainda sacerdote, ou mesmo na paróquia de Belém onde entra em choque com o padre Felicidade Alves, um intelectual que ele próprio promovera e estimava.
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Mas se ainda hoje alguns dos que o conheceram e, depois, saíram da Igreja lhe reconhecem algum valor - "é curioso falar hoje com muitos católicos de esquerda de então, mesmo com alguns que chegaram a ser padres, e verificar que eles não são muito críticos de Cerejeira, antes têm dele uma visão mais matizada", adianta Irene Pimentel -, noutros casos as feridas abertas sangraram abundantemente. Talvez o caso mais evidente tivesse sido o do Bispo do Porto. D. António Ferreira Gomes, que nunca perdoou a Cerejeira a sua ambiguidade quando entrou em conflito com Salazar. Mais tarde viria mesmo a acusá-lo de cumplicidades com o regime que, segundo a historiadora, o Cardeal de Lisboa nunca teve
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"O Bispo do Porto refere-se-lhe, depois da crise, de uma forma quase insolente, provocatória, e nem sequer é rigorosa. Não é verdade, por exemplo, que a Pide fosse todos os dias ao Paço de Santana, onde era o Patriarcado, para recolher informações. Cerejeira não só ficou muito magoado com essas acusações como lhe respondeu, sublinhado que nunca fazia perguntas ao poder político, e muito menos à Pide, sobre a Igreja e as pessoas da Igreja. O que é verdade".
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A sua relação com o regime era mais complexa, e por isso mais difícil. "Ele foi sempre muito prudente - excessivamente prudente - e nunca atravessou o Rubicão ao ponto de se colocar numa situação de confronto com o regime", explica a autora. Porquê? Porque, no fundo, acreditava que, depois da República, o Estado Novo servia, em última análise, e apesar das fricções, os interesses da "sua" Igreja.
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E os interesses da "sua" Igreja sempre se sobrepuseram a tudo o mais na sua longa e influente vida.


Comentários
comentario 1 a 3 de um total de 3
comentario17.04.2010 - 18:52 - JN, Amadora
A Igreja Católica utiliza a estratégia de colar-se aos poderosos dos países, seja ele de ditaduras de esquerda ou direita, democracias, o melhor que sabem e podem. A ICAR coloca-se fora dos princípios políticos. Não os tem. O que lhes interessa é estar presente junto do Poder e de quem manda e, se puder, influenciar.
comentario17.04.2010 - 16:10 - Alexandre Pais, Berças
De onde vem o nome de Cerejeira? Soa a nome de cristão-novo. Também Salazar era descendente de espenhóis fixados há menos de três séculos em Portugal.
comentario17.04.2010 - 15:10 - JSM, Lisboa
Os interesses da Igreja e do Estado Novo sempre coincidiram!!! Em to das as cerimónias lá estava o Cerejeira ao lado de Salazar. Eram as Missões, eram os seminários, foi a Concordata que fez recuar o progresso laico da I República!!! Esta historiadora é uma perigosa revisionista!
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Auschwitz concentra todas as contradições das nossas sociedades modernas

Ípsilon

Ferran Gallego

Auschwitz concentra todas as contradições das nossas sociedades modernas

Público - 10.02.2010 - José Manuel Fernandes
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Ferran Gallego, professor de História do Fascismo na Universidade de Barcelona, não acredita que possamos compreender o século XX e mesmo os dias de hoje sem entender como, no país de Bach e Kant, se exterminaram milhões de seres humanos em nome da civilização, da cultura e do "triunfo da Vontade"
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Entre o operário ferroviário de Munique que fundou o partido nazi, Anton Drexler, e o militar aristocrata, morfinómano e decadente que chegou a ser o número dois do III Reich, Hermann Goring, parece ir a distância de um mundo. Porém, no ambiente de colapso social, económico e moral da Alemanha do pós-guerra, gente imensamente diferente haveria de se juntar, pouco a pouco, para protagonizar uma experiência de transformação revolucionária de um país e da Europa com as mais trágicas consequências.
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Conversar com Ferran Gallego é tentar perceber que elementos da nossa cultura, então mas também hoje, tornaram possível uma deriva cujos fantasmas ainda não se afastaram por completo das sociedades contemporâneas.
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Nos doze retratos que traça no livro surgem-nos alguns personagens que nem sempre caiem no estereótipo do nazi bruto, animalesco, personagens diferentes, alguns deles complexos e contraditórios. Até que ponto era complexo e variado o nacional-socialismo?
Suficientemente complexo e variado para ter conseguido conquistar o apoio de dezenas de milhões de alemães normais, que não eram sádicos nem extremistas. De facto estamos demasiado habituados a olhar para os nazis como uns brutos e a reduzir o nazismo ao seu carácter monstruoso. Isso acontece porque é mais cómodo olhar para esse fenómeno dessa forma, porque assim consideramos que foi uma loucura que nada teve a ver connosco e com a história europeia. Porém o nazismo foi uma deriva patológica da mesma cultura europeia que foi capaz de conceptualizar os direitos humanos. O que hoje nos surge como completamente extravagante foi, na altura, adoptado como uma ideologia normal por milhões de pessoas, atraindo até grandes intelectuais como Martin Heidegger, cidadãos que viram no movimento um sinal de que a Vontade podia vencer a Razão.
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O discurso da vontade, a afirmação política de que somos capazes se quisermos: essa linguagem ainda hoje está presente no espaço público...
É por isso que continua a ser importante estudar o nazismo pois ele nasceu da nossa cultura. Há discursos e comportamentos que podem regressar, há pedaços da nossa cultura que fizeram o nazismo e não desapareceram, como as identidades radicais, a obsessão pelo triunfo individual, a indiferença moral. O nazismo foi possível porque se acreditou que o mundo do século XIX tinha sido destruído e se podia fazer o que quiséssemos em nome da comunidade e com a força da Vontade.
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Todos os que retrata são ateus ou agnósticos. Há alguma relação entre a ausência de religião e de ralação com Deus e o advento destas ideologias?
O nazismo não pode aceitar um Deus que afirma que os homens são todos iguais e feitos à sua imagem e semelhança. Há um espiritualismo nos nazis, mas que afirma a superioridade de uma comunidade-raça. Não foi por acaso que muitos dos grandes opositores do nazismo saíram do cristianismo protestante e, também, de entre os católicos. Para um cristão todas as vidas valem o mesmo, para um nazi as vidas não têm todas o mesmo valor, podem até não ter nenhum valor. Pior: há vidas que o nazi considera portadoras de infecções sociais e, portanto, vidas que têm de ser "extirpadas"
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Temos porém de olhar para o nazismo na sua época, compreendendo o trauma que a sociedade europeia sentiu na sequência da I Guerra Mundial. Creio que foi Dostoievsky que escreveu que se Deus morre tudo passa a ser permitido, e foi um pouco isso que aconteceu na Europa nessa altura. Teve-se a percepção de que a emergência de um enorme poder técnico permitiria ultrapassar os limites da Humanidade, e isso coincidiu com um momento em que desapareceram as baias morais. Foi uma mistura explosiva.
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Nos anos de 1930 a democracia não era popular na Europa, praticamente só o Reino Unido resistiu à vaga das ditaduras...
O nazismo era único, mas movimentos como o fascismo italiano, o franquismo espanhol, e tantos outros, foram movimentos que se afirmaram como revolucionários, que se sentiram protagonistas num momento de mudança, e que acabaram por ter algumas relações de parentesco mesmo não tendo sido idênticos. Partilhavam uma cultura anti-democrática que queria destruir a herança de 1789, o legado da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Há uma passagem nos diários de Goebbels em que ele escreve: "Hoje acabou a História que começou em 1789". Queriam destruir o sentido da política tal como se afirmara desde a Revolução Francesa, ou mesmo da Revolução Americana. Queriam acabar com a ideia de cidadãos iguais e substitui-la pela da comunidade de células que habitam num mesmo organismo, num mesmo corpo nacional.
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Drexler, o primeiro companheiro de Hitler que retrata no livro, o operário ferroviário que funda o partido, é tratado de uma forma quase compassiva. Ele declara-se ao mesmo tempo socialista e alguém que aspira a resgatar a sua comunidade. Porquê a referência a socialismo?
No centro da Europa houve uma tradição que opunha o chamado "socialismo alemão" ao "socialismo marxista", mas que entendia o socialismo como um "comunitarismo nacionalista" e não tinha raízes nos movimentos operários clássicos.
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Mas ambos esses "socialismos" detestavam a burguesia.
O nazi via na burguesia um sinal da degenerescência ideológica e cultural e por isso também a desprezava. Era um símbolo da decadência contra o qual havia que desencadear um movimento de regeneração. Os nazis declaravam-se mesmo anti-capitalistas, o que não é estranho num movimento que cresceu nos meios populares e cujos dirigentes vieram de baixo. De resto a elite alemã desprezava-os. Mas também não eram proletários, antes gente marginalizada: Hitler, o pintor que fora repudiado; Goebbels, o licenciado que tem de trabalhar no balcão de um banco. Eram também gente que a guerra e o pós-guerra tinham atirado para as margens da sociedade, mesmo quando vinham de boas famílias. Pessoas revoltadas, rejeitadas. Goebbels, por exemplo, foi obrigado a deixar a namorada porque estava desempregado e a família dela era rica não o aceitava. Muitos partilhavam por isso um enorme ressentimento contra uma sociedade que os deixava de fora.
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Considerando a variedade de histórias pessoais, e de percursos, dos doze personagens que retrata no livro, variedade que traduz alguma da complexidade do nazismo, podemos daí concluir que os alemães acabaram por ser, como alguns defendem, não apenas enganados, antes "carrascos voluntários"?
Isso é esquecer que Hitler, mesmo quando já era Chanceler, nunca venceu umas eleições como maioria absoluta. Muitos opunham-se-lhe quando chegou ao poder. E se depois também é verdade que a Alemanha não se transformou apenas numa prisão gigante onde meia dúzia de brutos mantinha o povo aterrorizado, isso só foi possível porque nos primeiros anos o nazismo teve grande sucesso económico. Nessa época, democracia, na memória das pessoas, tinha a imagem de um regime associado a desemprego, a hiperinflacção, a humilhação. Não temos números para medir a popularidade de Hitler, mas sabemos, por exemplo, que 75 por cento da acção da Gestapo decorria de denúncias, sinal de que a sociedade se auto-vigiava. A resistência foi mínima, e mesmo que a maioria não fosse entusiasta, considerava, prosaicamente, que o nazismo lhes tinha proporcionado uma vida melhor. Mais: temos testemunhos de alemães que nunca se manifestaram, que não eram nazis, e que não resistiram por terem medo da repressão mas por recearem ir contra a onda de entusiasmo que Hitler gerou. Na Alemanha dos anos 30 era possível uma pessoa desconfiar das suas próprias convicções por se sentir tão isolada...
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Para além de Göring não há mais nenhum militar entre os doze companheiros de Hitler que escolheu. Porquê? A Wehrmacht comportou-se realmente como um exército profissional imune à influência do nazismo? Os crimes foram das SS?
Foi muito doloroso fazer a escolha dessas doze figuras e é pena que não tenha podido incluir alguns militares, ou outras figuras importantes como Ribbentrop ou Hess. Uma das razões porque deixei muitos militares de fora foi porque optei por retratar um grupo de políticos que está com Hitler desde muito cedo. Os militares eram profissionais, apareceram mais tarde neste processo, e se teria sido muito interessante analisar a forma como a tradição nacionalista prussiana do exército foi pervertida pelo nacionalismo nazi, isso não cabia nesta obra. Houve alguns que se opuseram a Hitler e foram destituídos ainda antes da II Guerra começar, contudo a verdade é que as forças armadas também aceitaram como um adquirido positivo a destruição da República de Weimar. Se não podemos acusar os militares de cumplicidade directa com o Holocausto, podemos acusá-los de terem convivido com naturalidade a ditadura.
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Mesmo assim, e sem confundir a Wehrmacht com as SS, que desempenharam papéis distintos, não há dúvida que muitos militares profissionais foram responsáveis por actos e por ordens que violavam todas as leis da guerra. Isso sucedeu sobretudo a Leste, naquela que foi a verdadeira guerra de Hitler. Aí a Wehrmacht não hesitava, por exemplo, em abandonar os prisioneiros, muitas vezes a fuzilá-los - metade dos prisioneiros de guerra russos são deixados morrer. Ao mesmo tempo a Wehrmacht tolerava as acções das SS contra os judeus. A Leste travou-se uma guerra muito suja, uma guerra total como não há memória e que hoje temos muita dificuldade em compreender em todas as suas dimensões.
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E como explicar o fenómeno dos Einsatzgruppen, esses esquadrões encarregues de exterminar os judeus depois da invasão da URSS, grupos que eram integrados muitas vezes por soldados ou até polícias que um dia podiam estar a vigiar uma pacata rua de Hamburgo e, no dia seguinte, a matar um judeu com uma bala na nuca em Kiev?
É um fenómeno muito impressionante o dessas pessoas "cinzentas", muitas vezes soldados na reserva, cidadãos que tinham vivido como adultos na República de Weimar e votado nos social-democratas, e que ali actuavam às ordens das SS. Não eram delinquentes, não eram lumpen, mas fizeram-no... Assim como também encontramos entre os SS académicos, jovens cultos, alguns deles com carreiras brilhantes, mas que se tinham deixado fanatizar. Não podemos continuar a olhar para eles apenas como brutos, pois há muita investigação recente que nos mostra como, por exemplo, alguns haviam sido alunos brilhantes vindos de famílias que lhes tinham dado a melhor educação. O que se passou foi que essas pessoas como que sofreram aquilo que eu costumo designar por "mutilação moral".
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A possibilidade de pessoas cultas, educadas, poderem voltar a cair em tais extremismos, assim como a já referida permanência de elementos na nossa cultura que permitiram o nazismo, reforçam a necessidade de o estudarmos e compreendermos melhor?
Estudar o nazismo não é a mesma coisa que estudar outro período histórico qualquer. Sem compreendermos este fenómeno nunca poderemos compreender o que foi o século XX. Mais: temos de saber que foi no mesmo país em que nasceu Bach que se imaginou Auschwitz, e que enquanto matavam judeus nos campos ouviam as suas composições para piano e faziam-no em nome da cultura alemã. Auschwitz foi construído em nome da civilização e contra uma suposta barbárie. Os nazis estavam convencidos que eles é que eram os bons, os "decentes". Himmler sempre utilizou essa linguagem, pois pedia aos seus homens para aguentarem esse trabalho "tão duro" que era o do assassínio em massa e, ao mesmo tempo, não se deixarem contaminar e manterem a sua "decência".
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Auschwitz não foi um acidente, não foi apenas um excesso do nazismo, Auschwitz interroga-nos sobre o carácter da cultura e da modernidade. Auschwitz obriga-nos a pensar que temos de estar sempre conscientes de que a nossa capacidade para mudar o mundo, ou o poderio que nos dão as tecnologias, têm de ser sempre balizados por referências morais muito fortes que evitem que a técnica sem moral conduza ao utilitarismo. Em Auschwitz escondem-se, condensam-se, todas as contradições das nossas sociedades modernas. Até a ideia de progresso, pois um médico como Mengele não se via como um criminoso, mas como alguém que procurava fazer avançar a ciência, que queria perceber as raízes biológicas dos comportamentos humanos e o fazia pelo método experimental.
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Estamos suficientemente atentos ou o que ainda há pouco se passou na ex-Jugoslávia apenas nos prova que um retrocesso é sempre possível?
Em momentos de insegurança e de incerteza, em momentos de medo, podem surgir movimentos que buscam a identidade, a afirmação do grupo, da tribo, e todas as identidades radicais criam-se não em torno do que une mas do separa o grupo dos outros. Quem sou eu? Eu sou o que o outro não é. E isso faz-se num grupo que, em momentos de insegurança, oferece segurança aos seus membros. É isso que se passa, por exemplo, com muitos jovens muçulmanos que se sentem atraídos pelos grupos radicais, pelo terrorismo, pois negam o outro e procuram acolhimento nessas comunidades de iguais. Eles também recusam o mundo moderno, como os nazis recusavam. Tal como recusam os terroristas bascos, que matam em nome de um povo, de uma identidade, não de uma revolução ou da emancipação. Vivem para um nacionalismo de comunidade, para um patriotismo de espaços pequenos, de vizinhos, em que só reconhecem os que são muito próximos recusando um mundo aberto em que todos os homens são iguais.
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